Arquivo da tag: gatos

Chico Churrasco

Senhoras e senhores, esta é a história do Chico Churrasco. Que pode ser uma história sobre gratidão. Ou só mais uma história de gato, mesmo.

Era comum termos muitos gatos em casa. Um é pouco, dois também. A gente ia logo tendo seis, sete. Tudo deve ter começado com minha mãe. Diz que Dona Angelina, gateira que só, viu um garoto na rua com uma gatinha branca, muito bonita. Ofereceu-lhe figurinhas em troca da bichana. O menino topou e Branquinha, um olho azul e outro verde, viveu feliz conosco por anos. Desde então, nunca mais fomos uma família “desgatada”. Sempre aparecia alguém doando gatinho – quem resistia? A maioria, no entanto, vinha (ainda vem) da rua. Andarilhos abandonados e resgatados em geral. Uns na iminência de atropelamento, outros retirados do motor de carro, e assim por diante.

Certa vez, apareceu em nosso telhado um gatinho preto, bastante machucado. Mancava e miava, como se pedisse ajuda. Uma das patas dianteiras tinha um grave ferimento, em carne viva. Seu pelo parecia chamuscado. Concluímos que alguém havia ateado fogo nele. Por maldade ou ignorância, ou as duas coisas juntas. Ainda mais preto. Batizamos na hora: Chico. Chico Churrasco.

O problema: já tínhamos muitos gatos “próprios”. Decidimos cuidar dele no próprio telhado. A escadinha que levava à casa de meus avós, nos fundos, também dava acesso fácil ao telhado. Era só por o pé perto do vitrô da cozinha, apoiar as mãos nas paredes, dar impulso e zás! Eu gostava de subir no telhado, era um dos passatempos de criança sem internet, celular, TV a cabo, Netflix. Aprendera o jeito certo de pisar nas telhas, para não quebrar. De vez em quando, quebrava. Do telhado, novas paisagens do bairro, que as janelas não ofereciam. (Ali, eu também me arriscava em inúteis sessões de bronzeamento, mas essa é outra história.)

Providenciamos uma caixinha forrada para o Chico, em local protegido da chuva. Nem cachorro, nem gente ruim, o incomodariam. Eu e minha irmã nos revezávamos para levar comida e água. Os tempos eram de vacas magras e não tinha como ficar levando bicho em veterinário. Remédio, só caseiro. Éramos, muitas vezes, bem-sucedidos. Em outras, nem tanto. Shazan que o diga. Nosso pequinês, que ganhara o nome em homenagem ao seriado Shazan, Xerife & Cia, teve sarna. Alguém disse que enxofre era bom. Então, dá-lhe banho de enxofre. Além de não curá-lo, o pobrezinho vivia com um esquisito tom amarelo-esverdeado. Se os cães merecem o céu, Shazan certamente ganhou uma confortável almofada bem ao lado da poltrona de Deus.

No início, Chico mal saía de sua caixinha. No entanto, erguia a cabecinha e miava de satisfação, quando aparecíamos.

Valendo-se do adiantamento das sete vidas que lhe foram concedidas, milagrosamente, ele foi se recuperando. Comida, amor e tempo foram seu tratamento. Cheguei a pensar que ele perderia a pata. Nada. Ficou manco, é verdade. E gato liga pra isso?

Curado, Chico ganhou o mundo novamente. Mas vinha sempre nos visitar. Para dar um alô, filar a boia e ganhar afagos. Entendia que não poderia ficar de vez, para dormir na nossa cama, ver TV na sala com a gente. Talvez nem quisesse. Como diz a canção: gatos já nascem pobres, porém, livres.

Após um longo intervalo sem aparecer, eis que Chico Churrasco surge no telhado. Desta vez, não estava só. Ao seu lado, uma gata e dois (ou três?) filhotes. Conclusão: ele viera nos apresentar sua família. Deve ter-lhes dito: “Vamos lá na vila, quero que vocês conheçam uns humanos bacanas.”

Depois dessa visita, não lembro de tê-los visto mais.

E assim termina a história do Chico Churrasco, um gato grato. Porque a maldade não tem fim. Ainda bem que o amor também não.

O gato preto

gato preto

Naquela manhã eu jogava conversa fora com os amigos nos jardins do Liceu (aula vaga ou intervalo?) quando o vi, através das grades do muro, passar pela calçada.

Tanta gente circulava pela rua Cantareira. E fui botar reparo no homem estranho, mal-ajambrado, de olhos vidrados e andar amalandrado. Na verdade, não foi nele que grudei os olhos. Foi no gato.

O homem trazia um gato preto ao colo. Levava-o junto ao peito, segurando-o firme pelas patas. O olhar do bichano era tão vidrado quanto o do homem, as orelhas estrategicamente abaixadas, para trás. Então eu, intuitivamente, soube. Ele, o gato, estava em perigo. Não pertencia àquele homem. Fora capturado. E, pelo jeito, estava prestes a virar tamborim. Ou despacho na encruzilhada.

Ninguém percebeu. Exceto eu, que nada fiz. E lá se foram, o gato e seu algoz. Pude ouvir seus miados, graves e agônicos. Os gatos sabem.

Eu quis fazer algo. Mas os alunos não podiam sair, sem autorização dos pais, antes do fim das aulas. Qual minha justificativa? “O homem vai dar cabo do gato, pelamor, abre esse portão!”. Dramático demais. Ninguém daria crédito à adolescente riponga que estaria, claro, a fim de cabular aula. Vamos supor que eu saísse e fosse atrás do homem. Aos quinze anos eu já falava com estranhos na rua, mas não com tão estranhos. “Moço, aonde você vai levar esse gato?”. E vamos imaginar que, depois do conversê, ele topasse me entregar o felino. O que eu faria com ele? Na escola é que ele não poderia ficar. Levá-lo comigo? Metrô e ônibus até em casa. Que já tinha tantos gatos.

E se eu estivesse redondamente enganada, e fossem apenas um gatinho fujão e seu dono, homem de bom coração, que saíra em seu resgate? Ou uma alma caridosa, recolhendo das ruas o peludinho abandonado, para lhe dar um lar? Pronto.

Não consegui, no entanto, enganar minha intuição. Ninguém consegue, aliás.

Sem dispor de argumento razoável para sair da escola, tampouco para ir ter com o homem, me conformei. Mentira, não me conformei coisa nenhuma. Tanto que guardo a sombria história até hoje, numa caixinha preta feito o gato, em uma das prateleiras da memória. De tempos em tempos o gatinho mia e tenta escapulir dela, arranhando algum pensamento.

E, se a conto hoje, tantos anos depois, é para purgar, numa espécie de acordo de paz comigo mesma. Naquela manhã, eu nada poderia fazer. Se é que havia algo a ser feito. Quem sabe, o pretinho estava com sorte e conseguiu fugir, nos quarenta e cinco do segundo tempo. Para o azar do homem estranho.

Doris Day, a gata

gato

Fui dar uma volta pelo centro de São Paulo, aproveitei para revisitar velhos lugares. Não os tradicionais, como Praça da Sé, mas os meus cartões postais particulares.

Como a esquina onde ficava a Loja Piter, atrás do Teatro Municipal, e eu, adolescente duranga, cheguei a flertar com uma calça baggy verde-limão. Que nunca foi minha.

E a loja na galeria da Barão de Itapetininga que vendia imensos, encantadores e utópicos relógios carrilhões; eu gostava de passar ali em hora cheia, só para ouvi-los. O tempo, não à toa, é o pai da música.

E a banca de jornal, ao lado do metrô Anhangabaú, que nem estava no roteiro. Aquela banca. A mesma onde, em seis de abril de 1990, ao sair da estação a caminho do trabalho (o falecido Diário Popular), avistei um trapinho peludo e mirrado tentando, em vão, caminhar entre as pessoas. Tantos sapatos apressados! Lembrei do momento em que recolhi aquela gatinha-filhote do chão e coloquei-a no meu colo. Ela, exausta, se aninhou. E, para meu completo e irreversível sucumbimento de amor, adormeceu.

Uma voz dizia, “Pensa, Silmara, pensa”. Levar a gatinha? Já havia tantos em casa. E levá-la para onde, às oito da manhã? Deixá-la ali, para ser pisoteada? Fui ter com o dono da banca:

— Essa gatinha é sua?

— Não… – ele respondeu, desinteressado – Apareceu aí.

A voz: “Pensa, Silmara, pensa”.

— O senhor pode cuidar dela até às 18h? É a hora que saio do trabalho, passo para buscá-la. (claro que não conjuguei assim, tão perfeito)

— Ela vai ficar por aí; depois você busca, então.

Foi a forma abreviada e educada de ele dizer: “Mocinha, eu não estou nem ligando para esse bicho nojento, não vou cuidar dela coisa nenhuma, tenho mais o que fazer. Se ela estiver aqui quando você voltar, ótimo.”.

“Pensa, Silmara. Mas pensa rápido. Quer chegar atrasada?”

Abri minha mochila com estampa de florzinhas e enfiei a gata nela. Com o cuidado de deixar uma frestinha para ela respirar.

Cheguei ao jornal, tomei o elevador. Torcendo para que o fato de minha mochila se mexer sozinha não chamasse muito a atenção. Ao menos, até chegar ao quinto andar ela não miou, nem fez xixi nas minhas coisas. Ao chegar na sala, mostrei a novidade aos colegas, não sem antes garantir que eles não contariam a ninguém.

E a manhã no departamento de marketing foi assim: cuti-cuti pra cá, cuti-cuti pra lá, um desceu na lanchonete e comprou misto-quente para a mini-bichana, outro trouxe leite. Trabalhar que era bom, necas.

Na hora do almoço, a fim de evitar dissabores caso o chefe, lá na outra sala, resolvesse encrespar com a presença felina, levei-a para a casa do Daniel, meu namorado, que morava por ali. Durante a manhã, sondei quem poderia ficar com ela. A Paula, que fazia aniversário naquele dia, topou. Um combinado que logo se desfez, posto que eu estava irremediavelmente apaixonada pela Doris Day – nome que dei àquele trapinho peludo e mirrado. Se foi por causa da atriz, não me lembro. Só sei que aquela mini-diva preta-e-branca era minha e ninguém tascava.

Doris, a miúda, foi um dos bichinhos mais doces que já habitaram a casa 1 da pequena vila da Mooca. Tinha um dedinho defeituoso – certamente, culpa dos sapatos apressados – e uma vez deu cria embaixo da geladeira. Só fomos localizar os natimortos dias depois.

Quando me casei (não com o Daniel) e fui morar longe, ela continuou vivendo feliz da vida com meu pai. E, numa manhã de dois mil e quatro, recebi um telefonema. Doris fora encontrada agonizando, no portão. Nunca soubemos o que aconteceu. Levada às pressas ao veterinário, não sobreviveu. E não cheguei a tempo de me despedir. Não rolaram mais seis vidas para que eu o fizesse. Ou rolaram, ou ainda estão rolando, e eu que não sei.

E se o dono da banca ainda fosse o mesmo? E se eu prestasse atenção e visse, por ali, um frajolinha perdido? E se eu tivesse me casado com o namorado? E se a Paula tivesse ficado com a Doris? Tem lembrança que surge recheada de pergunta inútil, mas que é feito gato: é só a gente passar a mão, que logo começa a ronronar dentro da gente.

Meditação

deecdacb8be74da04a54f98bdd1840be

Sentei-me para meditar, o gato veio. Aninhou-se feito esfinge no tapete ao meu lado, olhinhos semicerrados, fixados num ponto aleatório da persiana. Se queria meditar comigo? Não. Queria ensinar-me. Gato é o melhor professor de meditação que há. Gato é o pai do mindfullness.

Mestre em lidar com as distrações, ele mostrou-me a técnica. Detectara um ruído na rua; ajustou a orelha direita a fim de identificar a origem e, se necessário, agir. Não era nada. Orelha e atenção, por segundos dedicados ao que parecia ser apenas um freio de bicicleta desregulado, retornaram ao estágio anterior. Seguimos na meditação – mais ele que eu.

Gato, pensa que não sei?, é capaz de meditar direitinho porque não tem to do list para dar conta. Não tem que pensar no almoço, tampouco na janta. O rango está garantido, é só miar ao lado da vasilha. Também não tem que se preocupar em agendar a fatura do cartão no bankline, aonde foi parar o token? Nem com o passeio da escola das crianças amanhã, é para levar filtro solar e repelente?

E, mesmo se tivesse lista de afazeres, o gato continuaria craque na arte da meditação. Porque é bicho que se dedica a cada um dos itens com atenção plena. Se está comendo, está comendo. Enquanto come, não fica pensando em tomar o solzinho da manhã na varanda. Se está tomando o solzinho da manhã na varanda, não lhe ocorre brincar com o barbante. Se está brincando com o barbante, não lhe passa pela cabeça caçar passarinho. Se não está fazendo nada, é nada mesmo.

A humanidade que se cuide, os gatos já encontraram a paz mental. O nirvana é deles.

Ou nada disso, e eles são só hábeis dorminhocos.

Fantasia de gato

gato-carnaval
ilustração: Jeff Haynie

Eu tinha doze anos. Costumava ir com meu pai buscar minha irmã na casa da amiga dela, à noite, depois do colégio.

É verdade que não íamos só meu pai e eu. Led, um frajolão digno de desenho animado, ia junto. Até que ele gostava de passear de carro. Se não gostava, disfarçava bem. Gato é bom na arte do disfarce.

Então íamos eu, meu pai e o gato fantasiado. É, fantasiado. Com tempo livre de sobra, eu inventava adereços para o bichano, especialmente para recepcionar minha irmã. Um dia, ele surgia com enormes óculos recortados em papelão. No outro, em um colete colorido feito com tecido, fitas e o que mais estivesse dando sopa na caixinha de costura da minha mãe. Se as pessoas se fantasiam de gato, eu tinha um gato fantasiado de gente.

Às vezes, confesso que notava alguma resistência dele em topar a brincadeira. Noutras, parecia até gostar. Talvez apenas se resignasse. Gato também é bom nisso. Mas só quando não tem outro jeito. Sabedoria felina.

Minha irmã jura que houve um dia em que ele foi de bailarino. Não me lembro. Só sei que para o Led era carnaval o ano inteiro – ao menos durante o período letivo. Logo ele, que ganhara esse nome em homenagem a uma das maiores bandas de rock de todos os tempos, o Led Zeppelin. (Originalmente, por impulso, escrevi a ‘maior banda’. Mas assim que digitei ‘tempos’, já havia achado uma injustiça com as outras. Corrigido está.)

À tarde, quando voltava das minhas aulas, eu me dedicava a criar as fantasias. Era raro repeti-las. Os amigos da minha irmã, que também ficavam por ali, na casa da amiga, aguardavam ansiosos a chegada do carnavalesco peludo. “Como será que seu gato vem hoje?”.

Minha irmã terminou o colégio, a carona noturna acabou. Acabou também a brincadeira. E o pequeno folião nunca mais vestiu fantasia. Alguns anos depois, ele se foi. Uma pena não termos registrado nem uma das produções. Tirar fotografia, naquela época, era só de vez em quando, nos casamentos, aniversários, viagens. Comprar o filme, bater as fotos, mandar o filme revelar na Fotobom (ficava a dois quarteirões de casa e o dono era um japonês simpático), buscar na outra semana. Como sobrevivemos à espera, quase uma eternidade, para ver como havia ficado uma foto?

O Led fantasiado seria, fácil, fácil, um gato-celebridade do Instagram. Antigamente, rede social era só a família, a parentada, os amigos da rua e da escola. E ele tinha mais de dez seguidores! Nós de casa (menos minha avó, que não gostava de gato) e os amigos da minha irmã. Hoje? Um milhão, estimo. A admiração ficou hiperbólica. Seu avesso também.

Temos, agora, um imenso inventário imagético virtual de tudo. Teremos, no futuro, mais e melhores lembranças do que hoje? Será a nostalgia mais rica quando, daqui vinte anos, nos depararmos com imagens do aqui e agora, das besteirinhas do dia-a-dia que a gente vai clicando a esmo?

Como será a saudade no futuro, com um presente hiper-registrado?

Tenho saudade dos gatos que viveram comigo desde que cheguei a este mundo. Foram tantos, tantos.

Vou construindo mentalmente meu vasto inventário gatístico, e boto na vitrola a melhor trilha para um carnaval: Black Dog, do Zeppelin. Só para provocar o cat que dorme na cadeira ao meu lado. Que não é o Led, mas bem pode ser, por conta das idas e vindas das almas ronronantes neste planeta. Não dizem que os gatos sempre sabem voltar para casa?

O bigode do gato

gato-bigode
ilustração: Laura Hughes

Súbito, o gato interrompeu a soneca, esticou o pescoço. Empinou o focinho, cerrou de leve os olhos e investigou o vento.

Bife fritando ou dono chegando? Chuva vindo ou cachorro passando? É pelo vento que os gatos se informam. O vento traz as notícias que ainda não foram publicadas. Equipados com bigode-antena, eles ficam sabendo antes.

Eu não sei decifrar vento. Não entendo o que diz. Perdi essa capacidade quando passei a calçar sapatos, vestir roupas e comer comida de pacotinho.

Gatos não usam sapatos, nem roupas. E, embora a maioria coma ração, que vem em pacote, ainda assim mantêm a conexão primitiva com o universo. Eu não sou conectada ao universo – exceto quando estou com meu smartphone. Está claríssimo de onde vem o gê de 4G.

Quando era criança, aprendi na aula de ciências que vento é ar em movimento. Bah! Definição mais pobre. Vento é mais que isso. É por ele que Gaia nos conta as novidades, faz súplicas, avisa dos perigos. O vento é a mensagem.

Gatos já nascem sabendo disso, sem ninguém nunca lhes ter ensinado. Certamente, são os bigodes. Ah, o que eu não faria se também tivesse bigodes superpoderosos.

Desta vez, aparentemente não era nada importante. O bichano voltou à soneca.

Cama de gato

gato 2

O gato resolveu querer colo bem na hora em que eu ia levar o prato e o copo para a cozinha. Foi como se ele houvesse pressentido minha preguiça – eu almoçara no sofá, vendo TV – e pensou, “Vou ajudá-la a resolver isso”. Gatos, no geral, são bom resolvedores de coisas. Seja no instinto, na destreza ou na inteligência. É de admirar que ainda não tenham dominado o mundo. Ou: já dominaram, e estão de boas.

Logo agora…

Ele afofa minha barriga, se enrodilha no moletom, me transforma em cama. Os olhos apertadinhos me fitam como quem diz “eu te amo muito mesmo de verdade”. Melhor: “amo teu colo muito mesmo de verdade”. Seria inaceitável, de minha parte, prosseguir na intenção. Não se nega colo a um gato.

Fico imóvel, para não atrapalhar sua soneca. Seguro a louça com uma mão, com a outra lhe faço um afago. Só pauso para zapear a TV, à espera de mais motivos que me façam permanecer no sofá com o gato, o prato, o copo, a preguiça.

Mas justo agora…

Penso em alguma estratégia para que ele, por livre e espontânea vontade, deixe meu colo. Assim, eu me safo de carregar essa responsabilidade. As crianças poderiam chamá-lo, sacudindo a vasilha de ração; não falha. Então lembro: estamos sós em casa, o gato, Deus e eu. Quantos gatos cabem no colo de Deus?

Tento esticar o braço até a mesinha. Ele detecta o movimento, abre levemente os olhos, eu recuo. Interromper o sono de um gato há de configurar maus tratos. É nos sonhos dos gatos que o mundo ronrona.

E bem agora…

Eu invejo o gato que dorme quando quer e onde quer e pelo tempo que quer. Gato não tem dono. Gato é o dono. Não há animal mais cônscio de si do que o gato. Gatos não fazem psicanálise, simplesmente porque não precisam. Não há paradas existenciais peludas a resolver. Em um gato, as vidas passadas estão todas presentes. Gato é o futuro.

Quanto mais nutro esperança de que ele, por si, resolva partir de meu colo, mais ele se aninha. Estou refém de um gato. E estou de acordo. Cogito levantar-me e, numa cuidadosa acrobacia, levá-lo comigo no colo até a cozinha, sem acordá-lo. Quem dera ser capaz de andar flutuando, como os mortos, para que ele não sentisse a trepidação dos meus passos. Que bobagem, gatos sentem até os mortos.

Tinha que ser agora?

Num súbito, ele se põe nas quatro patas e chispa rápido, como se lembrasse de algo urgente que havia se esquecido. Ou como se nunca quisesse ter estado em meu colo um dia. Ou, ainda, como se eu fosse apenas um amontoado de átomos de oxigênio, hidrogênio, nitrogênio e carbono, convenientemente fofo e macio. Simplesmente se mandou. Foi verificar qualquer coisa invisível e inaudível aos meus limitados órgãos humanos, na área de serviço, ao lado da cozinha.

Poderia, ao menos, ter levado o prato e o copo.

Mas eu me mordo de ciúme

arte: Mr. Onz

E o gato estabeleceu que eu sou só dele. Até que a morte nos separe, sou dele e ponto final. Ciumento, na falta de palavras para fazer valer seu unilateral juramento de fidelidade, ele se vira como pode: faz xixi no meu lado da cama, na porta do meu armário e, eventualmente, em mim.

Especialistas em comportamento animal limitam-se, nesses casos, à reza aprendida nas enciclopédias de medicina veterinária: é marcação de território.

Eles não conhecem o Beto.

Beto é o mais velho da casa. Embora já tivéssemos gatos quando ele veio, trazido pela vizinha que não sabia o que fazer com aquele filhote de siamês que perambulava pelo condomínio. Dá-se bem com todos, humanos ou não, é o amigão geral da nação. Não à toa, seu sobrenome ficou sendo Boa-Pessoa. Beto Boa-Pessoa. Divide a casa com outros três felinos, dois machos e uma fêmea. Todos zanzam pela casa sem restrições, tudo é deles também. Dormem em nossas camas, descansam nas cadeiras sob a mesa de jantar e outros locais menos convencionais, tiram longas sonecas no sofá, instalam-se sobre a máquina de lavar roupa independente se é dia de lavanderia, não pagam aluguel, têm aposentadoria garantida, sombra e água fresca. São amados, felizes e nos fazem felizes.

Com regalias, Beto é o único autorizado a passear comigo na rua. Diferente dos outros, ele não se escafede assim que abro a porta. Ao contrário, fica serenamente rolando na grama, cheirando as flores, observando os passarinhos; não sai do meu campo de visão e atende meu chamado para voltar. Os outros, se encontram brecha, se pirulitam e só retornam horas depois. Aqui somos adeptos da meritocracia.

Ele é meu gato-celebridade no Instagram, inspiração e personagem de crônicas. Recito-lhe poesias, tiro-o para dançar. Será que a fama lhe subiu à cabeça? Sou sua dona, sua luz, raio, estrela e luar, seu iaiá, seu ioiô. Natural que ele confundisse as coisas. Sim, eu o amo. Mas, como diriam, para evitar confusão, “como amigo”.

Que mais, ó Bastet, deusa protetora dos gatos e das mulheres, devo fazer? Se até já lhe dei florais e, que não me ouçam, ofereci passar a escritura da casa para seu nome (a fim de sensibilizá-lo no lance do território), desde que ele parasse de regar os móveis. Não adiantou.

Como a separação está fora de questão, o jeito é caprichar no desinfetante e orar para que Beto se convença que não sou dele. Porque não sou de ninguém. Nem de mim.

À flor do pelo

foto: Silvia Kalvon
foto: Silvia Kalvon

Tenho gatos. Gatos têm pelos. Tenho pelos de gato nas minhas roupas e nas minhas coisas. Todas. É uma lógica felina, peluda e universal. Houve época em que, dona de dois gatos brancos, eu evitava as roupas escuras. Depois, veio o siamês com seus cinquenta tons de bege. Em seguida, os pretos. Por fim, a tricolor. Liberei geral no guarda-roupa.

Uma rápida busca no Google, “como tirar pelo de gato das roupas”, e somos abençoados com quase oitocentas mil dicas, produtos, artigos, teses de mestrado, técnicas, tutoriais. Toalha molhada, luva de latex, esponja. Soluções instantâneas e… inúteis. Há mais pelos soltos de gatos entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia.

Antes de sair de casa, recorro aos rolinhos adesivos. Entro no carro e, apesar de os gatos não andarem ali, lá estão eles, os pelos. Grudados, aderidos, incorporados ao tecido dos bancos. Gatos são onipresentes.

Chego à reunião e me dou conta que minha blusa está cheia de pelos. Discretamente, e em vão, tento me livrar deles. Torço para que os presentes também gostem dos bichanos. Se perguntarem, digo que os pelos são meus amuletos. E que carrego vários comigo, só por garantia.

O rolinho da Scotch-Brite e seus genéricos fazem parte das compras rotineiras e essenciais da casa, como arroz e feijão. Ninguém entende por que tenho tantos rolos de fita adesiva, daquelas largas, perfeitas para a missão. Sou das que testam tudo e compram todas as novidades do setor. Gatos, quem diria, movimentam a economia de um país.

Houve tempo em que eu sentia enorme vergonha por exibir pelos acidentais na calça, no vestido. Como se fosse sinal de falta de higiene, de zelo. Hoje, não mais. De vez em quando, noto olhares enviesados. Assim como também rola a maior identificação com quem também convive com gato. Há sempre uma foto dele no Instagram para mostrar aos outros.

Meu filho, segundo exames, tem moderada alergia a pelo de gato, embora não manifeste sintomas. Algumas pessoas acham um absurdo os gatos dormirem na nossa cama. Nós temos moderada paciência com gente assim.

Tem anfitrião que oferece vinho, cerveja e comidinhas às visitas. Aqui em casa a gente oferece Polaramine.

Uma coisa é certa: Deus fez o gato no sábado, enquanto comia Nutella e ouvia Tom Jobim. No dia seguinte, descansou.

Tudo, então, estava pronto.

Pra não dizer que não falei dos testes em animais

Foto: Cam-Fu
Foto: Cam-Fu

Vou logo avisando: eu também realizo testes em animais. Todos os dias, praticamente. E faço isso desde que me entendo por gente. Nenhum ativista, até hoje, veio tirar satisfação.

Muitos bichos, de várias espécies, já passaram pelas minhas mãos. Atualmente, conduzo pesquisas aleatórias, inventadas ao sabor dos ventos, com três exemplares de Felis catus.

Em meu lar, os três gatos, ex-abandonados ao Deus-dará das ruas, são mantidos com o sol da manhã no quintal e da tarde na varanda, ração da boa, água fresca à vontade e acesso irrestrito às camas – ou qualquer outro lugar onde eles cismem de ficar.

Costumo testar-lhes a paciência várias vezes ao dia, acordando-os de suas sonecas. Só para dar um beijinho.

Estudo também o impacto de seus ronronados no meu estado emocional, e aproveito para testar a maciez de seus pelos, sempre que eles passam por mim ou dão sopa no sofá.

Um dos meus testes prediletos, de altíssima complexidade, consiste em fingir que meu dedo é uma minhoca gorda e suculenta escondida sob o lençol, só para averiguar se seus instintos caçadores estão em dia. Sempre estão.

Dentre os vários testes aplicados aos bichanos, um dos mais importantes é o que determina, no quesito diversão, a preferência por barbantes ou bolinhas de papel. Anos de estudos demonstraram que as bolinhas mais interessantes são as feitas com comprovantes de compras do cartão (de crédito ou débito), o que constitui dado dos mais relevantes para a economia do país.

Vou anotando, mentalmente, os resultados numa planilha imaginária que não serve para nada, exceto tornar meus dias mais felizes.

De todos os testes, o único que ainda não apresenta conclusão consistente é a tentativa de identificar em qual gene felino se encontra o hábito ancestral de tentar pegar o próprio rabo.

Os objetos dos meus experimentos não são, no entanto, apenas os felinos. Costumo, esporadicamente, realizar experiências com exemplares avulsos de Canis lupus familiaris, igualmente advindos das ruas, e eventualmente de Columbina passerina, os filhotes de rolinha que teimam em cair dos ninhos nos jardins do meu condomínio. São todos bem-vindos ao meu universo empírico.

Conviver com um animal é, em si, uma das mais ricas experiências científicas, sensoriais, sociais e afetivas que há. Descobri que os bichos (não apenas os domésticos) são, em si, o melhor remédio contra solidão, loucura, raiva e rabugices em geral. E que são a melhor tradução da amizade, essa ciência tão inexata que não se comprova, tampouco se reproduz in vitro.

Talvez descubra, um dia, que a “cobaia” sempre fui eu. Sou permanentemente testada em minha compaixão e capacidade de cuidar e amar sem nada exigir em troca. Quem sabe, também descubra que nós é que deveríamos ser submetidos a algum teste, a fim de validar nosso merecimento ao pedestal do mundo.

Tem gente, em nome da ciência, dedicada a fazer da vida dos bichos, entre eles os beagles, irmãos do Snoopy, uma experiência infeliz.

Deixa a turma do Charlie Brown saber disso.

Crônica de minuto para quem tem gato

Arte: Peter Neish
Arte: Peter Neish

Entro no banheiro, ele vem junto. Gato gosta de acompanhar o dono nesse destino. É seu favor diário. Fica ali, roçando a quina do armário e investigando um fiapo de qualquer coisa, caído ao lado do cesto de roupas. Amante de espaços mais amplos, é na limitação azulejada do dois por dois que um gato mantém a relação com seu dono em dia.

Ele pede colo, eu dou. Ele não quer saber o que estou fazendo ali sentada. Um colo é um colo.

É noite. Aviso-lhe: “Amanhã é mais um dia”. Antevejo a rotina de afazeres, deduzo acontecimentos; ele não. A repetição dos dias não o incomoda. Também não o seduz. Gato é atemporal. Melhor: proprietário de seu tempo. Todos os eventos mundiais cabem em uma lambida na pata.

Ele salta à pia. Encara o espelho e conclui: não há outro mundo dentro dele, Alice estava enganada. Ensaia uma espécie de capoeira com a bolinha de papel amassada que larguei ali. Não preciso da bula do hidratante, mesmo. Esse horóscopo testado dermatologicamente, a informar que o tempo correrá macio a partir de agora. Fiz aniversário, o presente já começou. Gatos vêm do futuro?

Ele desce. Ouve algo lá fora, que meu ouvido humano não capta, e se prepara para uma eventual defesa. Ele enxerga, escuta e se move melhor que eu; é de admirar que seus ancestrais não tenham dominado o mundo.

Inicio o banho, ele se enrodilha  sobre o tapetinho. O som da água é sua canção de ninar. O vapor morno faz seus pelos negros brilharem. Desligo o chuveiro, saio do box e pulo o tapete para não incomodá-lo em sua soneca.

Ele finge que dorme. Observa, olhos semicerrados, meu ritual pós-banho. Todo gato é um voyeur declarado e preguiçoso.

Ele fica comigo até o fim. Saio, ele sai também. E não sei mais quem acompanhou quem.

Pelo universo

Arte: Víctor BS

Catei o gato e o enlacei. Ele miou curto, concedendo-me o prazer da contradança. Saímos rodopiando pela cozinha, o feijão no fogo. Faltava a música, então cantei “Across the universe”, baixinho, na sua orelha.

Está certo que troquei uns versos de lugar e esqueci outros. Eu cantava ao vivo, não havia playback. Ele percebeu, mas não disse nada.

Felinos entendem bem do refrão: nada muda o mundo de um gato. Acordar, comer, lamber a pata, alongar-se, quentar ao sol ou abrigar-se da chuva, dormir, caçar passarinho, dormir, caçar lagartixa, dormir. Mesmo que não tenha dono, sua agenda é a mesma (talvez com alguma privação), somada à fuga perante o inimigo.

Eu, que vivo cantando “Nothing’s gonna change my world”, sei que minto. O meu, na verdade, já mudou um bocado. A ponto de eu não reconhecê-lo. Não conto com tanta invencibilidade. É que tudo fica mais bonito numa canção.

John Lennon adorava gatos.

A história da humanidade é feita de guerras, revoluções e modas. A dos gatos, não. Eles permanecem praticamente os mesmos em suas gatices desde que foram domesticados, coisa de dez mil anos atrás. Os gatos não mudam de ideia. Sua revolução está na ponta da língua áspera. A moda deles segue a única tendência possível: liberdade. E um barbante será sempre um bom entretenimento.

Encontrá-los pelo mundo é uma espécie de déjà vu. Sejam os bichanos franceses, norte-americanos, libaneses, japoneses, angolanos ou apenas os que zanzam pelos telhados da rua de cima, é o mesmo teatro, o mesmo balé, o mesmo filme. Se querem carinho, vêm, vão, fingem não estar nem aí com você. Cavilosos, se escondem e voltam; hasteiam o rabo-antena, tombam no chão, esfregam-se em tudo. É a senha: “Vem”. Em dois minutos estão trançando em suas pernas. Se não querem papo, também nisso são todos iguais: ignoram. Entocam-se n’algum buraco, adentram alguma cerca, escalam o muro mais próximo, seguem pelo universo. Gato é um ser manifesto.

Todo mundo deveria saber imitar gato.

Repeti para ele, à exaustão, o mantra “Jai guru deva”, caprichando no “om”. Conectado com seu deus, o Grande Gato, ele o compreende melhor que eu. Fizemos mais uns passos, o feijão ficou pronto. Então ele, com o rabo, me disse: “Agora chega”. E pulou do meu colo.

Para Benta.

Poesia para gato

Ilustração: Johanesj/Flickr.com

Ontem li um poema da Adélia Prado para o gato. No intervalo de botar pijama, apanhei o livro sob o criado-mudo e o abri numa página qualquer, brincando com a sorte. “É onde cair”, avisei. Enrodilhado na cama, em sua eterna roupa de dormir, ele bocejou e me encarou, como quem diz: “Feito”. Gatos falam com os olhos.

Vesti a blusa, limpei a garganta e comecei:

Hoje de tarde

pus uma cadeira no sol pra chupar tangerinas

Nunca estudei se gatos gostam de poesia, ou se preferem a prosa. Falei baixo, a métrica felina depende do volume, eu sei. Tolerante, ele foi afinando as orelhas para meu recital, os pequenos movimentos indicando se eu agradava ou não. Gatos escutam com os bigodes, mais que os ouvidos. Os olhos, mesmo semicerrados, tudo veem.

e comecei a chorar,

até me lembrar de que podia

falar sem mediação com o próprio Deus

daquela coisa vermelho-sangue, roxo-frio, cinza.

No ‘cinza’ ele se levantou. Não crê, nem descrê em Deus; apenas não o sabemos – ele e eu – do mesmo jeito, já conversamos tanto sobre isso. Temi que pulasse da cama e me deixasse a sós com minha voz. Ninguém em casa queria ouvir verso às vinte e três horas e cinquenta e quatro minutos de um dia frio (não roxo). Eu contava com sua audiência noturna; era para mim que eu lia.

Me agarrei aos seus pés:

Vós sabeis, Vós sabeis,

só Vós sabeis, só Vós.

Do que sabe um gato? Que conhecimento se arquiva em uma cabeça tão pequena, do tamanho duma fruta de chupar? Lembranças de ir e vir pelas ruas, antes de aportar aqui, achar bom e resolver ficar? Acolher um animal sem rumo é abrir os braços para todos os deuses.

O bagaço da laranja, suas sementes

me olhavam da casca em concha

na mão seca.

Era apenas uma rotação, dentre tantas que seu dia de gato costuma ter. Recolheu o rabo, deitou-se de novo. Coloquei a calça do pijama, só ele, só ele, sabe o quanto este é velho. Faltavam as meias da noite anterior, de paradeiro desconhecido. Busquei outras na gaveta.

Não queria palavras para rezar,

bastava-me ser um quadro

bem na frente de Deus

para Ele olhar.

O gato pardo, penso, gostou da Prado. Ele, que tem olhos azuis iguais aos do Jesus no quadro que ficava na parede do quarto dos meus pais, sobre a cabeceira. Fechei o livro, ele lambeu uma das patas. E perguntou que gosto tem tangerina. Nunca comeu.

.

“A pintora”, in A duração do dia

Diariamente

Ilustração: Tadashi Kumai/Flickr.com

Todos os dias, enquanto escovo os dentes antes de dormir, presto atenção ao meu rosto. Não quero perder seu envelhecimento diário. Também não desejo, um belo dia, lá na frente, me assustar: “Meu Deus, estou velha”. Minha observação é pura precaução. Não posso fazê-la pela manhã, no entanto. Sou imprestável ao acordar. Como a tartaruga-marinha recém-nascida, que brota do seu ovo escondido na areia e dispara para o mar, eu broto dos lençóis e disparo para o chuveiro. É lá que termino de nascer. No banho, a água morna aciona minha agenda e eu repasso, tal uma vidente, o dia já anunciado.

Todos os dias, numa hora qualquer, presto atenção a alguma parte do meu corpo. Dedão, batata da perna, dorso da mão. Não quero perder de vista uma sarda nova, o anúncio de uma limitação física inédita, uma ruga que chega sem avisar. Meu corpo é uma hospedaria de sinais do tempo. Não gosto de todos, mas é preciso recebê-los e tratá-los bem. Sou feita deles.

Todos os dias, não sei ao certo a que horas, nem por quanto tempo, dedico-me a decorar os filhos. Estudo seus tamanhos, cheiros, formato dos olhos, quantos dentes aparecem quando sorriem. Talvez, por isso, ainda não tenha me espantado ao vê-los já grandes, nem compartilhado com outras mães as clássicas constatações, “Como cresceram!”, “Como o tempo passa rápido!”. Depois que tive filhos, o tempo não passou rápido coisa nenhuma. Seu compasso é o justo. Ser mãe demora. Uma vida inteira, por sinal. Às vezes, mais de uma.

Todos os dias, eu leio. Jornal, pensamento, olho, futuro. Nem sempre entendo o que dizem. Mantenho um dicionário na bolsa e outro no coração, para os casos de dúvida. Vez por outra, nenhum dos dois me acode. Então, em vez de ler, escrevo.

Todos os dias, é um tal de lembrar e esquecer as coisas, que nem sempre me lembro de lembrar de Deus. Sei que ele não liga para isso. Somos bons amigos, daqueles que não precisam se falar todo santo dia. E ele sabe que preciso mais dele que ele de mim. O que também não o preocupa. É mais velho, mais escolado. Não é dado a criancices. Isso ele empresta aos pequenos. Que vão lhe devolvendo as criancices, aos poucos, enquanto crescem. Mas eles nunca devolvem tudo. Sempre guardam um pouco delas, escondido entre uma coisa e outra. É assim comigo, é assim com todas as pessoas. Gente é incrivelmente parecida e repetitiva.

Quase todos os dias, quando dou comida para meus gatos, busco nas prateleiras mais inalcançáveis da memória as recordações dos outros animais que já viveram comigo. Três cães, dúzias de felinos, um hamster, alguns passarinhos. Enquanto fizer isso, vivos eles permanecerão. As lembranças são fundamentais para o registro da história – deles e minha. Despejo a ração nas vasilhas e vou historiando. Brinco que os bichos de agora são os de outrora, renascidos. É um jeito – inofensivo – de matar as saudades.

Quase sempre, no almoço ou jantar, imagino a jornada do alimento dentro de mim. Cada um dos nutrientes conhece plenamente a sua missão, sabe para onde ir e o que fazer para me manter viva e razoavelmente saudável. Ninguém lhes ensinou isso. Eles sabem por que sabem, a vida deles é tão somente ser. De vez em quando, queria ser um feijão.

Nem todos os dias sou feliz. Na maioria, alegre. Todos os dias, porém, sou valente. Isso basta.

Crônica de minuto #7

Todo dia, o gato vem zanzar na frente do computador enquanto eu escrevo no blog. Se roça em tudo, como quem diz “Estou aqui”. Até a hora que – não falha – ele derruba a webcam com o rabo. Todo dia, eu reclamo. Todo dia, ele se faz de desentendido. Todo dia me levanto, recoloco a câmera no lugar e ele ganha um afago. Todo dia, ele salta da mesa e vai embora, feliz. É o nosso jeito de discutir a relação.

O fio da antiga meada – III

Está mais do que na cara. Gosto mesmo de gatos. E não é de hoje. Na sessão flashback do blog, outro texto da pasta vermelha para vocês. Escrito em 1992, aos 25 anos. Sonhando com amores, príncipes encantados e coisa e tal. Em tempo: Doris, a destinatária desta espécie de carta, viveu conosco por quinze anos. Encontrei-a, ainda filhote, abandonada numa estação do metrô. Naquele dia, ela foi comigo para o trabalho, escondida dentro da mochila. Difícil foi convencer o chefe que não havia gato nenhum ali.

Ilustração: Marina Cuello/Flickr.com

Doris

Viaja no tempo, a tempo de trazer de volta o desenho que fiz dele enquanto dormia. Vai, minha gatinha. Cruza qualquer oceano e grita, de onde estiver, caso ele esteja lá. Mergulha e volta breve para me abraçar, porque estarei triste.

Torna a voar, com asas de pelo e mel; avisa se o vir pelo ar. Mas volta tranquila, se nem assim o achar. Doce gatinha, precisava te contar. Anda até antes de tudo para achá-lo. E volta. Dá um beijo se sim, uma piscadela se não. Conforme for, seca meus olhos. Mas diz que não olhou direito.

Doris, Doris. Pensa e responde em qual rua vive o melhor da minha vida, que se vê tão esquecida na cor do seu olhinho, quase desmanchando de soninho. Mas, se nessa pressa de saber onde ele mora, você perceber, então, que é em mim, inventa rápido um jeito de avisar.

Boa noite, Doris.

A pátria amada dos cães

Foto: Chaval Brasil/Flickr.com

Nas comemorações de 7 de setembro não são soldados paramentados, ou bombeiros em tecnológica fardagem antifogo, nem crianças tentando furar o cordão de isolamento, tampouco estudantes convocados para o dever cívico, os que mais se divertem. São os cachorros de rua que acompanham os desfiles.

Cachorro sem dono não vê a hora de setembro chegar. Trata logo de se enfiar no meio da festa. Quer participar, embora não tenha nem vaga noção do que está acontecendo. Lá vai ele, língua de fora como olho adicional para não perder nem uma cena, rabo agitado inventando o ar. Não faz mal se leva um pisão, se atrapalha, se é tocado dali trinta vezes. É espectador dos mais animados. Se for mais dado, quase toma parte na fanfarra. Vira representante da família real, amigo chegado de Dom Pedro I.

No interior, onde o cerimonial é mais camarada, cachorros se misturam às comitivas, lado a lado com os personagens principais. Vão saltando felizes, complementando a coreografia dos desfilantes. Ora se interessam por uma caca na sarjeta, ora farejam um cheiro diferente e deixam a marcha por um instante. Mas logo retomam seus postos. A despeito da eventual fome ou de uma persistente sarna, está sempre tudo bem com eles. Depois dizem que cachorro não dá risada.

Tem os tímidos, claro. Os que sofrem com a agitação, curvam a traseira e buscam refúgio em qualquer beco ou margem plácida, bem longe das bandeiras verde-louras. Brado retumbante não é com eles. Esses, porém, são minoria.

Cachorro é bicho que não sofre de mau humor. Ao contrário de gato, que se dá o direito de acordar, vez por outra, de bode. Gato faz cara de saco cheio quando alguém o incomoda em sua soneca, cachorro não. Cachorro quase sempre topa uma brincadeira. Já gato, nem tanto. Gato é capaz de demonstrar desprezo por seres vivos e objetos. Cachorro gosta de tudo e todo mundo. Gato se lambe. Cachorro baba. Gato é companhia para o cinema. Cachorro, para a novela. Cachorro é funcionário-padrão. Gato faz greve.

Vê lá se gato assiste desfile de 7 de setembro. Quando muito, o faz de alguma varanda ou telhado. Acima de tudo e de todos. Limita-se a observar a parada, achando aquilo uma grande patacoada.

Cachorro é o melhor amigo do Homem. Gato, se falasse, seria aquele amigo que diz o que a gente não quer, mas precisa, ouvir.

Gatos já proclamaram a sua independência. Cachorros, dependentes por natureza, quem sabe, um dia darão seu próprio grito.

[Nota: amo cães. Que não se pense o contrário.]

Dia usado

Foto: PQz/Flickr.com

Abro só uma fresta da porta. Os olhos incomodados com a claridade. Tonta, entrego as chaves à empregada da vizinha, que viajou e as deixou sob minha custódia. Ela pede desculpas por vir assim cedo, tanta coisa para fazer, passar roupa, cuidar da cachorra. Abrevio a conversa, mais por receio de dizer coisa sem pé nem cabeça do que por antipatia. Embora ninguém possa ser simpático às sete da manhã. Cortês, no máximo. Meus olhos abertos são apenas uma ilusão. Ali, em pé, não passo de mero holograma de mim mesma.

Invejo pessoas que acordam cedo e convivem bem com isso. Que viajam do sono profundo ao completo despertar sem escalas. Que vão do ronco ao bocejo de bom dia em menos de dez segundos. Que saltam da cama com a lista, na ponta da língua, de tudo que têm para fazer no dia. Que, ainda deitados, são capazes de responder a um quiz sobre que dia é hoje – da semana e do mês. Que se vestem na penumbra e têm apetite para um café-da-manhã de hotel quando os sonhos ainda estão frescos na memória. Que não trocam as toalhas, não erram a escova de dente e conseguem escrever um bilhete com sentido antes de sair de casa.

Peço licença, preciso fechar a porta para o gato não escapar. Aquele ali? – a moça aponta. É ele, já se esminhocando na grama, roçando as costas, as quatro patas para cima. Feliz da vida, a uma hora dessas. Por isso ele é gato e eu sou gente. Saio de pijama em seu resgate, aqui os bichanos não podem ficar soltos. Ele ensaia escalar a árvore, eu tento driblá-lo, ele muda de ideia e vai zanzar no jardim do vizinho. O sonho de retornar à cama se dissolve: ação demais. Acordo, enfim.

Se alguém flagrá-lo neste momento, verá também que estou empenhada em recolhê-lo, o que me pouparia de maiores aborrecimentos. Não tenho pressa. Aproveito para prestar atenção ao dia em formação, eu que só o vejo quando está pronto. Olho em volta. A manhã se arruma como se estivesse com preguiça de escolher a roupa que usará hoje. Não vai de sol, nem de chuva. Nem de calor, nem de frio. Veste-se de tanto-faz. A cor desta manhã não tem nome. E a despeito de, só para mim, ela ter se anunciado de um jeito inédito, ao que tudo indica hoje não é um dia novo. É um dia usado. Desbotado. Acordei mais cedo à toa.

Dia usado, como roupa usada, pode não ter tanta novidade, mas tem suas vantagens: é mais confortável, mais macio. Tomou a forma do cotidiano. Não faz surpresas, nem boas nem ruins. Tampouco dá sustos. Todo mundo conhece. As combinações de acontecimentos foram testadas e aprovadas. Dia novo, não. Como roupa nova, ele pode apertar dum lado, ficar folgado de outro. Ninguém sabe direito o que acontecerá no decorrer do período. Está sujeito a tempestades e trovoadas. Ou a um sol de rachar. Guarda-chuva e filtro solar na bolsa, por garantia.

O gato se enfia sob o carro do outro vizinho. Justo aquele que não é seu fã. Que, por sorte, ainda está dormindo. Como todos devem estar nesta manhã amanhecida, exceto o gato, a empregada da vizinha e eu. Não tenho talento para cachorro, desisto de caçá-lo. Volto para a cama e, já que teremos um dia de segunda mão, em casa todos tomarão café-da-manhã um pouco mais tarde. Não fará diferença. Quanto ao gato, na outra casa tem um igualzinho ao meu. Um bom álibi, caso o síndico resolva implicar.

O rabo do gato

Ilustração: aminúscula/Flickr.com

Ele descansa aos pés da minha cama, seu lugar favorito da casa. Quer dizer, um dos. Gatos têm sempre vários lugares prediletos. Alguns são permanentes, outros vão sendo incluídos à lista no ritmo das estações do ano. E há os que vão saindo da lista. Naturalmente. Como tudo que um gato faz. Eles não receiam romper um relacionamento – ainda que o parceiro seja apenas um sofá.

Os critérios para um gato eleger seus cantos preferidos são insondáveis. Uma aconchegante, fofa e macia almofada pode não fazer seus olhos brilharem. E ela viverá desprezada na poltrona. Na melhor das hipóteses, uma criança a usará em alguma guerra doméstica. No entanto, uma caixa velha de papelão, bastante menor que o próprio gato, é capaz de transformar-se em um pedaço do paraíso, disputada até com os amigos. No caso, os outros gatos da casa. Um antigo gato nosso elegeu, por tempos a fio, o centro da mesa de mármore da sala para sua soneca vespertina. Outro, o topo do armário da cozinha. Era sua torre de controle e sossego. E um – com evidente transtorno de personalidade – foi flagrado dentro da pia da cozinha. Dormindo com os anjos.

O rabo de um gato é a extensão do seu cérebro. Porta-voz de quem não fala nenhuma língua humana. Acessório do rosto, ainda que tão distante. Complemento definitivo do olhar – se há bicho que fala com os olhos, é o gato. Repousado ao lado do corpo, esteja o bichano sentado ou deitado, é sinal de serenidade: tudo está bem. Espalhado, como na minha cama, significa: estou completamente à vontade. Ereto, ao andar, vira antena no auxílio a uma exploração interessante. Ao se entrelaçar na perna do dono: quero atenção. Arrepiado: viu o diabo. Ou coisa parecida. E é sempre prudente ensinar aos desavisados: rabo de gato não funciona como o do cachorro. Portanto, nem sempre é bom ficar perto de um gato que se põe a balançá-lo (o que é muito diferente do abano canino). Aquilo pode ser um aviso, uma bronca. Não é alegria.

“Aos olhos dos gatos, todas as coisas lhe pertencem” – alguém já disse. Lá em casa um gato parecia concordar com isso, quando entrou na sala lambendo os beiços, repletos de Maria-Mole. Aquela que minha mãe havia deixado sobre a mesa para esfriar. Na verdade, ele viera nos avisar que estava pronta. E gostosa.

Gente deveria ter rabo, também. Como nossos ancestrais, os macacos – se é que essa história procede. Seria a evolução da evolução, num claro caminho de volta para casa. Bom para se fazer entender na hora do silêncio, quando os olhos não são suficientes. Especialmente útil para lidar com crianças levadas. Nada de broncas que entram por um ouvido e saem por outro; em seu lugar, um rabo firme e decidido tocando o chão, tap, tap, tap. Os pirralhos recolheriam os seus por entre as pernas, e a paz reinaria.

O único problema seria estético. Um rabo grudado nos fundilhos teria um layout duvidoso. Mas a natureza é sábia. E amiga dos estilistas. Seria a redenção da saruel.

(Prometo não falar mais das sarueis.)

Gato on-off

gato-fluorescenteFoto: Efe

Gatos que brilham no escuro. Não, não estamos falando daquelas figurinhas que vinham nos pacotes de salgadinhos. A gente grudava na parede do quarto, apagava a luz e lá ficava a  figurinha. Brilhando.

Falo dos gatos que os cientistas sul-coreanos clonaram há uns anos. Dizem que os bichanos fluorescentes vão ajudar nos tratamentos para doenças genéticas humanas. Eles brilham somente quando ficam sob luz ultra-violeta, mas não resisto e fico imaginando a vida a partir da insólita experiência.

Você está lá, pronto para dormir, o gato vem chegando de mansinho e se aninha no edredon, você apaga a luz e… pimba. O gato acende. E fica lá, lambendo a pata e iluminando o quarto inteiro. Será o fim da indescritível experiência de dormir com gatos ao pé da cama. Quem tem medo de dormir no escuro, por outro lado, terá uma boa opção para lidar com a fobia, e de quebra esquentar os pés. Também estará encerrada a sorrateirice felina, uma vez que os gatos se valem do escuro e da visão privilegiada para caminhar por onde não devem e fazer coisas que seus donos não aprovariam, estivessem de dia. A cena: noite alta, céu risonho, o gato aproveita para zanzar pela pia à procura de algo interessante. O dono, insone, levanta-se de madrugada e vai andar um pouquinho, para ver se o sono vem. Lá do corredor vem a bronca: Sai já daí!

E agora, como fica a vida dos peludos, pilhados em suas atividades noturnas? Nos telhados, pontos de luz para lá e para cá. Um espetáculo. O que facilita a mira do balde d’água e do sapato, porém. No pet-shop, o anúncio: vende-se filhotes de gato, acesos e apagados. Qual será mais caro?

Definitivamente, os cientistas esqueceram de perguntar aos gatos se eles desejam brilhar no escuro. Se o tivessem feito, seriam persuadidos por eles (e gato é bom nisso) a fazer a tal experiência com ratos. Os gatos iriam adorar: menos trabalho para caçá-los. Ou então, os cientistas poderiam inspirar-se no belíssimo Um dia, um gato, filme tcheco da década de 60, e criar gatos que revelassem o caráter das pessoas. No filme, um gato mágico usa óculos e, se lhe tiram o acessório, as pessoas ficam coloridas, de acordo com seu caráter. O mentiroso fica roxo; o falso, amarelo, e assim vai. Isso sim, ajudaria no tratamento de muitos males desta nossa espécie.

Para o Kim

Ilustração: Dupo X-Y/Flickr.com

.

Kim

Me conta como é ser gato.

Porque gato não precisa fazer nada

Só precisa ir vivendo.

Não tem que apagar a luz ao sair

Nem acender ao entrar

Nem pagar conta

Nem ouvir gente chata.

Não tem que usar roupa

Nem sapato

Nem cobertor

Nem desodorante.

Muito menos sair correndo

Para tirar a roupa do varal

Quando começa a chover.

Kim

Me conta como é que reage um gato

A um assalto.

Olha tranquilo para o bandido?

Não altera um pelo

E lava a pata

E espera o tiro.

Ou nem sabe do tiro.

E quando ele vem

Morre-se, sem maiores delongas.

Mas vem cá: quem é que assalta gato?

Kim

Me diz como é ser gato.

Se é bom ou é ruim

Se tanto faz ou se tanto fez.

Ou isso é um engano danado

Das pessoas que pensam

Que não há nenhuma razão

Nas coisas que são e nas coisas que não são?

Kim

Penso, enfim, que ser gato deva ser um bom negócio.

Mas, me fala, gato é capaz de assistir a um bom filme?