A capa encapada

recorte da capa de “Música ao longe” (Erico Verissimo)

Encapava-se tudo: dos cadernos aos livros de matemática e português e até alguns da velha estante, que não faziam parte do acervo didático. Plástico colorido transparente para os livros, xadrezinho de azul ou verde ou amarelo para os cadernos, comprados por metro na papelaria do Seu Remo. Para, diziam, dar vida longa ao material escolar (e ao Seu Remo). Também para protegê-lo das traças, de mãozinhas amanteigadas, do tempo impiedoso. As coisas, afinal, precisavam durar. E papel contact era caro. Durex para o acabamento e voilá!, conservado estava.

Toda mãe era – ou ficou, na marra – craque na arte de encapar livros. Parece fácil, mas não é; unir pontinha com pontinha, produzir a dobra perfeita, deixar o plástico justinho nos cantos, sem parecer, feito roupa, um número maior ou menor.

Perpetuando o hábito ancestral, eu também encapei livros e cadernos dos meus filhos. Em pleno século vinte e um. Torcia o nariz, achava trabalhoso, sem sentido, mais plástico neste mundo? Um dia, não encapei mais, pronto, chega, a professora que reclame.

Volto à velha estante, instalada no meio da sala. Alguns livros, além dos da escola, não escapavam do encapamento. “Música ao longe”, do Erico Verissimo. Um dos meus favoritos (por algum tempo, quis me chamar Clarissa), tão lido e relido. Envolto, desde antes de eu nascer, num plástico transparente, talvez originalmente vermelho, que foi perdendo o viço e ficando meio desbotado. O durex já velhinho, sem a cola da juventude.

Era como se o livro sempre tivesse sido daquele jeito. Eu observava a ilustração na capa, os sete rostos soturnos e inexplicavelmente familiares. O plástico vermelho roubara-lhes os matizes. Em compensação, os pouparia do fatal envelhecimento.

Então, decidi. Arrancaria o plástico. Rebeldia? Subversão? Coisas da adolescência? Ou apenas constatação de que o inútil invólucro não servia para nada e as traças, na hora que bem quisessem, fariam banquete daquela celulose toda?

Arranquei.

E minha surpresa foi maior que a da Clarissa, quando se deu conta que amava Vasco.

Aquela era a verdadeira capa! No lugar da monocromia vermelha, rostos policrômicos e vivos. Pareciam, agora, até menos tristonhos. Eu tinha um livro novo em mãos. Naquele dia, acabei lendo a capa, somente a capa do meu livro favorito. Já era uma história e tanto.

Busquei na velha estante outras vítimas do encapamento. Localizei vários. Quis descascá-los também. Encontrei um encapado com (pela hóstia consagrada!) papel pardo cem por cento opaco. Livrei o livro. Havia uma biblioteca escondida sob nossa biblioteca.

Não quero mais me chamar Clarissa. Em minha estante, não há sequer um livro encapado. Tampouco material escolar. Mas tenho saudade da papelaria do Seu Remo. De que me encapei esses anos todos?

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