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Crônicas voadoras #3

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Stewart Ho

[primeira]

Aeroporto cheio, a moça da Polícia Federal está cansada. A pequena mesa apoia-lhe o cotovelo, que apoia-lhe a mão, que apoia-lhe o queixo: não há dúvida, ela está cansada. Queixo e todo resto se reaprumam assim que eu e crianças aportamos no balcão, os passaportes abertos, para adiantar. Ela, sem vontade, confere os três. Ao seu lado, uma garrafinha de Minalba e um livro. “O Milagre”, de Nicholas Sparks. Para os raros minutos ociosos, aqueles em que não aparece ninguém. Ali, agentes da Polícia Federal trabalham solitários em suas cabines. Por eles passam milhares de pessoas todos os dias; o que não faz deles seres menos solitários. Ela fecha nossos documentos, repreende um bocejo atrevido, manda prosseguirmos. Enfio tudo na bolsa. De qual milagre ela estará à espera? Nem paz mundial, nem fim da fome. Tampouco um namorado bacana que compartilhe seu prazer em criar iguanas – ela leva jeito de quem cria iguanas. O que a moça da Polícia Federal aguarda é o milagre de dar vinte e duas horas para ir embora. É seu milagre diário. Em um aeroporto, não é Urano, deus do céu, que manda. É seu filho Chronos, deus do tempo. A divindade camarada que deixa a moça ir para casa no fim do dia, todos os dias.

[segunda]

É 29 de junho, dia de São Pedro. A fila do embarque é enorme. Seria bom, a título de passatempo, que aproveitássemos o mote do santo e fizéssemos, ali, uma festa junina. Tantas pessoas em fila, daria um bom caracol. Damas na frente, cavalheiros atrás. Nos autofalantes, a velha sanfona, todos dançando o passinho caipira. Anunciariam: “E deu overbooking, minha gente!”. E os passageiros, “Aaaaah!”, dariam meia volta. “É mentira!”, e todos retornariam, “Eeeeeh!”. “O avião vai cair!”, “Aaaaah”, “É mentira!”, “Eeeeeh!”. E assim o tempo passaria rapidinho (não sei se daria para fazer o túnel, muitas cadeiras no pedaço). Logo abririam-se os portões e todos embarcariam. Para ficar perfeito, na entrada da aeronave, aeromoças distribuindo fones de ouvido e paçoquinha Amor. É só uma ideia.

[terceira]

Serviram o jantar. Assim que terminamos, fiz um bonito trabalho de arrumação, passageira consciente que sou: separei o lixo reciclável de um lado na bandeja, os restos de comida de outro, empilhando harmoniosamente os pratinhos; finalizei empilhando as três bandejas. As crianças estão orgulhosas da capacidade de organização da mãe. A comissária vem recolher e faz cara feia. Pede que eu separe as bandejas e os dejetos; o vão no carrinho tem exatamente a altura para uma bandeja. Três bandejas juntas não entrarão ali nem por decreto aéreo. Bufo e obedeço. Lição aprendida: antes de ajudar alguém, é recomendável saber qual é a ajuda desejada.

[quarta]

O moço da imigração é pago para inquirir e duvidar. De seu treinamento fazem parte técnicas avançadas de intimidação. O que vou fazer no país dele? Onde vou ficar? Quando volto? Ele não olha nos meus olhos; seu olhar mira qualquer coisa acima da minha cabeça, no horizonte. O moço da imigração é o rei do pedaço, capaz de decidir quem entra em seu reinado. No fundo, é uma criança. Metade da minha idade. Penso em quais são seus medos. Porque todo mundo tem medos, até o moço da imigração. Ele tem medo da namorada que lhe põe na parede ao menos uma vez por mês, “Quando vamos nos casar?”. Ele não sabe que não precisa se casar. Tem medo do pai, militar reformado, que nem sonha que ele, logo o caçula, tatuou uma caveira enorme no braço direito – ele leva jeito de quem tem tatuagem de caveira. No dia em que a fez, entrou em casa escondido, as mangas da camisa abaixadas, sob o olhar cúmplice da mãe. E se, em vez de eu apresentar meu passaporte, eu lhe tomasse a mão direita e a lesse? O que eu descobriria naquelas jovens linhas que o faria tremer? A doença da mãe, que ninguém na família ainda sabe. O pouco tempo que lhe resta. A saudade impiedosa que o acompanhará pelo resto da vida. Ele duvidaria; é o que melhor faz na vida. Mas assim que nos dispensasse, com um seco e protocolar “boa estada”, já acenando para o próximo da fila, seria possível ver em seus olhos castanhos a nascente de um ribeirão feito de água e sal.

Do mesmo tema: Crônicas voadoras #1 e Crônicas voadoras #2

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O que você está esperando?

“Inertia”, Jason deCaires Taylor, Musa Cancun

No rádio, a moça do comercial me encosta na parede, sem dó: o que estou esperando para ligar já e comprar um pacote de viagem para Cancun com tudo incluído por apenas dez de seiscentos e cinquenta reais?

Eu vou lhe dizer o que estou esperando, meu bem.

Estou esperando o gato terminar de lavar a pata para estender a cama; não se deve atrapalhar um gato em sua toilette (ainda que feita sobre sua cama). Estou esperando o técnico vir consertar a geladeira. Estou esperando o sinal da Net voltar. Estou esperando o terceiro olho brotar em minha testa. Estou feito o Pedro pedreiro penseiro, do Chico Buarque, esperando o trem.

Viver é esperar. Aqui ou em Cancun.

Estou esperando dar meio-dia para servir o almoço para as crianças. No caminho de casa até a escola, dos onze semáforos, talvez tenha que esperar uns nove (ou dez) abrirem. Na tarde de horas comprimidas, espero conseguir zerar pelo menos dois terços das pendências do dia. Enquanto espero a reunião pelo Skype, o pó de café, vestido de coador, espera pela água quente.

O tempo é uma máquina de esperar.

Eu espero até às cinco e meia para ir buscar as crianças. No caminho de casa até a escola, dos onze semáforos, talvez tenha que esperar uns dez (ou onze) abrirem. Esperei, pelo tempo justo, um filho e uma filha saírem pela minha barriga. Agora espero todos os dias um filho e uma filha saírem pelo portão.

Quantos semáforos existem em Cancun?

A verdade é que eu não sei o que estou esperando para comprar o pacote de viagem com tudo incluído. Se nem sei o que estou esperando para arrumar meus armários, e assim livrar-me das tranqueiras físicas e mentais que entulham as gavetas e as ideias. Se nem sei o que estou esperando para escrever o livro sobre os diários de minha mãe. E outro, sobre as formigas daqui de casa. E outro, com as crônicas deste blog. Se nem sei o que estou esperando para começar a ter aulas de piano.

Não sei onde estão todas essas respostas.

Em Cancun, talvez.

Crônicas voadoras #2

[primeira]

Pai e filho a caminho da aeronave resolvem parar na pista para um selfie. Passo em frente a eles e vejo a tela do celular virada para fora, e não para os dois. Estranhei, mas logo atinei: era um aparelho antigo, sem câmera frontal. Era assim que se fazia selfie, a gente tinha que calcular o enquadramento. O tempo voa tão rápido que até um selfie pode ser coisa do passado. Quase me ofereci, “Quer que eu tire?”, mas o voo já estava atrasado.

 

[segunda]

Depois é a gente que fala demais. Dois rapazes ao meu lado tagarelaram de Campinas até o Rio. Foi decolar e começou. Era a porção mulher deles, que até então se resguardara. Esses não devem conseguir usar o Twitter. Anotação: nos sessenta e cinco minutos de falação contei 78 ocorrências do termo “Véi”.

 

[terceira]

Continuam não servindo café nesses voos. Cogito seriamente ser adepta do BYOD (“bring your own device”). Só preciso achar uma cafeteira que caiba na bolsa.

 

[quarta]

Tipos que se vê em todo voo: o que joga Candy Crush, o que reclama do ar-condicionado, o que assiste a TV do passageiro ao lado em vez da sua, o que brinca de teatro com o saquinho de vômito e o que não consegue abrir o bagageiro. Tem também, vejam só, o que sempre pede café, sabendo que não vai ter.

 

[quinta]

Do aeroporto até o hotel, o motorista vai contando. Tem cinco filhos. De vez em quando, a caçula de três anos inventa que quer jogar o baralho do Patati Patatá às onze da noite. Ele está nas minhas orações.

 

Do mesmo tema: Crônicas voadoras #1 e Crônicas voadoras #3

Crônicas voadoras #1

[primeira]

Saguão de embarque. O senhor de presumidos oitenta anos, cabeleira alva (levemente rala e penteada no capricho), camisa bem passada, colete de lã jacquard (aposto uma passagem ida-e-volta para Paris como foi presente da esposa; só esposas dão coletes de lã cor de rosa aos maridos) e elegantes óculos multifocais se esbalda com seu smartphone. Digita tão rápido quanto os possíveis bisnetos, rola a tela com o indicador, ora sorrindo, ora franzindo o cenho. A funcionária inicia o embarque, chamando os passageiros preferenciais. Sem demora, ele guarda o dispositivo no bolso da camisa e corre para a fila. Seu provável lema é aproveitar a vida ao máximo: curtindo as novas tecnologias, usufruindo o direito dos velhos, usando colete cor de rosa.

[segunda]

A comissária precisa de dois passageiros voluntários do fundão. É para mudarem de lugar, sentando-se mais à frente. “Para equilibrar o peso da aeronave”, explica. Sem isso, necas de decolagem. Ninguém se oferece. Ela, gentilmente, se dirige ao homem de bigode da poltrona 25B. O bigodudo se recusa, fica bravo: quer dizer que ela o chamara de gordo? Um casal compadecido – ele 26A, ela 26B – se levanta e topa ir para as primeiras poltronas. Os dois, claro, vão para o céu.

[terceira]

O comandante anuncia sua fala de praxe. Bem-vindos a bordo, este é o voo X, que segue para a cidade Y, onde no momento faz tantos graus etc. No fim, manda pelo autofalante um abraço a todos os passageiros. Acho bonitinho fazer isso.

[quarta]

Toda vez que afivelo o cinto de segurança em um avião eu pergunto: “Será que hoje é dia de morrer?”. Embora saiba que é mais fácil morrer aqui embaixo mesmo. “De susto, de bala ou vício”, Caetano que canta. Até agora, a resposta foi: “Ainda não, meu bem”. Hórus e eu temos nossos combinados.

[quinta]

Não me parece nada razoável, à luz da hospitalidade genuinamente brasileira, não servirem mais café nos aviões.

[sexta]

O senhor do colete cor de rosa segue aproveitando a vida e agora dorme (passei por ele a caminho do banheiro e vi), o homem da 25 não é gordo (chequei também) e eu quase posso jurar como Hórus piscou para mim lá da asa esquerda, com uma xícara de café na mão.

Do mesmo tema: Crônicas voadoras #2 e Crônicas voadoras #3

O céu é o limite

arte: Tang Yau Hoong
arte: Tang Yau Hoong

Em avião, gosto de espiar o que as pessoas fazem. É mania de onisciência aérea e, garanto, imperceptível para o sujeito. Sabedora de meus podres, desenvolvi técnicas avançadíssimas com ajuda dos óculos escuros para manter o rosto voltado para o horizonte enquanto, secretamente e sem incomodar ninguém, inspeciono o passageiro da esquerda, direita e até o da frente, na fileira oposta. O de trás, no entanto, me escapa. Preciso aperfeiçoar, talvez com idas programadas ao banheiro dos fundos. No universo das manias, o céu é o limite.

Enxerimento não é mau-caratismo. Pode ser feio, deselegante e invasivo, mas só quando escancarado ou mal-intencionado. Abelhudice silenciosa, despretensiosa e confessa como a minha, mal não faz. O que os olhos dos outros não veem…

Começa na sala de embarque. Esforço-me para saber o que tanto conversa no WhatsApp o homem de moletom azul e Havaianas brancas – só visualizo emoticons coloridinhos e concluo que o papo está animado. Distraio-me com o painel de embarque, confiro o Instagram, busco um café. Logo retorno ao meu passatempo favorito de aeroporto, imaginando o tema da escrevinhação da moça com sete (sete, eu contei) piercings, em seu tablet com capa de borboleta. Toda informação relevante coletada em meu voyeurismo aeroportuário segue para o caderninho.

Na aeronave, aboletada em meu assento, flagro à frente um senhor barbudo lendo Jorge Amado. Nosso destino: Salvador. É coincidência em modo avião.

Enquanto a aeromoça passa checando o cinto de segurança de todos, a moça dos piercings passa de fase no Candy Crush. Cada um com o que lhe é importante.

Fecham as portas, vamos decolar. O moço da poltrona ao meu lado apanha o celular e, antes de desligá-lo, contempla demoradamente as duas meninas que lhe sorriem na tela de fundo. Suas filhas, eu sei. Assim como sei dos seus pensamentos. Amor e medo sempre andam – ou voam – juntos.

E eu não morri

Arte: Steve Bridger

Eu viajaria no dia seguinte, pela manhã, e retornaria à noite. Na véspera, me vi redigindo longo e detalhado email ao marido, com um inventário de informações e eventuais providências sobre a rotina da casa, das crianças, do meu trabalho em andamento. Por quê? Para o caso do avião cair e eu morrer, oras.

Tive medo de partir desta para melhor e não quis lhe dar trabalho para descobrir o modus operandi de algumas coisas que somente eu cuido ou sei. Não que ele seja alheio a elas, mas as minúcias, como a senha do meu computador, não é exatamente assunto que se lembre de conversar no jantar. Precaução extra de minha parte? Maluquice? Talvez apenas um devaneio de insubstitubilidade. Como se a Terra fosse interromper sua rotação, caso eu esticasse as canelas. Ou, como bem pontuou a amiga psicanalista assim que soube da missiva candidata a póstuma: meu caso é grave.

Se eu batesse as botas durante o voo, como é que o marido daria conta de saber, com relativa facilidade, quando as crianças têm consulta no pediatra? Que remédios meu pai toma? Onde está o bilhete da Mega Sena do concurso de amanhã? (Vai que.) Como ele daria a notícia aos leitores deste blog e aos meus amigos do Facebook, se não soubesse logins e senhas?

Contatos, pendências, compromissos marcados, as ONG’s de proteção animal que eu ajudo, a reiteração de que sou doadora de órgãos. Tudo se perderia entre as missas de sétimo dia e de um ano. Eu bem que tentaria falar com ele, mas não é certeza de que o wi-fi do lado de lá seja bom.

Nem em meus mais esquisitos sonhos pensei numa ação preventiva como essa. É algo que não passa pela cabeça. Como se morrer fosse uma possibilidade remota. Como se isso só acometesse quem viaja de avião. Ah, o nosso ingênuo imaginário. A morte pode estar em um tropeção na sala, num atropelamento besta, num  assalto, num infarto sem aviso prévio. Nunca cogitamos a impermanência no cotidiano.

Fui caprichando no email. Quando cheguei ao item 9, ri. Nisso que dá ter trabalhado em planejamento. Imaginei o marido lendo o email no outro dia, e eu em casa, vivinha da silva, dando comida aos gatos, levando as crianças para a escola. Como de costume.

Mesmo rindo e duvidando da sua utilidade, enviei o email. Ele não respondeu. Deve estar aguardando o melhor momento para fazer piada.

É bom estar viva.

Nove (ou dez) lugares para ir antes de morrer

Arte: Andrea Joseph

Se você veio aqui crente que sairá com dicas de destinos maravilhosos pelo planeta afora, praias paradisíacas, cidades esquecidas, vilarejos charmosos e museus imperdíveis, errou de texto. Os lugares essenciais ficam mais perto do que se imagina. Não, necessariamente, na geografia. Sobretudo, afetivamente. Visitá-los confere certo sentido à vida, garante o caminho pela frente. Duvida?

1. A maternidade onde você nasceu. É certo que pouca coisa ou quase nada resta do hospital que lhe recebeu, tempos atrás. Você não reconhecerá, tampouco será reconhecido por nenhum obstetra e nenhuma enfermeira pelos corredores. Outros bebês chegarão nesse dia, exatamente como você fez, exceto por um pouco mais de tecnologia. É a maior prova de que o mundo acerta em suas intermináveis, cíclicas e inelutáveis voltas.

2. A escola onde você aprendeu a ler e a escrever, quando era deste tamanhico. Se o diretor permitir, e se você lembrar, faça o trajeto que sempre fazia, assim que se despedia da sua mãe no portão. Não se espante se, ao olhar para trás, a vir acenando para você, com a mesma roupa da foto no porta-retrato que você olha todo santo dia.

3. A casa da sua madrinha, se você tiver uma. De preferência, numa visita desapressada, para um chá com rosquinhas. De preferência, que ela mesma fez. Na ausência da madrinha, vale outra tia, uma que você nunca mais viu e nem sabe explicar por que. De preferência, a que você mais gostava de abraçar quando era criança. E também nem sabia por que.

4. A vendinha mais antiga do bairro onde você cresceu. Os últimos quinze metros quadrados poupados pela especulação imobiliária, a única sobrevivente do quarteirão, o ícone da resistência urbana. Na falta dela, vale a velha barbearia aonde seu pai ia aos sábados, o bazar com papel contact florido nas prateleiras onde sua mãe comprava linha de bordar ou a loja de brinquedos onde você namorava a boneca que andava, o avião de controle remoto. Tirante a barbearia, não saia sem uma sacolinha, não importa com o quê dentro. Será a sua melhor compra em anos.

5. O seu primeiro emprego. Mesmo que o local tenha sido derrubado para dar vez a um shopping center ou estacionamento. Estar de volta ao solo onde você declarou sua independência financeira e aprendeu a beber café lhe fará um bem danado.

6. A casa do seu primeiro amor – mesmo que ele, ou ela, tenha se mudado de lá há décadas. Não precisa tocar a campainha, nem ficar se explicando para o vizinho que varre a calçada com ares de inquisição, querendo saber o que você faz ali plantado. Deixe de lado o medo bobo do seu (ou sua) atual não entender; quem não compreende o primeiro amor alheio não há de ser merecedor de amor algum.

7. A igreja onde seus pais se casaram. Busque na lembrança todas as fotografias que viu desse dia e refaça, como se fosse sua dama de honra ou pajem, o caminho da sua mãe até o altar, onde seu pai a aguardava. Pense que, nesse instante, de alguma forma, você já existia.

8. A barraca de churros da feira de sábado. Sem maiores delongas ou adiamentos, peça logo uns dez. A felicidade tem sabor de açúcar e canela, meu bem.

9. Não deixe também de visitar o passado, de modo geral. Só para tirar dúvidas e se certificar de algumas coisas. Resista à tentação de se mudar, ainda que temporariamente, para lá. Entoe o mantra “Estou só de passagem” e volte, no primeiro ônibus, ao presente. Mas fique atento: se passar do ponto, irá parar no futuro. Que poderia ser o décimo lugar, mas não é; o futuro não passa de uma quimera brincalhona e inalcançável.  Fiquemos nos nove, mesmo.  Já é uma viagem.