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Melhoral infantil

Uma vez por mês meu pai chegava em casa, à noite, com uma caixa enorme. Está bem, não era enorme. Só grande. Nela, a compra da farmácia. Esse dia era uma alegria só. Não que eu fosse uma hipocondríaca-mirim. É que na caixa, em meio a esparadrapo, mertiolate, algodão, latas de leite em pó e remédios, lá estava ele: Melhoral infantil. O comprimidinho cor de rosa.

Meio doce, meio azedinho. Eu gostava de comê-lo feito bala. No entanto, Dona Angelina, mãe zelosa, não o liberava assim fácil. Valia, então, inventar alguma enfermidade. Dor de barriga ou cabeça. Se o teatro fosse convincente, ganhava um. Se não, o negócio era partir para a traquinagem acetilsalicílica: pegar escondido. E o Melhoral infantil virava sobremesa proibida.

Fascínio semelhante tinham o Cebion e o Biotônico Fontoura, que também vinham na caixa. Com o primeiro, nada de dissolver na água, como mandava a bula. Chupava-o feito Drops Dulcora. Eu devia exalar vitamina C pelos poros, gripe nenhuma me pegava. O segundo prometia abrir o apetite das crianças e, por isso, era aliado das mães preocupadas com rebentos que não queriam comer. Não era nosso caso. O fortificante tinha álcool na fórmula e deixava a criançada meio zonza se a dose recomendada fosse extrapolada – e aí é que estava a graça.

Volta para 2018.

Hoje foi dia de levar os remédios para meu pai. A lista é grande e inclui comprimidos que resolvem de pressão alta a gastrite, garantindo ao Seu Tonico uma boa velhice. Enquanto dava meu CPF para a moça na farmácia, avistei na gôndola self-service: Melhoral infantil. A embalagem mudou, a cor rosa permaneceu. Um clássico da farmacopeia. Peguei uma cartela e adicionei-a à cestinha. Senti meu rosto corar. Ou será que ficou da cor do comprimido? Apoiada no balcão, refletida no espelho da seção de maquiagem, vi a garotinha que fui, pilhada na travessura. Como se estivesse pegando às escondidas o comprimido no armário da cozinha, que chamávamos de “farmacinha”. Paguei e separei o Melhoral, guardando-o na bolsa.

Cheguei à casa do Seu Tonico não com caixa, mas sacola de plástico cheia de coisas. É a minha vez de abastecer seu armário, mensalmente, com a compra da farmácia. A vida é mestra em inverter os papéis. Virei mãe do meu pai.

Mais tarde, em casa, tirei a cartela da bolsa. Seis comprimidos. Que festa! Abri um, coloquei-o devagar na boca. Deixei que dissolvesse um pouco, fechei os olhos, pronta para a viagem ao passado. Que gosto horrível! Nem sombra do Melhoral infantil que conheci. Mudaram a receita, por certo. Remédio para os pequenos tem esse problema. Se é gostoso, dá vontade de comer feito doce. Se é ruim, a criança só toma amarrada.

Cuspi o comprimido, já de um rosa desbotado. Mal não me fará. Será que tem efeito colateral? Um pouquinho de saudade, talvez. Logo passa.

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O maestro e o gato

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Nos anos setenta, costumávamos ir à casa dos meus tios no bairro de Santa Cecília. Eles moravam (ainda moram) em um prédio na Alameda Barros, perto da avenida Angélica. Quando íamos visitá-los, eu gostava de cruzar o corredor e ir ao apartamento do vizinho, no mesmo andar. Eles tinham um gato.

Ali vivia o maestro Portinho. Minha tia falava dele com orgulho, dizia que era famoso e coisa e tal. Eu não estava nem um pouco interessada. Ia lá por causa do gato, mesmo. Bug era um siamês lindo, grandão, bonachão e vesgo. Passava um bom tempo brincando com ele, até minha tia me chamar de volta. Eu tinha seis, sete (oito?) anos.

Não era um apartamento comum. Três unidades, transformadas em uma só. Ficou um apartamentão. A decoração, coisa fina. Um piano, talvez? Vários sofás na sala – para mim, enorme. Sempre aboletado em um deles, o Bug. Eu, bem comportada, sentava-me ao seu lado e punha-me a afofá-lo. Lembro-me de alguém vir perguntar se eu queria um suco, uma água. Eu não queria nada. Só brincar com o grandão do Bug.

O maestro Portinho também era grandão. Muito alto, simpático. Se troquei três palavras com ele, foi muito. Não fazia ideia de quem eu estava diante. O dono do Bug foi um dos principais personagens da época dourada das big bands brasileiras, animando bailes e programas de rádio e TV. Produziu trilhas para novelas e, fora as obras que compôs, assinou arranjos para meio mundo. Cauby Peixoto, Ângela Maria, Nelson Gonçalves, Cely Campello, Vanusa, a turma inteira da Jovem Guarda. As gravadoras só queriam saber do dono do Bug.

Um dia, eis que o apartamento do maestro, no décimo sétimo andar, pega fogo. Meu primo conta que uma bituca de cigarro fora atirada do apartamento de cima e caiu justo onde? Na cortina de um dos quartos. O estrago foi grande. Suficiente para o Bug, sem ter como escapar, morrer asfixiado. Fiquei desolada com a notícia.

Logo arrumaram outro gato. O nome? Bug. Em homenagem ao antecessor. Também um siamês. Igualmente lindo, nem tão grande, nem tão bonachão. Vesgo, talvez? Fui conhecê-lo. Ele não me parecia tão dócil quanto o velho Bug. Influenciada pelo nome, esperava que ele fosse cópia integral do outro. Claro que não era. Então aprendi o que eu já desconfiava: gato não é tudo igual.

As visitas aos meus tios rarearam, não sei que fim levou o segundo Bug. Do maestro, sei: morreu em 1997. Seu legado para a música brasileira é imenso e valioso. Coisa linda, ser maestro. Uma pessoa que entende absolutamente tudo de música. Uma espécie de Deus do som. Gato também é uma espécie de Deus. Ou será que Deus é uma espécie de gato?

São quase dez da noite, estou me preparando para dormir. Sobre a cama, espio o Beto cochilando. É nosso siamês lindo, grandão, bonachão. Vesgo. Gosta de música, o bichano. Com ele que danço, de vez em quando (os outros detestam). Se é que esse negócio de reencarnação também vale para os bichos, gosto de fantasiar que o Beto é meu amigo Bug, do qual não pude me despedir. Pendência que ele tratou de resolver, aparecendo em nossa casa, numa tarde quente de fevereiro. Onze anos atrás.

A corda

pular corda
arte: Charlotte Voake

Um dia, ganhei do meu avô uma corda de pular. Não dessas de brinquedo, comuns. Corda de verdade. Seu Paschoal comprara na casa de materiais de construção. Compridona, cinco metros. Eu a levava, enrolada numa sacola, para a escola. E a brincadeira na hora do recreio estava garantida. Ninguém tinha igual. Cinco metros, meu bem.

Eu era boa de pular corda. As amigas, uma em cada ponta, começavam bem devagar e iam aumentando a velocidade. A modalidade mais rápida de todas se chamava foguinho, e não era para qualquer um – nem para quem pulava, nem para quem batia. Aprendi a entrar e sair com a corda em movimento, pensa que é fácil? Requer tanto cálculo quanto matemática, só que de outro tipo. Em matemática eu não era boa, não. Mas dava meus pulinhos.

E aquela corda virou, assim, uma espécie de unidade de medida, minha referência mental para tudo. Se eu queria calcular tamanho ou distância, bastava pensar nela. O Corcel do meu pai, que nós inventamos de pintar em casa e ficou bem feio? Uma corda de comprimento. Da sala até a cozinha? Uma corda e meia. O pinheiro da vila, plantado quando meu irmão entrou na faculdade? Ficou com duas cordas de altura, antes de ser cruelmente derrubado. Depois era só converter em metros, a unidade padrão aceita mundialmente pelos homens sérios que não entendem nada de pular corda.

Aliás, ainda se pula corda? As crianças aqui do pedaço, não. Meus filhos nem têm uma – falha nossa. Dá tristeza pensar que, um dia, isso se torne coisa do passado. Feito latim, a língua morta. A gente sabe que existe, topa com ela de vez em quando, mas não usa para nada. O que foi feito do passa-anel, da uma-na-mula, do telefone-sem-fio, da cabra-cega, do corre-cotia, da amarelinha, do esconde-esconde? Sumiram dos páteos das escolas, das ruas, são brincadeiras mortas. A vida seria mais interessante se as brincadeiras legais de ontem andassem juntas com as brincadeiras legais de hoje. Pois cabem todas numa infância. Ou, quem sabe, isso é papo furado de quem já passou dos cinquenta, de gente que ainda fala papo furado. E sobre isso eu poderia falar horas. É só me dar corda.

Ontem me peguei tentando calcular uma distância no meu quintal. Recorri, sem perceber, à velha corda. Lembrei do Vô Paschoal que, se ainda vivesse neste planeta, faria 110 anos. Tentei medir o tamanho da súbita (quase doída) saudade que me deu dele. Não houve corda suficiente.

A promessa

cabelo

Prometi à Nina deixar meus cabelos crescerem.

Logo eu. Que, apesar de ser lembrada como cabeluda pela turma da escola, não uso nem um fio abaixo do queixo desde que ela nasceu, há onze anos. Eu, que sou devota de São Joãozinho. Eu, que tenho quimeras antigas com a máquina dois.

O limite negociado foi o ombro.

Tem gente que promete, em nome de nobre causa, não comer chocolate. Subir de joelhos intermináveis escadarias. Cortar – veja só – os cabelos. Eu não. Eu prometo deixá-los crescer um quarto de metro. Cada um com a sua provação.

De criança, minha avó penteava meus cabelos para eu ir à aula. Contrariada, subia no bidê para facilitar o trabalho dela. Que tinha mão pesada, puxava com força (e algum mau humor) minhas extensas e quase sempre embaraçadas madeixas. Não havia esses condicionadores bons de agora. Nem os ruins a gente tinha, era xampu e olhe lá. Eis que surge, para nossa salvação, o Neutrox. Creme amarelo, inovador e relativamente barato que dissolvia nós como que por encanto. Um dia, hipnotizada pelo seu aroma adocicado, não resisti. Comi.

No caso da minha promessa, a nobre causa não foi motivo de doença, nem de milagre solicitado, tampouco de graça alcançada. “Mãe, deixa o cabelo crescer um pouquinho só?” – foi o (reiterado) pedido da caçula. Lasquei-me. Como negar? Desde então, tenho recorrido às faixas, lenços, tiaras e adereços que me façam enfrentar a (longa) temporada com algum ânimo.

Exibi imensa cabeleira até os vinte e cinco. Cultivada quase por acaso, em um misto de esquecimento de cortar com ideal de beleza. Acreditava que era assim que tinham que ser os cabelos de uma mulher, feito verdade irrefutável (não é). Fui dessas de aterrorizar o cabeleireiro, caso o infeliz cruzasse a fronteira do “só as pontinhas”. Como se minha vida não fosse funcionar de outra forma. Os cabelos eram longos, mas as ideias eram curtas.

Todos os dias me olho no espelho ao acordar, na esperança de que alguma mágica tenha se dado durante a madrugada e meus fios tenham adquirido o DNA do bambu. Cogito negociar com a Nina, quebrar a promessa. Trocá-la por um brinquedo novo, quem sabe? Mas aí lembro de seus desenhos, quando era pequenininha. Neles, sempre fui representada com arquetípico cabelão. Desisto da negociação, respiro fundo e sigo em frente. Tanta coisa que ela me pede e eu, por incompetência ou falta de vontade, deixo de atendê-la. Ser mãe é carregar uma eterna e cabeluda culpa sobre os ombros.

Ano que vem faço cinquenta e um, a idade da minha mãe quando morreu. Dona Angelina perdeu todos os cabelos na quimioterapia. Pensei em uma homenagem póstuma, raspando os meus. “Vê? Também estou carequinha da silva”, direi-lhe em pensamento. Estarei três décadas atrasada, é verdade. Mas ela há de entender. Mães são atemporais. Além disso, comprida mesmo é minha saudade. Dá até para fazer trança.

De comidas e ausências

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“presença”, 2014 – Simone Huck

Tinha que ser nhoque de batata, aquele domingo. Igual ao que minha mãe fazia. Não haveria, porém, a menor graça em comprar pronto. Ir no mercado, pegar pacotinho na prateleira refrigerada, código de barra, data de validade, informação nutricional, CPF na nota, obrigada, eu que agradeço, bom dia, pra você também, próximo.

Não cheguei a aprender a receita com dona Angelina, então tive que me virar com a internet. A internet é uma mãe.

Tablet na bancada, ingredientes alinhados, linha de montagem planejada. Cadê a vasilha? Que vasilha? Para fazer a massa. Ah. Não tenho. Quer dizer, tenho. Mas quando vou fazer alguma coisa diferente nela, esparramo tudo para fora. É uma vasilha boa, mas às vezes é pequena, apertada.

Na rua de baixo tem um mercadinho. Vendinha de bairro. Uma alternativa à complicação dos hipermercados: não preciso parar no G2, não pego tíquete de estacionamento e, portanto, não preciso validá-lo no caixa; não ando oito corredores para pegar o que quero (mesmo sabendo onde fica o que quero). Está certo que na vendinha só tem um tipo de manteiga, dois de xampu e três de macarrão. Mas tudo na vida tem um preço. E o do mercadinho costuma ser mais em conta.

Calcei os sapatos, fui e voltei com uma bacia verde de plástico. Grandona, espaçosa. A felicidade custa três e noventa, meu bem.

Chamei a Nina, ela queria ajudar. Seguimos o passo a passo da receita, fantasiei secretamente que era minha mãe ensinando. E que ela estava encarapitada no armário, invisível, feito os anjos dos filmes, rindo do meu cabelo enfarinhado e admirando a neta que não conheceu.

Enquanto misturava os ingredientes, reparei que preciso de uma vida maior, também. A minha é boa, mas às vezes é pequena, apertada. Quando penso em fazer alguma coisa diferente, esparramo tudo para fora. Acabo reproduzindo apenas as velhas receitas de viver que nela cabem, ao mesmo tempo em que vou inventando desculpas para não arrumar logo uma vasilha-vida maior.

Saquei o macete da massa – dona Angelina que soprou, lá do topo do armário –, que é não amassar demais, nem usar força. Não se sova massa de nhoque, não compreendo como isso não é ensinado no Fundamental. Caso contrário, sempre se precisará de mais e mais farinha, e a gororoba será incomível. O principal ingrediente de um bom nhoque, aprendi, não é batata. É delicadeza.

Fizemos as “cobrinhas” com a massa, como eu chamava quando era criança. Fomos cortando com a faca, igual minha mãe fazia, e enfarinhando para não grudarem. Nina e eu comemos um montão, crus mesmo. Do mesmo jeito que eu comia quando tinha a idade dela. Senti-me numa reprise de um domingo qualquer da década de 70 na velha casa da Mooca, só que com outros personagens. Se a vida se repete, que seja na base do nhoque.

Ficou igualzinho ao da dona Angelina. Tão bom, que desconfio que ela veio acertar o ponto da massa, bem naquela hora que eu atendi a campainha e a Nina foi colocar um elástico nos longos cabelos castanhos. Ajeitei a mesa, as cadeiras e chamei todos.

Pena que ela não apareceu para almoçar com a gente.

Se a minha mãe tivesse Facebook

facebook

Se a minha mãe tivesse Facebook quando eu era criança, não sei se ela seria do tipo que tudo publica acerca de seus rebentos. As fofices, as traquinagens, as frases engraçadinhas, as caretas, as dores, as delícias. Minha mãe era do tipo reservada. Mas quem resiste?

Considerando que a internet estivesse a todo vapor nos anos 70, imaginei a timeline da dona Angelina.

Em uma tarde de 1971, entre uma receita de cuscuz e uma mensagem do Chico Xavier, ela postaria que, para conseguir me fazer almoçar naquele dia, fora me seguindo da cozinha até o portão da vila onde morávamos. Eu, quatro anos, não queria comer. E, com a estratégia, eu ia passeando, ela ia me distraindo e eu papava tudo. Minutos depois choveriam os comentários das amigas, marcando a polaridade das opiniões: “Que absurdo!”, “Que gracinha!”. Ela me proibiria de zanzar durante as refeições ou não, conforme o que lesse?

Noutro dia, faria um post-desabafo contando que, em um momento de descuido seu, eu, aos cinco, assumira o controle da velha Lanofix e simplesmente arruinara a encomenda de tricô que ela preparava, e lhe garantiria alguns trocados no final do mês. Nos comentários, a torcida para que ela conseguisse recuperar o tempo perdido, tudo ia dar certo, calma. O apoio lhe daria ânimo para recomeçar do zero?

Ela também postaria, a título de diversão, que eu, aos sete e na intenção de imitá-la, coloquei um absorvente – o velho Modess, que nem de longe lembra os ultrafinos de hoje – e saí na rua, feliz da vida, desfilando o duvidoso volume na calça. Finalizaria o post com kkkkk. Emojis boquiabertos ilustrariam o feedback?

Só não sei se publicaria, num dezembro de vacas magras, que meu presente de Papai Noel fora um xampu Johnson’s (bem mais caro e raro que o Colorama – lanolina ou ovo – de todo dia). Mas era do grandão. Afinal, era Natal.

Ademais, ela rechearia sua página com fotografias de flores e das suas bordações, vídeos de valsas, truques para limpar manchas de molho de tomate, indignações a respeito do Led Zeppelin (“Mas isso é música?”).

Só sei que se a minha mãe tivesse Facebook, eu a seguiria por toda vida.

Saudade é a linha do tempo que não volta mais.

Eu não quero saber o que é “Le Crabe”

Eu não sei o que diz a letra da música Le Crabe. Aquela, da Françoise Hardy. Aquela, que foi sucesso na década de 70 e até tema de novela da Globo. Eu não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe. Só sei que eu a ouvia numa fita K7 gravada pelo meu irmão. E ela passou a fazer parte do meu imaginário musical.

Dos Beatles, traduzi tudo que caiu nas minhas mãos. Sentadinha no sofá, encarte e dicionário ao lado, Lô-lôv-mi-du. O mesmo fiz com tantos outros. Le Crabe, no entanto, não. Recuso o spoiller até hoje. Nem quando entrei num curso de francês na PUC eu desejei traduzi-la. Nem quando minha irmã virou francesa; nunca lhe telefonei pedindo “Traduz pra mim?”. Fugi, fujo e fugirei sempre dos dicionários e dos tradutores instantâneos e também das pessoas que, embora bem intencionadas, já tentaram revelar o irrevelável. O amigo generoso mandou-me a tradução pelo Messenger. Excluí a mensagem. Sem dó, sem ler. Não é ingratidão. Só não quero destruir minha memória afetivo-musical.

Porque, no fundo, eu sei o significado da letra.

Os primeiros versos de Le Crabe, por exemplo, falam do risoto de ervilhas com palmito que tinha em casa, aos domingos. Um panelão enorme, pra durar até terça-feira, feito a quatro mãos pela minha mãe e minha avó.

Aliás, Le Crabe, que tem uma parte meio tristonha, fala da minha avó também. Que afogava gatinhos recém-nascidos no tanque quando a nossa gata dava cria, naquele tempo ninguém falava em castração. E a gata ia parindo. E a minha avó afogando. Se há alguma justiça nesse mundo de vivos e mortos, e se existe mesmo carma, dona Josephina há de estar no além trabalhando muito para compensar as maldades terrenas. Rodeada de gatos.

Já o refrão fala de quando meu pai recebia o salário no banco e passava na farmácia, para abastecer a casa com remédios, esparadrapo, Merthiolate, algodão. Ele chegava com uma caixa grande e sempre tinha Cebion. Que a gente comia como se fosse bala. Até hoje faço do mesmo jeito: não ponho na água, que isso é para os fracos. Descasco a pastilha e a encosto na língua, para senti-la efervescendo. Entre uma careta e outra, vou roendo devagarinho e adquirindo minha dose diária de vitamina C. C, talvez, de crabe – o que quer que isso seja.

Noutro pedaço, os versos falam das nossas viagens para Santos no Fusca, nos finais de semana. Sem cinto de segurança, sem protetor solar, sem dinheiro, sem garantias. Legítimos farofeiros. A tradução disso? Saudade.

É disso que fala a letra e pronto. E de mais uma porção de coisas. Le Crabe é, por sinal, uma das músicas mais compridas do mundo. Ela tem a duração da minha infância.

Por isso prefiro, em vez de escolher a obviedade do dicionário, atribuir significados particulares às palavras que não entendo e continuar sendo feliz com minhas memórias, ativadas ao primeiro acorde. Já pensou se descubro que Le Crabe fala de meleca de nariz, esquistossomose, loteria esportiva?

A ignorância pode ser uma bênção. Ou a senha para a liberdade.

Acho até que isso dá música.

 

“Le Crabe”, Françoise Hardy