Os mitos do amor

Foto: Paul Moody
Foto: Paul Moody

Dos mitos que os amantes inventam para o amor, três são dignos de nota.

O primeiro e mais falacioso: dois em um.

A medicina tem um baita trabalho para tentar corrigir o engano da natureza, que faz duas pessoas nascerem grudadas – os gêmeos xifópagos. E alguns malucos apaixonados, veja só, insistem em querer “se tornar um”, ainda que simbolicamente. Nem na plena adolescência, contaminada de certa crença em príncipes encantados, a ideia da fundição amorosa me agradava. “Dois em um” só fica bem em alguns produtos, como xampu & condicionador, impressora & scanner. Num relacionamento, é bom que cada um continue com seu corpo, sua alma, seus segredos, seus amigos, seus carros e seus RGs. Sem essa de um completar o outro. A única pessoa que me completa é o frentista do posto. Peço sempre para ele completar com gasolina comum (ou etanol, quando está em conta).

O segundo, tipicamente pueril: dormir de conchinha.

Conchinhas do mar são fofas. Quem nunca colecionou, quando criança? Era ir à praia e voltar para casa trazendo aquele montão, que logo ia para o lixo. Um dia, alguém cismou de compará-las ao modo dos casais enamorados dormirem, assim, encaixados, grudados. A concha, no entanto, é uma carapaça. Rígida, ela guarda em si um molusco. Eu que não quero ser carapaça, nem dormir ao lado de uma carapaça. Muito menos com molusco. Gostoso mesmo é dormir feito estrela do mar, como diz minha amiga. Espalhadona, solta, à volonté. O que não significa, evidentemente, falta de amor ou romantismo. As estrelas do mar são livres, se movimentam. As do céu brilham, para quem tiver olhos de vê-las e ouvidos de ouvi-las. Ora direis… Amar e mar têm as mesmas letras, e é só isso. Façamos assim, para não haver briga, nem cara feia, na hora de nanar: cinco minutos de conchinha e sete horas e cinquenta e cinco minutos de estrela. Pronto.

O terceiro e mais ardido: a pimenta.

Dez entre dez revistas femininas lançam mão, três vezes ao ano, da expressão “apimentar a relação” e seus similares, buscando reanimar relacionamentos combalidos. Dá-lhe cinta-liga, elixires, malabarismos, pirotecnias, apoteoses. Pimenta, todo mundo sabe, queima o gogó, arde nos olhos. Um amor que faz chorar, quem há de querer? Fosse assim, vatapá seria afrodisíaco. Pimenta na relação é para os masoquistas de plantão, candidatos a uma úlcera afetiva. Melhor seria “manjericar” o namoro. Ou “coentrar”, “tomilhar”, “papricar” o casamento. Mais saudável, mais gostoso.

Há mais mitos no amor. Muito mais. Cada um que descubra e desmistifique – ou não – o seu.

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7 comentários sobre “Os mitos do amor

  1. Se eu soubesse que teria que ser sempre eu e ele ser ele, teria me poupado muito sofrimento. rs Agora sei, mas me perdi de mim…
    Não durmo de conchinha, mas gosto de 2 segundos do aconchego.
    Apimentar a relação é bom, nem arde…
    Beijo, Silmara.

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  2. Sensacional! Adorei sejam desmistificados esses mitos! Quanto aos cinco minutos de conchinha e sete horas e cinquenta e cinco minutos de estrela, isso dependendo também da temperatura. Com esse calorão, cinco minutos de conchinha pode parecer uma eternidade! 🙂

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