Síndrome da lição de casa

Arte: Michael Whitehead

Vertigem. Taquicardia. Náuseas. Ansiedade. Desespero. Não, não é a descrição de um episódio de síndrome do pânico. Sou eu, fazendo lição com meus filhos.

A aversão das crianças ao dever de casa é milenar, ancestral. Claro que elas preferem brincar lá fora ou assistir TV, a ficar debruçadas sobre os livros, aprendendo coisas cuja utilidade, ao seu ver, é questionável.

A lição surge como um monstro a assombrar seu tempo livre, semelhante aos assustadores seres sob a cama. Pais e mães, no afã de lhes proporcionar alguma educação, se tornam malévolos algozes, carrascos insensíveis, ao exigir-lhes insensatezes como sentar-se direito na cadeira, não abrir o apontador de lápis no tapete e iniciar as frases sempre com letra maiúscula. Não pode haver benefício educativo com tanto “Apaga e faz de novo”, “Olha o acento”, “Não fura a borracha com o lápis, menino!”.

Os sintomas da síndrome da lição de casa, que acomete genitores estressados, entram em ação na chegada da escola, com a temida frase “Tenho tarefa!”. Num crescente, a angústia se instala e, no meu caso, quando me dou conta, já são dez da noite e ainda falta o dever de ciências. Onde se compra Rivotril sem receita?

Mistérios insondáveis rondam o “para casa”. Quando é para recortar de revistas objetos começados com “a”, todos os objetos com “a” desaparecem das páginas. Idem para todas as outras letras.

É para mandar uma garrafa pet vazia até amanhã? Não há nenhuma em casa. Sendo que, semana passada, você enviou três para o reciclável.

Se a atividade pede uma biografia, o trabalhoso não é a pesquisa; é argumentar com o aprendiz por que ela deve ir além das datas de nascimento e (se é o caso) morte da pessoa. No ensino fundamental, escrever dez linhas inteirinhas está fora de cogitação. Principalmente, se o programa preferido na TV começa em quinze minutos.

Em casa, matemática – razões evidentes – é com o pai. Que leva vantagem, o mais velho é fera nos números. Faz os exercícios rapidinho, pula etapas do cálculo, que ele considera dispensáveis. Não puxou a mim. Sorte dele.

Já Português é departamento da mamãe aqui. Levo, apesar da familiaridade, significativa desvantagem: embora criativo, ele não gosta de escrever, é econômico nas redações, quer logo se pirulitar e ir jogar bola. Resmunga, chora, xinga, atira-se no chão no melhor estilo chilique-de-supermercado. A tatuagem em meu braço (“paciência”) não tem serventia alguma nessa hora, parece ter sido removida com uma espécie de laser imaginário.

A lição de casa, na verdade, é minha. Careço aprender, nas entrelinhas da pedagogia, que filhos não vêm prontos. São obras em progresso. E na maternidade, não tem decoreba. Nem dá pra colar.

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5 comentários sobre “Síndrome da lição de casa

  1. Silmara, como sempre, você traduzindo com alegria e leveza os dramas nossos de cada dia! Ai que agonia que eu passo, menina.
    Seu texto deixa tudo mais fácil, inclusive para mim! Um beijão,

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  2. Eu que o diga!!! lembro me de qdo a Yoki estava começando a se alfabetizar na terra onde ela nasceu, ou seja, onde nem eu estava alfabetizada….na hora da lição…só desenho….e alfabeto em inglês….que eu podia ajudá-la. Chegou um belo dia em que aquela pequerrucha… me chamou de cabeça-oca (em tailandês) e como não tava entendendo, ficava só rindo desesperada, pois a ferinha tava ficando irada comigo…pois não conseguia explicar a lição pra ela…..mama mia!!! daí o pai traduziu a palavra cabeça-oca….foi um choque! daí a razçao pela qual escolhi esta terra para a alfabetização dela…. agora já é um outro problema….já não consigo acompanhar as lições dela…até o ano passado ela estudava a finco… mas agora descobriu coisas mais interessantes do que estudar…..(1o. ano docolegial), diz que vai estudar….só tô de observância….kkkk…. filhos!!! uma aventura incrível!!!

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  3. Caramba Sil!!
    Ai que medinho dessa hora! ahahaha
    As lições da minha pequenina Juju, ainda são fáceis, mas logo serão DIFÍCEISSSS…
    Sofro antecipadamente e me sinto super solidária a você.
    FORÇA!!!!
    bjinhoss
    Cris Prado.

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  4. Ô, dó… da mãe!!! Agradeço aos céus essa fase já ter ficado beeeeem lá atrás! Mas como sofri!!!
    Uma era tranquila pra fazer, desde que EU soubesse que ELA tinha o que fazer (arrancava as páginas da agenda, e dizia que não tinha tarefa!). O outro não tinha essas artes, mas ficava sentado, com o olhar perdido, ou desenhando minúsculos bonequinhos cheios de detalhes! *Suspiro*
    Ainda bem que já passou! Mas às vezes tenho saudade…
    Beijo, Sil!

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