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Atende!

phone
arte: Alanna Cavanagh

Peço o livro ao atendente, ele consulta o sistema, tem. “Um minuto, vou buscar”. Assim que o Alexander – li no crachá – vira a esquina da seção de gastronomia, o telefone do pequeno balcão toca.

Olho ao redor. Ninguém com crachá. E agora?

Sofro quando um telefone toca e ninguém atende. Tenho urgência de alôs.

Não devo me meter, não sou funcionária da livraria. Mas a pessoa do outro lado da linha não tem culpa de o Alexander ter ido buscar o meu livro, e não ter mais nenhum atendente por perto. E se é um pai que precisa, com urgência, de um livro para a filha fazer o trabalho de Ciências, que não tem em lugar nenhum, quem sabe ali?

O ring-ring nervoso me deixa nervosa. Só eu ouço? Um telefone invisível, um tilintar (meu pai que fala tilintar) inaudível, captado apenas pelos meus, agora angustiadíssimos, ouvidos. Olho os fregueses. Nenhum parece ter – e, na verdade, não tem – nada com isso. Quem tem é o Alexander, que deve ter ido à editora a pé buscar meu livro, só pode. E os colegas dele resolveram todos sumir. Esse negócio de megastore é lindo, mas duvi-de-o-dó que um telefone toca mais de cinco vezes em uma livraria pequena.

É pegadinha. Sempre acho que estou em uma. Atendo; a pessoa procura por um título escalafobético qualquer, entabula uma conversa sem pé nem cabeça, difícil de se desvencilhar; peço, toda educada, que aguarde, vou chamar um atendente; a pessoa diz, então, para eu olhar para trás; eu olho e tcharam! Estou na TV. Todos os funcionários, inclusive o sacana do Alexander, mais dezenas de fregueses curiosos, morrem de rir.

Nem morta que vou atender.

Mas e se, do outro lado da linha, for um senhorzinho, desses que usa cachecol xadrez e gosta de ir à livraria encomendar livro, para depois ir de novo buscá-lo, querendo saber se sua encomenda chegou? Quer tanto aproveitar o feriadão de Páscoa para reler os contos reunidos da Lygia Fagundes Telles, dizem que a nova edição ficou supimpa. Senhorzinhos que usam cachecol xadrez falam supimpa.

O telefone segue se esgoelando. É um pobre solitário na ilha do pequeno balcão, cercada por um mar de leitores, não de ouvidores. O Alexander escafedeu-se. Deve ter infartado na seção de auto-ajuda e não há ali ninguém para socorrê-lo. Só ele, com uma atitude positiva e pensamento focado, pode se salvar.

Aliás, pode ser um parente da moça do caixa, avisando que o avô está no hospital, que o caso é grave, que estão pedindo a presença de todos da família. AVC, igual ao bisavô, que sina! É o tipo de telefonema que não pode não ser atendido. Um minuto faz toda diferença em uma despedida.

Pronto, está decidido. Pelo trabalho de ciências da garota, pelo senhorzinho de cachecol xadrez, pelo avô da moça do caixa, pela memória de Graham Bell, vou atender.

Seja o que Deus quiser.

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Olhai as linhas do chão

Arte: Paula Pérez i de Lanuza
Arte: Paula Pérez i de Lanuza

É estar no banco, nos Correios, na loja de departamentos ou qualquer lugar onde a fila se faz necessária para organizar o atendimento, e é essa joça.

Fazem a marcação no chão, bem bonita em amarelo, para otimizar o espaço e guiar a (sempre grande) fileira, e as pessoas fingem que não é com elas. Vão chegando, se juntando e, a despeito da indicação virtual de caminho, criam uma linha humana contínua, no melhor estilo Deus-dará.

É gente aérea, alheia, programada no individual. Não aprenderam a formar fila. Não fizeram pré-primário com a Tia Neide.

Tia Neide era gordinha e tinha bochechas rosadas. Reunia seus alunos-mirins no páteo e ia compondo a fila por ordem de tamanho. Menores na frente, maiores atrás. Ela tinha vinte e sete anos. Eu, seis, condenada à eterna pole-position junto com uma ou duas amigas. Batia o sinal da entrada e seguíamos, obedientes e em fila indiana, para a sala de aula. (Fossem as filas de hoje organizadas por estatura, provavelmente eu não ficaria muito distante da antiga posição.)

A agência do Correios está cheia. Bastam duas pessoas para justificar uma fila. Sou a sexta. Lá estão as guias no chão, rejeitadas e ignoradas em sua missão. Bufo, encaro o primeiro da fila, concentro-me e tento enviar-lhe uma mensagem telepática, “Olhai as linhas do chão, ó irmão”. Ele não se move. Plantado fica, no epicentro da geometria desenhada sob seus pés. Nem cá, nem lá. O segundo, o terceiro, o quarto e o quinto o acompanham. A atendente chama, “Próximo”. É a deixa. Ensaio o movimento para tomar o lugar certo, na esperança que os demais da fila se animem com a reconfiguração. Nada. Estou só, ilhada sobre a setinha apontando para a frente, enquanto todos seguem o novo líder que, para minha tristeza, fez escola com o cliente que já está sendo atendido no balcão. Correndo o risco de perder o agora quinto lugar, volto, sob silenciosos protestos, ao meu posto original. Faço mimetismo na fila que não pensa.

Não sou a Tia Neide, nem estou no velho páteo, mas lanço, tímida, o desafio. O último da fila, pobrezinho, já está com um pé para fora da agência. “Pessoal, vamos seguir a marcação?”. Silêncio. Ninguém se move. Mais fácil conquistar apoio para uma missão de paz na Síria. A atmosfera de pouco-caso se instala no ambiente. É o desdém à ordem e ao progresso. Viro a chata, a general. Audácia da pilombeta.

Alguém precisa avisá-los que aquilo não é um jogo e não perde pontos quem fica dentro da faixa. Que é amarelinha, tem céu, mas não tem inferno. Inferno é a anencefalia coletiva.

O que faria Tia Neide se estivesse ali, postando suas cartas? Pegaria gentilmente nas mãozinhas de cada um e os conduziria ao seu lugar? “Sem bagunça e sem empurrar; Fulano, não puxe o cabelo da colega”.

Nada disso. Tia Neide, hoje com 67 anos, iria ao caixa preferencial. Não se comoveria com meu drama, não daria ouvidos à minha inconformação. Diria que é coisa de criança.

Tia Neide e sua turma do pré-primário (eu, na fileira do meio, a quinta da esquerda para direita). São Paulo, 1973. Arquivo pessoal.

Assim na terra como no céu

Foto: Tatiana Machado

“Aqui está seu tíquete. Embarque no portão 3, boa viagem”. É domingo. O destino: Salvador, na baía de Todos-os-santos.

No ar, lá pelas tantas, vêm os comissários de azul e branco oferecendo coisinhas para o fim de noite. Um deles tem no rosto um sorriso e, no crachá, nome de arcanjo. Aproxima-se de mim, “A senhora gostaria de beber alguma coisa?”. Peço café. “Não temos, senhora. Só água, refrigerante e suco”. Desapontada, agradeço. Paciência. Retorno ao meu estado de quase-cochilo, sonhando com uma xícara de café bem quente e forte entre as minhas mãos.

Vinte minutos depois, ele tenta mais uma vez. “A senhora não quer nada mesmo?”. Faço beicinho, “Só um café…”. Mas, já sei, não tem café.

Meia hora mais tarde, ele reaparece. Desta vez, pede que eu o acompanhe até o fundo da aeronave. Oh meu pai, que será?, penso, enquanto tiro os fones do ouvido. Vou atrás dele, me equilibrando em meio à leve turbulência. Ele remexe os armários, abre uma portinhola, avisto uma centena de pacotes de salgadinhos. Como é que cabe tudo ali dentro? Ele segreda, baixinho: “Não podemos servir café a essa hora. Mas eu vou fazer um pra você”.

Meu sorriso foi de asa a asa. O “senhora” lá de trás fora substituído, agora o arcanjo uniformizado era meu chapa. Enquanto prepara o café exclusivo e proibido, ele pede para que eu não conte a ninguém. “Será nosso segredo”, trato de tranquilizá-lo. Aviso, porém, que não tenho como deter o aroma se espalhando pelo corredor. “Não sei de nada”, direi, em caso de inquisição.

Arcanjos, os anjos da terceira hierarquia, são “os que executam as ordens de Deus e conhecem a fundo a natureza humana”. Explicado estava. Deus sabe que o café é uma espécie de oração.

Ele me entrega o copo de isopor, “Açúcar ou adoçante?”. Tomo ali mesmo, escondidinha e feliz da vida. Estar nas nuvens ganha novo sentido.

Como agradecer? Não poderia elogiá-lo publicamente pelo seu ato de compaixão. Longe de mim complicar a vida do rapaz, fazê-lo levar um pito do chefe. Não sabem eles, CEOs cravados em terra firme, que, às vezes, não são os milhões investidos em propaganda, mas a regra quebrada, um improviso no script pronto, uma justificada desobediência, que gravam o nome da companhia na nossa memória. Avião é commodity. Quem faz um voo é gente de carne e osso e, eventualmente, um par de asas invisíveis.

Cheguei acordadíssima ao destino, graças ao arcanjo de bordo – meu verdadeiro salvador. Porque, no final das contas, foi feita a minha vontade. Assim na terra como no céu.

Do quê que é?

Ilustração: Alanna Risse/Flickr.com

Eu que não serviria para trabalhar em lanchonete. Não me assusta ficar oito horas em pé, espremer laranjas, lavar copos. O desafio é passar o dia explicando do quê são os salgados. É raro ver legendas nas vitrines. Imagine repetir, duzentas vezes, que o enroladinho é de presunto. Só pão de queijo dispensa apresentação, é quitute com RG à mostra.

Nunca encontrei alguém que descrevesse os sabores das iguarias com paciência e boa vontade. Deve-se ir direto ao assunto, se não quiser despertar a cólera do atendente: “Quero aquele ali”. E contar com a sorte, como numa loteria. Saber administrar o prêmio, se for o caso. Ou então, lançar o pedido pá-pum: “Um pão de batata com requeijão, por favor”. A resposta é a solução: “Acabou. Só tem de frango”. A situação se agrava quando se trata dos doces, bem mais complexos em suas composições.

Miro a bandeja dos croissants, o lugar faz uns fantásticos. Gêmeos múltiplos e idênticos, não fosse metade estar organizada de um lado, metade do outro. Alguma diferença há de ter. Na tentativa de adivinhar o sexo de cada um, espicho os olhos por cima do balcão; a vista aérea costuma ajudar. Mudo o foco, ativo o terceiro olho, tiro no tarô. Nenhuma evidência. O jeito é perguntar. Responde o dragão verde-fel, cuspindo fogo, enquanto aponta as extremidades da bandeja: “Peito de peru”. “Catupiry”. Opto pelo segundo. Primeira mordida, eca. Dragões também se confundem. Empunho meu escudo antichama e reclamo. Troca feita, outra abocanhada e… surpresa: nem uma coisa, nem outra. É de pizza. Fico bem quietinha. Eu, hein.

Crônica de minuto para quem enxerga bem

Ilustração: Jeff Turner/Flickr.com

À minha frente, na fila, ela chegou a esbarrar em mim. Desculpou-se. Não foi nada, respondi. Pediu um pão de queijo, um espresso, quis saber se tinham macaron. Quando o gerente do café, Thiago – não posso ver crachá, que leio –, aproximou a maquininha do cartão da mão tateante da moça, foi que notei. Era cega. E estava de salto alto. Eu, que tenho dois olhos funcionando bem, não me animo a reativar os meus, empoeirando no armário.

Olhos cegos não são olhos desligados. Tampouco são como aqueles bolsos falsos, só decorando a roupa. Olhos cegos inventam para si outra função. Aprendem o invisível. Farejam o oculto. São bolsos onde a alma guarda alguns dos seus segredos.

O Thiago, que enxerga longe, não só a ajudou na hora de pagar, como a acompanhou até a mesa. Fez a acessibilidade na prática, recheada de gentileza.

O contraponto: no final do nosso lanche o Luca, sete anos, quis mais um croissant. Dei-lhe três reais, deixei-o ir comprar sozinho. Ele ficou na fila, bonitinho. Na sua vez, o Thiago não o enxergou junto ao balcão que tinha quase a sua altura, e já ia atendendo o próximo freguês. O que os olhos do Thiago não viram de perto, meu coração sentiu de longe. Levantei-me e fui ao caixa, ajudar meu filho.

Enxergar ou não enxergar. Eis a questão.

Carta para uma vendedora

Ilustração: Josi Stanger, fiel leitora deste blog

Moça

Vamos encarar a verdade: chegamos, como a maioria dos casais (embora não sejamos exatamente um) àquele ponto onde é preciso discutir a relação. No nosso caso, microrrelação. Se na vida de um casal a crise leva algum tempo para se instalar, para nós bastaram o quê? Uns três encontros. A loja onde você trabalha é uma das minhas preferidas, e nas últimas vezes calhou de só você estar disponível. A sorte é que nós duas somos mulheres, temos a moda a nos unir, há de ser mais fácil o entendimento. Nosso planeta de origem, Vênus, é o mesmo e isso ajuda um bocado. Proponho, então, uma espécie de terapia – como a de casais –, onde cada uma expõe seus sentimentos. Eu começo, pode ser?

Primeiro: apesar de fundamental num relacionamento, eu não vejo necessidade de nos chamarmos pelo nome. Não há meio de eu decorar o seu. E assim você não troca mais o meu. Que não é Soraia.

Segundo: não há nada mais bonito numa relação do que um querer ver o outro para cima, feliz. Porém, devo tranquilizá-la: nem tudo fica bem em mim. Nem todas as cores me favorecem. Nem tudo ‘me valoriza’. Quatro décadas sob a ação da gravidade, dois filhos, carboidratos a mais e exercícios a menos têm seu preço. Conheço meus limites.

Terceiro: sinto que precisamos ter mais momentos em que não estamos juntas. Quando estou no provador, por exemplo. Aquela hora é só minha. Ali, desnudada, encaro detalhes que o velho espelho do quarto não dá mais conta de mostrar. Experimento um ângulo diferente, brinco com meu reflexo, me dou broncas, faço auto-elogios, traço metas, confiro a evolução da celulite, percebo que preciso limpar minha bolsa, pendurada no gancho. Seria importante não ser interrompida de dois em dois minutos com “Está dando certo?” ou “Posso ver como ficou?”. Eu não peço para ver tudo o que você está fazendo, peço? Então.

Mais alguns segredinhos. Quando termino minha compra, terminei mesmo. Entendo que talvez a mensalidade da sua faculdade dependa disso, mas não fica bem insistir com “Não vai levar mais nada?” e “Hoje é só isso mesmo?”. That’s all, folks.

E eu juro: para mim, não faz diferença saber que vermelho está mais na moda que azul. Eu sempre vou preferir a cor que, no dia, combinar mais com a minha alma.

Por fim, não custa lembrá-la: eu não sou o seu bem.

Agora é a sua vez. Serei toda ouvidos.

Um abraço,