Fritz

Anos 80. Meu irmão chegou em casa com o bichinho em uma caixa, todo feliz. Meu irmão, não o bichinho. Comprara de um rapaz no centro da cidade. Agora tínhamos um papagaio.

Vai se chamar Fritz. Providencia gaiola, põe no quintal, “para ele ver o movimento”, cuidado com os gatos, não é pra ensinar palavrão.

O tempo passava, e nada de Fritz falar.

Meu irmão lembrou que, durante a negociação, questionou o tamanho e a aparente mudez da ave. O vendedor justificou: “É novinho, ainda”.

A engabelação é uma arte. Anunciado como papagaio, Fritz era, na verdade, maritaca. Que fala, mas em maritaquês. Não foi, porém, empecilho para que tivéssemos altos papos, meu amigo verde e eu. Reclamava se a gente passasse por ele e não lhe desse bom dia, boa tarde, boa noite. Nós gostávamos dele. E arrisco dizer que Fritz gostava da gente, numa espécie de síndrome de Estocolmo.

Um dia, sem mais, nem menos, Fritz se mandou. Não se sabe como conseguiu abrir a gaiola. Diz meu irmão que estava perto, e nada percebeu. O fato é que, depois de anos, ele cansou-se dos Franco. Fugiu sozinho, sem ajuda. Por próprio mérito. ‘Maritocracia’.

Ontem as maritacas do bairro estavam particularmente barulhentas. São tão livres, tão felizes. Quando elas aparecem, não há como não lembrar do velho Fritz. E da nossa crueldade, ao mantê-lo em injusto cativeiro. Uma vergonha maior que a de comprar gato por lebre. A ignorância é um tipo de gaiola.

Desculpa, Fritz.

3 comentários em “Fritz

  1. Na minha infância, havia o “azulão”. Na verdade, penso que era um típico pássaro preto. Certo dia acordamos, os três irmãos, e enquanto esperávamos a mãe preparar o café da manhã, notamos que nada do azulão cantar. Não era bem um canto matinal e sim um escândalo matinal. Corremos pra perto da gaiola e lá estava ele, deitado, morto. Susto coletivo. Choramos e na sequência, como toda boa criança feliz com as brincadeiras/imaginação de antigamente, preparamos o enterro da ave; com plaquinha nominal, cruz e oração. Só assim pra imaginarmos ele cantando/escandalizando no céu. E também no céu da nossa memória.
    Azulão!

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