O chamado (ou: Carta para Marina)

Foto: Gilberto Agostinho

“Vou seguir o chamado

E onde é que vai dar, onde é que vai dar

Não sei”

Eu sei, Marina. Eu sei onde vai dar. Se eu seguir o chamado, vou encontrar um filho. Porque na vida da mulher que é mãe não há nada que a chame mais do que filho. Há de ser uma espécie de resgate, uma compensação pelo útero abandonado tão cedo – ainda que de livre e espontânea vontade.

Os motivos para um chamado de filho são amplos, gerais e irrestritos. No meu caso, tenho dois ex-inquilinos umbilicais lindos, que me evocam a cada dois minutos e meio: para ver a lagartixa esquartejada que eles encontraram no jardim, ver como ele anda de ré e o que ela sabe fazer com a colher de pau, ver a propaganda do brinquedo novo, vê-los pular na piscina – de frente, de costas, girando, de olhos abertos, de olhos fechados também – e nadar feito tartaruga, depois igual golfinho. E aí eu já estou tão cansada, Marina, que fico igual ao pior cego, aquele do ditado: não quero ver!

Em dia de chamação intensa, chego a atender meus filhos mais vezes que o pasteleiro da feira de sábado. É ele querendo um de queijo, ela, de palmito. Estou frita, Marina.

O chamado de um filho é, ao mesmo tempo, carente e impiedoso. Quase feroz. Não faz sentido três intermináveis segundos para ser atendido. Filhos são urgentes.

O chamado da sua canção, Marina, é poético, subjetivo, cheio de metáforas, vem quando se está numa busca interior. Os dos meus filhos são em prosa, objetivos, cotidianos, reais. Me pegam quando estou no banheiro, fazendo xixi. Ou quando estou tentando prestar atenção no noticiário, querendo dormir, quase dormindo ou, efetivamente, dormindo. Ainda não investiguei a fundo, mas o número de ocorrências de um chamado filial enquanto converso com o pai deles é altíssimo. Deve haver alguma conjunção especial nesse momento, solar ou lunar, que desperta no filho a missão de ser um chamador sênior.

De vez em quando, finjo que não é comigo, larari-lala. E torço para que não seja um deles querendo me avisar que o gato se enfiou na secadora ou que a máquina de lavar saiu andando pela área de serviço na hora de centrifugar, de tanta roupa que botei lá. Eles não desistem fácil; eu também não. Recorro à meditação expressa; fico invisível. Ser mais velho merece alguma vantagem.

De vez em quando a chamação é tanta, Marina, que assumo o ‘não’ como resposta-padrão e seja o que Deus quiser. Se era “Mãe, você vai brigar se eu derrubar iogurte no tapete?”, danou-se. Mas sempre tenho cinquenta por cento de chance de acerto na decisão.

De vez em quando, penso que há um chamado subliminar, embutido no chamamento dos filhos, a nos lembrar que é o amor que tudo move. Ou o céu, que ironicamente abriga o recado: “Fizestes uma pessoa, agora te viras. Quem te mandastes levar tão a sério o ‘Crescei e multiplicai-vos’?”.

Você não sabe do que estou falando, Marina, porque não tem filhos. Tivesse, saberia que o grande final, o grande final feliz da sua canção nunca é proclamado na vida de uma mãe; ele está em eterno progresso. (A ordem é que são elas.)

“O chamado”, Marina Lima e Giovanni Bizzotto

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