Régua T

regua t

De adolescente, vivi inúmeros conflitos típicos da fase. Amores não correspondidos, absorventes que vazavam, vergonhas infinitas, medos diversos, dúvidas esparsas. Poucos, no entanto, se igualaram à tragédia de carregar uma régua T, diariamente.

Aos quatorze, cismei que seria arquiteta. Influência evidente da irmã, que já trilhava o caminho.

Achei por bem optar por um colegial técnico, para chegar à faculdade de arquitetura mais azeitada. Avaliei os cursos disponíveis e, determinada a ser a versão sardenta do Niemeyer, escolhi Edificações.

Uma das melhores escolas do ramo: Liceu de Artes e Ofícios, no bairro da Luz. Do outro lado da cidade. Encarei o vestibulinho. Passei, que felicidade! Eu estava razoavelmente familiarizada com os materiais que minha irmã usava em seus trabalhos, papel vegetal, escalímetro, caneta nanquim, normógrafo e a própria régua T. Não tinha ideia, porém, do que me aguardava.

A Wikipedia assim a define:

Régua T é um instrumento próprio para desenho técnico. Assim como a régua paralela, é utilizada para apoiar o esquadro ou para traçar linhas paralelas quando apoiada na mesa de desenhos. Possui em média 80 cm e normalmente é de madeira com detalhes em acrílico. É uma régua de forma da letra T, e tem como benefício ajudar o desenhador durante o desenho.

Em meu dicionário particular, o significado é outro:

Régua T é um instrumento de tortura, causador de sofrimento. Não à toa, seu formato lembra uma cruz. Sua função, além de auxiliar na produção de desenho técnico, é fazer a pessoa que a carrega passar vergonha, onde quer que esteja.

Com oitenta centímetros de comprimento, praticamente metade da minha altura, não havia mochila ou pasta que a coubesse. O jeito era levá-la nas mãos. O que também não era simples. Seu formato de espada a transformava em uma quase arma. T de trambolho. T de troço. T de tranqueira. T de traumático. T de tridente – o Diabo, certamente, inspirou-se nela.

Da Mooca, eu tomava o 3104 que me deixaria na Praça da Sé. De lá, metrô até a Estação da Luz. Na volta, descobrira um ônibus direto, com percurso mais curto, porém mais lotado. Ao menos, a régua T só enroscava em uma catraca.

Considerando que sou dotada de apenas duas mãos, e enquanto uma delas tratava de agarrar as barras para garantir minha estabilidade no coletivo chacoalhante, a outra eventualmente abraçava os livros (só fui ter mochila mais tarde). De modo que faltava a terceira mão para tourear minha cruz, digo, régua T, que insistia em esbarrar nos passageiros, alguns em pleno cochilo. E, eventualmente, uma quarta, para alcançar a cordinha e informar o motorista que eu desceria no próximo ponto. Depois de “com licença”, “desculpe” era meu vocábulo mais empregado durante o trajeto.

Então, eu compreendi o calvário de Jesus Cristo.

Junto à régua T, geralmente eu levava um canudo de papelão, do mesmo tamanho da régua, com os desenhos. Para facilitar o transporte, eu prendia os dois com elásticos. O que, aparentemente, parecia uma solução inteligente, apenas dobrava minha tragédia. O canudo escapava, os elásticos rompiam, a ponta da régua cutucava a cabeça dos passageiros sentados.

Foram três anos de flagelo.

Eis que, quando o curso estava prestes a ser concluído, comuniquei à família: não vou mais fazer arquitetura. Quiseram saber o porquê. Expliquei que já tínhamos uma arquiteta na família. Que eu flertava com a publicidade há algum tempo. Que me dedicaria a ser a versão sardenta do Washington Olivetto.

Só não contei tudo. A razão, claro, foi a régua T.

6 comentários em “Régua T

  1. Silmara, pode parecer exagero mas, mais uma vez, identificação total com minha adolescência. Também fiz edificações e design de interiores antes de iniciar arquitetura, que nunca conclui. Andava em ônibus e trens lotados indo de Osasco à Mooca. Realmente carregar pastas enormes e esse instrumento não era para qualquer um. Mas acabei utilizando essa régua como arma para afastar tarados (risos). Acabei com muito cabra safado nesses transportes da vida. Boas lembranças. Um ótimo Dia das Mães

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