Ovos mexidos

Resolvi fazer ovos mexidos para o café da manhã. Enquanto quebrava as cascas e os deitava na vasilha, lembrei.

Era tradição na escola: no aniversário de alguém, os colegas levavam ovos. Guardados nas mochilas, nos bolsos do avental branco ou embaixo da carteira, com cuidado para não quebrar, até a hora da saída. Época em que se sabia de cor o dia do aniversário do amigo, sem precisar de aplicativo ou rede social para evocá-lo.

Terminada a aula, bastava o aniversariante cruzar o portão para ser alvejado, na calçada e à queima-roupa. Cabelo, rosto, costas, pernas, material escolar – nada era poupado. Uns levavam farinha também, para incrementar a, digamos, comemoração. O coitado da vez se tornava seu próprio bolo. Boa parte da sala aderia ao ataque coordenado. Quem não, ficava apenas de cúmplice na zoação. O ritual da ovação era o “Parabéns a você, nesta data querida” da turma.

Apanho o garfo, espeto de leve as gemas, que resistem. Mostro quem é que manda, elas se entregam. Clara e gema se amalgamam num creme liso, uma pitada de sal.

Havia dois tipos de aniversariante. Os que encaravam a homenagem com bom humor e, resignados, nem corriam, facilitando o bombardeio e abreviando o suplício. E os que não suportavam a humilhação. Pediam, em vão, socorro ao bedel. Tentavam fugir. Logo eram alcançados e a ovada, mais intensa. Eu admirava os resignados. Tinha sabedoria naquela atitude.

Ao chegar em casa, após deixar o rastro de meleca pelas ruas do bairro, o filho-omelete era recebido pela mãe furiosa. Só ela sabia a trabalheira que a aguardava. Inconformada com o desperdício – quantas tortas não dariam aquela dúzia de ovos? –, providenciava desinfetante com xampu para os cabelos, botava o uniforme de molho no sabão, oh fedor. E orava para que, no próximo ano, os colegas se esquecessem da data.

Levar ovada, no entanto, não era para qualquer um. Era preciso algum nível de popularidade na escola. Uma bela ovada era sinal de respeito e consideração. Ninguém virava gemada ambulante à toa.

Derreto um pouco de manteiga na frigideira, despejo os ovos batidos e assisto à lenta solidificação. No filme da minha vida devo ter, sem querer (ou não), editado algumas partes. Se tive o privilégio de feder a ovo no dia das minhas primaveras? Aí é que está: não me lembro.

Espeto minhas recordações com o garfo, elas resistem. São elas quem mandam, porém: delas não sai quase nenhum registro imagético dos meus aniversários antigos. Festa, presente, gente em casa, balões coloridos, nada. Nem de quando criança, tampouco de adolescente.

Logo eu, que tenho memórias para dar e vender.

Talvez eu só precise quebrar as cascas.

4 comentários em “Ovos mexidos

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