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Herança

“Under the cherry tree”, Majali

Uma tarde, visitei meu avô. Seguindo à risca seu ritual, ele passou café, serviu a mesa, lavou xícaras e pires, e colocou-os molhados sobre a toalha branca. A garrafa térmica, idem. Não enxugava nunca. O que me causava certa gastura.

Em meio a histórias de quando trabalhava nos Moinhos Minetti Gamba, gols do Palestra e lembranças da minha avó, ele se levantou e foi até o quarto. Remexeu em seu guarda-roupa e voltou com uma dúzia de cabides. Pretos, de plástico. Dos bons. “Fica pra você!”. Disse que não precisava de tantos.

Não era meu aniversário, nem nada. E Vô Paschoal , embora doce, nunca foi chegado a demonstrações explícitas de afeto. Tampouco eu era a neta preferida, posto eternizado pelo meu irmão mais velho. Naquele dia, no entanto, seu carinho estava ali. Multiplicado por doze. E onde quer que eu vá morar, lá estarão os velhos cabides. Não dou, não troco, não vendo, não empresto.

Noutra visita, não sei se antes ou depois, também voltei com presente. Desta vez, uma assadeira. Estava no armário, com algumas menores dentro. Uma matrioska de assadeiras, e eu ganhei a maior. “Sua avó usava muito!”. Por certo, ele considerou importante que eu tivesse uma peça daquela na cozinha. Fato: nela preparo torradas, minipizzas, tortas, pão de queijo. O antiaderente está ligeiramente comprometido. Pudera, são mais de vinte anos, só comigo. Às vezes, as coisas grudam. Às vezes, é a saudade que não desgruda. E onde quer que eu vá morar, lá estará ela. Não dou, não troco, não vendo, não empresto.

Além de uma assadeira e doze cabides, também herdei seu jeito de bufar, revirando os olhos, quando o sangue vêneto lhe fervia. Ah: e o colete cinza de seu terno. Que não me foi dado em vida; catei pra mim quando ele se foi.

Hoje, aliás, é um bom dia para vesti-lo. Pensando bem, esta sexta também pede pães de queijo para o lanche da tarde. E, de quebra, um legítimo bufar paschoalino pelas notícias dos jornais.

Os furinhos do arroz

Diminuo o fogo, tampo a panela. A superfície do arroz está cheia de furinhos. Lembrei: de criança, pedia para minha mãe fazer “arroz com furinhos”. O mais gostoso do mundo. Engana-se quem pensa que esses miniburacos são resultado de simples fenômeno físico. Há mais coisas nos furinhos do arroz cozido do que sonha nossa vã gastronomia.

Ao lado do fogão, eu vigiava a panela semitampada até que a água começasse a secar, dando lugar à mágica dos furinhos. Na ponta dos pés, espiava dentro deles, na tentativa de descobrir-lhes a razão. Nada via, além dos borbulhos. Se a visão não trazia resposta, o olfato se esbaldava: meu nariz era inundado pelo vapor perfumado do alho, da cebola e do cheiro verde temperando os grãos.

Logo eu me distraía com outra coisa. A gataiada brigando no telhado, a vizinha tocando a campainha, o mandrová na folha da comigo-ninguém-pode. Até ouvir o chamado, “Tá na mesa!”. Eu pedia e, com a escumadeira, minha mãe escavava apenas a primeira camada do arroz, capturando, assim, os furinhos. Que se desfaziam no encontro com o caldo do feijão. Tem comida que é pura oração.

Já o arroz da minha avó, que passou a cuidar dos netos quando meus pais abriram a venda e nela trabalhavam o dia todo, era empapado. Não continha furinhos. Nem sabor. Houve época em que reclamamos. Minha mãe resolveu fazer nosso arroz na venda, entre um freguês e outro, numa cozinha improvisada atrás do balcão, trazendo-o à noite para casa. Não era a mesma coisa. Quando ela ficou doente e parou de trabalhar, ganhamos o arroz de volta. Eu não sabia se ficava triste ou alegre.

Desligo o fogo, aviso que o almoço está pronto. Meus filhos disputam a escumadeira para ver quem pega primeiro o arroz. Pergunto se está gostoso. Bocas ocupadas, seus olhinhos apertados dizem ‘sim’. Então concluo: os furinhos do ancestral cereal continuam mágicos. Dentro deles cabem presente e passado.

Lembrança é um prato cheio para a saudade.

A tônica do Tonico

agua tonica

Em nove, de dez vezes que meu pai vai a um restaurante, ele pede água tônica. Limão espremido e gelo completam o ritual. Embora, ultimamente, venha deixando o gelo; reclama que tem lhe feito mal à garganta. O refrigerante, ao lado do molho de pimenta, é dos seus hábitos mais antigos. Seu nome bem que podia ser Tonico da Tônica.

A lata diz que é feita de quinino. Que diabos é quinino, menino?

With a little help from my friend Google, aprendo: é uma substância que se tira da casca da árvore cinchona, que nunca vi. Um pó branco, tecnicamente batizado de hidrocloreto de quinina. Como esse título não faria o menor sucesso, pelo contrário, resolveram chamá-la simplesmente de água tônica de quinino. Mais bonito e poético. Perguntar qual a sílaba tônica de tônica é mais ou menos como perguntar qual é o doce mais doce que o doce de batata doce.

Gramática e trocadilho à parte, a água tônica deve funcionar como uma espécie de tônico da longevidade. Seu Tonico acaba de completar oitenta e sete anos, nos trinques. Um dos médicos que o acompanha brinca que ele está tão bem, que podemos vendê-lo. Ele acha graça.

O garçom traz o pedido à mesa, meu pai faz uma piadinha qualquer. O garçom entra na onda (ou não), e todos riem (ou não). Ele quebra o lacre, plec, e a vira no copo. Do encontro do amargo da bebida com o azedo do limão dá-se a química da felicidade do meu pai, traduzida no primeiro gole e o quase onomatopeico “Aaah” de prazer.

Falando em química, na tabela periódica, oitenta e sete é o número atômico do Frâncio. O sobrenome do meu pai é Franco. Uma coincidência dessa, bicho.

O slogan impresso na latinha afirma: “o amargo transforma”. O quê em quê, nunca soube ao certo. Mas desconfio. Olho meu pai partindo o quiabo ao meio e juntando-o, metodicamente, ao arroz e feijão. O rosto enrugado de mundo, os cabelos branquinhos, a indefectível boina. Meu pai soube transformar sua vida. Viúvo aos cinquenta e cinco, era do tipo que não se servia sozinho à mesa – tarefa exclusiva de minha mãe. Quando ela se foi, inventou sua autonomia e entendeu-se com a solidão. Amargura? Se sentiu, metamorfoseou-a em poesias e músicas dedicadas à Dona Angelina. Apropriou-se da casa e suas domesticidades, aprendeu a cozinhar e a preparar suas gororobas. (Algumas tornaram-se lendárias: sua vitamina matinal, por exemplo, costumava levar leite, óleo, ovo, banana, mandioquinha, beterraba, vinho, Sonho de Valsa e o que mais estivesse dando sopa na pia, tudo no liquidificador. Praticamente um suco atômico.)

Com a poção acre-doce no copo, meu pai acessa a memória que lhe resta e se põe, com genuíno entusiasmo, a contar causos. Os mesmos de sempre, de novo e de novo. O pisão que levou da vaca Beleza, quando era criança. O orgulho dos dons oratórios e literários do meu avô. O primeiro emprego quando chegou a São Paulo, na fábrica de sapatos, aos dezesseis anos. O dia em que conheceu minha mãe, em pleno Finados. Sua saudade é líquida. Eu, que antes me chateava, aprendi a ouvi-los como se fosse a primeira vez.

Bendito quinino. Transformou até a mim.

O baleiro

baleiro

Da venda dos meus pais, não é da balança Filizola vermelha ou do cheiro do café moído na hora que eu mais me lembro. Nem da máquina de cortar frios que quase decepou meu dedo. É do baleiro.

Eu tinha seis anos quando meus pais resolveram empreender e compraram o ponto. Fiquei triste porque minha mãe não ficaria mais em casa o dia todo comigo, e sim pesando arroz, feijão e batata para a freguesia do bairro, com meu pai ao lado, servindo Velho Barreiro aos homens do pedaço. Em compensação, quando eu fosse na venda, poderia comer doces à vontade e, no meu entendimento, de graça.

Roda, roda,

Roda baleiro, atenção

Quando o baleiro parar

Ponha a mão

De vidro, três (ou dois?) andares, o baleiro estava sempre abastecido. Bala Juquinha, 7 Belo, bala de goma, delicados e caramelos, numa profusão de cores e sabores, tão ao alcance das minhas pequenas mãos. “Só mais uma, mãe”. Eu queria morar naquele baleiro.

Havia também uma vitrine de madeira com portinhas de correr, espécie de portal para outra dimensão, feita de glicose. Maria-mole, pé-de-moleque, doce de batata-doce, chiclete Ping Pong e suas tatuagens fajutas, chocolate de guarda-chuvinha, Dadinho, paçoca Amor. Eu não sabia por onde começar.

Pegue a bala mais gostosa do planeta

Não deixe que a sorte se intrometa

Por dezoito anos, o baleiro fez parte do negócio de secos e molhados da família. Girando feito planeta, ora num sentido, ora noutro. Mas o sentido não estava na boca? Já grande, suas balas não me encantavam mais. Continuavam, no entanto, fazendo a alegria das novas gerações de fregueses-mirins.

Quando meu pai se desfez da venda, anos depois de enviuvar e cansado de tocar o barco sozinho, alguém perguntou, E o baleiro?”. Ninguém quis. Uma velharia, candidata a estorvo.

Perguntei aos irmãos esta semana, “Que foi feito dele?”. Não se lembram. Eu deveria tê-lo guardado, nem que fosse no porão. O arrependimento tem gosto acre.

Vi um para vender, dia desses. Novinho em folha, réplica dos originais. Prestei atenção em suas tampas, tão perfeitas e lustrosas. Não havia nelas nenhum amassadinho, ou qualquer outra cicatriz deixada pelo uso. Que graça tem um baleiro sem história?

Queria tanto uma bala Juquinha agora.

Melhoral infantil

Uma vez por mês meu pai chegava em casa, à noite, com uma caixa enorme. Está bem, não era enorme. Só grande. Nela, a compra da farmácia. Esse dia era uma alegria só. Não que eu fosse uma hipocondríaca-mirim. É que na caixa, em meio a esparadrapo, mertiolate, algodão, latas de leite em pó e remédios, lá estava ele: Melhoral infantil. O comprimidinho cor de rosa.

Meio doce, meio azedinho. Eu gostava de comê-lo feito bala. No entanto, Dona Angelina, mãe zelosa, não o liberava assim fácil. Valia, então, inventar alguma enfermidade. Dor de barriga ou cabeça. Se o teatro fosse convincente, ganhava um. Se não, o negócio era partir para a traquinagem acetilsalicílica: pegar escondido. E o Melhoral infantil virava sobremesa proibida.

Fascínio semelhante tinham o Cebion e o Biotônico Fontoura, que também vinham na caixa. Com o primeiro, nada de dissolver na água, como mandava a bula. Chupava-o feito Drops Dulcora. Eu devia exalar vitamina C pelos poros, gripe nenhuma me pegava. O segundo prometia abrir o apetite das crianças e, por isso, era aliado das mães preocupadas com rebentos que não queriam comer. Não era nosso caso. O fortificante tinha álcool na fórmula e deixava a criançada meio zonza se a dose recomendada fosse extrapolada – e aí é que estava a graça.

Volta para 2018.

Hoje foi dia de levar os remédios para meu pai. A lista é grande e inclui comprimidos que resolvem de pressão alta a gastrite, garantindo ao Seu Tonico uma boa velhice. Enquanto dava meu CPF para a moça na farmácia, avistei na gôndola self-service: Melhoral infantil. A embalagem mudou, a cor rosa permaneceu. Um clássico da farmacopeia. Peguei uma cartela e adicionei-a à cestinha. Senti meu rosto corar. Ou será que ficou da cor do comprimido? Apoiada no balcão, refletida no espelho da seção de maquiagem, vi a garotinha que fui, pilhada na travessura. Como se estivesse pegando às escondidas o comprimido no armário da cozinha, que chamávamos de “farmacinha”. Paguei e separei o Melhoral, guardando-o na bolsa.

Cheguei à casa do Seu Tonico não com caixa, mas sacola de plástico cheia de coisas. É a minha vez de abastecer seu armário, mensalmente, com a compra da farmácia. A vida é mestra em inverter os papéis. Virei mãe do meu pai.

Mais tarde, em casa, tirei a cartela da bolsa. Seis comprimidos. Que festa! Abri um, coloquei-o devagar na boca. Deixei que dissolvesse um pouco, fechei os olhos, pronta para a viagem ao passado. Que gosto horrível! Nem sombra do Melhoral infantil que conheci. Mudaram a receita, por certo. Remédio para os pequenos tem esse problema. Se é gostoso, dá vontade de comer feito doce. Se é ruim, a criança só toma amarrada.

Cuspi o comprimido, já de um rosa desbotado. Mal não me fará. Será que tem efeito colateral? Um pouquinho de saudade, talvez. Logo passa.

O maestro e o gato

siamês 1

Nos anos setenta, costumávamos ir à casa dos meus tios no bairro de Santa Cecília. Eles moravam (ainda moram) em um prédio na Alameda Barros, perto da avenida Angélica. Quando íamos visitá-los, eu gostava de cruzar o corredor e ir ao apartamento do vizinho, no mesmo andar. Eles tinham um gato.

Ali vivia o maestro Portinho. Minha tia falava dele com orgulho, dizia que era famoso e coisa e tal. Eu não estava nem um pouco interessada. Ia lá por causa do gato, mesmo. Bug era um siamês lindo, grandão, bonachão e vesgo. Passava um bom tempo brincando com ele, até minha tia me chamar de volta. Eu tinha seis, sete (oito?) anos.

Não era um apartamento comum. Três unidades, transformadas em uma só. Ficou um apartamentão. A decoração, coisa fina. Um piano, talvez? Vários sofás na sala – para mim, enorme. Sempre aboletado em um deles, o Bug. Eu, bem comportada, sentava-me ao seu lado e punha-me a afofá-lo. Lembro-me de alguém vir perguntar se eu queria um suco, uma água. Eu não queria nada. Só brincar com o grandão do Bug.

O maestro Portinho também era grandão. Muito alto, simpático. Se troquei três palavras com ele, foi muito. Não fazia ideia de quem eu estava diante. O dono do Bug foi um dos principais personagens da época dourada das big bands brasileiras, animando bailes e programas de rádio e TV. Produziu trilhas para novelas e, fora as obras que compôs, assinou arranjos para meio mundo. Cauby Peixoto, Ângela Maria, Nelson Gonçalves, Cely Campello, Vanusa, a turma inteira da Jovem Guarda. As gravadoras só queriam saber do dono do Bug.

Um dia, eis que o apartamento do maestro, no décimo sétimo andar, pega fogo. Meu primo conta que uma bituca de cigarro fora atirada do apartamento de cima e caiu justo onde? Na cortina de um dos quartos. O estrago foi grande. Suficiente para o Bug, sem ter como escapar, morrer asfixiado. Fiquei desolada com a notícia.

Logo arrumaram outro gato. O nome? Bug. Em homenagem ao antecessor. Também um siamês. Igualmente lindo, nem tão grande, nem tão bonachão. Vesgo, talvez? Fui conhecê-lo. Ele não me parecia tão dócil quanto o velho Bug. Influenciada pelo nome, esperava que ele fosse cópia integral do outro. Claro que não era. Então aprendi o que eu já desconfiava: gato não é tudo igual.

As visitas aos meus tios rarearam, não sei que fim levou o segundo Bug. Do maestro, sei: morreu em 1997. Seu legado para a música brasileira é imenso e valioso. Coisa linda, ser maestro. Uma pessoa que entende absolutamente tudo de música. Uma espécie de Deus do som. Gato também é uma espécie de Deus. Ou será que Deus é uma espécie de gato?

São quase dez da noite, estou me preparando para dormir. Sobre a cama, espio o Beto cochilando. É nosso siamês lindo, grandão, bonachão. Vesgo. Gosta de música, o bichano. Com ele que danço, de vez em quando (os outros detestam). Se é que esse negócio de reencarnação também vale para os bichos, gosto de fantasiar que o Beto é meu amigo Bug, do qual não pude me despedir. Pendência que ele tratou de resolver, aparecendo em nossa casa, numa tarde quente de fevereiro. Onze anos atrás.

A corda

pular corda
arte: Charlotte Voake

Um dia, ganhei do meu avô uma corda de pular. Não dessas de brinquedo, comuns. Corda de verdade. Seu Paschoal comprara na casa de materiais de construção. Compridona, cinco metros. Eu a levava, enrolada numa sacola, para a escola. E a brincadeira na hora do recreio estava garantida. Ninguém tinha igual. Cinco metros, meu bem.

Eu era boa de pular corda. As amigas, uma em cada ponta, começavam bem devagar e iam aumentando a velocidade. A modalidade mais rápida de todas se chamava foguinho, e não era para qualquer um – nem para quem pulava, nem para quem batia. Aprendi a entrar e sair com a corda em movimento, pensa que é fácil? Requer tanto cálculo quanto matemática, só que de outro tipo. Em matemática eu não era boa, não. Mas dava meus pulinhos.

E aquela corda virou, assim, uma espécie de unidade de medida, minha referência mental para tudo. Se eu queria calcular tamanho ou distância, bastava pensar nela. O Corcel do meu pai, que nós inventamos de pintar em casa e ficou bem feio? Uma corda de comprimento. Da sala até a cozinha? Uma corda e meia. O pinheiro da vila, plantado quando meu irmão entrou na faculdade? Ficou com duas cordas de altura, antes de ser cruelmente derrubado. Depois era só converter em metros, a unidade padrão aceita mundialmente pelos homens sérios que não entendem nada de pular corda, nem de pinheiros.

Aliás, ainda se pula corda? As crianças aqui do pedaço, não. Meus filhos nem têm uma – falha nossa. Dá tristeza pensar que, um dia, isso se torne coisa do passado. Feito latim, a língua morta. A gente sabe que existe, topa com ela de vez em quando, mas não usa para nada. O que foi feito do passa-anel, da uma-na-mula, do telefone-sem-fio, da cabra-cega, do corre-cotia, da amarelinha, do esconde-esconde? Sumiram dos páteos das escolas, das ruas, são brincadeiras mortas. A vida seria mais interessante se as brincadeiras legais de ontem andassem juntas com as brincadeiras legais de hoje. Pois cabem todas numa infância. Ou, quem sabe, isso é papo furado de quem já passou dos cinquenta, de gente que ainda fala papo furado. E sobre isso eu poderia falar horas. É só me dar corda.

Ontem me peguei tentando calcular uma distância no meu quintal. Recorri, sem perceber, à velha corda. Lembrei do Vô Paschoal que, se ainda vivesse neste planeta, faria 110 anos. Tentei medir o tamanho da súbita (quase doída) saudade que me deu dele. Não houve corda suficiente.

A promessa

cabelo

Prometi à Nina deixar meus cabelos crescerem.

Logo eu. Que, apesar de ser lembrada como cabeluda pela turma da escola, não uso nem um fio abaixo do queixo desde que ela nasceu, há onze anos. Eu, que sou devota de São Joãozinho. Eu, que tenho quimeras antigas com a máquina dois.

O limite negociado foi o ombro.

Tem gente que promete, em nome de nobre causa, não comer chocolate. Subir de joelhos intermináveis escadarias. Cortar – veja só – os cabelos. Eu não. Eu prometo deixá-los crescer um quarto de metro. Cada um com a sua provação.

De criança, minha avó penteava meus cabelos para eu ir à aula. Contrariada, subia no bidê para facilitar o trabalho dela. Que tinha mão pesada, puxava com força (e algum mau humor) minhas extensas e quase sempre embaraçadas madeixas. Não havia esses condicionadores bons de agora. Nem os ruins a gente tinha, era xampu e olhe lá. Eis que surge, para nossa salvação, o Neutrox. Creme amarelo, inovador e relativamente barato que dissolvia nós como que por encanto. Um dia, hipnotizada pelo seu aroma adocicado, não resisti. Comi.

No caso da minha promessa, a nobre causa não foi motivo de doença, nem de milagre solicitado, tampouco de graça alcançada. “Mãe, deixa o cabelo crescer um pouquinho só?” – foi o (reiterado) pedido da caçula. Lasquei-me. Como negar? Desde então, tenho recorrido às faixas, lenços, tiaras e adereços que me façam enfrentar a (longa) temporada com algum ânimo.

Exibi imensa cabeleira até os vinte e cinco. Cultivada quase por acaso, em um misto de esquecimento de cortar com ideal de beleza. Acreditava que era assim que tinham que ser os cabelos de uma mulher, feito verdade irrefutável (não é). Fui dessas de aterrorizar o cabeleireiro, caso o infeliz cruzasse a fronteira do “só as pontinhas”. Como se minha vida não fosse funcionar de outra forma. Os cabelos eram longos, mas as ideias eram curtas.

Todos os dias me olho no espelho ao acordar, na esperança de que alguma mágica tenha se dado durante a madrugada e meus fios tenham adquirido o DNA do bambu. Cogito negociar com a Nina, quebrar a promessa. Trocá-la por um brinquedo novo, quem sabe? Mas aí lembro de seus desenhos, quando era pequenininha. Neles, sempre fui representada com arquetípico cabelão. Desisto da negociação, respiro fundo e sigo em frente. Tanta coisa que ela me pede e eu, por incompetência ou falta de vontade, deixo de atendê-la. Ser mãe é carregar uma eterna e cabeluda culpa sobre os ombros.

Ano que vem faço cinquenta e um, a idade da minha mãe quando morreu. Dona Angelina perdeu todos os cabelos na quimioterapia. Pensei em uma homenagem póstuma, raspando os meus. “Vê? Também estou carequinha da silva”, direi-lhe em pensamento. Estarei três décadas atrasada, é verdade. Mas ela há de entender. Mães são atemporais. Além disso, comprida mesmo é minha saudade. Dá até para fazer trança.

De comidas e ausências

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“presença”, 2014 – Simone Huck

Tinha que ser nhoque de batata, aquele domingo. Igual ao que minha mãe fazia. Não haveria, porém, a menor graça em comprar pronto. Ir no mercado, pegar pacotinho na prateleira refrigerada, código de barra, data de validade, informação nutricional, CPF na nota, obrigada, eu que agradeço, bom dia, pra você também, próximo.

Não cheguei a aprender a receita com dona Angelina, então tive que me virar com a internet. A internet é uma mãe.

Tablet na bancada, ingredientes alinhados, linha de montagem planejada. Cadê a vasilha? Que vasilha? Para fazer a massa. Ah. Não tenho. Quer dizer, tenho. Mas quando vou fazer alguma coisa diferente nela, esparramo tudo para fora. É uma vasilha boa, mas às vezes é pequena, apertada.

Na rua de baixo tem um mercadinho. Vendinha de bairro. Uma alternativa à complicação dos hipermercados: não preciso parar no G2, não pego tíquete de estacionamento e, portanto, não preciso validá-lo no caixa; não ando oito corredores para pegar o que quero (mesmo sabendo onde fica o que quero). Está certo que na vendinha só tem um tipo de manteiga, dois de xampu e três de macarrão. Mas tudo na vida tem um preço. E o do mercadinho costuma ser mais em conta.

Calcei os sapatos, fui e voltei com uma bacia verde de plástico. Grandona, espaçosa. A felicidade custa três e noventa, meu bem.

Chamei a Nina, ela queria ajudar. Seguimos o passo a passo da receita, fantasiei secretamente que era minha mãe ensinando. E que ela estava encarapitada no armário, invisível, feito os anjos dos filmes, rindo do meu cabelo enfarinhado e admirando a neta que não conheceu.

Enquanto misturava os ingredientes, reparei que preciso de uma vida maior, também. A minha é boa, mas às vezes é pequena, apertada. Quando penso em fazer alguma coisa diferente, esparramo tudo para fora. Acabo reproduzindo apenas as velhas receitas de viver que nela cabem, ao mesmo tempo em que vou inventando desculpas para não arrumar logo uma vasilha-vida maior.

Saquei o macete da massa – dona Angelina que soprou, lá do topo do armário –, que é não amassar demais, nem usar força. Não se sova massa de nhoque, não compreendo como isso não é ensinado no Fundamental. Caso contrário, sempre se precisará de mais e mais farinha, e a gororoba será incomível. O principal ingrediente de um bom nhoque, aprendi, não é batata. É delicadeza.

Fizemos as “cobrinhas” com a massa, como eu chamava quando era criança. Fomos cortando com a faca, igual minha mãe fazia, e enfarinhando para não grudarem. Nina e eu comemos um montão, crus mesmo. Do mesmo jeito que eu comia quando tinha a idade dela. Senti-me numa reprise de um domingo qualquer da década de 70 na velha casa da Mooca, só que com outros personagens. Se a vida se repete, que seja na base do nhoque.

Ficou igualzinho ao da dona Angelina. Tão bom, que desconfio que ela veio acertar o ponto da massa, bem naquela hora que eu atendi a campainha e a Nina foi colocar um elástico nos longos cabelos castanhos. Ajeitei a mesa, as cadeiras e chamei todos.

Pena que ela não apareceu para almoçar com a gente.

Se a minha mãe tivesse Facebook

facebook

Se a minha mãe tivesse Facebook quando eu era criança, não sei se ela seria do tipo que tudo publica acerca de seus rebentos. As fofices, as traquinagens, as frases engraçadinhas, as caretas, as dores, as delícias. Minha mãe era do tipo reservada. Mas quem resiste?

Considerando que a internet estivesse a todo vapor nos anos 70, imaginei a timeline da dona Angelina.

Em uma tarde de 1971, entre uma receita de cuscuz e uma mensagem do Chico Xavier, ela postaria que, para conseguir me fazer almoçar naquele dia, fora me seguindo da cozinha até o portão da vila onde morávamos. Eu, quatro anos, não queria comer. E, com a estratégia, eu ia passeando, ela ia me distraindo e eu papava tudo. Minutos depois choveriam os comentários das amigas, marcando a polaridade das opiniões: “Que absurdo!”, “Que gracinha!”. Ela me proibiria de zanzar durante as refeições ou não, conforme o que lesse?

Noutro dia, faria um post-desabafo contando que, em um momento de descuido seu, eu, aos cinco, assumira o controle da velha Lanofix e simplesmente arruinara a encomenda de tricô que ela preparava, e lhe garantiria alguns trocados no final do mês. Nos comentários, a torcida para que ela conseguisse recuperar o tempo perdido, tudo ia dar certo, calma. O apoio lhe daria ânimo para recomeçar do zero?

Ela também postaria, a título de diversão, que eu, aos sete e na intenção de imitá-la, coloquei um absorvente – o velho Modess, que nem de longe lembra os ultrafinos de hoje – e saí na rua, feliz da vida, desfilando o duvidoso volume na calça. Finalizaria o post com kkkkk. Emojis boquiabertos ilustrariam o feedback?

Só não sei se publicaria, num dezembro de vacas magras, que meu presente de Papai Noel fora um xampu Johnson’s (bem mais caro e raro que o Colorama – lanolina ou ovo – de todo dia). Mas era do grandão. Afinal, era Natal.

Ademais, ela rechearia sua página com fotografias de flores e das suas bordações, vídeos de valsas, truques para limpar manchas de molho de tomate, indignações a respeito do Led Zeppelin (“Mas isso é música?”).

Só sei que se a minha mãe tivesse Facebook, eu a seguiria por toda vida.

Saudade é a linha do tempo que não volta mais.

Eu não quero saber o que é “Le Crabe”

Eu não sei o que diz a letra da música Le Crabe. Aquela, da Françoise Hardy. Aquela, que foi sucesso na década de 70 e até tema de novela da Globo. Eu não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe. Só sei que eu a ouvia numa fita K7 gravada pelo meu irmão. E ela passou a fazer parte do meu imaginário musical.

Dos Beatles, traduzi tudo que caiu nas minhas mãos. Sentadinha no sofá, encarte e dicionário ao lado, Lô-lôv-mi-du. O mesmo fiz com tantos outros. Le Crabe, no entanto, não. Recuso o spoiller até hoje. Nem quando entrei num curso de francês na PUC eu desejei traduzi-la. Nem quando minha irmã virou francesa; nunca lhe telefonei pedindo “Traduz pra mim?”. Fugi, fujo e fugirei sempre dos dicionários e dos tradutores instantâneos e também das pessoas que, embora bem intencionadas, já tentaram revelar o irrevelável. O amigo generoso mandou-me a tradução pelo Messenger. Excluí a mensagem. Sem dó, sem ler. Não é ingratidão. Só não quero destruir minha memória afetivo-musical.

Porque, no fundo, eu sei o significado da letra.

Os primeiros versos de Le Crabe, por exemplo, falam do risoto de ervilhas com palmito que tinha em casa, aos domingos. Um panelão enorme, pra durar até terça-feira, feito a quatro mãos pela minha mãe e minha avó.

Aliás, Le Crabe, que tem uma parte meio tristonha, fala da minha avó também. Que afogava gatinhos recém-nascidos no tanque quando a nossa gata dava cria, naquele tempo ninguém falava em castração. E a gata ia parindo. E a minha avó afogando. Se há alguma justiça nesse mundo de vivos e mortos, e se existe mesmo carma, dona Josephina há de estar no além trabalhando muito para compensar as maldades terrenas. Rodeada de gatos.

Já o refrão fala de quando meu pai recebia o salário no banco e passava na farmácia, para abastecer a casa com remédios, esparadrapo, Merthiolate, algodão. Ele chegava com uma caixa grande e sempre tinha Cebion. Que a gente comia como se fosse bala. Até hoje faço do mesmo jeito: não ponho na água, que isso é para os fracos. Descasco a pastilha e a encosto na língua, para senti-la efervescendo. Entre uma careta e outra, vou roendo devagarinho e adquirindo minha dose diária de vitamina C. C, talvez, de crabe – o que quer que isso seja.

Noutro pedaço, os versos falam das nossas viagens para Santos no Fusca, nos finais de semana. Sem cinto de segurança, sem protetor solar, sem dinheiro, sem garantias. Legítimos farofeiros. A tradução disso? Saudade.

É disso que fala a letra e pronto. E de mais uma porção de coisas. Le Crabe é, por sinal, uma das músicas mais compridas do mundo. Ela tem a duração da minha infância.

Por isso prefiro, em vez de escolher a obviedade do dicionário, atribuir significados particulares às palavras que não entendo e continuar sendo feliz com minhas memórias, ativadas ao primeiro acorde. Já pensou se descubro que Le Crabe fala de meleca de nariz, esquistossomose, loteria esportiva?

A ignorância pode ser uma bênção. Ou a senha para a liberdade.

Acho até que isso dá música.

 

“Le Crabe”, Françoise Hardy

Sobre a carta para a Maria

Mês passado eu arrumava umas coisas aqui em casa – livros, papéis, fotografias antigas – e encontrei uma carta da minha mãe para a Maria, parente nossa. No cabeçalho: “São Paulo, 17 de dezembro de 1980”.

Ontem foi 17 de dezembro de 2015.

Não sei se ela chegou a enviá-la. Pode ser que sim, e a que encontrei aqui, escrita em três páginas de papel almaço pautado, seja o rascunho, já que tem uma pequena rasura. Pode ser que tenha até recebido resposta. Pode ser também que ela, por algum motivo, não a tenha enviado. Desistiu, esqueceu, escreveu outra. E essa acabou ficando guardada. Inexplicavelmente intacta, resistindo ao tempo, às mudanças e às traças.

Ainda se usa papel almaço?

Quem ainda escreve cartas de três páginas?

E quem ainda escreve cartas, ainda as passa a limpo?

Sei que não se deve ler a correspondência dos outros. Mas, a esta altura e neste caso, há de ser um crime prescrito, e perdoado. Eu devorei a carta.

Dona Angelina fez só o primário, mas dominava um português acima da média para a pouca formação. Ela gostava de ler. A leitura geralmente salva da falta de escola.

A carta é longa. Ela vai contando como estão as coisas em casa, chora as pitangas, desabafa. Mas dedica um parágrafo para cada filho – meus irmãos e eu – a fim de atualizá-la das boas notícias. Está lá que passei de ano e fui para a oitava série. Eu tinha treze. Hoje, tenho quarenta e oito. Apenas quatro a mais que ela, quando escreveu a carta. E a diferença entre a vida dela e a minha é abissal. A começar pelas cartas: eu não as escrevo mais; confio minha correspondência – afetiva, social, profissional – aos comunicadores instantâneos. Como pode, entre uma geração e outra, caber tanta mudança?

Ela segue a narrativa carinhosa, manda lembranças para todos, um por um, deseja feliz Natal. Não me recordo se elas se viram nos sete breves anos que minha mãe teria pela frente.

Mas a carta não é minha, pertence à Maria. Não fazia mais sentido mantê-la. Então ontem, trinta e cinco anos depois de minha mãe tê-la escrito (e a enviado, ou não, talvez nunca saiba), eu a coloquei nos Correios. Fiz questão de aguardar a data exata; assim, o círculo do tempo se completará. Chegará nos próximos dias, enfim, à destinatária, como chegaria (chegou?) em 1980. Resolvi colocar uma cartinha minha junto, para que a Maria entenda a história toda. Aproveitei e a atualizei – como fez minha mãe naquele dia – das notícias de cá; há muito também não nos vemos.

Maria vai receber uma carta (inédita ou não) dentro da outra. Da pessoa que saiu de dentro da Angelina. O mundo é cheio disso, se a gente reparar bem. Tudo contém e está contido.

No final das contas, a vida é uma espécie de carta de nós para nós mesmos. A autocarta que está, a todo momento, sendo escrita e entregue. Nem sempre lida direito. Raramente respondida a contento.

Enriquecida com ferro e ácido fólico

Não se lê mais nos ingredientes das coisas: farinha de trigo. Dois substantivos com uma preposição no meio e só. Agora é farinha de trigo enriquecida com ferro e ácido fólico. Adjetivaram, mineralizaram e vitaminaram a farinha. Aquela com que minha mãe fez os bolos da nossa infância, aquela que tinha na vendinha, aquela que a gente fazia cola? Não tem mais. Acabou.

O pão nosso de cada dia está irremediavelmente impregnado de substâncias estranhas. E o macarrão e o biscoito. Panetone? Também. De janeiro a janeiro, vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana. É a onipresença do ferro e do ácido fólico na vida. Estamos todos mais saudáveis.

Até a hóstia consagrada foi enriquecida de ferro e ácido fólico. Ninguém mais comungou do mesmo jeito.

O binômio alimentar iniciático transformou-se em uma entidade sofisticada. Rebatizada de “farinhadetrigoenriquecidacomferroeacidofolico”, a matéria-prima dos nossos mingaus virou um termo imenso, indissociável, nos dizeres dos rótulos. Um palavrão de comer.

Algumas marcas ainda acrescentam “especial”, para tornar tudo mais belo – e maior. Não se enganem, porém: é tudo farinha enriquecida com ferro e ácido fólico do mesmo saco.

No mercado:

– Moço, onde fica a farinha de trigo?

– Não tem.

– Como não tem?

– Só farinha de trigo enriquecida com ferro e ácido fólico. Terceiro corredor.

Ferro é importante para a saúde, evita anemia. Ácido fólico idem, evita má-formação. Mas não há nada que evite a saudade dos bolos da minha mãe, que nunca mais comi.

O tempero da minha mãe

Arte: Mariana Leme
Arte: Mariana Leme

Junte cebola, alho, cheiro verde, óleo e sal. Ponha tudo no liquidificador e bata bem. Despeje a mistura em vidros vazios, tampe-os e leve-os à geladeira. Use para refogar qualquer coisa. Em cinco ingredientes, eis a receita das minhas lembranças. Rendimento: uma infância inteira.

Dona Angelina preparava o próprio tempero. Para economizar tempo e dinheiro – talvez mais dinheiro que tempo. Lembro do óleo aquecendo na panela, afoito, esperando pelo tempero, que vinha em generosa colherada. Quando eles se encontravam, era uma farra, chiiiiiii. A casa inteira ficava sabendo do abraço dos dois. Logo em seguida, chegavam os grãos de arroz, lavados e escorridos. Noutra panela, outra farra, agora com centenas de feijões recém-cozidos na pressão. Era sempre festa no fogão da minha mãe. Na cozinha, sua oração. E o tempero, artesanal, era sua pegada. O rastro saboroso pontuando o alimento que nos fez crescer, feito planta.

Bem que tento. Mas é impossível reproduzir o tempero dela. Por mais que eu siga o modo de fazer (afinal, cebola é cebola, alho é alho), falta um ingrediente etéreo, invisível, secreto. Falta ela.

Liquidifiquei minhas recordações no turbilhão impiedoso do tempo. Misturei tudo, Natal com Páscoa, aniversário com Dia das Crianças. Mas o aroma do tempero dela está bem guardado no nariz da minha memória. De vez em quando, ele surge d’algum vento brincalhão. Inspiro o quanto posso, para tentar retê-lo e guardá-lo num vidro bem tampado, à prova de despedidas. Se eu fosse descrever a cor desse cheiro, seria verde.

Será que meus filhos terão alguma reminiscência da maneira como tempero nossa comida? A gente nunca sabe o momento, exato ou inexato, em que vai entrar para o rol de lembranças de alguém. Qualquer ação ou atitude podem virar protagonistas; preciso me lembrar disso, para caprichar mais nas coisas.

Será que, n’algum momento da vida, eles tentarão recuperar algum sabor de suas infâncias? Experimentarão, quando grandes, algo que não tenha sido feito por mim, fecharão os olhos por alguns segundos e se pegarão dizendo “Parece a torta de legumes da mamãe” ou “É igual ao creme de abóbora que ela fazia”?

No fundo, a gente quer é ser lembrada. E o alimento é a memória afetiva mais forte que existe. É o primeiro presente que ganhamos, ao nascer. Onde fica a boca do mundo?

Tantas coisas faço igual à minha mãe, e nem sei que faço. É a herança genética e silenciosa, a perpetuar a nossa espécie e algum tipo de amor. Talvez eu dobre roupas como ela, talvez eu lave pratos como ela, talvez eu abotoe um vestido como ela, talvez eu tenha um jeito de mexer nos cabelos como ela. Talvez até meu tempero guarde em seu DNA a centelha materna. Não podemos mais medir nossas semelhanças em tempo real. É uma constatação, não um lamento.

Há quatro vidros repletos de tempero na geladeira, fiz no comecinho do mês. Ficou bom. Mas não é igual ao dela. É idêntico a mim. Sou eu, deixando a minha pegada no caminho da minha gente.

Dos panos e dos pratos

Um enxoval – conjunto de coisas que as mães preparavam (preparam?) para suas filhas ao longo dos anos (muitas vezes, a partir do momento que imaginavam uma menina em seus ventres), com o propósito de abastecê-las para uma futura vida a dois – é legítimo cumpridor de algumas funções.

Da economia: poupava a noiva da compraiada que se fazia mister por ocasião de um casamento. Roupas de cama, mesa, banho e intimidade custavam (custam) uma nota. E, antigamente, não tinha essa de noivas modernas e autossuficientes que dispensam até o chá-de-panela.

Da solidariedade: à família (entenda-se: mães, tias, avós) cabia ajudar na montagem do novo lar, mandando uma coisinha ou outra para dar uma mão aos pombinhos.

Do legado afetivo: no enxoval da moça casadoira sempre havia (há?) uma toalhinha de crochê feita pela mãe, um jogo de toalhas bordadas pela madrinha, uma colcha que fora da bisavó. Era uma maneira de perpetuar a presença dos ancestrais, marcar o território sentimental, garantir a herança amorosa.

Uma das funções do enxoval, no entanto, é tão fundamental quanto desapercebida. Modesto ou sofisticado, com centenas de peças ou meia dúzia, um enxoval é capaz de, muito tempo depois do emblemático ‘sim’, ativar as mais poderosas lembranças, detonar uma viagem no tempo ou, simplesmente, causar saudades.

Apanho um pano na gaveta, preciso secar uns pratos para por a mesa. Passo os dedos em seu bordado de azul e vermelho. Faço um breve carinho na bainha, certamente feita na velha Singer de pedal. Ou será que já era a elétrica? Nisso que dá ter muitos anos de vida, como desejaram tantos parabéns: acabo misturando as épocas.

Quando pequena, em nove a cada dez vezes que eu subia na casa dos meus avós (a nossa era na frente; a deles, atrás), lá estavam eles a trabalhar em seu improvisado miniatelier de panos de prato. Numa simbiose conjugal, meu avô comprava a sacaria bruta e a alvejava; minha avó cortava; os dois os bordavam dia e noite; ela fazia as bainhas depois; ele vendia tudo na feira. Certas memórias nem precisam de fotografia.

Para bordá-los, meu avô separava os fios e os estendia em intermináveis meadas que iam de uma ponta a outra do estreito e comprido quintal (quando cresci, deixou de ser comprido; a infância maximiza tudo). Depois de prontas, o esquema do motivo era simples: uma carreira de pontinhos numa cor, outra carreira em outra cor, intercalando tudo. Eu não podia brincar no quintal quando ele estava no vai-e-vem das meadas. Vez por outra eu o desafiava. Ele rosnava com seu sotaque ítalo-brasileiro. Quase posso ouvir os chinelos do Vô Paschoal indo, voltando, indo, voltando. Algumas recordações são tão barulhentas.

Fato é que, na partilha do espólio familiar, alguns dos panos de prato ficaram comigo. Os que sobraram da tentativa de enxoval que minha mãe fez para mim. Outros devem ter ido para minha irmã. Meu irmão, acho, não ganhou nenhum; onde já se viu homem fazer enxoval. Os panos resistiram ao tempo, às mudanças, e vieram habitar meus armários, aqueles nunca acessados. Recentemente resolvi libertá-los: estão todos em uso na cozinha. (Mentira: picada pelo bichinho da preservação, guardei dois. Para minha filha. Se meu filho quiser um, que negocie com ela.)

Pratos secos, olhos úmidos, termino de compor a mesa. Meus filhos ainda não sabem o que seus bisavós faziam para viver. Devo-lhes esta parte da nossa história. Qualquer dia eu conto. Agora preciso servir o almoço.

Da costura e do corte (ou Crônica de minuto #2, revista e ampliada)

Arte: In Pastel

Juntou que fiz aniversário e, no mesmo dia, comecei um curso de corte e costura. Era parte dos desejos antigos e explicáveis: minha mãe costurava. Cresci em meio às linhas, agulhas, tesouras, fitas métricas.

Quando eu era pequena, sempre ganhava cortes de tecido de presente, geralmente das tias. Que viravam, pelas mãos da minha mãe, vestidos e blusas.

Inventei de perpetuar a tradição e, aos dezesseis, confeccionei para mim um macacão de popeline lilás, sob suas pacientes instruções. Foi a única peça que costuramos juntas – insuficiente para que eu absorvesse seu saber, o bastante para despertar a fome de pano.

Já sem ela, na faculdade, arriscava e abastecia meu guarda-roupa através do maquinário herdado. O corte e a costura tomaram ares de adivinhação, tentativa, erro, sorte. Funcionava. Faltava-me, porém, a técnica materna.

Ninguém mais me dá cortes de tecido. Acho que é porque nem tenho mais tantas tias. Ou então, porque minha mãe não pode mais fazer minhas roupas. As coisas todas têm suas razões.

Vasculhei os armários em busca de retalhos para a primeira aula. Encontrei uma panaiada tão antiga quanto o desejo de costurar direito. Cortes e retalhos do passado, gentilmente poupados pelas traças.

Foram todos comigo para a aula. Dentre eles, um, velhíssimo, intacto em sua abstrata estampa de cores, ainda tão cheias de vida. Presente de quem, afinal? Para mim ou para minha irmã, que também costumava ganhar os seus? Como surgira no acervo têxtil da família, e como resistira a tantas mudanças de endereço? Eu bem que já tentara, várias vezes, fazer algo dele. Sua personalidade, no entanto, sempre trouxera dúvidas sobre o que poderia vir a ser – blusa? Saia? Écharpe? Talvez nem ele soubesse direito o que queria ser. Cogitei, há algum tempo, usá-lo para outro fim – pensando na hipótese dele, de fato, não ter nascido para vestir ninguém. Era tecido arrogante, eu duvidava que fosse se dar bem com outros panos num mesmo traje. Como um animal de estimação ciumento, que não autoriza seu dono a ter mais ninguém. Deu nisso: ele sempre retornou ao fundo do armário, que é para onde vão as coisas da categoria “depois-se-vê”.

Professora bateu os olhos nele e vi ali certa surpresa. “É seda javanesa, não se faz mais dessas!”. Explicado estava, ele não era um tecido qualquer e sabia disso. E não era ele, era “ela”. Naquela hora, no turbilhão sereno das lembranças, vi as tias falando “javanesa”. Jamais havia associado: javanesa é gentílico de Java. Java fica na Indonésia. A gente vive falando coisas sem prestar atenção às origens, aos significados. Por que a camiseta é regata? E a gola, olímpica? A calça, capri? Só sei que a ancestral seda, num processo tardio, em breve sairá de seu casulo reverso. (Antes mesmo de eu tentar ler “O homem que sabia javanês”, aquele, do Lima Barreto.)

Corte é rompimento, morte. Costura, união. Corte e costura, de tão antagônicos, são complementares. Um não vive sem o outro, eles se precisam para que o feitio da vida se dê.

Por isso vou estudá-los. Para, além de ser autora da minha própria moda, aprender a viver com os dois. E também para mostrar que não perdi o fio da trama, tampouco abri mão dos sonhos já alinhavados. Será meu presente de Dia das Mães a longo prazo. Entregue à Dona Angelina com beijo e abraço apertado, embrulhado em papel-saudade.

Chega de saudade

Ilustração: Sil Falqueto/Flickr.com

A amiga assinou a mensagem assim: Saudades, Fulana. Considerando a veracidade da expressão, o que, exatamente, correrá nas veias dessa saudade? Acreditando que não seja coisa para ser declarada em vão, que inspirações levam alguém a anexar a palavra em suas missivas, além do evidente sentimento? Nessa hora, qual som, imagem ou referência brota no grande cinema do pensamento, durante os segundos que se leva para escrevê-la?

Pode ser a voz do outro, com aquele jeito diferente de pronunciar Roraima. Ou a lembrança da (saudosa) maloca, compartilhada nos tempos de faculdade. Uma tarde de primavera, verão, outono ou inverno – qualquer estação, de ano ou metrô, onde bons encontros já tiveram lugar. A carona das quintas. O cigarro secreto dos tempos de colégio, com direito a risada boba e bedéu idem. O colo emprestado e jamais devolvido. Os presentes de aniversário embrulhados com laços de ternura. As horas-extras regadas a pizza, bocejos e piadas no escritório, madrugada adentro. Uma coleção, enfim, de instantes registrados e classificados como bacanas no relatório periódico da vida. Seria bom saber como funciona e do que se alimenta a saudade alheia. Mas saudade, às vezes, não mostra o RG.

Ontem, depois da mensagem, me peguei no quarto, definindo saudade enquanto pendurava de volta as cortinas recém-lavadas. Cortina é coisa que pouca gente se lembra de limpar. E eu lembrei das da sala, na casa onde nasci. Tinha mania de trepar nelas e balançar, para desespero da minha mãe. Logo que foram instaladas, critiquei: Estão curtas. Sabida era ela, que já previa as brincadeiras da caçula ou conhecia as características do tecido. Logo, elas estavam no comprimento ideal. Foi a breve saudade em cascata na tarde invernal, me fazendo despencar dos quarenta e quatro para os sete anos: casa, mãe, infância. Se eu fosse escrever para minha mãe, botaria saudade no começo, no meio e no fim, para não deixar dúvida.

Quem ama não mata, dizem. Não, no caso da saudade. Quem ama pode, e deve, dar cabo dela. Não é crime. Deixar de fazê-lo é condenar-se a um tipo especial de xilindró: o do coração apertado. Amor e saudade, aliás, costumam viver às turras. Se desentendem e vão deixando lembranças espalhadas pelo chão. Eu que não vou recolhê-las. No fundo, eles sabem: um não vive sem a outra.

Quanto à amiga, é um convite para o seu aniversário. Já respondi, claro que vou. Imitei a despedida dela ao final, e ainda incluí ‘muitas’. E eu, só eu, sei do que elas são feitas.

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Nota: para quem quiser deixar um comentário, é só rolar a página até láááá embaixo. Não sei porque o WordPress é assim, chatinho.

Crônica de minuto #33

– Mãe, põe um rock?

Fui ver se tinha algo no porta-luvas. Tinha. Ao primeiro acorde de “Miss you”, dos Stones, Nina, sentadinha no banco de trás, bateu palmas e se remexeu até onde o cinto de segurança deixou. Pelo retrovisor, fotografei-a na minha Rolleyfex particular, aquela embutida na cabeça.

É, filha. Às vezes, você me enlouquece. Mas quando nos despedimos na porta da escola, fico sempre com uma certeza: I will miss you.

A bolsa da Dona Jacy

Ilustração: Andrea Joseph/Flickr.com

Em (quase) qualquer lar do planeta é assim: a gente procura uma lembrança e se depara com outra. Quem nunca foi atrás do álbum de casamento e encontrou uma fotografia do pré-primário? Ou tentou localizar o telefone da madrinha numa agenda antiga e deu de cara com o do ex-namorado? Somos todos colecionadores de saudades.

Dia desses, uma das minhas cunhadas buscava nos armários uma mala para usar no final de semana. Achou. E acabou fazendo uma viagem inteira dentro dela. Só que ao passado. Entre quinquilharias, como uma régua com o logotipo do Banco do Brasil, medalhas e um missal, as preciosidades: quatro bolsas da Dona Jacy que, em rima triste, não conheci. Dona Jacy, mãe da cunhada, é também mãe do meu marido, mulher do meu sogro, avó dos meus filhos. Minha sogra. Uma das bolsas é vermelha, está com o fecho quebrado. Outra é branca. A preta ainda guarda um band-aid e o delicado par de luvas de cetim negro, registrando o último dia que ela a usou. E mais uma, de madeira. Um perfeito bauzinho, não fosse a alça lhe denunciando a função. Todas dentro do objeto inicial da busca – a mala – , enterradas no velho quartinho do quintal, endereço certo para o que ninguém quer mais. Naquele instante, desenterrava-se o que não merecia estar sepultado. Ainda havia vida pulsando naquelas bolsas.

É raro uma mulher emprestar sua bolsa à outra. É objeto pessoal, igual escova de dente. Nunca se sabe se a outra vai cuidar bem dela, se vai colocá-la no assoalho do carro porque as compras ocuparam o banco inteiro, ou se vai esbarrá-la, acidentalmente, numa parede com tinta fresca. E se a bolsa vai e não volta no prazo combinado, véspera da festa onde se pretende usá-la? Melhor evitar a saia-justa, o fim da amizade, o holocausto. Bolsa não se compartilha, e ponto. Mas não dizem que toda regra tem sua exceção?

Há dezenove anos as pobrezinhas das bolsas de Dona Jacy não davam um passeio. Esta semana, porém, encerraram o jejum. Ganharam novas donas. Vão todas morar em outros armários de mulher. Estão (bem) emprestadas, conforme reza a exceção. Repartidas entre as cunhadas e eu, a nora. Fiquei com a de madeira. Para combinar com meu elemento terra. Marido disse que se lembra da mãe com ela. Na hora, juro que vi uma lágrima ali.

Devo prestar atenção quando for usá-la. Não é bolsa de se levar o universo. Apenas batom, espelho e RG, para provar que sou digna de portá-la. Nela, não cabe a saudade do meu sogro e seus cinco filhos. Mas cabe a certeza de que tudo vive e revive, o tempo todo.

O melhor de tudo é que não tenho que devolvê-la. Dona Jacy não a usa mais. E nas festas aonde ela vai agora ninguém precisa de bolsa. A única condição, que eu mesma inventei, é eu passá-la a outra mulher da família, no tempo certo, perpetuando a tradição que acaba de ser criada. A pequena bolsa de madeira será, pela ordem natural, da minha filha, sua neta caçula. Que saberá a hora de emprestá-la novamente. Um dia, nas voltas que o mundo dá, ela acabará voltando para as mãos da dona.

Papel de parede

Arquivo (muito) pessoal

Coloquei uma fotografia da minha mãe como papel de parede na tela do computador. Por que é que nunca fiz isso antes? Dona Angelina em branco-e-preto, regador nas mãos, novembro de 1958. Grávida de meu irmão mais velho, seu primeiro filho que nasceria dali dois meses. Meu reino para saber o que lhe disseram, na hora do clique, que a fez rir daquele jeito.

Hoje de manhã ralhei com as crianças, mania de querer ficar de pijama o dia inteiro. Para fugir de mim, se esconderam, os dois, entre a estante e a parede. Voltei para o computador e peguei a avó deles rindo. Para mim ou de mim. Ou da estripulia deles. Acabei rindo junto. O que que tem ficar de pijama?

De pequena, eu achava a coisa mais fina do mundo casa com papel de parede. Para mim, hoje, ter tanta gente bonita vivendo comigo em casa é que é fina coisa. Tem sempre uma novidade. Minha filha aprendeu outro dia, na escola, aquela música:

Era uma casa muito engraçada

Não tinha teto, não tinha nada

Ninguém podia entrar nela, não

Porque na casa não tinha chão

Ninguém podia dormir na rede

Porque na casa não tinha parede

Se não tem parede, também há de não ter papel de parede. Descomplicaram a casa. E complicaram o velho álbum de fotografias. Cada vez que as professoras das crianças pedem foto, para uma atividade qualquer, lá vou eu correndo imprimir. Depois não tenho onde guardar. Não temos mais álbuns. Só os antigos, já com lotação completa. E pensar que há tantas fotos de minha mãe no computador, graças ao scanner. Dela e de tanta gente. As memórias agora são digitais. Todas as pessoas podem virar papel de parede, enfim. Coisa fina?

Tivesse eu feito isso antes, minha mãe também riria se visse a exposição de arte que as crianças organizaram há uns meses. Fizeram vários desenhos em papel sulfite e grudaram com durex na parede da sala. Achamos bonito e deixamos lá por vários dias. Agora, vira e mexe uma exposição se instala no mesmo lugar. Renovamos o estoque de fita adesiva. Nossa sala entrou para o roteiro cultural da família.

A filha da vizinha me perguntou outro dia, “Onde está sua mãe?”. Crianças ficam consternadíssimas quando sabem de alguém que não tem mãe. Eu deveria ter respondido que ela estava aqui em casa. Só não diria Dormindo dentro do computador. Ela não ia mais querer vir aqui.

Às vezes, penso que deve ser um bom negócio partir e poder continuar vivendo aqui e ali. Em fotografia, filme, carta, coração, retrato na parede. Gente que se foi cabe em qualquer lugar. Está liberta das amarras do espaço terreno, embora separadas de nós. Paredes grossas, essas do lado de lá.

Pensando bem, eu não daria meu reino para saber o motivo da risada na hora daquele clique. Eu sei: foi um anjo (que não saiu na foto) soprando em seu ouvido: “Você ainda vai se divertir muito com seus netos”.

Se, um dia, um anjo lhe soprar a mesma coisa, você também não vai rir?

Click!

Sabiá

Ilustração: Gustavo Peres/Flickr.com

– Então, você deixa o rádio ligado? Eu vou lá telefonar.

O dono do bar, um sujeito meio redondo, fez que sim. Ele saiu, parou no orelhão em frente. No bolso da calça buscou a carteira e, nela, o cartão telefônico. No da camisa, o papelzinho escrito a lápis, com o número da rádio. Apertou os olhos para ler a letra ruim do colega. Ligou. Ocupado. Ligou de novo. Ocupado de novo. Buscou o papelzinho, errara algum número? Mais uma vez. Sorriso abriu, estava chamando. Atenderam.

No estúdio, Antonio Carlos comandava o programa romântico das sextas-feiras. Os ouvintes pediam as músicas por telefone, ele punha no ar. Embromava um pouco antes, para dar tempo do Chico, o assistente, achar a canção. Puxava conversa com quem estava do outro lado da linha, fazia um gracejo se fosse mulher. Chico conhecia tudo. Era dizer o nome da música, um pedaço da letra, ou só cantarolar de leve, e pronto. Ele dava a ficha: é de Fulano, faixa tal, do disco assim assado. Assoviava uma canção na hora que o homem da voz de veludo atendeu Osmar naquela noite.

– Vamos ver quem está na linha, alô?

– Alô!

– Quem está falando?

– Meu nome é Osmar.

– Boa noite, Osmar! Você fala de onde?

– Do orelhão.

Chico, de seu posto, riu. Antonio Carlos fez sinal para ele ficar quieto.

– Qual música você gostaria de pedir nesta noite enluarada, Osmar?

– Eu queria ouvir Sabiá.

– Sabiá… aquela… do…

Osmar facilitou as coisas:

– Aquela uma – e pôs-se a cantar em sua voz miúda, medrosa – “Vou voltar, sei que ainda vou voltar…”

Antonio Carlos olhou para o Chico, que fez sinal positivo.

– Claro! Sabiá, linda música! O Chico, meu colega aqui, vai por no ar pra gente, num instante. Mas você é de onde, Osmar?

Hora da embromação.

– Sou de Santa Rosa dos Purus.

– E onde fica Santa Rosa dos Perus, Osmar?

– Purus. É Purus. Santa Rosa dos Purus. Fica longe, no Acre. Encostado no Peru. Pensando bem, o senhor até que pensou certo.

– Então é longe mesmo, hein, Osmar! – e Chico fez sinal, cadê a música? – Um abraço para o pessoal de Santa Rosa dos Purus!

– Ah, ninguém vai ouvir o senhor, não. Lá não pega.

O Chico vasculhou aqui e ali. Nada de sabiá. Osmar espichou o olho por baixo do orelhão. Sentiu vergonha, o dono do bar o escutando pelo rádio, aquela conversa mole.

– Osmar, e para quem você vai dedicar “Sabiá”?

Osmar trocou de ouvido o telefone.

– É para mim mesmo.

– Ah… Você não tem namorada, Osmar?

– Tenho não.

– Nem uma amiga, assim, especial?

– Tenho não, senhor. Vou dedicar para mim mesmo. Que esta semana a saudade bateu, tanto problema na vida, rapaz. Aí lembrei da música, minha mãe cantava quando eu era criança, sabe?

– Então pronto, Osmar! Dedique a canção à sua mãe! Mesmo que ela não escute na rádio, vai ouvir com o coração.

Antonio Carlos tinha a voz bonita, e dela saíam palavras bonitas também.

– Que vai, vai. Eu sei. Mas minha mãezinha está quietinha lá… Se ela sabe que eu estou sentindo saudades, se dana a chorar, não para mais.

– Então para um amigo daqui, Osmar. Dedique “Sabiá” pra um amigo!

Osmar foi se aborrecendo. Diacho. Então, não podia dedicar uma música para si. Tinha que ser para outra pessoa. Se tudo que ele fazia na vida já era para os outros. Os prédios de vidro que ajudava a erguer. O salário que ganhava e da metade ele não via a cor, ia para a família. A roupa que ajudava a passar na pensão, para o mês sair mais em conta, tanta camisa que meu Deus do céu. Tudo para os outros. Ninguém nunca dedicara uma música para ele. Queria, então, se dar um agrado. Quer dizer, queria mesmo era voltar. Como na canção.

– Amigo eu tenho, sim. Mas está tudo no Acre, já disse ao senhor que ninguém vai ouvir.

Chico fez sinal. Encontrara. Mas Antonio Carlos, inconformado, insistia na dedicatória.

– Nem um bichinho de estimação, Osmar?

– A dona da pensão não deixa. Olha, o cartão vai acabar. Se o senhor fizer questão, invente aí uma pessoa…

E a ligação caiu.

Osmar voltou ao bar e fez sinal para o dono, que lavava os copos, para mudar de estação. Ele enxugou as mãos no avental, achou a ideia ótima. Era dia de jogo, iam transmitir ao vivo. Osmar sentou-se em seu canto, beliscou a mandioca que já esfriara e serviu-se da cerveja que já amornara. Viu a gaiola pendurada logo acima da geladeira, um pano de prato com motivos de Natal cobria-lhe uma parte. Ao lado, uma imagem empoeirada de São Francisco de Assis (que não deixa de ser Chico). Pensou em sua sabiá, que àquela altura voava solitária nas ondas do rádio, sem ele.

– Tem nome, esse passarinho? – Osmar quis saber.

O dono do bar agora secava os copos.

– Uns chamam dum jeito, outros, de outro. Tem nome, não.

– Então vai se chamar Tom.

O homem olhou o bichinho, mudo em seu poleiro. Concordou. “Até que Tom combina”. Riu-se e foi ter com os fregueses que acabavam de entrar. Aqueles trabalhavam na madeireira da rua de cima, e eram chegados numa confusão. Não podia bobear.

De peito aberto

 

Ilustração: Marc Palm/Flickr.com

Ontem foi dia de mamografia. Exame de rotina, Doutora Clara diz que, com meu histórico, não se pode bobear. Obedeço. Além do mais, minha mãe dizia que mulher precisa se cuidar. Plantou essa semente em mim, trato de cultivá-la. Duas vezes por ano, sou virada pelo avesso, comprimida, vasculhada. Fuçam tudo lá dentro, medem, comparam. Posso não conhecer na íntegra o meu ‘eu interior’, mas os médicos, sim. Ave, inventor do Raio-X. Antes de sair de casa, não rezei. Se, por acaso, houver algo nos meus peitos, já está lá, mesmo. Depois a gente vê. Essa é uma prece que deve ser diária. Mais de agradecimento que de pedido, bom lembrar.

Minha mãe teve um nódulo no seio, e soube dele o tempo todo. Não contou para ninguém e não fez exame algum, numa espécie de ‘faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço’. Nem precisou. Quando procurou o Doutor Fuad, era tarde. (E eu fiz minha mamografia ontem à tarde. ‘Tarde’ é mesmo uma palavra cheia de nuances.) Aquele nódulo deu um nó nas nossas cabeças. Pouco tempo depois, apareceu um na minha garganta. Aprendi a conviver com ele. Só dói de vez em quando, quando engulo uma saudade meio grande.

Na sala de espera da clínica as grávidas se abanam, enquanto tentam dar conta dos cinco copos d’água que alguns exames exigem. Um ou outro marido acompanha, entretido com os jornais que ficam sobre a mesinha. Eu, que já encerrei a produção de filhos, prefiro as revistas, para me atualizar sobre quem casou e quem descasou. Assim a cabeça não inventa coisas. Quando me chamam, já sei. Devo me despir naquela salinha, avental aberto na frente, só um minuto, a médica já vem. Eu poderia trabalhar ali, conheço o script inteiro. Na hora do exame, procuro não fazer nenhuma gracinha típica da situação. A enfermeira conhece todas de cor e salteado. Qualquer tentativa de animar o ambiente será um martírio para ela, cuja rotina consiste em encaixar no aparelho de dois metros e meio de altura e ares de big brother as mamas da mulherada – cada uma com dimensões e sensibilidades distintas –, pedir para que tenham paciência, só mais um pouquinho, pronto. São cerca de trinta exames por dia, a enfermeira contou. Quantos daqueles resultados vão dar nó nas cabeças das suas donas?

Depois de operada, minha mãe inventou um jeito de disfarçar a ausência compulsória de uma das mamas. Um sutiã com bojo recheado de sementes, não me lembro de quê. Calibrava a quantidade em frente ao espelho, o peso e o formato ficavam parecidos com os de um peito de verdade. Bem mais em conta que os sutiãs de silicone industrializados. Hoje sei que ela carregava em si mais que as sementes estéreis do sutiã, fadadas a nunca brotar. Forte como uma árvore, minha mãe tombaria anos depois, vencida mais pela exaustão que pelo câncer. Colhi as sementes que sobraram e as guardei. Por isso, visito sempre a clínica.

Costumo receber boas notícias nesses exames. Depois de amanhã, Doutora Clara há de ficar feliz. Minha mãe, de certa forma, também. E eu, de uma vez por todas, saberei: suas sementes vingaram, sim.

O peso do tempo

Era hábito: parar nas farmácias perto de casa e me pesar nas enormes balanças. Aquelas, antigas. Aferição sem compromisso, meus (poucos) quilos de criança não importavam. Em jogo, apenas o ritual. A parada era o imprevisto, previsto no meio do caminho para comprar o pão do lanche da tarde, o papel almaço para a lição, o bife do jantar. Pousar na balança significava congelar o tempo por um instante, enquanto a rua e sua gente mantinham o ritmo do lado de fora da farmácia. Ao descer da balança, me esquecia do que o ponteiro havia dito e retomava meu passo na coreografia bem ensaiada do dia. O bairro tinha seu balé.

Toda farmácia que se prezava instalava sua balança de propósito perto da porta. Era o convite, a desculpa, o pretexto para entrar. Todos eram bem-vindos, mesmo quem não estava atrás de comprimido para dor de cabeça, injeção, pomada para queimadura. Nas balanças, vi meu peso crescer através das décadas e das dezenas. Trinta, quarenta, cinquenta quilos. Encostei nos setenta, nas vezes em que havia outra pessoa dentro de mim.

As balanças de hoje não convidam mais ninguém a entrar nas farmácias. Encolheram, esconderam-se, são eletrônicas, precisam de tomadas, pedem moedinhas para ver se o peso está de acordo com a altura. As antigas não queriam nada de nós, além da breve companhia. Quem é que tinha ouvido falar em IMC?

Perdi o hábito de entrar nas farmácias só para me pesar. Agora vou atrás de xampus, cremes e até remédios. Vez por outra, quando a balança está ao lado do caixa, verifico os quilos enquanto aguardo o troco. Mas eles continuam sem tanta importância, meu termômetro é a roupa. Reparei que as lembranças, estas sim, valem quanto pesam. E que o peso do tempo é a medida da saudade.

Os finados e o amor

Ilustração: Ciro Esposito/Flickr.com

Foi no dia de Finados que meus pais se conheceram. Ele gosta de começar a história assim: “No dia dos mortos, dois vivos se encontraram”. Ela morreu no dia dos Namorados. Ainda não compreendi direito a relação que existe entre o amor e a morte. Só sei que no calendário um vem antes do outro.

Nunca visitei o lugar onde as cinzas de minha mãe foram lançadas. Combinamos: ela é quem me visita. Em sonho, roupa, fotografia, receita de panqueca. De tempos em tempos, tomamos um chá da tarde juntas. Mas falta algo nesses encontros. A xícara dela está sempre vazia.

Quando meu irmão mais velho entrou na faculdade, ela descobriu que estava doente. Escondeu a doença dos três filhos. Ao fazer isso, escolheu o caminho mais longo para salvar sua vida e, ao mesmo tempo, o mais curto para o fim dela. Só nos contou e procurou o médico cinco anos mais tarde, depois da festa de formatura. Teve tantos medos antes disso. De ser obrigada a parar de trabalhar, do meu irmão não poder continuar os estudos, num dominó de receios sem sentido (não para ela). Passados cinco anos daquela festa, a família se reuniu novamente. Desta vez, sem nada para comemorar.

Até hoje meu pai faz poesias para minha mãe. Na sua academia particular de letras, ela é a sua imortal. Sempre que ele vê os netos, lamenta ela não ter conhecido nenhum. Um pesar logo substituído pelas novidades do dia, as eleições, o calor, o livro que ele está lendo. É bom assim. Distração é o melhor remédio para a saudade.

Ontem encontrei o gorro dela, de lã cor de vinho, guardado no meu armário. Ainda tem a borboletinha verde costurada nele, ideia dela para aproveitar o enfeite que caíra de um grampo de cabelo. Na verdade, o gorro era meu e acabou ficando para ela, que o usava para se aquecer nos dias gelados, já sem cabelos por causa da quimioterapia. Agora ela não precisa mais dele, eu sim. Como é que se põe gorro no coração? Às vezes, o meu sente tanto frio.

***

Aqui no quintal de casa as sementes de ipê brotaram, a amoreira da rua de cima está carregada. Meu filho aprendeu a escrever, vive me mandando bilhetinhos escrito “eutiadoro”, assim, com ‘i’ e tudo junto. O machucado do meu dedo (quem manda brincar com tesoura?) já nem dói mais. Acertei fazer moqueca e a filha da minha amiga nasceu. No dia dos mortos, é bom falar de amor.

Buscadores de lembranças

Ilustração: Ravenelle/Flickr.com

Atire a primeira pedra quem nunca procurou ex na internet. Seja solteira, casada ou tico-tico-no-fubá. Feliz no casamento, nem tanto ou nem um pouco. Por saudade, curiosidade ou falta do que fazer. De qualquer idade. O impulso é democrático.

Vamos combinar: isso não constitui traição. Não representa, necessariamente, recaída ou interesse num revival. Nem é prova incontestável de crise conjugal, existencial, ou as duas juntas. Psicólogos de plantão que me perdoem, mas o negócio pode – vejam bem, pode – ser mais simples: trata-se de querer saber por onde anda quem um dia andou com você. Descobrir se engordou. Se está grisalho. Saber onde está trabalhando, se casou, teve filhos. Se terminou aquele mestrado em Direito Penal ou abriu um boteco. Se é feliz, se virou monge, se está em expedição na Antártida ou se alugou um apartamento no seu bairro. Ou se sumiu do mapa e há dois anos não telefona nem para a mãe no Natal. Sem motivações rocambolescas e, uma vez saciada a curiosidade, retomar os afazeres sem maiores inquietações ou aflições.

Para dar conta da atualização afetiva, com ou sem segundas intenções, quem precisa de vidente se existem os buscadores, as redes sociais? Google, 123People, Orkut, Linked in, Twitter, Facebook, todos podem dar boas pistas em poucos segundos, uma proeza para qualquer esotérico profissional. Vale quase tudo na hora de sondar um paradeiro. Que mal há? É preciso, porém, ter boa memória para fornecer primeiro nome, nome do meio e sobrenome, cuidado com os homônimos e paciência para varrer os resultados sugeridos – melhor incluir as aspas na pesquisa. Quem é tradicional recorre ao método antigo: liga para a amiga do primo da cunhada que trabalhava com o fulano, estabelecendo uma espécie de corrente investigativa. O sigilo, nesse caso, passa ao largo do absoluto. Não há política de privacidade e o ex vai ficar sabendo, o que pode ser boa ou má notícia, dependendo do passado – e presente – em questão.

Às vezes, nem se trata de um ex de verdade, como ex-marido, ex-noivo, ex-namorado. Somente um ex-quase. Ou sequer ter chegado a isso. O amor platônico da faculdade. O dono da academia de ginástica onde você queimou mais suspiros que calorias. O moço cheio de esperança que lhe entregou um cartão com nome e telefone numa livraria e você, boba, jogou fora. As histórias de amor que foram sem nunca terem sido. Por culpa do Cupido, que estava de folga no dia. Ninguém é de ferro. Para dar uma forcinha nos assuntos do coração na era da informação, Santo Antonio deve ter sido convidado a fazer parte do Conselho Executivo do Google. Será que ele topou?

Fazer essa busca na internet também pode ser tudinho que você está pensando. É parte de um plano de ataque, minuciosamente elaborado sabe-se lá por quais razões – afinal, ninguém tem nada com isso, exceto quem vai para escanteio logo, logo. Talvez, uma sessão nostalgia, com direito a imaginar o que teria acontecido, não fosse o adeus. O adeus de comum acordo. O adeus sem acordo. O adeus sem adeus. Para tal, as vantagens da internet são imbatíveis. Auto-serviço, razoável garantia de anonimato, flexibilidade de horário. E ainda é de graça. Pode-se apagar o histórico da fuçação no browser. Afinal, será difícil explicar depois que focinho de porco não é tomada. Na iminência do flagrante, alternar para a página previamente aberta de um jornal online e disfarçar – “Quem será que ganha no segundo turno, hein?” – é tão rápido quanto o piscar de um par de olhos ressabiados.

A internet, no entanto, não emite opinião. Não resolve angústias. Não faz terapia. Nem aconselha. No caso de se querer saber se o ex ainda sente alguma coisa por você, ou se vocês têm alguma chance, ela não serve. Aí, só a vidente. Porque nem o santo casamenteiro vai querer se meter nisso.

Carta para a amiga que foi embora

Ilustração: Tim Morgan/Flickr.com

Querida R.

Não estranhe receber somente agora esta carta, não é culpa dos Correios. Tenho essa mania de adiar as coisas. Fiquei sabendo que isso se chama procrastinação. E fiquei sabendo também que é coisa do meu signo, Touro.

Ainda estou triste por não ter me despedido direito de você. Como fazem as grandes amigas, quando uma delas está prestes a fazer uma grande viagem de avião. Por não ter telefonado para você dia sim, dia não, naquela primavera de 2003. Acabei perdendo seu, digamos, embarque. Sem direito ao último abraço, ou mesmo um aceno. É que seus pais ficaram com receio de me contar. Eu estava grávida, um barrigão deste tamanho. Nunca se sabe.

Sempre achei curioso o nome do que tirou você da gente: diabetes. Lembra ‘diabrete’, que é um diabo pequenininho. Pensando bem, nem é uma associação tão equivocada assim. Tal um diabinho, a doença pintou e bordou em você, que encarou tudo. Até transplante. Bonito, isso: primeiro, sua mãe lhe teve no corpo dela. Depois, com um pedaço dela em você, foi a sua vez de tê-la em si. O amor tem dessas: nos põe um dentro do outro.

Recebi a notícia dias depois. Foi como chegar atrasada ao aeroporto. Sua mãe contou para minha irmã. Que falou para o meu marido. Que me contou. Lembrei de nós duas no pátio da escola, finalzinho dos anos 70, ladeadas pelos amigos, brincando de telefone sem fio. A graça era quando o último entendia um absurdo qualquer, diferente do que o primeiro havia falado. Naquele dia, eu fui a menina da ponta. E entendi certo. Não valeu.

Quis que não fosse verdade. Quis não ser de Touro. Quis que você tivesse adiado sua viagem, também numa espécie de procrastinação. Mais três meses e você conheceria meu filho. Um pouquinho mais e me veria, pela primeira vez na vida, de cabelos curtos. Três anos depois, você pegaria minha filha no colo. Iria gostar de brincar no Facebook. De tomar café no Starbucks. De vir me visitar usando GPS. De ver o Obama na Casa Branca. E de ouvir a Céu. Porque o nome dela deve lhe inspirar mais do que a nós.

Sempre que eu penso em você, R., tenho a sensação de que você está perdendo um monte de coisas legais acontecendo por aqui. Talvez você, daí de onde está, tenha a mesma sensação – mas a respeito do que eu esteja perdendo.

Escreve, um dia, contando?

Saudades,

Olhos extras

A.K.M.Adam/Flickr.com

A gente deveria ter quatro olhos. Os dois já existentes, que olham para fora. E mais dois, que olhassem para dentro. Que fossem além do tal terceiro. Que pudessem ver a nascente do pensamento e descobrissem como é que surge esse nosso olhar para o mundo, para as pessoas, os bichos, as coisas todas.

Esses olhos extras veriam onde é que nasce o amor. Como ele se forma e de quê ele precisa para crescer. E também o que o faz morrer. Sabendo disso, talvez a gente se enganasse menos e se cuidasse mais.

Um par de olhos extras mostraria, com alguma exatidão, de onde vem o ódio e do quê ele se alimenta. Assim, bastaria negar-lhe o nutriente básico, essencial. Para vê-lo minguar, até sumir. Embora sempre vá existir quem goste dele bem gordo. Tem doido para tudo.

E a saudade? A gente costuma se enganar sobre ela. Olhos comuns, de olhar para fora, veem na falta – de alguém ou de alguma coisa – a sua verdadeira fonte. Às vezes, a tristeza. Mas só os olhos extras saberiam que é tudo culpa do apego, aquele sentimento que insiste em dizer que tudo é nosso.

Com olhos extras a gente poderia ver a raiz da dor. Dor de qualquer tipo: de coração, de cabeça, de cotovelo. A gente conseguiria vê-la como ela realmente é lá dentro, desnuda e chorosa. Sim, porque aqui fora todo mundo sabe os disfarces que ela usa.

(Pensando bem, deve existir quem já tenha esses olhos a mais. São as pessoas que a gente vive dizendo que não são deste mundo.)

Olhos extras também poderiam dizer onde, afinal das contas, se esconde a tal felicidade. Olhos comuns (os mais espertos, claro) já deram a dica: é dentro da gente. Mas a gente é muito grande por dentro. Dá preguiça procurar. Nessa hora, os extras, que também teriam boca e certo senso de humor, falariam bem baixinho ao pé do nosso ouvido:“Ela está em cada uma dos cem trilhões de células desse seu corpo. É só ligar os pontos, oras bolas.”