Como dantes

Arte: Tom Fogg
Arte: Tom Fogg

Mulher só volta de uma viagem de férias, efetivamente, quando reorganiza a bolsa. Sai de cena tudo que garantiu o passeio – passaporte, dinheiro diferente, mapinha do metrô, máquina fotográfica – e entra tudo que salvaguarda o cotidiano na pátria amada: RG, dinheiro brasileiro, carteirinha do plano de saúde, cartão do convênio-farmácia, crachá, chave de casa, documento do carro. Batom e lencinho umedecido ficam, posto que dela nunca saíram.

Só então ela pode afirmar: “Voltei”.

Se a bolsa refeita é o atestado do regresso, a constatação de que viajamos não é somente a bolsa, digamos, alterada. No caso do destino ser outro país, continente, hemisfério, o que ajuda a nos convencer de que estamos longe é quando sentimos uma estranha alegria ao topar com conterrâneos no saguão do hotel, na fila do supermercado, no balcão de informações ao turista. A língua materna é como filho; reconhece-se de longe, de olhos fechados. Brasileiros que passariam incógnitos na terra natal não escondem o contentamento ao se ver. Apertam as mãos, puxam conversa, perguntam de que cidade são e, se acaso forem da mesma, ah. Que felicidade! Vão querer saber o bairro, a rua, comentam que têm um amigo por ali. Viram amigos instantâneos. É capaz de marcarem um churrasco assim que voltarem ao Brasil. Despedem-se – um segue para o museu, outro vai às compras – , desejam felicidades, tudo de bom. No exterior, compartilhar a mesma bandeira torna todos irmãos.

Viagem encerrada, férias idem. Por ordem na bolsa do dia-a-dia é a conclusão definitiva do ritual de retorno, com poder semelhante ao do banho em casa, onde a toalha conhece cada pedaço do corpo. De efeito igual ao de dormir na boa e velha cama, depois de dias afofando um obscuro travesseiro a serviço de sonhos alheios. Quase mais significativo que traçar um prato de arroz e feijão, após uma temporada almoçando e jantando em outro idioma. Nem desfazer as malas traz tamanha certeza de ter voltado ao lar.

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5 comentários sobre “Como dantes

  1. Gostei muito ! Talvez foram os dois beija-flores beijando as bolsas que lhe inspiraram ou, vice-versa, o texto lhe pos à cata da ilustração… Como sempre, “gosotoso de ler” suas crônicas !

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