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Batom

Testei os batons no dorso da mão esquerda. Tão bonitos, assim, alinhados. Roxos, lilases, rosados, vermelhos, alaranjados. Verdadeiro festival cromático. Fui conferindo também o cheiro de cada um – coisa da maior relevância. Quatro sentidos ativados de uma só vez: tato, visão, paladar e olfato. Batom é troço muito sensorial, grudado no imaginário desde sempre.

De repente, um cheiro. Específico, único, arquivado nos confins da memória. O cheiro do batom da minha mãe. E eu não estava doida.

Dona Angelina, devota da cara limpa, por gosto ou falta de recursos, não era de muita maquiagem. Mas um batonzinho ia bem, para alguma ocasião especial. De criança, eu gostava de brincar com os dela. Ela, o desapego em pessoa, deixava. Lembro bem do estojinho, com um mecanismo diferente dos de hoje. Uma pequena saliência ao lado, bastava empurrá-la para cima para usar. Talvez fossem mais baratos. Qual marca, meu Deus? E o indelével cheirinho de mãe arrumada para passear.

Fui apanhando os batons, um a um. De onde vinha aquele cheiro de tempo antigo, macio, quieto, cor de rosa? Numa saudade urgente, passei a abrir os blushes, as bases, as sombras, tudo. Onde, onde?

Então, me dei conta. Que tonta, eu. O cheiro não vinha da coisarada cosmética nas prateleiras da loja. Nem eu louca estava. Foi ela que, num voo etéreo, passou por ali e me deu um beijo.

Corrija-me

arte: Robin Ator/r8r
arte: Robin Ator/r8r

A vida começa aos quarenta. Ou, no caso da mulher, quando ela conhece o corretivo.

O corretivo é o photoshop natural, não-comedogênico, com textura oil-free e, salve!, FPS 30. É a mágica da maquiagem, sem coelho, nem cartola, mas com ilusionismo garantido. A retificação dermatológica de mentirinha, com validade até o próximo demaquilante. Quem se importa?

Corretivo é item de primeira necessidade, como pasta de dente. Pode faltar tomate na geladeira, bisnaguinha para o lanche das crianças, ração para os gatos, mas não pode faltar corretivo no meu toucador. (Lembrando que quem fala ‘toucador’ tem mais, muito mais de quarenta.) O corretivo não me salva da ação do tempo, mas de mim mesma.

Dei-me conta da minha fascinação pelo creminho quando a maquiadora disse “Vou lhe aplicar um corretivo” e, diferente de uma criança amedrontada que aprontou alguma, e eu fiquei feliz da vida.

O produto é mestre: corrige e ainda dá nota. 7 no disfarce do melasma da gravidez,  surgido dez anos atrás e que ainda está estampado na minha pele, feito a cicatriz da cesárea; 8 para as olheiras, 8,5 para as sardas mais rebeldes e 9 para a espinha. Nada mau para quem tirou zero em cuidados com o sol na juventude.

Melhor que corretivo, só os BB e CC cream, aqueles cremes multifuncionais cujos nomes têm esse jeitão meio tatibitati. Um bom exemplar faz pela sua pele, em cinco minutos, o que você não fez por ela em trinta anos. Resolve aquela aparência de peixe deprimido e repara até mau humor matutino.

Tanto amor pelo corretivo me põe na contramão da nova moda: mulheres inventaram de postar nas redes sociais fotos sem maquiagem. A intenção é nobre: combater a ditadura da beleza perfeita e o excesso dos filtros e retoques nas fotografias.

Mas logo agora, que aprendi a esfumar os olhos?

Bem agora, que dá para se embonecar à vontade com batons, blushes e sombras que não são testados na bicharada? Até pouco tempo atrás, arrancar essa informação dos fabricantes era mais difícil que passar delineador.

Justo agora, que estou de cabelos brancos e a maquiagem é a amiga bacana que não me deixa com ares de fantasminha camarada ou de quem tem hemoglobinas abaixo de 6?

Não. No meu rímel ninguém tasca. Muito menos no meu corretivo.

Porque o movimento #semmaquiagem é mimimi em um tom acima da pele: a moça tira a foto de cara lavada, bota na internet, coleta as curtidas e os comentários de “Continua linda”, “Uau”, “Maravilhosa” e depois vai, leve ou integralmente maquiada, cuidar da vida. É cara lavada da boca e olhos pra fora, para inglês ver. Não vale. Não orna.

Corrija-me se eu estiver enganada.

A consultora

makeup

Fui atacada por uma consultora de beleza e quero fazer um B.O.

Eu, que só queria olhar os batons expostos na mesinha, enquanto aguardava minha vez com a manicure, fui abordada por uma, que fazia demonstração no salão. Eu, que só fui educada, como mamãe ensinou.

Quando dei por mim, estava com o cartãozinho dela nas mãos e sendo coagida a dizer qual dia era melhor para ela ir à minha casa fazer uma apresentação sem compromisso. A esta altura, meu punho já estava tomado de amostras de base líquida com FPS 30, em diversas tonalidades, até que ela encontrou o tom “peeerfeito” para mim.

Aliás, não foi uma abordagem; foi um estupro. Um estupro comedogênico, obstruidor do meu direito inalienável de flanar pelo salão, ler revistinhas, tomar café. Um crime que não entra nas estatísticas da violência, mas também deveria ser considerado hediondo e inafiançável.

Contra minha vontade, ela mostrou defeitos em minha pele que eu nem sabia que tinha. “Está vendo esta manchinha aqui?”. Olhei-me no espelho. “Some tudo com o nosso corretivo. Você não vai querer saber de outra coisa!”. Espantou-se com minha rotina de maquiagem para os dias úteis, composta de apenas dois itens – lápis, batom – e por eu não saber o que é primer facial. Quase convenceu-me de que eu não poderia mais viver sem uma máscara para cílios ultra-alongadora à prova d’água.

Consultoras de beleza são um perigo. A polícia deveria distribuir folhetos com dicas para se proteger delas.

O que elas chamam de consultoria, eu chamo de inquisição com foco em vendas diretas: querem saber o seu tipo de pele, examinam suas linhas de expressão, questionam o que você come. Mostram o catálogo inteirinho sem que você peça, pedem seu telefone celular, residencial e email para um cadastro, sondam em que horário você está em casa.

Para meu azar, a manicure estava atrasada.

Orei por um celular tocando (meu ou dela); torci por um princípio de incêndio no local, uma batida de carros em frente ao salão. Ninguém, nem nada, veio em meu auxílio. Acabei, enfim, conhecendo também o quarteto de sombras minerais de fórmula exclusiva por apenas quarenta e nove reais e noventa centavos.

Foi quando tirei o casaco – um calor lá dentro – e ela informou que tem uma amiga que revende lingeries. “Qual número você usa?”.

É crime organizado.

Olho por olho

Arte: Ruggero Turra

Acomodo o laptop sobre a pia do banheiro. Acesso o tutorial que promete, passo-a-passo, um belíssimo par de olhos esfumados. É hoje!

Antes, achei graça no termo, recorri ao dicionário:

esfumar. [Do it. sfumare.] V. t. d. 1. Desenhar a carvão. 2. Esbater com esfuminho. 3. Sombrear com esfuminho. 4. Desfazer em fumo. 5. Enegrecer com fumo; esfumaçar. P. 6. Desfazer-se em fumo. 7. Desaparecer a pouco e pouco.

Igual receita, com ingredientes e modo de fazer, separo o que vou precisar. Corretivo, lápis preto, sombra, pincelzinho esfumador, curvex, máscara para cílios. No entanto, se com as panelas revelo alguma intimidade, o mesmo não acontece com meu próprio rosto. Invariavelmente, rendo-me ao básico, por preguiça, falta de talento e tempo (não necessariamente nessa ordem), com o costumeiro argumento “Vou só ali, mesmo”.

De imediato, detecto a necessidade de apontar o lápis, o recado que marido deixou de manhã no espelho do banheiro o arruinou (nunca reclamar disso, eis uma das regras de ouro do casamento). É aí que começam os problemas: impossível, apenas com conhecimentos humanos, limpar o apontador depois.

A parte da sombra corre razoavelmente bem. Animada, faço, com o lápis, um traço rente à pálpebra, como faz a dona do vídeo. Aprendo que há a pálpebra móvel, de cima, e a fixa, de baixo. E eu, achando que só telefonia tinha disso. Confirmo uma antiga suspeita: toda mulher entreabre a boca quando passa lápis nos olhos.

Maquiagem está para mágica, assim como os efeitos especiais estão para Hollywood. Não fossem as moças que fazem esses tutoriais gente de carne e osso, eu juraria que elas se utilizam de um ou de outro.

Esfumador entra em ação. Receio ter sido literal à definição do termo, marido perguntará onde foi que arrumei carvão. Tiro tudo.

Maquiar é como manobrar caminhão: ver os outros fazerem parece tão fácil.

Quem sempre anda de cara lavada, quando se maquia, corre o risco de sair de casa com a sensação de usar um rosto que não é seu. E esse, que parece não lhe pertencer, pode ter olhos de ver coisas que você não enxergaria. Perigo?

Refaço o procedimento. Bom de vídeo é poder pausar, rever e continuar, na hora que se quer – diferente da vida real. As pálpebras (fixa e móvel, conforme aprendido) se ressentem com a esfregação e não colaboram. Não sou vidente, mas sou acometida de uma premonição: o pior está por vir, quando chegar em casa com sono e tiver de limpar tudo antes de dormir. Parodiando o bandido arrependido, direi: o rímel não compensa.

Comparo o resultado final: nem sombra (ops) do que está na tela. E meu espelho não vem com Photoshop – ainda bem. É assim que vou hoje.

Com a boca no mundo

Ilustração: Stefano Meneghetti/Flickr.com

Eu tenho, e uso, batom da Elke. A Maravilha.

Quando soube, duas décadas atrás, que um dos ícones midiáticos mais divertidos – e coloridos – dos anos 70 havia lançado uma linha de maquiagem, fui na onda do pensamento coletivo ao conjecturar como seria o catálogo. Bobagem. Os batons e lápis e sombras assinados pela tresloucada russo-alemã não transformavam ninguém em clones cabeludos, bocudos e extravagantes. Ao contrário. Eu que caíra na arapuca do imaginário coletivo.

Resisti por algum tempo. Um dia, comprei um batom na farmácia. “Só para experimentar”. Surpresa: muito bom. Há algum tempo, tiraram o ‘maravilha’ do nome Elke. Tolice. Ninguém diz uma coisa sem a outra. A força do personagem. Sujeito e predicado. Eternamente conjugados.

No meu toucador – acho linda essa palavra, ‘toucador’ – o batom da loira passou a ser vizinho de outro, um Dior. E depois daquele, comprado na surdina, vieram outros. Toucador tem que ser que nem município: várias classes sociais convivendo em paz.

A primeira vez que a colega de trabalho pediu o batom, no banheiro, depois do almoço, hesitei. Empresto ou não? Ela vai ver a marca. Explico? Respirei fundo, saquei-o da frasqueira. “Aqui está”. E fui logo dando a satisfação: “É da Elke Maravilha, mas é tão bom!”. Eu já devia saber: em boca fechada não entra mosquito.

Desenxabida, assisti, de canto de olho, a colega passar o batom. Analisei, secretamente, sua expressão diante do espelho. Encerrada a passação, ela apertou os lábios daquele jeito, devolveu-o e, laconicamente, disse: “Obrigada!”. Murchei. Só obrigada? Nenhum comentário? Um feedback? Eu precisava, com urgência, de uma validação. Por que foi que meti o ‘mas’ naquela frase, não sei até hoje. Quer dizer, sei.

A autoconfissão que não fiz: eu não desejava associar o meu makeup ao personagem Elke Maravilha, popular por definição. Senti vergonha, pronto. Muito embora Elke se localize numa sutil e complexa fronteira entre o popular e o refinado. Eu só não sabia disso. Soubesse, o episódio do banheiro não ecoaria tantos anos depois. Faltava-me, no entanto, um bocadinho de informação. E maturidade, aquela que apenas o tempo está autorizado a entregar.

Elke Maravilha é cool. Patrimônio da humanidade, ainda que somente da brasileira. E ela nem daqui é. Tirando Pedro de Lara, foi a mais emblemática jurada de Sílvio Santos. Do Velho Guerreiro, também. Eu, criança, não a decifrava direito. Nem precisava. Ela era, para mim, como a Branca de Neve ou a Bela Adormecida dos livros. Só que tridimensional. O que a tornava mais intrigante e interessante. Que Lady Gaga, que nada.

Lembrei da história porque hoje, ao me arrumar, fiquei entre o Dior e a Elke. Adivinha com quem saí sorrindo por aí.

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NOTA: Várias pessoas não estão conseguindo postar comentários, e eu não tenho ideia do que seja. Vou procurar ajuda no WordPress. Enquanto isso, caso alguém queira falar comigo, é só enviar um e-mail ou deixar recado no Facebook. Combinado? Beijos, Silmara