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Vergonha

Tenho vergonha de andar de trenzinho.

Veja bem: não de trem. De trenzinho. Aquele que toda cidade do interior que se preza tem. O veículo customizado que leva a criançada, pais e/ou responsáveis para passear, dar um rolê.

Para começo de conversa, não é trem. É ônibus. Adaptado e decorado com florzinhas, palhacinhos, bichinhos. Uns têm personagens vivos, Mônicas e Pernalongas para acompanhar e animar a turma. Dão a volta na cidade beeem devagar. Fazem até piuí.

(Eu sei: imitam trem porque trens são do imaginário infantil – e adulto – desde sempre, muito mais que ônibus. Que criança ganha de Natal ônibus que vem com ponto de parada, rodoviária? Foi para um trem, não para um ônibus, que Villa-Lobos compôs uma das músicas mais lindas deste mundo. Mineiro diz “trem” para representar qualquer coisa; vê lá se ele diz “ônibus” a torto e direito. Adoniran eternizou o quê, ônibus ou trem? Trem é fantasia pura, meu chapa.)

Apesar da vergonha, andei em vários. Pedido das crianças, fazer o quê. Sempre que possível delego a missão ao pai, a uma tia carinhosa, primos, invento compromisso. Na impossibilidade, vou. Desejando ser invisível durante todo o itinerário, mas vou.

Quando o trenzinho da alegria passa, as pessoas na rua sorriem, acenam para os passageiros, veem um encanto na coisa que eu simplesmente não vislumbro. Nunca retribuo os acenos dos estranhos, tampouco os sorrisos. Sou a rabugenta do trenzinho. Não estou ali, compreende?

A alegria dos meus filhos quando passeiam em um não é suficiente para que eu supere a vergonha que, tenho ciência, é boba. Sendo assim, além da vergonha intrínseca, há também a vergonha de sentir vergonha – cuja nascente eu desconheço. Sequer me lembro dos trenzinhos da minha infância.

Deve ser alguma memória descarrilada, talvez. Só fazendo terapia de trilhos passados.

Verbo familiar

arte: Juliana Moraes
arte: Juliana Moraes

Agendar consulta das crianças na pediatra. Inspecionar orelhas do mais velho. Desembaraçar os cabelos da mais nova. Tirar dente mole dos dois.

Comprar os remédios do meu pai. Certificar-me que suas meias e cuecas estão em ordem. Levá-lo para cortar os cabelos e, na volta, passar no mercado para ele comprar bolachas.

Da matrioska, sou a boneca do meio. Cuido da boneca de fora, a que veio antes, e de onde vim. Cuido das que vieram depois, saídas de mim.

De mim, quem cuida?

Eu mesma agendo minhas consultas e nos dias marcados pego meu carro e vou. Lavo minhas orelhas, decido meus cabelos e, sem ninguém mandar, escovo os dentes – surgidos, tanto tempo atrás, em substituição aos meus moles. Não preciso de remédios; precisasse, os tomaria na hora certa. Determino o que entra e o que sai de meu guarda-roupa. Administro minhas próprias bolachas.

Encravado entre a infância e a velhice, o adulto é a peça autocuidante. No meio do jogo, é o presente, cuidador de si, do futuro e do pretérito.

O futuro, da vida, pensa que sabe tudo.

O pretérito sabe, efetivamente, tudo. No entanto, em triste gerúndio, vai se esquecendo.

O presente arde no desejo imperativo de tudo saber. Efetivamente, nada sabe.

São todos imperfeitos.

E isso é infinitivamente mais-que-bonito.

Medo do medo que dá

Arte: Ricardo Lago
Arte: Ricardo Lago

De criança, eu tinha medo de perder meus pais. Hoje tenho medo de perder meus filhos. Nunca queremos ficar sozinhos no meio da história.

De criança, apavoravam-me a prova de matemática e a professora de matemática. Hoje, dá medo fazer as contas no fim do mês. O que só comprova: o assunto é mesmo um bicho de duas mais cinco, ou seja, sete cabeças.

De criança, escondia meu diário no guarda-roupa, atrás das blusas de lã, com medo de que lessem. Hoje, o medo me faz proteger tudo – celular, computador, cartão de crédito – com senha. E não tenho mais diário.

De criança, tinha medo de falar com estranhos. Cresci, perdi o medo. Depois do Facebook, então, nem se fala.

De criança, morria de medo de engasgar com bala Soft. Hoje, a única bala que me assusta é a perdida.

De criança, tinha medo de casa mal assombrada. Hoje, tenho é de casa mal construída.

De criança, tinha medo de ver gente morta. Hoje, tenho medo de não saber o que lhe dizer, quando topar com uma.

De criança, temia a injeção. Hoje, temo a bactéria.

Certa vez, li num livro: “Dome seu medo!”. Parecia simples. Afinal, era só inverter as sílabas. Medo, no entanto (só depois soube), não é animal selvagem para ser domado. De medo, fica-se amigo. E despede-se com abraço, quando ele se vai. Sempre há de se conhecer um novo.

Dos medos

“Homem do Saco”, Renata Miyagusku

Que tipo de gente eu seria se os meus mais-velhos não me assombrassem – sem querer, até – com a história do Homem do Saco, aquele que me enfiaria no dito cujo e me levaria embora caso eu não fosse uma boa menina?

Que espécime de mãe eu daria se, assim que comecei a andar, não temesse nunca mais ver o rosto da minha, toda vez que ela se ausentasse por mais de trinta minutos?

Em que modelo de adulto eu me transformaria se não morresse de medo dos seres indescritíveis e impiedosos que moravam não só embaixo da minha cama, mas sob todos os móveis da casa, e que me pegariam, zás!, se eu me levantasse de madrugada para fazer xixi?

Eu seria, hoje, uma pessoa mais autoconfiante, uma mãe menos intolerante, uma adulta mais corajosa e bem resolvida, se ocorresse de ter sido poupada lá atrás?

Certos terrores, pensei anteontem, são absolutamente fundamentais à vida humana. Nos primeiros anos, nos do meio e, por que não?, nos últimos. Um pavorzinho aqui, um fantasminha ali, não fazem tanto mal assim a ninguém. Na dose certa, ajudam a construir seres imaginativos, erguem mentes atentas, desencadeiam sinapses que são uma festa. Seus ‘danos’, aqueles que a terapia insiste em tratar, podem, no fundo, ser inofensivos. Quase producentes.

O que seria do cinema sem o sobressalto, da literatura sem o pavor?

Se eu, quando era deste tamanhico, não soubesse o que o escuro me propiciaria em termos de paúra, como mãos gélidas e ossudas surgindo do nada a tocar meus ombros, talvez eu não houvesse exercitado minha imaginação e hoje, quem sabe, eu seria uma pessoa menos empática com os medos e sofrimentos alheios – de qualquer natureza.

Pensei nisso anteontem quando, na praça, ouvi uma mãe fazendo ao filho uma ameaça qualquer acerca do Homem do Saco. Meu radar pedagogicamente correto a condenou de bate-pronto. Onde já se viu, dizer isso ao menino.

Que nada; a patrulha no folclore-afetivo alheio é que é danosa. Eu tive meu Homem do Saco (que era Homem Chato, em neologismo autorizado de infância, e também possuía um saco). Você teve seu Homem do Saco. Todos nós tivemos nossos Homens do Saco! Por que negar isso aos mais novos? Por que ceifar-lhes o direito inalienável de ter pesadelos? (Se é que o Homem do Saco, vilão-mor do imaginário infantil desde priscas eras, ainda está com essa bola toda.)

Pais, mães e responsáveis: perpetuem em seus pequenos meia-dúzia de medos mitológicos, deem-lhes corda, deixem que acordem assustados à noite. O colo bem dado na hora do pânico é o que verdadeiramente nos salva neste e deste mundo.

Gente feliz não é feita (só) de experiência feliz. Isso é lorota que a publicidade inventou e a psicologia certificou. Coisa que até o Homem do Saco, vejam só, deve achar uma chatice.

Das lembrações essenciais

Ilustração: João Grando

Fecho os olhos por cinco segundos: tenho um metro e dez de altura. Visto uma camiseta tamanho 6, estou doida por um picolé e não sei quanto custa a boneca falante que acabo de pedir para minha mãe. Isso mesmo: eu sou criança.

Continuo. Ainda tenho um e dez, mas agora posso existir como se tivesse um e sessenta. Sinto como a primeira, penso como a segunda. E lembro, lembro, lembro.

Este é o exercício das lembrações essenciais, capaz de transportar adultos à infância distante, porém, com os cinco sentidos e a sabedoria (qualquer que tenha acumulado) de hoje. Para que serve? Aprender a se colocar no lugar do outro. Precisamente, no lugar de um filho ou filha que tenha um metro e dez e use camiseta tamanho 6. Um pouco mais, um tanto menos, não faz diferença. O importante é a parte de lembrar.

Suas memórias hão de se agitar e explodir igual pipoca no microondas. Ficarão cristalinas como a água da piscina onde você nadava com seu pai (e os dois pareciam muito maiores do que realmente eram, lembra?). Serão tão vivas quanto as cores da melhor fotografia que você já tirou até hoje.

E então se dará conta que, na idade que seu filho tem agora, você também tinha vergonhas bobas – de perguntar para o moço da videolocadora se tinha A Bela Adormecida – e medos paralisantes, como quando acabava a energia em casa e você não tinha certeza se sua mãe estava por perto, até que ela clareasse o breu da sua angústia, tocando sua mão e dizendo “Estou aqui, vamos buscar uma vela na cozinha?”. Se lembrará da fúria no olhar da sua avó ao ver os antúrios dela, tão caprichadamente plantados em frente à casa, agora colhidos e enfiados no vaso (ideia sua para enfeitar a mesa), quando encarar seu pequeno confessando ter sido o autor dos desenhos à canetinha nas almofadas, porque ele achou que assim elas ficariam mais bonitas.

Vamos lá, você ainda está com um metro e dez de altura. Vai se lembrar, de repente, que também tinha dificuldade para cortar a pizza sozinha, e não entendia o olhar intolerante dos mais velhos face àquele desafio pessoal.

Lembrará do seu pânico, solitário e silencioso, no primeiro dia de aula do primeiro ano, quando você não sabia se professores eram pessoas legais ou não, e se você ia poder comprar lanche na cantina, como faziam os alunos mais velhos (os ‘homens’ e ‘mulheres’ de nove anos).

Lembrará como os braços dos seus pais eram longos e alcançavam qualquer coisa no armário, e você se perguntava quando os seus também seriam assim.

Se conseguir realizar esse exercício, talvez você saiba que tudo o que pode fazer hoje – dormir e tomar banho na hora que quiser, por exemplo – representa o máximo da liberdade para seu filho.

Talvez saiba que o medo dele perder você é do mesmo tamanho que o seu de perdê-lo, embora ele ainda não saiba disso, e apesar de cada um ter o seu motivo para.

Talvez descubra por que ele não entende como brócolis pode ser mais importante que biscoito recheado ou, para ficar nos exemplos mais simples, que o significado da expressão “fazer sala” não é literal.

Confesso: eu havia me esquecido completamente do exercício. Ontem o retomei. Passei o dia inteiro com um metro e dez de altura. E ainda não voltei ao meu tamanho normal.

Crônica de minuto #40

Nina, cinco anos, anunciou:

– A partir de hoje, eu vou ser boazinha.

Depois, mudou de ideia. Misturou, de propósito, as figurinhas do irmão (separadas por time), recusou-se a recolher os brinquedos e fechou a porta na cara da amiga.

Ela prefere ser essa metamorfose ambulante.

Flan de baunilha

Só tinha flan de baunilha em casa – aqueles pudins prontos, que vêm em potinhos plásticos com calda de caramelo – se alguém ficava doente, ou outra ocasião especial. Custavam uma fortuna quando eu era criança. Ou nem tanto, a gente que não podia comprar.

Ter meia dúzia deles na geladeira era o sacrifício dos meus pais para ver um filho mais alegrinho, menos injuriado por causa do sarampo, da catapora ou da febre que, glória!, livrava a gente de ir à escola. Era a recompensa para a doída injeção no bumbum, tomada em pé nos fundos da farmácia do Archimedes. Um prêmio para o remédio amargo, de seis em seis horas.

A degustação da iguaria exigia cerimônia e respeito, e tinha início já ao levantar da fina folha de alumínio que a cobria. A raridade era incrivelmente saborosa. Mais até que o tender de Natal. Eu torcia para que a febre não cedesse, só para ser autorizada a mais um flan. Com meu irmão mais velho o negócio ainda rendia figurinhas. Era adoecer e lá ia ele ganhar uns pacotinhos extras. Alguma coisa, enfim, precisava valer a pena passar o dia na cama, sem poder brincar lá fora. Pai e mãe sempre dão um jeito de por alegria na vida da cria.

Meu sonho gastronômico infantil era devorar vários flans de uma vez só e, de preferência, gozando de perfeita saúde. Sem me preocupar em deixar algum para os irmãos, nem se ia dar dor de barriga. Sonho nunca realizado, mesmo quando ele pôde ser financiado.

Três décadas depois, acertei as contas com o passado.

No supermercado, escolhendo o iogurte das crianças – minha cria, desta vez –, estacionei na gôndola repleta de pudins. Tantas marcas, sabores. Tão baratos. Chequei o relógio, verifiquei a previsão do tempo, consultei os oráculos e não tive dúvidas: agarrei oito. Isso mesmo, oito. Eles são vendidos aos pares, quatro era um bom número. Olhei para os lados, temendo ser pega em flagrante delito, mais ou menos como quando eu tocava a campainha das casas da rua e saía correndo. Fazer algo escondido, mesmo quando se sabe que não há o que esconder, torna a coisa irremediavelmente mais gostosa.

Chegando em casa, os flans sequer foram para a geladeira. Abocanhei um por um, na cozinha, em pé. Igual quando tomava as injeções na farmácia, tirando o fato do meu bumbum, agora, estar devidamente preservado. Papei tudo, a barriga nem doeu. Caberiam mais. Uma mulher completa, eis agora o que eu era. Depois me dei conta: não havia comprado a mais para as crianças. Omiti a traquinagem, claro. Eles nem estavam doentes.

Ao terminar o oitavo flan, a pergunta fatal: por que é que não fiz isso antes? Os tempos de vacas magras ficaram lá atrás. Não que as vacas sejam muito gordas hoje, mas dão leite suficiente para, digamos, muito pudim. Por que é que nunca tirei o atraso? Por que desisti de, como diziam os mais velhos, matar a lombriga?

Porque esqueci. E do mesmo jeito que me esqueci desse desejo pueril, esqueci de muitos outros, perfeitamente concebíveis desde há muito tempo. Está certo que, hoje, a ideia de ter uma boneca do meu tamanho não me atrai tanto. A questão, no entanto, nem é essa. São as antigas quimeras irrealizadas, que viraram a esquina do tempo e se perderam na multidão dos anos. É o prazer de zerar um capricho. Liquidar um devaneio. Ficar quite com a criança interior e concluir mais uma pendência no checklist desta vida, para não levar muitas para a próxima.

Há quem, de infante, sonhou com a coleção em vinil dos Beatles ou botas até acima dos joelhos. Desejou almoçar no lugar mais caro do bairro, passar num carrão em frente ao colégio na hora da entrada ou montar um autorama gigante no meio da sala. Ou então, aprender a tocar piano depois do diploma de médico, sair numa escola de samba, badalar o sino da catedral da Sé.

A alegria que dá abastecer coração e alma com coisinhas assim não tem preço. Falando em preço, é sempre bom lembrar que boa parte das utopias particulares são realizáveis e podem estar, literalmente, ao alcance das mãos. Na prateleira de um supermercado, por exemplo. Meus flans custaram dez reais. Convencer o pároco da catedral, garanto, sai por menos.