Sarda is beautiful

Fui uma criança sardenta. E, tal vítima indefesa, acometida da praga das pragas, todos queriam me salvar das sardas. Inclusive eu.

De tudo ouvi, infância afora: sugestões de cremes mágicos, receitas de poções duvidosas, simpatias. Fabulosas panaceias, prescritas a torto e a direito por tias, vizinhas e mães de amigas, inconformadas com a manifestação singular da minha cútis. De acordo com as especialistas de plantão, os remédios eram imbatíveis no extermínio das “pintinhas”. As ideias para a salvação incluíam desde o icônico creme Sardalina até, pasme o pessoal da Vigilância Sanitária, meu próprio xixi. Se não estou enganada, fora ideia da madrinha; era só passá-lo diariamente no rosto. Econômico e autossustentável, ao menos, o método era.

Rendi-me a praticamente todos os conselhos. Menos o do xixi, que aí já era demais. Nada, porém, produziu o efeito desejado. Ao contrário; quis o destino que, a cada ano, mais sardenta eu ficasse. Culpa do atraso na invenção do Sundown.

Sofria. “Banana” não é exatamente o apelido que garotinhas de oito anos, obcecadas pelo mimetismo do bando, querem ter. Principalmente se as vistas não colaboram e, somado à pigmentação peculiar, vêm os óculos para ferrar tudo. “Banana-quatro-olhos”, afinal, era de lascar. Minha sorte é que não existia a Galinha Pintadinha. E sorte dos colegas era que naquela época ninguém falava em bullying.

Enquanto as amigas pediam ao Papai Noel a boneca que tomava mamadeira e fazia xixi depois, eu implorava ao bom velhinho que fizesse as sardas desaparecerem. OK, também pedi a boneca. Mas tinha direito a um presente só. Veio a boneca. E o xixi dela era de mentirinha; nem funcionaria.

Por anos, as sardas foram injustamente culpadas por tudo de chato que me acontecia. Achava que não tinha namorado, que ia mal em matemática, perdia os cadernos, não conseguia acordar cedo, era magra demais,  por causa delas. Quanto mais eu as rejeitava, mais elas se mostravam impávidas, alheias à minha repulsa, indiferentes ao meu ódio. Elas mandavam no pedaço, para meu desespero.

Mal sabia, mas aquela era minha constelação particular.

Cresci, as sardas também. Instalaram-se nos ombros, colo, braços. Chegaram a povoar as pernas, aproveitando-se dos raios ultravioletas por entre as brechas dos vestidos. Não são mais as sardas jovens de outrora; envelheceram comigo. Os apelidos também mudaram. O marido, testemunha da brabeza costumeira, diz que sou onça pintada. Para sua sorte – ou azar – , não estou em extinção.

Passei metade da vida tentando escondê-las. E metade da vida fazendo força para exibi-las, cheia de orgulho. Nunca é tarde para a paz.

Noel fez bem em não ter me atendido. Mantenho com carinho, até hoje, a boneca que faz xixi. As sardas também.

Estou salva.

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6 comentários sobre “Sarda is beautiful

  1. Nossa texto lindo adoreii ..
    Amava minhas sardas apesar de ser morena, mais de uns tempos para Ka , está sendo uma tortura para mim..
    Elas amentaram em meu rosto .. me ajudem por favor, com uma receita de um creme pois no momento não posso pagar dermato estou desenpregada…

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  2. Adorei o seu texto! Apesar de não ter passado o mesmo que você durante a infância, deu para fazer parte dessa história a partir do texto! Acho que livro seu em gênero romance faria muito sucesso! Curti muito!

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  3. Minha briga sempre foi com as pintas. Sempre soube que se uma delas, umazinha só, resolver doutrinar as outras, eu perco.

    Com o passar dos anos, também desisti. Gosto de vê-las, inúmeras, tomando meu corpo. Algumas até possuem dono… rs.
    Viva as nossas particulares constelações.

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  4. Hoje em dia as sardas andam em alta. Ando vendo muitas campanhas por aí com modelos lindíssimas sardentas. O diastema também andou recebendo atenção há não muito tempo. Acho que foi pra cutucar o tal do “padrão de beleza atual” e mostrar que cada pessoa tem a sua beleza. Mesmo.
    Eu acho que, se eu pudesse ter os cabelos ruivos de verdade, eu ia optar por ter sardas no pacote!

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  5. Muito apropriado o tema. A maioria, principalmente as mulheres, já sofreram com algo que não lhes agrada no corpo. E também as fases entre detestar e orgulhar-se, fazem parte. Mas tua conclusão foi perfeita: “nunca é tarde para a paz”.
    Hoje estou em paz com meu nariz de “tucano”!

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