Do mesmo jeito

Arte: Gustavo Peres

Eu como biscoito recheado do mesmo jeito desde que fui apresentada à guloseima. Desfaço o ‘sanduíche’ e reservo; raspo o recheio com os dentes e, por último, devoro o biscoito. Como dizem as mães aos seus filhos, não consigo diferenciar meu amor por um ou por outro.

Eu coloco cadarços do mesmo jeito desde quando aprendi a amarrar meus sapatos. Confundo-me se preciso fazê-lo de outra maneira, às vezes o filho pequeno pede uma amarração diferente para os tênis. Meus neurônios estão acostumados com o velho trajeto do cordão, como alguém que faz sempre o mesmo caminho para ir a algum lugar.

Não é metodismo. O metódico raciocina sobre seu método, cria teorias, apresenta justificativas. Não é TOC, não chega a ser mania e não tem a ver com obviedade, nem com lugar-comum. Eu não faço nada disso de propósito. Não há inteligência ou proposição em nenhum desses atos, catalogados aqui pela primeira vez. Sou aleatória. Aleatoriamente repetitiva, sem querer. São hábitos inscritos em meu DNA que, talvez, signifique simplesmente aquilo que Deus-Não-Altera.

Eu deixo restinho quando tomo água, suco, vinho ou qualquer outra bebida. Minha sede quase sempre acaba a meio centímetro do final do copo. Convivo bem com as piadinhas sobre deixar um pouco para o santo. Nunca soube qual é o santo dos líquidos.

Eu tomo banho do mesmo jeito desde que passei a ser responsável pela própria higiene. A mesma sequência de lavação: cabelos primeiro, sempre. Braços vêm antes de pernas. Pés ficam pro final. A toalha também faz o mesmo percurso. Estranho quando vejo alguém começar pelos pés ou terminar pela cabeça.

A repetição é fundamental para a evolução da humanidade. Sem ela, as tradições não existiriam. Repetir hábitos, mesmo que não se dê conta, é cultivar a própria tradição, zelar pela autoevolução.

Eu uso batom do mesmo jeito desde o dia em que passei um na boca pela primeira vez. Não importa o matiz. Primeiro em cima, da direita para a esquerda, voltando em seguida ao ponto de partida. Depois embaixo. Fui conferir os exemplares do meu armário: os meus gastam na diagonal. Sem exceção.

Eu visto as roupas do mesmo jeito desde sempre, ainda que os modelos, formas, tamanhos, cores e tecidos tenham mudado tanto ao longo dos gostos e das modas. Há um padrão (natural, não-pensado) para colocação de blusas, outro para calças, para vestidos. Acho graça em quem tira camiseta primeiro pela cabeça e depois pelos braços. Gosto de ver nos filmes e nos vestiários quem faz igual, quem faz diferente. É bom poder transformar tudo em playground.

Fazer as coisas do mesmo jeito é meu legado mais genuíno, minha herança mais autêntica. É meu modo de fazer, minha receita de mim. Só os ingredientes é que mudam.

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4 comentários sobre “Do mesmo jeito

  1. Silmara, kkk! Genial essa postagem. Eu nunca tinha pensado nisso.
    Analogamente eu observo que quando vou caminhar, nunca faço o mesmo caminho. Fica muito automático passar todos os dias pelo mesmo lugar. Dá a impressão que restringe o meu espaço permitido, rs…rs.
    Valeu! Agora vou observar meus diagramas de tarefas, ver os dos outros e comparar pesquisando os porquês. Quem sabe não sai uma postagem carregada de receitas novas de “fazer como?”.
    Manoel – Blog do Óbvio

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  2. Repetições e observações que os olhos ávidos da sua caneta anotam.
    Texto gostoso de ler, pensar e imaginar.

    PS.: eu tiro a camiseta primeiro pela cabeça e depois pelos braços!

    Beijos,
    Huck

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