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Fábrica

L’Homme endormi, 1936, H.Matisse

Meio-dia e vinte. Os operários fazem, na calçada, a sesta. Em seus uniformes de brim azul-marinho, deitam-se, sem cerimônia, no chão em frente à fábrica. É ali, rente à rua, que se dá o breve descanso pós-almoço.

É preciso um bocado de coragem para fazer, do solo público, sofá particular.

Um deles se esparrama, como se estivesse em uma king size. Embora o modelo da calçada seja de solteiro. O colega ao lado, em quase posição fetal, repousa alinhado ao muro. Outro, barriga para cima, estica as pernas na transversal do passeio e cruza os pés. As mãos sob a cabeça, feito travesseiro. Há, ainda, outros.

Na construção, operários morrem na contramão atrapalhando o sábado. Na fábrica, dormem na calçada atrapalhando a quinta.

Será que chegam a sonhar quando estão de olhos fechados? Sei que descansam na calçada porque não têm onde mais recostar seus corpos. Dentro da fábrica não há lugar para sonhar.

O que embala seus quase cochilos? O arroz com feijão, quiabo e bife, o zum-zum-zum dos carros ou a primeira parcela do décimo-terceiro?

Onde eles se deitam passam as solas imundas dos sapatos. E também os cães, que vão largando pelo caminho seus cocôs e seus xixis. Não gostaria que, se eu tivesse um filho operário, ele descansasse assim após seu almoço. Se eu fosse dona da fábrica onde aqueles homens trabalham, instalaria hoje mesmo sofás, poltronas, redes para eles. Mas dono de fábrica não pensa nessas coisas. Quem pensa nessas coisas é mãe. Mãe é um tipo de fábrica. Só que de gente.

Eu, panfleteira

jeans

Omiti de meus empregadores, ao longo da vida, importante experiência profissional. E só agora me dei conta. Não está no curriculum vitae, nem na minha página do LinkedIn. Eu mesma já a havia apagado de meu portfólio mental de realizações. Lembrei dia desses, quando uma garota veio entregar folhetos no semáforo.

Desci o vidro. Apanhei o papel, novos apartamentos na cidade. Deitei os olhos sobre ela, enquanto o sinal não abria. Cabelos longos, pretos, magrela – “pau de virar tripa”, diria minha avó. Vi-me nela, trinta e cinco anos atrás. Sim, eu já fiz panfletagem nas ruas de São Paulo.

A amiga do colégio, parceira de pequenas, médias e grandes aventuras, arrumara um bico para nós duas. A gente não queria umas roupinhas novas? Trabalho para depois das aulas no Liceu, à tarde. Coisa tranquila. Ou nem tanto.

Apresentamo-nos na data e hora combinadas, munidas de tênis confortáveis. Sobre os planos da minha amiga não sei, mas eu tinha um objetivo claramente definido: queria comprar uma calça Levi’s.

O serviço era, basicamente, espalhar folhetos pelo bairro. Casas, carros estacionados, padarias, lojas. Um por vez. Sim, senhor. Não pode jogar no chão. Sim, senhor. Nenhum folheto sobrando no final do dia. Sim, senhor.

Primeiro quarteirão. Quilos de folhetos nos braços. O bairro de Santana, de ônibus, parecia mais plano. Mas eu estava radiante. Inserida no mercado de trabalho, ganhando meu próprio dinheiro com o suor do rosto que, literalmente, começava a brotar. A Levi’s esperava por mim.

Com disciplina militar aliada ao esmero feminino, seguíamos caprichosamente depositando os folhetos nas caixinhas de correspondência das residências, nos para-brisas.

Segundo quarteirão. Os folhetos pareciam ter se multiplicado, em peso e tamanho. De quê eram, jamais me lembrarei. Deixando o capricho de lado, passamos a enfiá-los, do jeito que dava, nas grades dos portões e sob os limpadores dos carros.

A timidez nos levou à primeira não-conformidade na execução da tarefa: com vergonha de adentrar as padarias e lojas para deixar os folhetos, fizemos breve reunião de equipe na calçada e resolvemos eliminar essa etapa do roteiro. O que nos fez andar mais. Quis desistir. Mas tinha a Levi’s.

Terceiro quarteirão, ladeira acima. Descobrimos que se fossem dois folhetos por para-brisa, terminaríamos antes. Quem perceberia?

Quarto, quinto, sexto quarteirão. Os folhetos não acabavam. Ganhavam vida em nossos braços. Agora eram cinco em cada portão, dez em cada para-brisa. Sétimo, oitavo, nono, décimo. Pra quê portão? Era só atirar os folhetos nas garagens, os moradores veriam do mesmo jeito.

Exaustas, dobramos a esquina e avistamos um cesto de lixo. Bastou um olhar entre nós. Anjos empoleirados nos muros ao longo da rua, todos vestidos com Levi’s, trombeteavam o final do expediente.

Dia seguinte, fomos acertar o pagamento pelo dia anterior e rescindimos unilateralmente o contrato de trabalho. Minha alegação: aos dezesseis anos, não tinha perfil para a função. Não estava alinhada com a filosofia da empresa. Queria novos desafios, sobretudo que não me fizessem andar tanto. A Levi’s ficou para depois.

Cinco anos depois daquela tarde de panfletagem, já na faculdade, consegui um estágio remunerado. Que fiz com o primeiro salário? Torrei num jeans.

A garota do sinal ofereceu seu folheto ao motorista do carro azul, que recusou com gentil aceno. Determinada, investiu no carro de trás, que também declinou. Sorrindo, fez nova tentativa com o táxi ao lado, que aceitou. A persistência é uma calça velha, azul e desbotada.

Sergivânio

Ele se aproxima do balcão do caixa. A moça confere as etiquetas das roupas da freguesa e, uma a uma, passa-as pelo leitor de preços. Blip.

Ele, tímido, pede licença. “É aqui que entrega currículo?”.

Ela, entediada, não tira os olhos das etiquetas. “Não, é com Fulana”.

Ele olha ao redor e não identifica ninguém com chance de ser Fulana.

Tímido e nervoso, ele tenta novamente. “Ela está?”.

Entediada, lentamente ela apanha o rádio e chama Fulana. Retorna às roupas da freguesa, blip, blip. “Ela já vem”.

Apressada, Fulana chega e quer logo saber, “O que é?”.

Ele, tímido, nervoso e envergonhado por, indiretamente, ter atrapalhado a supervisora em suas importantes atividades de supervisão, mostra-lhe o papel e se apresenta. “Vim deixar meu…”.

Antes que ele termine, ela – que identificara o papel nas mãos dele, mas não olhara para seu rosto – o interrompe e chama a atenção da colega entediada, lenta e, pelo tom da bronca, também desavisada. “Currículo não é comigo. É com Beltrana!”. Apressada e irritada, Fulana se desculpa e vai embora.

A moça do caixa já atendia a próxima freguesa. Interrompe mais uma vez a conferência das etiquetas e chama Beltrana, que está vestindo manequins no outro lado da loja. “Ela já vem”.

Desinteressada, Beltrana chega e quer logo saber, “O que é?”.

Falta emprego no país. Mas falta empatia e gentileza também.

Ele, tímido, nervoso, envergonhado e agora também constrangido pela fila de freguesas que o assiste em silenciosa e quase maternal compaixão, se apresenta.

Sou a próxima no caixa, espicho os olhos e leio o nome em destaque no cabeçalho do papel sulfite. Sergivânio.

Beltrana recebe o currículo e guarda-o na gaveta do balcão. Sergivânio agradece a atenção. Ela volta aos seus manequins. Sergivânio guarda sua esperança no bolso da camisa verde e volta para casa.

Vou pensando nas pessoas cujos nomes compuseram o do candidato. Pai Sérgio e mãe Vânia? Avó Sergina e avô Ivânio? Seja quem for, nenhum dos homenageados saberá: o currículo de seu filho ou neto talvez jamais saia daquela gaveta.

Ou quem sabe, em um dia de arrumação, Cicrana o encontre. E, ao contrário de Fulana e de Beltrana, lhe dê alguma atenção.

Crônica de minuto #56

arte: Jairo Souza
arte: Jairo Souza

Alguém morre e logo se conjuga:

– Descansou.

É a secular, esperançosa e bem-aventurada ideia de que, ao morrer, ganha-se de presente o repouso absoluto. Seja porque a pessoa livrou-se do sofrimento da vida nem sempre fácil no planetinha azul, porque se foi sem aviso-prévio ou porque viveu o bastante.

Estão pensando que é assim, é? Que morre-se e entra em férias eternas? Que se muda para um céu de infinita varanda com sofás fofos e macios, poltronas reclináveis, música da boa e suco de frutas vermelhas à vontade? Que o universo celestino é um dolce far niente sem agenda, sem relógio, sem calendário e muita, muita soneca?

Talvez estejamos todos redonda e mortalmente enganados.

Liberta da carcaça e agora transmutada na luz e energia originais, a alma ainda não chegou ao seu destino. E se a pós-vida terrena exigir de quem se foi, em vez de folga, trabalho dobrado? Tratamentos, estudos, reflexões, revisões de lições que ficaram para trás, atualizações de mundo, planos para um retorno.

Viver dá trabalho, morrer também. A vista, de lá, certamente é bonita. Mas Deus não dever dar mole, não.

O que você faz?

arte: Andrea Joseph
arte: Andrea Joseph

– O que você faz?

Por um instante, tento adivinhar que tipo de resposta o perguntante busca. Se pergunta porque deseja, por mera ou suspeita curiosidade, saber a atividade pela qual sou remunerada. Se pergunta genericamente, sem maiores pretensões, aguardando abreviado esclarecimento. Ou se pergunta por perguntar, para puxar assunto, quebrar o gelo. Mais ou menos como quando se está numa festa em que se conhece apenas um convidado, e ele some. Na dúvida, sorrio e elaboro mentalmente a resposta (quase) completa.

– Faço força para acordar cedo. Faço banana amassada com aveia e Toddy em formato de coração para meu filho e bisnaguinha na chapa com ovos mexidos para minha filha, de café da manhã. Faço agendas inviáveis e acordos impossíveis com Cronos. Faço tempestade em copo d’água e, das tripas, coração. Faço o bem e, vez por outra, olho, sim, a quem. Faço o que eu digo e faço o que eu falo – tento fazer sentido. Faço amor. Faço guerra, também. Faço de um limão, limonada; de uma alegria, felicidade, e de uma lembrança sólida, nostalgia líquida. Faço muito. Faço pouco. Faço é nada. Mas faço o que posso. Faço caminhos e laços tortos (fazer o quê!). Faço graça. Faço surpresa. Faço coleção de bolsas, caderninhos e cafeteiras. Faço, aliás, juras de amor ao café (e faz tempo). Faço suco de maracujá com gengibre, kibe de soja, hamburguer de abobrinha, bolo de cenoura, arroz e feijão cheios de alho. Para tudo isso, faço supermercado. Faço livros, blogs, amigos. Faço homenagem e piada. Faço rir, faço chorar e faço dormir. Faço ideia. Faço grandes malas e boas viagens. Faço uma fézinha de vez em quando, e já vou fazendo planos. Faço cara feia. Faço pouco caso. Faço que não é comigo. Faço bobagem, faço vista grossa, faço por merecer. Faço o que eu quero, pois é tudo da lei – da lei! Faço as pazes, as camas, as unhas (faço questão). Faço ligações, conexões e intervenções. Faço minhas orações, minhas doações e minhas proclamações. Faço anos todo ano. Todo ano, faço promessas de ano novo. Faço conta e faço de conta. Faço, enfim, alguém feliz. – E você, me diga: faz o quê?

Doze profissões que não existem (mas deveriam)

Para o ofício tradicional e estabelecido, como de médico, engenheiro, vendedor de pastel, arquiteto, motorista de ônibus e professor, o mercado é garantido.

Algumas profissões, no entanto, ainda não foram inventadas. O motivo é desconhecido, posto que trabalho, para essas, também jamais faltaria. Algumas delas:

Organizador de fotos feitas no celular. O clique ficou tão fácil que, um belo dia, você se dá conta: mil e quinhentas fotografias ocupam a memória do seu aparelho. Há várias repetidas. Outras tantas são um festival de enquadramento e foco ruim, gerando um lixo inarquivável. No meio, as que as crianças tiram: do rabo do cachorro, da parede, do sapato no chão. A essa altura, a triagem se torna hercúlea. A promessa de, um dia, colocar a coisa em ordem é sistematicamente adiada. Até que a memória (do celular) fica cheia e a única alternativa é copiar tudo do jeito que está para um pendrive, um tablet, um notebook. Você, eu sei, ia querer chamar um organizador assim.

Gerenciador de e-mails. De nada adiantou criar dúzias de marcadores – “Escola das crianças”, “MBA”, “Piadas” – se não é possível ler as cento e cinquenta mensagens que aterrisam diariamente na sua caixa postal. É preciso um especialista para ajudar a discernir o que fica, o que vai embora, o que deve ser respondido e quando. Você também ia querer chamar um.

Recolhedor de Lego. Quem tem criança em casa sabe o valor que esse profissional teria.

Arrumador de tupperware. Quem tem armário cheio deles, mas nunca sabe onde está a tampa de cada um, também sabe o valor que esse profissional teria.

Guardador de compras de supermercado. Depois de um tira-e-põe sem fim das mercadorias, da gôndola para o carrinho, do carrinho para a esteira do caixa, da esteira do caixa para as sacolas, caixas ou sacolinhas pláticas que sejam!, das sacolas, caixas ou sacolinhas plásticas de volta para o carrinho, do carrinho para o porta-malas do carro, do porta-malas do carro para o carrinho de supermercado do prédio, do carrinho de supermercado do prédio para a mesa, pia, bancada, cadeira ou qualquer outra superfície vaga na cozinha, e dali para os respectivos armários… simplesmente não saberíamos como foi possível viver tanto tempo sem esse profissional.

Esperador do técnico da TV a cabo. Você liga para agendar uma manutenção e o máximo que consegue saber é o período em que o serviço será feito: matutino ou vespertino. Considerando que a manhã útil dura quatro horas, assim como a tarde, o negócio será recorrer aos seus préstimos, se não quiser correr o risco de ficar em casa à toa. Porque ficar vendo TV enquanto se espera, que é bom, necas.

Intermediador de bate-boca em call center. Com ele, ninguém mais passaria nervoso na hora de contatar a operadora de celular ou o plano de saúde para tentar resolver um problema.

Novos sindicatos e conselhos regionais nasceriam, para regulamentar a emergente e fabulosa demanda. Para cada nova função, um curso técnico ou uma graduação. Os benefícios para a sociedade, a longo prazo, seriam incalculáveis.

Outras profissões, se não fundamentais para o dia-a-dia do cidadão comum, também seriam de grande valia para a humanidade. Como o fazedor de cócegas. Ele chegaria para o cliente e diria: “Bom dia, seu João! Onde vai ser hoje, na barriga ou na sola do pé?”. Há quem começaria a rir antes mesmo de a sessão começar. Um santo remédio para gente azeda em geral.

Assim como o moço da cosquinha, outras especializações despontariam: o matador de saudade alheia, o esticador de horas, o mostrador de coisas-bonitas-no-meio-da-rua, o exterminador de maldades. Com a atuação deles, não haveria motivo para greves ou protestos. Essas ocupações trariam felicidade plena a contratado e contratante, patrões e empregados. Os sindicatos seriam desnecessários. E os conselhos regionais, ora entupidos de papéis, teorias e processos, virariam cafeterias, para aproveitar o espaço e os funcionários.

Hei de viver para ver.

Ao sucesso, com ou sem Hollywood

Antigamente, para ter sucesso, bastava fumar um Hollywood. Ao menos, era o que prometiam as lendárias propagandas dessa marca de cigarro, ao apostar na fórmula aventura & música.

Hoje, basta se matricular numa escola de inglês ou num curso de graduação. Nove entre dez desses anunciantes usam o termo “sucesso” para seduzir aspirantes a um lugar ao sol na praia corporativa. Como se sucesso fosse meio, e não fim. Como se garantia fosse para chegar ao topo. Topo? Só sabe do topo quem escalou montes, contemplou paisagens, sentiu o ar rarefeito, chorou ao pensar na família, achou que não ia dar, e deu.

Sucesso na vida profissional: procura-se a definição, desesperadamente. O estreito desejo de chegar à presidência da empresa a qualquer custo, ou a larga ilusão do contra-cheque de cinco, quase seis, dígitos, em troca de uma perigosa parceria com o tinhoso? Encravar-se na calçada da fama ou passear por ela, livre feito um passarinho?

O sucesso, talvez, seja mais simples: aquele diretorzão lhe parar no corredor para pedir uma dica – de qualquer coisa. Tirar trinta dias de férias, ninguém do escritório lhe procurar nesse meio tempo e, de verdade, tudo estar bem. A moça do café lembrar do seu aniversário, e lhe trazer um que ela acabou de passar. Acordar, nos dias úteis, de razoável bom humor.

Sucesso na profissão, para ser honesta, é ter um bebê em casa e conseguir dormir uma noite inteirinha, antes de ir trabalhar. Sucesso é seu filho brincar de ser você trabalhando – e se divertir muito. Sucesso é office-home, e não home-office.

Para não dizer que não se falou em flores, sucesso também é costurar o próprio vestido e as amigas perguntarem onde você o comprou. Alforriar os cabelos da chapinha e da escova progressiva – essas paroxítonas para suposta beleza. É o esmalte durar uma semana, sem lascar. Ter, todo ano, uma mamografia com resultado negativo.

Sucesso é ver o manacá que você plantou dar sua primeira florada. É clicar, no exato, único e derradeiro instante, o beija-flor na varanda lhe dando alô.

Sucesso é acertar o ponto da massa de nhoque, abrir embalagem de iogurte sem rasgar a tampa. Sucesso é apanhar a manga mais alta, suculenta e sem bicho, lá no sítio do seu pai.

Sucesso, sucesso mesmo, é apagar as velinhas no 115º aniversário, como fez a mulher mais velha do mundo, ano passado. É tirar “Let it be” no piano, depois de apenas dois meses de aula.

Sucesso é o cãozinho de três patas subir e descer escada, na boa. Ou aquele que saiu no jornal, só com as duas de trás, feliz da vida na sua cadeirinha de rodas.

Sucesso é terminar o quebra-cabeça de cinco mil peças. Caprichar num origami e todo mundo acertar o que é. Interpretar o I-Ching com a devida sabedoria. Sucesso é não desafinar na serenata. Sair na ladeira sem precisar do freio de mão.

Sucesso é aquele que vem atrás da gente, e não o contrário.

Sucesso é ter uma lista enorme de coisas que, se não levam ao sucesso, faz a gente imaginar que sim. Isso é Hollywood.

(Des)Empregada III, o furto

Ilustração: Toon Van de Putte/Flickr.com

Depois de ser abandonada e, em seguida, traída com o padeiro, enfim eu encontrara uma nova empregada. Meu lugar ao sol – e não ao tanque – parecia despontar no horizonte doméstico. Só parecia.

Estranhar, eu estranhei. A mulher tinha todos os dias livres e rara boa vontade. Gostava de gatos e tatuagens e tinha filhos pequenos como eu, o que tornava toda empatia possível. Poucos dias se passaram, peguei-a no pulo. A bolsa gorda, recheada, momentos antes dela encerrar o expediente. Ataulfo Alves bem que avisou: “Laranja madura, na beira da estrada… Tá bichada, Zé, ou tem marimbondo no pé”.

Se “A menina que roubava livros” virou best-seller, que destino estaria reservado à mulher que roubava brinquedos?

As duas, menina e mulher, têm histórias de vida pontuadas por dificuldades e dissabores. Salvos os respectivos cenários, as épocas, as devidas proporções e a boa dose de ficção, o que a Morte, narradora no livro, haveria de dizer, nesse caso?

Talvez ela, a Morte, me convidasse para um cafezinho ao entardecer e apontasse o farto oceano de brinquedos nos quartos dos meus filhos como razão para minha versão doméstica de Liesel Meminger agir. Não tenho inventário detalhado a respeito, posto ser essa tarefa hercúlea e inútil. Quem é capaz de identificar quem é quem na comunidade de Pollys e Barbies, contabilizar a esquadrilha de aviões, a esquadra de navios e os Legos que se valem do misterioso poder da geração espontânea? A brinquedoteca das crianças é superlativa, conjugada no coletivo. O excesso de brinquedos em casa é tão evidente quanto questionável, mas já desisti de nadar contra a maré, panfletando que isso não faz sentido. Porém, (talvez) ao contrário da história do livro, isso nunca deu e jamais dará a alguém o direito de apossar-se do que não é seu. A mulher, no papel de Robin Hood de si mesma, desconhece que justiça social se dá por outros meios e com outros fins.

Por outro lado, a Morte poderia apelar à compaixão, ao sugerir que eu imaginasse a mulher chegando em casa, depois do dia de trabalho que lhe rendeu uns parcos reais, e encontrasse seu menino a brincar com o caminhãozinho sem uma das rodas e uma velha e desbotada girafa de pelúcia, ao mesmo tempo que repassasse mentalmente a fascinante (aos seus olhos) paisagem da nossa casa. Eu diria à Morte que sim, estou acostumada a esse exercício. E o que posso fazer por essa mãe é pagá-la direitinho o combinado, para que ela tenha condições de proporcionar o mesmo aos seus filhos. Direito de todo cidadão e cidadã – igual ao direito de propriedade que ninguém pode tascar.

A Morte também tentaria me convencer a relaxar, contando ter visto coisas bem piores ao longo de sua, digamos, existência. Por esse lado, meia dúzia de Hot Wheels a menos para quem tem uma frota de três dígitos dos carrinhos é, de fato, titica.

Ou nada disso, e a Morte faria o que mais a diverte – pegar de surpresa – e me diria a inesperada e oblíqua verdade sobre o crime (?) cometido, que eu ainda não havia suspeitado: preciso escolher melhor minhas laranjas.

(Des)Empregada II, a traição

Foto: Amigomac/Flickr.com

– Alô?

– Eu queria falar com a Silmara.

Seguem-se dois minutos de conversa. É de um certo RH, pedindo referências sobre minha ex-empregada, aquela que pediu as contas. Como num interrogatório, respondo às perguntas com ‘sim’ ou ‘não’. Sou a ré. Condenada, talvez, por não ter aumentado o salário da ex-ajudante e ter tapetes demais. Meu desejo, porém, é abrir o coração com a moça do outro lado da linha. Chorar as pitangas. Lavar a roupa suja (opa). Contar como anda a vida depois da saída dela. Desabafar que tenho pensado em mudar minha cama para a masmorra da área de serviço, para ficar mais prático. “Você sabe o que é desencardir vinte e oito meias por semana?”. Em vez, recolho-me à condição de ex-patroa, cuja função, agora, é fornecer subsídios para a nova carreira da ex. Ao final da ligação, tasco a pergunta:

– De que empresa é?

– Da padaria tal.

Então é isso. Vou ser traída com o padeiro.

Conheço o lugar. E logo começa o devaneio: chego ao balcão e peço meia dúzia de pãezinhos. Três moreninhos e três branquinhos, para agradar os gregos e os troianos do meu lar. Espicho o olhar e reconheço a cabeleira, apesar da redinha. É ela, ajeitando na cesta os pães recém-saídos da fornalha. Sou fina, cumprimento. “As crianças, como vão?”. Emendo: “Veja também umas broinhas, por favor? A minha nova ajudante a-do-ra!” – é meu inocente blefe. Ela entrega o pacote com os pães, ainda quentes, por cima do balcão. Faço questão que note minhas unhas, feitíssimas, simulando distância de qualquer tanque (ela não sabe, mas comprei luvas de látex). Despedimo-nos com polido afeto, e no som ambiente da padaria começa a tocar “I will survive”, da Gloria Gaynor. Na tela aparece “fim”, junto com os créditos do meu curta-metragem imaginário. Não sei porque não fiz cinema na faculdade.

E se eu revelar certas coisas sobre o perfil da ex? Não, isso não. “Amai-vos uns aos outros”, ensinou Jesus. Que, por certo, não tinha empregada quando proferiu isso.

Declaro minha inveja de quem tem a mesma empregada há vinte anos. A que é convidada para os batizados dos filhos de quem, um dia, ajudou a trocar as fraldas. A que ganha presente de Natal até da madrinha do patrão. Aqui, elas mal completam o primeiro ano e já dão o pinote. “A casa é muito grande, Dona Silmara”. “Muito gato, Dona Silmara”. “É pouco tempo para fazer tudo, Dona Silmara”. “A senhora paga pouco, Dona Silmara”. Os opostos – muito e pouco – não as atraem. E a Dona Silmara compreende tudo. Só não compreendo como elas conseguem passar uma camisa em menos de trinta minutos e manter os Tupperwares organizados no armário.

As compadecidas vizinhas me param na rua, “E aí?”. Finjo serenidade, demonstro paz interior. Na realidade, tenho encarnado a Rainha de Copas, como na história da Alice, quando percebo vestígios de Nutella na cortina: “Cortem-lhe a cabeça!”

Nem tudo são trevas, porém. Gosto da casa vazia, da ausência de corpos estranhos zanzando na minha intimidade. De acordar sem o ronco do aspirador de pó e tomar café-da-manhã na cozinha sem trilha sonora sertaneja. Mas meu pão com manteiga jamais será o mesmo.

Continuo a entrevistar mais candidatas, e nada. De qual crise o noticiário fala? Só sei das minhas: de nervos, de identidade e de alergia ao Veja Multiuso.

Paciência, é preciso tê-la. Na vida, nem tudo é Perfex.

(Des)Empregada

Ilustração: DrasticJo/Flickr.com

E a empregada pediu as contas. Cuidar de um lar com oito seres vivos não era exatamente seu plano de carreira. Lá fui eu para o tanque, a pia, o ferro de passar e, sobretudo, para o inferno. Sem garantia de purgatório, muito menos paraíso. Queria era ver Virgílio desentupindo ralo. Beatriz com um esfregão nas mãos. Dante colocando o lixo para fora. Essa sim, seria a divina comédia.

Desde o primeiro dia após o último do aviso-prévio, descubro, com a mesma surpresa de uma exploradora, partes da minha casa nunca dantes navegadas. Frestas e cantinhos impossíveis de limpar, compartimentos secretos, xícaras desconhecidas. Perguntas que não querem calar surgem a todo instante: por que gatos soltam tanto pelo? Como assim, o forno não é autolimpante? Quem guardou estas tranqueiras na área de serviço? Como se limpa o box do banheiro? Quem inventou as camisetas brancas? Por quem os sinos dobram? Qual o sentido da vida?

Deus criou o mundo. Assim que tudo estava limpo e arrumado, descansou. Num lar, a lenda divina não se aplica. É deixar tudo bonitinho para, dali não sete dias, mas sete horas, estar quase tudo novamente por fazer. É como se os dias fossem um eterno “dia da marmota”, igual ao que aquele repórter vive no filme “O feitiço do tempo”. Pois juro: lavei esta calça ontem, e lá está ela no cesto. As atividades domésticas se repetem o tempo todo, numa espécie de maldição. Não há fim, não há conclusão. Não pode haver felicidade numa caixa de sabão em pó. Nem líquido.

Lembro da amiga que costuma evocar “Cry Baby”, da Janis Joplin, em dia de faxina. Cada um sabe da sua dor. Cada um busca sua reza. Nessas horas, vou de bossa nova. Para lavar a varanda enquanto a tardinha cai. Porque barquinho, que é bom, não tem. Água, só no balde.

E a penitência vai longe: a lei do silêncio é clara, nada de barulho depois das vinte e duas horas. Porém, o cuco vai dar meia-noite e o aspirador de pó é quem vai cantar. Sou uma fora da lei. O indelével tempo não facilitou para mim durante o dia. Então, vai de noite, mesmo. Com direito a um bombom entre um tapete e outro. Caloria entra, caloria sai. Quem precisa de academia?

Vizinhas compadecidas tratam de indicar substitutas. “Urgente”, imploro. Na entrevista inicial, por telefone, trato de pintar um quadro ameno: só tenho duas crianças. A casa tem só três quartos. São só quatro banheiros. Só. Para ver se ela também se compadece e topa vir. O fato é que nenhuma tem dia livre. Quando tem, combinamos, “Na segunda, então?”. E ela não vem. Nem telefona. Se homens são de Marte e mulheres, de Vênus, as empregadas domésticas serão de qual planeta? A questão, talvez, não seja o planeta, mas quais e quantos ônibus elas pegam para vir trabalhar.

Uma mulher sem sua ajudante é capaz de qualquer coisa para restabelecer a ordem no lar. Na situação de (des)empregada, boto a família toda para trabalhar, inclusive os menores de idade. Que venha o fiscal do conselho tutelar. Pois dou-lhe uma vassoura, também. Vale tudo. Até estratégias antiéticas, ilícitas, feias. Afinal, o sétimo mandamento, “Não roubarás”, não fala nada sobre surrupiar a empregada do próximo.

O (falso) poder da tranqueira, do cacareco e da bugiganga

Ilustração: Matti Mattila/Flickr.com

Desfiz-me de todos meus terninhos. Mentira, guardei um. Considerando a hipótese, cada vez mais remota, de eu vir a precisar ou ter vontade de usá-lo. O pretinho para lá de básico é o único remanescente da dúzia que jazia aposentada no armário, representantes de uma época em que o traje era meu uniforme diário. Tão sérios. Tão caretas. Eu não era (tão) séria. Eu não era (tão) careta. Vesti-los, porém, era meu dever. E não se falava mais nisso.

Os tais fazem parte de uma nova onda minha: botar reparo no que está arquivado em casa – no armário, gaveta, caixa, vão, fresta –, sem que alguma explicação consistente justifique sua permanência. Como os supracitados terninhos e o livro sobre como cuidar de um bebê, recentemente flagrado na estante (sendo que não há mais nenhum na família). Ou a nota fiscal do chuveiro elétrico que já pifou e foi substituído. Um ticket de embarque, tão antigo quanto a história da aviação. O aparelho de DVD quebrado, cujo conserto não compensa. Faturas de cartão de crédito de quando eu era solteira. Um exame de sangue de 2008 e antibióticos vencidos. Uma dezena de hashis que vieram junto aos últimos pedidos do fast-food, sem contar os sachês de mostarda e catchup envelhecendo na despensa. Uma Barbie em versão Saci-Pererê, quatro bolas furadas. A lista, longuíssima, é fruto não só de uma certa desorganização doméstica, mas da ancestral necessidade de registrar e comprovar tudo (que parimos, que compramos, que pagamos, que fomos, que voltamos, que temos, que somos), respaldada pela síndrome do acúmulo, cujo lema é “Um dia eu posso precisar”. Depois, reclamamos que a casa ficou pequena.

Quisera ganhar no Dia das Mães um aspirador especial, que sugasse não apenas o pó da velharia inútil, mas a própria velharia e suas teias invisíveis – sobretudo as que se instalam nas ideias. Uma vassoura mágica, para varrer do meu lar o apego, que é meio-primo do medo. Procura-se faxineira de alma, para dormir no emprego. Paga-se bem.

Dia desses, vi na TV uma norte-americana, casada e mãe de sete. A moça mantinha no guarda-roupa, ao lado das peças do dia-a-dia, seu uniforme de animadora de torcida. Ela ainda cabia nele, não se tratava da clássica questão de desejar a antiga forma. O que ela queria de volta, e não sabia, era o passado. Que, claro, ficara lá atrás. Seus gritos de guerra agora eram outros. Não mais tão animados.

E meus terninhos? Personagens de um passado bom que, em irresistível trocadilho, não me serve mais. Foram-se, portanto, todos. Foram tarde. Menos o pretinho. Se bem que. Ele que se cuide.

Se eu não fosse o que sou

Ilustração: Darwin Wins/Flickr.com

Se eu não fosse o que sou, e caso tivesse talento, gostaria de ser três coisas: música (feminino de músico), chef e cineasta. Não que eu não goste do que faço, mas porque a vida me parece larga demais para a estreiteza da carreira única.

Primeiro, estudaria música para descobrir como nascem as canções que amo, e gastronomia, para entender de quê são feitas as comidas que adoro.

Para ser sabedora das notas todas, assim como quem domina ingredientes e modos de fazer. Escrever uma sinfonia seria tão fácil quanto preparar um penne ao pesto de manjericão.

Para apreciar um prato sofisticado da mesma maneira que saboreio um bom arranjo. Porque o paladar está na boca e nos ouvidos. Que, aliás, são tão próximos. E não deve ser à toa.

Para, ao ouvir música no carro, brincar de regê-la no ar com propriedade, e não feito maluca. Embora todo maestro em ação pareça um maluco. Pensando bem, a parte de reger pode ficar como está.

Para eu compor quando estiver triste e também quando alegre. E quando não estiver nem uma coisa, nem outra, naquele estado de calmaria que o mar tem, de vez em quando (porque alegria e tristeza nada mais são do que ondas). Só pelo prazer de combinar os acordes e dá-los de presente aos instrumentos. Aquilo de correr para o violão, num lamento, e a manhã nascer azul.

Depois, estudaria cinema para transformar em documentário a vida de gente comum, que ninguém acha interessante. Apenas para provar o quanto se pode estar enganado.

Para gravar em película as cenas que gosto de imaginar, mas que nunca acontecem.

Por exemplo, a da moça entrando numa livraria e reconhecendo a mulher do caixa como sua mãe, que não vê há dezenove anos. Pelo jeito de ela prender os cabelos, que é igual ao seu. O pai a levara para longe, ainda bebê, e ela nada sabia da mãe, exceto pela fotografia de casamento que ele guardava numa caixinha branca, junto a um anel solitário sem a pedra.

Ou então, a cena da freira que resolve, em plena praça, levantar o hábito, tirar os sapatos e mergulhar os pés na fonte. Porque está um calor infernal e ela tem certeza que Deus prefere vê-la feliz.

Ou, ainda – e essa é a minha preferida –, a sequência do rapaz que encontra na esquina de casa uma cachorrinha branca e marrom com coleira de coração, e se lembra de ter visto, no dia anterior, uma faixa na rua. Dizendo sabe o quê? Que uma cachorrinha branca e marrom com coleira de coração se perdeu.

Confesso: pensar nisso me dá vontade de ser outras coisas também. Novas profissões que acabei de inventar e, acredito, fazem uma falta danada neste mundo. Por exemplo: demonstradora de verdades, exterminadora de mentiras, costureira de corações rasgados e fabricante de cadeiras especiais para assistir por-do-sol. Esvaziadora de sacos cheios e reparadora de gente chata. Tradutora e intérprete de bichos, caçadora de tesouros no final do arco-íris e vendedora de gargalhadas.

O problema é que não sei onde tem escolas para eu aprender esses ofícios. Embora saiba que há bons mestres em várias dessas áreas. E, apesar de ter noção do quanto dá para ganhar depois de formado, sem ser dinheiro, a grande dúvida é se, em alguns casos, eu teria emprego. E não é porque passei dos quarenta.

Crônica de minuto #9

Luca saiu do banho, vestiu o pijama, enfiou as pantufas, botou o videogame embaixo do braço e, imitando gente grande, avisou: “Vou para uma reunião”. Quando ele crescer e for trabalhar, tomara que não perca esse sorriso. Afinal, no trabalho é tudo mais ou menos como um jogo. Tem objetivos, fases, conquistas, derrotas, amigos e, de vez em quando, inimigos. A diferença: nem sempre dá para apertar um botão e desligá-lo. Mas até lá isso pode ter mudado.

Auto-decreto

Ilustração: Helen Aoki/Flickr.com

Vivo criando decretos para mim mesma. Sou a maior criadora de auto-decretos da paróquia. Todos os dias descubro um, de minha própria lavra, regendo minha vida com o poder de uma lei. Como se gravado em pedra estivesse.

Decretei, por exemplo, que não posso ter um emprego em período integral, caso contrário meus filhos, ainda pequenos, serão infelizes, ficarão traumatizados ou precisarão de terapia mais tarde. Decretei também que eles estudarão em escola particular pelo menos até os dezoito anos, sem sequer me dar ao trabalho de conhecer as públicas (e boas) da minha cidade.

De tanto topar com a frase, pronta e fácil, decretei que não se vive de escrever. No máximo, que isso é muito, mas muito difícil. Afinal, não passa de hobby. E, como tal, deve ser condenado às horas vagas que, por sinal, andam cada vez menos vagas. Aproveitei o embalo e decretei que nunca tive, não tenho e jamais terei talento para ganhar dinheiro.

Decretei que só se pode ser feliz vivendo numa cidade grande, com cafés abertos vinte e quatro horas e que eu frequento apenas em horário comercial.

Daí por diante. A essência de um auto-decreto têm raiz, um local de nascimento. Ou a gente viu alguém fazendo, ou ouviu alguém dizendo. E foram tantas vezes, por tanto tempo, que essa essência se cristalizou. Virou, naturalmente, um paradigma.

Mais ou menos como a fábula do peixe. A menina perguntou para a mãe por que ela sempre corta a cabeça do peixe antes de colocá-lo na frigideira. A mãe não sabia o motivo, disse que foi assim que aprendeu com a mãe, avó da garota, então é assim que ela faz. A menina não se deu por satisfeita, pegou a mãe pelo braço e lá foram as duas, questionar a avó. Que também não tinha a resposta, mas repetiu a ladainha: aprendeu com a mãe, bisavó da menina. Elas procuraram a bisavó e… surpresa: a bisavó não tinha ideia. Só sabia que esse era o jeito que a mãe, trisavó da menina, fazia. As quatro foram atrás da anciã. Que respondeu, com a maior naturalidade: naquele tempo, a única frigideira que ela tinha era muito pequena. O peixe não cabia inteiro nela. Bisavó, avó e mãe se entreolharam: a frigideira delas era grande. Os peixes foram, por gerações, decapitados à toa.

Não estou só, porém, no vício do auto-decreto e na armadilha do paradigma. Há os que, a exemplo da escrita, decretaram que trabalhar em artes plásticas, moda, teatro e artesanato não paga as contas de ninguém. Aqueles que decretaram que profissão, a palavrinha em destaque no diploma da faculdade, é tatuagem e, portanto, não sai mais. Por falar em tatuagem, existem os que decretaram que ela não é coisa que se deixe à mostra no ambiente de trabalho. Dress code é um decreto coletivo ao qual todo mundo diz amém, individualmente. Continuando, tem os que decretaram que aposentadoria significa não trabalhar mais. Pior: que aposentado é profissão, e preenche assim no cadastro do crediário, na ficha do clube.

Há auto-decretos de todos os tipos, para todos os gostos, para dar e vender: mulher depois dos quarenta não pode ter franja. Nem usar minissaia, mesmo estando tudo em ordem. Mulher tem que ter cabelo comprido para ser feminina. Ou então: o único corte de cabelo que lhe fica bem é esse, há dezessete anos em cartaz nas suas fotos. Roupa social precisa de meia-calça, principalmente as que se fingem de pele. O destino quer que você more de aluguel a vida inteira. Você não tem sorte nos relacionamentos. Ser feliz não é para o seu bico.

São os peixes, sem cabeça nem pé, que a gente vai fritando pela vida. Bom mesmo é descobrir que a maioria absoluta dos auto-decretos, principalmente os que não servem para nada, é revogável.

Não sei o que estamos esperando.

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PS: não corto mais as pontas do pepino, nem as esfrego nele para tirar o suposto amargor. E olha que eu não tenho trisavó.

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Para Januária, que tem se dedicado às revogações.

João e Maria

Ilustração: Kilgub/Flickr.com

João e Maria trabalhavam na mesma empresa. Ela era de Compras; ele, de Vendas. Ela falava ao telefone o tempo todo, fazia cotação, negociava, ficava nervosa, fechava negócio, pedia para entregar rápido. Ele passava o dia na rua, visitava cliente, negociava, ficava nervoso, fechava negócio, prometia entregar logo. Encontravam-se apenas na hora do cafezinho – Bom dia…, Bom dia! – e iam cada um para seu lado. Ela precisava comprar. Ele, vender. Mal sabiam que essas coisas andam sempre juntas.

João era solteiro. Maria também. João morava num apartamento velho, daqueles grandes. A casa da Maria era novinha em folha, dessas minúsculas. João tinha uma lambreta dos anos 50. Maria dirigia um jipe 62, herança do avô. Os dois nasceram na década de 70.

Maria andava de olho no João desde o último amigo-secreto. João nem percebia, bobão que era. Maria, tonta, se conformava.

Maria passava o fim de semana no sítio, fazendo trilha com o pai e cozinhando com a mãe. Faziam doces, geleias, comidinhas. Ela sempre voltava para casa com coisas gostosas, para a semana toda. Na casa avarandada, que dava dez da sua, tomavam café de coador, assavam pão pela manhã, falavam dos três tempos que regem o mundo: presente, passado e futuro. Maria reclamava da vida, abria o coração e dele sempre saía João. Quem sabe não tirava umas férias para esquecê-lo? A mãe dizia que ela não precisava de férias coisa nenhuma. Precisava era namorar. Todo sábado elas preparavam uma fornada de biscoitinhos da felicidade, batizados assim pela avó, para que ela levasse ao trabalho. As colegas gostavam. Um dia, ao tirar a assadeira do forno, Maria arregalou os olhos. Não sabia que estava com a felicidade nas mãos.

Chegou abril e o outono já se acomodara no ar. Maria lia o jornal quando se deu conta: ainda não havia feito seu imposto de renda. Vivia fazendo conta para os outros. Lidava com o dinheiro dos patrões, mas não cuidava do seu. Embananava-se com os próprios números. Renda, para ela, só em vestido ou cortina. O irmão caçula fazia o imposto para ela, todos os anos. Mas daquela vez ele não poderia quebrar seu galho.

João precisava fechar os pedidos da quinzena. Foi visitar um cliente antigo que já havia virado amigo. Beberam um espresso, falaram do Brasileirão. João reclamou da vida, abriu o coração, disse que precisava de férias. O cliente disse que ele não precisava disso, precisava era namorar mais. João arregalou os olhos. O cliente sempre tem razão.

Fim de abril. Quem deixara para fazer o imposto na última hora corria atrás do tempo. Na empresa, uns aproveitaram o almoço. Digita os dados, grava, envia, pronto. Maria nem sabia por onde começar, o jipão entrava ou não? João aproximou-se da sua mesa e quis saber do que eram aqueles biscoitinhos. Experimentou um. Repetiu. Olhou para a tela do computador e viu nela refletidos os olhos perdidos da Maria. Perguntou se ela queria ajuda. O dele estava pronto há dois meses, moço precavido.

E foi assim, parecido com a canção: João ensinou Maria a fazer imposto de renda. Maria ensinou João a namorar. Logo ela, que nunca havia feito declaração de amor. Nem completa, nem simplificada.

Lição de casa

Era para mandar pelo caderno duas figuras que representassem as profissões dos pais. A professora vivia pedindo coisas assim para as atividades em sala de aula. A princípio, ela achou interessante. Porém, lembrou que na sua época crianças de três anos não estudavam isso. Nem à escola iam, para dizer a verdade. Passavam o dia brincando em casa, construindo cidades imaginárias para seus carrinhos, fazendo comidinha para as bonecas, caçando tesouros no jardim. Se hoje, nessa idade, as crianças precisam encaixar na agenda estudos sobre profissões, alguma coisa vai ficar de fora. Porque o dia continua com as mesmas vinte e quatro horas.

Quando ela tinha três anos, eram vagas as suas noções sobre profissão, trabalho. Sabia que seu pai saía cedo de casa e só voltava à noite, às vezes dias depois. Ele sempre chegava com um brinquedo novo para ela e o irmãozinho. Sabia também que sua mãe costurava roupas para a vizinhança. Em troca, as vizinhas davam para sua mãe frangos, ovos, bananas, um quilo disso, um quilo daquilo. Então, trabalhar, que era aquilo que eles faziam todo santo dia para viver, deveria ser uma coisa muito boa. Uma vez, sua mãe ganhou um porco, mas recusou. Explicou que não havia espaço em casa. Além do mais, o porco ia fazer a maior bagunça no quintal. Dois dias depois a vizinha voltou com três pacotes grandes e pesados, avisando para guardar tudo na geladeira. Era o porco.

Encontrou algumas revistas velhas na estante da sala e recortou duas figuras. No fim do dia, leu o recado da professora:

As figuras devem estar relacionadas com o trabalho da mamãe e do papai. Favor substituir e enviar até amanhã. Grata.

Deitou o caderno no colo e perdeu o olhar no horizonte do pequeno apartamento. Que, de repente, lhe pareceu imenso. Olhou as figuras presas na página pelo clipe azul. Então aquelas não serviam? Tanto trabalho para achá-las. Desanimada, pegou novamente as revistas. Folheou uma, sem vontade. De repente, ficou séria. Não ia mandar outras, coisa nenhuma. Guardou a revista, alcançou a caneta e respondeu no caderno:

Para dar conta de tudo aqui em casa, eu costumo virar a Mulher Elástica. Já meu marido é como o Super Homem, vive ajudando meio mundo. Seguem as figuras de novo. Mas se você preferir, posso mandar uma de dentista e outra de advogado. Abraços.

Ajeitou tudo no caderno e terminou de arrumar a mochila do filho. Era tarde, e ela ainda não tinha colocado comida para o peixe.

O que você quer ser depois que tiver crescido?

Ilustração: Rodrigo Müller/Flickr.com

Na rádio, a consultora em recursos humanos lia no ar e-mails dos ouvintes. Invariavelmente, eles pediam orientações para turbinar o currículo ou aprender a fazer o tal do network. Naquele dia, ela leu a mensagem de um médico bem-sucedido: dono de clínica, professor universitário e, de uns tempos para cá, palestrante. A vida estava ganha. Faltava algo, porém. Ele ainda queria crescer, pessoal e profissionalmente. E não sabia qual passo deveria dar. O programa corria sem novidades, não fosse o fato de o caro ouvinte em questão ter… setenta anos. Idade em que noventa e nove vírgula nove por cento das pessoas já penduraram as chuteiras. Não lembro qual foi a dica da consultora no caso, que também deixou escapar sua surpresa. Mas crucifiquei-me por, às vezes, ter tanta preguiça diante da vida.

A lendária pergunta “o que você vai ser quando crescer?” – e todas as suas variações – é uma senhora maldade. Querer arrancar isso de um jovem é dizer na entrelinha que, por ora, ele não é nada. Que ele está à toa na vida, vendo a banda passar. Questionar isso a uma criança, por mais inocente que seja a intenção, é dar um nó em seus tenros neurônios. Ela cresce acreditando que ainda falta muito tempo para se preocupar em ser alguém. E, por ora, segue sendo nada. Pior: passa a crer, piamente, que só será alguém de verdade, socialmente importante, quando escolher uma profissão. E profissão, para um bocado de gente, serve só para ganhar dinheiro. O difícil nessa história é saber qual é o ovo, qual é a galinha. A escolha da profissão, mesmo que da boca para fora, para todo mundo achar bonito – “Quero ser astronauta” – ainda é um rito de passagem, com poder de condenação assim que o aspirante a gente passar no vestibular: Serás advogado para sempre. Mas os ventos parecem estar mudando.

Até pouco tempo, assinalar com xis o curso desejado no formulário do vestibular significava decidir, ainda no início da vida, o que se faria pelo resto dela. E ai de quem marcasse ao mesmo tempo Direito e Educação Física, cadeiras nada afins. O candidato não tinha culpa se gostava, de verdade, das duas coisas. Passava por indeciso ou maluco. Hoje, sabe-se da importância dos múltiplos interesses ao longo da carreira. Não por acaso, o candidato se depara com um sem-número de opções de cursos que seus avós nem sonhariam. Sempre houve, claro, quem guinasse a carreira cento e oitenta graus aos trinta, quarenta anos. Ou quem se recusasse a aguardar o fim da vida na poltrona, com uma manta xadrez sobre as pernas. O que chama atenção, agora, é que esses comportamentos, longe de serem regra, tampouco são exceções, inaugurando um interessante meio-termo entre uma coisa e outra.

Aquele médico da rádio já era bem crescido, talvez tivesse netos e bisnetos. Mas continuava caçando coisas para ser, ainda que na mesma profissão escolhida há mais de cinquenta anos. Gente que faz isso não é doida varrida. É gente reinventada, para usar um termo já cunhado pela modernidade.

Vou lá me consultar com ele. E pegar uma receita de ânimo, atitude e fé.

Isso são horas?

Essa é para deixar Cronos, deus do tempo, meio lelé. No mínimo, confuso.

Tanque quase vazio, parei para abastecer o carro. Aproveitei para espiar a lojinha que há no posto. É um pequeno atelier de artesanato. Na porta de vidro, a placa informa:

A Jussara, ou simplesmente Juca, é quem comanda o lugar e faz tudo o que está à venda nele. São objetos de decoração simples e caprichados, como uma luminária de parede em forma de pipa – ou papagaio, quadrado, raia, pandorga – com direito a uma rabiola comprida, feita de retalhos coloridos. Dá vontade de sair empinando. Mas interessante mesmo é a placa. O expediente ali tanto pode ser das oito às cinco, como das dez ao meio dia. E, entre os dois, muitas possibilidades. Tudo depende.

Metáforas à parte (pois se todos resolvessem trabalhar dessa forma o mundo colapsaria), o bom humor da placa revela: ali trabalha uma pessoa dona do seu nariz. Alguém que recusa o sutil convite para se encaixar na fôrma e, mesmo assim, é capaz de uma produção com valor cultural e comercial. Vamos confessar: por mais que você ame sua profissão, tem dias que a última coisa que você gostaria é de ir para o trabalho. Ou, pelo menos, não na hora que inventaram para ele.

Vá lá: horário é importante. Para registrar nascimento e morte, almoçar, jantar, ir à missa, à escola, ao médico, pegar ônibus, avião, ver novela. Sem horários, é caos na certa. A Juca deve perder freguês e negócio de vez em quando. Talvez não viva somente do seu artesanato. Mas, ao que tudo indica, ela sabe seu ritmo, dirige a sua vida e não deixa ninguém lhe tomar a direção. Quem sabe o ideal fosse o meio-termo. Nem tanto o céu, nem tanto a terra, mas na altura das pipas. Um pouco mais ao sabor do vento.

A foto da placa foi feita com o celular. Infelizmente, não ficou com muita definição. Mas tudo bem: faz de conta que é para combinar com os horários do atelier.