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Saudade, 7 letras

arte: Ruth Eastman

A Madalena usava um salto deeeste tamanho. Entrava na sala, tec, tec, tec, subia no tablado (toda sala de aula tinha, para reforçar a hierarquia), colocava suas coisas sobre a mesa, apanhava o giz e anunciava, “Cruzadinha, pessoal!”.

Professora de Geografia, a mestre loura de sorriso largo era aficionada por palavras cruzadas. Dava a matéria toda assim. Canal que liga o Mar Vermelho ao Mar Mediterrâneo, 11 letras. Capital do Paraná, 8 letras. Até que era didático. Mas ela abusava do método. A turma virava cruzadista na marra.

Equilibrada em seus Luiz XV impossíveis, Madalena lançava o desafio no quadro-negro (que era verde) e a gente copiava no caderno. Era preciso atenção para não errar a quantidade de quadradinhos. Fiquei craque em desenhá-los, na horizontal e na vertical. Nem usava régua.

Em casa sempre tinha revistinha de palavras cruzadas. De pequena, eu gostava da Picolé, nível café-com-leite. Cresci, passei para as difíceis. Às vezes, dava uma espiadinha nas respostas na última página. Nunca admiti, porém. Trapacear nas palavras cruzadas é mais ou menos como colocar filtro no perfil do Instagram.

As revistas Coquetel seguem resistindo bravamente, mesmo em tempos de internet. São patrimônio do léxico brasileiro. Hoje dá para fazer palavra cruzada online. E qualquer pessoa pode, num clique, criar as suas próprias. Se tem o mesmo charme das antigas, não sei. Nostalgia, 9 letras?

Nostalgia é meu nome do meio. Sou feita de saudade não idealizada. Não é que eu queira reviver o passado. Adolescência, tirando meia dúzia de delícias, é fase esquisita. Não se é adulto, também não se é mais criança. O corpo indefinido, as ideias idem. Tantos medos esparsos, a maioria bobos. Meu desejo era poder, hoje, assistir às cenas vividas, feito espectadora. O filme da minha vida.

Rever os rostos dos antigos colegas de classe, e me ater aos dos que já partiram. Ver as velhas e pesadas carteiras de madeira do primário. O tampo da mesa era emendado ao assento do aluno da frente (quem foi o gênio que bolou isso?), motivo constante de problemas durante a aula, “Professora, fala pro Fulano parar de balançar, assim não consigo escrever!”. Ouvir o sinal do recreio, ver mais uma vez a cantina do Wanderley. O indefectível sanduíche de mortadela no pão francês com Guaraná Caçulinha de todo santo dia. O uniforme das aulas de educação física, meu pesadelo. O salto da Madalena era mesmo assim tão alto? E por onde ela andará? “Ô Ma… Ô Madá… Ô Madalê… Ô Madalelelelena, ô Ma”. Saudade, 7 letras.

Dizem que fazer palavras cruzadas rejuvenesce o cérebro, deixa o raciocínio mais rápido. Eu nunca mais fiz, ninguém aqui em casa tem o hábito. Mas vou montando as minhas, mentalmente. Organizando memórias num grande registro quadriculado, por vezes inexato. E não preciso mais olhar as respostas. Já estou nelas.