Vou de branco (um dia)

Arte: Erik Berndt

“Por que você pinta os cabelos?”

Quem lança a pergunta não tem nem oito anos. É uma menina. Lanço-lhe um olhar condescendente: mais alguns anos e ela saberá. Ou pensará que sabe. O mundo é assim, faz tempo.

A indagação tem o mesmo impacto de “Qual o sentido da vida?”, “De onde viemos?”, “Por que você assiste novela?”. Questões cuja resposta é frequentemente vaga, subjetiva, permeada de teorias simplórias. “Não sei, só sei que é assim”.

Levante a mão a mulher que já parou para filosofar, propriamente dito, sobre o tema.

Discussões retóricas e antropológicas à parte, a verdade é que, na maioria das vezes, a resposta para a primeira pergunta é rápida, honesta, espontânea. Típica, aliás, de uma criança: “Porque eu gosto”.

Li uma vez que as mulheres sempre ficam mais bonitas com um tom de cabelo diferente do que nasceram. É como se o tingimento das madeixas corrigisse alguma falha, harmonizasse o que a natureza se esqueceu de fazer.

(Psiquiatras e psicólogos devem começar o trabalho com aquela paciente nova investigando-lhe os cabelos. Prato cheio. Trinta sessões garantidas.)

Tinjo os meus desde quase sempre. Os primeiros fios brancos surgiram por volta dos quinze anos. Discretos. Com o tempo, fizeram o que bem entenderam, baseado na ordem divina dada à espécie humana: cresceram e se multiplicaram. Não gosto deles. Não vejo beleza nos grisalhos femininos, com seus trinta, quarenta, cinquenta tons de cinza. Sou da turma que acha esquisito, desmazelo, antipático. Se não os tingisse, a coleção de fios despigmentados formaria uma questionável mecha branca contrastada com meus cabelos pretos, o que me tornaria facilmente confundível com um gambá fêmea.

Para que isso não aconteça, há décadas estabeleço em meu calendário visitas mensais ao salão para retocar as raízes. Aproveito para colocar a prosa em dia, tomar café doce, me atualizar de quatro edições da Caras, responder emails, checar o Facebook. Sim, demora.

Já estive de tantas nuances! A cabeça de uma mulher é um grande laboratório de possibilidades, erros e acertos. Em vários sentidos. E sempre me diverti inventando novas paletas para minhas melenas, há tempos tão reduzidas.

A brincadeira, porém, chegou ao fim. A relação com o tonalizante está desgastada, precisamos dar um tempo, sinto-me sufocada, presa. Estou prestes a dar uma espetacular virada capilar. Quero alforriar meus escravos brancos, libertá-los do cativeiro líquido das tintas. Assumi-los, tirá-los do armário. Vê-los expandir, deixar que façam a minha cabeça.

Um dia. É ainda fase de querença. Não sei quando a ideia será efetivada. Não mando (completamente) em mim. Nem garanto nada.

Pode ser que eu continue com minhas visitas ao salão, prosa e café doce. Sou beneficiária da metamorfose ambulante das ideias gerais e específicas.

Pode ser que eu ligue para a Ana e avise: “Não vou mais”.

E eu que não vou querer fazer da minha cabeleira uma branca sombra pálida. Quero charme, atitude e modernidade, sem direito ao pacote-aposentadoria, ao kit medo-de-ser-feliz. Se não der certo, será apenas mais uma experiência na minha já tão empírica existência. Não um testamento cravado na pedra para todo sempre.

O Dia D chegará, e eu me entenderei de vez com meus pelos. Porque branco é a cor da paz. Dizem.

 

Nota: e o dia D chegou, em fevereiro de 2013. Vem ver meu “Diário de um cabelo branco no Facebook.

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9 comentários sobre “Vou de branco (um dia)

  1. Meus branquinhos ainda são poucos, um fio ou outro no meio do castanhão virgem de tintas. Mas a minha mãe acaba de rebelar-se contra as tintas. Já está com a cabeça quase toda branca, só as pontinhas escuras. E eu ainda não tenho opinião formada sobre o novo “look” dela, rsrs.

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  2. Cada um deve fazer as pazes com seus pelos da melhor forma possível. Ser feliz é o ato! De branco, liso, enrolado, preto, vermelho ou azul, não importa. Sejamos plenos nas escolhas!!!!
    Gosto sempre das suas coisas.
    Si

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  3. Sou uma cabeleireira que acompanha o suas cronicas não faz muito tempo… muito prazer!
    Tenho 39 anos, brancos concentrados no contorno central da cabeça, cerca de 30% apenas. Curtos, fiz duas mechas claras nas laterais (na maior concentração dos brancos) e mantive só com as mechas por quase 1 ano, Já estava virando uma marca entre colegas e clientes no salão que nem reparavam nos brancos, apenas nas mechas e meu pai, cabeleireiro também, me caracterizava como gambá para os amigos e parentes,
    Enjoei e colori, poucos lamentaram, muitas gostaram…
    A opinião sobre mim não é importante, mas como trabalho com isso adorei descobrir o que as pessoas pensam…
    Adorei este post também, com certeza vou passar isso para minhas clientes, Não voltarão todos os meses na mesma época, sentirei falta, mas voltarão para cortar, hidratar, desamarelar o branco, voltar a colorir…. sempre decididas e felizes, eu espero!!!!rs
    beijos

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  4. Sil, eu também pinto! Desde a adolescência, sempre clareando o quase-loiro. Três fios brancos apareceram na década dos 30, e era generosamente extirpados pelos meus filhotes que acreditavam fielmente que eu tinha 27. Depois dos 40, resolvi adquirir “inteligência artificial” e virei “Branca de Neve”. Já tentei voltar à cor natural, mas não me reconheço mais loira. Ainda quero ser ruiva. Um dia.
    Beijooo

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  5. Vivo esse dilema há uns 2 anos, Silmara. Por 3 vezes comecei o processo de deixá-los sem tintura, mas acabo cedendo e voltando a pintar. É a pior parte, a fase de transição entre a tinta e o natural. Ficamos “tricolores”, como li no texto de uma amiga. Já fiz 2 posts sobre isso. Acontece que aos 40 anos (quando começaram) não quis pintar, mas nasceram “de um dia para outro”, foi mesmo de repente, e levei meses para pintá-los. Achava-me ainda muito nova, mas não foi realmente por vaidade que os pintei, foi de tanto ouvir falarem para fazê-lo, não meus filhos (adolescentes, na época) nem marido, mas “o povo” em geral. Daí que pintei, estou com eles assim há muitos anos e agora decidi, firmemente, deixar a tinta de lado. Está bonito, ainda, mesmo tricolor, mas estou usando-o só preso, num apanhado no alto da cabeça. Em dezembro tenho festas para ir e se decidir que está feio, volto a pintar. Mas sob protexto! rs

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  6. Que lindo, Sil!
    Só você consegue fazer uma coisa tão cotidiana virar uma obra de arte!!!!
    Eu acho que não consigo viver com meus cabelos brancos, in natura …. e no fundo, eu gosto desta brincadeira de ir mudando a cor do cabelo, conforme meu estado de espírito …..

    Bj …já em ritmo de final de semana!!!!
    Rose

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  7. Maravilha, Sil! Você traduziu exatamente tudo que penso. Faz um ano mais ou menos que comecei a deixar meus cabelos existirem sem tingimentos. É complicado… As pessoas começam a cobrar, a perguntar. A fase de crescimento, os cortes apenas para “tirar” as partes ainda coloridas, é complicada.
    Hoje, gosto deles como estão, como diz um amigo meu “cinza ratinho”. Mas, confesso, ainda me pego sentindo vontade de tingi-los, mudar de cor novamente. E por certo voltarei a fazer isso. Só que ao lavar meus cabelos esqueço rapidinho dessa vontade, porque a textura de um cabelo sem coloração é outra, é deliciosa, não tem preço!
    Parabéns por mais um texto encantador!
    Beijos

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