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Gorda

comida

Quando minha avó soube que tinha diabetes, Doutor Fuad foi logo avisando: ela teria que mudar a alimentação. Algumas coisas ficariam de fora do seu cardápio, forever and ever.

E ela passou a comer a mesma comida todos os dias. Arroz sem tempero com carne cozida idem, pão sem glúten – ela falava “glút” – com Becel, laranja de sobremesa. Não sei se levou a sério demais as orientações, se entendeu tudo errado, ou os dois juntos. Com raríssimas exceções, e sempre seguindo o mesmo modo-sem-graça de fazer, de segunda a segunda, incluindo feriados, lá estava a mesma gororoba no prato da dona Josephina.

Cresci achando que diabéticos só podiam comer aquilo. Que droga de vida, pensava. Ficava penalizada ao ver minha avó recusar um biscoitinho, um quitute diferente, ainda que sem açúcar. “Não posso”, sentenciava.

Então minha amiga, aos quinze anos, teve diabetes. E agora, o que seria dela?, lamentei. Só poderia comer arroz, carne cozida, pão sem glúten com Becel e laranja o resto da vida.

Belo dia, fui à sua casa e ela estava almoçando. Tomei um susto quando vi seu prato. Que variedade de cores, sabores, texturas, cheiros. Depois, vi que o café da manhã e o jantar também eram assim. Os pais dela estavam doidos, deduzi.

Não estavam.

Fora minha avó, e mais ninguém, que decretara que sua comida, a partir do diagnóstico, seria a mais insossa possível. Falta de criatividade ou equivocada resignação? Sim, há diabetes e diabetes. Mas nunca conheci um diabético que seguisse dieta tão miserável quanto a da minha avó. Definitivamente, não precisava ter sido assim.

Confesso que já fiz, e ainda faço, muita dieta. Só que de ideias. Vou cozinhando verdades únicas, servindo-me de pensamentos estreitos e acabo me satisfazendo com um caldo ralo de vida. Adoeço.

Faço terapia. Psicólogo é uma espécie de nutricionista. Agora ando incluindo mais opções no meu cardápio mental. Tenho comido ideias novas, bem temperadinhas.

Quero ser gorda. Gorda de mundo.

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A maldição da barrinha de cereais

Sou capaz de aceitar, quase de bom grado, sugestões para melhorar minha alimentação. Peçam-me tudo: para abolir os lanchinhos noturnos, fingir que não sei o que é Bis, ignorar o segundo pãozinho, ficar satisfeita com cem gramas de nhoque ao sugo. Rosnarei de leve, farei cara feia, mas prometerei condicionar o pensamento (e a boca) em prol da saúde e da alegria diante da velha calça jeans. Proibido, porém: aventar a maldita barrinha de cereais.

Aquela, feita de nada e com gosto de coisa alguma. A pior sacanagem gastronômica já inventada em laboratório. O engodo alimentar do século XX. Mistura de borracha TK-Plast com bala puxa-puxa e lista de ingredientes que vovó jamais reconheceria. Mas com apenas 100 calorias.

Com a nutricionista, elas são o ponto da discórdia, o momento crucial e inegociável da consulta. “Dá pra trocar?”. Santa inocência, Batman! A barrinha É a substituta sintética da proteína, do carboidrato e dos minerais que não posso carregar na bolsa em suas formas originais, para aquelas horas em que bate a fominha.

É uma maldição contemporânea: elas estão em todas as gôndolas, dos supermercados às farmácias. Uma verdadeira invasão de tropas inimigas, falsamente saudáveis, a atingir meu paladar. Que venham, pois! Venço-as com meu exército de pipoquinha de canjica.

Há algum tempo, uma companhia aérea as distribuía (ainda distribui?) aos passageiros durante o voo. Faziam isso porque tinham certeza que ninguém iria pedir para descer.

Pego carona na onda reivindicatória, na fome de quereres, para propor um manifesto: pelo fim das barrinhas, pelo direito à alimentação plena e prazerosa, por um código de ética das barras, pela volta da lancheira!

Cereais, sim; barrinhas, não.

Cartas do coração

Arte: JakobT_98
Arte: JakobT_98

A enfermeira posiciona as ventosas no peito de meu pai, é hora do eletrocardiograma. Pergunto se posso ficar ao lado, na cadeira. Posso. Estar perto talvez não faça diferença alguma, mas publica o cuidado. Empodera o afeto.

Ela ajusta os botões, aperta um deles e o papel zás!, assume seu posto. Torna a checar as ventosas, inspeciona os fios. Tranquiliza meu pai e ordena, talvez pela quinquagésima vez no dia, “Agora, o senhor não se mexe”. Começa. A caneta do aparelho, em riste, vai escrevendo o que seu corpo manda. Eletrocardiograma é um ditado.

Eu gostava de fazer ditados na escola. Escrevia rápido, terminava e buscava com o olhar a professora, aguardando a próxima palavra. “Quadrado”. Ela aproveitava para fazer outras coisas enquanto ditava para a classe. Assim, dava tempo de errar, apagar, escrever de novo. Verificava as unhas, conferia o tempo lá fora. “Azaleia”. (Que, naquela época, ninguém ousava não acentuar). Caminhava até a porta, espiava o corredor e retornava. “Famigerado”. Essa era para ver quem escreveria com gê e quem botaria jota.

Meu pai obedece, está quietinho. Parece dormir. Eu também quero dormir, tão tarde. Acordado, naquele pronto-socorro, só mesmo o eletrocardiógrafo. Que segue ligeiro, traçando com determinação militar suas frases que sobem e descem. Como é que não se perde pelo caminho? Devem ser as tais linhas tortas de Deus.

Da cadeira, ouço o ronco – não do meu pai, do aparelho, que fala enquanto escreve. Como os doidinhos do sanatório, escritores dos livros imaginários da vida real. Ou será o contrário? Só sei que o exame vai ficando bonito na codificada caligrafia cardíaca. Fosse lição, meu pai tiraria nota boa.

Eu usei caderno de caligrafia. Sugerido a quem tinha a letra feiosa, nele as crianças aprendiam, na marra, a fazer letra bonita. Pena que nunca inventaram caderno de treinar, além de forma, conteúdo. Assim, as pessoas aprenderiam a escrever também coisas bonitas. A professora pedia para eu fazer a ‘barriga’ do bê bem redondinha, caprichar nas ‘perninhas’ do ême, não esquecer o ‘chapeuzinho’ nas vogais de som fechado. Letra é gente. O alfabeto é orgânico.

A enfermeira vem fiscalizar, o ditado está acabando. Vamos ver se meu pai passa de ano.

Que tanto a engenhoca rabisca no papel de pauta esquisita? O que o exame nos dirá? Se meu pai está doente, se vai ter de tomar remédio, se infartou?

Que nada. Era só seu coração escrevendo uma carta de amor para minha mãe.

Just like a rolling stone

Foto: Quapan

Eu não disse? Nunca se deve circular com calcinha esgarçada e sutiã desatualizado. Se, por acaso, se é acometida de mal súbito e o socorro médico se faz necessário, é fatal: sua surrada intimidade será desastrosamente devassada. E nunca, jamais, dará tempo de substituir o traje antes que enfermeiros se divirtam com o péssimo estado da sua roupa de baixo.

Lição aprendida a duras penas: tive inédita cólica renal (das bravas) em pleno shopping center.

Aproveitava a liquidação quando ela deu seus primeiros sinais. Fingi que não era comigo. Estava deveras interessada em um jeans bacana, a poucos minutos de ser meu pela bagatela de trinta e nove reais. Cheguei a tomar o rumo do provador. Que nada. Tinha uma pedra no meio do caminho. Precisamente, entre o rim e a bexiga.

Ora (direis) ouvir estrelas! E eu vos direi, no entanto, que, frente à lancinante dor, não só as ouvi, como as vi. Todinhas.

Não me recordo como cheguei ao ambulatório do estabelecimento. Só me lembro de teimar com o segurança, não carecia de cadeira de rodas. Carecia. Em seguida, na maca, expus meu derrière a uma injeção intramuscular de analgésico. A calcinha? Uma das piores do meu prejudicado acervo.

Em seguida, a caminho do hospital, no rádio do carro o locutor relembra a impermanência: “Em vinte minutos, tudo pode mudar”. De fato, a agenda do meu dia mudara nesse exato e breve espaço de tempo. Os recados estão por toda parte.

No pronto-socorro, fui beneficiada pela meia-luz da sala de exames. Bastava de constrangimentos. Já em casa, ainda zonza, contabilizei os prejuízos. Marido deixou o trabalho mais cedo, para me acudir. A cria, para voltar da escola, foi rateada entre os amigos. Fui flagrada com lingerie mulambenta. Ratifiquei vox populi: “Pior que dor de parto”. Nada se compara, no entanto, à dor de ter perdido o jeans em promoção.

Eu, fã confessa e irrecuperável de Lygia Fagundes Telles, sabia que ainda viveria (mais) um episódio com ela. Só não imaginava que fosse tão literal; ainda bem que é uma pedra só, e não uma ciranda delas. Trouxe comigo seu retrato tirado no ultrassom. Desejo que ela siga seu caminho, de preferência em paz. Just like a rolling stone.

A comédia da vida materna, parte II: a missão

E a pediatra das crianças pediu exames de fezes. Daqueles que não se colhe em laboratório, e sim, no recôndito do lar. Todo ano ela faz isso. Deve se divertir um bocado imaginando as pobres mães (pais não dão conta, morrem de nojo) travando uma luta inglória com frascos esterilizados e pazinhas traiçoeiras, à espera de uma boa amostra de cocô.

Não satisfeita com o trivial, e para meu desespero, ela pediu logo três amostras. Vejamos: dois filhos, total de seis porções a serem colhidas (em dias alternados), armazenadas e entregues no laboratório, no máximo em 12 horas. Lá vou eu, inspecionar o relógio de hora em hora, enquanto verifico, não sem demonstrar alguma ansiedade, a predisposição deles em consumar o ato. Rezo para que não seja antes das sete da noite; se for, o prazo vai para as cucuias e a produção, para o esgoto.

Ela também pediu exames de urina. Embora feitos no laboratório, esses representaram igualmente um ato de bravura – crianças raramente alinham necessidade, desejo e horário, gostam de brincar de acender e apagar a luz no banheiro e sempre querem ver como é o sabonete. O que dirá realizar o outro – de altíssima complexidade – em meio à rotina doméstica e sem diploma de enfermagem ou certificado de contorcionismo. Epopeia é o mínimo. Nos faz questionar o porquê de, um dia, termos desejado perpetuar a espécie.

Quem não tem filhos pequenos não faz ideia, mas uma coleta dessas não é simples. Requer prática, habilidade, destreza e, sobretudo, estômago. Adultos se programam, conseguem estabelecer um razoável planejamento refeição/toilette, agem sozinhos. Já com a gurizada, é preciso estar eternamente alerta, apetrechos ao alcance, pois qualquer hora pode ser hora. E se perdermos essa hora, é como diz Adoniran em seu Trem das Onze: “só amanhã de manhã”.

Mãos à obra: eu organizo o movimento, oriento o Carnaval, ponho-me a postos e não perco a cria de vista. Ao ecoar do chamado, empunho frasco e pazinha, saio voando. Muitos serão os alarmes falsos, até que chegue a Hora H. Ela chega e, nesse momento, faz-se mister evocar uma energia superior, rogando ausência momentânea de olfato e frescura. O mais velho se posiciona no vaso sanitário, eu me concentro. “Espera um pouquinho, filho”. “Senta mais para cá”. “Assim está bom?”. “VAI!”. Nesse instante, a caçula, sugestionada, chama do outro banheiro: “Também estou com vontade!”. Não há alternativa: o pai terá que enfrentar seus limites. Pelo menos, até eu estar liberada para acudi-lo.

É assombrosa a possibilidade de avaliar se uma pessoa está saudável ou não através da análise de seus dejetos. As universidades poderiam formar médicos tarólogos, com poder de visualizar a saúde de seus pacientes através dos arcanos, dispensando, assim, as constrangedoras coletas de substâncias orgânicas e mal-cheirosas.

A delicada operação é concluída. Ainda há, porém, a bizarra finalização: manter as amostras na geladeira. No dia seguinte, todos almoçarão fora. Não há paz quando se sabe que elas – ainda que triplamente acondicionadas – estiveram próximas aos tomates.

As cenas se repetem por mais duas vezes nos dias seguintes, com pequenas variações e, eventualmente, alguns acidentes. Ao todo, três idas ao laboratório. A recepcionista já sorri quando me vê.

“Ser mãe é padecer no paraíso”, disseram. Com direito a passeios pelo purgatório, admita-se. Mas missão dada é missão cumprida. Dias depois, a recompensa: resultados negativos.

A ditadura do fitness

Ilustração: Robin Ator/Glowinthedarkpictures.com

Depois das bruxas e dos fumantes, a humanidade deu agora de caçar, impiedosamente, outra categoria: os que não gostam de se exercitar.

A mensagem é onipresente, do anúncio de remédio para o fígado à embalagem de Sucrilhos: “Tenha uma vida saudável, pratique exercícios físicos”. Sepultada a ditadura militar, é a vez da ditadura do fitness. Tão cruel quanto, nela os seres são separados entre ativos e sedentários, sadios e não-sadios, terráqueos e extraterrestres.

Não se trata de mensagem motivacional, nem de saúde; é comunicação estratégica: os fabricantes querem tirar os seus da reta quando, lá na frente, você infartar de tanto comer porcaria. Terão dito: “Eu avisei”.

Abasteço minha tigela de cereal enquanto leio o rótulo. Instantaneamente, se forma à minha frente a paisagem da última academia de ginástica que frequentei, durante um período bem menor que o contratado. De lá, saí correndo. Fugi. Escafedi-me. (O sonho de toda academia é ser uma sucursal de Salvador, inventando micaretas diárias para levantar o astral da moçada. No meu caso, tempo perdido: micaretas só despertam em mim as últimas três sílabas.) A professora ligou, um mês depois, para saber o que havia acontecido. Quis inventar uma história triste e trágica, mas como todo pensamento carrega em si o poder de se realizar, confessei: “Sabe que que é? Não gosto de ginástica”. Tentei reaver os meses pagos e não utilizados, e ela: “Você fica com um crédito, quando você se animar, volta”. Ela não entendeu. Adiós, muchacha!

Agora sei como se sente uma bruxa, um fumante. Bruxas, ao menos, não precisam se expor nos formulários dos consultórios médicos.

De tempos em tempos, quando resolvo me exercitar três vezes por semana porque dizem que, assim, chegarei supimpa aos cem anos, fazendo Tai-Chi-Chuan na praia e tudo, o meu diabinho da consciência, um gordinho flácido e feliz, se empoleira no meu ombro. E tenta me convencer que todas as outras atividades previstas na agenda do dia – fazer supermercado, levar o gato ao veterinário, pregar botões caídos da camisa, fazer depilação, arrumar o armário de tupperwares, terminar o texto para o editor, meditar pela paz mundial – são mais urgentes e importantes que dar uma volta na Lagoa do Taquaral.

Ele, o diabinho, lembra também que na padaria tem açaí com banana, guaraná e granola, que é quase a melhor coisa do mundo, servido numa tigela deeeste tamanho. Quem pode com uma consciência asssim tão persuasiva?

Não sou esportista, detesto tênis, mal sei andar de bicicleta. Mas amarro meus sapatos com facilidade, passo em pequeninos vãos entre os carros nos estacionamentos e caibo no tamanho 16 da maioria das roupas infanto-juvenis. Portanto, rogo, em prece, ao pai nosso que estais no céu: deixai-me em paz com meu ócio e minha preguiça, contanto que meu HDL, o bom colesterol, esteja alto. Deixai-me cair na tentação da gula e ajudai-me a manter meu IMC em torno de 22,5. Mas livrai-me da esteira e dos aparelhos de musculação. Amém.

Consulta imaginária com o médico que não existe

Ilustração: Michael Young/Flickr.com

Entro na sala com cheiro de baunilha. Acomodo-me na cadeira lilás e pergunto, na lata: “O que eu tenho, doutor?”. Ele me olha por cima dos óculos à la John Lennon e diz que, antes, precisa pedir alguns exames. Adianta, porém, o que eu estou atrasada em saber: “Está me parecendo um caso de vida que está ao contrário. Ou do avesso”.

Sempre quis ir a um médico onde eu não precisasse falar demais para que ele soubesse tudo. Que não visse no fígado só um fígado, nem tratasse a dor como final das contas. Que costurasse o que fosse notando em mim, e eu saísse da consulta com um patchwork feito dos meus quarenta e quatro retalhos particulares. Nem médico de verdade ele precisaria ser. Há horas que precisamos de gente que não é o que é. Irmão que não é irmão. Professor que não é professor. E assim por diante. Não vale para amigo, nem construtor; confiança e casa são coisas que não podem cair.

Primeiro, ele ausculta meu coração. Não me conta, no entanto, o que o músculo involuntário lhe revela. Diz que é segredo. Segredos do coração.

Quer saber quando foi a última vez que me descabelei, bufei pelas ventas, subi nas tamancas, rodei a baiana. “Nesta semana?”, pergunto. Ele me olha novamente por cima dos óculos, preciso entender esse seu sinal.

Diz que precisa examinar minhas raízes, prontamente lhe mostro meus pés. Ele ri. “São os olhos e os ouvidos que eu quero ver”. Preciso ser menos literal.

Conto que meu relógio cronológico está de mal do biológico. “Para isso não há remédio, ele avisa. “Eles não são à prova de tempo. Nem dê corda”.

Peço uma pomada para as ideias. “Elas coçam à noite, doutor, não me deixam dormir”. Ele sorri um sorriso antigo e apanha qualquer coisa no armário. “Passe isto nelas, uma vez ao dia”. É amostra grátis não-tributada de atitude.

Reclamo da memória. Às vezes, nas minhas pesquisas mentais aparece “page not found”. Ele me recomenda exercícios de repassar, todo dia, como foi o anterior. “E vale mudar alguma coisa, doutor?”. O olhar sobre os óculos, de novo. Gosto desse cara.

Na despedida, o médico de suavidade bege e avental idem não quer cobrar a consulta. Elogia o timbre da minha voz, mas não repara em meu anel de borboleta, quebrado. Receita pílulas brancas para sonhar colorido, e diz que eu só preciso amanhecer.