Cidade-mãe

O ônibus dobrou a esquina e bati o olho no letreiro: Itapira.

Cidade da minha mãe. Que, vejam só, não conheço. Tão pertinho de onde moro, não dá uma hora de carro. Quando passo por ali, pela estrada, sempre estico o olhar. Procurando nem sei o quê (ou sei). Mais ou menos como os bichos, quando farejam o vento.

Deveria ser um mandamento, “Conhecei os lugares em que teu pai e tua mãe nasceram”. Com Seu Tonico, estou satisfatoriamente quite. Já com Dona Angelina, carrego a dívida. Ou pecado.

Leio na internet: Itapira, município do estado de São Paulo, tem 74.773 habitantes e localiza-se a uma latitude 22º26’00” sul, longitude 46º49’18” oeste. Dou risada. Essa Wikipedia sabe nada das coisas que realmente importam. Soubesse, o texto começaria assim: “Itapira é onde nasceu a Angelina, que fazia o melhor pão de batata do sistema solar e era conhecida por sua risada de apito”.

Quis tomar o ônibus. Aquele, vermelho, que virou a esquina e passou por mim, como um recado. Que se danasse aonde eu estava indo e o que eu tinha para fazer. Acenaria para o motorista, feito doida, fazendo-o parar ali, no meio da rua. Esbaforida, entraria e pediria desculpas aos passageiros pela confusão. Aboletaria-me em uma das poltronas vagas (haveria de ter uma). Durante a viagem, telefonaria para o marido, avisando, “Não me esperem para a janta”.

Desceria, então, na rodoviária da Itapira. E daria início à atrasada missão: encontrar a casa onde minha mãe viveu, quando criança.

O problema é não ter a menor ideia, única pista sequer, fotografia que fosse, de onde ela e meus avós viveram. Para que lado ficava? A casa tinha alpendre? Roseira na frente? Quantas casas da década de 1930 ainda estão em pé em Itapira? Quantos itapirenses se lembrariam dos meus avós e de minha mãe? Não temos parentes lá. Andaria a esmo, perdida, à espera de providência divina de súbita intuição ancestral. Deveria existir um Google Maps afetivo, sabedor de coisas assim.

Perguntaria ao rapaz da farmácia, puxaria conversa com a senhorinha da quitanda, bateria na porta do cartório. Apelaria aos meninos a caminho do jogo, interromperia o Tik Tok das garotas na porta da escola, quem sabe não teriam uma bisavó centenária e com boa memória.

Rodaria Itapira inteirinha, viraria a cidade do avesso. Bateria na porta da rádio, iria ao jornal, alugaria um carro de som, descolaria um megafone. Quanto tempo levaria para falar com 74.773 moradores? Onde a Angelina menina comprava balas? Qual era o nome da sua escola? Sem respostas, só me restaria tomar o ônibus vermelho de volta.

A casa onde nasci e vivi por quase metade da minha vida está vazia, fechada. Talvez, habitada por comunidades de fantasmas e aranhas. Meu filho tem pálidas lembranças de lá. A caçula, nem isso. Em São Paulo, a casa número 1 da pequena vila da Mooca é morta. Embora tenha abrigado tanta vida.

Já é fato doído, mas meus filhos terão esse buraco em suas biografias. Não terão sabido da casa onde sua mãe nasceu. Já do pai, novamente, estão ricamente quites (em história que, por alguma razão, se repete). Eles não saberão onde eu comprava balas e gibis. Talvez, um dia, lá na frente, se deem conta disso. E quedem assombrados com um letreiro de ônibus dobrando a esquina.

2 comentários em “Cidade-mãe

  1. A minha Cumpadadra é a prova cabal de que não existem poetisas, como me disse a Hildinha Hilst.

    “Só existem Poetas.

    O Felisdônio, um homem a quem não conheci, diria “As coisas que não existem são mais bonitas”.

    Enquanto eu lhe explicasse a razão deu chamá-la Cumpadra ele estaria caçando pregos na beira do rio para pregar o horizonte.

    Por gente assim é que amo a Silmara.

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    1. Meu querido compadre Beto, delícia maior de recadinho, não há. Saudade de vossa senhoria. Que estejas bem e com saúde. Beijão 💙

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