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Mapa

São Paulo, Avenida do Estado. Quase elegante em seu puído terno preto, ele expunha seus produtos no semáforo. Pendurados em seu braço, carregadores para celular. Nas mãos, um mapa colorido da cidade, que ele enrolava e desenrolava feito pergaminho, demonstrando aos fregueses. Era, ao mesmo tempo, vendedor e vitrine.

Mas quem, em tempos de GPS, compra mapa de papel? Quem, que com um clique pode descobrir, em segundos, onde fica a capital da Moldávia, podendo dar zoom e ver tudo em 3D, compraria um mapa de papel, limitado à pobre 2D, que facilmente pode se rasgar, sujar, pegar fogo, ser destroçado pelo cachorro?

Se ainda são feitos, é porque ainda se usam – uma lógica do mercado. Para mim, mistério.

Em casa, tínhamos um guia de ruas da cidade. Grosso, feito em papel bem fininho, mais de trezentas páginas. Para localizar uma rua, primeiro a gente a procurava na lista no começo do guia, com letras desafiadoramente miúdas. Na frente do nome, o número da página onde ela figurava, e uma coordenada alfanumérica, por exemplo, B8. Então, era só ir à página procurar na coluna vertical a letra B e, na horizontal, o número 8. Pronto! Como um tiro do jogo Batalha Naval, lá estava, no quadrante indicado no mapa, o logradouro desejado. Eu brincava de procurar ruas, ainda que não precisasse da informação. Visitava, com especial dedicação, a página onde a minha casa ficava. E via, encantada, o mundo de ruas que havia em torno de mim. Computadores ainda não existiam. Uns heróis, aquele pessoal que trabalhava nas editoras.

Nosso guia, por certo, foi parar no lixo em um dia de arrumação. Mesmo destino das pesadas listas telefônicas, que a Telesp entregava aos assinantes de tempos em tempos, devidamente atualizadas. Tinha a comercial e a residencial. Chegamos a acumular várias edições na estante da sala. Eu até que achava bonito, exibir aquele inventário de gente e negócios tão organizadinho.

No trânsito encalacrado daquela manhã de outono, que no GPS do meu carro aparecia em um desanimador tom de vermelho-raiva, observei as vendas do ambulante engravatado. Apesar da coreografia do abre-e-fecha do mapa, ninguém se interessou. Afinal, para quê mapa, se nesta cidade a população parece estar condenada a um eterno engarrafamento?

Ensaiei abaixar o vidro e perguntar-lhe quantos mapas ele vende em um dia bom – o que significa ruim para o motorista. Procuraria, também, saber o perfil do comprador. Novo? Velho? Homem ou mulher? Talvez, até comprasse um para mostrar aos meus filhos. Mas não deu. O sinal abriu, o ônibus atrás de mim buzinou e eu segui pela Avenida do Estado. Que eu não sei em qual página e coordenada alfanumérica figuraria, em nosso velho guia de papel.

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Não quer aproveitar?

Ilustração em “The Ladies’ home journal” (1889)

Entro na loja espaçosa, cheirosa, colorida e iluminada – bem do jeito que o Diabo ensinou aos marqueteiros – e peço:

– Quero ver os batons.

Dizem que ruivas ficam bem de batom vermelho. Testa aqui, testa ali, decido.

A vendedora apanha o batom vencedor e inquire, com a cara nem um pouco lavada (sua chefe jamais permitiria a infração, é uma loja de cosméticos):

– Não quer aproveitar e levar um xampu também?

Por instantes, busco mentalmente a relação direta entre cabelo e boca, a fim de justificar a oferta, e só encontro estas: ambos ficam na cabeça, são paroxítonas e têm quatro letras comuns.

Entrei ali movida pelo desejo de um batom, e não xampu. Fosse assim, teria feito diferente desde o início:

– Quero ver os xampus.

Ou ainda:

– Quero ver xampus e batons.

Uma vez que não foi essa a minha abordagem, declino o convite para “aproveitar”. Estou ficando boa nisso de recusar, nas lojas e na vida, coisas que não quero ou preciso.

– Só o batom mesmo, por favor.

Ela é brasileira, não desiste nunca e é comissionada:

– Os hidratantes estão com 20%, não vai aproveitar?

Moça, vamos nos sentar ali fora e conversar. Qual o objeto do aproveitamento proposto, afinal de contas?

Seria aproveitar o fato de que pagarei com cartão de crédito, e com cartão, já sabe: a gente não vê o dinheiro saindo da carteira, se empolga, e depois de quarenta dias, chora? Nesse caso, quem aproveita é o banco e a administradora do cartão.

Ou aproveitar que a loja foi projetada para ativar todos os meus sentidos e me fazer comprar o que preciso e , principalmente, o que não preciso? Nesse caso, quem aproveita é o dono.

Ou ainda: aproveitar que a vendedora é simpática e faz cara de cãozinho pidão, só faltando entortar a cabeça para o lado, e eu me sentirei feliz em fazê-la feliz, assim como quem afaga um cãozinho pidão? Nesse caso, quem aproveita é a vendedora, que engordará suas comissões no final do mês.

Parece-me que todo mundo aproveitará bastante o fato de eu sair da loja com batom, xampu e hidratante. Menos eu, que terei cem reais menos na conta e coisas demais no armário.

Eu, que só queria um batonzinho vermelho para confirmar se as ruivas ficam mesmo imbatíveis com ele, costumo aproveitar quando passo ao lado da sorveteria para tomar um picolé de limão.

Aproveito que o gato está dormindo na minha cama e tasco-lhe um cafuné demorado.

Aproveito quando não está chovendo e vou caminhar na Lagoa do Taquaral antes de buscar as crianças na escola. De vez em quando, aproveito e como um pastel também.

Sempre aproveito se a Nutella está barata, e levo dez potes de uma vez.

Mas, por ora, penso em inverter a situação e propor que a vendedora, não eu, aproveite. Diria-lhe assim:

– Você não quer aproveitar que tem pouca gente na loja e ligar para sua mãe que fez quimioterapia ontem e está toda tristinha e nauseada?

– Por que você não aproveita que é sexta e responde aquela mensagem dele, parada no seu WhatsApp desde a semana passada? Ele viu os dois risquinhos azuis e está desolado. Bobagem competir com o futebol da quarta, meu bem. Como diria Djavan, você insiste em zero a zero e ele quer um a um.

E o uso indiscriminado do verbo transitivo direto e indireto parece acometer todos ali. A moça do caixa entrega minha compra (composta de um item – salve!), e pergunta se quero aproveitar e fazer o cadastro. Balanço a cabeça, que tem cabelos, abro minha boca e digo:

– Não, obrigada. E aproveita, que hoje eu estou de bom humor.

Cadastro

ImageZoo/Corbis
ImageZoo/Corbis

– Já tem cadastro com a gente?

Se respondo ‘sim’, a vendedora de piercing no nariz corre para o computador e pede meu nome. Sou pilhada na balela; não, não tenho o tal. Sou digna de outro, menos virtuoso: o cadastro dos mentirosos.

Se digo que não, ela tenta me convencer.

– Não quer fazer? É rapidinho.

Penso em recorrer ao ‘talvez’, a possibilidade intermediária universal. Ao menos, me daria alguns instantes para agarrar o que comprei e fugir. Cogito devolver na mesma moeda, pedindo que ela, vendedora, preencha um que venho elaborando há tempos: o cadastro nacional dos inconvenientes. Já tem quinhentos nomes, sabia? – eu lhe diria.

Querem meu e-mail e meu telefone em todo lugar onde compro algo, seja uma única caneta. Ou nem isso. Uma vez, rodei, rodei em uma loja, não comprei nada porque detestei tudo e, na saída, a mocinha do caixa – juro – me chamou e fez a proposta indecente. Mas minha filha… – ensaiei. Pior que isso, só quando perguntam se tenho o cartão da loja.

Vi-me obrigada a criar um e-mail alternativo (cuja senha já esqueci), só para deixar os vendedores contentes. Não quero receber as novidades da loja de edredons, nem da de materiais elétricos, tampouco do shopping inteiro. Eu mesma confiro as novidades, onde, se e quando quero. Não dou conta de ver os e-mails importantes que recebo, que dirá aquele com anúncio de cestas de Natal que podem ser adquiridas pelo PagSeguro em três vezes sem juros, uma maravilha. And so this is Christmas.

Cadastros – alguém precisa avisar o varejo –  não conferem, por si só, poder mágico de aumentar as vendas, fidelizar clientes, salvar o mundo. É namoro condenado, onde um dos dois não quer. Casamento forçado. O assédio cadastral é um estupro comercial.

Tem uma loja, no entanto, que só vende com cadastro. Aí eu me rendo, porque é loja de café. Faço o cadastro, digo a verdade, somente a verdade, nada mais que a verdade. Forneço não só RG e CPF como comprovante de residência, atestado de bons antecedentes, histórico escolar, carteira de vacinação, tudo, tudinho que pedirem. Com dependência de cafeína não se brinca. (E não convém deixar Mr. Clooney chateado.)

Resolvido, enfim: à vendedora com piercing (que não é a do café) eu não respondo sim, nem não, nem talvez. Finjo-me surda. Não falha.

Sou contra cadastros. Tenho preconceito. Sou cadastrofóbica. Prendam-me por isso.

Oh Lord, won’t you buy me a Mercedes-Benz?

Arte: Jim Devlin

Se você anda irritadiça, raivosa ou está pelas tampas, não convém assistir TV, muito menos ligar o rádio. Poderá topar, a qualquer instante, com um anúncio de feirão de carros. E, esteja você interessada ou não em adquirir ou trocar seu bólido, fique certa: o apoteótico clima do comercial a levará a um quadro de confusão mental, e você terá ímpetos de jogar a mãe do trem, matar a família e ir ao cinema depois.

A locução, sempre apressada, e a trilha sonora, infalivelmente nervosa, somam-se, no caso da TV, ao abuso do zoom in e zoom out e toda sorte de efeito gráfico. De estética acintosa, os típicos anúncios de feirões deveriam ser vetados pelo Conar e entrar na categoria dos alucinógenos, sendo, inclusive, proibidos pelo Ministério da Saúde.

Em algum lugar do passado, o lado sombrio da publicidade convencionou que, para fazer sucesso e aumentar as vendas no varejo, anúncio de carro deveria ser ruidoso e frenético (ao mesmo tempo), para despertar no potencial, porém desavisado, consumidor o súbito e irreversível desejo de comprá-lo. Ora, pessoas compram carros porque precisam deles, e não porque nãopodeperderessaoportunidadevaisernessedomingocorra!

Mas o cidadão de bem, zonzo, acaba indo ao evento. Sai de lá com um veículo financiado em 72 meses, com taxa de juros de 20% ao ano, crente que fez um ótimo negócio. Ao seu redor, carros suspensos por guindastes, música estridente, pipoca, malabaristas. O feirão virou circo; adivinha quem é o palhaço.

E tudo começou com uma inocente mensagem, tão curtinha – trinta segundos, só.

Um combo pra chamar de seu

J.Kolo/Flickr.com

O sinal fica amarelo. Preguiça de acelerar, já vinha mesmo numa marcha mais lenta do que de costume – pensamento e motor. Melhor ficar por ali, aguardando o verde. Noto um outdoor à esquerda. Outro à direita. Que tristeza, agora tudo se compra em combos. Combo aqui, combo ali. A simplificação máxima da arte da venda. Sinal vermelho.

Se por um lado a combomania parece destinada a facilitar tudo, por outro ela também é condenada a padronizar e empobrecer tudo: gostos, atitudes, intenções, sentimentos, sensações. Desejos numerados. Culpa da revolução industrial. Ou da involução pessoal?

Pois eu queria mesmo era ver estes combos aqui.

Na loja de roupas. Em vez da dobradinha calça + camiseta, um combo com os seguintes itens: direito de experimentar tudo + opção de não levar nada. Elegância não entra na promoção. É artigo que não se vende, nem se compra. Se lhe oferecerem um combo com ela, fuja.

No consultório médico. Imagine poder escolher o combo com consulta de duração suficiente para você dizer tudo o que precisa + olho no olho + aperto de mão na saída. Tão básico que poderia ser o combo número 1 da medicina.

No supermercado. Ah, como iria bem um combo com fila tolerável nos caixas (sem fila seria querer demais) + bloqueio aos espertinhos que tentam furá-la.

Na hora de escolher uma TV por assinatura. Pense na oportunidade de fugir dos combos que incluem aqueles canais inassistíveis no seu pacote, e poder pedir um com liberdade de comprar só os que você escolher. Nem precisaria de outro item para acompanhar.

No cinema. Que maravilha poder trocar, na bomboniére, a dupla pipoca + refrigerante pelo combo biscoitinhos amanteigados + cappuccino. Ou este: direito ao silêncio + certeza de celulares desligados.

No Dia dos Namorados. Seria fácil e gostoso pedir seu combo pelo número: número 1, número 10, número 100, número 1.000.000. De beijos.

Comprando um apartamento novo. No lugar do combo padrão, com opções de dormitórios e vagas de garagem, não seria bacana considerar um com varanda para a vida + parque com algumas das árvores que estavam ali antes?

Na pet shop. Sair da mesmice do combo filhote + pedigree e pedir aquele que vem com bichinho abandonado + coraçãozinho feliz. Esse tem bônus: gratidão eterna.

Nas igrejas. Ao invés de implorar o tradicional combo realização de pedidos + números da loteria de amanhã, que tal, só para variar, você oferecer um combo aos santos? Assim: obrigado + obrigado. Porque a gente pede coisas demais a eles, e também está na hora de mudar isso.