Crônica de minuto #53

Foto: Degilbo
Foto: Degilbo

Qualquer escritório, repartição, escola, escrivaninha, balcão ou mesa sabe: a quantidade de clipes que se vão nunca é igual, sequer semelhante, à quantidade de clipes que voltam. Ao fechar o movimento do dia, a diferença no caixa sempre estará lá. A contabilidade não bate: saiu mais clipe do que entrou. Não falha. Fica-se sempre devendo.

Alguém não está repassando os clipes adiante. Alguém tem mais clipes do que deveria. Não é a distribuição de renda, o maior desafio capitalista; é a justa e igualitária distribuição de clipes de papel. Com o eterno déficit, a pergunta que não quer calar: para onde vão os clipes que não voltam? Mistério insondável.

Há – só pode ser – um universo paralelo aonde todos eles vão parar. Nele, uma poderosa força eletromagnética suga todos os clipes do nosso mundo terreno, sem deixar rastro.

Nem a tecnologia, que tanto reduziu os papéis no planeta, os fez desaparecer com tanta expressividade como o enigma da abdução dos clipes. Sorte do tal universo paralelo, que deve se alimentar de pedacinhos de arame retorcidos, tragados da nossa dimensão enquanto estamos dormindo. E ele – o tal – tem notória predileção pelas coisas miúdas. Das graúdas, não quer nem saber. Alguém já viu cama, geladeira, tapete de três por dois desaparecer assim, do dia pra noite?

Não venço abastecer a mesa onde trabalho, em casa. Inovei, comprei uns coloridos, outros enfeitadinhos, para não perdê-los de vista. Das duas dúzias compradas no último mês, não resta nem meia. Que também (suspiro) estão com os dias contados. Ninguém sabe, ninguém viu. Está certo que tenho crianças, e crianças também são dotadas de uma poderosa força eletromagnética capaz de fazer sumir todas as suas coisas. Algumas, mais tarde, serão recuperadas sob o sofá, atrás da geladeira. Outras se vão, para sempre, no sumidouro do tempo.

Situação semelhante vivem os pregadores de roupas. Vão sumindo, vão sumindo. Quando me dou conta, não há o suficiente para pendurar as camisas no varal. Aliás, as tampas dos potes plásticos e as colheres de café também padecem da mesma sina.

Universo paralelo, tende piedade de nós.

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4 comentários sobre “Crônica de minuto #53

  1. Esta crônica me arrancou risos. É um verdadeiro mistério como determinadas coisas somem mesmo, sem explicação. Evaporam. Como meias sem seus pares. Por que não se vão as duas embora? Por que se separam, assim, sem mais nem menos? Grampos, alfinetes, gominhas de cabelo, tic-tacs, passadores, onde estão?!
    Beijo!

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  2. Mistério!
    Já ouvi falar desse Beleléu. Tive alguns guarda-chuvas e grampos de cabelo que acho que foram pra lá também!

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