O miolinho do chuchu

Esta não é uma crônica culinária. Ou é. Um pouco, talvez.

Sempre tirei o miolinho do chuchu. Descasco, vou com a faquinha e extirpo aquela parte branca, estranha, diferente, desconhecida. Foi assim que via minha mãe fazendo, que via minha avó fazendo, que via minha bisavó fazendo. Modo de fazer é praticamente uma coisa genética.

Como se ele, miolinho, fosse feio, sujo e malvado, merecedor da rejeição dos humanos. Quem sabe, tóxico como as folhas de comigo-ninguém-pode do velho quintal e que eu tinha medo até de por a mão. Ou, no mínimo, que estragaria, irremediavelmente, o meu refogado.

Mas nunca ouvi falar de alguém que houvesse batido as botas por ter comido o miolinho do chuchu. Também não se tem notícia de manchete na primeira página, “Homem é internado às pressas depois de jantar; esposa fez chuchu e não tirou o miolo”.

Recentemente, aprendi que não precisa tirar. Que os miolinhos também são filhos de Deus e devem ser deixados em paz.

Passei a vida comendo e preparando chuchus desmiolados, à toa. Cozinhei meus próprios miolos a fim de compreender de onde vinha o hábito. Não vem de lugar algum. Melhor dizendo: vem, sim. Vem do grande caldeirão onde ferve nosso caldo cultural. Miolinho de chuchu é uma espécie de manga com leite, pontinha esfregada do pepino.

Ontem comprei chuchu. Posicionei na bancada a tábua, a faquinha. Lavei-o e descasquei-o (já não tenho certeza se a casca precisa mesmo ser retirada). Parti-o ao meio. Encarei o sechium edule, me encarando de volta em sua chuchuzice alviverde. Ficamos ali, em franca telepatia humano-vegetal. O corte transversal lembrou-me um útero, a preparar e guardar a vida. Eu tinha duas alternativas: perpetuar a lenda, ou destruí-la. Três: escrever para a Palmirinha.

Mudar um hábito ancestral desse, bicho! Nananina-não. Vou tirar, pronto, resolvido; e se minha família cai dura depois do almoço?

Eis, porém, que meus miolos resolveram aceitar a novidade. Foi tudo para a panela: o chuchu inteiro e minha crendice partida.

Todos comeram, nem repararam. Só eu. Fartei-me. Não veio febre, nem indigestão, nem mal súbito. Ninguém adoeceu, não abreviei a vida.

Viva o miolinho do chuchu.

Para Neide Rigo

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