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Bengala

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Não se comprava pãozinho. Em casa, só bengala. Precisei explicar aos meninos do que se trata, porque hoje se fala baguete. “Mas bengala não é aquilo que os velhinhos usam?” Não, meus queridos. Bengala era o pão comunitário, que dava para todos. E a da minha infância era generosa, com jeitão de mãe que alimenta o mundo inteiro. Não era magrela, feito as francesas.

A padaria ficava na rua de cima. Eu gostava de ir com minha irmã. A calçada não era lá essas coisas. Então, invariavelmente, eu levava algum tombo. Chegava em casa ou chorando, ou de joelho ralado, ou no colo da minha irmã. Às vezes, as três coisas juntas.

Lembro do meu avô chegando em casa com a bengala, parcialmente embrulhada, embaixo do braço. E era a coisa mais normal. Vê lá se hoje alguém põe uma baguete no sovaco e fica por isso mesmo.

Quando foi que demitimos a bengala do cardápio brasileiro e contratamos a estrangeira baguete? A bengala é patrimônio da panificação nacional. Deveria estar na base da pirâmide alimentar. É pão amassado por Deus. O Pai Nosso merecia, aliás, revisão: a bengala nossa de cada dia nos dai hoje. Bengala é cult.

Quando o assunto aparece nas rodinhas, tem sempre um doido varrido que resolve discorrer sobre as diferenças entre bengala e baguete: o formato, a textura, a casca, a receita, as origens. Tudo para explicar o inexplicável.

Da bengala, tinha quem gostasse do bico. E havia também quem insistisse na infame piada-rima: pra ficar rico. Sempre deixei o bico para os outros. Vivo a consequência.

Quando eu era criança, a gente fazia pão de frigideira. Consistia em fatias da bengala com manteiga dos dois lados, levadas ao fogo até ficarem douradinhas. Outro dia, no mercado, pedi: “Quero uma bengala”. E a mocinha, fingindo confirmar: “A baguete?. Não dei o braço a torcer: “Isso, a bengala”. Quando a gente tem cinquenta anos fica, geralmente, ranzinza. Cheguei em casa e fui tentar reviver a iguaria. Busquei na memória a largura exata da fatia, tentei reproduzir a quantidade da manteiga, apanhei a panela mais parecida com a da minha mãe, calculei a altura da chama, o tempo. Evidentemente, não ficou a mesma coisa. Praga da mocinha lá.

Enriquecida com ferro e ácido fólico

Não se lê mais nos ingredientes das coisas: farinha de trigo. Dois substantivos com uma preposição no meio e só. Agora é farinha de trigo enriquecida com ferro e ácido fólico. Adjetivaram, mineralizaram e vitaminaram a farinha. Aquela com que minha mãe fez os bolos da nossa infância, aquela que tinha na vendinha, aquela que a gente fazia cola? Não tem mais. Acabou.

O pão nosso de cada dia está irremediavelmente impregnado de substâncias estranhas. E o macarrão e o biscoito. Panetone? Também. De janeiro a janeiro, vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana. É a onipresença do ferro e do ácido fólico na vida. Estamos todos mais saudáveis.

Até a hóstia consagrada foi enriquecida de ferro e ácido fólico. Ninguém mais comungou do mesmo jeito.

O binômio alimentar iniciático transformou-se em uma entidade sofisticada. Rebatizada de “farinhadetrigoenriquecidacomferroeacidofolico”, a matéria-prima dos nossos mingaus virou um termo imenso, indissociável, nos dizeres dos rótulos. Um palavrão de comer.

Algumas marcas ainda acrescentam “especial”, para tornar tudo mais belo – e maior. Não se enganem, porém: é tudo farinha enriquecida com ferro e ácido fólico do mesmo saco.

No mercado:

– Moço, onde fica a farinha de trigo?

– Não tem.

– Como não tem?

– Só farinha de trigo enriquecida com ferro e ácido fólico. Terceiro corredor.

Ferro é importante para a saúde, evita anemia. Ácido fólico idem, evita má-formação. Mas não há nada que evite a saudade dos bolos da minha mãe, que nunca mais comi.

Pão de forma

Ilustração: Robin Hutton/Flickr.com

Eu não como a primeira fatia do pão de forma. Nem a última. E, no caso de só as duas restarem no pacote, eu passo. Abro outro. Depois finjo que nem as tinha visto. Transvisto de distração fajuta minha escancarada rejeição pelas extremidades. Não quero o início, nem o fim. Só me interessa o durante.

A primeira e a última fatias, nesse tipo de pão, são diferentes. Imperfeitas e raquíticas, não têm a textura de uma fatia-padrão. Assim como inventaram o pão de forma sem casca – outra coisa que incomoda –, sou a favor de que o produto seja comercializado sem as fatias da ponta. Alguém já viu propaganda de sanduíche feito com elas? A estética, quando em nome do paladar, é implacável. Não poupa nem a ancestral arte da panificação.

Café da manhã e lanche da tarde, nos meus tempos de criança, eram feitos, entre outros quitutes, com a bengala comprada na padaria perto de casa. Não tinha isso de “meia dúzia de pãezinhos, por favor”. Trazida nos braços pelo meu avô e fatiada em rodelas, margarina dos dois lados. Às vezes, frigideira para dar cor e enlouquecer o olfato. Eu nunca queria os bicos, geralmente mais duros e com pouco miolo. Aguardava alguém se servir primeiro. Mas era, invariavelmente, submetida ao indelével gracejo rímico, “come o bico para ficar rico”. Não enriqueci, explicado está. A velha padaria não existe mais e a bengala há tempos foi rebatizada, agora se chama baguete. Está mais magra, comedida, discreta. As bengalas da minha infância eram gordas, exibiam-se no centro da mesa, alimentavam a família inteira. Pão coletivo.

Em casa, hoje, o único que livra as pobres do abandono é o marido, afeito às sobras de alimentos em geral, interessado no que ninguém mais quer. A maçã velha na geladeira, o restinho de água que um dia teve gás, o queijo que nem a vaca reconheceria. Está dedicado a passar seu legado adiante, doutrinando nossos filhos. O que eu faço nessa hora? Sento-me na ponta da mesa e fico de bico calado.

Ignorar os pontos cardeais do pão de forma não é como desprezar a ponta do pepino antes da salada, nem a cabeça e o rabo do peixe antes do ensopado. Não há semelhança. É um hábito inexplicável, vazio de sentido aparente, porém repleto de significados poderosos e desconhecidos. Bobagem decifrá-los.

Filosofia à parte, por mim as fatias extremas do pão são, sistematicamente, ignoradas. Até o dia em que o bolor toma conta e a minha dissimulação dá as caras. “Ah, que pena. Venceu”.

Vejam bem: agradeço pelo pão nosso de cada dia que nos é dado hoje. Desde que eu possa escolher a minha fatia.

Lições da Dona

Ilustração: Gustavo Peres/Flickr.com

A receita diz para deixar a massa descansar por trinta minutos. Acho engraçado. E massa lá fica cansada? Só gente e bicho é que carece de descanso, aprendi assim. “Não é isso, querida”, segreda baixinho Dona Benta – a própria, do livro. Ela conversa comigo: “Para ficar pronto, tudo precisa, antes, de certo repouso. Mas isso não vem escrito nas receitas”. Cá estou, ouvindo livro falar. Livro, não; a autora dele. Bem diferente.

“Feita de farinha, água e fermento, a massa que descansa não está à toa na vida, vendo a banda passar. Está se preparando. Se arrumando, bem bonita, para virar pão. Esse é o destino da massa. Se for ao forno antes da hora, não cresce direito. O pão fica feio, embatumado. Só passarinho é que vai gostar. Por outro lado, se passar da hora também estraga. Mas é a espera, o descanso, que garante que sua sina seja cumprida. Com gente é mais ou menos a mesma coisa, já percebeu?”. Me pega de surpresa, essa senhora. Só estou tentando fazer um pão para o lanche. Mas ela não para: “Gente precisa saber o seu tempo de descanso. Isso é simples. O relógio da Terra está sempre certo, é só ajustar o seu de acordo com ele”. E eu, achando que a Dona Benta só entendia de comida.

O relógio do meu avô estava sempre certo. Ele costumava fazer a sesta. Depois do almoço, chupava uma laranja e ia se ajeitar na poltrona. Recostava-se e punha uma almofada atrás da cabeça. Cruzava os braços e tirava sua soneca, sentado mesmo. Preparava-se para os afazeres da tarde, que não eram poucos. Inventar traquitanas para facilitar a vida da minha avó, alvejar sacos de algodão para fazer panos de prato, buscar cimento no carrinho de mão. Os três pilares fundamentais: alimento, descanso e movimento. Não entendia por que não se deitava de uma vez. Nunca perguntei, então, ele nunca respondeu. Hoje sei: o descanso do dia não deve ser igual ao descanso da noite. Meu avô, que sabia disso, viveu quase cem anos. O descanso sagrado, mais a mania de subir no telhado feito gato, por certo ajudaram na sua longevidade. Eu, que não faço sesta, nem subo no telhado, devo ser forte candidata a uma vida breve.

“Já acendeu o forno, querida?”, a quituteira quer saber. Ih, esqueci. “O que está esperando? Papai Noel?”. Engraçadinha, a velhota. Corro com os fósforos. Em silêncio, na tigela sobre a pia, a massa parece meditar. Sabe de sua missão, que é ser pão. E espera, pacientemente.

Deus, dizem, só descansou no sétimo dia. Não acredito. Fazer mundo é trabalho dos mais penosos. Duvido que, assim que inventou os dias, não tenha feito a sesta, como meu avô, antes de continuar a criação. Além do mais, universo não tem fim. Há sempre alguma coisa para ser criada ou consertada. Meu avô pensava assim. Começo a entender o negócio da imagem e semelhança.

Fecho o forno, guardo o livro e os mantimentos que espalhei pela cozinha. No relógio cinza e branco que, aliás, pertencia ao meu avô, marco o tempo. Agora ele está sincronizado com o da Terra. Como Dona Benta ensinou. Ela deve ter ficado triste comigo, não lhe dei muita bola. O que ela não sabe é que prestei muita atenção a tudo que ela disse. Tudinho.

O pão nosso de cada dia

Ilustração: N.C.Mallory/Flickr.com

Descrição de acidente de trânsito é sempre estúpida. A gente vai narrando, atinando na sequência de besteiras cometidas e se perguntando como é que aquilo pôde acontecer.

Domingo à noite, após um rápido raciocínio, cheguei à conclusão: não faria sentido algum a suculenta sopa que o marido preparava não ter a companhia de um pão italiano. Como um soldado solitário – estavam todos ocupados no preparo das batatas –, rumei à padaria. E como nos últimos vinte anos eu não me animo a percorrer nem duzentos metros a pé, fui de carro. Do balcão, apontei para o exemplar mais gordo, assado à perfeição. Um harmonioso equilíbrio de cores, do bege claro das partes menos tostadas ao marrom crocante da casca que se rompera ainda no forno, agora salpicada com uma leve farinha branca.

O pão perfumava o carro inteiro, provocante. Mantive, no entanto, a disciplina que caberia ao soldado: não comi nenhum pedacinho. O caminho até em casa é curto, tranquilo. Alguns quarteirões mais e estaríamos diante do trio pão–sopa–azeite, coroando o final de semana. Não fosse um motorista com pressa de chegar à sessão das oito ter feito uma ultrapassagem arriscada e, na contramão, acertado meu carro em cheio, interrompendo de vez a minha experiência sensorial ao lado do pão quentinho.

Se estou contando a história, é fato que não morri. Não sei se tem internet no além (se tem, deve ser mais rápida). Estou bem viva e sem nenhum arranhão, ao contrário do moço apressado. Porém, ainda frustrada pelo jantar realizado sem mim. E pelo pão que acabou esquecido lá no cesto da cozinha. Três dias depois, eu o reencontro. Continua na embalagem, lacrada com a etiqueta da padaria. Petrificado.

No bairro onde eu cresci, de vez em quando apareciam aqueles parquinhos de diversão mixurucos. Eu ia sempre em dois brinquedos: trem-fantasma e carrinho-que-bate. Gostava da sensação de medo no primeiro, e do frio na barriga que antecedia a trombada no segundo. No domingo, foi como ir, ao mesmo tempo, nos dois brinquedos. Só que desta vez, o medo e o frio na barriga eram de verdade. Prefiro o parquinho.

No tempo desses parquinhos, à tarde alguém sempre ia à padaria comprar uma ‘bengala’. Que hoje é baguete, e é menor. Nome mais chique, europeu. Adaptei-me à mudança, praticamente esqueci o antigo nome. Mas sinto saudades da velha bengala. Minha mãe a cortava em fatias, passava margarina nos dois lados e as colocava para dourar na frigideira. Acho que nem aquele pão italiano poderia ser tão bom.

A compaixão e a raiva me dividiram em duas pessoas distintas enquanto, sob a chuva fina do local, eu ditava ao policial meu depoimento. Uma de mim queria que eu lamentasse a sorte do moço que não tinha nada: nem juízo, nem carteira de habilitação, nem coragem de encarar-me, nem carro (arruinado e apreendido por falta de documentação), nem seguro, nem mão direita (que seria engessada) e nem sessão das oito. Outra de mim só fez praguejar: só a mão quebrada? Por que não os dois braços e o pescocinho também?

E entre as duas coisas, outro sentimento, que ainda não batizei, me lembra da impermanência das coisas todas. Num segundo, moro neste mundo; no próximo, posso me mudar. Num instante, meus filhos têm mãe; no seguinte podem não ter mais.

Num dia, aquele pão era o supra-sumo; no outro, apenas uma massa endurecida e sem graça. Eu deveria era tê-lo devorado já na saída da padaria. Isso sim.

O pão que o Diabo não amassou

Gonc.A/Flickr.com

Vivia mandando que o Diabo o carregasse. Um dia, o Diabo resolveu obedecer. Vou contar direitinho como foi. Porque o Diabo também precisa que alguém alivie as coisas para o seu lado.

A mulher, embora bonita, não era flor que se cheirasse. Mas fazia o melhor pão de queijo de todo o triângulo mineiro. E pão de queijo bom, mas bom mesmo, é difícil de fazer. Não pode ter queijo demais, nem de menos. O polvilho tem que ser aquele. E por aí vai. A fama garantia à mulher um bom punhado de amigos, que esticavam o caminho só para dar uma passadinha em sua casa. Entre os amigos, havia os admiradores. Públicos e secretos. Dos secretos ela gostava mais. Caprichava na massa do pão quando sabia que um deles iria vê-la.

Até o dia em que um da turma dos secretos, durante a visita, resolveu fincar o pé. E não quis mais sair. Prometeu aumentar a casa, fazer um bom puxado para a cozinha. Dizia que com o que ganhava na loja de material para construção os dois poderiam viver, assim ela não precisaria mais ficar consertando roupa dos outros. A proposta foi ficando interessante, e ela deu sua mão ao homem. Agora apenas os que eram só amigos poderiam passar lá.

Como eu ia dizendo, a mulher não era flor que se cheirasse. Era do tipo de flor que se planta por engano, e depois que se descobre o perfume ruim é preciso arrancar tudo. Até a raiz. E, dia depois de dia, a mulher tratou de infernizar a vida do homem com toda sorte de insulto e implicação. De manhã à noite. Encerrava o palavreado sempre com a mesma ordem ao Diabo. Que, no começo, não dava muita bola.

Mas o Diabo, sempre muito educado, foi se aborrecendo. Não gostava que lhe dessem ordens. Se tem uma coisa que o Diabo preza é a sua independência. Deus sabe disso, e é por isso que fica cada um na sua.

Passaram-se alguns anos e a mulher, não se dando conta do mundinho esquisito que criava à sua volta com sua maledicência, adoeceu. Ficou magra de dar dó. O pão foi mudando o sabor, os amigos foram rareando. Apenas o fiel e paciente marido continuou ao seu lado, comendo o pão que ela amassava todos os dias.

Certa tarde, ele foi ajudá-la a por a mesa para o café. Sem querer, esbarrou no cesto de pães recém-assados e foi tudo ao chão. Desta vez, a mulher não só repetiu a ordem ao Diabo com mais fúria, como também mandou que o Raio, irmão gêmeo do Relâmpago, partisse o homem em dois.

Aí o Diabo se enfezou. Disposto a resolver a história, vestiu seu terno, ajeitou o nó da gravata no espelho, conferiu os sapatos e foi até a casa da mulher. Tocou a campainha, o homem veio atender. Quando abriu a porta, pôde ouvir a mulher esbravejando lá dentro. Viu o ódio que lhe tomara conta. Pôde sentir, também, o aroma morto do pão espalhado pelo tapete da sala de jantar. Da porta mesmo, chamou o homem de canto e sussurrou-lhe algo no ouvido. Ele arregalou os olhos, virou-se para a mulher e sorriu. Despediu-se com um mudo aceno e pulou nos ombros do Diabo. Lá se foram os dois rua acima e, na praça, desapareceram na sombra de um jequitibá.

Percebendo que tinha alguma coisa a ver com aquilo, a mulher tratou de recolher os pães enquanto matutava que diabos havia acontecido. Tomou seu café, não sem uma pulga atrás da orelha. No finalzinho do dia, foi para a porta esperar o marido. Que nunca mais voltou.

Por via das dúvidas, passou a tomar mais cuidado com o que dizia.

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[Nota: este miniconto recebeu menção honrosa no 4º Concurso Literário de Minicontos e Haicais da Editora Guemanisse (RJ) e foi publicado pela editora, com os demais premiados, em agosto de 2010.]