Doris Day, a gata

gato

Fui dar uma volta pelo centro de São Paulo, aproveitei para revisitar velhos lugares. Não os tradicionais, como Praça da Sé, mas os meus cartões postais particulares.

Como a esquina onde ficava a Loja Piter, atrás do Teatro Municipal, e eu, adolescente duranga, cheguei a flertar com uma calça baggy verde-limão. Que nunca foi minha.

E a loja na galeria da Barão de Itapetininga que vendia imensos, encantadores e utópicos relógios carrilhões; eu gostava de passar ali em hora cheia, só para ouvi-los. O tempo, não à toa, é o pai da música.

E a banca de jornal, ao lado do metrô Anhangabaú, que nem estava no roteiro. Aquela banca. A mesma onde, em seis de abril de 1990, ao sair da estação a caminho do trabalho (o falecido Diário Popular), avistei um trapinho peludo e mirrado tentando, em vão, caminhar entre as pessoas. Tantos sapatos apressados! Lembrei do momento em que recolhi aquela gatinha-filhote do chão e coloquei-a no meu colo. Ela, exausta, se aninhou. E, para meu completo e irreversível sucumbimento de amor, adormeceu.

Uma voz dizia, “Pensa, Silmara, pensa”. Levar a gatinha? Já havia tantos em casa. E levá-la para onde, às oito da manhã? Deixá-la ali, para ser pisoteada? Fui ter com o dono da banca:

— Essa gatinha é sua?

— Não… – ele respondeu, desinteressado – Apareceu aí.

A voz: “Pensa, Silmara, pensa”.

— O senhor pode cuidar dela até às 18h? É a hora que saio do trabalho, passo para buscá-la. (claro que não conjuguei assim, tão perfeito)

— Ela vai ficar por aí; depois você busca, então.

Foi a forma abreviada e educada de ele dizer: “Mocinha, eu não estou nem ligando para esse bicho nojento, não vou cuidar dela coisa nenhuma, tenho mais o que fazer. Se ela estiver aqui quando você voltar, ótimo.”.

“Pensa, Silmara. Mas pensa rápido. Quer chegar atrasada?”

Abri minha mochila com estampa de florzinhas e enfiei a gata nela. Com o cuidado de deixar uma frestinha para ela respirar.

Cheguei ao jornal, tomei o elevador. Torcendo para que o fato de minha mochila se mexer sozinha não chamasse muito a atenção. Ao menos, até chegar ao quinto andar ela não miou, nem fez xixi nas minhas coisas. Ao chegar na sala, mostrei a novidade aos colegas, não sem antes garantir que eles não contariam a ninguém.

E a manhã no departamento de marketing foi assim: cuti-cuti pra cá, cuti-cuti pra lá, um desceu na lanchonete e comprou misto-quente para a mini-bichana, outro trouxe leite. Trabalhar que era bom, necas.

Na hora do almoço, a fim de evitar dissabores caso o chefe, lá na outra sala, resolvesse encrespar com a presença felina, levei-a para a casa do Daniel, meu namorado, que morava por ali. Durante a manhã, sondei quem poderia ficar com ela. A Paula, que fazia aniversário naquele dia, topou. Um combinado que logo se desfez, posto que eu estava irremediavelmente apaixonada pela Doris Day – nome que dei àquele trapinho peludo e mirrado. Se foi por causa da atriz, não me lembro. Só sei que aquela mini-diva preta-e-branca era minha e ninguém tascava.

Doris, a miúda, foi um dos bichinhos mais doces que já habitaram a casa 1 da pequena vila da Mooca. Tinha um dedinho defeituoso – certamente, culpa dos sapatos apressados – e uma vez deu cria embaixo da geladeira. Só fomos localizar os natimortos dias depois.

Quando me casei (não com o Daniel) e fui morar longe, ela continuou vivendo feliz da vida com meu pai. E, numa manhã de dois mil e quatro, recebi um telefonema. Doris fora encontrada agonizando, no portão. Nunca soubemos o que aconteceu. Levada às pressas ao veterinário, não sobreviveu. E não cheguei a tempo de me despedir. Não rolaram mais seis vidas para que eu o fizesse. Ou rolaram, ou ainda estão rolando, e eu que não sei.

E se o dono da banca ainda fosse o mesmo? E se eu prestasse atenção e visse, por ali, um frajolinha perdido? E se eu tivesse me casado com o namorado? E se a Paula tivesse ficado com a Doris? Tem lembrança que surge recheada de pergunta inútil, mas que é feito gato: é só a gente passar a mão, que logo começa a ronronar dentro da gente.

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5 comentários sobre “Doris Day, a gata

  1. Meu coração apertou, de saudades das duas Doris da minha vida…você tem toda razão, tem lembranças que é só a gente passar a mão, que logo começa a ronronar dentro da gente.
    Amor felino é irreversível, quando eles vão ronronar em outros mundo, só nos resta buscar outros amores para continuar nos afofando a barriga e a alma…

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  2. Purrr pra sua crônica, adorei! Fiquei pensando numa música que adoro e que ‘casa’ bem com a história da Doris Day e suas memórias: Ladeira da Memória, do Rumo.

    Curtido por 1 pessoa

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