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Quem acredita, sempre alcança

– Vai, moço! Corre, que dá!

À nossa frente, o ônibus segue seu itinerário. Na calçada, o moço de mochila nas costas, em desabalada carreira (tão bonito, “desabalada carreira”), tenta alcançá-lo. Falta pouco. Mas pé não é roda, difícil competir. A distância entre os dois aumenta.

No jogo Passageiro Atrasado x Ônibus No Horário, sempre torci pelo passageiro. Testemunhei tantos. A mulher de salto que, sem hesitar, arrancou os sapatos para correr e chegar a tempo no ponto. O senhorzinho apertando o passo, segurando o bolso da camisa, cada passo um palavrão. A ruidosa galera do colégio, que mais parecia estar numa gincana. Eu, de nova, nunca corri atrás de ônibus. E o medo de me estatelar no chão? Fora a vergonha de não conseguir. As pessoas na rua olhando, penalizadas. Vergonha também caso fosse bem-sucedida; os passageiros olhando, curiosos, a menina esbaforida e desajeitada com aquela estranha régua T, apetrecho fundamental nas aulas de desenho técnico.

E o moço correndo, acenando ao motorista que não o vê. Meu carro, logo atrás do ônibus. A gente torcendo e sofrendo: “Vai, vai, vai!”. Só faltava a ola, que não dava pra fazer.

Ele desvia da menina toda fitness com o totó, dribla o buraco na calçada, pula o saco preto de lixo, quaaase!, ih não deu!

Dou sinal de farol para o motorista; ou ele não vê, ou finge que não vê. Prefiro acreditar na primeira opção. Colo no ônibus, buzinadinha de leve. O coletivo nada de diminuir, está quase na praça.

Como corre, o moço 2.0. Pés e fé inabaláveis.

No carro ao lado, quatro rapazes acompanham tudo e, como nós, torcem pelo moço. Resolvem encostar, um deles abre a porta e chama, “Vem!”. O moço, desfolegado, entra. O desespero promove súbita confiança. E se os quatro são frios e calculistas traficantes de órgãos, sedam o pobre antes que alcancem a Lagoa do Taquaral, onde sempre tem viatura da Guarda Municipal, retiram seus rins ali, no banco de trás mesmo, e abandonam seu corpo inerte em um fim de mundo qualquer?

Mas o plano dos rapazes, felizmente, é outro: ultrapassar o ônibus, que segue, alheio a tudo – embora já seja visível certo movimento de passageiros lá dentro. Conseguem! O carro para um pouquinho mais pra frente, o moço desce, vai dar!

Vai nada. O motorista do ônibus nem tchum, passa reto. “Não acredito!” – inconforma-se minha cunhada.

E o moço correndo. Obstinação? Prova na faculdade? Tem professor que não deixa entrar depois. O ônibus não era o trem das onze, mas se perdesse aquele… sabe lá quando viria o outro.

Nosso Usain Bolt parece que vai cortar caminho pela praça para chegar ao próximo ponto antes do ônibus, se é que vi direito. De repente, quedê? Perdemos de vista o velocista mochilão, e o coletivo desaparece avenida abaixo.

Nosso caminho, infelizmente, é outro. Jamais saberemos o desfecho da aventura, pois pequenos, mas não menos importantes, acontecimentos não são pauta para os jornais. Embora devessem. A manchete: “Universitário perde ônibus, sai em desabalada carreira (coisa linda!) e o alcança; comunidade vibra”. Pena, perdemos o final da história.

Perdemos nada.

Cruzamos o bairro. Quem emparelha conosco, por acaso, no sinal?

O carro dos rapazes, com o nosso herói. Pela sua expressão, seus rins estão intactos. E não é que eles vão levá-lo ao seu destino? É caminho, afinal. Não custa. Aposto como ficaram amigos, tiraram selfies, já estão se seguindo no Instagram, combinaram uma pelada para o fim de semana.

É como diz o ditado que acabei de inventar: quem acredita, nem sempre alcança o ônibus. Às vezes, alcança coisa melhor.

O banco da frente

fusca

A caçula completou dez anos, agora pode ir na frente. Fez valer seu direito já nas primeiras horas da nova idade, apropriando-se do banco dianteiro do carro. Sentiu-se, enfim, mais gente do que no dia anterior.

Eu não lembro de quando fui autorizada a andar na frente no carro do meu pai – se é que houve, um dia, a permissão oficial. Mãe moderna que sou, sei de cor idade e altura mínimas exigidas pela lei, as regras das cadeirinhas. Nada disso habitava o mundo dos meus adultos. Era comum o cinto de segurança permanecer, por toda a existência, enroladinho como viera da fábrica (quando tinha). Sarampo, colisão frontal, WhatsApp… As preocupações dos pais são como o comprimento das saias: mudam de uma época para outra.

O mais velho usufruiu o monopólio por quase três anos. Veterano, e ligeiramente a contragosto, cedeu o posto. Também recordo-me de seu estado de graça quando pôde ir na frente e passou a controlar o som. Foi preciso repartir as memórias disponíveis no aparelho, para acomodar as minhas estações de rádio e as deles. Há duas semanas, na qualidade de mãe e prevendo confusão na hora de ir para a escola, fui rápida na sentença: “Na primeira briga, os dois vão atrás por tempo indeterminado”. A intervenção materna encerrou-se ali e o consenso foi celebrado: uma semana de cada um. Uma decisão salomônica em relação ao pobre banco do passageiro não foi cogitada, para meu alívio.

As conquistas da mobilidade humana nas primeiras fases da vida são: engatinhar. Andar. Ir sozinho à padaria. Viajar com a turma da escola. Tomar um ônibus até o centro. Para todas, há o correspondente veicular, representando a hierarquia dos assentos: tudo começa no bebê-conforto. Depois, a cadeirinha. Assento elevado. Diretamente no banco de trás, sem cadeirinha – a glória. Pré-ápice com gostinho de apogeu: o banco do passageiro e o horizonte das ruas, agora desnudado e sem interferências. E para coroar, mais adiante, o banco do motorista. A validação simbólica da maioridade, a consagração da independência.

Por ora, ela, caçula, segue igualmente encantada com o recém poder sobre o som, como o irmão, há alguns anos. Ele já tem nova meta: a minha posição. Conta os anos que faltam para a habilitação. Quer entender cada controle do painel, saber como se sai na ladeira usando o freio de mão.

Eu, que não só ando no banco da frente do carro, como o conduzo há três décadas, confesso: às vezes, tudo que desejo é um banco de trás para chamar de meu. Porque no imaginário da mulher cansada é o assento que melhor representa a tranquilidade de não estar nem aí com horários, rotas ou pessoas esquisitas que surgem nos sinais. Quem dera poder, de vez em quando, instalar-me numa espécie de bebê-conforto gigante e ser apenas levada e trazida. Com o direito de dormir na ida e na volta e ser prontamente atendida em caso de fome. E onde meu campo de visão abarcasse apenas um pedaço de céu azul.

Somente o indispensável

“Silence”, Ricardo Lago

Fez sinal, apertou forte os cadernos contra o peito, subiu.

No primeiro banco, o rapaz de moletom cerzido na manga (dava para ver) levantou, ia descer no próximo ponto. O lugar, por direito geográfico, agora era seu.

Sentou, ajeitou os cadernos no colo. Alinhou os espirais feito escadinha. Com os dedos, brincou de subir e descer os degraus de arame.

Procurou, como fazia todos os dias, distração para os próximos dez minutos. Desistiu de contar quantos passageiros usavam calça e quantas estavam de saia. Fizera isso antes de ontem. Também não quis repaginar, mentalmente, os cabelos das mulheres, todos tão parecidos. Buscou inspiração no motorista. Mas não nos seus sapatos lustrosos, nem no relógio verde (tão familiar) destacado no braço gordo e branquelo. Na plaquinha colada no para-brisa, leu o aviso: “Fale ao motorista somente o indispensável”.

Quis, então, ir até ele e dizer: ela não havia colado na prova, como acusara maliciosamente o professor de química. Era indispensável deixar isso claro.

Assim como era indispensável dizer que sim, desconfiou da vizinha pela manhã, quando ela respondeu que não havia visto Mussum, seu gato. Da outra vez, ela também dissera que não vira o Pelé, e Pelé apareceria envenenado no dia seguinte.

Dizer que sentia saudade da avó, especialmente na Semana Santa, também era indispensável. Todos os anos, ela furava, escorria e decorava alguns ovos das galinhas da chácara, depois os colocava numa caixinha de Catupiry enfeitada com paninhos estampados e presenteava as cinco netas.

Mas ela não estava acostumada a falar as coisas indispensáveis, por considerá-las dispensáveis.

Não falava para o dono da banca que sonhava trabalhar ali, com ele, um dia, quem sabe.

Não falava para a mãe que não gostava de peixe, e a mãe seguia achando que ela gostava, caprichando na moqueca toda sexta-feira.

Não falava nunca para o treinador que sua cabeça latejava quando jogava vôlei no colégio, e continuava jogando até o final.

O ônibus entrou na avenida. Ela juntou os cadernos, fez sinal, seu ponto era o próximo. Já na porta, resolveu, assim de sopetão, falar ao motorista o que soaria incrivelmente dispensável: “Tenho um relógio igual ao seu”.

O motorista olhou o braço e sorriu, orgulhoso: “Ganhei do meu caçula, de Dia dos Pais”.

O indispensável – ela filosofou – se traveste de dispensável só para nos testar.

A porta se abriu, ela apertou forte os cadernos contra o peito, despediu-se e desceu.