Não vai doer nada

                        arte: Shawn Campbell

Em trinta minutos terei dois dentes extraídos.

Dois, de uma vez. Até nisso sou metódica: simétricos na arcada, lá no fundo, são irmãos de função. Cada um em seu hemisfério.

A caminho do consultório e a título de abstraimento, aplico a autossabatina imaginária: qual a capital de Honduras? Quantas letras tem otorrinolaringologista? O pânico da cadeira do dentista, inevitável, chega aos poucos. É preciso distrair a mente, hipnotizá-la: “Não vai doer nada”.

Listo em pensamento os presidentes que o Brasil teve desde que nasci. Começo com o Costa e Silva, depois o Garrastazu (eu era criança e achava que Garrastazu era uma pessoa e Médici era outra). Geisel, Figueiredo, não vai doer nada, Tancredo, Sarney. Farol fecha, moleque (sem dentes) vem pedir dinheiro, deixo os presidentes para lá e a nova lista é das moedas. Fracasso nessa, confundo cruzeiro, cruzado, cruzeiro real. De real, apenas o prenúncio do gelo na espinha. Parto para os campeões das copas do mundo. Já é delírio pré-pavor: sequer assisto ou gosto de futebol.

Não vai doer nada.

Dó, ré, mi, fá, sol, lá, si. Agora de trás para frente: si, lá, sol, fá, mi, ré, dó. Tenho é dó de mim.

Na rua, sigo encarando pessoas a fim de adivinhar seus dentes. Quantos no ponto de ônibus têm todos os originais de fábrica? Quantos têm cárie, resina, amálgama, coroa, implante? Quantos usam aparelho? Quantos estão, neste exato instante, com dor? Quantos banguelas tomam o 332?

Em vinte minutos dr. Claudio aparecerá no corredor e me chamará. Por que não liguei avisando que não poderia vir? Diria que o gato passou mal, o pneu furou, assaltaram minha casa, levaram tudo. Inclusive, minha coragem.

É meu début na extração dentária. Conto aos amigos, para dividir a angústia, alguns me olham com superior desprezo: “Mas você nunca arrancou dente antes?”. Chego a sentir-me uma excluída dental. Daqui pra frente, porém, tudo será diferente. Faltam dez minutos. Não vai doer nada.

Sabedor do meu pânico, dr. Claudio me deu um Valium na véspera. “Tome-o meia hora antes de vir”. Obedeci e a estratégia parece funcionar. Já estou na sala de espera e posso jurar ter visto um gnomo no sofá lendo Caras. Que terá o elemental de gorrinho engraçado achado da fantasia da Claudia Leitte na Sapucaí? Aliás, quantos dentes ela tem? De leite, certamente nenhum.

Minha mãe, mais nova que eu, hoje, já não tinha nenhum dente. Usava dentadura. Naquela época, era assim que se fazia. Até dentes saudáveis iam para o beleléu, mesmo sem necessidade, facilitando a vida do protético. E na nossa família não se usava visitar dentista regularmente, era coisa de rico. Só quando o bicho pegava e, geralmente, era tarde. Nunca lhe perguntei se doera. E nunca gostei de sua dentadura.

Meus filhos vão ao dentista desde antes de saber andar.

A primeira vez que fui, tinha sete anos. Algumas escolas públicas mantinham um dentista que, de vez em quando, dava uma olhada na boca da criançada. Fazíamos fila e íamos para a inspeção meia-boca. O doutor me examinou por um instante e inquiriu: “Você come lápis?”. Respondi que não. Oh ingenuidade. Os restos mortais do Faber-Castell no. 2 nos pré-molares denunciavam a mentira.

Dr. Claudio me chama, tenta me animar, “Não vai doer nada”.

Não vai, uma ova. Pode até não doer fisicamente, as anestesias modernas são incríveis. É dor de medo, é dor de fragilidade, de invasão, de vulnerabilidade.

Onde está o gnomo? A Claudia e seus dentes de Leitte? Tudo que vejo agora é um dragão selvagem e mau, armado de um alicate gigante vindo em minha direção, fazer apoteose em minha boca. A Mocidade Independente falou este ano sobre o fim do mundo. Uma sessão no dentista é mais ou menos isso.

Nem capitais, nem presidentes, nem moedas. A única pergunta que sou capaz de fazer, agora, é desesperançosa e dirigida não à Claudia, mas ao Claudio:

– Acabou?

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8 comentários sobre “Não vai doer nada

  1. Também nessa semana resolveram extirpar um pouco do meu juizo, que andou se comportando mal e, por castigo, teve seu nervo atingido. “Vamos extrair que é mais simples do que fazer um canal’, me disseram. Acreditei. Não doeu, mas o vazio onde antes existia um quarto do meu juízo ainda não ousei tocar. E algo me diz que isso está errado, ficar com só 75% do juízo…

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  2. Sil, já sentia falta de seus ótimos textos. Esse então… Divertido e você soube com maestria expor o pavor de dentista. Não tenho, ainda bem mas conheço várias pessoas que dão cada pinote para desviar dos dentista rsrs
    Bj

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  3. Divertido, cômico e sagaz como tudo que escreves, óh amiga desdentada. Seus textos sempre mordem o leitor com vontade. Não há falhas; nem gnomos e afins.
    Bjs. Bom retorno.

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  4. Divertido, cômico e sagaz como tudo que escreves, óh amiga desdentada. Seus textos sempre mordem o leitor com vontade. Não há falhas; nem gnomos e afins.
    Bjs. Bom retorno.

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  5. Eba!!!! Que felicidade foi abrir meu email hoje de manhã e ver que tinha post novo!!!!
    Lembrei quando extraí o meu ciso …. que estava de ponta cabeça …. nunca tive esse medo todo de dentista, mas fiquei apreensiva … afinal, estava de ponta cabeça!!!! 🙂 beijos, Sil e bem-vinda de volta!!!!

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