Os queridos diários

Ilustração: Shelly/Flickr.com

L. perguntou, na lata e por e-mail: o que fazer com os diários antigos?

Eu, que não sabia se ela só compartilhava a dúvida, ou se assumira que eu já os tivera, gelei. Onde estão os meus?

O primeiro diário a gente não esquece. E também não lembra onde o guardou. Foi Silvana que fez para mim, eu tinha oito anos. O caderno comum ganhou capa especial em papel camurça cor de vinho, com um arranjo de flores e trigos (por que trigo, minha irmã?), feito com aquela técnica da raspagem. Vieram outros depois, aprendi a confeccioná-los. De mesma serventia, mas sem o mesmo encanto do original.

Recheado de ilustrações, era um relatório de bobajadas pueris: o que eu fizera e como, descrições das pessoas da família, pedidos de desculpas por não ter escrito no final de semana. Como se diários fossem pessoas, carentes de apresentações e explicações. (E não são?) Aos poucos, fui acrescentando crítica aos registros. Os primeiros pensamentos de gente grande. Com que idade o encerrei? Pudesse, reviraria a casa. Agora.

Diários são feitos para serem lidos; mente quem diz o contrário. Ainda que o único leitor esperado seja o próprio autor. Queremos ser lidos por nós mesmos e a escrita é, quase sempre, o melhor dos espelhos. Diário é uma longa carta onde remetente e destinatário são a mesma pessoa. Já nasce entregue.

Diário é uma espécie de caixa-preta. As informações mais importantes do nosso voo particular estão ali, protegidas. A boa notícia: não é necessário esperar pelo dia da explosão, nem da queda, para entender o que houve e há. Basta abri-lo numa página qualquer.

O revés: diário é um dos mais cruéis instrumentos de tortura e chantagem. Se dá sopa, é abduzido. Geralmente por irmãos mais velhos ou amigos-da-onça. Com sorte, terão sua liberdade negociada. Na maioria dos casos, porém, serão devastados, varridos. Ou, em tempos de internet, escaneados e postados para Deus e o mundo ler. Deus não costuma passar as coisas adiante. Já o mundo…

E o que fazer com os diários alheios, sob nossa guarda? Resgatei os da minha mãe, entre uma mudança e outra. Acessei sua caixa-preta (tarde demais) e fiz meu inventário particular de memórias. Diários também têm dessa; sabendo que serão lidos depois, seus donos escrevem neles o que não puderam (ou não quiseram) dizer em vida. Ainda não encontrei um jeito de dizer a ela que tudo ficou e sempre ficará bem.

***

Quanto à L., direi-lhe, assim que possível: o melhor a fazer com os velhos diários, querida, é nada. Próprios ou não, eles não precisam mais de nós, nem nós deles. A partir da última palavra publicada na última linha da derradeira folha em branco, não estamos mais no controle. Eles mesmos darão um jeito de sumir. E, mesmo destruídos, é bom que se saiba: suas histórias já foram impressas no imorredouro do tempo.

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9 comentários sobre “Os queridos diários

  1. Tive muitos, destruí-os todos…Uma pena, agora sei. Como a memória não nos acompanha a par e passo, muita coisa que não me lembro poderia recordar com a leitura deles. Mas já foi!
    Quando tive os filhos (3), fiz um diário para cada um, até completarem 1 ano de idade. Ainda têm preguiça de ler, eu era muito detalhista. Cada suspirinho que davam, era registrado. O da primeira é grossinho, muuuuiiiitas páginas; o da segunda já foi quase a metade, e o do caçula, fininho, fininho…rsrs Também era difícil, entre cada um, achar tempo e disposição pra escrever.

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  2. Diários, rascunhos, papéis que nos contem.
    Ixi, tenho tudo isso. Desde os 15 anos tenho agendas/diários. Faço questão.
    Tentei manter uma agenda eletrônica mas desisto. As teclas são frias, já a lapiseira e o papél, não.

    Amei a casinha nova. Digna !!!

    E manda um recadinho pra L.?
    “Desista. O que está escrito no diário está escrito na sua alma/trajetória… é impossível apagar ou destruir ambos.”
    Bjs querida minha.
    Si

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  3. Parabéns por este blog lindo e renovado!!
    Ficou muito legal. E o melhor, mais fácil e ágil para postar os coments.
    Aproveito para desejar muitos (e novos) projetos para 2012!!
    beijos,
    Núbia

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  4. Olá, querida!!
    Que lindo o seu site/ blog/ diário!!
    Com você, eu entendi a importância de colocarmos nossos pensamentos da forma escrita, pois do contrário, passam voando pelas nossas vidas e se perdem (de certa maneira).
    Fiz um diário virtual para minha filha (que agora tem 5 anos e começou a estudar no inicio deste ano de 2011, com 4 anos). Conto pra ela, coisas importantes, que a farão rir e entender como tudo era, no início (a partir de sua vida escolar).
    Se um dia puder ler, vou adorar (http://cristiane.prado.zip.net/).
    Por favor, não repare na forma amadora de escrever e no layout do blog, pois não sei como fazê-lo de outra forma, ainda. Só me inspirei em você e entendi que precisava de um diário (nunca tive um na vida, acredita??? rsrs).

    UM FIM DE ANO MARAVILHO E UM ANO NOVO REPLETO DE MILAGRES PARA VOCÊ E SUA FAMÍLIA!!

    BJSSSS

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  5. Realmente, os “queridos diários” cumprem sua função bem ali no momento em que estamos escrevendo. Talvez não haja nenhuma outra “missão” para eles além de nos serem fiéis companheiros e confidentes, especialmente nas horas de angústia e tristeza, quando talvez só eles sejam capazes de nos acolher.

    Adorei o texto, a sugestão e a nova cara do blog! Aliás, ameeeei a nova cara do blog!! 🙂

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  6. Meus diários foram rebatizados. Agora são agendas. Mas ainda guardam o dia-a-dia da minha alma. O atual foi interrompido… há alguns pares de meses a alma está repetitiva… cansei de 2011 (ou da conversinha da alma?).
    O de 2012 já está ali na escrivaninha, desejando que o próximo ano seja realmente Novo.

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