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Ave, Neutrox

As vacas, em casa, eram magras. E os cabelos, fartos. Não seria o xampu Colorama Ovo que iria deixá-los desembaraçados – missão que cabia ao creme rinse (o avô do condicionador) e que não podíamos comprar. Sofríamos, minha irmã e eu, adeptas das melenas até a cintura. Como abrir mão da cabeleira estava fora de cogitação, o jeito era encarar longas batalhas com o pente.

Minha avó me penteava para ir à escola. Pequenina, eu subia no bidê do banheiro para facilitar seu trabalho. Ela, sem muita delicadeza, puxava meus cabelos com força. Eu reclamava, ela retrucava. Quem mandava ter assim, comprido? Cortasse, oras. Do alto de meus oito anos, eu nada podia fazer, exceto chorar as pitangas para minha mãe, à noite, quando ela chegava do serviço.

Eis que, no fim dos anos 70, a tecnologia nos brinda com algo revolucionário, mágico e, finalmente, acessível: o Neutrox. Botando para escanteio os velhos cremes rinses e inaugurando a era dos condicionadores. Creme amarelo com tampa vermelha. Bastava espalhá-lo nos cabelos depois do xampu e plim!, adeus, nós!

Passei a adorá-lo, como a uma entidade divino-cosmética. Deus Neutrox. Deixava a juba macia e brilhante. Era tão cheiroso que, um dia, comi. E aprendi: nem tudo que o nariz gosta, a língua aprova.

As coisas melhoraram um pouquinho, e em casa nunca mais faltou Neutrox. Outras marcas também chegaram ao nosso toucador. Não satisfeita com a primeira experiência, tratei de provar também o creme Yamasterol “de frutas”, aquele que formava um degradê colorido no frasco. Mas Neutrox era imbatível.

Com os cabelos desembaraçados e macios, faltava o acabamento. Sem secador de cabelos, eu e minha irmã resolvemos improvisar: conectamos a mangueira do aspirador de pó no bocal de saída do ar, em vez do de entrada, e voilá! Cabelos secos em um instante. Meio fedidos, no entanto. A gambiarra, obviamente, não prosseguiu.

Então, em um Natal (acho), ganhamos do Papai Noel um Braun Styler. A última palavra em secador de cabelos. Vinha com pente e escova modeladores, que se encaixavam no bocal. Super prático. Vermelho (ou cor de laranja?), potente, uma belezura. Agora, equipadas com Neutrox e secador, não tinha pra ninguém, meu bem.

Vi Neutrox outro dia, no supermercado. Ícone fundamental da minha biografia capilar. Não tive dúvida; abri um. Resisti à degustação, mas inspirei o quanto meus pulmões deram conta. Nada do cheirinho que um dia me encantou. Por que diabos mudam essas coisas? A fragrância do Neutrox deveria ser tombada pelo patrimônio histórico olfativo.

Três garotas se aproximaram, escolhendo seus produtos. Uma delas apanhou justamente o Neutrox e pôs-se a ler, em voz alta, o rótulo para as outras. Olhei-as e sorri. Duas – as ouvintes – sorriram de volta.

Elas não sabem de quê era feito meu sorriso. Não imaginam que houve um tempo em que aquele creme amarelo já fora o supra-sumo dos salões de beleza, objeto de desejo de dez entre dez cabeludas. Não fazem ideia de que aquele condicionador tem, provavelmente, a idade de suas mães. Nem suspeitam do significado que ele tem para mim, nas minhas longas, macias e penteadas histórias.

Mocinha

Não gostava quando diziam: “Fulana ficou mocinha”. Ainda não gosto, embora compreenda. Tem palavra mais horrorosa que menstruada? Só genuflexório. Ou locupletar.
 
Também não entendia por que diabos as amigas falavam num tal de Chico para se referir à menstruação. Ainda se fosse Chica. Recusava-me a usar a expressão, antes mesmo de saber o significado.
 

Como eu ouvia as moças conversando sobre absorventes e quetais, ficava ansiosa para que chegasse minha vez. Um dia – já contei essa história – , eu era bem pequena e resolvi colocar um Modess da minha mãe. Os absorventes não eram como os de hoje, ultrafinos, diversos tamanhos, com abas, sem abas, com perfume, sem perfume. Coloquei calça comprida e fui dar um rolê. Voltei rapidinho. Senti-me usando fralda. Joguei no lixo e filosofei: eu era sortuda por não ter que usar aquilo.

Então, chegou o dia de usar aquilo.

Assim que menstruei, minha mãe tratou de me levar ao Dr. Fuad. Era o médico da família, e não ginecologista. Tinha rosto quadrado e implante nos cabelos, o que lhe dava ares de Frankenstein. Gente boa. Lembro de ele ter dito, polidamente, que precisava examinar minhas “partes baixas”. Melhor do que dizer que examinaria minhas “vergonhas”. Muita gente falava (fala) assim. Não à toa que o mundo, para as mulheres, é o que é.

Eu tinha doze anos e, sem saber que estava diante de inevitável suplício hematológico, cheguei a comemorar. Tolinha. Os tempos que se seguiram foram memoráveis. O que não quer dizer que foram bons.

Não sabia, por exemplo, calcular direito a hora de trocar o absorvente. E, para piorar, aquele período era como um rio que passava em minha vida, mensalmente.

Certa vez, na escola, senti que algo saíra do controle. Sem coragem de pedir ajuda à professora de Ciências, ou licença para ir ao banheiro, tentei permanecer imóvel na carteira. A cada movimento, uma respirada mais profunda que fosse, o estrago ficava maior. Era a última aula. Rezei para que a professora não me chamasse à lousa, e Deus, compadecido de minha miséria, atendeu. Enquanto ela discorria sobre os estados da matéria (o líquido eu já sentia, na pele), tive a brilhante ideia de me sentar sobre uma de minhas pernas, para que o fundo da calça não tocasse a cadeira, que era verde-água. Naquele dia, eu usava um mocassim de couro da minha irmã, bem clarinho, pelo qual ela tinha certo xodó. Não sei se o fiz à época, mas revelo agora a razão daquela mancha escura em um deles, que jamais saiu, nem com água oxigenada. Quando o sinal bateu, levantei-me e estiquei, com a força do pensamento, o comprimento do avental branco que usávamos por cima da roupa. Desci a rua de casa correndo, me sentindo o próprio Mar Vermelho.

Eu andava de ônibus para cima e para baixo, em São Paulo. O que, naqueles dias, se transformava em experiências pra lá de constrangedoras. Quando me levantava do banco e dava sinal ao motorista de que eu desceria no próximo ponto, eu tinha cer-te-za de que uma imensa e colorida mancha decorava meus fundilhos, e que todos os passageiros olhavam para mim e cochichavam entre si, caçoando ou com dó da garota com absorvente vencido. Suava frio, sentia o rosto queimar, queria desaparecer. Depois, quase sempre, via que havia sofrido em vão e tudo estava sob controle. Sem controle era minha imaginação. E minha insegurança.

Em compensação à minha inabilidade para, na prática, lidar com a natureza, na família não rolava obscurantismo. Nunca me proibiram de lavar os cabelos, andar descalça ou outras crendices, enquanto estivesse menstruada. Algumas amigas não tinham a mesma sorte.

Aquela “mocinha” dos anos 70 se transformou em senhora. E hoje me pego novamente ansiosa, mas por outro marco biológico: a menopausa. Que, ainda bem, é uma palavra mais bonitinha.

O sapato cinza

salto alto

Desde sempre, Nina é doida por um certo par de sapatos meus. O cinza, de salto alto, largas tiras de camurça. Coisa de mulher, não de criança. Ela, de pequena, sonhava com o dia em que iria usá-los. Prometi que os guardaria, seriam dela quando crescesse. E, como os uso pouco, estariam conservados para a nova dona. Uma espécie de herança, de mulher para mulher.

Enquanto esperava o tempo fazer seu trabalho, ela brincou de desfilar com eles pela casa, tal aquelas cenas dos comerciais e anúncios de revista. Pezinhos número vinte e sete perdidos na imensidão do trinta e cinco, arrastando o sapatão para lá e para cá. Fazia pose, mirava no espelho sua silhueta torta, necessária ao equilíbrio anti-natural.

Embora não me recorde com precisão, devo ter brincado com os sapatos da minha mãe. Fingindo a mulher que nem brotara, em clássico exercício de feminilidade. Mas diverti-me muito, disso me lembro bem, com suas jóias e bijuterias. Dona Angelina, bastião do desapego, não ligava se íamos para o quintal com seu anel de rubi. Aliás, também não se importava de promovermos chás das bonecas com suas delicadas xícaras de porcelana. E minha vontade de ser mulher grande ia além: um dia, inventei de sair de casa usando Modess. Eu devia ter oito anos. Nos anos 70, não tinha esses absorventes fininhos, eficazes e ultradiscretos de hoje. O volume extra na calça não me pareceu muito confortável, voltei para casa e joguei fora. Sem contar as bolas de meia no sutiã surrupiado da irmã mais velha, inventando os peitos que ainda demorariam para aparecer. Eu não via a hora de, enfim, ser grande. Entendo a Nina.

– Você está guardando os sapatos pra mim, né mãe? – ela checava, de tempos em tempos. Sua alegria morava no meu sim.

Não por muito tempo, no entanto.

Grandona, Nina, aos dez, já calça dois números a mais que eu. Cedo, ainda, para o almejado sapato cinza. Partiu meu coração sua decepção, quando se deu conta. Por um tempo, ela continuou brincando com eles. Os dedinhos, espremidos, denunciavam o não-cabimento. Aos poucos, desistiu. Uma experiência importante a compor sua fundamental coleção de frustrações, rumo à maturidade.

Hoje, ela se contenta em elogiar quando eu os coloco – mesmo sabendo que eles jamais a acompanharão em seus passeios. São seus sapatos, sem nunca terem sido. Ela questiona por que não saio com eles todos os dias, afinal, tão bonitos. Logo eu, filha! Que, apesar de ter ido para a maternidade tê-la – e seu irmão – com plataformas altíssimas, para desespero da Dra. Clara, hoje fujo de todo salto que ultrapasse a medida de quatro dedos da mão.

Envelhecer é, entre outras sabedorias, não considerar mais um suprassumo usar Modess (ou qualquer de suas variantes), nem sutiã (ah, a liberdade que os peitos pequenos conferem), tampouco saltos que desafiam a gravidade e o bom senso.

Num futuro próximo, Nina terá seus próprios saltos. Seus próprios absorventes e sutiãs. Sua própria mulherice, enfim. E as lembranças das brincadeiras com o velho sapato cinza também ficarão pequenas. Mas continuarão a servir no coração – dela e meu.

Vermelho

unhas-vermelhas

A primeira vez que pintei de vermelho as unhas dos pés foi aos trinta e nove anos. Tirante as brincadeiras de criança com os esmaltes da Dona Angelina, por três décadas condenei meus artelhos à mesmice do branquinho transparente – que tem lá seu valor. Os dedos superiores, no entanto, desde quase sempre gozam do privilégio das cores. Uma injustiça feita com as minhas próprias mãos.

A um passo da idade da loba, era hora de mudar isso. E, para combinar, não chapeuzinho, mas esmalte vermelho. Foi o dia do meu ‘empoderamento’ particular, numa época em que essa (odiável) palavra nem havia sido inventada.

Ensaiei. Meditei, consultei os oráculos, runas, I Ching. Quando cheguei ao salão, apontei, determinada, para o vidrinho cor de carmim. Até a manicure estranhou, “Pras mãos, né?”. “Não, meu bem”, respondi. Enquanto ela trabalhava, fui observando as rubras pinceladas, uma a uma. Primeira camada. Apenas um esboço sanguinolento, “Isso não vai ficar bom”. Segunda camada. Vermelho lúcido. Poderoso. Porreta. E um tsunami de emoções me devastava. Metade de mim só pensava nas sandálias maravilhosas que eu compraria assim que saísse do salão. A outra metade queria que o mundo acabasse em acetona.

Dividida, naqueles vinte minutos questionei o sentido da vida, a minha existência, de onde eu vinha e para onde ia, a razão de termos unhas. E não é que estava ficando bonito? Perguntei-me por que diabos – tinha que ser o diabo que, dizem, é chegado na cor – eu renegara aos meus pés, por tanto tempo, o direito à vermelhice. Aos poucos, para onde eu ia já nem era o mais importante, contanto que eu fosse de unhas pintadas.

E, antes mesmo que a manicure terminasse de passar o óleo secante, eu havia entendido.

Não estava pintando as unhas dos pés por conta do significado fácil contido no imaginário coletivo: sedução, fetiche. Mais que uma questão podal, compreendi que meu corpo poderia ser palco do que eu quisesse (e pé é corpo, gente!). Eu nunca fora proibida de pintar as unhas dos pés. Mas eu mesma me desautorizara, através de um autodecreto embotado e sem sentido. Quantos autodecretos assim guardo nas gavetas? Cadê minhas minissaias?

E assim eu, que já era adepta do vermelho sazonal nos cabelos, estava apenas estendendo a vermelhitude à extremidade sul. E amando.

Encerrado o serviço, a manicure começou a guardar seus apetrechos. Colocou os algodõezinhos cor de escarlate usados na limpeza no cestinho de lixo. “Quer que eu ajude a calçar os chinelos?”. Na verdade, eu queria ir para casa de ponta-cabeça, andando sobre as mãos. Primeiro, para não correr o risco de estragar tudo. Segundo, porque eu queria que todo mundo visse meus velhos novos pés.

Depois da experiência, foi natural liberar o arco -íris aos amados pés, que há exatos dez anos daquele dia D desfilam praticamente a escala Pantone inteira. Hoje, o estranho é eles não estarem esmaltados.

Toda mulher deveria, ao menos uma vez na vida, pintar as unhas dos pés de vermelho. Vale por uma sessão de terapia. E seca mais rápido que uma.

Ordem e progresso

Se aconteceu de berrar com a cria ou discutir com marido, se a raiva fez festa de arromba nas minhas ideias, se fiquei uma arara com o noticiário, o vizinho ou a Vivo, lanço mão de um recurso que, se não é infalível, está quase lá: vou arrumar minha bolsa.

Metáforas à parte, arrumar a bolsa é o remédio geral, a terapia instantânea, o alívio imediato das dores invisíveis. Simbólica e efetivamente, a arrumação retorna ao prumo o que havia virado furdunço. É a ordem física conduzindo à reordem mental, fornecendo a valentia necessária para seguir em frente.

Começo retirando todo, todinho, seu conteúdo. Espalho item por item sobre a mesa de jantar, parece-me um bom local para esse tipo de exorcismo. Carteira, telefone, caderninho, chaves. A carteira, por sua natureza complexa, tem sessão própria: organizo documentos, alinho as cédulas, rearranjo os cartões. Papéis soltos, notas fiscais e comunicados da escola vão para triagem, num canto da mesa. Noutro, devidamente agrupada, a coisarada que precisa de destino.

Três batons é muito, dois voltam para o armário, andar superior. O ímã da farmácia segue para seu habitat natural, porta da geladeira, térreo. Pra quê cinco canetas, Silmara? Comprovantes do cartão de crédito viram bolinhas para os gatos brincarem. Fones de ouvido são enrolados à perfeição e vão fazer par romântico com o iPod. Canhoto de talão de cheques, comprovante da lavanderia, folheto da pizzaria nova, brinquedos que as crianças não tinham onde enfiar na hora: cada um no seu quadrado. Chiclete, absorvente, pinça, Neosaldina, carregador: levo minibolsas para cada categoria de objeto. Lembretes esquecidos ganham registro eternizado na agenda; os já lembrados aportam no lixo reciclável.

Aos poucos, o movimento de faxina toma impulso e a paz acena ao longe: chego às divisões internas. Don’t stop me now!

Minha bolsa, minha vida. Nela, fragmentos da personalidade e da alma. Arrumar a bolsa é ver-se no espelho.

Para um homem, o processo equivale à arrumação da pasta, mochila ou (por que não, minha gente?) pochete. Saibam, porém: a mágica do binômio ordem & progresso se dá mesmo é com uma bolsa. Portanto: se almejarem a plenitude da vida, homens, usem bolsas. De mulher.

Boneca de papel

No restaurante, brinco de colocar a saia azul da mulher de blusa xadrez, sentada na mesa em frente, na moça de sapatilha de florzinha, em pé ao lado da porta. Penso também que ficaria melhor a bolsa da que acaba de entrar, com longas alças e fivela de borboleta, na que está sentada aguardando a conta. E o vestido rodado da ruiva que traça um pratão de yakisoba bem que ficaria bonito na garçonete, limitada ao triste uniforme que lhe aperta as ancas.

Não devo ter brincado o suficiente com as minhas bonecas de papel, quando era criança.

Em cinco minutos, altero a configuração do público feminino do restaurante. Corrijo, melhoro, salvo. Pena que nenhuma delas ficará sabendo.

As bonecas de papel não eram como as de hoje, superproduzidas, compradas em loja. Nós mesmas as fazíamos. Minha mãe desenhou as primeiras para nós. Recortava a cartolina, criava os modelitos. Depois minha irmã e eu aprendemos a técnica e passamos a criar nossas próprias bonecas. Não podíamos esquecer de fazer a abinha para dobrar sobre os ombros, na cintura. Caso contrário, a roupa não parava. Eu não fazia somente roupas, mas os acessórios também: chapéus, bolsas, botas. Para um guarda-roupa completo, bastavam papel e lápis de cor.

Hoje, a brincadeira dispensa a cartolina e o lápis de cor e pode ser brincada em qualquer lugar: supermercado, fila de banco, escritório. Até na aula de meditação. Só não dá para chamar a irmã para brincar junto, agora ela mora longe. Também não posso impedir que as bonecas, no meio da brincadeira, vão embora.

As bonecas de papel só tinham frente. Não tinham perfil, nem costas. Mesmo assim, rendiam uma tarde inteira de diversão. Não havia vitrine impossível para elas. Os casacos mais sofisticados, daqueles longos, elas podiam ter. Vestidos de baile, botas até o joelho, chapéus maravilhosos. Minissaias, vestidos “de ficar em casa”. Não havia roupa que a minha imaginação não pudesse lhes dar.

As mulheres do restaurante têm frente, costas, perfil. São bonecas em 3D. Apressadas, trazem para o almoço, pendurados no pescoço, os crachás das empresas onde trabalham. Não querem brincar. Alheias a mim, servem-se das batatas e dos tomates, pedem refrigerante zero, riem alto, engolem a refeição, levantam-se, vão embora. O papel delas é outro.

Dia da noiva

Foto: Scott Sherrill-Mix
Foto: Scott Sherrill-Mix

Eu, casada, bodas de marfim, dois filhos próprios e um gentilmente cedido, reivindico o dia da noiva que não tive. Eu, que não vivi a icônica tríade véu-grinalda-igreja; eu, que pulei o protocolo do noivado e fui direto aos finalmentes; eu, que não tive nada dessas coisas, venho requerer o direito inalienável e inexpurgável de incorporar, forever and ever, o dia da noiva aos meus dias de esposa.

Porque toda mulher casada há dois dias, dois meses ou vinte anos precisa de um dia da noiva. Vários, ao longo do mês.

Toda não-casada também.

Toda mãe de filho – pequeno, médio ou grande – precisa de um dia da noiva.

Aliás, toda mãe e toda não-mãe.

E toda avó.

Toda tia.

Toda filha.

Toda prima e toda sobrinha também merecem um dia da noiva.

E todo homem, todo pai e todo filho – pensa que não? A todo espírito santo também cabe um dia da noiva, para por os pezões invisíveis para cima, relaxar e não pensar nos problemas terrenos.

Aos desavisados: não um dia da noiva que preceda o ‘sim’, dia de borboletas no estômago, de pura preparação estética para o (des)conhecido porvir. Não como rito de passagem. Não como dia de paparico extra com banho de cinquenta minutos e demais firulas pré-nupciais.

Não.

Dia da noiva como dia próprio. Dia de dedicação plena ao ego. Dia de nada-mais-importante-a-fazer. Dia de ler três revistas inteiras. Dia de tempo sobrando. Dia de sumir, só aparecer mais tarde e todo mundo entender. Dia de cinema solitário. Dia de comparecer ao auto-altar. Dia de ver o dia pedindo, tentando, insistindo, querendo lhe desposar.

Proclame também o seu dia da noiva. Mesmo que você não seja uma. Aliás, tanto melhor.

Peça-se em casamento. E aceite.

Estou só olhando

Foto: Cameron Russell

Entro.

Meus pés, treinados, me levam à seção dos vestidos. Os longos ficam a oeste. A leste, os curtos. Um espelho superlativo, ao norte. O caixa cruel, ao sul. São os pontos cardeais do consumo, orientando minha fome de roupa nova.

A vendedora surge, sorridente. Quer curar a minha deliciosa solidão.

– Estou só olhando.

Ela não sabe, mas eu minto. Não estou só olhando.

Uma a uma, puxo de leve as peças nos cabides, a fim de sabê-las melhor. Meus sentidos estão irremediavelmente despertos. Além dos olhos, curiosos, os ouvidos detectam conversas paralelas; calculo começos de histórias, invento finais. Farejo mangas e golas e entretelas. Arrepio na aspereza da fazenda. Quero comer o vestido de morangos.

Vê, moça? Não posso apenas estar olhando. Mente quem diz.

Penso, nauseada, na possibilidade de mãos infantis, indevidas e não-autorizadas, terem pregado aqueles botões, ao mesmo tempo em que matuto, aflita, no que farei para o jantar. Que horas são?

Dedico dez segundos de compaixão aos que derretem no verão externo, agradecendo a dádiva do ar condicionado interno, a reproduzir o outono com notável perfeição.

Vê, moça? A frase-padrão, que serve para se poder zanzar sossegada por entre as araras, é uma farsa.

Ela, vendedora, ronda. Insiste:

– Procurando alguma coisa especial?

Todos os dias, meu bem. Incansavelmente. Sigo procurando especiarias e especialidades em tudo: uma água quente sob a ducha, para terminar de me acordar. Uma manga doce para meu café da manhã. A volta de todos, em segurança, para casa – todo retorno ao ninho é especial. A esperança de que o dia tenha início, meio e sim. Mas hoje, confesso, procuro mesmo é algo que não me deixe barriguda. Devo respondê-la, será? Vendedora não tem tempo de ouvir. Vendedora só tem tempo de vender. Se eu levo todos os sentidos quando vou às compras, ela só traz um quando vem trabalhar.

O espelho do norte me encara. Ordena que eu confira meu layout original, do Oiapoque da minha écharpe ao Chuí das minhas sapatilhas. Que tipo de animal geográfico paramentado eu sou, afinal?

Saibam, moças vendedoras do mundo todo: nunca estaremos só olhando.

Finjo conferir o preço na etiqueta mas, em verdade, estou pensando na última vez que fui ao cinema, tentando lembrar qual é a capital do Camboja, me dando conta de que não tenho dinheiro. Todos as angústias cabem no bolso de uma camisa verde-limão.

Apanho uma pantalona, coloco-a na frente do meu corpo, tem que fazer barra, sempre tem. Conto as lampadinhas piscantes da vitrine e lembro do dia em que ganhei minha primeira bicicleta – não sei se foi de Natal ou aniversário. O banco veio muito alto, eu era (sou) pequena. A loja não faz ajuste.

Provo, reprovo, hesito, aprovo. Minhas roupas são cheias de verbos. Uma década e dois filhos me afastaram do 38, me puseram no 42 e me trouxeram de volta ao 40. Às vezes, não sei costurar passado e presente.

Ela, moça, quer saber até quando só olharei. Disfarça a impaciência e diz para eu ficar à vontade. Todo vendedor mente. Todo freguês, também.

A mentira da princesa

Foto: Mr. Cacahuate

A menina nasce e logo surge uma legião, encabeçada por papai e mamãe, a chamá-la de princesa. É princesa pra lá, princesa pra cá. Das festas de aniversários à decoração do quarto, ela encarna a coroa imaginária recebida na maternidade, reforçada agora pelo maravilhoso mundo de Disney.

Ser princesa é elogio. Mas será que é mesmo um bom negócio? Eu que não me atrevo a perguntar ao espelho da Rainha Má.

Meninas sonham ser, de verdade, como as princesas em seus brilhantes vestidos arquitetônicos. Mas não têm ideia de como deve ser brincar numa piscina de bolinhas metida em um deles. Se dão trabalho para colocar uma camiseta e um short-saia para ir à escola de manhã, imagine para vestir um corpete.

Deixando o conto de fadas de lado e indo para a vida real, ainda não me parece bom negócio.

Princesas não podem usar moletom velho, nem sair na rua com piranha no cabelo.

Princesas não podem arrotar livremente depois de bater uma coca-cola e um cheeseburguer com os amigos. Aliás, que amigos?

Princesas não podem ter, com relativo sossego, conta no Facebook. Tampouco ir dormir na casa da amiga, nem lavar o carro com mangueira num dia quente de verão.

Princesas até podem se casar com plebeus mas, para todos efeitos, é melhor juntar os trapinhos reais com um príncipe. E todo mundo sabe que príncipes, em especial os encantados, não existem.

Princesas não podem pegar uma mochila e sair pelo mundo. Só se for em avião próprio, com uma comitiva de baba-ovos e agenda programada, sem chance de uma escapulida para tomar um café num vilarejo desconhecido. Uma princesa jamais viverá a enriquecedora experiência humana de ter seu laptop roubado em uma estação de trem.

Princesas raramente conseguem assistir, incógnitas, a um show da Madonna – essa sim, uma espécie de princesa, só que ao contrário. (E, vamos combinar, do balacobaco.)

Porque princesas devem ser educadas, gentis, imaculadas, certinhas. Já viu princesa mostrando o dedo do meio para alguém? Princesa no meio dos Black Blocs? Não. Tirante algumas regalias e confortos tão almejados pela plebe, como não precisar lavar roupa, nem conferir extrato bancário, vida de princesa é, no geral, um porre. Um fingimento constante e um cumprimento sem fim de protocolos sociais, como marcar presença em festas aborrecidas e inaugurações entediantes. Um mundo cor de rosa? Só se for rosa antigo.

Ser princesa deve ser tão perigoso, que dar o título simbólico à filha, sua ou dos outros, deveria ser considerado mau agouro. Praticamente uma maldição. Um incentivo à nova leva de brancas de neve, belas adormecidas e cinderelas, candidatas aos feitiços invisíveis do mundo pós-moderno e sem direito a príncipes para salvá-las.

Mas chamar a filha de princesa significa proclamar que ela é linda, perfeita, digna de um pedestal. E se a relação entre princesa e beleza não passar de rima?

(Meninas são princesas e meninos são super-heróis. A elas é concedida, como nos clássicos, a beleza e a bondade. A eles, a bravura e a justiça. Nesse mundo de faz-de-conta, sempre faltam príncipes para as primeiras e super-heroínas para os segundos. A conta nunca fecha. E agora, Walt?)

Há quem assim as chamem sem nem saber direito o porquê. Perpetuam o mito e não percebem que, assim, encastelam suas filhas, fazendo-as crer que são seres feitos de material especial, que são quebráveis. Obrigadas à beleza e condenadas à masmorra da idealização romântica ou, pior, ao fosso da frustração.

E muitas, quando crescem, caem nesse conto. Que nem de fadas é.

Fantasia por fantasia, melhor ser abóbora. Das que não ligam para o relógio, viram carruagem e vão aonde querem.

Da coragem

Arte: Richt
Arte: Richt

Desde que deixei de tingir meus cabelos, há duzentos e vinte e seis dias, e passei a exibi-los na cor que Deus quer – e quis Ele que fossem, na maioria, brancos – , tenho ouvido de tudo. O mundo é feito de três tipos de mulheres: as que acham horrível deixá-los à mostra, as que acham bonito, e as que acham bacana, mas não para elas.

Dos predicados a mim atribuídos por conta da atitude, “corajosa” é o que eu mais acho graça.

De tanto ser considerada uma mulher de coragem por assumir meus fios albinos, deduzi que a possibilidade de ser chamada de velha assombra as mulheres mais que o câncer de mama. A coloração está em dia. A mamografia, nem sempre.

Não foi preciso respirar fundo para dizer bye-bye às colorações que me acompanhavam há vinte anos. Tampouco tremi, pensando o que seria de mim sem elas.

Coragem, para falar a verdade, é usar salto de quinze centímetros.

Coragem é almoçar fora todos os dias, sem a garantia de que o rapaz que preparou a sua salada lavou as mãos depois de ir ao banheiro.

Coragem é desembolsar quatro dígitos em uma calça jeans. Feita do mesmo tecido, aliás, que a vendida na loja de departamentos, cuja etiqueta não ultrapassa dois.

Corajosa é quem devora a caixa de Amandita à uma da manhã. Ou quem levanta às cinco para fazer ginástica, antes de ir trabalhar.

Coragem é entrar em um prédio em chamas para salvar o bebê que está lá dentro.

Coragem é discordar, com propriedade, do presidente da empresa na frente dele e da turma do Conselho.

Coragem é topar um emprego de assistente social na região mais violenta da cidade.

Coragem é sair do armário.

Coragem é ter o terceiro filho.

Essa mulher, sim, é valente.

Assumir os cabelos brancos, perto disso, é fichinha. Sou café com leite. E, já que o assunto é branco, mais leite que café.

Eu, que de bravura tenho pouco a expor, só fiz descobrir que branco é apenas mais um tom para a gente se divertir. Mais uma opção, assim como o castanho e o vermelho, na paleta de cores da mulher possível.

Notas:

1. Eu disse que ia de branco, um dia.

2. Vem ver meu “Diário de um cabelo branco no Facebook.

Manifesto vermelho

“Fábulas e mentiras”, 2012 – Simone Huck

Branca de Neve é moça triste, embora das mais bonitas. Eu a conheço, desde criança. Somos vizinhas de porta.

Solitária, ela recolhe e lava, três vezes ao dia, sete pratos sujos, oito com o dela. Enquanto faxina seu lar, é observada por cada um dos velhos retratos pendurados no corredor. É sua própria dinastia, convencendo-a a manter tudo como está. Obediente à genealogia, ele segue aprumando a rotina conforme ensinamentos ancestrais.

Acontece que Branca de Neve, especializada em doçuras e gentilezas, também assiste TV, também está no Facebook. Mas ela não vai às ruas protestar. Seu manifesto é doméstico, silencioso, e se dá na longa avenida que vai da área de serviço ao quarto de dormir e amar.

Ao ver a turba em passeata pelo país, acreditou que ela também poderia ser indignada e ruidosa. Contra o quê marcharia, afinal? Não aprendera a saber. Pensou, pensou, pensou. E decidiu.

A partir de sempre, Branca de Neve não aceita mais convites para encenar qualquer fábula. Abandona de vez a mornidão e recusa alegrias anãs. Espelhos respondões, caçadores bondosos, amores súbitos? Não. Nesse conto ela não cai mais.

Amanheceu e ela se foi. Deixou sete camas por fazer, oito com a dela. Largou para trás a floresta densa dos seus pensamentos e foi ter com sua algoz, a Rainha Má. Encarou-a e, no desvario seu, decretou seu estado particular de urgência. Agora é ela quem envenena as maçãs: “Aceita uma?”

Não passou na TV, ninguém pôs no Twitter. Porém, diferente do que propõe a tradição da natureza, Branca de Neve acordara de seu sono profundo, sua hibernação social, em pleno início de inverno. Sem ajuda divina, nem beijo real.

Findas as maçãs, eis a nova estação.

Agora é Branca de Neve nos campos de morango para sempre.

Enquanto você se depila

depilação 1

Enquanto você se depila o planeta segue rumo, a prumo, em acontecimentos diversos, simultâneos, coincidentes, aleatórios. A órbita planetária é precisa e afiada – como a lâmina gentil que escanhoa sua pele sob a água do chuveiro.

Toda sorte de movimento se dá no decorrer desse breve período. É a lâmina universal a fatiar eventos, carregados de significados sabidos e não-sabidos. Nascimento, aniversário, desjejum, aula, reunião, amor, desamor, morte – morrida e matada – caminhada, sono, pensamento, risada, choro.

Tudo enquanto você, solitariamente, se depila.

Se a primeira faz tchan e a segunda faz tchun, minhas axilas desafinaram na Quinta de Beethoven; já é sexta-feira.

É no banho matinal que executo a poda dessa região. Água lava e leva tudo: o pelo e o meu apelo por um dia bom. O pensamento escapa do sossego azulejado e viaja; quero estar um lugar onde eu possa, de fato, sentir a transpiração do universo. Onde fica o sovaco do mundo?

Não dou paz aos pelos que ali brotam: dia sim, dia não, empunho a guilhotina portátil e não deixo nem um para contar história. Recém-nascidos, eu os toso, sem piedade. Eles não perdem a esperança; continuam crescendo e se multiplicando. Pelos têm rara obstinação.

Uso, somente nelas, um barbeador de plástico, em versão com frufrus ergonômicos, próprios para minhas mãos pequenas e meus olhos femininos. Não há barba, porém. Mas estou eternamente vinculada ao objeto masculino, que sequer trocou de nome para me servir.

Sonhava, com onze anos, em depilar as pernas. Os pelos adolescentes não combinavam com a pré-moça que me habitava. Autorizada pela minha mãe, dei cabo deles. Faço isso há trinta e cinco anos. Nunca me perguntei o porquê.

Depilação é eterna refação. É, também, atestar e validar a vida; em morto não nasce pelo. É preciso agradecer, portanto, o pelo nosso de cada dia.

Enquanto me depilo, a fé é cega. A faca, amolada. O barbeador, cor-de-rosa.

Estou pronta. Venha, dia.

Refúgio

Arte: Marie W.
Arte: Marie W.

Há uma lei universal e implacável, sobretudo sacana, que estabelece: sempre que você sair mal ajambrada de casa – mesmo que não seja esse o seu hábito – , a probabilidade de topar, ainda que ao acaso, com um amigo ou conhecido, da categoria dos que adoram puxar papo, é imensa. Noutras palavras: é batata.

Ela avista a ex-colega de trabalho no supermercado, não se viam há anos. Feliz reencontro? Que nada. Ela está na pior versão de si, com praticamente tudo por fazer: cabelos, unhas. Nem um lapisinho aqueles olhos viram, desde o amanhecer. Corretivo para as olheiras? Não. Uma coerência mínima entre a parte de cima e a de baixo? Qual o quê. Em termos de aparência, no horóscopo do dia ela é lua fora de curso. Trombada solar. O próprio apocalipse. Não há outra opção, exceto a fuga.

Quem mandou acertar o relógio para despertar às 7 p.m., e não 7 a.m.? Quem mandou ceder aos caprichos do sedutor edredon, implorando por mais dez minutinhos de puro romance assexuado? Quem mandou escolher as primeiras peças da pilha de roupas para guardar, sem se preocupar se ornavam ou não? Quem mandou engatar uma tarefa após a outra, ao longo do dia, sem encontrar tempo para reconfigurar o prejudicado layout? Quem mandou ir naquele supermercado?

Quem nunca?

Fugir é a única alternativa. No entanto, nada há em casa para o jantar. Ela terá, então, de se esquivar, se esconder, se camuflar, fazer mimetismo com os vidros de palmito. Ou meditação transcendental expressa, para alcançar a iluminação, o desapego e a invisibilidade.

Ela vê, por uma fresta da gôndola, a colega escolhendo pão de forma. Trata de seguir para o corredor oposto, na seção de hortifrútis. A missão: sair do seu campo de visão. Caso contrário, a colega, de tão alegre, perguntará como ela tem passado e, dadas suas más condições, desnecessária será a resposta. Inquirirá o que tem feito da vida, se tem visto o pessoal, vai sugerir trocarem emails, se adicionarem no Facebook. Um constrangimento sem tamanho para quem não tem nem certeza se passou desodorante. Ela cogita largar o carrinho de compras ali mesmo. Quem precisa de tomates?

Fosse um encontro casual com a vizinha ou a mãe de um amigo do filho, nem tudo estaria perdido. Ela seria beneficiada pela convivência: “Puxa, normalmente ela não é assim”. Mas não. Posto que, assim como levou anos para reencontrar a colega, serão outros tantos até o próximo esbarrão n’algum canto qualquer da cidade. A colega levará consigo, definitivamente, sua imagem como a mulher mais relaxada, descabelada e mal-cuidada do universo. Em sua memória, a partir de então, um único arquivo estará disponível. Algo como um link permanente, incapaz de ser editado ou excluído.

O negócio é buscar refúgio no setor de ferramentas.

Bege is beautiful

Esquire Calendar,Ren Wicks (1948)
Esquire Calendar, Ren Wicks (1948)

Ela é assunto em blog cabra-macho, pauta de tweet-testosterona, motivo de ojeriza nas mesas regadas à cerveja. Até reportagem na TV já se fez. É quase um levante popular velado. E contra quem? A coitada da calcinha bege. Essa injustiçada da indústria têxtil, condenada sem pecado.

Da cueca bege ninguém diz nada.

São protestos aqui e ali, pró-impeachment da peça. Justo ela, que nos salva sob o vestidinho branco. Ela, que nos livra do trabalho de decidir,  às seis da manhã e ainda escuro, entre a paleta de cores da gaveta. Ela, que habita a delicada fronteira imaginária de Marte com Vênus.

É com ela que as mulheres vão, meu bem. A calcinha bege é delas assim como o futebol é deles. (E tem esporte mais bege?) Usa-se e assiste-se, a despeito do outro. O bege pode não ser o tom mais divertido do mundo. Mas o verso de Alberto Caeiro já ensinava:

“A cor é que tem cor nas asas da borboleta”

Portanto, o protestador incauto que se conforme: a patroa ama. Ela pode até ter a lingerie transadona para de vez em quando – calcinhas que cumprem a escala Pantone inteirinha, fio dental alucinante, espartilho high-tech – , mas é na amiga cor de pele que ela confia e deposita a garantia de seu conforto diário. A etnia parda, quer queira ou não, predomina sua população de roupa íntima. Não desbota fácil. Tem raça.

Desconjurar e militar pelo seu banimento é nhém-nhém-nhém hormonal. O mesmo que achar que a mulher tem o dever de ser sexy em tempo integral; uma máquina de sedução ligada no 220, em stand by até o próximo encontro. Ter obrigação de estar gostosa a qualquer momento cheira a coisa velha. Nada é mais charmoso que o sossego.

Não confundir com lingerie esbeiçada, registre-se. A beginha também precisa estar decente. Nada de correr riscos durante, por exemplo, uma emergência médica.

Quero ver ser gata e segurar a onda numa noite (ou tarde, ou manhã) de amor com uma calcinha cor da pele e sem costura.

Bege is beautiful.

Enquanto roo o esmalte

Foto: Naíra Teixeira Dias
Foto: Naíra Teixeira Dias

Em véspera de manicure, gosto de adiantar o serviço. Arranco o esmalte com os dentes e destruo a mandala colorida das unhas, feita com tanto capricho na semana passada. Durante dias justifico a pia cheia entoando o mantra “Não posso lavar louça”. A passagem do tempo está em minhas mãos.

Enquanto roo o esmalte, penso na roupa que ainda não tirei da secadora, na viagem de final de ano, na minha fotografia na carteira de motorista. No paradeiro do anel de borboleta e por onde andarão a tia Elisa, o doutor Fuad, a mulher das cocadas. Se volto a estudar ano que vem, se faço mais uma tatuagem, se mereço ser feliz.

Roer é uma espécie de meditação.

Enquanto roo o esmalte, quieta num canto do sofá, finjo prestar atenção no Jornal Nacional. Nessa hora, repasso meu noticiário particular. É quando sou minha própria repórter: investigo e descubro, revelo e reivindico, pergunto e respondo. Às vezes, me engano.

Roer é ato primitivo. Uma extensão da fase oral.

Enquanto roo o esmalte, penso no que vou cozinhar para o almoço de amanhã e onde pretendo estar daqui dez anos. Que caminho farei para chegar ao consultório da ginecologista – a consulta é às quatro – e em qual esquina da vida entrei na contramão, anos atrás. A distância entre o raso e o profundo é de apenas cinco dedos.

Enquanto roo o esmalte, ficam carcomidas as lembranças inventadas de futuro. Vou até o banheiro e procuro acetona no armário. Sei que não existe removedor de passado.

Roer é validar o impermanente.

Enquanto roo o esmalte da vez, ensaio a próxima cor. Flerto com a paleta e namoro tons de vermelho, azul, cinza, marrom, verde, roxo. Eu mando no arco-íris.

Enquanto roo o esmalte, provo que tudo pode ser cancelado, renovado, destruído e reconstruído, indefinidamente. O resto que se lasque.

(Quem quiser entender uma mulher, que leia seus pensamentos nessa hora. Está quase tudo ali.)

Roer é preciso. Viver não é preciso.

De bolsa nova

Ilustração: r8r

Foi Dia dos Pais e também ganhei presente. Eu, que sou mãe. Não que misturemos os papéis em casa; esses já são suficientemente bagunçados no arquivo da estante (levei horas para localizar uma conta de luz recente, pediram na renovação da carteira de habilitação). É que me ocorreu de também merecer um mimo no segundo domingo de agosto: sem mãe não há pai. Na véspera, o diabinho que se empoleira no meu ombro esquerdo e vive às turras com o pequeno anjo sobre o direito me cutucou, soprando um recado. Uma ordem. Disse ele: “Vá e compre aquela bolsa que você gostou”. Eu fui. E o anjinho chorou.

Tudo posso na bolsa que me fortalece. Com ela a tiracolo (e dividida no cartão), fico pronta para o mundo.

Pronta para aturar o deselegante motorista da outra pista que vê minha seta e acelera. Relevar a indelicadeza do médico do convênio, que se despede enquanto eu faço uma pergunta. Tem nada, não. Eu estou de bolsa nova.

Preparada para correr com o almoço, levar as crianças à escola, voar para a reunião em outra cidade e voltar a tempo de buscá-las. Tudo bem; eu vou de bolsa nova.

Forte para lidar com o intolerável, assistir na TV guerras civis não-declaradas, declarar guerra às empregadas domésticas, suportar a má-vontade da moça da padaria que se aborrece por ter de explicar do que são os salgados. Que que tem? Minha bolsa é linda e nova.

Uma bolsa-dos-desejos transmuta qualquer humor feminino. É munição para a batalha, proteção em meio à selva urbana, patuá da espécie. No icônico depositário de pertences e utilitários vai a alma d’uma mulher. Já uma bolsa novinha em folha – com todo respeito pelas anciãs guardadas no armário – é capaz de tudo isso com o frescor de uma manhã recém-nascida. Bolsa nova é pura bossa-nova mental.

Sim, eu agito bandeiras verdes e anticonsumistas. Reservo-me, porém, o direito a recaídas samsáricas. Posso ser mundana, só um pouquinho? Estou em dia com Deus. E ele me disse, em segredo, que dá para conciliar aspirações espirituais e desejos materiais. Gosto de pensar assim. Além de que, não contei. Antes da ordem final do diabinho, eu já havia adquirido pela manhã, na mesma loja, um par de sapatilhas que estava dando sopa.

Mundanice pouca é bobagem.

A mulher que não sabe

“Incisões”, 2012 – Simone Huck

Diz-se dos tipos de mulheres que existem. Mulher-isso, mulher-aquilo. Há tantos padrões como há de flor, passarinho, inseto. A tipagem é o forte da humanidade. De um, no entanto, não se fala ou lucubra, a despeito de sua maciça ocorrência. Senhoras e senhores, com vocês: a mulher-que-não-sabe. (Agora com hífens, a título de garantia.)

O objeto do seu não-saber é imprevisível, inexato, infinito. Contempla a vastidão do planeta yin.

A mulher-que-não-sabe passa os dias no passado e as noites no futuro; não lhe sobra nem meio-período para o presente. Está sempre a perguntar coisas ao espelho, mas não sobre sua suposta supremacia estética, que isso é lá com as bruxas más; ela prefere encher-lhe o pacová na tentativa de saber o dia dos acontecimentos aguardados ou até quando perdurará uma situação. O espelho finge que não é com ele.

A mulher-que-não-sabe desconfia do antibiótico e do GPS, mas crê no horóscopo e na escova progressiva. Salva seus filhos e, ao mesmo tempo, os condena ao limbo afetivo. Acha feio não chorar em enterros; bonito é o teatro do pêsame.

A mulher-que-não-sabe vive tendo alergia a tudo que a incomoda e se desentendendo com a alegria que a procura. Ignora que as duas são feitas das mesmas letras. Se entrega à tristeza e não percebe o quanto ela pode ser movediça. Vasculha em gavetas e armários, à procura de autofragmentos perdidos em cada um de seus aniversários.

A mulher-que-não-sabe deixa o arroz de festa queimar. Engoma camisas de força, inspeciona orelhas pueris. Acredita que o tempo é fugidio, mas o que lhe escapa, na verdade, é a coragem. Ela não sabe que coragem e tempo são casados desde sempre – e jamais tiveram amantes.

A mulher-que-não-sabe tem dificuldade para dizer ‘não’ quando deve dizer ‘sim’, e ‘sim’ onde caberia um ‘não’. Os opostos, geralmente, adoram bagunçar o seu coreto.

A mulher-que-não-sabe teima em combinar as cores das roupas, da casa e do batom, de acordo com a paleta limitada do seu olhar. Segue registrando a vida em frouxas escalas de preto e branco. E, assim, se vai no sumidouro do breve pixel…

A mulher-que-não-sabe nem imagina que suas neuroses – as leves, as moderadas e as terminais – são compartilhadas, ainda que secretamente, com todas as outras mulheres e, dentre essas, pasme!, também com as que sabem. A centelha divina da bendita ignorância abençoa todas.

A mulher-que-não-sabe é louca para deixar de sê-la. No fundo, sempre esteve grávida de sabedoria. Mas ela, claro, ainda não sabe disso.

Cabelo, cabeleira, cabeluda, descabelada

Arte: Nikkinella

Eu me divirto bastante quando vou cortar os cabelos. (Embora não tenha ousado grandes transformações. O comprimento dos meus, nem Joãozinho usa mais.)

Gosto do ritual da lavagem terceirizada. Gosto de vestir a capa plástica, para que os fios decepados não piniquem depois. Gosto do café adoçado com futilidade. Gosto das revistas de bobagens alheias. E gosto, sobretudo, do lero que antecede a operação, o papo despretensioso com o cabeleireiro, as divagações sobre paletas de cores, a previsão de como vai ficar, como se nada mais importante estivesse em curso no planeta. Aquela hora em que nada – nem as injustiças do mundo – tem relevância, exceto o planejamento do novo corte.

Uma coisa, no entanto, me aborrece: buscar inspiração nas revistas especializadas e encontrar penteados fictícios: aqueles que só existem na fotografia, só se realizam com mais de três produtos e/ou acessórios e só funcionam quando não tem vento, chuva ou qualquer outro fenômeno da natureza. Que dependem do ar-condicionado para sobreviver e valem somente se vistos de frente. É o penteado-instalação, cuja única função é ser assistido. Longe de ser uma obra-aberta, não permite interatividade – nem com a própria dona.

O cabeleireiro vai explicando: esse fica assim na base da pomada. Aquele foi conquistado com mousse, secador e chapinha – a santíssima trindade dos salões. A cor do outro tem Photoshop; humanos não dão conta de fazer esse degradé. A cada página, um cabelo devidamente organizado. Sentada no cadeirão, melenas molhadas escorrendo pelas orelhas, lanço a questão ao universo: com qual corte se pode, verdadeiramente, acordar, tomar banho e sair?

Mais aborrecido, só propaganda de xampu. Dobrada a esquina do século, elas insistem na velha fórmula dos cabelos longos (sempre longos; não há curtos nos comerciais) e brilhantes balouçando em câmera lenta. Que mentira, que lorota boa: a vida não passa em câmera lenta.

Tal como na propaganda, com seus filmes produzidos para faturar prêmios e não, necessariamente, ajudar a vender, há penteados preparados tão-somente para vencer concursos.

Quero ver nas revistas e nas tevês cabelos de verdade. Cabelos de levar a cria para a escola, de fazer reunião com cliente e faxina nos armários. Cabelos de bater perna no shopping, ir ao dentista, deitar no sofá para assistir as reprises do canal Viva. Cabelos de namorar, sem vergonha de ficarem nus. Cabelos de preparar camarão na moranga e ler Drummond na rede.

Cabelos que, fossem gente, usariam jeans, camiseta branca e havaianas.

Crônica de minuto # 19

Quando meus cabelos iam até a cintura, as pessoas diziam “Que cabelo lindo”. Depois que passei a usá-los curtos, bem curtos, as pessoas passaram a dizer “Que cabelo bacana”. Lindo é diferente de bacana. É como se cabelos curtos não estivessem autorizados à beleza. Só à bacanice. É o paradigma do cabelão, dando nó no mito do feminino. (Pense nisso quando for lavar os seus.)

A mulher que não usava bolsa

Tiago Gualberto, óleo sobre cartão/Flickr.com

Existe, e eu vi. Com estes olhos que, um dia, estando tudo nos conformes, serão de outra pessoa. Quem sabe, eles também presenciarão coisas raras, improváveis. Como esta que vou contar: uma mulher que não usa bolsa.

Quando a conheci, perdi de fazer a vistoria no momento de sua chegada – mulheres sempre se vistoriam quando se encontram. Tratei, portanto, de conferir o canto do sofá durante o almoço. Era um desses restaurantes com sofazinhos. Nada que lembrasse uma bolsa repousava ali. Procurei nas cadeiras ao lado, e nada. Nem grande, nem pequena, nem de mão, nem tiracolo, nem mochila, nenhuma espécie jazia pendurada. Logo pensei no pior, mas a conversa era tranquila demais para um pós-assalto. Continuei escaneando o local, na tentativa de detectar o acessório. Em vão. Faltava algo naquela silhueta. Bingo – ficara no carro! Descobri em seguida: nada disso.

Para ela, a mulher sem bolsa, nada faltava. Não havia vácuo, nenhum vazio existencial. Tudo estava em ordem, em paz. O que ela precisava levar consigo estava ali, numa minúscula carteirinha, mais parecida com um porta-níqueis. Cinco por dez centímetros, não mais que isso. Nela, celular, cartão do banco e algum dinheiro. Só. E a mulher sem bolsa, para minha angústia e confusão mental, estava plena.

Inquirida, a mulher sem bolsa falou-me sobre suas razões. Não gostava, não precisava, não se ajeitava com elas. Tinha apenas três. Todas inúteis, condenadas à escuridão do armário. Imaginei as pobrezinhas numa prateleira lá em cima. Empoeiradas e solitárias. A cada vez que as portas se abriam, suas esperanças se renovavam. Saíam para passear os vestidos, as blusas, os sapatos. Menos elas. Eram bolsas deprimidas. Eu ouvia tudo, incrédula. Para a mulher, bolsa é órgão. Como boca, olho, nariz. Matei a charada: além dos cromossomos X e Y, há o cromossomo B. Que deve ser bê de bolsa. Lá pelos dois ou três anos de vida, a genética se manifesta. A menina começa a usar as bolsas da mãe, da madrinha, até que ganha as suas, depois compra as próprias, num processo garantido pela biologia.

Mas a genética da mulher sem bolsa era diferente. Onde teria ido parar seu cromossomo B? A supressão, contudo, aparentemente não lhe deixara sequelas. Ela jura: se vira muito bem assim. Mas, cá entre nós: onde fica o batom? O lenço de papel, no caso de uma emergência? A caneta, o bloquinho de papel para as anotações de última hora? A carteira gorda, recheada de documentos, os originais e as cópias autenticadas, os cartões de débito, crédito, dos programas de fidelidade, do plano de saúde? Pendrive? Os comprovantes de compras, aqueles papeizinhos azuis e amarelos que parecem se reproduzir espontaneamente, formando verdadeiras colônias dentro e fora da carteira? As fotos dos filhos, do namorado, do marido, de Jesus Cristo, onde? O espelhinho, o pente, a agenda, o celular, o remédio para asma, a sombrinha, o analgésico, o perfume, a pinça, o absorvente – que vai passear até nos dias que não são dias, vai que uma amiga precisa. Onde diabos ela põe tudo? Não põe, ora.

Bolsa é o porta-mundo particular. O que vive dentro nela, está sob controle. O que fica de fora, não. Uma mulher prevenida vale por quantas, mesmo? Não importa. A mulher sem bolsa, serenamente, dispensa tudo. Cromossomo a menos dá nisso.

O elogio nosso de cada dia

Foto: Anthony Kelly/Flickr.com

Cena 1. Terceira vez que eu via a moça naquele café. Na primeira, só pensei em falar. Na segunda, deu vontade de falar. Mas ela se levantou da mesa e foi embora. Na terceira, pensei, deu vontade e ela olhou em minha direção. Soltei:

– Seu cabelo é muito bonito.

A moça fingiu que não entendeu e murmurou o Ãn? mais blasé do mundo. Elogiar desconhecido é quase sempre arriscado, a gente nunca sabe o que vem no rebote. E quando o elogiado faz que não escutou, repetir o elogio torna tudo sem graça. Desejei ter ficado de bico calado, mas tive que dizer de novo. Aquilo de ajoelhar e rezar. Ela, então, passou a mão nos ditos cujos e lançou-me um olhar de incompreensão:

– Está tão sujo…

Cena 2. Festa na casa de amigos, reparei na roupa de uma convidada. Como a dona do traje era amiga, espécie de comadre, me senti à vontade:

– Gostei do seu vestido!

A amiga não posou de blasé e entendeu de primeira. Mas retrucou, com a mesma incompreensão da moça do café:

– É tão velho…

Cena 3. Reunião de trabalho. Meu radar, treinadíssimo, captou um maravilhoso par de sapatos sob a mesa. Quem os calçava não era uma desconhecida, tampouco alguém muito íntimo. Aguardei a brecha:

– Amei seu sapato.

A mulher, diferentemente das outras duas, sorriu e aparentemente gostou do elogio. Porém, teve necessidade de revelar:

– Paguei tão baratinho…

Diacho. Mulher, quando recebe elogio, tem sempre que arrumar uma explicação. Como se não o merecesse e precisasse de uma justificativa para estar ou ser bonita. Como se procurasse algum detalhe que lhe diminuísse o valor. Ou então, o contrário. Uma tentativa de auto-valorização. Como se dissesse: “Meus cabelos são bonitos mesmo imundos”. “Meu vestido é antiquíssimo e eu fico linda nele.” “Eu uso sapatos baratos, mas veja como sou elegante.” Não sei o que é pior.

As pessoas elogiam por vários motivos. Para lisonjear. Por interesse. Porque têm a expectativa do agradecimento – querem atenção, então dão atenção. Para registrar uma opinião ou impressão. Ou porque acham a coisa bonita e sabem que a outra pessoa gostará de saber. Simples assim. É meu caso: não importava se o cabelo havia sido lavado naquele dia ou três dias atrás; se o vestido era novo ou se já andava sozinho; se os sapatos haviam custado os olhos da cara ou uma mixaria. Gostei. Ponto final. Coisa feia recusar elogio.

Repare: acontece quando o elogio é dirigido a uma mulher, onde ela própria é a elogiada. Se você elogiar o filho dela, ela concordará (e complementará). Em contrapartida, elogie um homem – sua gravata, por exemplo – e ele simplesmente responderá: Obrigado. Já viu homem explicando que a gravata era do camelô, que estava no fundo da gaveta, que comprou em Nova York? Tem certas horas em que a objetividade masculina é invejável.

Cena 4. Tirei o cartão da bolsa para pagar minhas compras. A moça do caixa usava um anel que era luxo só. Grudei os olhos nele, suspirei, ensaiei o elogio… E limitei-me a dizer:

– Débito, por favor.

Os vestidos do domingo

Foto: Leandro Mise/Flickr.com

Domingo passado fui comprar comida para os gatos, estava no fim. Com fila no caixa, meu passatempo predileto entrou em ação: olhar gente. Mais precisamente, as mulheres. Mulher adora prestar atenção em mulher, e isso é coisa que nem mulher entende o porquê.

A primavera, prestes a se despedir, disse ao que veio. Sol de fazer brotar o que fingiu estar seco, brisa quente. Dia branco, preguiça no ar. E todas as mulheres na loja vestiam vestidos. Todas. Como se uma ordem cósmica tivesse sido dada a elas ao amanhecer daquele sétimo dia, véspera do Dia dos Mortos: Vão viver! Obedientes, as mulheres trataram de tirar os seus do armário. Floridos, xadrezes, listrados, verdes, azuis, rosas, amarelos, com alças, sem alças. E numa coisa todas combinaram: o comprimento, mais curto neste pré-verão. Eu, claro, reparei nas pernas todas.

Conferi se eram bonitas ou nem tanto. Se eram gordas ou magras. Longas ou curtas. Branquelas ou bronzeadas. Se o cirurgião vascular teria trabalho por ali ou não. Se tinham ou não manchinhas roxas, dessas que aparecem quando a gente bate na quina da cadeira. Se o formato denunciava a caminhada diária ou a perna para o ar. Brinquei de trocar mentalmente as pernas de um corpo para outro, para ver como elas ficariam – o que não é nada fácil. Brinquei de tentar adivinhar como era o rosto, olhando primeiro para as pernas. Errei feio: as pernas mais gordinhas não estavam nos rostos mais redondos. Nos pés, dá-lhe rasteirinhas e chinelos cheios de bossa. A fila andou e eu pensei: o conforto há de vencer. A redenção dos pés, finalmente.

Quando eu tinha vinte anos, não usava vestido. Suspirava ao lembrar das minhas pernas aos quinze. Queria ter a cabeça dos vinte, no corpo dos quinze: tudo tão no lugar.

Fiz trinta anos, e já voltara a usar vestidos. Mas suspirava ao recordar das pernas dos vinte. Queria ter a cabeça dos trinta, no corpo dos vinte: eu era feliz e não sabia.

Aos quarenta, continuei metida nos vestidos. E ainda suspiro ao pensar nas pernas dos trinta. Queria ter a cabeça dos quarenta, no corpo dos trinta: como é que pode a gente mudar tanto em uma década?

Já que existe certa inteligência nisso tudo, resolvi não esperar meus cinquenta anos. Desta vez, a nostalgia será ao contrário, e vale para todas as partes do corpo. Dou um pulo lá na frente e, sabendo que sentirei saudades de agora, declaro-me, hoje, pronta e perfeita para o que minha imaginação me autorizar a vestir. Tirando o que for tão curto quanto a vida, eu vou é botar o meu bloco na rua.