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Museu

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Não me tornei museóloga por pouco.

Quando era criança, inventei de montar um museu. Com o tema para a curadoria da primeira exposição em mente, saí catando coisas – aparentemente aleatórias – pela casa. Uns chumaços de algodão, um pente velho, uma moldura de espelho, sem o espelho (daqueles cor de laranja, que vendiam nas feiras) e o que mais estivesse dando sopa.

Nossa casa na vila tinha um pequeno quintal na lateral. Quintal é sempre território de imaginar. Foi ali que instalei meu museu de coisas. Distribuí, com rigor técnico, as peças da exposição ao lado do tanque, na prateleira onde meu avô guardava a cândida e onde mais considerei adequado.

Cuidei, também, de garantir ao público as informações necessárias. Escrevi num papelzinho do que se tratava cada item do precioso acervo.

E, assim, fui identificando os objetos de altíssima relevância histórica e cultural para o país: “algodão do travesseiro de Pedro Álvares Cabral”, “pente de José Bonifácio”, “moldura do espelho da princesa Isabel”. Não lembro de todos os objetos do inventário imaginário. Só sei que deu uma curiosa exposição. Temporária, porém; no dia seguinte tudo teria que sair de lá, minha avó tinha que lavar roupa.

A única visitante foi minha irmã. Eu fui sua guia. Disse ela que estava tudo muito bonito. Nada como ter alguém para reconhecer nosso talento. Pena que não há, na família, um registro sequer. Tirar fotografia naquela época não era algo corriqueiro, como hoje. Só em eventos especiais. Tinha que ter a máquina fotográfica, filme (12, 24 ou 36 poses), dinheiro para mandar revelar e paciência de aguardar. Levava quase uma semana para voltarem do laboratório. E não dava para editar nada. Compartilhar com alguém, só entregando em mãos ou pelos Correios.

Quis o destino que, mais tarde, já na faculdade, meu primeiro emprego fosse em um… museu. Museu Paulista. Museu do Ipiranga, para os chegados. Eu era estagiária de comunicação visual. Fui alocada na sala da numismática, em uma das torres laterais (a direita, para quem olha o prédio de frente), e para chegar até ela era preciso – acredite se quiser – cruzar uma parte pelo telhado, já que não havia acesso direto por escada, nem elevador. Havia um caminhozinho partindo da torre central, devidamente protegido por uma pequena grade para que ninguém rolasse telhado abaixo. Só complicava em dia de chuva.

Primeiro job: uma exposição entitulada “Ser negro hoje”, comemorativa do centenário da abolição da escravatura nesta Pindorama. Era 1988 e eu tinha 21 anos. Ali, tudo novidade para mim: trabalhar, ter salário, o tema abordado em si. Em minha jovem vida, nunca havia parado para atinar, pra valer, sobre. Piada de preto era normal. Eu ria. Dei minha contribuição, desenhando em madeira, à mão livre, a silhueta de vários bonecos em tamanho natural, representando negros e brancos. O chefe ficou bem satisfeito.

Lembrei da minha pequena exposição no quintal. Se a filha de Dom Pedro II tivesse um espelho com moldura cor de laranja, que teria visto refletido nele no dia em que assinou a Lei Áurea?

Ainda bem que trago um museu de histórias, sons e imagens dentro da cabeça (levemente falho, às vezes). A vida tem essa mania de ligar tudo o tempo todo, por um fio compridíssimo e invisível chamado memória.

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A corda

pular corda
arte: Charlotte Voake

Um dia, ganhei do meu avô uma corda de pular. Não dessas de brinquedo, comuns. Corda de verdade. Seu Paschoal comprara na casa de materiais de construção. Compridona, cinco metros. Eu a levava, enrolada numa sacola, para a escola. E a brincadeira na hora do recreio estava garantida. Ninguém tinha igual. Cinco metros, meu bem.

Eu era boa de pular corda. As amigas, uma em cada ponta, começavam bem devagar e iam aumentando a velocidade. A modalidade mais rápida de todas se chamava foguinho, e não era para qualquer um – nem para quem pulava, nem para quem batia. Aprendi a entrar e sair com a corda em movimento, pensa que é fácil? Requer tanto cálculo quanto matemática, só que de outro tipo. Em matemática eu não era boa, não. Mas dava meus pulinhos.

E aquela corda virou, assim, uma espécie de unidade de medida, minha referência mental para tudo. Se eu queria calcular tamanho ou distância, bastava pensar nela. O Corcel do meu pai, que nós inventamos de pintar em casa e ficou bem feio? Uma corda de comprimento. Da sala até a cozinha? Uma corda e meia. O pinheiro da vila, plantado quando meu irmão entrou na faculdade? Ficou com duas cordas de altura, antes de ser cruelmente derrubado. Depois era só converter em metros, a unidade padrão aceita mundialmente pelos homens sérios que não entendem nada de pular corda.

Aliás, ainda se pula corda? As crianças aqui do pedaço, não. Meus filhos nem têm uma – falha nossa. Dá tristeza pensar que, um dia, isso se torne coisa do passado. Feito latim, a língua morta. A gente sabe que existe, topa com ela de vez em quando, mas não usa para nada. O que foi feito do passa-anel, da uma-na-mula, do telefone-sem-fio, da cabra-cega, do corre-cotia, da amarelinha, do esconde-esconde? Sumiram dos páteos das escolas, das ruas, são brincadeiras mortas. A vida seria mais interessante se as brincadeiras legais de ontem andassem juntas com as brincadeiras legais de hoje. Pois cabem todas numa infância. Ou, quem sabe, isso é papo furado de quem já passou dos cinquenta, de gente que ainda fala papo furado. E sobre isso eu poderia falar horas. É só me dar corda.

Ontem me peguei tentando calcular uma distância no meu quintal. Recorri, sem perceber, à velha corda. Lembrei do Vô Paschoal que, se ainda vivesse neste planeta, faria 110 anos. Tentei medir o tamanho da súbita (quase doída) saudade que me deu dele. Não houve corda suficiente.

Boneca de papel

No restaurante, brinco de colocar a saia azul da mulher de blusa xadrez, sentada na mesa em frente, na moça de sapatilha de florzinha, em pé ao lado da porta. Penso também que ficaria melhor a bolsa da que acaba de entrar, com longas alças e fivela de borboleta, na que está sentada aguardando a conta. E o vestido rodado da ruiva que traça um pratão de yakisoba bem que ficaria bonito na garçonete, limitada ao triste uniforme que lhe aperta as ancas.

Não devo ter brincado o suficiente com as minhas bonecas de papel, quando era criança.

Em cinco minutos, altero a configuração do público feminino do restaurante. Corrijo, melhoro, salvo. Pena que nenhuma delas ficará sabendo.

As bonecas de papel não eram como as de hoje, superproduzidas, compradas em loja. Nós mesmas as fazíamos. Minha mãe desenhou as primeiras para nós. Recortava a cartolina, criava os modelitos. Depois minha irmã e eu aprendemos a técnica e passamos a criar nossas próprias bonecas. Não podíamos esquecer de fazer a abinha para dobrar sobre os ombros, na cintura. Caso contrário, a roupa não parava. Eu não fazia somente roupas, mas os acessórios também: chapéus, bolsas, botas. Para um guarda-roupa completo, bastavam papel e lápis de cor.

Hoje, a brincadeira dispensa a cartolina e o lápis de cor e pode ser brincada em qualquer lugar: supermercado, fila de banco, escritório. Até na aula de meditação. Só não dá para chamar a irmã para brincar junto, agora ela mora longe. Também não posso impedir que as bonecas, no meio da brincadeira, vão embora.

As bonecas de papel só tinham frente. Não tinham perfil, nem costas. Mesmo assim, rendiam uma tarde inteira de diversão. Não havia vitrine impossível para elas. Os casacos mais sofisticados, daqueles longos, elas podiam ter. Vestidos de baile, botas até o joelho, chapéus maravilhosos. Minissaias, vestidos “de ficar em casa”. Não havia roupa que a minha imaginação não pudesse lhes dar.

As mulheres do restaurante têm frente, costas, perfil. São bonecas em 3D. Apressadas, trazem para o almoço, pendurados no pescoço, os crachás das empresas onde trabalham. Não querem brincar. Alheias a mim, servem-se das batatas e dos tomates, pedem refrigerante zero, riem alto, engolem a refeição, levantam-se, vão embora. O papel delas é outro.

A insustentável leveza da faixa de segurança

Arte: Johanesj

A garotinha de presumidos três anos atravessa a rua de mãos dadas com sua mãe presumida, na faixa de presumida segurança. A mulher, com pressa, muita pressa. A garotinha, pressa alguma. Tanto que inventa, nos quinze segundos de travessia, sua brincadeira particular: só pode pisar nas faixas brancas. O que, devido ao tamanhico de suas pernas, é um exercício e tanto. Lá vai ela, caprichando nos pulos, determinada em seu objetivo, rindo gostoso entre um salto e outro. A mãe, constrangida, tenta, em vão, abreviar a história. Quase leio o apelo em seus lábios, “A moça quer passar!”.

A moça – eu – quer mesmo passar. Estou atrasada (quando não?). A verdade é que não há como não deixá-las em paz. Como motorista, meu dever de dar preferência ao pedestre só não é maior que meu direito de curtir a cena.

Faço sinal para a mãe, “Relaxa”. Ela entende; mães são telepáticas. Não que eu seja boa nisso o tempo todo (pelo contrário) mas, naquele instante, os significados de urgência e importância, e a sempre duvidosa relação que transita entre ambas, ganharam clareza instantânea e inabalável.

O parentesco – mãe e filha – é adivinhado, posto a tipicidade do comportamento, digamos, repressor. Fosse madrinha da garota, esta não só a autorizaria pular à vontade, como talvez entrasse na brincadeira. Mas a pai e mãe parece não ter sido concedido o dom da paciência; só a segurança branca do relógio lhes sustenta.

A pressa ignora o universo da leveza. A espera o contempla. Feitos de pressa, somos a ignorância em forma de átomos de carbono.

As duas alcançam o outro lado da calçada. A mãe agradece o inagradecível. A garotinha não quer nem saber, já procura mais coisas para fazer.

Busco no retrovisor o reflexo dos rostos de meus filhos. Vem a insegurança: levarão eles consigo, vida afora, a lembrança das tantas faixas brancas não-brincadas?

Tão simples, ser mãe do filho dos outros.