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Wilson

O ano? Não me lembro. Estávamos no primário. Ao subir as escadas, estranhei os colegas no corredor, quando deveriam estar na sala de aula. Ninguém correndo ou fazendo bagunça, que seria o normal. Uns com olhar espantado, outros conversando baixinho. Perguntei o que havia acontecido. Um deles contou: O Wilson morreu.

Wilson era da nossa classe. Oito, nove anos? Fora atropelado na rua onde morava, enquanto brincava. Caminhão, disseram.

Até então, nenhuma criança, que eu tivesse conhecimento, havia morrido naquele nosso pedaço da Mooca. Tão perto de mim. O ineditismo da morte pegou-me de jeito. Um estranhamento, uma tristeza recheada de susto.

Não fui ao seu enterro. A professora deve ter ido. As aulas continuaram sem ele. Seu nome era o último na chamada. Que ficou mais curta.

Daquele dia em diante, a cada vez que eu passava pela rua Florianópolis, pensava nele. (Ninguém sabe, mas até hoje, se acontece de eu passar por ali, penso.)

Não que fôssemos grandes amigos. Pouco sabia dele. Se assistia Família Dó-ré-mi ou se preferia Perdidos no Espaço. Para qual time torcia. O que gostava de pedir na cantina na hora do recreio. Não conhecia seus pais. Mas era alguém que eu via todo santo dia útil, entre cadernos e livros e provas de matemática e brincadeiras no páteo. De repente, nunca mais.

A morte, às vezes, pode marcar mais que a vida.

Não há uma fotografia dele sequer em minhas recordações da escola, já procurei. Para lembrar de seu rosto, preciso me concentrar. Então, ele surge por alguns segundos, para logo se misturar com os de outros colegas e desfazer-se em uma imagem difusa. De concreto, apenas isto: Wilson, meu colega de classe no primário, morreu. Tinha oito, nove anos? Caminhão, disseram.

 

Nota: devo registrar, a título de assossego interno, que quando recebi a notícia dos colegas, ali no corredor, talvez por distração, ou por não ter ouvido direito, entendi outra coisa. Algo como o professor ter faltado, que não haveria aula. Soltei, para espanto geral, um infeliz “Graças a Deus!”. Só depois me dei conta do vexaminoso mal-entendido. Por instantes, fui a sem-coração da turma.

Saudade, 7 letras

arte: Ruth Eastman

A Madalena usava um salto deeeste tamanho. Entrava na sala, tec, tec, tec, subia no tablado (toda sala de aula tinha, para reforçar a hierarquia), colocava suas coisas sobre a mesa, apanhava o giz e anunciava, “Cruzadinha, pessoal!”.

Professora de Geografia, a mestre loura de sorriso largo era aficionada por palavras cruzadas. Dava a matéria toda assim. Canal que liga o Mar Vermelho ao Mar Mediterrâneo, 11 letras. Capital do Paraná, 8 letras. Até que era didático. Mas ela abusava do método. A turma virava cruzadista na marra.

Equilibrada em seus Luiz XV impossíveis, Madalena lançava o desafio no quadro-negro (que era verde) e a gente copiava no caderno. Era preciso atenção para não errar a quantidade de quadradinhos. Fiquei craque em desenhá-los, na horizontal e na vertical. Nem usava régua.

Em casa sempre tinha revistinha de palavras cruzadas. De pequena, eu gostava da Picolé, nível café-com-leite. Cresci, passei para as difíceis. Às vezes, dava uma espiadinha nas respostas na última página. Nunca admiti, porém. Trapacear nas palavras cruzadas é mais ou menos como colocar filtro no perfil do Instagram.

As revistas Coquetel seguem resistindo bravamente, mesmo em tempos de internet. São patrimônio do léxico brasileiro. Hoje dá para fazer palavra cruzada online. E qualquer pessoa pode, num clique, criar as suas próprias. Se tem o mesmo charme das antigas, não sei. Nostalgia, 9 letras?

Nostalgia é meu nome do meio. Sou feita de saudade não idealizada. Não é que eu queira reviver o passado. Adolescência, tirando meia dúzia de delícias, é fase esquisita. Não se é adulto, também não se é mais criança. O corpo indefinido, as ideias idem. Tantos medos esparsos, a maioria bobos. Meu desejo era poder, hoje, assistir às cenas vividas, feito espectadora. O filme da minha vida.

Rever os rostos dos antigos colegas de classe, e me ater aos dos que já partiram. Ver as velhas e pesadas carteiras de madeira do primário. O tampo da mesa era emendado ao assento do aluno da frente (quem foi o gênio que bolou isso?), motivo constante de problemas durante a aula, “Professora, fala pro Fulano parar de balançar, assim não consigo escrever!”. Ouvir o sinal do recreio, ver mais uma vez a cantina do Wanderley. O indefectível sanduíche de mortadela no pão francês com Guaraná Caçulinha de todo santo dia. O uniforme das aulas de educação física, meu pesadelo. O salto da Madalena era mesmo assim tão alto? E por onde ela andará? “Ô Ma… Ô Madá… Ô Madalê… Ô Madalelelelena, ô Ma”. Saudade, 7 letras.

Dizem que fazer palavras cruzadas rejuvenesce o cérebro, deixa o raciocínio mais rápido. Eu nunca mais fiz, ninguém aqui em casa tem o hábito. Mas vou montando as minhas, mentalmente. Organizando memórias num grande registro quadriculado, por vezes inexato. E não preciso mais olhar as respostas. Já estou nelas.

Caneta

A professora Genoveva Lé anunciou: “Hoje vocês vão usar caneta para fazer a lição.” Terceiro ano do primário, só dava lápis nos livros e cadernos. A caneta, portanto, representava um upgrade na minha vida escolar.

Fiquei secretamente eufórica. Estava, oficialmente, autorizada a usar a ferramenta de escrita dos adultos – como se meus rabiscos à caneta, em casa, não contassem. Olhei ao redor, os colegas também se sentiam assim? Não importava. Então pronto, eu já era grande. Isso bastava. Quando bateu o sinal da saída e eu cruzei o portão, devo ter descido a rua com expressão igual à da garota do comercial do primeiro sutiã.

A primeira lição à caneta é uma espécie de primeiro sutiã.

Sobre a máquina de costura da minha mãe, onde eu fazia o dever de casa (uma Singer com gabinete, quando fechava virava uma mesa), ajeitei caderno, livro, lápis e borracha para apoio moral, e a Bic azul. E se eu errasse?

O lápis era o cara legal, condescendente com meus erros. A caneta bancava a impiedosa. Com ela, sem o recurso do “branquinho”, que também estava proibido, era como gravar na pedra. Manejá-la demandava certeza. E alguma autoconfiança.

A professora ensinara a fazer tracinhos verticais, paralelos e levemente inclinados sobre a palavra errada, escrevendo a certa em seguida. O que era desvantajoso, pois revelava o erro. Se escrevesse ‘giboia’, ou confundisse um tempo verbal, ela ficaria sabendo. Para disfarçar, o jeito era encher de tracinhos, até que o erro se tornasse ilegível. Quem preferisse, poderia fazer a lição a lápis, e depois passar a caneta por cima. O que levava duas vezes mais tempo e não me parecia um bom negócio.

Nos dias seguintes, quando havia ditado ou problemas de matemática, a turma, na dúvida, perguntava com qual, lápis ou caneta, era para fazer. Crescer, às vezes, carece de confirmação.

Logo depois, fomos liberados para usar as borrachas bicolores, que prometiam resolver o problema das palavras riscadas, enfeiando a lição. A parte vermelha apagava lápis, e a azul, tinta esferográfica. Foi minha primeira decepção como consumidora. Além de não apagar direito, borrava o papel e, às vezes, o rasgava. Mas o importante é que eu havia sido promovida na hierarquia estudantil, deixando para trás o universo das criancinhas dos primeiro e segundo ano. Eu já tinha nove anos, oras.

Depois da caneta azul, pudemos introduzir a verde e a preta. Vermelha não, que essa era reservada à professora. Uma paleta bastante restrita, comparada ao arco-íris infinito das Stabilos de agora.

Hoje, quando digito no smartphone ou no notebook, é como se eu escrevesse a lápis o tempo todo. Escrevo, apago, reescrevo. Tenho à disposição uma borracha mágica, invisível e eficaz, que nunca acaba. E o melhor: não deixo rastro. Isso quando não sou corrigida automaticamente – o que pode ser tanto o céu como o inferno, mas essa é outra história.

Tecnologias à parte, a verdade é que as canetas seguirão registrando o mundo. E sempre haverá uma garotinha secretamente eufórica usando uma pela primeira vez.

Vergonha e orgulho

Cerimônia de formatura do ginásio, a 8ª A se despediria da escola. Paróquia São Pedro Apóstolo, na Mooca, 1981. Avisei meus pais, “Vai ser tal dia, tal hora”. Eu sabia que dificilmente eles compareceriam.

Por muito tempo, meus pais tiveram uma venda. Eu tinha seis anos quando eles compraram o ponto. Com a caçula na escola, ficaria mais fácil tocar o negócio. E meus avós tomariam conta dos três netos.

A rotina no pequeno armazém de secos e molhados era puxada. Segunda a segunda, sem direito a férias. O expediente começava antes de o sol raiar, quando inventaram de vender pão e leite fresco, e se estendia até a noite, com a homarada entornando seus cinzanos no balcão. Treze horas por dia pesando arroz e feijão para as donas de casa do bairro, fatiando queijo e presunto, moendo um quarto de café, contando dois cruzeiros de bala Juquinha para freguês-mirim que chegava cheio de moedinhas.

No dia da cerimônia, arrumei-me e fui. Espalhados nos compridos bancos de madeira, os fiéis pais, mães e parentes dos meus colegas de classe. Eu já estava razoavelmente acostumada a não ter meus pais nos eventos escolares, por causa dos horários da venda. Nas reuniões com os professores, meus irmãos faziam as vezes de responsáveis. Eles, que também eram tão novos.

Foi quando, perto do fim da cerimônia, avistei Seu Tonico e Dona Angelina atrás de um dos pilares, espichando o olhar para me localizar em meio aos colegas organizados em frente ao altar, para as últimas palavras do padre. Se conseguiram me ver, não sei. Mas eu os vi bem.

Em nada se pareciam com os demais presentes, tão arrumados. As mães com vestidos bonitos, penteados, unhas feitas, brincos, colares. Os pais de camisa passada, sapatos engraxados.

Sem tempo de passar em casa antes, os dois foram do jeito que estavam: com as roupas do batente e vestidos do cansaço de quem estava em pé desde as seis da matina, pesando cebolas e servindo pinga.

Ainda que eu tenha ficado contente ao vê-los – fecharam a venda mais cedo! –, senti-me encolher feito a Alice, depois de beber do vidro sobre a mesa, no país das maravilhas. Desejei sumir, me enfiar no confessionário. Precisava admitir a quem ali dentro estivesse (ou a ninguém, melhor ainda) que senti, sim, um fio de vergonha.

De quantos quilos de batata era feito meu vestido branco? Quantas doses de conhaque pagaram meus sapatos novos? Quanto pesariam, na velha balança Filizola vermelha, os livros e cadernos que me levaram até ali?

Quando a cerimônia terminou, fui ao encontro deles. Meu coração fatiado feito presunto. Ao abraçá-los, pude sentir o indelével cheiro do pó de café, invadindo a casa de Deus. Agora, todos os fiados do mundo cabiam no sorriso deles quando mostrei o canudo vermelho.

Então a vergonha, talvez por obra dos santos de plantão, transmutou-se em orgulho. “Pai e mãe, ouro de mina”, alguém já disse. E contar esta história hoje quita, de certa forma, a antiga pendência com o confessionário.

Formatura Sil Gallicho 8a A 1981 com Rosemeire de Lucca e Simone Cristina Augusto Rosa
eu (direita), arquivo pessoal

Memórias de uma ditadura militar

bandeira brasil pb

As praias do Brasil ensolaradas

Lá lá lá lá

O chão onde o país se elevou

Lá lá lá lá

A mão de Deus abençoou

Mulher que nasce aqui

Tem muito mais amor

Eu botava o disco na vitrola e ia para o quintal, brincar no balanço. Um compacto com “Eu te amo, meu Brasil”, d’Os Incríveis. Decorei a letra e cantava bem alto, enquanto ganhava impulso no balanço e via, atrás de mim, o quintal de ponta-cabeça. Era começo dos anos 70, Brasil tricampeão.

Pouco depois, em 1973, entrei na escola. Uma vez por semana cantávamos o Hino Nacional e hasteávamos a bandeira. Nada contra o Joaquim Osório ou o Francisco Manuel, tampouco contra o símbolo augusto da paz. É que eu preferia ir brincar no pátio com meus amigos. Achava normais, porém, os rituais cívicos. Assim como soavam normalíssimos os versos ufanistas de Dom e Ravel na canção.

Já no ginásio, aula de Educação Moral e Cívica. Muitos tinham medo do Professor Vadim. Eu tinha. Ele era baixo e andava com dificuldade, tinha uma perna mais curta que a outra e usava um calçado estranho. Não era por isso que eu o temia. Austero, não me lembro de um sorriso seu. Mas lembro do livro que copiávamos no caderno com letra bonita, fruto das aulas de caligrafia, lições sobre amor à pátria e de como deve funcionar um país. E, nas entrelinhas que eu ainda não podia ler, o que um brasileiro de bem não devia fazer, dizer ou pensar. Achava normal ter aulas de Educação Moral e Cívica. Assim como hastear bandeira fazendo continência, feito mini-soldados, cantar hino com a mão sobre o coração, brincar no balanço ouvindo “As tardes do Brasil são mais douradas, Mulatas brotam cheias de calor, A mão de Deus abençoou, Eu vou ficar aqui, porque existe amor”.

Na mesma vitrola também rolava Chico Buarque. Achava “Cálice” linda. Mas, aos doze anos, talvez considerasse apenas uma letra meio maluca que falava do Deus bíblico e do Deus mitológico Baco, com aquele negócio dos vinhos. Mais tarde, entendi a genialidade do Chico. Mas achava normal que ele, assim como outros, precisassem, para poder cantar os horrores que sabiam, disfarçar suas letras para driblar a censura que vigorava na ditadura militar. A normalidade pode ser um perigo.

Eu te amo, meu Brasil, eu te amo

Meu coração é verde, amarelo, branco, azul-anil

Eu te amo, meu Brasil, eu te amo

Ninguém segura a juventude do Brasil

Enquanto eu fazia coro com Os Incríveis no balanço do quintal, em junho de 1972, a um quilômetro e meio da nossa casa, uma moça chamada Ana Maria almoçava no restaurante Varela, também na Mooca, com mais três companheiros da ALN (Aliança Libertadora Nacional). Eram guerrilheiros, se opunham ao regime militar. Diz que o dono a reconheceu em um cartaz do governo que caçava “gente subversiva”, e resolveu chamar a Polícia. Ao saírem dali, foram mortos. Apenas um escapou. Eu, que passava sempre em frente ao restaurante, nunca imaginei. Só soube da história muitos anos depois, já grande. Desta vez, não achei normal. Nem Dona Anadyr e Seu Mário Henrique, os pais de Ana Maria Nacinovic. Para eles, era mentira o verso final da canção. Sim, conseguiram segurar a juventude de sua filha. E de tantos outros.

Tem um cigarro?

cigarro

Eu já quis ser fumante. Fiz força, dediquei-me com afinco. Irmão fumante, irmã idem. Tínhamos cinzeiros espalhados pela casa. Como é que eu, a caçula adolescente, ia querer ficar de fora do maravilhoso mundo da nicotina?

As propagandas da época, assim como as novelas, bem que tentaram me transformar em adicta. Nada mais cool que segurar um cigarro entre o médio e o indicador, soltando longas baforadas de um jeito meio blasé, enquanto engatava um papo cabeça com alguém. De preferência, sobre filosofia. O importante era ter charme.

Experimentei várias marcas, investi até nos mentolados – sempre escondido. O cigarro, no entanto, não me quis. Um relacionamento que nunca daria certo, eu deveria saber.

Se fumante é quem fuma, e ex-fumante é quem fumou e não fuma mais, alguém que desejou ser fumante e fracassou é ex-quase-fumante? Não há adjetivo para o meu caso. Nem explicação. Nunca aprendi a tragar, ardia a garganta. Trago direitinho, no entanto, as lembranças na cabeça.

Depois do colégio, eu e a amiga de pequenas, médias e grandes aventuras tomávamos o metrô na Luz e desembarcávamos no Jabaquara, onde ficava a garagem dos trens. Era lá mesmo que, escondidas, cometíamos o crime. Engasgando aqui e ali, rindo e tecendo considerações sobre o universo. Depois, metrô de volta e cada uma para sua casa, preocupadas em sumir com o cheiro que nos empesteara. Pastilha de hortelã e perfume. Não durou muito, o passatempo. Comecei a achar a coisa meio sem graça.

Mais tarde, eu precisava me enturmar na tribo dos bem-nascidos da FAAP, e a maioria fumava. Mas não queria dar bandeira, comprando cigarros perto de casa. Descia do ônibus na Praça da Sé e, antes de tomar o Cardoso de Almeida, elétrico que me deixaria na porta da faculdade, eu parava em um boteco perto do Páteo do Colégio e comprava meu maço. Que chegaria ao final da semana praticamente intacto. Eu me esquecia dele.

Comecei a trabalhar, agora os cigarros do pessoal eram outros. Tentei também. Queria expandir a consciência, ver coelhinhos azuis dançando ula-ula. E nada.

Então, desisti. Cigarrinho, só de chocolate da Pan.

Que não fazem mais.

Mortadela

O dindim para o lanche da escola tinha destino certo: sanduíche de mortadela e guaraná Caçulinha para acompanhar. Na minha tabela nutricional particular, não havia culpa, nem preocupação. Só alegria saturada.

A receita: pãozinho cortado ao meio, duas fatias – para justificar o preço camarada – de mortadela. Frio ou na chapa, dependendo do dia. Da escola, é a minha lembrança nota dez.

A mortadela divide opiniões gastronômicas e sanitárias. Posso afirmar, no entanto, que o sanduba de mortadela da cantina foi a síntese condimentada da primeira fase de minha vida escolar. Deveria constar em meu histórico acadêmico, ao lado das notas de geografia e matemática. Apesar de não botar a iguaria na boca há décadas, é dele que me lembro mais, tanto tempo depois. Das matérias, nem tanto. Quer dizer, nunca esqueci o que são, num verbo, radical e desinência. Achava linda essa palavra, desinência.

Vanderlei e Marli. O casal simpatia que tocava a cantina da escola, seu ganha-pão-francês. Como a dupla conseguia atender todos no breve recreio, era um mistério. Dava o sinal e um enxame de crianças famintas se aboletava no pequeno balcão. Que mané fila única, o quê. Éramos alunos selvagemente civilizados. Ou civilizadamente selvagens. Se eu fechar os olhos, posso vê-los na minha frente, entregando o troco que eu nem conferia e enfiava nos bolsos do avental branco.

(Parêntesis: espécie de jaleco, o avental era a alternativa prática e detestável ao tradicional uniforme. Ia-se com qualquer roupa por baixo. Charme zero, tornando impossível desfilar a Levi’s ou a US Top novinha em folha. O meu vivia rabiscado de caneta e encardido, o chão era uma extensão natural dos bancos. No fim do ano, os colegas o assinavam, como lembrança para a eternidade. A eternidade dos meus não durava muito e logo eles iam para o lixo.)

A distância entre os hábitos alimentares de uma geração e outra é quase abissal. Ninguém se preocupava com glúten, lactose. Teor de sódio e prazo de validade não passavam pela nossa cabeça. E sobrevivemos. Mudamos muito no quesito comida. Recebo reclamações constantes dos meus filhos, por não fazer batata frita. Belchior estava enganado: não somos e nem vivemos como nossos pais.

Quando terminei o ginásio e precisei me mudar de escola, foi do sanduíche de mortadela que mais senti falta. Na nova não tinha. Eram as frustrações da vida se apresentando, fatia por fatia.

Nunca mais entrei na velha escola. Os amigos daquela época, nunca mais encontrei. O Vanderlei e a Marli? Nunca mais os vi.

Parece que toda saudade vem com um “nunca mais” dentro.

O gato preto

gato preto

Naquela manhã eu jogava conversa fora com os amigos nos jardins do Liceu (aula vaga ou intervalo?) quando o vi, através das grades do muro, passar pela calçada.

Tanta gente circulava pela rua Cantareira. E fui botar reparo no homem estranho, mal-ajambrado, de olhos vidrados e andar amalandrado. Na verdade, não foi nele que grudei os olhos. Foi no gato.

O homem trazia um gato preto ao colo. Levava-o junto ao peito, segurando-o firme pelas patas. O olhar do bichano era tão vidrado quanto o do homem, as orelhas estrategicamente abaixadas, para trás. Então eu, intuitivamente, soube. Ele, o gato, estava em perigo. Não pertencia àquele homem. Fora capturado. E, pelo jeito, estava prestes a virar tamborim. Ou despacho na encruzilhada.

Ninguém percebeu. Exceto eu, que nada fiz. E lá se foram, o gato e seu algoz. Pude ouvir seus miados, graves e agônicos. Os gatos sabem.

Eu quis fazer algo. Mas os alunos não podiam sair, sem autorização dos pais, antes do fim das aulas. Qual minha justificativa? “O homem vai dar cabo do gato, pelamor, abre esse portão!”. Dramático demais. Ninguém daria crédito à adolescente riponga que estaria, claro, a fim de cabular aula. Vamos supor que eu saísse e fosse atrás do homem. Aos quinze anos eu já falava com estranhos na rua, mas não com tão estranhos. “Moço, aonde você vai levar esse gato?”. E vamos imaginar que, depois do conversê, ele topasse me entregar o felino. O que eu faria com ele? Na escola é que ele não poderia ficar. Levá-lo comigo? Metrô e ônibus até em casa. Que já tinha tantos gatos.

E se eu estivesse redondamente enganada, e fossem apenas um gatinho fujão e seu dono, homem de bom coração, que saíra em seu resgate? Ou uma alma caridosa, recolhendo das ruas o peludinho abandonado, para lhe dar um lar? Pronto.

Não consegui, no entanto, enganar minha intuição. Ninguém consegue, aliás.

Sem dispor de argumento razoável para sair da escola, tampouco para ir ter com o homem, me conformei. Mentira, não me conformei coisa nenhuma. Tanto que guardo a sombria história até hoje, numa caixinha preta feito o gato, em uma das prateleiras da memória. De tempos em tempos o gatinho mia e tenta escapulir dela, arranhando algum pensamento.

E, se a conto hoje, tantos anos depois, é para purgar, numa espécie de acordo de paz comigo mesma. Naquela manhã, eu nada poderia fazer. Se é que havia algo a ser feito. Quem sabe, o pretinho estava com sorte e conseguiu fugir, nos quarenta e cinco do segundo tempo. Para o azar do homem estranho.

A corda

pular corda
arte: Charlotte Voake

Um dia, ganhei do meu avô uma corda de pular. Não dessas de brinquedo, comuns. Corda de verdade. Seu Paschoal comprara na casa de materiais de construção. Compridona, cinco metros. Eu a levava, enrolada numa sacola, para a escola. E a brincadeira na hora do recreio estava garantida. Ninguém tinha igual. Cinco metros, meu bem.

Eu era boa de pular corda. As amigas, uma em cada ponta, começavam bem devagar e iam aumentando a velocidade. A modalidade mais rápida de todas se chamava foguinho, e não era para qualquer um – nem para quem pulava, nem para quem batia. Aprendi a entrar e sair com a corda em movimento, pensa que é fácil? Requer tanto cálculo quanto matemática, só que de outro tipo. Em matemática eu não era boa, não. Mas dava meus pulinhos.

E aquela corda virou, assim, uma espécie de unidade de medida, minha referência mental para tudo. Se eu queria calcular tamanho ou distância, bastava pensar nela. O Corcel do meu pai, que nós inventamos de pintar em casa e ficou bem feio? Uma corda de comprimento. Da sala até a cozinha? Uma corda e meia. O pinheiro da vila, plantado quando meu irmão entrou na faculdade? Ficou com duas cordas de altura, antes de ser cruelmente derrubado. Depois era só converter em metros, a unidade padrão aceita mundialmente pelos homens sérios que não entendem nada de pular corda, nem de pinheiros.

Aliás, ainda se pula corda? As crianças aqui do pedaço, não. Meus filhos nem têm uma – falha nossa. Dá tristeza pensar que, um dia, isso se torne coisa do passado. Feito latim, a língua morta. A gente sabe que existe, topa com ela de vez em quando, mas não usa para nada. O que foi feito do passa-anel, da uma-na-mula, do telefone-sem-fio, da cabra-cega, do corre-cotia, da amarelinha, do esconde-esconde? Sumiram dos páteos das escolas, das ruas, são brincadeiras mortas. A vida seria mais interessante se as brincadeiras legais de ontem andassem juntas com as brincadeiras legais de hoje. Pois cabem todas numa infância. Ou, quem sabe, isso é papo furado de quem já passou dos cinquenta, de gente que ainda fala papo furado. E sobre isso eu poderia falar horas. É só me dar corda.

Ontem me peguei tentando calcular uma distância no meu quintal. Recorri, sem perceber, à velha corda. Lembrei do Vô Paschoal que, se ainda vivesse neste planeta, faria 110 anos. Tentei medir o tamanho da súbita (quase doída) saudade que me deu dele. Não houve corda suficiente.

Lição de empatia

cesto lixo

Depois da aula, eu e uns amigos tivemos a brilhante, a estupenda, a fabulosa – só que não – ideia de virar o cesto de lixo que ficava na sala de aula, dentro da sala. Por que, nunca soube. Quando se tem nove anos, nem tudo carece fazer sentido.

Só que a mãe da Gislaine era faxineira na nossa escola.

Ela, claro, não participou da brincadeira sem graça. Quando viu aquilo, sentiu um misto de tristeza e raiva: “Poxa, gente. É a minha mãe que vai ter que limpar isso, vocês sabiam?”.

Gislaine usava óculos grossos, meio “fundo de garrafa”, como se dizia. Gostava dela. Quando chamou nossa atenção, fiquei desenxabida. A ideia não era chatear a sua mãe. Então, pensei grande: uma coisa era ela recolher o lixo naturalmente produzido nas salas, aquele que se acumula no final do período, papéis amassados, rascunhos de lição, restos de lápis apontados. Era o trabalho dela. Outra coisa, completamente diferente, era recolher um lixo intencional, jogado ali de propósito, quase na maldade (ainda que não fôssemos maus).

Mais tarde, pensei maior: a gente não deveria ter feito aquilo. Não porque se tratava de alguém com uma espécie de vínculo conosco que limparia a sujeirada. Uma pessoa teria que fazê-lo. E eu não gostaria de estar no lugar da mãe da minha amiga, ou de quem quer que fosse encarregado da tarefa.

Empatia também se aprende na escola. E nem precisa de livro.

Saudade da Gislaine.

Xilindró

cadeia

1980, temporada dos jogos inter-colégios. O nosso jogaria com o São Paulo, no centro da cidade. Da Mooca até lá, só de ônibus. Fomos, então, prestigiar o time. Tudo seguia nos conformes, quando uns garotos começaram a bagunça no coletivo. De repente, o estrondo. Haviam quebrado o vidro da janela.

O motorista para. Desliga o motor. Puxa o freio. Sai de seu posto e ruma ao fundão. Quem foi? Silêncio. Então vamos para a delegacia resolver isso. E não é que ele foi mesmo?

No caminho, gelei. Eu, treze anos, na delegacia. Teria direito a um telefonema? Sem advogado, restariam meus pais. Pai e mãe são nossos advogados eternos. Mas a gente não tinha telefone. Ligaria na casa 4 e pediria para a Dona Antonia dar o recado. Vexame. Já me via no xilindró, cabelos raspados, vendo o sol nascer quadrado, batendo caneca nas grades, tomando banho de sol com a galera. Não estaria sozinha, no entanto: meia dúzia de colegas da 7ª A dividiriam a cela comigo. Compadecidos, os professores nos visitariam no Dia das Crianças. Ninguém passaria de ano.

Enquanto lamentava meu destino, a turma de – no conceito do condutor enfurecido – menores infratores chegou à Delegacia. Colocaram-nos em uma sala. A maioria de nós não tinha culpa de nada, nadica. Mas como não houve delação, estávamos todos no mesmo barco. E agora, Dotô? Como é que volto pra garagem assim? – quis saber o motorista.

O delegado de plantão, sem nada mais grave para resolver naquele dia, nos mediu de cima a baixo. Iniciou seu sermão. Onde já se viu isso, a gente não tinha educação, nem respeito pelo patrimônio, que não acontecesse novamente, senão já viu. Ouvíamos calados, uns tremiam feito vara verde. Tudo piorou quando a Rô, usando uma saia que trouxera da Bahia, toda de rendas e franjas no melhor estilo boho-afoxé, numa atitude sem noção, resolveu apoiar o pé num cercadinho ao lado da mesa da autoridade. Tomou pito adicional, pobrezinha. Ninguém riu. O medo vencera. Vinte anos depois, perdemos a Rô. Meu coração ficou em cacos, feito a janela do ônibus.

Embora não tenha testemunhado o fato, tenho cá, até hoje, meu palpite sobre o autor do vandalismo. Fiquei de bico calado, no entanto. Vi-me no leito de morte, daqui a algumas décadas, chamando de canto o representante de Deus antes da extrema unção: Acho que foi Fulano, padre.

Sermão dado, lição aprendida, jogo perdido. Hora de voltar para casa. De ônibus. No trajeto, discutimos, apreensivos, se o episódio caracterizaria passagem policial, prejudicando nossas vidas dali para frente. Por via das dúvidas, ficou todo mundo comportado. Fichada, mesmo, é esta minha saudade de tudo e de todos.

À noite, quando meus pais chegaram, contei. Perguntaram se alguém havia se machucado. Não, pai. Quiseram saber se havia sido eu. Não, mãe. Sondaram o que haviam feito com a gente na delegacia. Só bronca, pai. Questionaram as minhas companhias. São gente boa, mãe. Disseram para eu escolher bem com quem andava. Sigo o conselho até hoje.

Contei da Rô, minha mãe não escondeu o riso. E fomos dormir. Certeza que o delegado, depois de despachar os baderneiros-mirins, riu também.

A química de Chico

átomo

Aos 15, eu vivia zerando nas provas de química. Passei de ano por encanto. Ao final de um semestre, fizemos amigo-secreto na classe. Quem me tirou? O professor de química. Ganhei dele Almanaque, do Chico Buarque. “Então, ele não me odeia”, concluí. Ouvi o LP até furar, decorei todas as letras. Decorar a tabela periódica, que era bom, nada.

Na mesma escola, em uma aula de português, dissecamos a letra de Construção. Eu, que até então me limitava a achar interessantes aqueles versos terminando em proparoxítonas, naquele dia descobri que havia neles muito mais. Elemento poesia combinado com elemento social. Química de Chico.

Aprendi que, na vida, a música é mais necessária que a química. A quem a gente recorre, nos encontros com os amigos, quando se está apaixonado, quando se está na fossa, na corridinha no parque, nas longas viagens de avião? Aos metais, não-metais e actinóides é que não. Nunca encontrei oportunidade para aplicar nenhuma fórmula química. Sei a da água, porque é famosa. A música? Uso e abuso.

A química, verdade seja dita, é onipresente. A cada vez que faço um bolo ela está lá, toda exibida. Não preciso, porém, saber os detalhes que fazem o quitute crescer fofo e cheiroso. Só devo tirá-lo do forno na hora certa, e comê-lo ainda quentinho, com café recém-coado. Ouvindo música, de preferência.

Ao lembrar das histórias, dia desses, preocupei-me. Que professor, hoje, dá disco do Chico a um aluno seu (mesmo que ele vá mal na matéria)? Está certo que nem se usa mais dar disco. Porque não se consome mais música como no meu tempo do colégio. Lembrei: a capa de Almanaque é um calendário. Calendário é uma espécie de tabela periódica. Teria sido uma indireta do meu professor?

Ontem, na volta da escola, a Nina contou que estão ensaiando A Banda. Sacou de seu caderno a letra, e veio o caminho todo cantarolando. Nina, pequena mulher em construção, quis saber quantos anos o Chico Buarque tem. “Acabou de completar setenta e três” – respondi. O número atômico do Tântalo.

Pela janela do carro, vi a tarde ensolarada do quase morno inverno desta cidade. E sorri, aliviada.

Please don’t go

fita k7
arte: Jess Wilson

A Sara, professora de inglês meio maluquinha, colocou suas coisas sobre a mesa e começou a escrever no quadro-negro a letra de uma canção. A 6ª B foi ao delírio: era Please Don’t Go. Agora poderíamos cantar direito o hit do KC and The Sunshine Band, e mais, saber do que se tratava. O que, aliás, foi bem decepcionante – não fosse pela melodia que grudava na cabeça feito a cola Tenaz que a gente comprava na papelaria do Seu Remo.

Copiei no caderno a letra, com letra bonita. Tenho uma fagulha de lembrança, inventada ou real, que a Sara levou um tocador de fita K7 no dia, pra turma ouvir e cantar junto. Corajosa, a Sara.

Foi assim que aprendi inglês. Ouvindo música. Também costumávamos ganhar, de vez em quando, uns folhetinhos simplórios com letras traduzidas, um oferecimento da Fisk, a escola de idiomas do pedaço. De graça, o folheto era bem disputado. Uma sorte, cair nas nossas mãos. O negócio era torcer para vir com músicas que a gente gostava. Geralmente vinha, eles eram razoavelmente antenados com os top hits.

Certa vez ganhei um com a letra de Follow You, Follow Me, do Genesis. A letra era fácil, decorei rapidinho. Não tem uma vez que eu não me lembre dos folhetinhos, cada vez que a ouço. Na verdade, acho que essa música me segue. Conto pro Phil Collins ou não?

Hoje qualquer pessoa, num clique, encontra a letra de qualquer música e pode traduzi-la para qualquer idioma. Please don’t go em quirguistanês ou birmanês? Se preferir iorubá, tem. Esloveno? Tem também. E rapidinho: apenas 0,4 segundos. O Google Tradutor tem um milhão de Saras dentro dele.

Meus filhos nasceram na era da abundância de informação, a um toque de distância do que desejarem saber. Podem ouvir todas as músicas que quiserem, saber as letras, as traduções, assistir aos videoclipes, ouvir um sem-número de versões. Não precisam esperar o professor de inglês colocar na lousa, tampouco alguém lhes arrumar um folhetinho. Talvez, justamente por isso, não se interessem. Vivo sugerindo que procurem as letras das canções que gostam, mas eles nem tchum. “Depois, mãe”. O mundo facilita demais para eles. C’est la vie. Ou, em bom zulu: lokho ukuphila.

Tenho um buscador de lembranças embutido na cabeça. Bem mais rápido que o do Google. Uso-o à beça, nem preciso de Wi-Fi. Uso meu HD, mesmo (às vezes, ele me prega peças, fazer o quê). Não carece sequer traduzi-las. Estão todas no idioma universal da saudade. E posso ficar tranquila, não preciso nem pedir por favor. Elas nunca, nunca não se vão.

Paralelas

listras 1.jpg

Não uma, nem duas; o negócio era agasalho de três listras. E tinha que ser da Adidas. Se tivesse o ziperzinho na barra da calça, então, era a glória nas aulas de educação física. As três retas, paralelas e mágicas, se encontravam no infinito do meu desejo adolescente. Habitavam o imaginário da escola inteira, do bairro, quiçá do planeta.

A matemática, exata e implacável, teoriza: três é mais que dois, que é mais que um. Três listras na roupa, portanto, era mais legal, mais bonito, mais tudo. Como as estrelas dos hotéis; quanto maior a constelação, melhor. Se algum colega aparecia tri-listrado, presente de aniversário ou coisa do tipo, logo se formava discreto burburinho, com breves notas de invejinha. A felicidade é ímpar.

O problema é que agasalho da Adidas era caro pra chuchu. Tive que me contentar com um genérico. Duas listras e só. Paciência.

Certa vez, uma colega apareceu na aula com um agasalho simplório, apenas uma listra nas mangas do blusão e na calça. A situação daquela família, concluí imediatamente, não deveria ser lá muito boa. Cheguei a ficar levemente compadecida, quis dividir meu lanche com ela.

Minha mãe não entendia o que tornava a terceira listra tão valiosa. Como se fosse espécie de terceiro olho, terceira margem do rio, terceiro segredo de Fátima. Eu não sabia explicar. Tal paixão cega, a minha pelo logotríplice também não se explicava.

Ontem saí com meu filho, ele está precisando de chuteiras. Quer uma da Adidas. Enquanto o vendedor mostrava os modelos e enaltecia a tecnologia do sistema de amortecimento, era para as três listras o meu olhar. As paralelas do meu passado, me reencontrando no infinito do presente.

Descobri que reparo nas listras dos outros. Se for agasalho esportivo, como os da Adidas, não tem jeito: conto quantas tem. Inconscientemente. Estabeleço, na hora, fugaz avaliação das pessoas com base na quantidade de listras que exibem – tal fiz com a colega da listra solitária. Com quem divido meu lanche, agora?

Meu filho não está nem aí com as listras da Adidas. Outros elementos na chuteira nova o encantam. Por exemplo, o craque que usa uma igual. Seus desejos são outros, diferentes dos meus, quando tinha sua idade. E, embora sigamos lado a lado, pode ser que eles se encontrem no finito das nossas vidas.

Tempo rei

ampulheta

Foi mais de uma vez: na volta do cursinho pré-vestibular, no ônibus que me levava até a Praça da Sé, costumava tocar “Tempo Rei”. Aquela, do Gil.

Às vezes, eu não tomava esse ônibus, e sim o metrô na estação Vergueiro, próxima ao cursinho. Um ia sob o chão, o outro, sobre. Dependia, portanto, do meu estado de espírito no dia. No metrô não tinha musiquinha ambiente, no ônibus tinha. E quase sempre tocava “Tempo Rei” durante o trajeto. Achava interessante a coincidência.

Foi bem mais de uma vez. Não fosse, eu não lembraria disso hoje, trinta anos depois. É que tocou “Tempo Rei” na rádio, enquanto eu fazia panquecas para o almoço.

Eu estava sempre cansada, por ter me levantado antes das seis e absorvido mais conteúdo escolar do que poderia dar conta. Carregando as apostilas abarrotadas de informações que, acreditava, me fariam entrar na USP, eu escolhia um assento perto da janela e sonhava com o almoço me esperando em casa. Quando minha mãe estava bem, às vezes tinha panquecas.

No ônibus, entre um bocejo e outro, eu acompanhava o Gil.

“Ensinai-me, ó Pai, o que eu ainda não sei”, eu pedia, em especial, para aquela parte dos logaritmos e exponenciais que costumava cair no vestibular. Nunca gostei dos números, nem eles de mim.

“Não se iludam, não me iludo”. A USP não era para qualquer um. E eu era, para todos os efeitos, qualquer uma. Não entrei. Só quarenta e um pontos na primeira fase da Fuvest. O tempo mostrou-me que isso, na verdade, não tinha tanta importância assim.

No percurso até a Praça da Sé, nada de Pães de Açúcar ou Corcovados. No ponto final, porém, uma respeitável – e um pouco esverdeada – Catedral da Sé. São Paulo nasceu ali. O meu marco zero foi na maternidade da Beneficência Portuguesa, no Paraíso. Perto do cursinho, aliás. O tempo é também rei do espaço, transformando as velhas formas do viver: levou-me para estudar, depois de grande, tão perto de onde nasci.

Da Sé eu ainda tomava outra condução até em casa. Um ônibus elétrico, que passava pela Mooca. Nesse, não tinha som ambiente. Ficávamos somente eu e meu pensamento, mesmo fundamento singular. E, claro, as apostilas pesando no colo. Tanta química. Para quê, ó Pai? Quase sempre, os cabos do ônibus escapavam dos fios elétricos suspensos no ar. O motorista parava onde fosse. Quem viesse atrás, paciência. O cobrador descia sem pressa, ajeitava os cabos, voltava ao seu posto, o motorista tocava em frente. Quando chovia eu ficava com pena do cobrador.

“Tudo permanecerá do jeito que tem sido” parece ser a máxima dessas três décadas: o cursinho ainda funciona no mesmo endereço. A estação Vergueiro do metrô, idem. Ainda há a linha de ônibus que tocava Gilberto Gil (se mantém a música ambiente, não sei). Praça da Sé e Catedral, claro, incólumes. Fucei o street view do Google e pasmei: o elétrico que me deixava a dois quarteirões de casa resiste no mesmo ponto e a linha sequer mudou o número.

Na minha vida, no entanto, não foi bem assim. Nesses trinta anos, que é tempo pra chuchu, pouca coisa permaneceu. Ninguém mais mora na nossa velha casa, exceto os fantasmas. Eu saí de São Paulo. Não vivo mais do meu diploma de bacharel em comunicação social. Não ando mais de ônibus, nem de metrô. Não tenho mais cabelos até a cintura, nem ilusões acerca do universo: “tudo agora mesmo pode estar por um segundo”. Não sei onde estão meus amigos do cursinho. Minha mãe não faz mais panquecas. E minhas ideias, no geral, são como os cabos do velho ônibus elétrico: às vezes, saem do lugar. Quando isso acontece, lá vou eu, sob sol ou chuva, ajeitá-las novamente. Ao menos, tentar.

Se o tempo é rei, a valentia é rainha.

Memórias olímpicas

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E era levemente careca, lembrei disso agora. Dona Yara, a professora de educação física da escola, tinha cabelos ralos. Antiesportista no layout, andava maquiada, os parcos cabelos presos num coque com laquê. Suas aulas eram monótonas e de pedagogia duvidosa: com frequência, sentávamos em círculo e um livro com as regras do vôlei era lido em voz alta pelos alunos, em revezamento. Bocejos eram inevitáveis. Mas o que pegava mesmo era o laquê.

Se vieram dali minha apatia pelos esportes e meu desinteresse nas olimpíadas, não sei. Só sei que fugi o quanto pude das aulas de educação física ao longo da vida escolar.

Usei de meios ilícitos para escapar das quadras ao escrever em minha própria caderneta recomendações expressas para que eu fosse dispensada dos exercícios, assinando i-gual-zi-nho ao meu pai. Às vezes, funcionava.

Assim como quem entra para o mundo do crime através dos delitos leves e logo já está praticando os hediondos, no colegial, atual ensino médio, rendi-me à falsidade ideológica. Comprei um atestado médico. Valia tudo para me livrar das aulas de vôlei, agora 100% práticas.

Eu tinha quinze anos e vi que as coisas não seriam fáceis. Para começar, eram dez voltas correndo ao redor da quadra. Depois da aula, determinada a resolver a parada, tomei o metrô e desci na Praça da Sé. Rumei à ladeira Porto Geral e caminhei até o Parque Dom Pedro II. Sobre a portinhola que levava a uma longa e estreita escadaria, a placa mal feita: “Médico”. Sem nome do doutor, sem CRM, sem especialidade. O cenário ideal para o crime perfeito.

O médico, um homem esquálido, sacou o receituário. “Vou colocar aqui que você sofre de lombalgia. Não tem erro”. Eu não sabia o que era lombalgia, dei-me por satisfeita. Qualquer coisa que me poupasse do horroroso shortinho azul de helanca do uniforme. Paguei, desci a longa e estreita escadaria e tomei o ônibus para casa. No trajeto, abri o envelope e abri também um sorriso. O médico acrescentara um adjetivo poderoso à minha lombalgia: “crônica”. Aquilo deveria ser suficientemente grave para eu ser mantida longe dos exercícios para sempre.

Dia seguinte entreguei, orgulhosa, o atestado na secretaria da escola. Reforcei junto à mocinha, que apertava os olhos para compreender a letra, “É crônica”. Vinte e quatro horas depois, quando eu já fazia planos para as três aulas vagas que teria na semana, o recado. A coordenadora queria ter um dedo de prosa comigo. Seria a prova de química, que eu havia zerado?

– Você tem algum problema de saúde, Silmara?

Rapidamente, associei o motivo da inquisição:

– Sim, tenho lombalgia. Crônica! – confirmei. Eu continuava sem saber o que aquilo significava (a doença e a falsidade ideológica).

Seguiram-se os piores momentos de minha temporada de Liceu de Artes e Ofícios. Pilhada em flagrante, tive crise aguda de arrependimento. “Se você tivesse esse tipo de lombalgia, Silmara, mal conseguiria andar!” – esbravejava a coordenadora. O agravante “crônica”, portanto, de nada valera. Ao contrário; complicara minha situação. Eu já era suficientemente conhecida da coordenadora, que presenciara minha agilidade pelos pátios. Não adiantaria explicar minha antipatia pelo esforço físico, minha ojeriza ao shortinho azul de helanca, nada.

Foi o fim das minhas idealizadas aulas vagas. Rendi-me ao shortinho. Nem pude ir reclamar no consultório.

Só fui ter sossego na faculdade, onde vi-me com autonomia para decidir sobre minha vida, meu corpo, minhas vontades. Uma injustiça crianças de nove anos não terem esse direito.

De lá para cá, motivada por súbitos desejos de bom condicionamento cardíaco, tonicidade muscular, capacidade aeróbica e barriga sarada, entrei em inúmeras academias de ginástica. Com os mesmos súbitos desejos, abandonei inúmeras academias de ginástica. Possuo um único par de tênis esportivos, adquiridos há doze anos em um de meus devaneios pós-parto, quando acreditei que somente a ginástica impediria que as pessoas perguntassem se eu, parida há seis meses, estava grávida. Recentemente, resolvi substituí-los, começaria nas caminhadas. Fui ao shopping, achei alto o investimento e retornei não com tênis novos, mas com novos óculos de sol – pelo mesmo preço, muito mais bonitos e úteis. Os tênis arqueológicos foram para o sapateiro. Bastou uma colinha, estão novos. Guardados.

Assumi, sem culpa, o sedentarismo como característica de minha personalidade, marca indelével de meu DNA. Não sei jogar nada, nem truco, nem Pokémon Go. Não fez parte dos meus sonhos ser ginasta olímpica, nem quando assistia a Nadia Comaneci voando graciosamente nas barras assimétricas. Não vibrei ao saber que o SporTV está com dezesseis canais em HD à disposição da olimpíada doméstica. Atestei para mim mesma que esporte não é comigo e pronto. De crônica, só minha escrevinhação. De olímpica, só minha nostalgia.

Mas em ano de olimpíada as memórias esportivas – ou nem tanto – vêm à tona. Faz tempo que não visito minhas velhas escolas. Nunca mais fui ao centro de São Paulo, há muito o Parque Dom Pedro II virou uma área feia e decadente. Terá o esquálido doutor se aposentado?

Assistirei a alguns jogos pela TV. Quem sabe, em um dos telões, verei flagrada n’alguma arquibancada dona Yara e seus bisnetos, agitando uma bandeira verde e amarela?

 

Para o Glauco Marques.

Jardim da infância

arte: Julie
arte: Julie

Não é o diretor, a pessoa mais importante de uma escola. É o jardineiro.

Um diretor cuida de alunos. Um jardineiro cuida de plantas. Todo aluno é uma espécie de planta.

Seu Clóvis era o diretor. Sisudo, austero e formal, como exigia o personagem. Sempre de terno cinza. De poucas aparições. Às vezes, surgia de surpresa durante a aula, tínhamos de ficar em pé. Eu tinha medo dele.

Seu Teodoro era o jardineiro. Amável, calado e introspectivo, como exigia o personagem. Sempre de macacão azul-marinho. Podia ser visto quase todos os dias entre as roseiras ou podando os pinheiros. Eu não tinha medo dele.

O que aprendi nos nove anos que passei ali, do pré-primário ao ginásio, o que absorvi das ciências e das geografias, o que sofri com as matemáticas e o que viajei com as letras foi definido, de certa forma, pelo Seu Clóvis.

Seu Teodoro não me ensinou nada.

É dele, no entanto, que me lembro quando passo em frente à velha escola estadual de primeiro grau. Seus pinheiros, ladeando a escola inteira, ainda estão lá. Não me parecem mais tão felizes como eram sob seus cuidados. Ou eu que prefiro pensar assim. A nostalgia é uma lembrança com photoshop.

Procuro o Seu Clóvis no Google. Encontro várias referências, memórias de ex-alunos – de amor e ódio – espalhadas nas comunidades virtuais e em páginas antigas do Diário Oficial.

De Seu Teodoro não se encontra nada. Ninguém parece se lembrar dele, quarenta anos depois. Exceto a garotinha sardenta que morava a um quarteirão dali. Se vivo, ele seria do tipo que não acessa internet, não tem email, nem smartphone. As plantas são a única, fundamental e melhor rede social para um jardineiro. Nem tudo precisa estar no Google para ser importante.

O nome Clóvis significa “guerreiro célebre”. Teodoro, “presente de Deus”. Nada é por acaso.

Da rua, não se vê mais o jardim do velho Teodoro através das compridas grades de ferro. Porque não tem mais grade. É tudo muro, agora. Sinal dos tempos. Só se avista, da rua, os pinheiros da cintura pra cima. Seu Teodoro certamente não aprovaria a tristonha intervenção arquitetônica que escondeu do bairro o seu jardim e, por tabela, suas crianças de uniforme.

Nunca soube o nome, nem o rosto, nem nada, dos outros jardineiros que assumiram suas plantas depois que ele foi embora. Nem nas escolas onde estudei depois. Deve ser por isso, e somente por isso, que chamam essa época de jardim da infância.

Encontro vocálico

Foto: Allison Fontaine-Capel

Nina vem mostrar a lição de casa: tem que pesquisar seis palavras com encontro vocálico. Não está nada contente. Está bem chateada, aliás. Diz que vai demorar muito, que é uma trabalheira, que é muito difícil e não conseguirá achar nenhuma nas revistas espalhadas sobre sua escrivaninha. Ela não sabe, mas só na sua ladainha já foram cinco encontros vocálicos.

Olho-a bem dentro dos seus olhos castanhos.

Devo lhe dizer que eu daria tudo, mas tudo mesmo, para que, no dia de hoje, sendo o que sou e estando onde me encontro, minha máxima obrigação consistisse em rastrear uma revista, localizar meia dúzia de palavras, recortá-las e colá-las num caderno?

Devo contar o quanto me faria feliz gastar o quê?, dez minutos numa tarefa, para em seguida estar absolutamente livre para flanar pela casa, ver TV, brincar com os gatos, ir ver se tem algum amigo na rua, ou, se assim eu quisesse, livre até para – veja só – ir dormir às oito e meia da noite sem dar satisfação, ou sequer precisar passar os olhos na agenda para planejar o dia seguinte?

Talvez, no fundo, seja minha missão maior lhe dizer que, ao longo da vida, ela topará e terá que lidar com toda sorte de encontros vocálicos. Uns bons, outros nem tanto, mas todos essenciais. Ditongos, tritongos, hiatos: patrão, angústia, saudade, dieta, doença, viagem, paixão, separação, alegria, desilusão, cefaleia, salário, solidão, frio. Bem mais que a meia dúzia que ela precisa recortar para amanhã. Não adianta explicar o futuro a alguém com menos de um metro e trinta e dentes de leite.

Ou devo apenas lhe dizer, como boa, assertiva e focada mãe, que ou ela pega firme na lição ou não tem Chiquititas depois?

Conheci o pai dela em uma noite de verão. Foi nosso primeiro encontro vocálico, ainda que não soubéssemos disso. Trocamos telefones, nos falamos dias depois, combinamos de sair. Um longo passeio foi nosso segundo encontro vocálico. Começamos a namorar, moramos juntos e nos casamos. Mas não noivamos e a cerimônia não teve véu, nem marcha nupcial; pulamos todos esses encontros vocálicos. Daquela noite de verão em diante surgiriam duas pessoas, seu irmão e ela. E, de lá pra cá, entre ele e eu, tem encontro vocálico toda hora. Bom dia, tchau, como foi o trabalho, me dá um beijo, boa noite. Nosso derradeiro encontro (ou será desencontro?) vocálico há de ser a viuvez, minha ou dele. Nossa lição de casa estará feita.

Nina vira a página e se anima. “Olha, mãe: ‘estação’!”, diz, caprichando na sílaba tônica. Enquanto recorta a palavra da página, pergunta em qual estamos. Respondo: outono.

Vê, filha? Encontro vocálico é o que não falta nessa vida de meu Deus.

Redação: Minhas férias

Arte: Mariana Valente
Arte: Mariana Valente

férias. [Do lat. ferias.] S. f. pl. 1. Dias em que se suspendem os trabalhos oficiais (datas patrióticas e dias santificados); feriado. 2. Certo número de dias consecutivos destinados ao descanso de funcionários, empregados, estudantes etc., após um período anual ou semestral de trabalho ou atividades. [Cf. ferias, dos v. feriar e ferir.]

Viu? O verbete não fala nada, nadica, sobre as mães. Mães, portanto, não pertencem à categoria de gente com direito a férias. Pode ser que estejam incluídas no “etc.” mas, verdade seja dita, não seria nada nobre. Mães não tiram férias nunca, nunquinha. Mesmo quando tiram. Não está na constituição, mas no dicionário.

O substantivo “férias” é comumente ligado a um pronome possessivo que, depois que se tem filhos, é usado em todas as pessoas, exceto na primeira do singular. As férias passam a ser dos outros ou deles. Predominantemente deles, os filhos. Ponto final.

Quando eu era criança, toda volta às aulas, em começo de ano ou primeira semana de agosto, vinha com o previsível e aborrecido tema para a redação: “Minhas férias”. Eu ficava entediada, porque nem sempre tinha coisas estupendas para contar. Raramente viajava. Brincava na rua, ficava acordada até mais tarde e escrevia no meu diário. Poderia, aliás, tirar uma cópia dele e apresentar à professora, todos os anos. Pouparia-me um trabalhão.

Se hoje eu tivesse de fazer uma redação assim, ninguém ia querer lê-la, ou eu tiraria zero, já que a deste mês começaria assim:

No primeiro dia das férias (deles) eu estava tomando banho tranquilamente, quando a caçula emitiu SOS lá da sala por ocasião de ter pisado, descalça, no cocô que a gata – adoentada e levemente incontinente – fizera no tapete.

Nos últimos trinta dias, eu não fui gente; fui uma espécie de entidade, cujas atividades consistiram em assistir Carrossel, passar filtro solar na cria e apartar brigas. Minhas frases se resumiram a “Larga esse iPad” e “Não faz isso com seu irmão”, com a variante “Não faz isso com sua irmã”. O episódio do cocô, felizmente, foi pontual.

Julho ainda não acabou, mas as férias, sim. As aulas recomeçaram ontem. Não se usa mais passar o antiquado tema para a redação. O assunto, no caso deles, fica para conversas informais com os professores e amigos. No meu caso, com o terapeuta.

Dezembro é logo ali, virando a esquina.

Memórias de uma boleira

Arte: Marie W.
Arte: Marie W.

Eu fazia bolo para vender na escola. Não lembro como comecei, nem por que parei.

Voltava da aula, tocava meus afazeres de estudante de segundo grau e me punha a preparar o bolo do dia seguinte. Com ingredientes de sobra – nada como uma vendinha na família – , eu buscava receitas no caderno da minha mãe e, vez em quando, inovava. Bolo de maracujá, bolo de café. O preferido da freguesia, no entanto, era o previsível e correto cenoura com chocolate. Aguardava esfriar, desenformava, partia em porções individuais, embalava. Aprimorei o negócio, passei a usar forminhas de papel. Fui precursora dos cupcakes e não sabia.

Manhã raiada, cadernos, livros, régua T (o curso era Edificações) e uma grande sacola tomavam o ônibus comigo. Ora rumo à Praça do Correio, ora à Praça da Sé. De lá, o metrô até a Estação da Luz. Descia em frente ao Batalhão de Polícia de Choque, a icônica Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar), que fica junto ao Regimento da Cavalaria 9 de Julho. Mais seiscentos metros a pé na rua Jorge Miranda, em meio aos cavalos em treinamento e seus cocôs deixados pelo asfalto, até meu destino, o Liceu de Artes e Ofícios.

O sinal do lanche tocava e eu assumia meu posto no fundo da sala. Abria o tupperware e vendia cada pedaço por um cruzeiro e cinquenta centavos. Não fazia planilha, posto que não havia despesa com farinha, nem ovos ou açúcar. Nem com o gás que alimentava o velho forno da minha mãe. Ou seja, lucro de cem por cento; uma utopia para qualquer empreendedor. Chegava a vender quarenta pedaços num dia. Considerando que houve época de bolo de segunda a sexta, em uma semana o faturamento líquido chegava a trezentos cruzeiros. Não tenho ideia de quanto seria em dinheiro de hoje. Certamente, nada mau para uma adolescente de dezesseis anos.

***

Sábado fiz bolo para as crianças. Um pandeló tão simples e eles lamberam os beiços. (Embora meu veredicto tenha sido implacável: “Ih, embatumou”.) Passei o final de semana com uma secreta vergonha, um engasgado arrependimento. Conto nos dedos de uma mão as vezes que fiz bolo ou algum outro doce para meus filhos. Rendo-me, invariavelmente, aos prontos da padaria. O que ganho em tempo, perco em sorriso. A conta não fecha.

Outrora boleira semiprofissional, meu destino, eu sei, é ser boleira afetiva. Conheço o preço de cada clara batida em neve e cada elogio; não viso mais lucro. O único prejuízo foi privá-los de quitute de mãe. Embatumado ou não, vale pelo resto da vida – deles e minha.

Agora, faço bolo de graça e acho graça. Estabeleço um cartaz imaginário e visito minha própria cozinha.

Crônica de minuto para quem sabe escrever

Arte: Chrysti

Filho recém-alfabetizado dá nisso: Nina escreveu o alfabeto inteirinho, de A a Z, sabe onde? Na colcha da cama dela. Novinha, acabou de ganhar. Catou a Bic e foi lá, treinar letra de forma.

Em seu papel de algodão cru, caprichou na caligrafia e expôs o recente aprendizado. Criança não diferencia os meios de comunicação autorizados dos não-autorizados.

Eu me lembro muito bem de, mais ou menos na idade dela, ter decorado a parede da sala de casa com uma canetinha. O “painel” consistia em uma longa estrada que nascia por detrás do sofá, subia e descia algumas montanhas, dobrava a quina e terminava atrás da poltrona. Fiz vários carrinhos trafegando, para conferir realismo à cena. Achei lindo. Não me recordo do que aconteceu depois. Considerando que podíamos brincar com as peças do aparelho de jantar da minha mãe, bem como com seus anéis e colares, a bronca pela estrada não deve ter sido tão feia.

E agora?, pergunto à Hello Kitty estampada na colcha. Mas que bobagem, as colchas não falam. Tampouco a gatinha do desenho. Através do seu olhar, ela chama minha atenção para o K e o Z espelhados e diz que é preciso falar algo à Nina. Que ainda não sei o quê. Faltam-me as letras.

Crônica de minuto para quem calça 28

Arte: Frank Douwes

Na loja de calçados para renovar os pisantes dos filhos – pé de criança cresce mais rápido que bambu. Por um instante, quis que não fosse verdade: a caçula tirou as meias e os sapatos para experimentar o modelito cor de laranja e uma generosa porção de areia, clandestinamente vinda do parquinho da escola, se espalhou pelo chão. A aula deve ter sido animada naquela tarde.

Vendedoras ocupadas, fregueses entrando e saindo, não cabia pedir uma vassoura. Tomei rápida decisão e fiz a primeira coisa (muito) feia do dia: discretamente, apanhei uma das meias e “varri” com ela a areia para debaixo de um pufe. É dessas lojas com vários, coloridinhos, para a criançada sentar e se esbaldar em meio ao mar de opções. Aproveitei e descarreguei ali os grãos que restavam nos sapatinhos dela.

Lá ficou a areia criminosa, sob a proteção de courino lilás. Uma das vendedoras, de repente, inventou de arrumar o lugar. Ajeitou sapatos nas prateleiras, recolheu pares separados e… decidiu alinhar os pufes. Rezei, vibrei, torci para que ela não mexesse no pufe “x”. Como explicar aquela areia ali, combinando perfeitamente com o estado do uniforme da minha filha? Mentalização bem sucedida, passei a fazer a guarda do pufe.

Ter filhos pequenos é autorizar a vida a nos meter em saias-justas, outorgar à humanidade o direito de falar mal de nós.

Crianças revelam as mentiras dos adultos com verdades inconvenientes (“Fulano, não fomos ao seu aniversário porque fomos viajar”, ao que elas prontamente rebatem, na frente do Fulano, “Não fomos, não! Ficamos em casa!”). Flagram o nosso mau comportamento gastronômico, se atacamos o Doritos antes do jantar. Lascam comentários desconcertantemente sinceros se ganham um presente e detestam. Criam na sociedade a convicção de que nada ensinamos a elas, quando saímos de um restaurante e percebemos que nossa mesa ficou interditada para faxina. Ou quando agarram dez coxinhas ao final da festinha do amigo, “Para levar pra casa”.

Abreviei a compra dos sapatos novos, torcendo para não ser delatada pelo mais velho. Certifiquei-me que o pufe continuava no lugar e fomos embora. Ninguém viu nada.

Síndrome da lição de casa

Arte: Michael Whitehead

Vertigem. Taquicardia. Náuseas. Ansiedade. Desespero. Não, não é a descrição de um episódio de síndrome do pânico. Sou eu, fazendo lição com meus filhos.

A aversão das crianças ao dever de casa é milenar, ancestral. Claro que elas preferem brincar lá fora ou assistir TV, a ficar debruçadas sobre os livros, aprendendo coisas cuja utilidade, ao seu ver, é questionável.

A lição surge como um monstro a assombrar seu tempo livre, semelhante aos assustadores seres sob a cama. Pais e mães, no afã de lhes proporcionar alguma educação, se tornam malévolos algozes, carrascos insensíveis, ao exigir-lhes insensatezes como sentar-se direito na cadeira, não abrir o apontador de lápis no tapete e iniciar as frases sempre com letra maiúscula. Não pode haver benefício educativo com tanto “Apaga e faz de novo”, “Olha o acento”, “Não fura a borracha com o lápis, menino!”.

Os sintomas da síndrome da lição de casa, que acomete genitores estressados, entram em ação na chegada da escola, com a temida frase “Tenho tarefa!”. Num crescente, a angústia se instala e, no meu caso, quando me dou conta, já são dez da noite e ainda falta o dever de ciências. Onde se compra Rivotril sem receita?

Mistérios insondáveis rondam o “para casa”. Quando é para recortar de revistas objetos começados com “a”, todos os objetos com “a” desaparecem das páginas. Idem para todas as outras letras.

É para mandar uma garrafa pet vazia até amanhã? Não há nenhuma em casa. Sendo que, semana passada, você enviou três para o reciclável.

Se a atividade pede uma biografia, o trabalhoso não é a pesquisa; é argumentar com o aprendiz por que ela deve ir além das datas de nascimento e (se é o caso) morte da pessoa. No ensino fundamental, escrever dez linhas inteirinhas está fora de cogitação. Principalmente, se o programa preferido na TV começa em quinze minutos.

Em casa, matemática – razões evidentes – é com o pai. Que leva vantagem, o mais velho é fera nos números. Faz os exercícios rapidinho, pula etapas do cálculo, que ele considera dispensáveis. Não puxou a mim. Sorte dele.

Já Português é departamento da mamãe aqui. Levo, apesar da familiaridade, significativa desvantagem: embora criativo, ele não gosta de escrever, é econômico nas redações, quer logo se pirulitar e ir jogar bola. Resmunga, chora, xinga, atira-se no chão no melhor estilo chilique-de-supermercado. A tatuagem em meu braço (“paciência”) não tem serventia alguma nessa hora, parece ter sido removida com uma espécie de laser imaginário.

A lição de casa, na verdade, é minha. Careço aprender, nas entrelinhas da pedagogia, que filhos não vêm prontos. São obras em progresso. E na maternidade, não tem decoreba. Nem dá pra colar.

Ao sucesso, com ou sem Hollywood

Antigamente, para ter sucesso, bastava fumar um Hollywood. Ao menos, era o que prometiam as lendárias propagandas dessa marca de cigarro, ao apostar na fórmula aventura & música.

Hoje, basta se matricular numa escola de inglês ou num curso de graduação. Nove entre dez desses anunciantes usam o termo “sucesso” para seduzir aspirantes a um lugar ao sol na praia corporativa. Como se sucesso fosse meio, e não fim. Como se garantia fosse para chegar ao topo. Topo? Só sabe do topo quem escalou montes, contemplou paisagens, sentiu o ar rarefeito, chorou ao pensar na família, achou que não ia dar, e deu.

Sucesso na vida profissional: procura-se a definição, desesperadamente. O estreito desejo de chegar à presidência da empresa a qualquer custo, ou a larga ilusão do contra-cheque de cinco, quase seis, dígitos, em troca de uma perigosa parceria com o tinhoso? Encravar-se na calçada da fama ou passear por ela, livre feito um passarinho?

O sucesso, talvez, seja mais simples: aquele diretorzão lhe parar no corredor para pedir uma dica – de qualquer coisa. Tirar trinta dias de férias, ninguém do escritório lhe procurar nesse meio tempo e, de verdade, tudo estar bem. A moça do café lembrar do seu aniversário, e lhe trazer um que ela acabou de passar. Acordar, nos dias úteis, de razoável bom humor.

Sucesso na profissão, para ser honesta, é ter um bebê em casa e conseguir dormir uma noite inteirinha, antes de ir trabalhar. Sucesso é seu filho brincar de ser você trabalhando – e se divertir muito. Sucesso é office-home, e não home-office.

Para não dizer que não se falou em flores, sucesso também é costurar o próprio vestido e as amigas perguntarem onde você o comprou. Alforriar os cabelos da chapinha e da escova progressiva – essas paroxítonas para suposta beleza. É o esmalte durar uma semana, sem lascar. Ter, todo ano, uma mamografia com resultado negativo.

Sucesso é ver o manacá que você plantou dar sua primeira florada. É clicar, no exato, único e derradeiro instante, o beija-flor na varanda lhe dando alô.

Sucesso é acertar o ponto da massa de nhoque, abrir embalagem de iogurte sem rasgar a tampa. Sucesso é apanhar a manga mais alta, suculenta e sem bicho, lá no sítio do seu pai.

Sucesso, sucesso mesmo, é apagar as velinhas no 115º aniversário, como fez a mulher mais velha do mundo, ano passado. É tirar “Let it be” no piano, depois de apenas dois meses de aula.

Sucesso é o cãozinho de três patas subir e descer escada, na boa. Ou aquele que saiu no jornal, só com as duas de trás, feliz da vida na sua cadeirinha de rodas.

Sucesso é terminar o quebra-cabeça de cinco mil peças. Caprichar num origami e todo mundo acertar o que é. Interpretar o I-Ching com a devida sabedoria. Sucesso é não desafinar na serenata. Sair na ladeira sem precisar do freio de mão.

Sucesso é aquele que vem atrás da gente, e não o contrário.

Sucesso é ter uma lista enorme de coisas que, se não levam ao sucesso, faz a gente imaginar que sim. Isso é Hollywood.

Portão da esperança

Arte: Shelly/Flickr.com

Seis da tarde, o carro azul emparelha com o meu, obedecendo a um resto de sinal amarelo. Pelo insulfilm vejo o motorista gesticulando, sorrindo, rindo. Na maior prosa, pelo retrovisor, com o passageiro no banco de trás. É um pai, eu sei. Do meu posto de vizinha temporária de trânsito, busco a identidade do segundo passageiro e avisto metade de uma cabecinha. É um filho, eu sei.

A história se faz pronta: um pai acabara de apanhar o filho na escola. A conversa dos dois, até em casa, será sua melhor reunião do dia. A mais produtiva.

Pais e mães que buscam sua cria nos portões das escolas têm sempre a esperança – cotidiana e automática – de que os filhos surjam, inteiros, n’algum ponto da colméia de alunos. Esperam levá-los para casa, como fizeram no dia anterior. Esperam saber, de novo, como foi a aula e o que teve no lanche. A cria também tem suas esperanças: de que a pessoa especial surgida na colméia de pais deixe o amigo dormir em casa e permita pular o banho. Portão de escola é uma ilha cercada de esperanças por todos os lados.

No programa Sílvio Santos havia um quadro chamado “Porta da esperança”. As pessoas enviavam cartas contando uma história, geralmente triste, e pediam para ganhar alguma coisa. Um jogo de sofá novo, uma bicicleta, um violão, um aparelho para surdez. Se escolhido, o autor da cartinha ia ao programa. Seu Sílvio ouvia a cantilena e partia para a costumeira encenação. Perguntava por que a pessoa queria o violão. Era para o filho que gostava de música, a família não tinha dinheiro para comprar um. Sílvio Santos fazia o suspense e anunciava, num dos bordões mais famosos da TV brasileira: “Vamos abrir as portas da esperança!”. Nessa hora, a câmera enquadrava o rosto do esperançoso e nele se podia ver a perfeita tradução da esperança. Com uma trilha transitando entre o meloso e o apoteótico, as portas se abriam e aparecia, ou não, o que tanto a pessoa desejava. Se o pedido não era atendido, o que se via era o vazio e a câmera enquadrava novamente o rosto do sonhador – que maldade –, agora estampado de decepção, frustração, vergonha e choro represado (ou liberto). Na maioria das vezes, porém, todo mundo ficava feliz. Inclusive eu, que assistia.

Portão de escola é mais ou menos assim. Só mudam os pedidos, menos tangíveis e muito mais simples.

Todos os dias, pais e mães (ou avós e avôs, numa perpetuação do ritual do qual talvez já foram também personagens) aportam na saída das escolas. Vão resgatar o que lhes pertence, o que apenas emprestaram à instituição durante o dia.

Com o mesmo olhar do homem que pedira o violão ao Seu Sílvio, desejam reencontrar o rosto único, inconfundível, mais lindo de todos. Eventualmente imundo, se foi dia de parquinho. O sorriso é fundamental. Quase uma garantia.

O portão da esperança, ao contrário do programa, não tem Sílvio Santos e já está aberto quando se chega lá. Mas os pedidos – que o filho conte uma novidade, nova ou velha, tanto faz; que tenha ido bem na prova, brincado com os amigos e sido querido por eles; que não tenha arrumado confusão e tudo esteja bem, enfim – correm enorme risco de serem realizados. Embora viver não seja tão simples quanto comprar um violão.

Eu envio minhas “cartinhas” e compareço a esse portão de segunda a sexta, no mesmo horário. E, desde quando minha esperança era apenas que meus filhos tivessem arrotado e feito cocô durinho, tenho sido atendida. As esperanças daquele pai que gesticulava e ria no carro, pelo jeito, também.

Vida e morte de uma redação

Ilustração: Darlene Carvalho/Flickr.com

Começo assim: “Então ele se foi, tão rápido quanto um vento tolo”. Paro e leio o que acabo de escrever. Já vi vento fresco, mas tolo? Troco por ‘bom’. Continuo: “Então ele se foi, tão rápido quanto um vento bom. Deixando, em mim, a sombra do que eu aprendera a chamar de felicidade”.

Carece agora explicar o que aconteceu. Falar, de modo breve e econômico, sobre o rapaz da história, que não era fresco, nem tolo, nem bom, mas que abandonara a mocinha, narradora, na véspera de seu casamento. Devo ser ousada nesta hora, o enredo é batido. Pior: não sei direito o que uma mulher sente numa hora dessa. Rôo as unhas e rascunho no canto da página: “Então ele se foi, tão rápido quanto um vento bom. Deixando, em mim, a sombra do que eu aprendera a chamar de felicidade. Nenhuma paz restará enquanto essa noite assustadora fria [assim ficou melhor] me acompanhar”.

Até que está bonito. Bem ao gosto da melancólica professora que, dizem, terminou com o namorado. Vai chorar até. E eu ganho nota máxima. Ou um zero bem redondo, dependendo do estágio do luto. E do nível da caixa de lenços de papel em cima da mesa. Meia hora para entregar. Vamos lá, força na caneta.

“Então ele se foi, tão rápido quanto um vento bom. Deixando, em mim, a sombra do que eu aprendera a chamar de felicidade. Nenhuma paz restará enquanto essa noite fria me acompanhar. Eu, que aceitara viver com ele pelo resto dos meus dias, lhe acompanhando numa eterna contradança no salão das nossas vidas, agora me via condenada a um triste solo”.

Agora ficou meio bobo. ‘Salão das nossas vidas’?

“Então ele se foi (…) Eu, que aceitara viver com ele pelo resto dos meus dias, lhe acompanhando num eterno pax de deux, agora me via condenada a um triste solo”.

Faltam dez minutos. Eu deveria ter escolhido outro tema. Bomba atômica, Copa do Mundo, Rock in Rio. Não sirvo para escrever histórias românticas. Como é que eu saio dessa?

A morte há de resolver a parada. Mato todo mundo: ele num acidente de carro; ela, de bala perdida. Tudo numa prosa bem parnasiana. Vão os dois para o quinto dos infernos, e eu me livro, em três linhas, de perpetuar a bobajada.

Passo a limpo, entrego a redação, não encaro a professora. A caixa de lenços está vazia. Danou-se.

Uniformes

Foto: arquivo pessoal

O útero é o primeiro uniforme que vestimos na vida. O único, verdadeiramente, a nos igualar perante o mundo. Com ele, somos só bebês em progresso. Um bando que ainda não conhece outro código de indumentária, nem precisa provar nada a ninguém. A não ser mostrar a papai e mamãe, no ultrassom, que o coraçãozinho está batendo. E bem forte, de preferência. Ao nascer, a igualha se vai com a placenta, e outras fardas virão ao longo da existência. Uniformes, geralmente, servem para lembrar que todos devem manter-se no grande caldeirão das ideias iguais.

No pré-primário, minha mimosa jardineira xadrez em branco e cinza, em par com a indefectível camisa branca, nem sonhavam com as fáceis camisetas em malha e bermudas de tactel que meus filhos usam para aprender o beabá. Fino e elegante, o traje guardava certa formalidade do universo adulto e, quase sempre, não combinava com as estripulias típicas dos seis anos. Depois do útero, a jardineira era o atestado da minha pertinência ao iniciático grupo que, em meados dos anos setenta, hasteava bandeira no pátio e cantava o hino nacional com a mão direita sobre o coração (o que eu achava meio chato, era antes do recreio e eu sempre estava com fome). Que sabia de cor a letra de “Eu te amo, meu Brasil” (eu cantava bem alto enquanto ouvia o compacto na vitrola). A canção, espécie de uniforme mental, foi uma maneira eficaz de manter muita gente – crianças e adultos – longe de saber o que rolava nos becos, sótãos e porões da ditadura.

Primário. A jardineira cedeu lugar à saia cinza de prega-macho com camisa e meia três-quartos brancas, mais sapatos pretos. Uniformes escolares, hoje sei, poupam as roupas de passeio. E fazem com que ninguém se sinta diferente de ninguém – essa é a parte menos interessante. Há o aspecto estratégico também. Um bando de gurizinhos do maternal vai passear no zoológico. Ajuda um bocado as professoras a turminha inteira de camiseta vermelha. Assim elas podem identificar, de longe, se um deles planeja um tète-a-tète com o leão.

Escolas inventam uniformes para a rapaziada e, metidas neles, as classes sociais se amalgamam. Raramente, porém, as regras descem aos pés. Só se percebe quem não tem direito o que comer em casa pelos sapatos. Assim, cada um vai com o que quer – e pode. A colega na fotografia de recordação do primeiro ano sabia disso. Foi a única a posar de chinelos. A única a não reproduzir a delicadeza das pernas cruzadas. E, quis o acaso ou não, a única com saia fora do padrão também. Não me lembro dela. Crianças diferentes fatalmente perdem o nome também. Quem notou? Sua mãe, ao ver a filha no retrato emoldurado em papel-cartão, tão diferente ao lado dos colegas ensapatados, escondera onde seu choro? Uniformes, às vezes, revelam seu viés mais triste: a acessibilidade concedida pela metade.

Ginásio. Saiu a saia de prega-macho, entrou o insípido avental branco. Das piores ideias da diretoria, posto que o jaleco deixava todos com ares de médico, farmacêutico ou cientista maluco. Fácil de tirar e por, não raro ele era abandonado sobre os bancos e chãos imundos durante algum intervalo ou momento de rebeldia adolescente. Ao final do ano, ele não passaria de um trapo, indesejado até pelas mães como pano de limpeza. Ao menos, a peça permitia certa liberdade de expressão no vestuário, ainda que oculta. O que, talvez, ainda não facilitasse muito a vida da colega dos chinelos.

Colégio. O nivelamento se dava apenas pela camiseta com o logotipo da instituição. Calça? Qualquer uma, desde que jeans. Houve, por um tempo, a não-obrigatoriedade do uniforme. Fiz a festa. Desfilei com confecções próprias e até pintei uma camiseta com meu próprio nome, escrita em letra cursiva sobre o peito, num arroubo exibicionista e autoafirmativo. Era meu uniforme exclusivo, pessoal e intransferível. Nunca houve foto de recordação com a turma, como no primário. Lembro-me bem, no entanto: todos tinham sapatos. Ou, ao menos, agora tinham.

Cursinho pré-vestibular. O uniforme perdeu sua força e passou a se revelar nas apostilas. Carregadas junto ao peito, embrulhadas nas mochilas ou arrastadas para lá e para cá, eram elas a me identificar nas ruas, ônibus, metrôs. Quilos de informação, deixando meu cérebro inutilmente gordo. Os sapatos já não importavam tanto. Um ou outro colega resolvia ir de chinelos às aulas, só para contrariar. Hoje, quem diria, chinelo é cool.

Faculdade. De outra natureza, agora os uniformes estavam mais próximos das fantasias. Eram grifes, viagens espetaculares de férias e carros – não meus –, autenticando, mais ou menos como os pirralhos no zoológico, quem era quem. Meu uniforme costumava destoar da maioria. Guardada a devida proporção, eu era a garota dos chinelos.

E chegou o dia que me libertei dos uniformes. Nem todos precisam de um perante a lei. É a minha constituição.

Pelo caminho

Ilustração: David Chilstrom/Flickr.com

Sei muito bem onde eu estava com a cabeça ontem, quando quase perdi a saída na rodovia. Eu tentava lembrar alguns trajetos que não faço mais. Os que foram minha rotina certa, familiar e previsível, por anos a fio. Os feitos a pé, ônibus, metrô, carro, quando eu tinha cinco, dez, quinze, vinte, trinta anos. E foi assim, brincando nos caminhos do passado, que quase me esqueci da trilha do presente.

Registro fundamental: o percurso de casa, meu marco zero particular, para a escola, que ficava na esquina. Aqueles duzentos metros deviam ser uma lonjura, posto que nunca me deixavam ir só. Alguém sempre me acompanhava. Cresci e fui autorizada à independência. Ia e voltava sozinha para a aula. O caminho de breves cinco minutos durou nove anos.

Nos finais de semana, de casa para a casa da bisavó. Esse, sim, longe. Cruzávamos os bairros a pé, minha mãe, minha irmã, minha avó e eu. Às vezes, minha irmã escapava. Mas eu era criança e ainda não tinha tanto poder de argumentação. Só me restava acompanhar os mais velhos em seus passeios e obrigações sociais. Lá havia chá-mate pelando de quente e com muito açúcar, servido nas xícaras de porcelana coloridas, tão finas que eu tinha medo de trincá-las com meus goles. E tinha sempre tios, tias e primos por perto. Os parentes gostavam daquele modelo onde várias famílias moram no mesmo quarteirão, e vão abrindo caminhos e instalando seus portõezinhos para conectar as casas. A visita era, portanto, quase sempre coletiva. Hoje eu me perderia por aquelas quebradas e não reconheceria a rua, nem a casa da minha bisavó. Nem ela, nem os parentes, moram mais lá. Os velhos portõezinhos fecharam-se para sempre.

Colegial. O mesmo ônibus, apanhado no mesmo ponto na rua de cima, com pequenas variações nas linhas, ao longo de três anos. O mesmo metrô. E do metrô à porta do colégio, seiscentos metros a pé em uma rua eternamente decorada com cocô de cavalo, visto que havia um quartel ali. Cavalos e soldados levavam-se para passear e, sabe-se, cavalo é bicho que não tem frescura. Faz onde dá vontade. Quinze para as sete da manhã e minhas narinas eram tragicamente acordadas. Saberia refazer esse percurso. Mas os cavalos continuam por lá. Melhor não.

Faculdade. O primeiro emprego. O segundo. Foram anos de trólebus, os varões sempre escapavam dos fios. Lá ia o trocador: pausava a aferição do dinheiro, pulava a catraca, descia do ônibus, encaixava os danados no lugar, subia no ônibus, pulava a catraca, retomava seu posto e a conferência. Eu tinha pena dele. E, hoje, não saberia mais fazer os trajetos dos ônibus. Ou saberia? Tem memória que funciona no tranco. Se embarcasse num trólebus, a primeira coisa que eu faria seria tranquilizar o trocador: “Se escaparem, deixa comigo”. Mais tarde, passei a navegar pela cidade sobre minhas próprias rodas. Pude escolher os caminhos, variá-los e errá-los. Por vezes, parei atrás de um trólebus e acompanhei, não sem impaciência, a velha missão do trocador. A gente se esquece das coisas muito rápido.

As ruas todas onde passei e repassei a vida, salvo algumas mudanças das mãos, permanecem em seus lugares, têm ainda o mesmo nome. Quando se faz o mesmo caminho todo dia, exerce-se sobre ele uma espécie de propriedade. “Meu caminho”. É para que a (necessária) mesmice cotidiana ateste o passo – e a posse – sobre a vida. Quando um trajeto é abandonado, deixa de ser próprio. Muda de dono. Como um objeto pessoal que foi doado. Separar-se de um caminho é exercício de desapego. E refazê-lo, seria de quê?

Meus trajetos, hoje, também correm o risco da deslembrança futura. Quanto a isso, parece não haver saída. Nem a que eu quase perdi ontem, na rodovia.

O telefonema da Dona Irene

Ilustração: Eurritimia/Flickr.com

Dona Irene foi professora da minha irmã em 1968. Ela tinha seis anos e estreava na escola. Como as primeiras coisas da vida geralmente ganham título de inesquecíveis – a exemplo de sutiã, emprego, beijo, carro –, com professor não é diferente. Salvo raras exceções, ele, que na maioria dos casos é ela, ganha aura especial, etiqueta de nobreza e carinho sem fim até o fim da existência. E, de vez em quando, acalenta no ex-aluno a questão: “Por onde andará?”.

Caso minha irmã tenha se perguntado isso algum dia, a resposta chegou via cabo, quarenta anos depois. Em sua casa, ela atendeu a um telefonema. Era a Dona Irene.

Não a descrevo porque não a conheci. E esqueci-me de perguntar à minha irmã, quando me contou. Mas vamos imaginá-la uma típica professora dos anos 60: cabelos presos, óculos, saia-lápis bem cortada. Além, claro, das mãos firmes e doces a guiar as dos pequeninos, e todos os demais predicados que uma docente deveria ter. Um personagem querido, enfim.

Prosearam uma prosa boa, as duas. Ela se emocionou ao saber que minha irmã havia se formado (sua missão estava cumprida), tinha dois filhos e estava feliz. Repassaram quatro décadas em poucas dúzias de minutos, com uma riqueza impressionante de detalhes, lembrados pela professora. Perguntou, citando nomes, pelos meus pais, meu irmão mais velho, que também fora seu aluno, e até por mim, que tinha um ano de idade, ou nem isso, na ocasião das aulas. Um caso de memória excepcional? Claro que não.

Concluímos, minha irmã e eu, que Dona Irene mantinha naqueles tempos um caderninho com informações sobre seus alunos. Nome completo, série, um ou outro detalhe… se era loiro, moreno, falante, tímido, inteligente ou sofrível. Coisa de uma jovem e zelosa professora que deseja guardar seus minialunos na lembrança. E, continuando o raciocínio, aconteceu do caderninho sobreviver ao tempo. A gente não guarda os nossos, do primeiro, segundo, terceiro ano? Professor também mantém suas relíquias escolares, diferentes das dos alunos. Quem sabe, Dona Irene vislumbrasse nele alguma utilidade no futuro. Quem sabe.

A nostalgia escorria pelo telefone, invadia o pensamento da minha irmã. Sua primeira professora, ali, do outro lado da linha! Como estaria seu rosto? E suas mãos, aquelas que lhe ensinaram as primeiras letras? Seria Dona Irene grande como parecia para minha irmã, em seu metro e alguma coisa de altura? Minha irmã se viu, ao mesmo tempo, em duas dimensões, passado e presente, a criança que gostava de andar com os pés dentro do bule e a mulher que se especializou em encontrar antepassados na internet. No meio de tudo, como num filme em fast-forward, relances da velha escola com seus pinheiros bem cuidados por Seu Teodoro, o jardineiro; a hora do recreio e o lanche preparado pela nossa mãe; o uniforme, os cadernos, as ingênuas composições sobre passarinhos que não têm peso na consciência, as tabuadas.

Lá pelas tantas, Dona Irene revelou o motivo da ligação.

A professora aposentada tem uma irmã, candidata a algum cargo político na cidade – vereadora, deputada ou coisa assim – numa dessas eleições. Sim. Dona Irene ligara para sua ex-aluna, que não via há quatrocentos e oitenta meses, para pedir voto.

Dona Irene deve ter tido um trabalhão para encontrar minha irmã. Consultado listas telefônicas do estado de São Paulo inteiro. Ligado para várias homônimas até achá-la. Crente que um voto pode fazer toda diferença.

Dona Irene, melhor pensar assim, não guardou o tal caderninho (se é que ele existe) com esse propósito. Se eu lecionasse, também gostaria de manter um banco de dados dos meus alunos, apenas para poder me lembrar deles depois. Um professor nunca sabe se, da sua turma, surgirá um gênio, uma lenda, um presidente da república. Já imaginou o orgulho?

Dona Irene, no entanto, parece ter encontrado uma utilidade para seus registros, onde e como quer que eles tenham sido salvos. Mas, cá entre nós, ela não precisava da artimanha. Distribuísse cem mil santinhos da irmã candidata e pronto. Passado bom não se revira.

Despediram-se, cada uma foi tratar de seus afazeres. A professora deve ter continuado a campanha com o próximo da lista. Minha irmã talvez tenha ido buscar a pizza na portaria, dado comida aos gatos ou sentado no sofá para assistir Friends.

Dona Irene, um quase-mito de infância para minha irmã, perdeu a oportunidade de perpetuar-se no rol das celebridades afetivas dela e de, quantos?, outros alunos daquela época, que também devem ter recebido sua intrigante ligação, mais de quatorze mil dias depois do último dia de aula.

Dona Irene, despejada do Olimpo, ingressara no mundo dos mortais. Dos pobres – e inconvenientes – humanos que pedem voto.

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[Nota: nem ia postar, dado o tema (escola) ter invadido o noticiário de maneira tão chocante e triste. Mas esta crônica já estava pronta. Paz para os jovens da escola em Realengo, no RJ, vítimas do massacre. Paz para seus pais. Paz para seus professores.]

Devaneios pós-férias escolares: como tudo começou

Descobri tudo.

Escolas, na verdade, foram inventadas para proporcionar a pais e mães – mais mães que pais – algum período livre durante o dia. Uma espécie de folga da cria, descanso fundamental nas tarefas inerentes à paternidade e maternidade.

Depois é que foram aperfeiçoando a ideia. Vislumbraram na instituição outras utilidades, como ensinar a ler e escrever.

E o que seria apenas um jardim da infância virou o jardim da pré-adolescência, evoluiu para um jardim da adolescência, culminando num jardim da juventude inteira. Depois que os jovens estivessem crescidos, donos dos seus narizes, morando sozinhos, trabalhando e pagando suas próprias contas, a escola estenderia sua função primária, e passaria a atender os filhos destes, depois os netos e assim por diante, num ciclo infinito.

O problema é que aqueles jovens já estavam, irremediavelmente, acostumados ao ambiente escolar, ao convívio com amigos e professores, ao recreio e seus salgadinhos, às vans, à biblioteca, às gincanas, ao centro acadêmico, às festas de formatura. Resolveram, então, continuar na escola. Surgiram, assim, as universidades.

Com o tempo, crianças cada vez mais novas – bebês de colo, inclusive – foram apresentadas ao maravilhoso mundo da escola, sob o pretexto de que tanto pai quanto mãe desejavam, ou precisavam, trabalhar fora. Balela.

Desconfio que, por trás da engenhosa criação, havia uma mãe à beira de um ataque de nervos, ávida por paz. Disposta a tudo para ter sossego em seu lar, e inteligente o bastante para conferir à invenção um sentido nobre e politicamente correto. Claro: para que não a chamassem de bruxa, livrando-a da fogueira.

Descobri, então. Não foi fácil.

Apontador

Ilustração: Smeerch/Flickr.com

Apontador de lápis é desses objetos universais que dispensam explicação. Todo mundo sabe para quê serve. Todo mundo já usou – ou usa – um. Toda lista de material escolar pede. E qualquer papelaria tem. Só há um problema: nenhum funciona direito. Nenhum.

Nunca vi um que apontasse sem quebrar a ponta dentro. Sem esmagar a madeira. Sem proporcionar a péssima sensação de que mais uma volta e tudo – apontador e lápis – se espatifará. Os que têm depósito são os piores. A tampa não fecha perfeitamente e, quando menos se espera, os restos mortais do pinus caribaea vão ao chão, formando um mosaico colorido ou preto-e-branco, definitivamente irrecolhível. Ou caem sobre o trabalho em andamento; você tenta recolher com a palma da mão e as raspas das pontas saem pintando tudo. Isso quando não se espalham dentro do estojo, que nunca mais será o mesmo. Dois anos depois ainda se encontrarão nele os vestígios do acidente.

Na infância, sonhava com aqueles apontadores elétricos, que eu só via nos filmes. O lápis sem ponta, murcho, deslizava buraco adentro e ziiiim!, saía renovado. Um fetiche escolar. Mas, além de caros, eles jamais caberiam num estojo. Continuava, então, com os meus, sem graça e defeituosos de nascença. Num dia ruim, poderia perder a metade de um lápis numa só tentativa de dar-lhe uma ponta nova. Esforçava-me para conseguir fazer uma volta inteira, para ver surgir na outra extremidade uma linda e delicada saia rodada, com barrado colorido e ziguezagueado. Desejava ser uma bonequinha miúda para vesti-la, antes que se quebrasse ao mais leve toque dos dedos.

Cresci e passei a achar lápis apontados com estilete um charme só. O processo exigia um cuidadoso ritual, que lhes dava um aspecto rústico. Único e individual, como pedia a crise de identidade na adolescência. E, tal o amor decantado pelo poetinha, infinito enquanto durasse.

Na fase adulta, quando os fetiches e o charme das coisas mudam de definição, adotei a lapiseira. Aboli, vitoriosa, o apontador. Sua inimiga está sempre apontada, pronta para o uso. Certa vez, encantei-me com delicadas miniaturas em ferro envelhecido. Eram aviões, canhões de guerra, navios, telefones antigos, instrumentos musicais. Foi com surpresa e decepção que descobri: não passavam de apontadores. Nada é perfeito. O kitsch venceu.

Filhos pequenos na escola, voltei a conviver com os apontadores. Descubro que agora eles são maiores, com personagens de desenho animado, têm formatos inusitados e preços injustificáveis. Viraram brinquedo. Continuam capengas em sua função principal, no entanto. Quase me rendo à nostalgia: onde é que foram parar os apontadores antigos, retangulares, simples, onde o máximo da variação era a cor? Nessa idade as professoras ainda não deixam usar lapiseira, muito mais prática, asséptica e econômica. Embora, admita-se, não tão charmosa. Mas as crianças precisam ter suas fases. Enquanto isso, o apontador de lápis parece não conseguir nem mesmo apontar uma solução para si próprio.

Lição de casa

Era para mandar pelo caderno duas figuras que representassem as profissões dos pais. A professora vivia pedindo coisas assim para as atividades em sala de aula. A princípio, ela achou interessante. Porém, lembrou que na sua época crianças de três anos não estudavam isso. Nem à escola iam, para dizer a verdade. Passavam o dia brincando em casa, construindo cidades imaginárias para seus carrinhos, fazendo comidinha para as bonecas, caçando tesouros no jardim. Se hoje, nessa idade, as crianças precisam encaixar na agenda estudos sobre profissões, alguma coisa vai ficar de fora. Porque o dia continua com as mesmas vinte e quatro horas.

Quando ela tinha três anos, eram vagas as suas noções sobre profissão, trabalho. Sabia que seu pai saía cedo de casa e só voltava à noite, às vezes dias depois. Ele sempre chegava com um brinquedo novo para ela e o irmãozinho. Sabia também que sua mãe costurava roupas para a vizinhança. Em troca, as vizinhas davam para sua mãe frangos, ovos, bananas, um quilo disso, um quilo daquilo. Então, trabalhar, que era aquilo que eles faziam todo santo dia para viver, deveria ser uma coisa muito boa. Uma vez, sua mãe ganhou um porco, mas recusou. Explicou que não havia espaço em casa. Além do mais, o porco ia fazer a maior bagunça no quintal. Dois dias depois a vizinha voltou com três pacotes grandes e pesados, avisando para guardar tudo na geladeira. Era o porco.

Encontrou algumas revistas velhas na estante da sala e recortou duas figuras. No fim do dia, leu o recado da professora:

As figuras devem estar relacionadas com o trabalho da mamãe e do papai. Favor substituir e enviar até amanhã. Grata.

Deitou o caderno no colo e perdeu o olhar no horizonte do pequeno apartamento. Que, de repente, lhe pareceu imenso. Olhou as figuras presas na página pelo clipe azul. Então aquelas não serviam? Tanto trabalho para achá-las. Desanimada, pegou novamente as revistas. Folheou uma, sem vontade. De repente, ficou séria. Não ia mandar outras, coisa nenhuma. Guardou a revista, alcançou a caneta e respondeu no caderno:

Para dar conta de tudo aqui em casa, eu costumo virar a Mulher Elástica. Já meu marido é como o Super Homem, vive ajudando meio mundo. Seguem as figuras de novo. Mas se você preferir, posso mandar uma de dentista e outra de advogado. Abraços.

Ajeitou tudo no caderno e terminou de arrumar a mochila do filho. Era tarde, e ela ainda não tinha colocado comida para o peixe.

O Corcel do Pequeno Príncipe

Foto: Guenno/Flickr.com

Ontem vi um Corcel II, aquele carro antigo da Ford, estacionado em frente à padaria. Meu pensamento, como o ágil cavalo, deu um galope. Segurei suas rédeas com força e lá fui eu, de volta aos anos setenta.

No primário, havia um menino na minha classe. Loiro, olhos claros, ares de Pequeno Príncipe. Só tirava notas boas, sentava-se na primeira fileira, nunca esquecia o material, jamais faltava, sabia todas as respostas, era amigo de todos, sempre entregava os trabalhos no prazo, seu uniforme permanecia imaculado durante a aula inteira. Reinava absoluto no pequeno planeta do quadro-negro. E levava mesmo jeito para a nobreza: encarnou Dom Pedro I num desfile de Sete de Setembro na principal avenida do bairro. As professoras o idolatravam. Cansei de ouvir: por que nós, o resto da turma, não éramos como ele? Seus pais mantinham uma pródiga loja de calçados no pedaço. Hoje, não resta dúvida: foi sua família a grande inspiradora dos comerciais de margarina.

Um dia, na aula, vieram me contar. Ele havia dado um carro para sua mãe. Coisa fina: um Corcel II. Dourado – só poderia ser. E, de acordo com as informações que circularam, ele o havia comprado com o dinheiro da sua própria poupança. As professoras, fãs confessas do menino-príncipe, foram ao delírio. Até hoje ecoa na minha mente a estupefação de uma delas: “Que homenagem mais linda! Vocês [nós] deveriam fazer o mesmo”. Imaginem só, um menino comprar um carro zero-quilômetro. Hoje isso ainda seria um feito. Calcule-se o que pode ter representado – para ele, sua mãe, seus vizinhos, o corpo docente da velha escola estadual – mais de trinta anos atrás. (Tenho cá para mim que a história talvez não tenha sido exatamente assim. Pode ser que ela tenha sido um pouco abrilhantada, com a ajuda de algumas ferramentas do marketing pessoal.)

Eu nunca dei um carro para minha mãe. Meus presentes e agrados sempre foram mais singelos. Certa vez, eu era bem pequena e era seu aniversário. Abri sua gaveta, escolhi uma de suas blusas preferidas, que ela mesma havia comprado, fiz um embrulho bem bonito e a dei para ela. Ela achou graça, disse que adorou. E eu nem corri o risco de errar o número. De outra feita, ela estava adoentada. Resolvi preparar-lhe um café com leite bem saboroso. Afinal, eu me sentia eternamente responsável por aquilo que, todos os dias, cativava. Aproximei-me de sua cama com a bandeja, orgulhosa. Ela o bebeu com gosto, elogiou e quis saber onde eu havia encontrado leite, se o da geladeira havia acabado. Respondi: na tigela do gato. Não houve bronca alguma. Mães são outra categoria de ser humano. (A qual eu, em tese, pertenço, embora tenha perdido alguma coisa pelo caminho.)

Mas o Corcel II do Pequeno Príncipe. Não sei se desenvolvi um bloqueio psicológico a partir dessa experiência, mas o fato é que nunca consegui manter uma poupança. Já iniciei várias, todas prontamente encerradas diante da primeira oportunidade ou necessidade. Poupar não é comigo. Sinto uma tremenda inveja de quem tem algumas economias guardadas. Se, desde o dia em que nasci, o equivalente a um real fosse depositado numa conta, qual seria meu saldo quarenta e dois anos depois, com os devidos juros e correções? E todos os sapatos que comprei na vida, além do necessário, equivaleriam a quanto? Será que daria para comprar um carro para minha mãe? O que, no entanto, seria absolutamente inútil. Primeiro, porque ela nunca aprendeu a dirigir. Segundo, porque onde ela vive agora ninguém anda de carro. Estrela não tem rua.

A escola

Foto: Anniferrr/Flickr.com

Passou o rímel no olho do furacão. Um batom na boca do povo. Um pente nas ideias. E saiu. Marchava como um soldado. Sua cabeça não era de papel, nem de vento. Naquele dia, era de chumbo.

Então sua filha não poderia estudar na mesma escola que as outras crianças da rua? Aquilo não estava certo, não. Sete e sete são quatorze. Com mais sete, vinte e um: de fato, ela tinha muitos namorados. Mas não gostava de nenhum. E, acima de tudo, não gostava de ver sua garotinha sendo tratada diferente. Pois agora o diretor da escola veria o que era bom para tosse. Justo ele, que era um xarope.

Desceu a rua pela sombra enquanto ensaiava o discurso. Senhor Diretor, a mensalidade da minha filha está atrasada? Não, senhora. (Sim, ele teria de chamá-la de senhora, igual fazia com as outras mães.) Senhor Diretor, minha filha, por acaso, desrespeita alguém aqui? Não, senhora. Senhor Diretor, minha filha sabe quanto é dois mais dois? Sabe, sim senhora. Então pronto, senhor Diretor. Minha filha fica. Estamos acertados? Estamos, minha senhora – ele diria e lhe ofereceria um chá de jasmim.

Na esquina, abriu a bolsa e buscou a medalhinha de Santa Maria Madalena. Ela, que também era Maria, mas não ia e nem vinha com as outras, apertou-a firme nas mãos, guardou-a e retomou a marcha. Então estamos acertados, senhor Diretor?

Chegou à escola rodeada de pinheiros, subiu a escadaria. Era aguardada. Assim que entrou na sala do diretor, recebeu um envelope. Uma página com assinaturas pedindo a saída de sua filha. Na verdade, era ela que queriam ver longe. Sua filha era apenas o meio, o animal sacrificado em noite de lua cheia. Não houve senhora, nem acerto, nem chá de jasmim.

Ela tentou retrucar. Falou sua parte do discurso ensaiado, mas o diretor não disse a dele. Ela improvisou, sem conseguir, contudo, estabelecer o roteiro imaginado. Disse, por fim e aos berros, que aquela escola era como uma canoa sem direção, prestes a virar. Porque ninguém ali sabia remar direito. O diretor riu, escancaradamente. E ela pôde ver: no céu de sua boca não havia estrela alguma. Era um céu estéril. Como tudo ali.

Elogio à diferença

Foto: Michael Flick/Flickr.com

Talvez tudo tenha começado no pré-primário. Eu não queria participar da peça de teatro que a turma encenaria, mas a professora de bochechas rosadas e ar maternal insistiu no convite. Não adiantou dizer que eu não tinha talento para ser planta. Minha fala começava assim: “Eu era uma sementinha…”. A única frase que guardei no labirinto da memória. O resto, por conta da péssima experiência com apenas seis anos, eu apaguei permanentemente. E daí em diante eu teria declinado toda espécie de convite semelhante.

Depois vieram as sardas. E os óculos. Para as sardas, cremes mágicos. Para os óculos, propositais esquecimentos na sala de aula. Mas logo surgiam mais sardas. E óculos novos.

Alguns anos mais tarde, foi a vez do espelho me mostrar diferente das amigas. Não sei se construí a lembrança a partir de fragmentos, já que minha memória torta costuma me pregar peças, mas arrisco: foi numa noite de Natal que ganhei o primeiro sutiã. Verde-água. Após a ceia a família toda foi dormir. Exceto eu, extasiada com o presente emblemático. E inútil.

Adolescentes pertencem àquela idade esquisita onde a criança esbarra no jovem sem, contudo, ser uma coisa nem outra. Quase tudo é motivo para um complexo. No meu caso, as pernas. Eram tão fininhas, tão branquinhas. Como o resto de mim. Enquanto todos na escola faziam as aulas de educação física sem grandes problemas, além de uma eventual inabilidade com a bola ou certa falta de coordenação motora, eu fugia delas. Não por conta da professora que usava peruca e ensinava os esportes através de um livro velho, onde os alunos liam em voz alta, em vez de praticar, as regras do vôlei ou do basquete. Era a minissaia branca e plissada, com um inexplicável shortinho vermelho, a razão da minha fuga. Foi a época em que mais estive doente, acometida de todo tipo de mal súbito. Tudo devidamente informado na caderneta escolar. Com a minha letra, claro.

O modelo da minha família também não me ajudava a ser parecida com as demais garotas. Todas tinham suas mães disponíveis em tempo integral em casa, preparando lanchinhos no meio da tarde ou tricotando casacos coloridos para o inverno. Eu tinha que me contentar com a doçura do meu avô, sempre superada pelo mau-humor e rabugice da minha avó, responsáveis por mim e meus irmãos enquanto meus pais trabalhavam. Justamente numa época onde tudo o que eu desejava era ser igual. Fazer parte do bando.

Nunca me achei bonita. Nunca fui popular. Nem aluna brilhante. Fazia parte da turma dos invisíveis. Talvez por isso tenha me acostumado a enxergar a vida do canto. Comecei a escrever. Para traduzir a minha perspectiva.

Tempos depois, o curso superior. Nunca vi ponto de ônibus tão vazio quanto aquele em frente à minha faculdade. Sempre esperei, com apenas um ou dois amigos, o meu passar. Não compreendia aquelas garotas lindas e ricas. E não era visível para os rapazes, igualmente lindos e ricos. Tive um único namoro ali. Que começou poucos meses antes da formatura. No ônibus, por sinal.

Talvez tudo tenha, de fato, começado lá atrás. Na escola, eterno palco onde as diferenças são todas representadas. Hoje estou perto de compreender a utilidade da diferença. Eu não sabia, mas o valor de ser diferente ficaria tatuado em minha alma para sempre, tal qual as tatuagens reais que hoje me estampam. E já não há dúvida: eu era mesmo apenas uma sementinha.