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Mocinha

Não gostava quando diziam: “Fulana ficou mocinha”. Ainda não gosto, embora compreenda. Tem palavra mais horrorosa que menstruada? Só genuflexório. Ou locupletar.
 
Também não entendia por que diabos as amigas falavam num tal de Chico para se referir à menstruação. Ainda se fosse Chica. Recusava-me a usar a expressão, antes mesmo de saber o significado.
 

Como eu ouvia as moças conversando sobre absorventes e quetais, ficava ansiosa para que chegasse minha vez. Um dia – já contei essa história – , eu era bem pequena e resolvi colocar um Modess da minha mãe. Os absorventes não eram como os de hoje, ultrafinos, diversos tamanhos, com abas, sem abas, com perfume, sem perfume. Coloquei calça comprida e fui dar um rolê. Voltei rapidinho. Senti-me usando fralda. Joguei no lixo e filosofei: eu era sortuda por não ter que usar aquilo.

Então, chegou o dia de usar aquilo.

Assim que menstruei, minha mãe tratou de me levar ao Dr. Fuad. Era o médico da família, e não ginecologista. Tinha rosto quadrado e implante nos cabelos, o que lhe dava ares de Frankenstein. Gente boa. Lembro de ele ter dito, polidamente, que precisava examinar minhas “partes baixas”. Melhor do que dizer que examinaria minhas “vergonhas”. Muita gente falava (fala) assim. Não à toa que o mundo, para as mulheres, é o que é.

Eu tinha doze anos e, sem saber que estava diante de inevitável suplício hematológico, cheguei a comemorar. Tolinha. Os tempos que se seguiram foram memoráveis. O que não quer dizer que foram bons.

Não sabia, por exemplo, calcular direito a hora de trocar o absorvente. E, para piorar, aquele período era como um rio que passava em minha vida, mensalmente.

Certa vez, na escola, senti que algo saíra do controle. Sem coragem de pedir ajuda à professora de Ciências, ou licença para ir ao banheiro, tentei permanecer imóvel na carteira. A cada movimento, uma respirada mais profunda que fosse, o estrago ficava maior. Era a última aula. Rezei para que a professora não me chamasse à lousa, e Deus, compadecido de minha miséria, atendeu. Enquanto ela discorria sobre os estados da matéria (o líquido eu já sentia, na pele), tive a brilhante ideia de me sentar sobre uma de minhas pernas, para que o fundo da calça não tocasse a cadeira, que era verde-água. Naquele dia, eu usava um mocassim de couro da minha irmã, bem clarinho, pelo qual ela tinha certo xodó. Não sei se o fiz à época, mas revelo agora a razão daquela mancha escura em um deles, que jamais saiu, nem com água oxigenada. Quando o sinal bateu, levantei-me e estiquei, com a força do pensamento, o comprimento do avental branco que usávamos por cima da roupa. Desci a rua de casa correndo, me sentindo o próprio Mar Vermelho.

Eu andava de ônibus para cima e para baixo, em São Paulo. O que, naqueles dias, se transformava em experiências pra lá de constrangedoras. Quando me levantava do banco e dava sinal ao motorista de que eu desceria no próximo ponto, eu tinha cer-te-za de que uma imensa e colorida mancha decorava meus fundilhos, e que todos os passageiros olhavam para mim e cochichavam entre si, caçoando ou com dó da garota com absorvente vencido. Suava frio, sentia o rosto queimar, queria desaparecer. Depois, quase sempre, via que havia sofrido em vão e tudo estava sob controle. Sem controle era minha imaginação. E minha insegurança.

Em compensação à minha inabilidade para, na prática, lidar com a natureza, na família não rolava obscurantismo. Nunca me proibiram de lavar os cabelos, andar descalça ou outras crendices, enquanto estivesse menstruada. Algumas amigas não tinham a mesma sorte.

Aquela “mocinha” dos anos 70 se transformou em senhora. E hoje me pego novamente ansiosa, mas por outro marco biológico: a menopausa. Que, ainda bem, é uma palavra mais bonitinha.

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O sapato cinza

salto alto

Desde sempre, Nina é doida por um certo par de sapatos meus. O cinza, de salto alto, largas tiras de camurça. Coisa de mulher, não de criança. Ela, de pequena, sonhava com o dia em que iria usá-los. Prometi que os guardaria, seriam dela quando crescesse. E, como os uso pouco, estariam conservados para a nova dona. Uma espécie de herança, de mulher para mulher.

Enquanto esperava o tempo fazer seu trabalho, ela brincou de desfilar com eles pela casa, tal aquelas cenas dos comerciais e anúncios de revista. Pezinhos número vinte e sete perdidos na imensidão do trinta e cinco, arrastando o sapatão para lá e para cá. Fazia pose, mirava no espelho sua silhueta torta, necessária ao equilíbrio anti-natural.

Embora não me recorde com precisão, devo ter brincado com os sapatos da minha mãe. Fingindo a mulher que nem brotara, em clássico exercício de feminilidade. Mas diverti-me muito, disso me lembro bem, com suas jóias e bijuterias. Dona Angelina, bastião do desapego, não ligava se íamos para o quintal com seu anel de rubi. Aliás, também não se importava de promovermos chás das bonecas com suas delicadas xícaras de porcelana. E minha vontade de ser mulher grande ia além: um dia, inventei de sair de casa usando Modess. Eu devia ter oito anos. Nos anos 70, não tinha esses absorventes fininhos, eficazes e ultradiscretos de hoje. O volume extra na calça não me pareceu muito confortável, voltei para casa e joguei fora. Sem contar as bolas de meia no sutiã surrupiado da irmã mais velha, inventando os peitos que ainda demorariam para aparecer. Eu não via a hora de, enfim, ser grande. Entendo a Nina.

– Você está guardando os sapatos pra mim, né mãe? – ela checava, de tempos em tempos. Sua alegria morava no meu sim.

Não por muito tempo, no entanto.

Grandona, Nina, aos dez, já calça dois números a mais que eu. Cedo, ainda, para o almejado sapato cinza. Partiu meu coração sua decepção, quando se deu conta. Por um tempo, ela continuou brincando com eles. Os dedinhos, espremidos, denunciavam o não-cabimento. Aos poucos, desistiu. Uma experiência importante a compor sua fundamental coleção de frustrações, rumo à maturidade.

Hoje, ela se contenta em elogiar quando eu os coloco – mesmo sabendo que eles jamais a acompanharão em seus passeios. São seus sapatos, sem nunca terem sido. Ela questiona por que não saio com eles todos os dias, afinal, tão bonitos. Logo eu, filha! Que, apesar de ter ido para a maternidade tê-la – e seu irmão – com plataformas altíssimas, para desespero da Dra. Clara, hoje fujo de todo salto que ultrapasse a medida de quatro dedos da mão.

Envelhecer é, entre outras sabedorias, não considerar mais um suprassumo usar Modess (ou qualquer de suas variantes), nem sutiã (ah, a liberdade que os peitos pequenos conferem), tampouco saltos que desafiam a gravidade e o bom senso.

Num futuro próximo, Nina terá seus próprios saltos. Seus próprios absorventes e sutiãs. Sua própria mulherice, enfim. E as lembranças das brincadeiras com o velho sapato cinza também ficarão pequenas. Mas continuarão a servir no coração – dela e meu.

Vermelho

unhas-vermelhas

A primeira vez que pintei de vermelho as unhas dos pés foi aos trinta e nove anos. Tirante as brincadeiras de criança com os esmaltes da Dona Angelina, por três décadas condenei meus artelhos à mesmice do branquinho transparente – que tem lá seu valor. Os dedos superiores, no entanto, desde quase sempre gozam do privilégio das cores. Uma injustiça feita com as minhas próprias mãos.

A um passo da idade da loba, era hora de mudar isso. E, para combinar, não chapeuzinho, mas esmalte vermelho. Foi o dia do meu ‘empoderamento’ particular, numa época em que essa (odiável) palavra nem havia sido inventada.

Ensaiei. Meditei, consultei os oráculos, runas, I Ching. Quando cheguei ao salão, apontei, determinada, para o vidrinho cor de carmim. Até a manicure estranhou, “Pras mãos, né?”. “Não, meu bem”, respondi. Enquanto ela trabalhava, fui observando as rubras pinceladas, uma a uma. Primeira camada. Apenas um esboço sanguinolento, “Isso não vai ficar bom”. Segunda camada. Vermelho lúcido. Poderoso. Porreta. E um tsunami de emoções me devastava. Metade de mim só pensava nas sandálias maravilhosas que eu compraria assim que saísse do salão. A outra metade queria que o mundo acabasse em acetona.

Dividida, naqueles vinte minutos questionei o sentido da vida, a minha existência, de onde eu vinha e para onde ia, a razão de termos unhas. E não é que estava ficando bonito? Perguntei-me por que diabos – tinha que ser o diabo que, dizem, é chegado na cor – eu renegara aos meus pés, por tanto tempo, o direito à vermelhice. Aos poucos, para onde eu ia já nem era o mais importante, contanto que eu fosse de unhas pintadas.

E, antes mesmo que a manicure terminasse de passar o óleo secante, eu havia entendido.

Não estava pintando as unhas dos pés por conta do significado fácil contido no imaginário coletivo: sedução, fetiche. Mais que uma questão podal, compreendi que meu corpo poderia ser palco do que eu quisesse (e pé é corpo, gente!). Eu nunca fora proibida de pintar as unhas dos pés. Mas eu mesma me desautorizara, através de um autodecreto embotado e sem sentido. Quantos autodecretos assim guardo nas gavetas? Cadê minhas minissaias?

E assim eu, que já era adepta do vermelho sazonal nos cabelos, estava apenas estendendo a vermelhitude à extremidade sul. E amando.

Encerrado o serviço, a manicure começou a guardar seus apetrechos. Colocou os algodõezinhos cor de escarlate usados na limpeza no cestinho de lixo. “Quer que eu ajude a calçar os chinelos?”. Na verdade, eu queria ir para casa de ponta-cabeça, andando sobre as mãos. Primeiro, para não correr o risco de estragar tudo. Segundo, porque eu queria que todo mundo visse meus velhos novos pés.

Depois da experiência, foi natural liberar o arco -íris aos amados pés, que há exatos dez anos daquele dia D desfilam praticamente a escala Pantone inteira. Hoje, o estranho é eles não estarem esmaltados.

Toda mulher deveria, ao menos uma vez na vida, pintar as unhas dos pés de vermelho. Vale por uma sessão de terapia. E seca mais rápido que uma.

Ordem e progresso

Se aconteceu de berrar com a cria ou discutir com marido, se a raiva fez festa de arromba nas minhas ideias, se fiquei uma arara com o noticiário, o vizinho ou a Vivo, lanço mão de um recurso que, se não é infalível, está quase lá: vou arrumar minha bolsa.

Metáforas à parte, arrumar a bolsa é o remédio geral, a terapia instantânea, o alívio imediato das dores invisíveis. Simbólica e efetivamente, a arrumação retorna ao prumo o que havia virado furdunço. É a ordem física conduzindo à reordem mental, fornecendo a valentia necessária para seguir em frente.

Começo retirando todo, todinho, seu conteúdo. Espalho item por item sobre a mesa de jantar, parece-me um bom local para esse tipo de exorcismo. Carteira, telefone, caderninho, chaves. A carteira, por sua natureza complexa, tem sessão própria: organizo documentos, alinho as cédulas, rearranjo os cartões. Papéis soltos, notas fiscais e comunicados da escola vão para triagem, num canto da mesa. Noutro, devidamente agrupada, a coisarada que precisa de destino.

Três batons é muito, dois voltam para o armário, andar superior. O ímã da farmácia segue para seu habitat natural, porta da geladeira, térreo. Pra quê cinco canetas, Silmara? Comprovantes do cartão de crédito viram bolinhas para os gatos brincarem. Fones de ouvido são enrolados à perfeição e vão fazer par romântico com o iPod. Canhoto de talão de cheques, comprovante da lavanderia, folheto da pizzaria nova, brinquedos que as crianças não tinham onde enfiar na hora: cada um no seu quadrado. Chiclete, absorvente, pinça, Neosaldina, carregador: levo minibolsas para cada categoria de objeto. Lembretes esquecidos ganham registro eternizado na agenda; os já lembrados aportam no lixo reciclável.

Aos poucos, o movimento de faxina toma impulso e a paz acena ao longe: chego às divisões internas. Don’t stop me now!

Minha bolsa, minha vida. Nela, fragmentos da personalidade e da alma. Arrumar a bolsa é ver-se no espelho.

Para um homem, o processo equivale à arrumação da pasta, mochila ou (por que não, minha gente?) pochete. Saibam, porém: a mágica do binômio ordem & progresso se dá mesmo é com uma bolsa. Portanto: se almejarem a plenitude da vida, homens, usem bolsas. De mulher.

Boneca de papel

No restaurante, brinco de colocar a saia azul da mulher de blusa xadrez, sentada na mesa em frente, na moça de sapatilha de florzinha, em pé ao lado da porta. Penso também que ficaria melhor a bolsa da que acaba de entrar, com longas alças e fivela de borboleta, na que está sentada aguardando a conta. E o vestido rodado da ruiva que traça um pratão de yakisoba bem que ficaria bonito na garçonete, limitada ao triste uniforme que lhe aperta as ancas.

Não devo ter brincado o suficiente com as minhas bonecas de papel, quando era criança.

Em cinco minutos, altero a configuração do público feminino do restaurante. Corrijo, melhoro, salvo. Pena que nenhuma delas ficará sabendo.

As bonecas de papel não eram como as de hoje, superproduzidas, compradas em loja. Nós mesmas as fazíamos. Minha mãe desenhou as primeiras para nós. Recortava a cartolina, criava os modelitos. Depois minha irmã e eu aprendemos a técnica e passamos a criar nossas próprias bonecas. Não podíamos esquecer de fazer a abinha para dobrar sobre os ombros, na cintura. Caso contrário, a roupa não parava. Eu não fazia somente roupas, mas os acessórios também: chapéus, bolsas, botas. Para um guarda-roupa completo, bastavam papel e lápis de cor.

Hoje, a brincadeira dispensa a cartolina e o lápis de cor e pode ser brincada em qualquer lugar: supermercado, fila de banco, escritório. Até na aula de meditação. Só não dá para chamar a irmã para brincar junto, agora ela mora longe. Também não posso impedir que as bonecas, no meio da brincadeira, vão embora.

As bonecas de papel só tinham frente. Não tinham perfil, nem costas. Mesmo assim, rendiam uma tarde inteira de diversão. Não havia vitrine impossível para elas. Os casacos mais sofisticados, daqueles longos, elas podiam ter. Vestidos de baile, botas até o joelho, chapéus maravilhosos. Minissaias, vestidos “de ficar em casa”. Não havia roupa que a minha imaginação não pudesse lhes dar.

As mulheres do restaurante têm frente, costas, perfil. São bonecas em 3D. Apressadas, trazem para o almoço, pendurados no pescoço, os crachás das empresas onde trabalham. Não querem brincar. Alheias a mim, servem-se das batatas e dos tomates, pedem refrigerante zero, riem alto, engolem a refeição, levantam-se, vão embora. O papel delas é outro.

Dia da noiva

Foto: Scott Sherrill-Mix
Foto: Scott Sherrill-Mix

Eu, casada, bodas de marfim, dois filhos próprios e um gentilmente cedido, reivindico o dia da noiva que não tive. Eu, que não vivi a icônica tríade véu-grinalda-igreja; eu, que pulei o protocolo do noivado e fui direto aos finalmentes; eu, que não tive nada dessas coisas, venho requerer o direito inalienável e inexpurgável de incorporar, forever and ever, o dia da noiva aos meus dias de esposa.

Porque toda mulher casada há dois dias, dois meses ou vinte anos precisa de um dia da noiva. Vários, ao longo do mês.

Toda não-casada também.

Toda mãe de filho – pequeno, médio ou grande – precisa de um dia da noiva.

Aliás, toda mãe e toda não-mãe.

E toda avó.

Toda tia.

Toda filha.

Toda prima e toda sobrinha também merecem um dia da noiva.

E todo homem, todo pai e todo filho – pensa que não? A todo espírito santo também cabe um dia da noiva, para por os pezões invisíveis para cima, relaxar e não pensar nos problemas terrenos.

Aos desavisados: não um dia da noiva que preceda o ‘sim’, dia de borboletas no estômago, de pura preparação estética para o (des)conhecido porvir. Não como rito de passagem. Não como dia de paparico extra com banho de cinquenta minutos e demais firulas pré-nupciais.

Não.

Dia da noiva como dia próprio. Dia de dedicação plena ao ego. Dia de nada-mais-importante-a-fazer. Dia de ler três revistas inteiras. Dia de tempo sobrando. Dia de sumir, só aparecer mais tarde e todo mundo entender. Dia de cinema solitário. Dia de comparecer ao auto-altar. Dia de ver o dia pedindo, tentando, insistindo, querendo lhe desposar.

Proclame também o seu dia da noiva. Mesmo que você não seja uma. Aliás, tanto melhor.

Peça-se em casamento. E aceite.

Estou só olhando

Foto: Cameron Russell

Entro.

Meus pés, treinados, me levam à seção dos vestidos. Os longos ficam a oeste. A leste, os curtos. Um espelho superlativo, ao norte. O caixa cruel, ao sul. São os pontos cardeais do consumo, orientando minha fome de roupa nova.

A vendedora surge, sorridente. Quer curar a minha deliciosa solidão.

– Estou só olhando.

Ela não sabe, mas eu minto. Não estou só olhando.

Uma a uma, puxo de leve as peças nos cabides, a fim de sabê-las melhor. Meus sentidos estão irremediavelmente despertos. Além dos olhos, curiosos, os ouvidos detectam conversas paralelas; calculo começos de histórias, invento finais. Farejo mangas e golas e entretelas. Arrepio na aspereza da fazenda. Quero comer o vestido de morangos.

Vê, moça? Não posso apenas estar olhando. Mente quem diz.

Penso, nauseada, na possibilidade de mãos infantis, indevidas e não-autorizadas, terem pregado aqueles botões, ao mesmo tempo em que matuto, aflita, no que farei para o jantar. Que horas são?

Dedico dez segundos de compaixão aos que derretem no verão externo, agradecendo a dádiva do ar condicionado interno, a reproduzir o outono com notável perfeição.

Vê, moça? A frase-padrão, que serve para se poder zanzar sossegada por entre as araras, é uma farsa.

Ela, vendedora, ronda. Insiste:

– Procurando alguma coisa especial?

Todos os dias, meu bem. Incansavelmente. Sigo procurando especiarias e especialidades em tudo: uma água quente sob a ducha, para terminar de me acordar. Uma manga doce para meu café da manhã. A volta de todos, em segurança, para casa – todo retorno ao ninho é especial. A esperança de que o dia tenha início, meio e sim. Mas hoje, confesso, procuro mesmo é algo que não me deixe barriguda. Devo respondê-la, será? Vendedora não tem tempo de ouvir. Vendedora só tem tempo de vender. Se eu levo todos os sentidos quando vou às compras, ela só traz um quando vem trabalhar.

O espelho do norte me encara. Ordena que eu confira meu layout original, do Oiapoque da minha écharpe ao Chuí das minhas sapatilhas. Que tipo de animal geográfico paramentado eu sou, afinal?

Saibam, moças vendedoras do mundo todo: nunca estaremos só olhando.

Finjo conferir o preço na etiqueta mas, em verdade, estou pensando na última vez que fui ao cinema, tentando lembrar qual é a capital do Camboja, me dando conta de que não tenho dinheiro. Todos as angústias cabem no bolso de uma camisa verde-limão.

Apanho uma pantalona, coloco-a na frente do meu corpo, tem que fazer barra, sempre tem. Conto as lampadinhas piscantes da vitrine e lembro do dia em que ganhei minha primeira bicicleta – não sei se foi de Natal ou aniversário. O banco veio muito alto, eu era (sou) pequena. A loja não faz ajuste.

Provo, reprovo, hesito, aprovo. Minhas roupas são cheias de verbos. Uma década e dois filhos me afastaram do 38, me puseram no 42 e me trouxeram de volta ao 40. Às vezes, não sei costurar passado e presente.

Ela, moça, quer saber até quando só olharei. Disfarça a impaciência e diz para eu ficar à vontade. Todo vendedor mente. Todo freguês, também.