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Receita

Eu bem que tento. Corto a abobrinha dum jeito, corto doutro. Fatio fininho, fatio mais grosso. Produzo cubinhos maiores, menores, médios. Ora deito na panela pouco óleo, ora bastante. Alho e cebola, sempre. Refogo, provo o sal, deixo cozinhar. Depois, quebro os ovos por cima e espero a mágica acontecer. Quando gema e clara estão a um passo de firmar, revoluciono tudo com a colher de pau. Então sirvo.

Ficar bom, fica. Pouco lembra, no entanto, a iguaria da infância, de sabor e receita registrados naquele caderno invisível, com letra de mão de mãe. Sempre falta alguma coisa. A toalha xadrezinha sobre a mesa de fórmica, os pratos duralex que não quebravam nunca. Faltam o quintal de caquinhos vermelhos e o porão onde ficava a enceradeira. Falta a Françoise Hardy na vitrola, com sua “La Question”. La question que não cala: por que não sou capaz de reproduzir a abobrinha com ovo da minha mãe? Algum tempero secreto, será? Eu exagero nos ovos? Falando em ovo, quem nasceu primeiro, o amor ou a saudade? Que tonta, eu. Falta é ela.

A gíria é velha: quando alguém falava bobagem, dizia-se que estava “falando abobrinha”. Injustiça. Eis aí legume bacana, de boa com a vida. É ter abobrinha dando sopa na geladeira e o banquete está garantido (inclusive sopa). Logo, na minha avaliação, falar abobrinha é bom. “Benzinho, me fala alguma abobrinha” – sussurraria a mocinha apaixonada, na novela das seis.

Contam que minha sogra fazia a receita. Em vez de abobrinha, porém, vagem picadinha. Família é assim. A base é a mesma, só mudam os personagens. Ou ingredientes.

Fiz abobrinha com ovo esta semana, para acompanhar o arroz e o feijão. É o sabor e a receita que meus filhos terão registrados em seus próprios cadernos invisíveis, com letra-mãe. Não saberão da abobrinha com ovo da avó, que não conheceram. Memórias culinárias são feitas de passado, embora se construam no presente. E repetir receitas afetivas é uma forma de perpetuar a espécie, um modo bom de fazer vida. Eu vivo falando das minhas. E se, por acaso, disserem que falo muita abobrinha, já sabem: é elogio.

(crônica finalista no Prêmio Off Flip/Festa Literária Internacional de Paraty, abril/2021)

O miolinho do chuchu

Esta não é uma crônica culinária. Ou é. Um pouco, talvez.

Sempre tirei o miolinho do chuchu. Descasco, vou com a faquinha e extirpo aquela parte branca, estranha, diferente, desconhecida. Foi assim que via minha mãe fazendo, que via minha avó fazendo, que via minha bisavó fazendo. Modo de fazer é praticamente uma coisa genética.

Como se ele, miolinho, fosse feio, sujo e malvado, merecedor da rejeição dos humanos. Quem sabe, tóxico como as folhas de comigo-ninguém-pode do velho quintal e que eu tinha medo até de por a mão. Ou, no mínimo, que estragaria, irremediavelmente, o meu refogado.

Mas nunca ouvi falar de alguém que houvesse batido as botas por ter comido o miolinho do chuchu. Também não se tem notícia de manchete na primeira página, “Homem é internado às pressas depois de jantar; esposa fez chuchu e não tirou o miolo”.

Recentemente, aprendi que não precisa tirar. Que os miolinhos também são filhos de Deus e devem ser deixados em paz.

Passei a vida comendo e preparando chuchus desmiolados, à toa. Cozinhei meus próprios miolos a fim de compreender de onde vinha o hábito. Não vem de lugar algum. Melhor dizendo: vem, sim. Vem do grande caldeirão onde ferve nosso caldo cultural. Miolinho de chuchu é uma espécie de manga com leite, pontinha esfregada do pepino.

Ontem comprei chuchu. Posicionei na bancada a tábua, a faquinha. Lavei-o e descasquei-o (já não tenho certeza se a casca precisa mesmo ser retirada). Parti-o ao meio. Encarei o sechium edule, me encarando de volta em sua chuchuzice alviverde. Ficamos ali, em franca telepatia humano-vegetal. O corte transversal lembrou-me um útero, a preparar e guardar a vida. Eu tinha duas alternativas: perpetuar a lenda, ou destruí-la. Três: escrever para a Palmirinha.

Mudar um hábito ancestral desse, bicho! Nananina-não. Vou tirar, pronto, resolvido; e se minha família cai dura depois do almoço?

Eis, porém, que meus miolos resolveram aceitar a novidade. Foi tudo para a panela: o chuchu inteiro e minha crendice partida.

Todos comeram, nem repararam. Só eu. Fartei-me. Não veio febre, nem indigestão, nem mal súbito. Ninguém adoeceu, não abreviei a vida.

Viva o miolinho do chuchu.

Para Neide Rigo

Acredite se quiser

Jamais contei essa.

Para não correr o risco de passar por mentirosa, loroteira, gabola, bazofiadora. Porque, se eu não houvesse vivido o causo em primeira pessoa, parece mesmo mentira, lorota, gabolice, bazófia.

Agora vou contar.

Talvez, a maturidade tenha me trazido autoconfiança, um certo nem-te-ligo para o que o povo fala. Também porque é preciso contar histórias tão reais quanto improváveis, pra tornar o mundo mais crível.

Minha irmã, testemunha ocular, também jamais a contou. Para, penso eu, não correr o risco de passar por mentirosa, loroteira, gabola, bazofiadora.

N’algum dia da longínqua década de 80, fritávamos batatas. Panelão com óleo borbulhando, as batatinhas lá. Cortadas em palito, trabalhando a mágica de ficarem crocantes por fora e macias por dentro.

Peço que prestem atenção aos elementos essenciais da história: fogão – fogo – óleo.

Quase prontas, eu as revolvia no óleo quando, por algum movimento desastrado, a panela virou. Eu tinha o péssimo hábito de cozinhar coisas líquidas e derramáveis na boca da frente do fogão. E não na de trás, como manda o manual da cozinha segura.

Panela tombada, batata e óleo pelando desabaram feito uma cachoeira do último círculo do inferno de Dante, romperam como o magma do centro da Terra – valei-me, Júlio Verne! – sobre meus pezinhos… calçados com míseros chinelinhos de dedo.

Quedada, procurei o olhar da irmã. Talvez, para certificar-me que eu continuava viva e a visão da cozinha não era um apenas um lampejo pós-desencarne, esses que os mortos contam em cartas psicografadas, relatando que viram suas almas se desprendendo dos corpos, aquelas coisas.

Então, concluí: eu estava ali, sim, vivinha da silva. E que meu par de pés número 35 acabara de ser escaldado em óleo de soja, feito nuggets.

Pois bem. Meus pezinhos, alheios às leis da termodinâmica, não haviam se transformado em uma imprestável geleia morna de pele, carne e osso. Tampouco em uma massa derretida e sanguinolenta. Estavam apenas e tão somente avermelhados. Como se eu tivesse apanhado um solzinho sem Coppertone.

Acredite se quiser.

Incrédula, fui lavar os pés lambrecados no banheiro, sem saber ao certo a que santo ou entidade agradecer. Minha irmã, igualmente incrédula, limpou o chão, que permaneceu quentíssimo por muito tempo. Assim como meus chinelos. O rango, porém, fora para as cucuias. Mas não adianta chorar pela batata derramada.

Está certo que batata frita é iguaria incomparável, universal, unânime, a única capaz de unir os povos (talvez, ao lado da pizza), e tem em si um aspecto realmente divino. Mas até eu achei o milagre meio exagerado.

E agora que me animei, vou contar outra, também inédita. Podem me chamar de mentirosa, loroteira, gabola, bazofiadora.

Morávamos em casas coladas, a nossa e a dos nossos avós, unidas pelo quintal. Eu estava no quarto dos meus pais. Minha avó em seu quarto, no extremo oposto. Cuidava de meus afazeres adolescentes quando a ouvi me chamando, num brado fraco. Silmaaaraaa. Parei o que estava fazendo, fui atendê-la. Cheguei ao quintal e já ia subindo à sua casa, quando encontrei ali a Caró, minha cachorra, engasgada com um osso de frango. Acudi a pobrezinha, sabe-se lá o que teria acontecido se eu não chegasse naquele exato momento. Cachorra salva, dei-lhe um beijinho e subi a pequena escada para ver o que dona Zéfina queria comigo. Ela, plácida em seu sofá de curvim verde, disse: “Não te chamei, não”.

Acredite se quiser.

O escorredor e a zona de conforto

Depois de vinte anos de bons préstimos, julguei ser hora de substituí-lo. Suas hastes metálicas, já carcomidas pelo tempo, seu espaço útil aquém do necessário, seu visual demodê, enfim, haviam dado o que tinham que dar. Então, comprei um escorredor de pratos novinho da silva.

Design moderno, preto-chique, bonitão. Até porta-copos acoplado tem – o que me agradou sobremaneira, pois assim teria mais espaço na bancada para preparar o almoço, picar os vegetais, fatiar o pão. O velho, desprovido do item, me obrigava a ter um porta-copos avulso, de plástico feioso, atravancando a pia em dia de muita louça.

O velho, no entanto, é praticamente da família. Um agregado, quase parente, sempre ajuda na lida, é de boas. Não fala mal de ninguém. Fica lá, na dele. Apesar disso, depois de uma vida nos servindo, enviado à reciclagem foi.

Engana-se quem pensa que escorredor de pratos é tudo igual. Cada um tem sua personalidade, seu modo de ser e de estar, de ver a vida e a louça. E ocorre que o novo ser que passou a habitar minha cozinha e compartilhar da minha intimidade, embora repleto de virtudes, me incomodou.

O tal porta-copos, por exemplo. Tão valorizado até então, revelou-se estar – de acordo com a geografia da minha pia – do lado errado. Se boto ali os copos para escorrer, dificulta-me o acesso ao andar térreo do escorredor. Tenho que esticar o braço assiiim, ó. Tem mais: o engenheiro que projetou as hastes para os copos nunca lavou um. Impossível dispor copos lavados lado a lado. Que fiz? Com jeito, dei uma entortadinha nelas. Minha Nossa Senhora do Design chora. E a Santa Gambiarra sorri.

Se o leitor pensa que o problema seria resolvido se eu, simplesmente, invertesse a posição do escorredor, enganou-se. Se assim eu o fizer, os pratos lavados ficarão de costas para mim, mirando a parede. Onde já se viu? Então, dos males, o menor. Eu estico o braço, vai. Escorredor bom é aquele que pode ser colocado à direita, à esquerda, de frente, de lado. Como o velho.

Para restabelecer a harmonia na pia, já o troquei, sim, de lugar. Mexi nos satélites naturais da pia, como o lixinho, o porta-detergente. Cogitei trocar o filtro d’água de lugar, mover o fogão embutido. Nada. O feng-shui da bancada continua descalibrado. Será por isso que engordei?

Já o velho escorredor… ah, esse sabia de todas as manhas das minhas louças. Conhecia cada xícara pelo nome, sabia se alguma faca estava sem fio só pelo seu som ao cair na cuba. Já pegara a forma das minhas panelas, fazia mimetismo com o mármore da pia, me aconselhava a pegar leve na Nutella.

Vinte anos, bicho. Mais velho que meu filho, que tem dezessete. Está em casa antes mesmo que eu e seu pai nos conhecêssemos. Quis retorná-lo ao seu posto, e dar o novo escorredor de presente a alguém. Lembrei que fora para a reciclagem. Tarde demais. Feliz de quem o pegou.

O velho escorredor de pratos representa o sabido, o conhecido, o previsível, o fácil, o confortável. Zero trabalho.

O novo escorredor é o desconhecido. O estranho no ninho. O que altera a paz da pia. O que bota minhas sinapses pra dançar o tchá-tchá-tchá. O que ri da minha parvoíce. O que revira meus padrões, solidamente construídos ao longo de meio século.

O novo escorredor de pratos me tira da zona de conforto como o sorvete de pequi, quando o experimentei. Tão mais simples pedir de chocolate, Silmara. O velho sabor parceiro, sem surpresas, mas bom e prazeroso. O de pequi alvoroçou as papilas, tocou sirene no cérebro, ativou a careta. E agora tem um sorvete de pequi, de design moderno, me encarando na pia, enquanto lavo os pratos do almoço. Se seremos amigos, um dia, o tempo dirá. Até lá, muita água há de rolar. Digo, escorrer.

De panelas e pressões

arte: Johanna Kindvall

Enquanto lavo a louça do almoço, vejo meu rosto refletido na tampa da panela de pressão. No convexo espelhado, detecto olheiras que não existiam na pré-pandemia. Leio no alumínio: “Clock”. E esse relógio do planeta, que amalucou geral? Para uns, o tic-tac estancou. Para outros, disparou. Para mim, os dois. Envelheci cinco anos em cinco meses. E ainda espero pelo feliz ano novo.

É tanta panela de pressão que explode, leio nos jornais. Sempre tive medo de elas levarem pelos ares minha casa, meus filhos, meus gatos, meus feijões. No planeta azul, a pandemia explodiu, espalhando coronavírus pelos ares. Cozinhar e viver, não parece, mas é perigoso.

E a primeira pandemia a gente não esquece. Fique em casa. Use máscara. Lave a mão. Tire o sapato. Fecha comércio. Abre comércio. Tome cloroquina. Não tome. Pare de contar os mortos. Não pare. Espere a vacina. Não espere. Vá para a escola. Não vá. Ai de mim. Tem dia que eu só queria ser um feijão.

Ensaboo a tampa, invento espuma. Quero brincar de “espelho, espelho meu”. Mas estou pelas tampas com a quarentena. E com tempo de sobra para a louça. Na minha pia não tem pressão, baby.

O quê, dessa cilada sanitária, a gente ainda não sabe, e deveria? O que os livros de História dos filhos dos meus filhos contarão sobre 2020? No ombro de quem Deus chora? Boto tampa e panela no escorredor, para secar. Para o jantar, vou fazer sopa de perguntas com as letrinhas que sobrarem.

Tenho a impressão que este planeta é um imenso caldeirão, a cozinhar lentamente a humanidade. Que nunca fica pronta.

A salada de pepino do meu pai

pepino

Ninguém faz salada de pepino como meu pai. Ninguém. Não que Seu Tonico arrase nas artes culinárias. Ele é MasterChef de um sucesso só. Ao menos, para a caçula aqui.

Desde meus tempos de criança, ingredientes e modo de fazer são (ou eram) os mesmos, seguidos à risca. Eis a receita para criar um clássico.

Para começar, ele nunca usou tábua de cortar. O pepino caipira, nu, se encaixava em sua mão esquerda. A direita, munida de faquinha comum, tratava de fatiá-lo em finíssimas e consecutivas rodelas, que iam despencando harmoniosamente na bacia. Sempre sem casca. (Não me venham, nutricionistas de plantão, bradar a importância dos nutrientes da casca nos processos digestórios, nem adeptos do consumo consciente dizer que não pode desperdiçar comida. Pepino do Tonico é sem casca e zéfini.)

Por cima da multidão verde-clara, apenas a tríade mágica: sal, vinagre e azeite. Nada de pomposidades como azeite de primeira prensagem de azeitonas gregas, vinagre de uvas Trebbiano, flor de sal extraído da Normandia, ervas esquisitas ou outra coisa. O segredo ancestral era simples, bicho: o velho sal Cisne, vinagre Palhinha e azeite Maria, a mãe das saladas da minha infância. Que nem azeite era.

Algumas rodelas escapavam do padrão super fino e saíam levemente mais grossinhas. Quando eu encontrava uma, fazia de conta que era prêmio. Quem disse que comer legume é chato?

Também nunca entendi por que pepino é sinônimo de problema. Se dizem, “Rapaz, que pepino!”, certamente é de coisa boa que estão falando.

A salada de pepino do Seu Tonico é (ou era), em si, o cardápio inteiro: entrada, prato principal e sobremesa. Um espetáculo sensorial, arregimentando visão, olfato, paladar e felicidade. Felicidade também é um sentido, meu bem.

Jamais consegui reproduzi-la. Ora erro na espessura das rodelas, ora exagero no sal. Talvez isso não passe de autossabotagem, só para perpetuar a iguaria paterna no rol da fama. Importante que continue, portanto, incopiável.

Quis terminar dizendo que, assim que passar essa quarentena maluca (um “pepinaço” mundial, para os que preferem a conotação negativa do Cucumis sativus) e as coisas voltarem à alguma normalidade, vou trazer Seu Tonico aqui em casa. Para que reproduza, em almoço comemorativo, a tradicional salada, que não provo há tanto tempo. Mas, na verdade, eu não quero.

Receio que, se ele a fizer, o resultado não seja o mesmo que alimentou, tão saborosamente, minha criancice. E se ele mudou o jeito de fatiar? Se inventar de salgar menos? A preocupação com o sal é diretamente proporcional à idade. Se, lá no meio, eu não encontrar nenhuma mais grossinha? E, mais temível que tudo: se a primeira frase desta história não fizer mais sentido?

Melhor não arriscar, e manter a sagrada salada bem guardadinha na geladeira de conservar lembranças. Aquela, que não deixa nada estragar.

Quando a quarentena acabar, vou convidá-lo para almoçar aqui. Direi: “Pai, hoje eu faço a salada”.

Por garantia.

Os furinhos do arroz

Diminuo o fogo, tampo a panela. A superfície do arroz está cheia de furinhos. Lembrei: de criança, pedia para minha mãe fazer “arroz com furinhos”. O mais gostoso do mundo. Engana-se quem pensa que esses miniburacos são resultado de simples fenômeno físico. Há mais coisas nos furinhos do arroz cozido do que sonha nossa vã gastronomia.

Ao lado do fogão, eu vigiava a panela semitampada até que a água começasse a secar, dando lugar à mágica dos furinhos. Na ponta dos pés, espiava dentro deles, na tentativa de descobrir-lhes a razão. Nada via, além dos borbulhos. Se a visão não trazia resposta, o olfato se esbaldava: meu nariz era inundado pelo vapor perfumado do alho, da cebola e do cheiro verde temperando os grãos.

Logo eu me distraía com outra coisa. A gataiada brigando no telhado, a vizinha tocando a campainha, o mandrová na folha da comigo-ninguém-pode. Até ouvir o chamado, “Tá na mesa!”. Eu pedia e, com a escumadeira, minha mãe escavava apenas a primeira camada do arroz, capturando, assim, os furinhos. Que se desfaziam no encontro com o caldo do feijão. Tem comida que é pura oração.

Já o arroz da minha avó, que passou a cuidar dos netos quando meus pais abriram a venda e nela trabalhavam o dia todo, era empapado. Não continha furinhos. Nem sabor. Houve época em que reclamamos. Minha mãe resolveu fazer nosso arroz na venda, entre um freguês e outro, numa cozinha improvisada atrás do balcão, trazendo-o à noite para casa. Não era a mesma coisa. Quando ela ficou doente e parou de trabalhar, ganhamos o arroz de volta. Eu não sabia se ficava triste ou alegre.

Desligo o fogo, aviso que o almoço está pronto. Meus filhos disputam a escumadeira para ver quem pega primeiro o arroz. Pergunto se está gostoso. Bocas ocupadas, seus olhinhos apertados dizem ‘sim’. Então concluo: os furinhos do ancestral cereal continuam mágicos. Dentro deles cabem presente e passado.

Lembrança é um prato cheio para a saudade.

A verdade sobre comer, rezar e amar

arte: Paul Downey
arte: Paul Downey

Há no mundo um exército dedicado a nos convencer de que cozinhar é uma experiência próxima ao nirvana, o maior ato de amor, a epifania máxima.

Cozinhar pode ser literalmente delicioso, quando rotina, obrigação e horário não estão na parada.

No combate ao mimimi culinário, minha colher de pau e eu estamos aqui para lhes dizer, ó chefs afetivos, que o negócio não é bem assim.

A magia de poder preparar no fogão o alimento da ou das pessoas amadas, embora real, não se aplica a quem precisa fazê-lo todo santo dia, sob a vigilância implacável do relógio e da agenda.

Fora isso, é, de fato, estimulante preparar aquele peixe com molho de não-sei-o-quê guarnecido com lascas de não-sei-que-lá junto com os amigos. Fora isso, faz sentido sovar longamente a massa do pão integral e esperar, como numa gestação, que ela cresça, forte e bela. Fora isso, dá vontade de fotografar o cuscuz lindão e postar no Instagram. Fora isso, pinta alegria ao ver como o bolo de cenoura ficou fofinho e as crianças vibram ao saber que vai ter cobertura de chocolate também.

Há dias – não  poucos – em que cozinhar resume-se a um ato mecânico, necessário para cumprir o protocolo diário (em especial de quem tem filhos pequenos) e atender a uma necessidade fisiológica, sua ou de outrem. Uma pitada de carinho, às vezes nem isso, porque a cabeça está em outras paragens, e pronto. Todos alimentados? É o que importa. Vamos, estamos atrasados.

Há dias – muitos – em que não há poesia alguma no ato de cozinhar. Como naqueles onde eu preciso correr para preparar e servir o almoço a tempo de as crianças não se atrasarem para a aula. Não há ternura possível na produção da torta de legumes quando o relógio, cinicamente, parece andar no fast-forward. Não posso impregnar o suflê, o arroz, o feijão e a salada com boas energias se não avisto mais o fundo da pia, a ajudante ligou dizendo que não vem e a reunião é às duas.

E mais: haja amor e criatividade para compor cardápios diários balanceados com proteínas, leguminosas, carboidratos, hortaliças e tudo que a pirâmide alimentar exige. Quisera ser faraó e viver embalsamada para não ter mais que decidir o que vamos comer. Peço perdão pelas fadas que sepultei, recorrendo ao velho Miojo. Não resta dúvida de que serei exemplarmente condenada pelo fadicídio, quando estiver diante de Deus prestando contas.

Nessas horas, penso que sou uma espécie de alien que pariu. Passo a me autoclassificar como mãe desnaturada, relapsa, sem coração. Mas há algo bastante errado quando o significado de férias é não precisar fazer varejão. Se minha relação com os brócoles, as cenouras e os tomates anda desgatada, lanço mão do self-service. Nem toda cozinha industrial será castigada.

O lirismo permanente do ato de cozinhar, tão declamado pelos soldados da comida afetiva, fica bonito no cinema, na fotografia com frase de efeito que circula no Facebook, na prosa do Mia Couto. Mas quase não combina com o meu dia-a-dia de gente normal. Só de vez em quando.

Visite minha cozinha

Arte: Jérôme Motte
Arte: Jérôme Motte

Visite minha cozinha. É nela onde refogo as manias, asso os medos, torro a paciência e lavo meu coração de louça.

Visite minha cozinha. Ali escolho humores e amores, invento modos de fazer e desfazer. Mantenho o dia aquecido em banho Maria e sigo rezando, Livrai-me de todo sal, amém.

Visite minha cozinha. Mas atenção: facas e palavras estão sempre afiadas.

Visite minha cozinha. É o lar que habito e de onde me mudo. Às vezes, acerto o tempero. Às vezes, erro a mão; o abraço, não.

Visite minha cozinha, repare na bagunça, nos meus pés descalços e no gato que cochila na cadeira.

Visite minha cozinha. O fogo é brando e o café, forte. Tenho um fraco pelos extremos.

Visite minha cozinha e prove os ingredientes sagrados e profanos das minhas receitas. É minha salada espiritual.

Visite minha cozinha – ao mesmo tempo, altar de adoração e sacrifício. O lugar onde preparo (nem sempre com alegria) o alimento e gero combustível para o bom dia de todos. Há, no mundo, responsabilidade maior?

Visite minha cozinha. Pode vir sem avisar. Mas não tenha hora para ir embora; não sei preparar o futuro na pressão. Ajeite-se à mesa, o presente está sempre servido. Bem passado ou ao ponto, você escolhe.

O tempero da minha mãe

Arte: Mariana Leme
Arte: Mariana Leme

Junte cebola, alho, cheiro verde, óleo e sal. Ponha tudo no liquidificador e bata bem. Despeje a mistura em vidros vazios, tampe-os e leve-os à geladeira. Use para refogar qualquer coisa. Em cinco ingredientes, eis a receita das minhas lembranças. Rendimento: uma infância inteira.

Dona Angelina preparava o próprio tempero. Para economizar tempo e dinheiro – talvez mais dinheiro que tempo. Lembro do óleo aquecendo na panela, afoito, esperando pelo tempero, que vinha em generosa colherada. Quando eles se encontravam, era uma farra, chiiiiiii. A casa inteira ficava sabendo do abraço dos dois. Logo em seguida, chegavam os grãos de arroz, lavados e escorridos. Noutra panela, outra farra, agora com centenas de feijões recém-cozidos na pressão. Era sempre festa no fogão da minha mãe. Na cozinha, sua oração. E o tempero, artesanal, era sua pegada. O rastro saboroso pontuando o alimento que nos fez crescer, feito planta.

Bem que tento. Mas é impossível reproduzir o tempero dela. Por mais que eu siga o modo de fazer (afinal, cebola é cebola, alho é alho), falta um ingrediente etéreo, invisível, secreto. Falta ela.

Liquidifiquei minhas recordações no turbilhão impiedoso do tempo. Misturei tudo, Natal com Páscoa, aniversário com Dia das Crianças. Mas o aroma do tempero dela está bem guardado no nariz da minha memória. De vez em quando, ele surge d’algum vento brincalhão. Inspiro o quanto posso, para tentar retê-lo e guardá-lo num vidro bem tampado, à prova de despedidas. Se eu fosse descrever a cor desse cheiro, seria verde.

Será que meus filhos terão alguma reminiscência da maneira como tempero nossa comida? A gente nunca sabe o momento, exato ou inexato, em que vai entrar para o rol de lembranças de alguém. Qualquer ação ou atitude podem virar protagonistas; preciso me lembrar disso, para caprichar mais nas coisas.

Será que, n’algum momento da vida, eles tentarão recuperar algum sabor de suas infâncias? Experimentarão, quando grandes, algo que não tenha sido feito por mim, fecharão os olhos por alguns segundos e se pegarão dizendo “Parece a torta de legumes da mamãe” ou “É igual ao creme de abóbora que ela fazia”?

No fundo, a gente quer é ser lembrada. E o alimento é a memória afetiva mais forte que existe. É o primeiro presente que ganhamos, ao nascer. Onde fica a boca do mundo?

Tantas coisas faço igual à minha mãe, e nem sei que faço. É a herança genética e silenciosa, a perpetuar a nossa espécie e algum tipo de amor. Talvez eu dobre roupas como ela, talvez eu lave pratos como ela, talvez eu abotoe um vestido como ela, talvez eu tenha um jeito de mexer nos cabelos como ela. Talvez até meu tempero guarde em seu DNA a centelha materna. Não podemos mais medir nossas semelhanças em tempo real. É uma constatação, não um lamento.

Há quatro vidros repletos de tempero na geladeira, fiz no comecinho do mês. Ficou bom. Mas não é igual ao dela. É idêntico a mim. Sou eu, deixando a minha pegada no caminho da minha gente.

Memórias de uma boleira

Arte: Marie W.
Arte: Marie W.

Eu fazia bolo para vender na escola. Não lembro como comecei, nem por que parei.

Voltava da aula, tocava meus afazeres de estudante de segundo grau e me punha a preparar o bolo do dia seguinte. Com ingredientes de sobra – nada como uma vendinha na família – , eu buscava receitas no caderno da minha mãe e, vez em quando, inovava. Bolo de maracujá, bolo de café. O preferido da freguesia, no entanto, era o previsível e correto cenoura com chocolate. Aguardava esfriar, desenformava, partia em porções individuais, embalava. Aprimorei o negócio, passei a usar forminhas de papel. Fui precursora dos cupcakes e não sabia.

Manhã raiada, cadernos, livros, régua T (o curso era Edificações) e uma grande sacola tomavam o ônibus comigo. Ora rumo à Praça do Correio, ora à Praça da Sé. De lá, o metrô até a Estação da Luz. Descia em frente ao Batalhão de Polícia de Choque, a icônica Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar), que fica junto ao Regimento da Cavalaria 9 de Julho. Mais seiscentos metros a pé na rua Jorge Miranda, em meio aos cavalos em treinamento e seus cocôs deixados pelo asfalto, até meu destino, o Liceu de Artes e Ofícios.

O sinal do lanche tocava e eu assumia meu posto no fundo da sala. Abria o tupperware e vendia cada pedaço por um cruzeiro e cinquenta centavos. Não fazia planilha, posto que não havia despesa com farinha, nem ovos ou açúcar. Nem com o gás que alimentava o velho forno da minha mãe. Ou seja, lucro de cem por cento; uma utopia para qualquer empreendedor. Chegava a vender quarenta pedaços num dia. Considerando que houve época de bolo de segunda a sexta, em uma semana o faturamento líquido chegava a trezentos cruzeiros. Não tenho ideia de quanto seria em dinheiro de hoje. Certamente, nada mau para uma adolescente de dezesseis anos.

***

Sábado fiz bolo para as crianças. Um pandeló tão simples e eles lamberam os beiços. (Embora meu veredicto tenha sido implacável: “Ih, embatumou”.) Passei o final de semana com uma secreta vergonha, um engasgado arrependimento. Conto nos dedos de uma mão as vezes que fiz bolo ou algum outro doce para meus filhos. Rendo-me, invariavelmente, aos prontos da padaria. O que ganho em tempo, perco em sorriso. A conta não fecha.

Outrora boleira semiprofissional, meu destino, eu sei, é ser boleira afetiva. Conheço o preço de cada clara batida em neve e cada elogio; não viso mais lucro. O único prejuízo foi privá-los de quitute de mãe. Embatumado ou não, vale pelo resto da vida – deles e minha.

Agora, faço bolo de graça e acho graça. Estabeleço um cartaz imaginário e visito minha própria cozinha.

Crônica de minuto #45

Minha cozinha agora tem um daqueles multiprocessadores de alimentos que cortam, fatiam, espremem, substituem liquidificador e batedeira, cantam, dançam, representam, chuleiam, caseiam e bordam. Praticamente um ser vivo.

Quando o porteiro ligou, avisando da encomenda, fui correndo buscar. Caminhei cem metros e tive que voltar até em casa. Peguei o carro. A embalagem pesa doze quilos, tem setenta e cinco centímetros de altura. Quase a metade da minha. Não é um aparelho elétrico; é um novo morador. Preciso arrumar-lhe um quarto com armário, para acomodar seus acessórios. Talvez, até um nome, certidão de nascimento, essas humanidades.

Ainda está na caixa, repousado sobre a mesa de jantar. Tenho medo de montá-lo e descobrir que fala, anda sozinho, vai usar meu xampu. E se quiser dar palpite nos meus panos de prato, tão velhinhos? Se não gostar de gatos? Se disser que estou gorda? Toda cautela é pouca com uma engenhoca que rala cenouras em dois segundos.

Quem dera eu também possuísse uma dúzia de acessórios e, a cada um que vestisse, ganhasse um superpoder diferente. Cortar males pela raiz, espremer as ideias até obter seu sumo, triturar tristezas sólidas até virarem alegrias líquidas, fazer purê da frustração, compreender as massas. E ainda poder ajustar a velocidade no feitio das coisas.

A vida seria um banquete.

Se eu não fosse o que sou

Ilustração: Darwin Wins/Flickr.com

Se eu não fosse o que sou, e caso tivesse talento, gostaria de ser três coisas: música (feminino de músico), chef e cineasta. Não que eu não goste do que faço, mas porque a vida me parece larga demais para a estreiteza da carreira única.

Primeiro, estudaria música para descobrir como nascem as canções que amo, e gastronomia, para entender de quê são feitas as comidas que adoro.

Para ser sabedora das notas todas, assim como quem domina ingredientes e modos de fazer. Escrever uma sinfonia seria tão fácil quanto preparar um penne ao pesto de manjericão.

Para apreciar um prato sofisticado da mesma maneira que saboreio um bom arranjo. Porque o paladar está na boca e nos ouvidos. Que, aliás, são tão próximos. E não deve ser à toa.

Para, ao ouvir música no carro, brincar de regê-la no ar com propriedade, e não feito maluca. Embora todo maestro em ação pareça um maluco. Pensando bem, a parte de reger pode ficar como está.

Para eu compor quando estiver triste e também quando alegre. E quando não estiver nem uma coisa, nem outra, naquele estado de calmaria que o mar tem, de vez em quando (porque alegria e tristeza nada mais são do que ondas). Só pelo prazer de combinar os acordes e dá-los de presente aos instrumentos. Aquilo de correr para o violão, num lamento, e a manhã nascer azul.

Depois, estudaria cinema para transformar em documentário a vida de gente comum, que ninguém acha interessante. Apenas para provar o quanto se pode estar enganado.

Para gravar em película as cenas que gosto de imaginar, mas que nunca acontecem.

Por exemplo, a da moça entrando numa livraria e reconhecendo a mulher do caixa como sua mãe, que não vê há dezenove anos. Pelo jeito de ela prender os cabelos, que é igual ao seu. O pai a levara para longe, ainda bebê, e ela nada sabia da mãe, exceto pela fotografia de casamento que ele guardava numa caixinha branca, junto a um anel solitário sem a pedra.

Ou então, a cena da freira que resolve, em plena praça, levantar o hábito, tirar os sapatos e mergulhar os pés na fonte. Porque está um calor infernal e ela tem certeza que Deus prefere vê-la feliz.

Ou, ainda – e essa é a minha preferida –, a sequência do rapaz que encontra na esquina de casa uma cachorrinha branca e marrom com coleira de coração, e se lembra de ter visto, no dia anterior, uma faixa na rua. Dizendo sabe o quê? Que uma cachorrinha branca e marrom com coleira de coração se perdeu.

Confesso: pensar nisso me dá vontade de ser outras coisas também. Novas profissões que acabei de inventar e, acredito, fazem uma falta danada neste mundo. Por exemplo: demonstradora de verdades, exterminadora de mentiras, costureira de corações rasgados e fabricante de cadeiras especiais para assistir por-do-sol. Esvaziadora de sacos cheios e reparadora de gente chata. Tradutora e intérprete de bichos, caçadora de tesouros no final do arco-íris e vendedora de gargalhadas.

O problema é que não sei onde tem escolas para eu aprender esses ofícios. Embora saiba que há bons mestres em várias dessas áreas. E, apesar de ter noção do quanto dá para ganhar depois de formado, sem ser dinheiro, a grande dúvida é se, em alguns casos, eu teria emprego. E não é porque passei dos quarenta.

A hierarquia da louça

Ilustração: Gustav Söderström/Flickr.com

Há que ter, numa pia, certa ordem na louça a ser lavada. As múltiplas castas – porcelana, inox, vidro, plástico – convivem pacificamente, mas têm lá suas particularidades. Não toleram o caos. Em casa, a missão é minha. Encerrado o banquete, ajeito tudo. Até a louça alheia, caso o anfitrião permita (a área de trabalho fica um luxo só; posso não conduzir a lavação, mas a pré-lavagem está garantida).

Para começo de conversa: panelas – miúdas, graúdas e independente do design – não se misturam à turba. Guardam em si a essência dos alimentos, o segredo do feitio. São os monarcas da cozinha. Solitários ingredientes se reúnem no verão de seu interior antiaderente (ou não), fazem festa, se transformam. A tampa se abre, e a mágica está pronta. O aroma invade o ar, enlouquece o olfato, quer se casar com o paladar. Portanto, a regra é: panelas que prepararam o alimento aguardarão o banho na sala da cozinha.

Pratos são príncipes. Rodeados de pompa, são o centro das atenções. Mimados. Só porque recebem o produto da mágica, apresentando-o a nós, comensais. Atenção: sob torneira, nada de deitar sobre eles os talheres usados. A parceria só funciona quando estão juntos na degustação. Na pia, é cada macaco no seu galho. Pratos fazem volume, a despeito da perfeita encaixabilidade. São ruidosos, querem toda atenção para si. Melhor dar conta deles primeiro, aninhá-los logo no escorredor. Assim sossegam.

Os copos, também filhos do rei, porém sem direito à coroa, são infantes melindrosos. Chateiam-se por qualquer coisa. Carecem ficar separados de todo resto, são sensíveis à gordura e, ironicamente, cheios de não-me-toque. Não contam com a característica dos pratos; dispô-los um dentro do outro é um tremendo vacilo. As taças não entram nessa farra. Nem tente. São frescas. E ficam de mal se aguardam o enxágue ao lado dos parentes de requeijão.

Súditos fiéis, a trupe de talheres e utensílios em geral está para o que der e vier: puxar na manteiga, mexer até levantar fervura, fatiar fininho, engrossar, reduzir. Depois, um seleto grupo deles faz bonito, ajudando na comilança. São simbióticos na hora da limpeza. Pegam carona com quem esteja disposto a acolhê-los: a leiteira que ferveu a água para o cafezinho, a vasilha do molho, a saladeira. Ali, aguardam serenos sua vez com a esponja.

Marido tirando a mesa no fim de semana: põe tudo pelo avesso, mistura o imiscigenável. Instala na cuba o desafio ao equilíbrio, o acinte à estética, a tortura à logística. Discretamente, vou lá organizar o movimento, orientar o Carnaval. Fila feita, mãos à obra. Luvas para não prejudicar a manicure. Água e detergente para levar embora o refugo do almoço. (Para onde, mesmo?) Ensaboa, mulata, ensaboa. Na caixa, Rolling Stones. Que ninguém é de ferro. Nem de alumínio.

Crônica de minuto # 18

Na água fervente, o espaguete vai cozinhando. Na hora de experimentar-lhe o ponto, já quase al dente, nada de pinçar um fio só. Apanho logo uma boa meada, encho o garfo. Não economizo na degustação, meu jantar começa ali. Renego a antiga lição de que se deve provar apenas um tiquinho das coisas que cozinham. Farto-me de uma vez, direto da panela.

Lições da Dona

Ilustração: Gustavo Peres/Flickr.com

A receita diz para deixar a massa descansar por trinta minutos. Acho engraçado. E massa lá fica cansada? Só gente e bicho é que carece de descanso, aprendi assim. “Não é isso, querida”, segreda baixinho Dona Benta – a própria, do livro. Ela conversa comigo: “Para ficar pronto, tudo precisa, antes, de certo repouso. Mas isso não vem escrito nas receitas”. Cá estou, ouvindo livro falar. Livro, não; a autora dele. Bem diferente.

“Feita de farinha, água e fermento, a massa que descansa não está à toa na vida, vendo a banda passar. Está se preparando. Se arrumando, bem bonita, para virar pão. Esse é o destino da massa. Se for ao forno antes da hora, não cresce direito. O pão fica feio, embatumado. Só passarinho é que vai gostar. Por outro lado, se passar da hora também estraga. Mas é a espera, o descanso, que garante que sua sina seja cumprida. Com gente é mais ou menos a mesma coisa, já percebeu?”. Me pega de surpresa, essa senhora. Só estou tentando fazer um pão para o lanche. Mas ela não para: “Gente precisa saber o seu tempo de descanso. Isso é simples. O relógio da Terra está sempre certo, é só ajustar o seu de acordo com ele”. E eu, achando que a Dona Benta só entendia de comida.

O relógio do meu avô estava sempre certo. Ele costumava fazer a sesta. Depois do almoço, chupava uma laranja e ia se ajeitar na poltrona. Recostava-se e punha uma almofada atrás da cabeça. Cruzava os braços e tirava sua soneca, sentado mesmo. Preparava-se para os afazeres da tarde, que não eram poucos. Inventar traquitanas para facilitar a vida da minha avó, alvejar sacos de algodão para fazer panos de prato, buscar cimento no carrinho de mão. Os três pilares fundamentais: alimento, descanso e movimento. Não entendia por que não se deitava de uma vez. Nunca perguntei, então, ele nunca respondeu. Hoje sei: o descanso do dia não deve ser igual ao descanso da noite. Meu avô, que sabia disso, viveu quase cem anos. O descanso sagrado, mais a mania de subir no telhado feito gato, por certo ajudaram na sua longevidade. Eu, que não faço sesta, nem subo no telhado, devo ser forte candidata a uma vida breve.

“Já acendeu o forno, querida?”, a quituteira quer saber. Ih, esqueci. “O que está esperando? Papai Noel?”. Engraçadinha, a velhota. Corro com os fósforos. Em silêncio, na tigela sobre a pia, a massa parece meditar. Sabe de sua missão, que é ser pão. E espera, pacientemente.

Deus, dizem, só descansou no sétimo dia. Não acredito. Fazer mundo é trabalho dos mais penosos. Duvido que, assim que inventou os dias, não tenha feito a sesta, como meu avô, antes de continuar a criação. Além do mais, universo não tem fim. Há sempre alguma coisa para ser criada ou consertada. Meu avô pensava assim. Começo a entender o negócio da imagem e semelhança.

Fecho o forno, guardo o livro e os mantimentos que espalhei pela cozinha. No relógio cinza e branco que, aliás, pertencia ao meu avô, marco o tempo. Agora ele está sincronizado com o da Terra. Como Dona Benta ensinou. Ela deve ter ficado triste comigo, não lhe dei muita bola. O que ela não sabe é que prestei muita atenção a tudo que ela disse. Tudinho.

Crônica de minuto #1

Não tem nada melhor que lavar louça ouvindo Rolling Stones. Nada. Podem largar a cozinha por minha conta. Mandem os talheres, assadeiras e tupperwares. Lavarei os pratos do mundo de bom grado. Esponja e detergente são meus, ninguém tasca. Panela ensaboada sob os acordes de “Beast of burden” jamais será a mesma. Há de fazer um feijão mais saboroso, deixar o arroz mais soltinho. Louça lavada, alma idem.