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Aperte aqui

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No salão de beleza tem. No cartório também. Na loja de roupas e na sala de espera do consultório médico: máquina de café com os botões de controle improvisadamente cobertos, exceto um; o único autorizado, caso se deseje um cafezinho.

Fazem isso porque o pessoal – fregueses, pacientes – é fogo. Vão se servir, veem uma porção de botões, não sabem para quê é qual, e acabam mexendo onde não devem. Promovem a lambança geral. Para desespero de quem trabalha no lugar, que precisa acudir a velhinha desavisada que mandou ver na água pelando ou o garoto traquina que achou bonito tirar um café longo no copinho pequeno.

Contra a mexeção inadvertida, só papel sulfite e durex salvam.

Os que zelam pelo bom uso da máquina de café, cortesia da casa, desenvolvem esquemas anticaos de ocultação aos controles proibidos. Recortam papéis, deixando à mostra somente os permitidos. Grudam etiquetas de “aperte aqui” e, para reforçar, acrescentam setas indicativas. Redundância é segurança de informação, reza o módulo I da teoria da comunicação.

Tudo pelo bem do cafezinho e da paz local.

A culpa, no entanto, não é das pessoas.

A culpa é das coisas.

As coisas que têm botões demais. Opções e possibilidades demais.

Só na maquininha do espresso, são três níveis de café. Botão de autolimpeza. Regulagem de moagem. Um convite ao furdunço.

Eu sou cheia dos botões.

Tenho botõezinhos de me fazer dar risada, querer beijar, abraçar, botãozinho para me compadecer, ter vontade de ajudar o próximo. E tenho também o que, se apertado, ativa na hora a tristeza. Outro, que altera o nível da irritação. Um, que me desperta a raiva. O que bota a impaciência para ferver. O que me faz chorar feito bebê. Todos importantes na completude da minha máquina de ser. O problema é quando as pessoas acabam mexendo nos botões que não deveriam, e promovem a lambança (interna) geral.

A culpa, no entanto, não é das pessoas.

A culpa é minha.

Eu que tenho botões demais. Opções e possibilidades demais.

Quem me arruma papel sulfite e durex?

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Esquadrão da Mente

arte: Rodvaz

No Esquadrão da Moda, programa que passa na TV, mulheres que se vestem mal são chamadas na chincha para reverem seu jeito de vestir. A vítima se vê numa espécie de Roda Viva – outro programa – tendo que explicar e defender por que usa isto ou aquilo. Peças pavorosas de seu guarda-roupa vão para uma simbólica lata de lixo. E, na base do susto, porrada ou risada, o desafio sempre tem final feliz. A mulher sai repaginada, com maquiagem de atriz, cabelo de revista e armário turbinado. (Se se trata de mais uma tentativa de padronizar tudo e todos, são outros quinhentos.)

Eu queria que existisse um programa para chamar na chincha pessoas que pensam mal, convidando-as a rever seu jeito de ser. O nome: Esquadrão da Mente. Quem inauguraria o programa? Eu.

Porque tem dias que saio de casa vestida de mau humor da cabeça aos pés, crente que ninguém vai reparar. Santa ingenuidade, Batman. A roupa do nosso pensamento nunca passa batida.

De utilidade pública, no Esquadrão da Mente os participantes teriam chance de, diante do Grande Espelho (que não mente jamais) e com uma mãozinha de quem entende do riscado, avaliar as próprias ideias, algumas de coleções passadas (amarrotadas?) que, de tão usadas, já esgarçaram.

Um programa assim faria bem, por exemplo, à pessoa que estaciona em fila dupla só um segundinho para deixar o filho na escola e, quando chega ao trabalho, antes da reunião, compartilha na rede social um post cobrando o fim da corrupção e outras nobrezas, sempre do próximo. Não combina, meu bem.

Seria de grande valia também para a mulher que a vida inteira romantizou a maternidade, eternizando seus mitos e autodecretando a perfeição compulsória. E hoje chora, reclamando que sua culpa agora é tamanho 54.

E para aquela outra que, sendo manequim 40, insiste na estreiteza do relacionamento 36. Claro que vai ficar apertado. Não serve. Nunca serviu, aliás.

Uma boa consultoria mental faria tremenda revolução na cabeça de quem desfila diariamente a ideia cafona de que os outros, só os outros, são responsáveis pela sua infelicidade e empacamento na vida. Um delito tão ou mais grave que sutiã com alça de silicone, meia cor da pele, legging de oncinha.

No Esquadrão da Mente as pessoas aprenderiam, inclusive, a escolher melhor suas amizades. As da baciada, em liquidação, geralmente não têm qualidade, não duram muito. Rasgam-se com facilidade, desbotam na primeira conversa mais séria.

E quem participasse do programa também teria final (ou recomeço) feliz, se assim desejasse. Porque quando o assunto é mente, assim como na moda, autoconhecimento é fundamental. É o pretinho básico da personalidade, peça curinga na vida. Vai bem com tudo.

Corrija-me

arte: Robin Ator/r8r
arte: Robin Ator/r8r

A vida começa aos quarenta. Ou, no caso da mulher, quando ela conhece o corretivo.

O corretivo é o photoshop natural, não-comedogênico, com textura oil-free e, salve!, FPS 30. É a mágica da maquiagem, sem coelho, nem cartola, mas com ilusionismo garantido. A retificação dermatológica de mentirinha, com validade até o próximo demaquilante. Quem se importa?

Corretivo é item de primeira necessidade, como pasta de dente. Pode faltar tomate na geladeira, bisnaguinha para o lanche das crianças, ração para os gatos, mas não pode faltar corretivo no meu toucador. (Lembrando que quem fala ‘toucador’ tem mais, muito mais de quarenta.) O corretivo não me salva da ação do tempo, mas de mim mesma.

Dei-me conta da minha fascinação pelo creminho quando a maquiadora disse “Vou lhe aplicar um corretivo” e, diferente de uma criança amedrontada que aprontou alguma, e eu fiquei feliz da vida.

O produto é mestre: corrige e ainda dá nota. 7 no disfarce do melasma da gravidez,  surgido dez anos atrás e que ainda está estampado na minha pele, feito a cicatriz da cesárea; 8 para as olheiras, 8,5 para as sardas mais rebeldes e 9 para a espinha. Nada mau para quem tirou zero em cuidados com o sol na juventude.

Melhor que corretivo, só os BB e CC cream, aqueles cremes multifuncionais cujos nomes têm esse jeitão meio tatibitati. Um bom exemplar faz pela sua pele, em cinco minutos, o que você não fez por ela em trinta anos. Resolve aquela aparência de peixe deprimido e repara até mau humor matutino.

Tanto amor pelo corretivo me põe na contramão da nova moda: mulheres inventaram de postar nas redes sociais fotos sem maquiagem. A intenção é nobre: combater a ditadura da beleza perfeita e o excesso dos filtros e retoques nas fotografias.

Mas logo agora, que aprendi a esfumar os olhos?

Bem agora, que dá para se embonecar à vontade com batons, blushes e sombras que não são testados na bicharada? Até pouco tempo atrás, arrancar essa informação dos fabricantes era mais difícil que passar delineador.

Justo agora, que estou de cabelos brancos e a maquiagem é a amiga bacana que não me deixa com ares de fantasminha camarada ou de quem tem hemoglobinas abaixo de 6?

Não. No meu rímel ninguém tasca. Muito menos no meu corretivo.

Porque o movimento #semmaquiagem é mimimi em um tom acima da pele: a moça tira a foto de cara lavada, bota na internet, coleta as curtidas e os comentários de “Continua linda”, “Uau”, “Maravilhosa” e depois vai, leve ou integralmente maquiada, cuidar da vida. É cara lavada da boca e olhos pra fora, para inglês ver. Não vale. Não orna.

Corrija-me se eu estiver enganada.

Do direito à reclamação

arte: Iv

Fato um: o mundo está melhor agora do que antes.

Fato dois: o mérito é dos reclamões.

Não fosse a reclamação, prima da insatisfação, ainda estaríamos assando peixes em fogueirinhas improvisadas nas mal iluminadas cavernas pré-históricas. Não fosse a Rosa Parks reclamar, negros ainda teriam de oferecer seus lugares aos brancos, nos ônibus norte-americanos. Por aqui, permaneceríamos sofrendo com as festas do vizinho até às quatro da manhã, pois não haveria lei do silêncio. Nem Procon. Pior que tudo isso junto: continuaríamos precisando de abridor para a lata do Leite Moça.

Pessoas cordatas não fazem revolução. Gente boazinha não muda a história. São os reclamadores que movem o mundo, meu bem.

Assim como não há guerra sem sangue, não há evolução sem chororô.

Reclamar pode ser verbo transitivo direto, indireto e até intransitivo, dependendo do contexto. No gerúndio ou no subjuntivo.Tanto faz; reclamar é, no fundo, verbo fundamental. Infinitivo e infinito. E, antes de ser verbo, é instinto. O primitivo e rebelde instinto de não querer assim e querer assado – para benefício próprio ou mundial – e verbalizar essa vontade. Porque há algo comum entre a queixa por ter o cabelo enrolado e não liso, e vice-versa, e a reclamação que ponteia os protestos de um povo. É ela, sempre ela: a centelha da inconformidade, embutida no DNA humano.

Toda reclamação é legítima, ainda que não seja.

A coisa mais odiável de se ouvir, quando se está em pleno queixume, é: “Você reclama de barriga cheia”, “Tanta gente sofrendo e você aí, reclamando”. É desvalorização da reclamação alheia. Censura. Repressão. Cerceamento da liberdade. Que, ironicamente, também configura espécie de reclamação por parte do outro.

Não é porque se vive confortavelmente em uma casa com saneamento básico, energia elétrica e geladeira cheia que se está proibido de reclamar por isso ou aquilo, às vezes mais por aquilo que por isso.

Não é porque se tem saúde, filhos lindos e ar-condicionado que se está impedido de lamuriar, entre um café e outro.

Tudo estar relativamente bem na vida não cancela os direitos reclamatórios, individuais ou coletivos, silenciosos ou barulhentos.

E pode-se, sim, reclamar de algo que não se faça nada, absolutamente nada para mudar. Só para exercitar.

Eu sou amplamente grata, mas não abro mão do direito às minhas reclamações e descontentamentos gerais, ainda que rasos e de baixa complexidade. Minhas superficialidades são cheias de profundezas. E, embora a vida não tenha SAC, sigo adepta da lamúria-canção: “Mas Deus não quer que eu fique mudo, e eu te grito esta queixa”. (Ah, Caetano.)

Aceito elogios, sugestões e, por que não?, reclamações.

Rodinhas

arte: Reuben Whitehouse
arte: Reuben Whitehouse

Quando avistei, ao longe, meu filho andando de bicicleta, notei. Faltavam dois elementos na cena, tão cotidiana: as rodinhas laterais. Ele tinha cinco anos e o pai acabara de removê-las. O pequeno estava pronto para duas rodas.

Depois foi a vez da mais nova, no seu tempo, se despedir das rodinhas.

As rodinhas laterais são o apoio, físico e moral, para quem está aprendendo a pedalar. Têm seu valor. São temporárias, com dia certo para sair de cena. Uns as dispensam mais cedo, outros mais tarde, não importa. A independência e sua irmã mais velha, a confiança, virão.

Ou não.

Há quem prefira manter imaginárias rodinhas laterais a vida toda. Com medo de, sem elas, cair. Medo de não saber viver sem. Medo de levar tombo, de se machucar, do Merthiolate. De se ferrar, enfim.

Desfazer, por exemplo, uma sociedade de anos, cujos sinais de desgaste são evidentes, para inaugurar seu próprio escritório, é tirar as rodinhas e ir.

Anunciar carreira solo, depois de sair da banda que lhe acolheu um dia, mas que não funciona mais, é tirar as rodinhas.

Terminar o velho namoro ou casamento, preso por um fiapo de amor e alguns nós afetivos, é tirar as rodinhas.

Pedir demissão do trabalho entediante, dizer adeus às férias, ao 13º salário e ao tíquete-restaurante, juntar as economias, se enfiar em planilhas e abrir o negócio dos sonhos, é tirar as rodinhas.

Aposentar a escova ou a chapinha diária a lhe torturar as melenas, saber-se livre da ordem estética e andar em perfeito equilíbrio sobre as ondas dos cachos que Deus lhe deu, é tirar as rodinhas.

Para quem cresceu, a casa dos pais e tudo que há nela – segurança, proteção, facilidade – é uma espécie de rodinha lateral. Sair dela é deixá-la para trás. É acreditar que dá para ser dono ou dona do seu nariz e das suas contas. É viver o inenarrável prazer de ter seu canto e, dia sim, dia não, dar uma passadinha ali, só para tomar o café fresquinho da sua mãe. (Às vezes, a dependência não é das rodinhas invisíveis, mas das visíveis roupas lavadas e passadas, do visível almoço sempre pronto, da visível e farta geladeira.)

Dizem que quem aprende a andar de bicicleta não esquece mais.

Sabe-se que quem anda sem as rodinhas não volta mais a usá-las.

Então, experimenta dar uma voltinha sem as suas.

A mão que passa o esmalte

Foto: Eva the Weaver

E eu, que julgava ser uma mulher autossuficiente?

Que jurava por Deus ser capaz de me cuidar sem precisar de ninguém?

Que acreditava ter despontado no século XXI cônscia da máxima cabalista que garante estar em mim o poder para tudo?

Enganei-me bonito: não consigo pintar minhas próprias unhas. Logo, pouco ou nada disso é verdade. Caí do cavalo.

Havia decidido não mais gastar dezenove (dezenove!) reais por semana na manicure para tê-las feitas. É que fiz as contas do investimento, de hoje até o presumido fim dos meus dias, e tomei um susto. Considerando que também tenho pés com o mesmo direito (sem trocadilho) e fazê-los custa mais caro e nunca entendi o porquê, posto ser idêntica a quantidade de dedos.

Tudo pronto: ajeito, com rigor profissional, a parafernália sobre a mesa da sala de jantar. Alicate, lixa, algodão, palito de laranjeira, arsenal multicolorido de esmaltes, acetona, toalhinha, água morna. Trinta e cinco exaustivos minutos de trabalho: acho que tirei cutícula demais, pega mal ir à reunião com Band-Aid do Ben 10? Não domino o pincel, que aparenta ter vida própria. Extrapolo os limites geográficos de noventa por cento das unhas, tento corrigir. Será que acetona estraga a madeira da mesa? O palitinho escapa, derrubo o vidro de esmalte, apanho-o com a unha molhada, pronto, lá se foi mais uma. Esse algodão não presta, gruda em tudo. Alcanço o iPad no canto da mesa, vou no Google, “como remover esmalte de jeans”. Afinal, o que são dezenove reais? Apanho o telefone, Fulana tem horário para hoje?

Eis aqui, à revelia, minha declaração de dependência da manicure.

A manchete futura, no jornal: Dona Silmara Franco, 128 anos, vai ao salão fazer as unhas antes de receber a homenagem do Guiness Book como mulher mais velha do mundo. Não sei como serão os jornais em 2095, nem se ainda existirá o Guiness Book, muito menos se haverá manicures. Só sei que continuarei sendo uma mulher incapaz de esmaltar, decentemente, as próprias unhas.

Meu reino para saber se Angela Merkel consegue fazer, minimamente bem, sua manicure. Ainda que não precise; o ponto aqui é talento.

Com algum ensinamento e algum chão, sou capaz de produzir, processar e preparar meu próprio alimento. Costuro e tricoto minhas vestes, passo roupa com a mão esquerda, desenho um gato com os olhos vendados, tudo com relativa facilidade. Já pintar as unhas… É uma incapacidade definitiva, impassível de evolução. Falta em mim o gene responsável pela valiosa habilidade. Teria meu caso indicação médica para uma ressonância magnética, regressão, terapia de unhas passadas?

Que ninguém venha com coleção de frases do tipo “Querer é poder”, “Supere seus limites”, “Quem acredita sempre alcança”. Nenhuma delas se aplica à automanicure.

Que ninguém questione o hábito, também. Uma mulher de unhas (bem) feitas pode dominar o mundo. Assim que o esmalte secar, claro.

A cada tentativa de virar o jogo – na verdade, apenas três ou quatro, ao longo de quase três décadas de esmaltação – a história se repete. Diante do kit manicure sinto-me como uma criança de três anos apresentada ao mundo maravilhoso da tinta guache. Uma artista plástica pós-abstracionismo com referências no movimento punk e sob efeito de alucinógenos. Uma garotinha brincando de cabra-cega no terreno acidentado do parquinho da escola. A ideia de fazer uma poupança com os valores deixados semanalmente nos cofres dos salões vai, invariavelmente, para as cucuias.

Bem que queria, mas não estou nas mãos de Deus, como diz aquele adesivo de carro. Estou, irremediável e eternamente, na mão de quem passa o esmalte.

Te amo, Caetano

Arte: Lu Arembepe

São dezoito minutos do dia novo. Eu ainda estou no dia velho, conectada às manchetes de ontem. Como um marinheiro atraído pelo canto da sereia, sigo hipnotizada pelo noticiário on-line dos quatro cantos, de todos os santos. Estou diante da minha infinita banca de infindáveis revistas. Sabe quem lê tanta notícia, Caetano? Eu.

Aprendo sete dicas de linguagem corporal para quem faz apresentações. Mas eu não tenho nenhuma apresentação em vista.

Confiro cinquenta e três famosos sem Photoshop. Concedo meu palpite mental a cada um. Gisele é Gisele.

Tenho insights a respeito da vida, da Dilma e do aspartame nos refrigerantes. Todos os assuntos se amalgamam na rede.

Respondo doze mensagens e mantenho uma no rascunho, preciso pensar. Olho de soslaio o spam, avisto: “Como enlouquecer um homem”. Já faço isso, meu bem. Basta eu levar o tablet para cama e ficar navegando pela tudosfera.

Deixo comentário em cinco postagens. Em outra, penso, mas não escrevo. Me encho de preguiça.

Curto outras doze. Na décima segunda, já não me lembro mais o que curti na primeira.

Volto a um dos comentários que fiz, edito. Assim fica melhor.

Assisto pela quinta vez o vídeo de duas ex-elefantas de circo, amicíssimas, que não se viam há vinte e dois anos. Não tenho lenço à mão; meu documento diz que eu choro à toa.

E o avião da Malásia, hein?

Ouço duas músicas antigas (não caetanas) e sinto saudade. O Google facilita a nostalgia.

A semana teve dentes, pernas, bandeiras e uma ameaça de bomba que fechou a sede do Facebook, na California. A Brigitte Bardot está no Twitter, Caetano.

Bocejo, mas não me rendo.

Há um artigo recomendado para mim. Para mim! O título diz que nós, pessoas, não precisamos escovar os dentes. Não lerei o resto e a informação residual que acompanhará meus sonhos é: não preciso mais escovar os dentes. Alegria, alegria.

Vejo imagem de uma macarronada, clico no modo de fazer. Estou sem fome, mas com telefone, no coração do Brasil.

Fico triste, Paulo Goulart morreu. Fico alegre, a cachorrinha de três patas foi adotada por uma família de Nova Iguaçu. Fiquei bipolar depois da internet.

Confiro vinte e duas notificações. Esqueci de notificar as crianças sobre as toalhas molhadas no chão. Lembro de três coisas que não posso deixar de fazer assim que amanhecer. Na falta de caneta e papel, escrevo para mim mesma no Messenger. Logo aparece: “visualizada”. Posso ficar tranquila; eu vi meu recado.

Bocejo, desta vez me rendo. Caetano, eu vou dormir.

Por que não? Por que não?

Da coragem

Arte: Richt
Arte: Richt

Desde que deixei de tingir meus cabelos, há duzentos e vinte e seis dias, e passei a exibi-los na cor que Deus quer – e quis Ele que fossem, na maioria, brancos – , tenho ouvido de tudo. O mundo é feito de três tipos de mulheres: as que acham horrível deixá-los à mostra, as que acham bonito, e as que acham bacana, mas não para elas.

Dos predicados a mim atribuídos por conta da atitude, “corajosa” é o que eu mais acho graça.

De tanto ser considerada uma mulher de coragem por assumir meus fios albinos, deduzi que a possibilidade de ser chamada de velha assombra as mulheres mais que o câncer de mama. A coloração está em dia. A mamografia, nem sempre.

Não foi preciso respirar fundo para dizer bye-bye às colorações que me acompanhavam há vinte anos. Tampouco tremi, pensando o que seria de mim sem elas.

Coragem, para falar a verdade, é usar salto de quinze centímetros.

Coragem é almoçar fora todos os dias, sem a garantia de que o rapaz que preparou a sua salada lavou as mãos depois de ir ao banheiro.

Coragem é desembolsar quatro dígitos em uma calça jeans. Feita do mesmo tecido, aliás, que a vendida na loja de departamentos, cuja etiqueta não ultrapassa dois.

Corajosa é quem devora a caixa de Amandita à uma da manhã. Ou quem levanta às cinco para fazer ginástica, antes de ir trabalhar.

Coragem é entrar em um prédio em chamas para salvar o bebê que está lá dentro.

Coragem é discordar, com propriedade, do presidente da empresa na frente dele e da turma do Conselho.

Coragem é topar um emprego de assistente social na região mais violenta da cidade.

Coragem é sair do armário.

Coragem é ter o terceiro filho.

Essa mulher, sim, é valente.

Assumir os cabelos brancos, perto disso, é fichinha. Sou café com leite. E, já que o assunto é branco, mais leite que café.

Eu, que de bravura tenho pouco a expor, só fiz descobrir que branco é apenas mais um tom para a gente se divertir. Mais uma opção, assim como o castanho e o vermelho, na paleta de cores da mulher possível.

Notas:

1. Eu disse que ia de branco, um dia.

2. Vem ver meu “Diário de um cabelo branco no Facebook.

Do mesmo jeito

Arte: Gustavo Peres

Eu como biscoito recheado do mesmo jeito desde que fui apresentada à guloseima. Desfaço o ‘sanduíche’ e reservo; raspo o recheio com os dentes e, por último, devoro o biscoito. Como dizem as mães aos seus filhos, não consigo diferenciar meu amor por um ou por outro.

Eu coloco cadarços do mesmo jeito desde quando aprendi a amarrar meus sapatos. Confundo-me se preciso fazê-lo de outra maneira, às vezes o filho pequeno pede uma amarração diferente para os tênis. Meus neurônios estão acostumados com o velho trajeto do cordão, como alguém que faz sempre o mesmo caminho para ir a algum lugar.

Não é metodismo. O metódico raciocina sobre seu método, cria teorias, apresenta justificativas. Não é TOC, não chega a ser mania e não tem a ver com obviedade, nem com lugar-comum. Eu não faço nada disso de propósito. Não há inteligência ou proposição em nenhum desses atos, catalogados aqui pela primeira vez. Sou aleatória. Aleatoriamente repetitiva, sem querer. São hábitos inscritos em meu DNA que, talvez, signifique simplesmente aquilo que Deus-Não-Altera.

Eu deixo restinho quando tomo água, suco, vinho ou qualquer outra bebida. Minha sede quase sempre acaba a meio centímetro do final do copo. Convivo bem com as piadinhas sobre deixar um pouco para o santo. Nunca soube qual é o santo dos líquidos.

Eu tomo banho do mesmo jeito desde que passei a ser responsável pela própria higiene. A mesma sequência de lavação: cabelos primeiro, sempre. Braços vêm antes de pernas. Pés ficam pro final. A toalha também faz o mesmo percurso. Estranho quando vejo alguém começar pelos pés ou terminar pela cabeça.

A repetição é fundamental para a evolução da humanidade. Sem ela, as tradições não existiriam. Repetir hábitos, mesmo que não se dê conta, é cultivar a própria tradição, zelar pela autoevolução.

Eu uso batom do mesmo jeito desde o dia em que passei um na boca pela primeira vez. Não importa o matiz. Primeiro em cima, da direita para a esquerda, voltando em seguida ao ponto de partida. Depois embaixo. Fui conferir os exemplares do meu armário: os meus gastam na diagonal. Sem exceção.

Eu visto as roupas do mesmo jeito desde sempre, ainda que os modelos, formas, tamanhos, cores e tecidos tenham mudado tanto ao longo dos gostos e das modas. Há um padrão (natural, não-pensado) para colocação de blusas, outro para calças, para vestidos. Acho graça em quem tira camiseta primeiro pela cabeça e depois pelos braços. Gosto de ver nos filmes e nos vestiários quem faz igual, quem faz diferente. É bom poder transformar tudo em playground.

Fazer as coisas do mesmo jeito é meu legado mais genuíno, minha herança mais autêntica. É meu modo de fazer, minha receita de mim. Só os ingredientes é que mudam.

Olhai as linhas do chão

Arte: Paula Pérez i de Lanuza
Arte: Paula Pérez i de Lanuza

É estar no banco, nos Correios, na loja de departamentos ou qualquer lugar onde a fila se faz necessária para organizar o atendimento, e é essa joça.

Fazem a marcação no chão, bem bonita em amarelo, para otimizar o espaço e guiar a (sempre grande) fileira, e as pessoas fingem que não é com elas. Vão chegando, se juntando e, a despeito da indicação virtual de caminho, criam uma linha humana contínua, no melhor estilo Deus-dará.

É gente aérea, alheia, programada no individual. Não aprenderam a formar fila. Não fizeram pré-primário com a Tia Neide.

Tia Neide era gordinha e tinha bochechas rosadas. Reunia seus alunos-mirins no páteo e ia compondo a fila por ordem de tamanho. Menores na frente, maiores atrás. Ela tinha vinte e sete anos. Eu, seis, condenada à eterna pole-position junto com uma ou duas amigas. Batia o sinal da entrada e seguíamos, obedientes e em fila indiana, para a sala de aula. (Fossem as filas de hoje organizadas por estatura, provavelmente eu não ficaria muito distante da antiga posição.)

A agência do Correios está cheia. Bastam duas pessoas para justificar uma fila. Sou a sexta. Lá estão as guias no chão, rejeitadas e ignoradas em sua missão. Bufo, encaro o primeiro da fila, concentro-me e tento enviar-lhe uma mensagem telepática, “Olhai as linhas do chão, ó irmão”. Ele não se move. Plantado fica, no epicentro da geometria desenhada sob seus pés. Nem cá, nem lá. O segundo, o terceiro, o quarto e o quinto o acompanham. A atendente chama, “Próximo”. É a deixa. Ensaio o movimento para tomar o lugar certo, na esperança que os demais da fila se animem com a reconfiguração. Nada. Estou só, ilhada sobre a setinha apontando para a frente, enquanto todos seguem o novo líder que, para minha tristeza, fez escola com o cliente que já está sendo atendido no balcão. Correndo o risco de perder o agora quinto lugar, volto, sob silenciosos protestos, ao meu posto original. Faço mimetismo na fila que não pensa.

Não sou a Tia Neide, nem estou no velho páteo, mas lanço, tímida, o desafio. O último da fila, pobrezinho, já está com um pé para fora da agência. “Pessoal, vamos seguir a marcação?”. Silêncio. Ninguém se move. Mais fácil conquistar apoio para uma missão de paz na Síria. A atmosfera de pouco-caso se instala no ambiente. É o desdém à ordem e ao progresso. Viro a chata, a general. Audácia da pilombeta.

Alguém precisa avisá-los que aquilo não é um jogo e não perde pontos quem fica dentro da faixa. Que é amarelinha, tem céu, mas não tem inferno. Inferno é a anencefalia coletiva.

O que faria Tia Neide se estivesse ali, postando suas cartas? Pegaria gentilmente nas mãozinhas de cada um e os conduziria ao seu lugar? “Sem bagunça e sem empurrar; Fulano, não puxe o cabelo da colega”.

Nada disso. Tia Neide, hoje com 67 anos, iria ao caixa preferencial. Não se comoveria com meu drama, não daria ouvidos à minha inconformação. Diria que é coisa de criança.

Tia Neide e sua turma do pré-primário (eu, na fileira do meio, a quinta da esquerda para direita). São Paulo, 1973. Arquivo pessoal.

Tachados e perdidos

Moda é religião: cada um tem a sua, e todas costumam levar ao mesmo lugar. Com frequência, é divisor de opiniões e águas. Quase sempre, é bobagem discuti-la. Ou não.

Para o ano que corre, tudo indica, bíblias fashionistas providenciaram um adendo, ensaiado há algum tempo. Há no ar um novo mandamento sendo cumprido à risca pelos fabricantes de roupas, calçados e acessórios em geral, que juram ter ouvido Deus proferir, n’alguma fashion week: “Usarás tachas”.

Até a próxima estação, fiéis incautos obedecerão e irão ter com blusas, calças, saias, camisas, coletes, carteiras, cintos, tênis, botas, chinelos – os mesmos modelos do ano passado – , agora todos encrustados com alguma variação do adereço, a lhes conferir o ar afinado com a tendência. Ninguém quer ficar de fora.

Experimento um vestido e lá estão elas, as tachas. Flerto com um par de sapatilhas e lá estão eles, os spikes. É assim que as tachinhas pontiagudas se chamam, aprendo. Enquanto amplio meu dicionário de moda, sigo tentando adquirir uma peça livre deles. “A estrada é longa, o caminho é deserto”.

Inútil fugir. A invasão é maciça. A indumentária rebitada, claramente inspirada no universo rocker e punk, está presente no short da mocinha que vai ao pagode segurar o tchan. Na anabela da carola presente na missa das sete. No biquíni da professora de ciências. Na “gente humilde, que vontade de chorar”.

Onde foi possível, botaram tachas. Onde não foi, também. São os estilistas-papagaios comungando da mesma hóstia, perdidos em sua missão de criar.

Eu, que não quero ser tachada de chata, rezo quietinha uma Ave Maria e um Pai Nosso, na esperança de que o jeans da vitrine não tenha aplicado, nos bolsos de trás, o mesmo enfeite da coleira do cão Boxer da vizinha.

Tacha, só se for com xis, dos juros e juras de amor.

Spike, só o Lee.

Vou de branco (um dia)

Arte: Erik Berndt

“Por que você pinta os cabelos?”

Quem lança a pergunta não tem nem oito anos. É uma menina. Lanço-lhe um olhar condescendente: mais alguns anos e ela saberá. Ou pensará que sabe. O mundo é assim, faz tempo.

A indagação tem o mesmo impacto de “Qual o sentido da vida?”, “De onde viemos?”, “Por que você assiste novela?”. Questões cuja resposta é frequentemente vaga, subjetiva, permeada de teorias simplórias. “Não sei, só sei que é assim”.

Levante a mão a mulher que já parou para filosofar, propriamente dito, sobre o tema.

Discussões retóricas e antropológicas à parte, a verdade é que, na maioria das vezes, a resposta para a primeira pergunta é rápida, honesta, espontânea. Típica, aliás, de uma criança: “Porque eu gosto”.

Li uma vez que as mulheres sempre ficam mais bonitas com um tom de cabelo diferente do que nasceram. É como se o tingimento das madeixas corrigisse alguma falha, harmonizasse o que a natureza se esqueceu de fazer.

(Psiquiatras e psicólogos devem começar o trabalho com aquela paciente nova investigando-lhe os cabelos. Prato cheio. Trinta sessões garantidas.)

Tinjo os meus desde quase sempre. Os primeiros fios brancos surgiram por volta dos quinze anos. Discretos. Com o tempo, fizeram o que bem entenderam, baseado na ordem divina dada à espécie humana: cresceram e se multiplicaram. Não gosto deles. Não vejo beleza nos grisalhos femininos, com seus trinta, quarenta, cinquenta tons de cinza. Sou da turma que acha esquisito, desmazelo, antipático. Se não os tingisse, a coleção de fios despigmentados formaria uma questionável mecha branca contrastada com meus cabelos pretos, o que me tornaria facilmente confundível com um gambá fêmea.

Para que isso não aconteça, há décadas estabeleço em meu calendário visitas mensais ao salão para retocar as raízes. Aproveito para colocar a prosa em dia, tomar café doce, me atualizar de quatro edições da Caras, responder emails, checar o Facebook. Sim, demora.

Já estive de tantas nuances! A cabeça de uma mulher é um grande laboratório de possibilidades, erros e acertos. Em vários sentidos. E sempre me diverti inventando novas paletas para minhas melenas, há tempos tão reduzidas.

A brincadeira, porém, chegou ao fim. A relação com o tonalizante está desgastada, precisamos dar um tempo, sinto-me sufocada, presa. Estou prestes a dar uma espetacular virada capilar. Quero alforriar meus escravos brancos, libertá-los do cativeiro líquido das tintas. Assumi-los, tirá-los do armário. Vê-los expandir, deixar que façam a minha cabeça.

Um dia. É ainda fase de querença. Não sei quando a ideia será efetivada. Não mando (completamente) em mim. Nem garanto nada.

Pode ser que eu continue com minhas visitas ao salão, prosa e café doce. Sou beneficiária da metamorfose ambulante das ideias gerais e específicas.

Pode ser que eu ligue para a Ana e avise: “Não vou mais”.

E eu que não vou querer fazer da minha cabeleira uma branca sombra pálida. Quero charme, atitude e modernidade, sem direito ao pacote-aposentadoria, ao kit medo-de-ser-feliz. Se não der certo, será apenas mais uma experiência na minha já tão empírica existência. Não um testamento cravado na pedra para todo sempre.

O Dia D chegará, e eu me entenderei de vez com meus pelos. Porque branco é a cor da paz. Dizem.

 

Nota: e o dia D chegou, em fevereiro de 2013. Vem ver meu “Diário de um cabelo branco no Facebook.

O Havaí é aqui. Ou não

Arte: Ana Maria Dacol

Eu que nunca fico elegante de sandálias Havaianas, igual às moças que desfilam pela Oscar Freire de terça-feira à tarde. (Para elas, é sempre terça-feira à tarde). Botam camiseta, jeans, chinelo de dedo e lá vão, irremediavelmente chiques. Quase não-terrenas.

Eu não. De Havaianas, não pareço descolada, não fico moderna. Metidos nelas, meus pés denunciam a deselegância nata, ou discreta – em livre caetaneação. E, não importa o quão produzida eu esteja, incorporo, invariavelmente, o arquétipo da jeca.

Inveja das moças da Oscar Freire.

As Havaianas, que já foram ícone de pobreza, foram alçadas a uma incompreensível categoria superior, através dessas mágicas ocidentais cuja poção leva quilos de propaganda, generosas doses de bom humor e uma pitada de sorte.

Com as legítimas, fajuta sou eu. Eu, que não solto pela vida minhas tiras particulares – aquelas que julgo me sustentar – , percebo que o buraco é, literalmente, mais embaixo. Toca o chão.

No primário, as crianças remediadas da minha escola assistiam às aulas de Havaianas. Destoavam do resto da classe, com seus assexuados sapatos pretos, tão fechados quanto a blusa branca de logotipo bordado no bolso que fazia parte do uniforme. Minha mãe dizia para eu não reparar nos pés delas. Eu reparava.

Não dei conta, em apenas algumas décadas, de assimilar tamanha mudança de status daquele simples chinelo. Meu subconsciente ainda o vê como calçado ordinário. E, como tal, instrumento de vagar à toa pela casa, lavar quintal, podar as roseiras, organizar as gavetas – qualquer atividade solitária e, obrigatoriamente, indoor.

Mas a mágica ocidental é poderosa. Então, eu bem que tento: flerto nas lojas com as Havaianas temáticas, fascinantemente multicoloridas. Afinal, nos pés das moças da Oscar Freire elas caem lindamente. Ensaio a compra, prometo superar o bloqueio emocional e me integrar à nova era, pertencer ao bando, ser cool. Que nada. Vêm à mente os colegas da escola e seus pézinhos encharcados pelo enfrentamento das poças em dia de chuva. Mudo de loja e escolho um par de sapatilhas. Espero que meus filhos não carreguem a ruidosa herança determinista e se esbaldem nas Havaianas, com liberdade e altivez, por onde quer que andem.

Centenas de milhões de pessoas em oitenta países do globo usam as Havaianas. Eu não. Não pertenço a este mundo.

Meu reino por uma fotografia da Jackie Onassis de Havaianas.

Tenho meu par, pasmem. Ganhado, não adquirido. Ele vive em meu armário, raras vezes circula. Nunca foi ao shopping. Nem até a portaria do condomínio, buscar a pizza. Vou descalça, se for o caso. Posso sair de casa sem batom; de Havaianas, jamais.

Sou doente do pé. Provavelmente, ruim da cabeça também.

O dia em que virei uma chata

Ilustração: Minh Nguyen

Não sei se foi quando passei a desejar praias com ar-condicionado, exigir risotos com arroz arbóreo ou desaprovar espressos imperfeitos.

Ou se foi quando comecei a achar tudo caro e a estranhar travesseiros que não os meus. Quando pedi para abaixarem o som da TV. Quando dei por mim que não suporto Carnaval e praticamente tudo relacionado a ele.

Talvez tenha sido logo depois de ter comprado um sedan azul-marinho (azul-marinho!), mais ou menos na mesma época em que não compreendi como alguém poderia ser feliz sem transmissão automática.

O dia em que virei uma chata é um mistério particular, imerso num labiríntico apagão afetivo. Busco o autoconhecimento, embora insista numa espécie de amnésia induzida. As pistas, porém, estão por toda parte. (Mas eu costumo achá-las todas muito chatas.)

Pode ser que tenha coincidido com o dia em que não deixei meus filhos brincarem com a minha bolsa – muito menos com o seu conteúdo – , como eu sempre permitia com meus sobrinhos, antes de ser mãe.

Ou quando passei a implicar quando eles saíam descalços na rua, ou na garoa, sem agasalho.

Ou então, foi no dia em que torci o nariz quando o pai quis levá-los ao estádio de futebol em dia de decisão. Todo medo é chato.

O mais provável, porém, é que eu tenha virado uma chata por ocasião da primeira centena de pecinhas de Lego espalhada pela sala. Pode ser que sim, pode ser que não. De uma coisa tenho certeza: foi aí que passei a ver sentido no colégio interno.

(Todo zelo guarda em si uma fagulha de chatura. E toda mãe está condenada a, cedo ou tarde, virar uma chata.)

Quem nunca se viu, de um dia para outro, metamorfoseada em chata? Como aquela mulher que acorda, vira de lado, encara as cortinas e implica com a costura torta na bainha. Ou com o pó por aspirar no cantinho do rodapé. E, da cama, ainda a sós com seus pensamentos sobre cortinas e rodapés, bufa e suspira pela agenda que o dia anuncia: trânsito, reunião, médico, varejão. Nessa hora, nem o Anjo da Guarda a poupa: “És chata!”.

Quanto a mim, sigo desconhecendo o momento inaugural de minha própria chatice. Tenho cá, no entanto, que é do tempo em que perdi a confiança nos vendedores (todos), a crença nas liquidações de até 70% de desconto, a fé nas empregadas domésticas. Todo descrente é, potencialmente, um chato.

É do tempo em que deixei de rir com nove entre dez programas humorísticos da TV e passei a nutrir sentimentos terríveis por pessoas que usam viva-voz. A patrulhar, silenciosa ou publicamente, em textos ou discursos alheios, conjugações verbais insolentes, plurais desrespeitados e aspas esquecidas. De quando amaldiçoei cada ênclise metida, cada ausência de acento e cada vírgula boba. Tal Narciso, quase todo chato acha feio o que não é espelho.

Chata virei, enfim. E não tenho previsão para desvirar.

A sorte do mundo é que os chatos não são unidos.

Na marra

Arte: Gustavo Peres

Nasci à fórceps.

Cresci ouvindo a história. Eu não queria – ou não conseguia – vir ao mundo. Estava em posição complicada, ninguém notara. Não tinha isso de três ultrassons durante a gestação. E não colaborei quando chegou a hora. (Queria ficar mais tempo com minha mãe. Por certo, eu já sabia que seria breve.) Veio o fórceps para ajudar. Era o que os médicos tinham à mão. Se o que vale é a intenção, devo agradecê-los. Apesar de não ter feito uma boa viagem naquele sete de maio, cheguei ao meu destino: o lado de fora. No entanto, não quis saber de respirar ou chorar, o que pôs a equipe em alerta. É a primeira e única vez que uma mãe gosta do choro do filho. Fui arroxeando, levaram-me voando para outra sala. Dona Angelina chorava, crente que sua caçula não vingara. Mas eu vim, taurina e teimosa. Longos minutos depois, voltei ao seu colo. Tudo estava bem. Era só cuidar dos meus arranhões e hematomas que, contam, não eram poucos.

Minha irmã, então com cinco anos, ficou razoavelmente desapontada quando fomos apresentadas. Primeiro, porque eu era pequena demais para brincar com ela. Segundo: por conta da tintura de iodo passada em meu recém-nascido corpinho, fiquei amarela. Dias depois, quando vieram buscar mamãe e eu na maternidade, ela respirou aliviada. Eu ainda não podia brincar, mas já tinha cor de gente.

Todo mundo enfrenta seu fórceps particular, ao menos uma vez na vida. Ele vem para nos tirar do sossego, expulsar do paraíso. É o impulso vital – ainda que resistamos a ele bravamente. Por um lado, o instrumento bruto e feroz que nos arranca à força, sem dó ou compaixão, do aconchego e do enganoso nada que chamamos de conforto. Por outro, o que nos acorda, move e garante que a missão suprema seja cumprida. Ficar é bom. Ir também.

Há quem, com idade suficiente, não saia da casa dos pais de jeito nenhum. Quem troque um emprego ruim apenas quando a empresa fecha as portas. Quem vire a página só na marra. Quem viva de um passado doce, azedando o presente. Preferem o útero conhecido, ainda que estreito, ao imprevisível parto em direção ao amplo e não-sabido.

Há os que adiem, indefinidamente, seus projetos e desejos, deixando para parir as ideias depois, depois, depois. Esses encaram diariamente o Grande Fórceps a berrar: “Nasce, porra!”.

Passei a infância exibindo aos amigos, orgulhosa, a pequena veia diferente no supercílio que, de acordo com a minha imaginação (ou relato de alguém), era a marca do fórceps. Ela sumiu; a sombra da lenda, não. Demoro-me nos lugares, nasci e vivi na mesma casa por décadas. Embora tenha súbitas urgências por movimentos e novidades, geralmente não sou afeita a mudanças e também adio, quase de modo crônico, empreendimentos pessoais fundamentais e eventos banais, como encerrar a conta num banco. Contei a história do meu nascimento ao marido. Ele sorriu. E disse que isso explica muita coisa. Rimos.

De bolsa nova

Ilustração: r8r

Foi Dia dos Pais e também ganhei presente. Eu, que sou mãe. Não que misturemos os papéis em casa; esses já são suficientemente bagunçados no arquivo da estante (levei horas para localizar uma conta de luz recente, pediram na renovação da carteira de habilitação). É que me ocorreu de também merecer um mimo no segundo domingo de agosto: sem mãe não há pai. Na véspera, o diabinho que se empoleira no meu ombro esquerdo e vive às turras com o pequeno anjo sobre o direito me cutucou, soprando um recado. Uma ordem. Disse ele: “Vá e compre aquela bolsa que você gostou”. Eu fui. E o anjinho chorou.

Tudo posso na bolsa que me fortalece. Com ela a tiracolo (e dividida no cartão), fico pronta para o mundo.

Pronta para aturar o deselegante motorista da outra pista que vê minha seta e acelera. Relevar a indelicadeza do médico do convênio, que se despede enquanto eu faço uma pergunta. Tem nada, não. Eu estou de bolsa nova.

Preparada para correr com o almoço, levar as crianças à escola, voar para a reunião em outra cidade e voltar a tempo de buscá-las. Tudo bem; eu vou de bolsa nova.

Forte para lidar com o intolerável, assistir na TV guerras civis não-declaradas, declarar guerra às empregadas domésticas, suportar a má-vontade da moça da padaria que se aborrece por ter de explicar do que são os salgados. Que que tem? Minha bolsa é linda e nova.

Uma bolsa-dos-desejos transmuta qualquer humor feminino. É munição para a batalha, proteção em meio à selva urbana, patuá da espécie. No icônico depositário de pertences e utilitários vai a alma d’uma mulher. Já uma bolsa novinha em folha – com todo respeito pelas anciãs guardadas no armário – é capaz de tudo isso com o frescor de uma manhã recém-nascida. Bolsa nova é pura bossa-nova mental.

Sim, eu agito bandeiras verdes e anticonsumistas. Reservo-me, porém, o direito a recaídas samsáricas. Posso ser mundana, só um pouquinho? Estou em dia com Deus. E ele me disse, em segredo, que dá para conciliar aspirações espirituais e desejos materiais. Gosto de pensar assim. Além de que, não contei. Antes da ordem final do diabinho, eu já havia adquirido pela manhã, na mesma loja, um par de sapatilhas que estava dando sopa.

Mundanice pouca é bobagem.

A mulher que não sabe

“Incisões”, 2012 – Simone Huck

Diz-se dos tipos de mulheres que existem. Mulher-isso, mulher-aquilo. Há tantos padrões como há de flor, passarinho, inseto. A tipagem é o forte da humanidade. De um, no entanto, não se fala ou lucubra, a despeito de sua maciça ocorrência. Senhoras e senhores, com vocês: a mulher-que-não-sabe. (Agora com hífens, a título de garantia.)

O objeto do seu não-saber é imprevisível, inexato, infinito. Contempla a vastidão do planeta yin.

A mulher-que-não-sabe passa os dias no passado e as noites no futuro; não lhe sobra nem meio-período para o presente. Está sempre a perguntar coisas ao espelho, mas não sobre sua suposta supremacia estética, que isso é lá com as bruxas más; ela prefere encher-lhe o pacová na tentativa de saber o dia dos acontecimentos aguardados ou até quando perdurará uma situação. O espelho finge que não é com ele.

A mulher-que-não-sabe desconfia do antibiótico e do GPS, mas crê no horóscopo e na escova progressiva. Salva seus filhos e, ao mesmo tempo, os condena ao limbo afetivo. Acha feio não chorar em enterros; bonito é o teatro do pêsame.

A mulher-que-não-sabe vive tendo alergia a tudo que a incomoda e se desentendendo com a alegria que a procura. Ignora que as duas são feitas das mesmas letras. Se entrega à tristeza e não percebe o quanto ela pode ser movediça. Vasculha em gavetas e armários, à procura de autofragmentos perdidos em cada um de seus aniversários.

A mulher-que-não-sabe deixa o arroz de festa queimar. Engoma camisas de força, inspeciona orelhas pueris. Acredita que o tempo é fugidio, mas o que lhe escapa, na verdade, é a coragem. Ela não sabe que coragem e tempo são casados desde sempre – e jamais tiveram amantes.

A mulher-que-não-sabe tem dificuldade para dizer ‘não’ quando deve dizer ‘sim’, e ‘sim’ onde caberia um ‘não’. Os opostos, geralmente, adoram bagunçar o seu coreto.

A mulher-que-não-sabe teima em combinar as cores das roupas, da casa e do batom, de acordo com a paleta limitada do seu olhar. Segue registrando a vida em frouxas escalas de preto e branco. E, assim, se vai no sumidouro do breve pixel…

A mulher-que-não-sabe nem imagina que suas neuroses – as leves, as moderadas e as terminais – são compartilhadas, ainda que secretamente, com todas as outras mulheres e, dentre essas, pasme!, também com as que sabem. A centelha divina da bendita ignorância abençoa todas.

A mulher-que-não-sabe é louca para deixar de sê-la. No fundo, sempre esteve grávida de sabedoria. Mas ela, claro, ainda não sabe disso.

Cabelo, cabeleira, cabeluda, descabelada

Arte: Nikkinella

Eu me divirto bastante quando vou cortar os cabelos. (Embora não tenha ousado grandes transformações. O comprimento dos meus, nem Joãozinho usa mais.)

Gosto do ritual da lavagem terceirizada. Gosto de vestir a capa plástica, para que os fios decepados não piniquem depois. Gosto do café adoçado com futilidade. Gosto das revistas de bobagens alheias. E gosto, sobretudo, do lero que antecede a operação, o papo despretensioso com o cabeleireiro, as divagações sobre paletas de cores, a previsão de como vai ficar, como se nada mais importante estivesse em curso no planeta. Aquela hora em que nada – nem as injustiças do mundo – tem relevância, exceto o planejamento do novo corte.

Uma coisa, no entanto, me aborrece: buscar inspiração nas revistas especializadas e encontrar penteados fictícios: aqueles que só existem na fotografia, só se realizam com mais de três produtos e/ou acessórios e só funcionam quando não tem vento, chuva ou qualquer outro fenômeno da natureza. Que dependem do ar-condicionado para sobreviver e valem somente se vistos de frente. É o penteado-instalação, cuja única função é ser assistido. Longe de ser uma obra-aberta, não permite interatividade – nem com a própria dona.

O cabeleireiro vai explicando: esse fica assim na base da pomada. Aquele foi conquistado com mousse, secador e chapinha – a santíssima trindade dos salões. A cor do outro tem Photoshop; humanos não dão conta de fazer esse degradé. A cada página, um cabelo devidamente organizado. Sentada no cadeirão, melenas molhadas escorrendo pelas orelhas, lanço a questão ao universo: com qual corte se pode, verdadeiramente, acordar, tomar banho e sair?

Mais aborrecido, só propaganda de xampu. Dobrada a esquina do século, elas insistem na velha fórmula dos cabelos longos (sempre longos; não há curtos nos comerciais) e brilhantes balouçando em câmera lenta. Que mentira, que lorota boa: a vida não passa em câmera lenta.

Tal como na propaganda, com seus filmes produzidos para faturar prêmios e não, necessariamente, ajudar a vender, há penteados preparados tão-somente para vencer concursos.

Quero ver nas revistas e nas tevês cabelos de verdade. Cabelos de levar a cria para a escola, de fazer reunião com cliente e faxina nos armários. Cabelos de bater perna no shopping, ir ao dentista, deitar no sofá para assistir as reprises do canal Viva. Cabelos de namorar, sem vergonha de ficarem nus. Cabelos de preparar camarão na moranga e ler Drummond na rede.

Cabelos que, fossem gente, usariam jeans, camiseta branca e havaianas.

Síndrome do pânico

O grito, Edvard Munch (1895)

Clico num link, à procura de diversão. É um desses aplicativos que fazem a festa dos habitantes da Vila Facebook. Também quero entrar na festa. Mal boto o pé na porta e dou de cara com o aviso: “Este aplicativo receberá suas informações básicas”. Localizado numa espécie de ante-sala do salão principal, a advertência parece dizer: “daqui para frente, não nos responsabilizamos”. Um maquiavélico “eu avisei”.

“Ele”, o aplicativo – uma entidade virtual, etérea, desconhecida e potencialmente malévola – não define, porém, o que considera “básica”.

Informação básica sobre a minha pessoa pode ser apenas o número do meu RG. A nacionalidade, sexo, idade. Pode ir além, no entanto. E o tal acesso às informações básicas pode percorrer minha vida particular e trazer à baila dados, aspectos e acontecimentos até então ocultos acerca da minha existência, eventualmente indiscretos, quiçá politicamente incorretos.

“Ele” pode revelar, por exemplo, que, apesar de meu atual ativismo pela causa animal, quando era criança, tinha um estranho passatempo: jogar a tartaruga de estimação escada abaixo, só para vê-la se esborrachar lá embaixo. Não contente, também atirava uma cadeira por cima. Talvez, no intuito de testar a resistência de seu casco, da cadeira, ou das duas coisas associadas. Felizmente, a tartaruga sobreviveu a todos os impactos, e viveu conosco muito tempo. Não sei que fim ela levou. Em dias de militância ecológica, algum vizinho já teria flagrado e registrado a cena num celular e postado no You Tube. Com milhões de visualizações, eu seria escorraçada pela sociedade, caçada pelo Ibama, enquadrada na lei de proteção ambiental e cumpriria pena num xilindró-mirim com mais vinte crianças da pá-virada. Minha infância foi salva pela falta de tecnologia.

E se “ele”, o aplicativo, descobrir que já joguei óleo de cozinha no ralo da pia depois de fritar batatas, quando era mais nova (beeem mais nova) e não tinha noção do estrago que isso fazia? Não sabia o que fazer com aquilo, afinal de contas. Era a mesma época em que colocávamos nossos sacos de lixo na porta de casa e eles simplesmente desapareciam, como que por mágica.

Pior: e se “ele” espalhar pelo ciberespaço um dos meus segredos pessoais mais nojentos? Foi no dia em que, gripadíssima, espirrei enquanto dirigia e aquela substância orgânica expelida foi parar no painel do carro, e eu tive que continuar dirigindo porque não dava para estacionar e a caixa de lenços não estava à mão, e a meleca lá, estatelada sobre o velocímetro.

Seria terrível ver minhas mazelas expostas assim. Só de pensar, me dá tremedeira.

E as ameaças “dele” não pararam ali: “Este aplicativo pode publicar em seu nome”. Para boa entendedora, meia palavra basta: estou a um clique de arrumar um procurador virtual. Um ser tecnológico com plenos poderes, que fará o que lhe der na veneta. Evidentemente, para o mal.

O danado do aplicativo pode inventar de postar besteiras e assiná-las sob meu nome. Publicar nas redes sociais que gosto do que não gosto, que vi o que não vi, sei o que não sei e faço o que não faço. (E se esta crônica, na verdade, não for de minha própria lavra, e sim “dele”, que tomou posse também do meu humilde blog e a digitou enquanto eu dormia? Encrenca dos diabos, essa.)

E se, valendo-se de tal poder, a procuração se estender à minha vida real, e “ele”, o aplicativo, resolver me descasar do meu marido e me casar com outro, que nem conheço, mas adicionei porque pareceu gente boa? E se “ele” permitir que meus filhos comam salsicha e Nutella de segunda a segunda? Se cismar de doar todos os meus sapatos, achando que tenho demais?

Com súbitos, claros e evidentes sintomas da síndrome do pânico cibernético, tais como taquicardia em banda larga, sudorese em alta resolução e alucinações em megapixels, só me resta puxar a tomada do computador e acabar logo com isso. Antes que o derradeiro clique transforme minha vida num inferno.

*****

Por outro lado, ter um procurador, virtual ou real, talvez se mostre uma boa ideia. Posso instruí-lo e autorizá-lo a fazer por mim coisas que não tenho dado conta – responder e-mails importantes e pendentes, curtir tudo que de bom postam os amigos – ou tarefas que considero por demais aborrecidas: limpar o banheirinho dos gatos duas vezes ao dia, tirar o feijão do fogo, procurar uma nova faxineira, ensinar aos filhos que Legos precisam ser recolhidos (todos).

Cadê a tomada para eu ligar o bichinho de volta?

Cidadania de supermercado

Separo o lixo reciclável, faço compostagem do orgânico, poupo água. Ajudo ONG, tenho compaixão pelos seres vivos (menos barata), freio para animais na rua. Não uso (mais) as vagas para idosos, não paro em fila dupla na porta da escola, não fecho cruzamento. Sou uma boa pessoa.

Só não me peça para levar carrinho de supermercado de volta no lugar. Isso eu não faço. Sou acometida de súbitas e incontroláveis preguiça, indisposição e pressa – tudo junto ou separado. Abandono-o num canto, na esperança de que não vá atrapalhar ninguém. Rezo para o moço que os recolhe passar logo, conduzindo sua ruidosa centopeia de rodinhas. Arruíno, eu sei, o bom andamento do estacionamento. Fosse infração de trânsito, eu não poderia mais dirigir por cinco encarnações. Sou rápida no delito, finjo-me invisível. Entro no carro e, como se tivesse acabado de assaltar um banco, bato em retirada. O sentimento de culpa me persegue. Ao entregar o cartãozinho ao moço, na saída, seu olhar parece me acusar, “Eu sei o que você fez”. Como num filme policial, cogito parar, descer com as mãos levantadas e, ré confessa, suplicar por misericórdia, “OK, eu ponho no lugar!”

Ser cidadã dá trabalho. Cansa. Demora. É preciso paciência, tempo, alegria, resiliência, bom humor, coragem – quase tudo de que é feita a vida. Há dias, no entanto, que todas essas coisas faltam. Fazer o quê? O problema é quando isso coincide com dia de supermercado.

Não descarto a possibilidade de minha conduta antissocial ser uma retaliação inconsciente contra o atual sistema dos supermercados, cuja dinâmica de compra seria impossível de ser explicada, com alguma coerência, a civilizações superiores de outros planetas que por ventura nos visitassem. O número de vezes que se carrega e descarrega um carrinho (com ou sem sacolinhas plásticas), desde a entrada no estabelecimento até que tudo esteja guardado na despensa, é surreal. Pode ser que os avanços da psiquiatria proporcionem terapia adequada para meu caso. Ou então, o caminho será contar com regressão de vidas passadas, benzedeiras, florais de Bach.

Talvez eu seja como os gatos: se a ordem coincide com o desejo, feito. É por isso que se chama um e às vezes ele vem, às vezes não. No segundo caso, o felino ignora o candidato a chefe, inspeciona o vento, lambe a pata. E, cônscio de si, não obedece. Fazendo uma livre associação: se o lugar dos carrinhos for ao lado de onde estacionei, eu levo de volta. Caso contrário, também desobedeço. Só não lambo minha pata, que fique claro.

(Des)Empregada III, o furto

Ilustração: Toon Van de Putte/Flickr.com

Depois de ser abandonada e, em seguida, traída com o padeiro, enfim eu encontrara uma nova empregada. Meu lugar ao sol – e não ao tanque – parecia despontar no horizonte doméstico. Só parecia.

Estranhar, eu estranhei. A mulher tinha todos os dias livres e rara boa vontade. Gostava de gatos e tatuagens e tinha filhos pequenos como eu, o que tornava toda empatia possível. Poucos dias se passaram, peguei-a no pulo. A bolsa gorda, recheada, momentos antes dela encerrar o expediente. Ataulfo Alves bem que avisou: “Laranja madura, na beira da estrada… Tá bichada, Zé, ou tem marimbondo no pé”.

Se “A menina que roubava livros” virou best-seller, que destino estaria reservado à mulher que roubava brinquedos?

As duas, menina e mulher, têm histórias de vida pontuadas por dificuldades e dissabores. Salvos os respectivos cenários, as épocas, as devidas proporções e a boa dose de ficção, o que a Morte, narradora no livro, haveria de dizer, nesse caso?

Talvez ela, a Morte, me convidasse para um cafezinho ao entardecer e apontasse o farto oceano de brinquedos nos quartos dos meus filhos como razão para minha versão doméstica de Liesel Meminger agir. Não tenho inventário detalhado a respeito, posto ser essa tarefa hercúlea e inútil. Quem é capaz de identificar quem é quem na comunidade de Pollys e Barbies, contabilizar a esquadrilha de aviões, a esquadra de navios e os Legos que se valem do misterioso poder da geração espontânea? A brinquedoteca das crianças é superlativa, conjugada no coletivo. O excesso de brinquedos em casa é tão evidente quanto questionável, mas já desisti de nadar contra a maré, panfletando que isso não faz sentido. Porém, (talvez) ao contrário da história do livro, isso nunca deu e jamais dará a alguém o direito de apossar-se do que não é seu. A mulher, no papel de Robin Hood de si mesma, desconhece que justiça social se dá por outros meios e com outros fins.

Por outro lado, a Morte poderia apelar à compaixão, ao sugerir que eu imaginasse a mulher chegando em casa, depois do dia de trabalho que lhe rendeu uns parcos reais, e encontrasse seu menino a brincar com o caminhãozinho sem uma das rodas e uma velha e desbotada girafa de pelúcia, ao mesmo tempo que repassasse mentalmente a fascinante (aos seus olhos) paisagem da nossa casa. Eu diria à Morte que sim, estou acostumada a esse exercício. E o que posso fazer por essa mãe é pagá-la direitinho o combinado, para que ela tenha condições de proporcionar o mesmo aos seus filhos. Direito de todo cidadão e cidadã – igual ao direito de propriedade que ninguém pode tascar.

A Morte também tentaria me convencer a relaxar, contando ter visto coisas bem piores ao longo de sua, digamos, existência. Por esse lado, meia dúzia de Hot Wheels a menos para quem tem uma frota de três dígitos dos carrinhos é, de fato, titica.

Ou nada disso, e a Morte faria o que mais a diverte – pegar de surpresa – e me diria a inesperada e oblíqua verdade sobre o crime (?) cometido, que eu ainda não havia suspeitado: preciso escolher melhor minhas laranjas.

Crônica de minuto #40

Nina, cinco anos, anunciou:

– A partir de hoje, eu vou ser boazinha.

Depois, mudou de ideia. Misturou, de propósito, as figurinhas do irmão (separadas por time), recusou-se a recolher os brinquedos e fechou a porta na cara da amiga.

Ela prefere ser essa metamorfose ambulante.

Jingle bells?

Ilustração: Adam Koford/Flickr.com

Gelei: acabo de topar com o primeiro anúncio de Natal. Papai Noel nem contratou os duendes temporários para fazer um bico no final de ano e já anunciaram: está tudo pronto. O bom velhinho deve odiar os publicitários. Viver às turras com o pessoal do marketing. Não é fácil ser lenda em terra comandada pelo dindim.

De meu posto, ainda em fase de embasbacação com as floradas da primavera nos ipês, jacarandás, sibipirunas e manacás-da-serra, em plena espera da boa-nova nos campos de concreto, já preciso pensar no presente de amigo-secreto. No chocotone. Na estratégia para armar a árvore de Natal na sala sem que os gatos comam os enfeites. E se eu insistir com as flores… Viver cada coisa em seu tempo, às vezes, é audacioso demais.

Todo ano é assim. Pior: o ano inteiro. Uma antecipação frenética e ensandecida das datas, fazendo com que tudo passe mais rápido do que já é. Me ponho ansiosa e concluo que, como o Coelho da Alice, estou atrasada. Se bem que coelho é lá na frente, na Páscoa. (Seus ovos que cada vez têm menos forma de ovo, no entanto, infestam os tetos dos supermercados bem antes.)

Tem mínimo para tudo: mínimo para pagamento da fatura do cartão de crédito, idade mínima para entrar no cinema, frequência mínima para passar de ano na escola, salário-mínimo. Campanha de data comemorativa também carece de limites mínimos: nada de outdoor de mãe, a não ser em maio. Comercial romântico de casal enamorado, só se for em junho. De pai, antes de agosto, nem pensar. E ninguém mais bota decoração verde e vermelha nos shoppings antes de dezembro. Infringiu, é multa. O calendário gregoriano reinará soberano, dando uma bela ‘banana’ para o calendário promocional. (Que carece, sobretudo, de novas inspirações. Mas isso são outros trezentos e sessenta e cinco.)

Até que isso aconteça, mês que vem, novembro, terei enjoado das bolas coloridas, dos anjinhos trombeteiros, das luzes piscantes nas janelas, das caixinhas de Natal para frentistas, garçons e manicures. Quando chegar o dia, propriamente dito, os gatos terão destruído a árvore e eu estarei completamente nauseada com a temporada de hohoho.

Que venha o Carnaval.

Morte ao viva-voz

Ilustração: Rodrigo Müller/Flickr.com

Ainda não entendi de qual passarela veio a inexplicável moda de só – eu disse – falar ao celular pelo viva-voz. Gente que empunha o aparelho como se megafone fosse, ventando notícia desinteressante. Como se fosse pizza em fatia, dessas que se pede na lanchonete para almoçar rapidinho, em pé, na pressa dos diabos. Dos diabos, cá entre nós, é ouvir conversa dos outros sem ter vontade. Dos infernos, viver pescando fragmentos do diário alheio. Pior é o barulhinho disparado entre uma fala e outra. Ainda prefiro o bom, velho e cool “câmbio” dos rádios, sepultado pela modernidade para dar lugar ao insípido priii.

Viva-voz é o viés da comédia, o extermínio da vida privada. Mesmo quem não tem vocação para Dona Candinha se vê obrigado a ficar sabendo de tudo. Que a empregada vai se atrasar, mas assim que chegar vai por comida para o Thor. Que o layout daquela peça ficou uma desgraça, será que dá tempo de mexer, liga para o Max. Que o moço vai buscar a moça às oito, depois do tênis, só precisa dar uma passadinha na locadora antes. Que a estagiária aprontou de novo no escritório. Com viva-voz, quem precisa de revista de fofoca?

Tem de tudo no show da voz ao vivo. Detecto um diálogo com potencial para plebiscito: os pais devem ou não deixar o Junior sair com o carro? Afinal ele já tem dezenove e é tão ajuizado. Sem precisar ligar no zero-oitocentos, dou meu voto: sim, o menino pega as chaves hoje à noite e leva a galera ao cinema. A gente cria os filhos para o mundo. É a vox-populi no viva-vox.

Viva-voz não é default do aparelho, é opção. Mas o cidadão a ativa a qualquer momento porque acha bonito. Porque acredita que vai ouvir melhor seu interlocutor. Porque se julga invisível e inaudível. Porque se considera astro-rei. Porque leu em algum lugar que usar o telefone junto ao ouvido faz mal à saúde, dá câncer. Porque isso, porque aquilo. Da verdade não se escapa: porque é tonto.

Viva-voz à toa é pedido de audiência, angariação de testemunhas, compartilhamento de um Facebook falado. Quem é que curtiu?

Viva-voz sem razão é o incômodo efeito colateral da comunicação plena. Hórus, deus do silêncio, há de castigar a todos.

Alô, simpatizante do recurso em hora e lugar errados: a vida não é pública, você não entendeu.

A enceradeira

Toda casa que se prezasse tinha enceradeira. A dona do lar precisava do trambolhento aparato – fosse presente de casamento ou adquirida em suaves prestações – para dar lustro ao piso e mostrar às visitas o quão zelosa era. Minha mãe caiu nesse conto. Todas as mulheres de sua geração, aliás. Não sei se a armação foi dos fabricantes de cera ou dos maridos que pretendiam manter as esposas ocupadas. E pensar que o advento da engenhoca foi a redenção; antes o brilho era conquistado no muque.

Eram duas, em casa. Uma, do tempo da minha avó. Outra, da época da minha mãe. A primeira era pesada, incômoda, antiquada (enceradeira e vovó). A segunda era mais leve, agradável, moderna (enceradeira e mamãe). A primeira tinha dupla função: de tão grande, cabia uma criança montada nela. Dia de faxina era sinônimo de farra, dia de andar de enceradeira. Mas só um pouquinho; dependia do humor de quem guiava a geringonça. Um verdadeiro bólido. Ou tanque de guerra. Uma arma, talvez.

Conta a lenda que as visitas exclamavam: em casa, se via dois gatos no chão. Um, propriamente dito, e outro, reflexo do primeiro. Obra do Synteko, da enceradeira e do esmero de Dona Angelina. Eu, iniciante no mundo do espelho de Alice, achava aquilo bem curioso. Até eu existia em dobro, portanto.

Minhas visitas, hoje, também dizem o mesmo. A diferença é que elas realmente veem muitos gatos. Todos de verdade. Nesse quesito, a única tradição na família que teve continuidade. Melhor assim.

A enceradeira é o símbolo cabal de que o compasso do tempo já foi outro. Ah, havia mais dele na vida de qualquer ser – homem ou mulher. A era dos assoalhos impecáveis, panelas areadas, roupas quaradas e engomadas. Onde isso, hoje? Preenchemos o tempo livre proporcionado pelas traquitanas elétricas e eletrônicas com outras necessidades. Inventamos outras areações, quarações e engomações para ocupar o tempo. Queremos mostrar o quê para quem? Urge descobrir de quem é a armação agora.

Queria mesmo era passear de enceradeira de novo.

Admirável (des)mundo novo

Ilustração: Ade McO-Campbell/Flickr.com

Eu envelheço e o mundo vai ficando novo. Meus espelhos estão mais sinceros, e as propagandas, mais mentirosas. Às vezes, eu queria me trocar, me devolver; acho que vim com defeito. Minha translação é lenta, ando atrasada para viver. Parece que o sol se põe dum lado diferente a cada dia, brincando de ser e não ser. Me confundo toda nessa giração. De quantas rotações somos feitos, afinal, no admirável (des)mundo novo?

Tenho e-mail, Facebook, Twitter, blog, celular 3G e o diabo a quatro ponto zero. Com quem ou o quê, exatamente, isso tudo me conecta? Agora tudo é descobrível, decifrável. (Exceto o coração de quem (des)ama.) Os segredos de Fátima só permanecem ocultos para quem não tem banda larga. As teias sociais capturam até os avisados. E longe, de fato, é um lugar que não existe. Só sei que dependo de água e fibra óptica para viver. Tem dias que preciso mais de uma que da outra. Não conto qual.

Vivo, com expansões no lugar de contrações, num parto incessante de ideias desvairadas. Algumas já nascem mortas. Outras vingam; são amamentadas com fé, liberdade e imaginação. Tento escrever meu diário, mas o presente vira memória num piscar de olhos. Sei que a cabeça está cheia quando passo a me procurar, o tempo todo, para conversar. Qualquer hora, mando dizer que não estou.

Me alimento de atualizações, bebo a pressa, sempre com pressa, e arroto posts aleatórios. Me embanano diante de tantas opções, no infinito self-service do admirável (des)mundo novo. No entanto, recuso o adoçante, o light, o diet. A vida precisa ser integral.

Dei frutos. Mas eles continuam rente ao meu tronco, lambendo minha seiva diária. Eu os protejo e lhes dou sombra. São meus admiráveis filhos novos. Vou imprimindo em meu corpo cicatrizes em forma de tatuagem, enquanto a da cesárea vai desaparecendo. É um recado.

Na admirável (des)ordem nova, os pecados são mais complexos. Os dez mandamentos já se multiplicaram: “Não compartilharás em vão”. Desobedeço ao menos um, todos os dias. Deus, eternamente online, nem liga. Testo sua onisciência, imito sua onipresença e não espero pelo castigo. Ele é moderno. Eu, não.

Pronta para o verão?

Ilustração: Pin-up with sun hat, Freeman Elliot

Começou. Nos outdoors, anúncios de revista, comerciais de TV, alguém ordena: preciso me preparar para o verão. Por aqui, ele só dará o ar da graça em três meses. É como se a primavera, que acaba de tocar a campainha no hemisfério sul, com sua inabalável força renovadora, fosse coadjuvante em um espetáculo onde a única celebridade é o verão.

Em doze semanas eu não consigo definir nem o que quero da vida, quanto mais glúteos, bíceps, tríceps, abdome. Até parece que o que levou um ano (ou mais) para se instalar no meu corpo, sob minha permissão, estará disposto a ir embora assim, em noventa dias.

Eu me preparei para o vestibular. Para a primeira entrevista de emprego. Para encarar uma demissão. Para ter filhos (e me preparo para isso dia após dia). Para perder minha mãe. Eu me preparo para viajar, jantar fora, tomar injeção. Mas preparação para estação vindoura, sinceramente. Isso é lá com os ursos, formigas, cigarras. Eu que não vou dar trela.

Sou obra em progresso, nunca estarei pronta. Na melhor das hipóteses, equipada para dançar conforme a música: câmera fotográfica nas mãos para primavera e outono, ar-condicionado para o verão, botas de cano longo para o curto inverno tropical. No mais, permaneço em construção, desde que nasci até o último dos meus dias. Que cairá, quem sabe, num solstício de verão ou equinócio de outono.

Vida não tem colação de grau, nem formatura. É a coleção de estações vividas, uma após a outra, em seu eterno compasso de brotar, florir, morrer, que deixa a gente razoavelmente preparada para o ato de viver. Ainda assim, é bom que se diga: não há garantias.

Ao contrário do que deveria ser, não é a brisa da primavera que nos acaricia agora. O que nos derruba, daqui até o Natal, é o vendaval de apelos para ficar bonitona, gostosona, tudo ona. Inclusive bobona. É o externo premiado. No entanto, não é só disso que se faz um verão. Até andorinha sabe.

Chegará o dia em que outdoors, anúncios e comerciais noticiarão cada estação do ano com a mesma pompa e devida circunstância, pedindo de nós só o que é possível lhes dar.

Os que viverem, verão.

Vestindo a camisa

Foto: Patrícia Garcia/Flickr.com

Acontece de faltar algo no slogan daquelas camisas. Uma palavra, uma ideia, algo para dar continuidade ao que sujeito e predicado deixaram (de propósito?) no ar. E não falta apenas o objeto, direto ou indireto. “Para mulheres que decidem”, diz a frase. Ora, ora. Que decidem o quê?

Camisas para mulheres que decidem o destino dos milhões nas companhias ou das moedas no cofrinho do filho, louco para comprar um Lego?

Que decidem eleições ou o que a família vai comer no jantar?

Será que ela, camisa, cai bem tanto na mulher que decidiu ser mãe quanto naquela que jamais sonhou parir? Vestirá, igualmente, as que decidem interromper uma gravidez e as que resolvem adotar o bebê resgatado de um lixo-berço?

Ou é camisa para mulher que decide botar o bloco na rua, o blog na lua, posar nua?

E se ela representar o traje ideal para a mulher que decide salvar o planeta, mas deixa de salvar o cachorro faminto que passa a noite ao gélido relento?

Talvez seja para a mulher que já percebeu e, portanto, decidiu: a tristeza não lhe cai bem, e o melhor a fazer é vestir uma alegria bem bonita, com muitos bolsos, para ir guardando as felicidades que encontrar.

Nada disso, quem sabe? É roupa para mulheres que decidem pintar a sala de roxo e azul-turquesa num dia de colorida fúria. Que decidem encerrar o velho jejum de paixão, feito em nome de um amor evaporado. Que decidem por silicone aos dezesseis e fazer tatuagem aos sessenta. (Afinal, para umas, nunca é cedo. Para outras, nunca é tarde. E todas estão certas.) É vestimenta para mulheres que decidem não dançar conforme a música que toca e, em vez disso, compõem a própria trilha e saem bailando por aí. E que, bem sabem, camisa nenhuma confere poder de decisão a alguém – exceto a camisinha.

A camisa, parece, é generosa e nasceu para todas. Afinal, o que é um slogan? Um autorretrato bem encomendado ou uma enganação mal planejada? Eu, por enquanto, visto-me de ventania e vou flanando pelo mundo. Tudo que quero são roupas novas.

Filosofia de chuveiro

Foto: Mel Toledo/Flickr.com

Sexta-feira é dia da empregada lavar meu banheiro. E ela muda tudo de lugar no porta-xampu. É desses de dois andares, compartilhado com o marido. As coisas dele ficam no térreo. No primeiro andar, as minhas, mantidas em previsível ordem. Xampus à frente, condicionadores atrás; óleo de banho na sequência; ao lado, esponja, sabonete e aparelho de barbear para o sovaco. Em dia de faxina, no entanto, fico perdida com a nova órbita dos meus satélites. O xampu no finzinho, deixado propositalmente de ponta-cabeça para melhor aproveitamento, está em pé de novo. O aparelho de barbear, apesar de cor-de-rosa, foi transportado ao território masculino. Percebo, aliás, que ali também houve certa embaralhada (não captada pelo patrão). Semana após semana, ela não repete o lugar de nada, num intrigante ineditismo. São sempre novas combinações. Criatividade, pressa ou distração?

Ao fazer isso, sem saber, ela altera o ritmo do meu banho. Invade a parte que me cabe nesse minifúndio feito de azulejos. Confunde meus neurônios, agora obrigados a novas e complexas sinapses. E deixa sua indelével pegada em território tão íntimo.

Depois de sua passagem pelo local eu me ponho, secretamente, a corrigir tudo. Sexta passada, porém, tomei a incomum decisão: deixei tudinho como ela definiu. Sabendo que o xampu do marido está no lugar do óleo perfumado, e consciente do risco dele usá-lo na cabeça.

Nesse pequeno e doméstico exercício, aparentemente sem importância, eu revejo o quanto a rotina, em seus detalhes, está sedimentada. E o quanto mexer nela pode alterar o percurso do dia. Para o bem e para o mal.

O cotidiano não é, mas pode ser um cruel replay de vidas presentes. Acordamos à mesma hora, levantamos sempre pelo nosso lado da cama, calçamos – ou não – os chinelos. Escovamos os dentes começando pelo mesmo lado da boca, bochechamos com água o mesmo número de vezes, secamos as mãos do mesmo modo. Espreguiçamo-nos igual ontem e olhamos pela mesma janela, que nos devolve a mesma paisagem. Sentamo-nos em nosso lugar à mesa e recriamos o café-da-manhã da manhã de ontem, variando entre pão ou torrada, café-com-leite ou suco de laranja. Escolhemos uma roupa e, raras exceções, optamos pelo já testado e aprovado. Dirigimos do mesmo jeito até o lugar de sempre e, no caminho, reparamos no que já foi percebido. Damos bom dia aos colegas de trabalho com o mesmo sorriso (salvo em dias de TPM), realizamos nosso ofício da mesma maneira, com direito a pequenas alterações no decorrer do período. Para quem fica em casa não é diferente. Depois, não sabemos por que é que nada de novo acontece na nossa vida. É uma repetição sem fim de gestos e hábitos, cristalizados, talvez, em nome da segurança e conforto de um suposto saber sobre como tudo será. Os dias da semana nem precisavam ter nomes diferentes.

A criatividade, pressa ou distração da empregada, quem diria, se torna uma grandiosa benfeitoria. A imperfeição da ordem no porta-xampu está somente em meu olhar. É em meu referencial que o caos mora. No primeiro ou segundo andar, tudo continuará ao meu alcance e com suas funções preservadas: o sabonete sempre será sabonete, e assim por diante. Se eu pudesse estender isso pela vida, meu mundo seria outro.

Mas quer saber? Não dou três dias para eu colocar tudo de volta no lugar.

Pão de forma

Ilustração: Robin Hutton/Flickr.com

Eu não como a primeira fatia do pão de forma. Nem a última. E, no caso de só as duas restarem no pacote, eu passo. Abro outro. Depois finjo que nem as tinha visto. Transvisto de distração fajuta minha escancarada rejeição pelas extremidades. Não quero o início, nem o fim. Só me interessa o durante.

A primeira e a última fatias, nesse tipo de pão, são diferentes. Imperfeitas e raquíticas, não têm a textura de uma fatia-padrão. Assim como inventaram o pão de forma sem casca – outra coisa que incomoda –, sou a favor de que o produto seja comercializado sem as fatias da ponta. Alguém já viu propaganda de sanduíche feito com elas? A estética, quando em nome do paladar, é implacável. Não poupa nem a ancestral arte da panificação.

Café da manhã e lanche da tarde, nos meus tempos de criança, eram feitos, entre outros quitutes, com a bengala comprada na padaria perto de casa. Não tinha isso de “meia dúzia de pãezinhos, por favor”. Trazida nos braços pelo meu avô e fatiada em rodelas, margarina dos dois lados. Às vezes, frigideira para dar cor e enlouquecer o olfato. Eu nunca queria os bicos, geralmente mais duros e com pouco miolo. Aguardava alguém se servir primeiro. Mas era, invariavelmente, submetida ao indelével gracejo rímico, “come o bico para ficar rico”. Não enriqueci, explicado está. A velha padaria não existe mais e a bengala há tempos foi rebatizada, agora se chama baguete. Está mais magra, comedida, discreta. As bengalas da minha infância eram gordas, exibiam-se no centro da mesa, alimentavam a família inteira. Pão coletivo.

Em casa, hoje, o único que livra as pobres do abandono é o marido, afeito às sobras de alimentos em geral, interessado no que ninguém mais quer. A maçã velha na geladeira, o restinho de água que um dia teve gás, o queijo que nem a vaca reconheceria. Está dedicado a passar seu legado adiante, doutrinando nossos filhos. O que eu faço nessa hora? Sento-me na ponta da mesa e fico de bico calado.

Ignorar os pontos cardeais do pão de forma não é como desprezar a ponta do pepino antes da salada, nem a cabeça e o rabo do peixe antes do ensopado. Não há semelhança. É um hábito inexplicável, vazio de sentido aparente, porém repleto de significados poderosos e desconhecidos. Bobagem decifrá-los.

Filosofia à parte, por mim as fatias extremas do pão são, sistematicamente, ignoradas. Até o dia em que o bolor toma conta e a minha dissimulação dá as caras. “Ah, que pena. Venceu”.

Vejam bem: agradeço pelo pão nosso de cada dia que nos é dado hoje. Desde que eu possa escolher a minha fatia.

O mundo é uma bola

Arte: Marc Palm/Flickr.com

Fui comprar uma bola, o filho da amiga fazia aniversário. Entrei na loja de brinquedos, dessas grandes, e procurei. Nada. Pedi ajuda ao vendedor de uniforme cor de laranja. Laranjas, como as bolas, também são redondas.

– Por favor, onde ficam as bolas?

Embora não tenha sido intencional, peguei o vendedor no pulo. Bolas também pulam. Melhor dizendo: quicam. Ele disfarçou, olhou para o teto. Olhei também, será que estavam ali? O moço falou baixinho, revelando o insuspeitável:

– Não tem.

– Está em falta?

– Não. É que a gente ‘não trabalha’ com bolas. Temos só algumas, ali na seção para bebês…

Ele se referia às bolas de silicone, macias e coloridas. Que todo mundo dá de presente aos pequeninos, ainda sem dentes, para se esbaldarem na fase oral. Bebês também gostam de chupar e morder laranjas. Mas mães não as dão sempre para suas crias brincarem. Apesar de pobres em vitamina C, as bolas de plástico têm vantagens: não fazem sujeira.

– Não, essas não… Bola de jogar, sabe?

Peguei-me explicando o que é uma bola. A minha cabeça, parecida com uma e que, por conta dos sete buracos, às vezes murcha, tinha é ficado zonza com a resposta do vendedor. Que não deu bola ao assunto e tratou de encerrar o papo:

– Sei. Mas não temos – disse. O ocupado vendedor, então, foi atender outros clientes. Que não procuravam por bolas.

Pensei ser brincadeira, mas não era. A loja não tinha bola – o mais básico dos brinquedos, a diversão inicial – para vender. Era como se eu fosse à feira e não encontrasse laranja em banca alguma. “Não trabalhamos com laranjas”, o feirante explicaria. Ou então, à loja de lingerie, e não houvesse um sutiãzinho sequer nas prateleiras. Quem quisesse, e esse foi o recado do vendedor-laranja, bem treinado para a função, que escolhesse outro brinquedo. Opções não faltavam. Todas, no entanto, embaladas de certa mesmice. Ou seria sem-gracice? Nada disso, e eu estava redondamente enganada. A loja fervia. Mas ninguém estava atrás da bola. Quem fez gol?

Por fim, encontrei, numa loja que não era de brinquedos, a bola que viraria um nas mãos e pés do aniversariante-mirim. Mais tarde, na festa, teve conversa de mesa (redonda?) entre meia-dúzia de pais. O assunto? O caso da bola. Todos percebem como os brinquedos e a relação das crianças com eles mudaram, e o quanto de nós mesmos há nisso. Poucos, porém, topam virar o jogo. Cartão vermelho para quem?

Nosso planeta, sabe-se de longa data, não é chato. É redondo. Chata é a loja, que não tinha bola.

Auto-decreto

Ilustração: Helen Aoki/Flickr.com

Vivo criando decretos para mim mesma. Sou a maior criadora de auto-decretos da paróquia. Todos os dias descubro um, de minha própria lavra, regendo minha vida com o poder de uma lei. Como se gravado em pedra estivesse.

Decretei, por exemplo, que não posso ter um emprego em período integral, caso contrário meus filhos, ainda pequenos, serão infelizes, ficarão traumatizados ou precisarão de terapia mais tarde. Decretei também que eles estudarão em escola particular pelo menos até os dezoito anos, sem sequer me dar ao trabalho de conhecer as públicas (e boas) da minha cidade.

De tanto topar com a frase, pronta e fácil, decretei que não se vive de escrever. No máximo, que isso é muito, mas muito difícil. Afinal, não passa de hobby. E, como tal, deve ser condenado às horas vagas que, por sinal, andam cada vez menos vagas. Aproveitei o embalo e decretei que nunca tive, não tenho e jamais terei talento para ganhar dinheiro.

Decretei que só se pode ser feliz vivendo numa cidade grande, com cafés abertos vinte e quatro horas e que eu frequento apenas em horário comercial.

Daí por diante. A essência de um auto-decreto têm raiz, um local de nascimento. Ou a gente viu alguém fazendo, ou ouviu alguém dizendo. E foram tantas vezes, por tanto tempo, que essa essência se cristalizou. Virou, naturalmente, um paradigma.

Mais ou menos como a fábula do peixe. A menina perguntou para a mãe por que ela sempre corta a cabeça do peixe antes de colocá-lo na frigideira. A mãe não sabia o motivo, disse que foi assim que aprendeu com a mãe, avó da garota, então é assim que ela faz. A menina não se deu por satisfeita, pegou a mãe pelo braço e lá foram as duas, questionar a avó. Que também não tinha a resposta, mas repetiu a ladainha: aprendeu com a mãe, bisavó da menina. Elas procuraram a bisavó e… surpresa: a bisavó não tinha ideia. Só sabia que esse era o jeito que a mãe, trisavó da menina, fazia. As quatro foram atrás da anciã. Que respondeu, com a maior naturalidade: naquele tempo, a única frigideira que ela tinha era muito pequena. O peixe não cabia inteiro nela. Bisavó, avó e mãe se entreolharam: a frigideira delas era grande. Os peixes foram, por gerações, decapitados à toa.

Não estou só, porém, no vício do auto-decreto e na armadilha do paradigma. Há os que, a exemplo da escrita, decretaram que trabalhar em artes plásticas, moda, teatro e artesanato não paga as contas de ninguém. Aqueles que decretaram que profissão, a palavrinha em destaque no diploma da faculdade, é tatuagem e, portanto, não sai mais. Por falar em tatuagem, existem os que decretaram que ela não é coisa que se deixe à mostra no ambiente de trabalho. Dress code é um decreto coletivo ao qual todo mundo diz amém, individualmente. Continuando, tem os que decretaram que aposentadoria significa não trabalhar mais. Pior: que aposentado é profissão, e preenche assim no cadastro do crediário, na ficha do clube.

Há auto-decretos de todos os tipos, para todos os gostos, para dar e vender: mulher depois dos quarenta não pode ter franja. Nem usar minissaia, mesmo estando tudo em ordem. Mulher tem que ter cabelo comprido para ser feminina. Ou então: o único corte de cabelo que lhe fica bem é esse, há dezessete anos em cartaz nas suas fotos. Roupa social precisa de meia-calça, principalmente as que se fingem de pele. O destino quer que você more de aluguel a vida inteira. Você não tem sorte nos relacionamentos. Ser feliz não é para o seu bico.

São os peixes, sem cabeça nem pé, que a gente vai fritando pela vida. Bom mesmo é descobrir que a maioria absoluta dos auto-decretos, principalmente os que não servem para nada, é revogável.

Não sei o que estamos esperando.

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PS: não corto mais as pontas do pepino, nem as esfrego nele para tirar o suposto amargor. E olha que eu não tenho trisavó.

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Para Januária, que tem se dedicado às revogações.

Sequestro-relâmpago

Ilustração: Joseph Francis/Flickr.com

A psiquiatria deveria, com urgência, desvendar um dos mais complexos desvios do comportamento humano. O que acomete o sujeito, até então de bem, e o leva, num ímpeto, a arrancar pedaços de páginas – ou páginas inteiras, em casos crônicos – das revistas das salas de espera, notadamente as de consultórios médicos e salões de beleza. Aquelas, à disposição dos pacientes e clientes. Geralmente antigas, trazidas de casa pelo dono do negócio (dá para ver na etiqueta de assinante). Aquelas, que todo mundo lança mão quando percebe que a coisa vai demorar.

Mistura de cleptomania com vandalismo, a estranha atitude é o sequestro-relâmpago da informação. Pior: não tem negociação, nem pedido de resgate, muito menos libertação. No caso, reposição do material sequestrado. O desvio não chega a ser um transtorno de personalidade. Transtorno mesmo é para quem tenta extrair algum conhecimento da revista mutilada – meu caso. Fiquei, enquanto aguardava a manicure, semana passada, sem saber todos os benefícios da alcachofra.

Ao folhear uma revista-vítima qualquer, os mais desatentos não percebem que pularam, por exemplo, do meio de um artigo sobre economia para outro, sobre astrologia. Virar a página, para essas pessoas, é ato contínuo. Serve para fazer com que os segundos cumpram seu destino, que é passar. E rápido, se possível. Porém, quem o faz com um pouco mais de afinco, desejando, talvez, saber mais sobre a Croácia, aprender a fazer um risoto de morangos ou se atualizar sobre os avanços nas pesquisas sobre o uso das células-tronco, esbarra num obstáculo impiedoso, causado pelo maníaco. Dá de cara com um naco de página, decepada a sangue frio, que passa a exibir as vísceras da celulose.

O psicopata que ataca revistas é frio, porém não calculista. Não traça, com exatidão, a rota do estrago que planeja imputar à pobre. Rasga sua folha com selvageria. Não importa se, junto ao endereço daquele resort que pode ser uma boa opção para as próximas férias, venha também um teco do anúncio de uma cafeteira elétrica e o carimbo de tinta roxa avisando que aquele periódico não lhe pertence. Ele não utiliza nenhuma ferramenta para dar acabamento ao seu crime. Uma régua, que seja. Só para deixar a página violentada num mínimo de esquadro, despistando o que aconteceu por ali. Não. Quanto mais evidências da subtração, com lascas de papel esmigalhado ou prejuízo da brochura inteira, melhor.

Não sei se é caso de saúde ou de polícia. Mas quando me deparo com uma página anonimamente estraçalhada, sinto-me surrupiada em meu direito à informação. À revista amputada restará apenas o aconchego do revisteiro ou da mesinha de centro. E a mim, a missão de descobrir por que diabos a alcachofra tinha duas páginas inteirinhas só para ela.

O funeral

Ilustração: Serendigity/Flickr.com

Em enterros é proibido ser feliz. Sorrisos são mal vistos. Se você foi promovido na empresa no dia anterior, deixe a alegria em casa. Se sua sobrinha nasceu na semana passada e você já teve oportunidade de pegá-la nos braços, finja que não se recorda da sensação. Se amanhã você embarca com seu namorado para vinte dias num charmoso vilarejo italiano, faça de conta que deu tudo errado e vocês não vão mais. Cemitério não é lugar de gente alegre. Nele só são permitidos pensamentos tristes. Não cumprimente efusivamente um amigo que não vê há tempos, mesmo que você esteja sinceramente contente em vê-lo – ainda que não ali. Nesse caso, esboce um sorriso, sem muito entusiasmo, e dê-lhe um abraço mudo. Só. Para a etiqueta dos funerais, basta.

Ontem fui a um. Convém registrar, e já: claro que ninguém fica feliz com a morte de um familiar, um amigo (ou amiga, no meu caso), salvo casos previstos na psiquiatria. Nos funerais, as pessoas mais chegadas – parentes ou não – ficam, de fato e visivelmente, tristes de dar dó. Quase dá para ver (ou ouvir) seus corações chorando. A morte desarranja, abala, desconcerta, despruma, desconstrói, faz bagunça. Verdade verdadeira. No entanto, sejamos honestos, sem medo do bofetão: parte dos presentes não tem o coração tão dilacerado assim. É preciso estabelecer uma fronteira entre os pesares. Acompanhar enterro de pai não é a mesma coisa que acompanhar enterro de cliente. De tio que nunca lhe deu um abraço. De mãe do amigo do filho, aquela que você não viu mais que duas vezes no último ano. Por que, então, lançar mão de um semblante tão forçadamente triste, se não é isso que vai na alma? Não é, claro, o caso de contar a última do papagaio ou relembrar o episódio d’Os Normais da semana passada. A menos que o falecido seja da área do humor, coisas assim nem vêm à lembrança. Naturalmente. O silêncio é uma forma universal de respeito. Mas repare: assim como se vestem de preto, algumas pessoas se vestem de tristes. Nos dois casos, o efeito é apenas superficial. Protocolar.

Serei uma pessoa fria por não ter chorado? Talvez eu tenha sido mais tocada com a perda da minha amiga do que outra pessoa que tenha exibido um copioso pranto durante seu sepultamento. O manual ainda estabelece que, quanto maior o choro, maior a dor. Assim como quanto mais e maiores coroas de flores, mais querida ou importante a pessoa era. Parâmetros sociais da vida. E da morte. Enquanto as últimas pás de terra selavam o túmulo da minha amiga sob um alaranjado entardecer de outono como testemunha, pensei na impermanência das coisas todas. No sentimento do seu marido, também meu amigo, ao ver o frasco de xampu dela ontem à noite, na hora do banho, e o que ele fez com a saudade naquela hora. Pensei nos seus sapatos solitários no armário, órfãos de pés até que alguém dê a eles novos donos. No que ela mudaria em sua vida se fosse avisada, há um ano, que hoje não estaria mais aqui. Em quem deve tê-la recebido do lado de lá e como se ajeitarão as coisas do lado de cá, sem ela. Pensei em tudo e desejei, profundamente, seu bem. Sem, contudo, perder de vista minha alegria diária, apenas por estar viva.

Funerais me deixam assim. Esquisita.

Piloto-automático

Ilustração: Chrstphre Campbell/Flickr.com

Deixar cérebro e língua no piloto-automático não é, definitivamente, bom negócio. Embora a gente dependa dele. Não fosse assim, não se diria a todo instante tanta coisa sem pensar. Frases de caixinha, feito suco pronto.

“Prazer em conhecer”. Quando duas pessoas que nunca se viram, tampouco sabem uma da outra, são apresentadas, difícil haver, de imediato, algum prazer ali. Deve ser por isso, mais certa preguiça humana, que sua forma completa resumiu-se com o tempo, dando vez a um econômico e sintético “Prazer”, por vezes pronunciado num tom próximo do inaudível, meio grunhido, enquanto mãos se chacoalham sem vontade. É possível que a minifrase seja verdadeira em alguns casos. Um pai feliz em conhecer o melhor amigo do filho, aquele que ele ouve falar há tempos e só agora calhou de dar certo o almoço. Um fã que vai ao camarim do seu artista predileto. E mais meia dúzia de exemplos. O que aconteceria se alguém dissesse a uma pessoa, assim que a conhece, “Olá! Desculpe-me, mas não estou sentindo nada em conhecê-lo”? Finge-se que conhecer Fulano é um prazer, Fulano finge que acredita e declara o mesmo. Ao menos, é mentira mútua. Ninguém sai ferido.

“Tudo bem”, em afirmativa resposta à trivial “Como vai a vida?”. Quantas vezes se responde isso com sinceridade? Tem horas em que tudo o que se quer é puxar uma cadeira, de preferência com uma xícara de café nas mãos, e destrinchar a tristeza, a chateação, a preocupação, a raiva, a recente semgracisse das coisas. E quantas vezes a pergunta tem mesmo intenção de saber a verdade? Há quem capriche e devolva: “Está tudo ótimo”. Quando lá dentro, no entanto, só se pensa no saldo vermelho, no irmão mais novo que vai fazer transplante, na crise existencial própria, conjugal e de terceiros. Ou tudo isso junto. O que, admita-se, seria chatíssimo de se ouvir num breve encontro de elevador. Há quem sinta prazer em esticar a falácia: “Tudo bem. E você?”. Sejamos otimistas: a vida pode estar, de fato, bem. Só que poucos saberão quando é uma coisa, quando é outra. Na verdade, tanto faz.

“Não precisava se incomodar”. É como parte integrante de embalagens para presente: entregou, ouviu. Queria ver alguém ter a coragem: “E incomodou, sabe? Tive de sair na hora do almoço para procurar alguma coisa para você, um trânsito! Acabei chegando atrasada para a reunião”. O que incomoda mesmo é não saber, com exatidão, qual sentimento está por trás da frase, dita quase sempre com reticências no final.

Ser sincero em tempo integral é inviável. Não funciona no mundo das pessoas. Só dos bichos. E olhe lá.

Segredo

Ilustração: Xavier/Flickr.com

A cor do casaco não caiu bem em mim. “Cor não cai”, lembrou o autor do presente. “Cor levanta”, filosofou. Ri. Mesmo assim, fui à loja trocá-lo. A vendedora grudou em mim. E não se tratava da síndrome de adesivo que a categoria tem. Ela realmente estava preocupada. Tensa. Escolhida a nova cor do casaco, ela se apressou em tirá-lo das minhas mãos. Fez uma semipirueta com ele e correu para o balcão. O motivo da preocupação: ela não queria que eu visse o preço da peça. Afinal, era um presente. Extirpada a etiqueta, a moça sorriu, aliviada.

Parece que tudo que se relaciona ao dinheiro tem sempre que estar envolvido em mistério, segredo, num tipo de confidencialidade, às vezes, sem muito sentido. Justo o dinheiro, troço dos mais antigos, conhecidos, comuns, populares.

A vizinha veio com esta, dia desses: “Desculpe-me perguntar, mas quanto você paga para a sua empregada?”. Outra, em época de matrícula escolar: “Sem querer ser inconveniente, quanto é a mensalidade do colégio dos seus filhos?”. Respondi com a naturalidade de quem informa o próprio signo, sem compreender o pedido de desculpas, nem a suposta inconveniência.

Fato: ninguém gosta que os outros saibam quanto se paga, nem quanto se ganha. Holerites vêm lacrados e só o pessoal de Recursos Humanos é onisciente. Bobagem. Como se nosso modo de vida, tão fundamentado e traduzido por coisas visíveis, não desse conta de fornecer, a quem interessar possa, uma ideia bastante aproximada sobre os nossos proventos. Mas ninguém pode saber. É segredo. A partir do qual parece – embora não devesse – nascer todo o resto.

Nós e o dinheiro, essa relação tão delicada. Ninguém sabe ao certo, além do óbvio, a quê realmente ele se destina, como ele vem parar em nossas mãos e o que faz o danado nos escapar. Que é tudo coisa do nosso inconsciente, já sabemos (ou nem tanto). Depende do que a gente viu, ouviu, aprendeu e fez na vida, desde pequenininho. São os famosos “padrões mentais”, impressos na gente que nem tatuagem. Uma tatuagem cor de pele, porém. Não dá para ver, mas ela está lá. Dinheiro é uma entidade. Masculina, forte, poderosa. Representa, ao mesmo tempo, bem e mal. Problema e solução. Amor e ódio. Segurança e insegurança. Felicidade e infelicidade. Tranquilidade e martírio. Vida e morte. Não tem nada mais doido que isso.

O que teria de mais em saber quanto o casaco havia custado? O quanto isso realmente importaria? Fosse uma bagatela ou uma fortuna, o que a informação, de fato, diria a respeito de presente e presenteador? Presente é, em essência e tese, amor. Se é caro, não significa amor maior. E vice-versa. Já vi gente ficar roxa de vergonha ao entregar um mimo e, por descuido, a bendita etiqueta com preço ter ficado nele. Cresci ouvindo que isso era feio. Acostumei-me. Acatei. Não questionei. Passei para frente, perpetuando o paradigma.

Será bom, no entanto, a gente começar a revisar o que sempre funcionou no automático. A nova ordem de pensamento em curso no planeta vai nos levar a um lugar diferente. É para lá que eu quero ir. E de casaco novo.

Carta para o motorista de trás

Moço

Logo vi. Alguém que gruda no carro um adesivo escrito “Festa do Peão de Boiadeiro, eu fui” não poderia ser alguém lá muito civilizado. Você pode até ter ido, moço. Para satisfazer seus instintos ancestrais. Mas não precisa contar para ninguém. Se fosse “eu vou”, eu compreenderia sua pressa ao tentar me ultrapassar pela direita. O evento é daqui cinco meses mas, com o trânsito de sexta-feira na capital paulista, você certamente chegaria atrasado.

Em todo caso, antes que você pense o contrário, eu não sou a culpada por ele. Estamos no mesmo barco. Embora, se estivéssemos de barco, era só pegar o rio Tietê e estaríamos longe, bem longe. Mas Deus nos deu rodas. Só nos resta brincar de somar as placas dos carros à nossa volta, checar os emails pelo celular, disfarçando bem para o amarelinho não ver, ou comprar pipoca de canjica oferecida de cinquenta em cinquenta metros pelos ambulantes, enquanto os fiscais não removem o caminhão quebrado ali na frente.

A maioria das pessoas diz, com orgulho, que não tem inimigos. Porém, ao ver pelo meu espelho retrovisor o seu olhar irado, os seus sinais que, confesso, nem sei o que querem dizer, mas boa coisa não deve ser, começo a acreditar que a afirmação não vale para mim. Não nos conhecemos, mas você age como se eu fosse sua inimiga. Ou, no melhor dos casos, um obstáculo a ser transposto, um organismo indesejável, um vírus a ser exterminado.

Que as pessoas se transformam atrás de um volante, todo mundo sabe. Quem nunca assistiu aquele desenho de Walt Disney, incrivelmente atual apesar de ter sido feito em 1950? Assim é você, moço. Meu avô diria que você está indo tirar o seu pai da forca. Mais alguns minutos e poderá ser tarde demais. O motivo da condenação do seu pai? Ter permitido que você tirasse carteira de motorista. Talvez nem você saiba por que está com tanta pressa. Afinal, o importante é ultrapassar, não ser deixado para trás, chegar antes. Ainda que somente dois minutos e quinze segundos antes.

Do meu posto, eu vejo tudinho o que você faz. Seu ar de enfado, sua investida frustrada na ruiva da pickup ao lado, seu ímpeto de viver um dia de fúria como o Michael Douglas. Não há saída, meu caro: ou encolhemos nossos carros, ou criamos mais ruas. Ou vamos todos viver felizes em Borá, o menor município do país, pertinho daqui. Nem todos os quase mil habitantes de lá têm carro, um sossego. No entanto, no meio desse caminho ficamos, eu e você, nessa relação tão delicada. Eu sou a motorista da frente que, para você, não anda. Você é o motorista de trás que, por não ver direito o que acontece lá na frente, dá de esbravejar, esmurrar, gesticular e ameaçar lançar seu carro contra o meu como se os cavalos do seu motor fossem de verdade. Trânsito é uma das mais tristes variantes da cegueira urbana, a psicopatia temporária manifesta até por cidadãos de bem. É, moço. O mundo ficou pequeno para tantos bólidos. E, por causa do caminhão, não adianta reclamar: todos nós passaremos, mas um de cada vez.

Por falar em mundo pequeno, já pensou se estamos indo ao mesmo lugar? Imagine: você está indo visitar um amigo no mesmo prédio onde mora minha amiga que faz aniversário hoje. Vai ter festinha e eu não perco o rissole de palmito da Dona Janu por nada deste mundo. Estacionaremos na mesma rua, aguardaremos juntos o porteiro nos anunciar. Você vai ao quinhentos e um; eu, ao seiscentos e dois. Como no desenho de Disney, você já terá desincorporado o malévolo senhor Wheeler para voltar a ser o gentil senhor Walker. Até se oferecerá para apertar o botão do sexto andar.

Não é impossível que isso aconteça, moço. Portanto, melhor você se comportar e parar de piscar o farol. Senão, eu conto para todos no elevador (lá no prédio onde, se meu devaneio fizer sentido, a gente vai se encontrar) que você tira meleca do nariz e depois fica analisando o material.

Atenciosamente,

Moça da frente

Panis et circenses

Ilustração: Thiago Carrapatoso/Flickr.com

Chama-se Praça de Alimentação. Mas poderia ser Festa das Nações, como aquelas quermesses de igreja, cheias de barraquinhas com comida típica de quase todos os cantos do planeta. Shoppings centers alteraram um bocado de coisas na vida das pessoas nas últimas décadas, e foram além: redesenharam o mapa-múndi – pelo menos no aspecto gastronômico – sob uma nova, interessante e apetitosa geografia. Nela, a Itália pode ficar ao lado do Japão, os Estados Unidos em frente à Arábia, a Alemanha vira vizinha do México. É a volta ao mundo em apenas algumas garfadas.

O mais interessante são os povos que circulam nessa pequena amostra de mundo. Todos falam a mesma língua, numa espécie de Babel ao contrário. Os comportamentos são parecidos, as afetações são gerais, a diversão é garantida. Embora eu faça parte desse microcosmo, por alguns instantes – meia hora, para ser exata – viro satélite. E vou capturando tudo.

Tem a turma do faz de conta. Faz de conta que não estão esperando aquela mesa vagar para saltar sobre ela com uma lança em punho, fincando nela sua bandeira. Faz de conta que não estão incomodados com a demora do casal que não termina nunca aquele cafezinho. Faz de conta que o refrigerante light vai salvar o estrago da lasanha. Faz de conta que eu acredito.

Tem a mulher que passa escolhendo o cardápio através dos luminosos, empertigada em seu traje de marinheiro. Terninho azul escuro, camiseta branca, sapatos bicolores azuis e brancos. Sisuda e séria. Barriga para dentro, peito para fora. Nenhum fio de cabelo fora do lugar. Seus passos são uniformes, como numa marcha. Instantes depois ela carrega com altivez sua bandeja. Mapeia o local e decide, estrategicamente, por uma mesa próxima à parede. Assim ficará de frente para o movimento, eliminando as chances de um ataque inimigo por trás. Senta-se e devora o filé à parmegiana com disciplina, condizente com as Forças Armadas. Mas em vez da Marinha ela poderia ter escolhido a Aeronáutica. Só para tirar um pouco os pés da terra, deixar as coisas voarem mais soltas, ao sabor dos ventos e, rumo às estrelas, descobrir que a Terra é azul.

Tem as Barbies. Moças que, se não nasceram iguais à boneca, foram dando um jeito pelo caminho. Embora algumas roupas só fiquem bem mesmo na original. Que não respira, não se mexe, não anda. Outras conseguem o impossível: ficar com a barriga incólume depois de um Número 1 com batata frita extra e meio litro de Coca-Cola. Só pode ser uma nova versão de Photoshop, que saiu dos computadores para a vida real. Como um spray, que pode ser levado na bolsa. Quem vai querer?

Tem o grupo de moças que reúne duas mesas para almoçarem juntas. Uma usa calça com cintura alta, quando não deveria. Outra veste blusa de um ombro só. O deslize: sutiã de alça de silicone. A bolsa de uma delas é Louis Vuitton, mas o sapato perdeu a validade há tempos. Enfim, entre as vítimas da moda, infelizmente algumas são fatais. Há poucas sobreviventes.

E tem a calça saruel. Oh, a saruel. A incógnita do início deste século. Se por um lado ela é uma celebração ao conforto e à liberdade de movimentos – a qual eu me rendo, sempre um pouco hesitante – por outro é uma quase afronta estética, um acidente. A saruel talvez seja o fundamento sobre o terceiro segredo de Fátima. Revelado antes da hora e, por isso, ainda incompreendido.

Tem a mãe que estaciona o carrinho do bebê, praticamente ocupando o espaço de outra mesa. Uma verdadeira extensão do quarto do pimpolho e da cozinha da família. Confiro os itens: uma mamadeira para água, outra para suco. Mais a de leite. O vidro com a papinha. O pratinho para a papinha. Um arsenal de babadores descartáveis. Dois travesseiros. Quatro brinquedos. Uma bolsa azul-clara de onde se tira tudo. E a mantinha, vai que o tempo vira. Ainda bem que tem rodas.

Tem outra de bebê. Sentada em seu cadeirão, a menininha tem um séquito de ajudantes para a mais simples das tarefas: comer. O avô segura-lhe o copo; o pai, o prato; a mãe faz o aviãozinho com a colher. Mas não há ninguém disponível para a única coisa que ela necessita, de verdade, naquela hora: pegar sua bonequinha que caiu no chão. É acudida pelo irmão mais velho. De três anos.

Tem o adolescente que pede dinheiro para o pai, quer um milk shake.  Ele se levanta e em dez segundos identifico, com extrema facilidade, cinco logomarcas na sua indumentária. Se ele fosse uma revista, seria remunerado para tê-las nas suas páginas. Mas ele ainda nem é um gibi.

Tem o casal que em meio a tudo – ou nada – promove um beijo longo e apaixonado, desses de cinema. Dá vontade de sentar na frente deles com um saco de pipocas, só para assistir. Eles não ouvem a sinfonia das latas de refrigerante se abrindo. Nem assistem a dança das cadeiras. A trilha sonora deles é outra.

Devo ser alvo de algum ‘satélite’, também. Talvez perguntem o que foi que comi, para rir sozinha e escrever tanto no verso do papel que veio na minha bandeja. Simples: sopa de letrinhas.