Mais uma breve crônica para falar de amor

Image from page 50 of “Emblems of love, in four languages. Dedicated to the ladys by Ph. Ayres, esq” (1600)

Aproximou-se da cancela, baixou o vidro, estendeu o braço, apertou o botão.

– Retire seu cartão e boas compras.

Foi puxá-lo quando ouviu, no mesmo tom:

– Não se esqueça de ajeitar a gravata.

Ele recuou, assombrado. Por via das dúvidas, olhou-se no retrovisor.

– A gravata?

– É. Está torta.

Mirou o nó, levemente à esquerda, quase sob o colarinho. Olhou ao redor. Ninguém. Que brincadeira era aquela? Acenou para a câmera de segurança. Sentiu-se meio bobo. Ressabiado, olhou novamente à sua volta. Ajeitou rapidamente a gravata, estendeu o braço. O cartão o aguardava, metade dentro do dispensador, metade fora. A voz:

– Agora ficou melhor. Retire seu cartão e boas compras.

É pegadinha. Só pode ser.

Obedeceu, a cancela se abriu. Engatou a primeira e ainda teve tempo de olhar mais uma vez em volta, à procura do autor, quer dizer, autora da gracinha.

Durante o almoço, comentou com os colegas. Foi aconselhado a tirar umas férias. Rindo, distraiu-se e feriu-se com a faca que pendia ao lado do prato. Embrulhou o dedo no guardanapo de papel e foi ao banheiro. Enquanto a água sanguinolenta corria ralo abaixo, só pensava em duas coisas. Uma delas eram suas férias.

Dia seguinte, ainda intrigado, resolveu voltar ao shopping. Precisava de meias novas, mesmo. Escolheu a entrada, o plano era seguir à risca o que fizera na véspera. Aproximou-se devagar e olhou ao redor, escaneando o local na esperança de flagrar o mecanismo da pegadinha. Se é que era uma pegadinha. Se é que aconteceria novamente. A voz era bonita, aliás. Não seria de todo mal saber quem falara com ele. Por via das dúvidas (que agora já eram tantas), conferiu no retrovisor a gravata e emparelhou junto ao dispensador. Quer dizer, dispensadora.

– Retire seu cartão e boas compras. Que houve com o dedo?

Ainda que ele esperasse pelo diálogo, aquilo o perturbara. Ele, que chegara a ensaiar um possível diálogo com a máquina, treinando como descobriria de onde partia a voz, estava sem graça. Nada funcionou. “Ela” notara o band-aid.

– Cortei… com a faca… – disse, num gestual hesitante e patético (já que não sabia a quem ou o quê se dirigir), tentando explicar como é que acontecera.

– Precisava de um beijinho pra sarar. Retire seu cartão e boas compras.

Catou o cartão, encabulado. Engatou a primeira e pode-se dizer que chegou a cantar pneus cancela adentro.

Já era demais. Beijinho?

Deu três voltas no shopping, a fim de gastar pensamento e incompreensão. Piada de alguém, só podia ser. Viu-se num futuro próximo, em um daqueles programas dominicais de pegadinhas, a cidade inteira vendo-o pagar mico no estacionamento do shopping. Olhou o dedo, olhou o band-aid, lembrou da voz. Voz sem rosto. Doce, porém. Ih, já estava delirando. Desnorteado, esqueceu-se das meias e foi embora. Beijinho. Era só o que faltava.

E era mesmo o que faltava. Tinha tudo na vida, ele. Só não tinha beijinho.

Passaram-se dias, semanas. Ele pesquisou o sistema de segurança do estacionamento do shopping. O funcionário que poderia, eventualmente, vê-lo pela câmera e, assim, “falar” com ele através do dispensador de cartões, era um homem. Investigou: não havia mulheres naquela equipe há um ano. Chegou a usar outras entradas, e nada aconteceu. Pediu, secretamente, a dois amigos para repetirem a cena em seu lugar, na mesma cancela, e a fala mecânica foi a padrão, sem surpresas: retire seu cartão, boas compras e só. Contrariando sua mente cartesiana e sua alma cética, não restava dúvida: a própria dispensadora de cartões, sabe-se lá como, falava com ele. Sim: a máquina, dotada de impossível ânima, conversava com ele. E ele gostava.

Um dia, acordou decidido. Conferiu gravata, olhou a cicatriz no dedo. Dirigiu até o shopping, aproximou-se da cancela, baixou o vidro, estendeu o braço, apertou o botão.

– Retire seu cartão e boas compras. Senti sua falta.

– Eu também.

A cancela se abriu, ele engatou a primeira e sorriu. Era dia dos Namorados.

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