O dia em que nasci

arte: Lillian Chan

Eu era pequenininha quando minha mãe operou o estômago. Ficou uns dias no hospital, voltou para casa com dores, fez repouso, ganhou jantinha na cama. A cicatriz era grande, um corte deeeste tamanho na barriga.

Por algum tempo, acreditei que aquela ida ao hospital fora para minha mãe… me ter! Para dar à luz sua caçula, no caso, eu. E que, diferente do resto da humanidade, eu tinha na memória o registro da minha estreia neste mundo. A cicatriz grande? Da minha cesárea, oras. O repouso e as dores, completando o quadro pós-parto. E não era nadica estranho o fato de eu, recém-nascida, já andar, falar, ver, entender. Considerava-o normal, e não um milagre, nem desafio à ciência. “Sim, eu me lembro direitinho do dia em que nasci”, diria, placidamente, ao ser entrevistada na TV.

A dura verdade, no entanto, não tardou. A revelação veio de gente mais velha e, portanto, lembradora do real dia em que nasci. Foi quando soube da tal operação de estômago. Aquelas cenas tão bem conservadas na memória eram somente uma fantasia tola, memória equivocadamente construída. Como muitas que ainda devo conservar.

Já considerei grandessíssima sacanagem não podermos nos lembrar do nosso próprio nascimento. Já pensou? Recordar, com precisão, da primeira vez dos nossos olhos nos da mãe. Da mamada iniciática. Da palavra pioneira, do primeiro passo coordenado, em plena sala de estar.

Porém, a incapacidade de lembrar desses momentos talvez seja justamente prova de inteligência da espécie. Para quê, afinal, lembrar da aterrorizante e estreita passagem do útero? Dos primeiros minutos gelados fora do corpo morno da mãe, da primeira e devastadora cólica? Para que se saber gente tão cedo, se dá para borboletar nesse dolce far niente de bebê?

Nascer não é para maricas.

No rol das minhas memórias comprovadamente reais, há um par com a etiqueta “Mais antigas”.

A primeira: tenho dois anos, estou na areia da praia, de costas para o mar; aceno para alguém (minha mãe?) ao longe, uma onda (ok, marola; referência é tudo) vem e me derruba – o que ajuda a explicar meu pânico de mares, rios, lagoas, cachoeiras.

Segunda: estou com três anos, na cozinha; minha mãe acaba de estourar pipoca, passa-a da panela para a vasilha, pulveriza o sal e me chama para a sala, onde já estão meu pai e meus irmãos; é a Copa de 1970, tem jogo do Brasil.

De maio de mil novecentos e sessenta e sete, ao contrário do que cheguei a acreditar, nada guardo. O que, mais tarde, passei a considerar ótimo. Lembrar dum complicado nascimento a fórceps, meu corpinho todo ferido, Dona Angelina chorando, crente que eu havia morrido? Ah, nem.

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