As mangas

Foto: Simon D

Quando minha mãe era internada, e isso acontecia com alguma frequência, eu a visitava à tarde. Sempre levava uma coisinha para ela comer. Ela gostava de manga, quase nunca serviam no hospital. Eu sabia por que. Manga é uma delícia, mas dá trabalho. Podia imaginar as reuniões semanais da equipe com a nutricionista, discutindo o cardápio dos pacientes: “Manga, não”.

Tenho colossais apreço e preguiça de manga. Quantas vezes, no café da manhã, olho para ela, olho para a banana, torno a olhar para ela, e lhe digo: “Sorry, baby”.

Eu preparava a manga em cubinhos cortados à perfeição, ajeitava-os num pote de plástico e, não sem reclamar um tanto, pegava um ônibus e um metrô até o hospital. Cumpria minha missão filial, muitas vezes, cansada pelas aulas da manhã. Ela comia com a melhor boca do mundo, e eu ficava com remorso.

Papar uma banana é simples, rápido. Já a manga envolve processo sofisticado, requer habilidade, tempo, fé, determinação: pegar pratinho e faca. Descascar. Cortar. Travar luta inglória em busca do melhor aproveitamento da fruta, posto que a polpa ao redor do caroço é algo ingerenciável. Lavar as mãos e, só então, desfrutá-la. Comer manga no pé, se lambuzando, é delírio romântico. Só vale para quem está em férias no sítio e tem estoque extra de fio dental. Banana não; é pá-pum.

Quando meus filhos pedem manga, a velha preguiça me invade. Por que não escolhem os morangos, as uvas, essas frutas que nasceram prontas para a degustação? Banana, por que não? Respiro e, não sem reclamar um tanto, cumpro minha missão maternal. Preparo-a em cubinhos, cortados à perfeição. Quando os vejo, com a melhor boca do mundo, fico com remorso.

Há um caule invisível (porém encorpado) ligando culpa e amor.

No ano em que ela morreu passou na TV uma novela, “O direito de amar”. Ela gostava de assistir. A música de abertura era “Iluminados”, do Ivan Lins. A letra diz assim: “O amor tem feito coisas, Que até mesmo Deus duvida, Já curou desenganados…”

O amor não curou a minha mãe. Mas ela comeu as mangas que pode. Só não deu tempo de ela ver o final da novela.

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4 comentários sobre “As mangas

  1. Que maravilha de texto!! Que vontade de chupar manga me deu. Tenho uma coquinho ali na geladeira. Silmara, odeio falar de mim em texto alheio, mas vou cometer grande pecado porque eu me lembrei, também, de minha mãe. Minha mãe amava mangas. As espadas. As mangas com “pedigree’. Quintal grande em casa, com muitas frutas, inclusive uma parreira de dar água na boca, não tínhamos mangueira. Muito menos mangueira de manga espada. As prováveis noras de minha mãe levavam manga espada aos montes pra ela. As mais ruinzinhas sobravam pra gente. Só as mais ruinzinhas. O estranho é que minha mãe sempre tão senhora das mãos e boca limpas não se importava da lambança que virava aquilo tudo. Má num era uma lambança feia, afinal, as mangas que ela amava eram as espadas; as mangas chiques, baby.

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  2. E a minha mãezinha tentando me convencer a contrabandear mais sal para temperar a comida do hospital… tortura maior para ela não é uma infinidade de agulhas espetadas em seu corpo… É a comida com gosto de “nada”… Para alguém que sempre manifestou seu afeto através da comida, não existe castigo maior!…

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  3. Tão distante ver essa devoção que você tem pela sua mãe, Silmara, tão doce, tão pura, e ver a minha estendida numa cama, aos 90 anos. e comendo manga amassada, pois não mastiga…Coisas da vida…
    Beijo.

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  4. Já rabisquei tanta coisa parecida. Pontuei gostos. Medi volume de lágrimas. Já me descabelei inteira tentando achar uma saída.
    Não consigo. Não consegui. Ela segue morrendo.

    Que a poesia das palavras nos conforte, amiga Franco.

    Huck

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