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Enriquecida com ferro e ácido fólico

Não se lê mais nos ingredientes das coisas: farinha de trigo. Dois substantivos com uma preposição no meio e só. Agora é farinha de trigo enriquecida com ferro e ácido fólico. Adjetivaram, mineralizaram e vitaminaram a farinha. Aquela com que minha mãe fez os bolos da nossa infância, aquela que tinha na vendinha, aquela que a gente fazia cola? Não tem mais. Acabou.

O pão nosso de cada dia está irremediavelmente impregnado de substâncias estranhas. E o macarrão e o biscoito. Panetone? Também. De janeiro a janeiro, vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana. É a onipresença do ferro e do ácido fólico na vida. Estamos todos mais saudáveis.

Até a hóstia consagrada foi enriquecida de ferro e ácido fólico. Ninguém mais comungou do mesmo jeito.

O binômio alimentar iniciático transformou-se em uma entidade sofisticada. Rebatizada de “farinhadetrigoenriquecidacomferroeacidofolico”, a matéria-prima dos nossos mingaus virou um termo imenso, indissociável, nos dizeres dos rótulos. Um palavrão de comer.

Algumas marcas ainda acrescentam “especial”, para tornar tudo mais belo – e maior. Não se enganem, porém: é tudo farinha enriquecida com ferro e ácido fólico do mesmo saco.

No mercado:

– Moço, onde fica a farinha de trigo?

– Não tem.

– Como não tem?

– Só farinha de trigo enriquecida com ferro e ácido fólico. Terceiro corredor.

Ferro é importante para a saúde, evita anemia. Ácido fólico idem, evita má-formação. Mas não há nada que evite a saudade dos bolos da minha mãe, que nunca mais comi.

Memórias de uma boleira

Arte: Marie W.
Arte: Marie W.

Eu fazia bolo para vender na escola. Não lembro como comecei, nem por que parei.

Voltava da aula, tocava meus afazeres de estudante de segundo grau e me punha a preparar o bolo do dia seguinte. Com ingredientes de sobra – nada como uma vendinha na família – , eu buscava receitas no caderno da minha mãe e, vez em quando, inovava. Bolo de maracujá, bolo de café. O preferido da freguesia, no entanto, era o previsível e correto cenoura com chocolate. Aguardava esfriar, desenformava, partia em porções individuais, embalava. Aprimorei o negócio, passei a usar forminhas de papel. Fui precursora dos cupcakes e não sabia.

Manhã raiada, cadernos, livros, régua T (o curso era Edificações) e uma grande sacola tomavam o ônibus comigo. Ora rumo à Praça do Correio, ora à Praça da Sé. De lá, o metrô até a Estação da Luz. Descia em frente ao Batalhão de Polícia de Choque, a icônica Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar), que fica junto ao Regimento da Cavalaria 9 de Julho. Mais seiscentos metros a pé na rua Jorge Miranda, em meio aos cavalos em treinamento e seus cocôs deixados pelo asfalto, até meu destino, o Liceu de Artes e Ofícios.

O sinal do lanche tocava e eu assumia meu posto no fundo da sala. Abria o tupperware e vendia cada pedaço por um cruzeiro e cinquenta centavos. Não fazia planilha, posto que não havia despesa com farinha, nem ovos ou açúcar. Nem com o gás que alimentava o velho forno da minha mãe. Ou seja, lucro de cem por cento; uma utopia para qualquer empreendedor. Chegava a vender quarenta pedaços num dia. Considerando que houve época de bolo de segunda a sexta, em uma semana o faturamento líquido chegava a trezentos cruzeiros. Não tenho ideia de quanto seria em dinheiro de hoje. Certamente, nada mau para uma adolescente de dezesseis anos.

***

Sábado fiz bolo para as crianças. Um pandeló tão simples e eles lamberam os beiços. (Embora meu veredicto tenha sido implacável: “Ih, embatumou”.) Passei o final de semana com uma secreta vergonha, um engasgado arrependimento. Conto nos dedos de uma mão as vezes que fiz bolo ou algum outro doce para meus filhos. Rendo-me, invariavelmente, aos prontos da padaria. O que ganho em tempo, perco em sorriso. A conta não fecha.

Outrora boleira semiprofissional, meu destino, eu sei, é ser boleira afetiva. Conheço o preço de cada clara batida em neve e cada elogio; não viso mais lucro. O único prejuízo foi privá-los de quitute de mãe. Embatumado ou não, vale pelo resto da vida – deles e minha.

Agora, faço bolo de graça e acho graça. Estabeleço um cartaz imaginário e visito minha própria cozinha.

Sobre bolos e planetas

Ilustração: Heap/Flickr.com

Assim como fazer terno no alfaiate e chamar pai e mãe de senhor e senhora, de tempos em tempos algum costume antigo entra na lista dos extintos, ou em vias de. Nem toda extinção é ruim, o mundo mudou, e coisa e tal. Mas há uma tradição cujo desaparecimento, lento e silencioso, não é um bom sinal: a do bolo feito em casa.

Aquele, que requer a cozinha de um lar para ser preparado, uma receita gostosa, de preferência passada por uma tia, e um bom forno onde possa ser assado. Aquele, que leva ovos de verdade quebrados um a um, com delicadeza, em uma vasilha separada, vai que algum está estragado. A farinha e o açúcar, medidos em uma xícara de louça. As claras em neve. Fermento, só no finzinho. Certa bagunça em torno da pia. Avental com vestígios de chocolate. Um par de olhos vidrados de criança observando tudo. Forma untada, para não grudar. E o insubstituível aroma na casa inteira, depois de trinta minutos.

Um dia, minha mãe ganhou aquela batedeira “planetária”. Presente do meu irmão. A engenhoca tem para vender até hoje, e se chama assim por causa dos movimentos de rotação e translação dos batedores, semelhantes aos dos planetas em torno do sol. Eu ficava encantada com a analogia. Muito mais rápidos que os, na época, nove planetas do Sistema Solar, os dois planetas de ferro do outro sistema, mais barulhento, giravam em torno de nada e completavam um dia e um ano em frações de segundos. Neles, o dia, a noite e as quatro estações eram uma coisa só, homogênea. Como ia ficando, aos poucos, a massa do bolo.

Tudo passado. Estamos na era do bolo abreviado. Basta passar na padaria, no mercado, na confeitaria, e escolher um pronto. De qualquer sabor. Qualquer tamanho. Com todos os tipos de cobertura e recheios. É levar para casa e servir. Não tem mais farinha pela cozinha, nem surpresa ao descobrir, na última hora, que o fermento está vencido. Também sai de cena o olhar da criança, que vai vidrar em outra coisa. A batedeira, aposentada, ainda mantém seus planetas em órbita, agora inertes e sem vida no finito espaço do armário. Acaba, de vez, a história de raspar o restinho de massa na tigela.

O restinho era fundamental. Tão importante quanto o bolo pronto. Minha mãe colocava a massa no forno, marcava o tempo no relógio e liberava a tigela. Era hora de passar o dedo no que sobrara nela. Com o tempo, aquilo se sofisticou, e minha mãe passou a deixar mais massa. O restinho se tornou um ‘restão’. Cada um dos filhos se armava de uma colher, e o lanche da tarde começava ali. Nunca tivemos a dor de barriga que minha avó insistia em profetizar.

Hoje, a gente bem que tenta conciliar velhos rituais com a emergente praticidade. Mas vamos ser honestos: bolo que é bolo não vem em caixinha. É o viés da conveniência, da rapidez. Ao misturar o pó do pacotinho com leite, ovos e manteiga, ainda que numa batedeira, não se está fazendo um bolo. Nem genérico, nem similar. Até o restinho da massa na tigela não terá tanta graça. O que crescerá no forno é uma coisa qualquer – que também serve de alimento, se não houver ninguém muito exigente em casa. Bolo precisa de mão, de rito, de tempo para acontecer. E tempo, a gente sabe, vem das voltas que o planeta dá.

Nêga-maluca

Todo mundo já comeu aquele bolo chamado “Nêga-maluca”. E todo mundo sabe o que vai nele: farinha de trigo, açúcar, ovos e chocolate. De uns tempos pra cá, uma pergunta não sai da minha cabeça: por que diabos esse nome?

Tudo bem: um chocolate marrom, uma mulher negra, um bolo marrom como uma mulher negra. Até aí eu entendo a brincadeira. E ‘maluca’, vem de onde? O que deixa a nêga maluca, afinal de contas? Encafifei e concluí que a nêga pode ficar maluca por vários motivos.

Voltemos a 1955. Uma negra chamada Rosa Parks vivia no Alabama. Nos Estados Unidos, naqueles tempos que não são tão distantes assim de hoje, os negros tinham que ceder seus lugares aos brancos nos transportes coletivos. O que hoje soa como sandice era lei naquele país. Pois um dia a Rosa ficou maluca. Disse ‘não’ ao branquelo que exigia seu lugar no ônibus. A costureira de quarenta e dois anos não tinha idéia do que tinha acabado de fazer. Foi multada e presa. E seu desafio deu origem a um longo boicote ao sistema público de transportes da cidade, encabeçado por um pastor até então quase anônimo chamado Martin Luther King. O resto é história. Foi a Rosa que, sem saber, preparou a massa do bolo. King adicionou fermento e o pôs no forno.

Mais perto, aqui no Brasil, outra negra, nascida nos anos em que a arte da dona Parks ainda ecoava, também teve dias de se amalucar. Marina Silva, a senadora e ex-ministra do Meio Ambiente, que nasceu no Acre e foi semi-analfabeta até os dezesseis anos, sonhava com a faculdade. “Está maluca”, talvez alguns tivessem dito. Mas ela foi lá. Bacharel em história, a Marina chegou ao ministério e disse ao que veio. Um dia ela ficou maluca: mas quanta pressão, meu Deus. E pediu as contas. Para que a batata não assasse demais. No caso, o bolo.

Mais perto ainda de mim, lembro da vizinha que morava no quarteirão de cima, num casebre de dar dó. Uma senhora negra dos seus cinquenta anos, que andava para cima e para baixo recolhendo papelão para vender, sempre acompanhada de uma cachorra bonita e um tanto medrosa. Por vezes, caso a colheita do dia não tivesse lhe rendido muita coisa, talvez nem o suficiente para o jantar, a vizinha ficava maluca, e sobrava para a cachorra. De minha varanda, inconformada, peguei várias vezes o telefone para denunciá-la por maus tratos. Mas desistia. Uma pessoa esquecida pelos colegas da Marina, uma pessoa a quem do grande bolo não coubera fatia alguma, não teria condições de compreender o direito dos bichos.

Pronto. Está explicado.