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Gol!

futebol 1

Vivo perdendo gol do meu filho.

Em vez de prestar atenção ao jogo, distraio-me com a formiga aparentemente desnorteada que escala meu sapato, a nuvem em forma de cachorro, o pacote vazio de Ruffles que o vento leva pra cá e pra lá.

Quando vejo, já foi. Tenho déficit de atenção esportiva. E não há tratamento – graças a Deus.

É domingo, estou em pé desde as seis e dirigi cinquenta quilômetros. Aboleto-me na arquibancada; sou apenas um holograma de mim, que fiquei na cama. Não entendo nada do que fazem em campo. Demoro a descobrir de que lado o time dele faz gol. Aliás, mal o identifico, ao longe. Tento pela chuteira. Ele veio com a verde-limão ou a laranja?

Flagro um pedaço de conversa ao lado, o marido de não-sei-quem não pagou pensão e passou a noite no xilindró. Não pagar pensão é falta grave. O pacote de Ruffles agora foi parar na torcida rival, alguém se anima e o chuta de volta. Se tem uma coisa que une todo mundo é batata frita.

Perco novo lance, sei porque a torcida solta “Uuuh”.

Futebol não é minha praia. Praia também não é minha praia. Tem areia, água salgada, que aflição.

Vinte minutos de bola rolando, finjo compreender as jogadas. Resolvo ir à lanchonete. Sou a única a pedir café. Em pé desde as seis, lembram?

Volto ao meu posto e descubro que, enquanto eu tomava café e borboletava no Facebook, meu lateral-esquerdo favorito fez gol. Não dou uma dentro.

Posso não ser a mãe-torcedora ideal. Mas divirto-me vendo pais e mães com síndrome de técnico. Que ficam, da arquibancada, berrando instruções aos seus minineymars, com a mesma naturalidade com que os mandam arrumar a cama, escovar os dentes ou fazer a lição. O caso das mães, geralmente, é mais grave. “Tem que descer mais, Pedro Henrique!”, “Vai na bola, Lourenço Augusto!”. Chamam pelo nome inteiro. Nem o técnico sabe de quem se trata. Eu não faço isso. Primeiro, porque não daria uma orientação que prestasse. Segundo, atrapalha o time, é mico dos grandes. Se as torcidas organizadas têm regras a seguir, torcidas de genitores precisam de um capítulo extra.

Não fui alfabetizada nos esportes. Tinha ojeriza às aulas de educação física, no ginásio. Em parte, pela ideia do exercício em si; em parte pelo uniforme pavoroso a que éramos submetidas (shortinho bufante vermelho, minissaia branca plissada por cima) e em parte pela professora, que dava aulas maquiada e ensinava vôlei fazendo a turma ler em voz alta as regras, a partir de um livro. Sentávamos em roda e nos revezávamos. Deve ser por isso que peguei gosto pelos livros e não pelos esportes.

Na TV, pulo, sem dó, todos os canais que cobrem o assunto. Pudesse, os eliminaria. Tenho apenas um par de tênis – todo mundo precisa ter, na vida, um par de tênis e uma caderneta de poupança, para eventual necessidade. Peguei da caçula, ficou pequeno para ela. É um número maior do que eu calço, fato irrelevante. Eu que não gasto com essas coisas.

Na volta do jogo, no carro, torço para que Luca não pergunte “Você viu aquele gol que eu fiz?”. Na qualidade de mãe, não poderei mentir. A inquisição fatal vem e eu respondo. Ele fica chateado por dois segundos, balança a cabeça e ri. Sei que está tudo bem quando ele emenda, “O que a gente vai almoçar?”.

A promessa

cabelo

Prometi à Nina deixar meus cabelos crescerem.

Logo eu. Que, apesar de ser lembrada como cabeluda pela turma da escola, não uso nem um fio abaixo do queixo desde que ela nasceu, há onze anos. Eu, que sou devota de São Joãozinho. Eu, que tenho quimeras antigas com a máquina dois.

O limite negociado foi o ombro.

Tem gente que promete, em nome de nobre causa, não comer chocolate. Subir de joelhos intermináveis escadarias. Cortar – veja só – os cabelos. Eu não. Eu prometo deixá-los crescer um quarto de metro. Cada um com a sua provação.

De criança, minha avó penteava meus cabelos para eu ir à aula. Contrariada, subia no bidê para facilitar o trabalho dela. Que tinha mão pesada, puxava com força (e algum mau humor) minhas extensas e quase sempre embaraçadas madeixas. Não havia esses condicionadores bons de agora. Nem os ruins a gente tinha, era xampu e olhe lá. Eis que surge, para nossa salvação, o Neutrox. Creme amarelo, inovador e relativamente barato que dissolvia nós como que por encanto. Um dia, hipnotizada pelo seu aroma adocicado, não resisti. Comi.

No caso da minha promessa, a nobre causa não foi motivo de doença, nem de milagre solicitado, tampouco de graça alcançada. “Mãe, deixa o cabelo crescer um pouquinho só?” – foi o (reiterado) pedido da caçula. Lasquei-me. Como negar? Desde então, tenho recorrido às faixas, lenços, tiaras e adereços que me façam enfrentar a (longa) temporada com algum ânimo.

Exibi imensa cabeleira até os vinte e cinco. Cultivada quase por acaso, em um misto de esquecimento de cortar com ideal de beleza. Acreditava que era assim que tinham que ser os cabelos de uma mulher, feito verdade irrefutável (não é). Fui dessas de aterrorizar o cabeleireiro, caso o infeliz cruzasse a fronteira do “só as pontinhas”. Como se minha vida não fosse funcionar de outra forma. Os cabelos eram longos, mas as ideias eram curtas.

Todos os dias me olho no espelho ao acordar, na esperança de que alguma mágica tenha se dado durante a madrugada e meus fios tenham adquirido o DNA do bambu. Cogito negociar com a Nina, quebrar a promessa. Trocá-la por um brinquedo novo, quem sabe? Mas aí lembro de seus desenhos, quando era pequenininha. Neles, sempre fui representada com arquetípico cabelão. Desisto da negociação, respiro fundo e sigo em frente. Tanta coisa que ela me pede e eu, por incompetência ou falta de vontade, deixo de atendê-la. Ser mãe é carregar uma eterna e cabeluda culpa sobre os ombros.

Ano que vem faço cinquenta e um, a idade da minha mãe quando morreu. Dona Angelina perdeu todos os cabelos na quimioterapia. Pensei em uma homenagem póstuma, raspando os meus. “Vê? Também estou carequinha da silva”, direi-lhe em pensamento. Estarei três décadas atrasada, é verdade. Mas ela há de entender. Mães são atemporais. Além disso, comprida mesmo é minha saudade. Dá até para fazer trança.

O banco da frente

fusca

A caçula completou dez anos, agora pode ir na frente. Fez valer seu direito já nas primeiras horas da nova idade, apropriando-se do banco dianteiro do carro. Sentiu-se, enfim, mais gente do que no dia anterior.

Eu não lembro de quando fui autorizada a andar na frente no carro do meu pai – se é que houve, um dia, a permissão oficial. Mãe moderna que sou, sei de cor idade e altura mínimas exigidas pela lei, as regras das cadeirinhas. Nada disso habitava o mundo dos meus adultos. Era comum o cinto de segurança permanecer, por toda a existência, enroladinho como viera da fábrica (quando tinha). Sarampo, colisão frontal, WhatsApp… As preocupações dos pais são como o comprimento das saias: mudam de uma época para outra.

O mais velho usufruiu o monopólio por quase três anos. Veterano, e ligeiramente a contragosto, cedeu o posto. Também recordo-me de seu estado de graça quando pôde ir na frente e passou a controlar o som. Foi preciso repartir as memórias disponíveis no aparelho, para acomodar as minhas estações de rádio e as deles. Há duas semanas, na qualidade de mãe e prevendo confusão na hora de ir para a escola, fui rápida na sentença: “Na primeira briga, os dois vão atrás por tempo indeterminado”. A intervenção materna encerrou-se ali e o consenso foi celebrado: uma semana de cada um. Uma decisão salomônica em relação ao pobre banco do passageiro não foi cogitada, para meu alívio.

As conquistas da mobilidade humana nas primeiras fases da vida são: engatinhar. Andar. Ir sozinho à padaria. Viajar com a turma da escola. Tomar um ônibus até o centro. Para todas, há o correspondente veicular, representando a hierarquia dos assentos: tudo começa no bebê-conforto. Depois, a cadeirinha. Assento elevado. Diretamente no banco de trás, sem cadeirinha – a glória. Pré-ápice com gostinho de apogeu: o banco do passageiro e o horizonte das ruas, agora desnudado e sem interferências. E para coroar, mais adiante, o banco do motorista. A validação simbólica da maioridade, a consagração da independência.

Por ora, ela, caçula, segue igualmente encantada com o recém poder sobre o som, como o irmão, há alguns anos. Ele já tem nova meta: a minha posição. Conta os anos que faltam para a habilitação. Quer entender cada controle do painel, saber como se sai na ladeira usando o freio de mão.

Eu, que não só ando no banco da frente do carro, como o conduzo há três décadas, confesso: às vezes, tudo que desejo é um banco de trás para chamar de meu. Porque no imaginário da mulher cansada é o assento que melhor representa a tranquilidade de não estar nem aí com horários, rotas ou pessoas esquisitas que surgem nos sinais. Quem dera poder, de vez em quando, instalar-me numa espécie de bebê-conforto gigante e ser apenas levada e trazida. Com o direito de dormir na ida e na volta e ser prontamente atendida em caso de fome. E onde meu campo de visão abarcasse apenas um pedaço de céu azul.

O parto da Maria-Fedida

Bem que vi, dia desses, uma porção de ovinhos grudados na parede de fora. Pareciam sagu. Sem saber de que eram, deixei-os por ali. Dei palpite: “é de aranha”. Com tanta planta no condomínio, o padrão de vida delas aqui é bom.

Memorizei o local, para dar uma espiadinha de vez em quando. Chegava bem perto, e lá estavam eles. Foram mudando de cor, numa animada paleta biológica. Primeiro, ligeiramente perolados. Depois, cinzentos. Então ficaram transparentes e pude ver os bebês, preto-alaranjados, em formação. Mamãe-inseto nem precisa de ultrassom.

Esqueci-me e descontinuei a observação. Quando lembrei, os ovinhos já haviam eclodido, estavam secos e transparentes. Ao redor, oito dos recém-nascidos. De preto-alaranjados, eles tornaram-se cinza-claro. Não levo jeito para entomóloga, então continuei chamando tudo de aranhinha.

***

Hoje cheguei do supermercado e vi uma Maria-Fedida na parede, perto da porta. Sempre tem uma no pedaço. É o terror da criançada, nunca compreendi o escarcéu. Tem o fedozinho, é verdade, mas ela não fede em tempo integral. Se a deixam quieta em seus afazeres de artrópode, ela não empesteia. Gente só fica catinguenta se transpirar demais, se não tomar banho. Maria-Fedida só cheira mal se ameaçada ou atacada. Tudo na vida tem causa e efeito.

Dizem que Maria-Fedida é praga, que arruína plantação, que isso, que aquilo. Mas praga depende do ponto de vista, e isso nenhum antropocentrista diz.

Para as focas, homens são pragas. Elas só não sabem, coitadas, como acabar com os homens. Soubessem, fariam tudo para espantar os que vão todo ano caçá-las.

O antibiótico é a praga, no referencial de uma bactéria. O veneno que aniquila sua população. Soubessem usar a internet, as bactérias fariam blogs e tutoriais com dicas sobre “como acabar com as pessoas”.

Na história contada do mundo, mais importante que o fato, é o ponto de vista.

Então vi a Maria-Fedida perto da porta. Estava quietinha; pousei as compras no chão e a encarei. Seu corpo lembra um pentágono. Se fosse mulher, a Maria-Fedida seria essas que têm o ombro mais largo que o quadril. Quase todas as minhas tias eram assim.

De repente, ela bota um ovo! Um não, dois. Dois? Não, três. Espera, quatro. Cinco. Seis.

Pacientemente, a Maria-Fedida pariu seus filhos. Então era ela (ou alguma colega) que andava fazendo minhas paredes de maternidade, esse tempo todo. Permaneci imóvel e em silêncio, guardando distância, de modo a não atrapalhá-la. Em meus dois partos, ninguém me encheu o saco, nem ficou me cutucando. Achei respeitoso fazer isso por ela.

Corri por as compras na cozinha e voltei. Pude ainda acompanhar o décimo-quarto e último ovinho. Trabalho feito, ela se mandou. Nada como o parto natural.

Fiquei olhando os quatorze embriões no vão da alvenaria, sozinhos no mundo. Eles agora só têm um ao outro e, já já, nem isso. Seguirão suas vidas de Mariazinhas-Fedidas e será cada um por si, o Deus-Inseto por todos.

E eu, que nunca assistira ao parto de uma Maria-Fedida, lembrei dos dois que vivi. E se não fôssemos a supremacia intelectual do planeta, e outra espécie superior se pusesse a me observar enquanto eu dava à luz? E se rissem de mim? E se resolvessem acabar comigo num piparote? Tive, naquela hora, compaixão por sua vulnerabilidade e certa inveja de sua biologia tão simples e sem firula.

Ela, que também é Maria. Que também é mãe.

A santa, a paixão e a vida como ela é

Arte: Simon Roberts
Arte: Simon Roberts

Ela abre os olhos e vê, pela fresta da cortina, que o dia não amanheceu. Levanta-se, ouve a chuva, olha o relógio e desaba na cama. Cogita faltar ao trabalho e, sonada, traça a estratégia: a) seu avô sofreu um derrame; b) um dos gêmeos passou a madrugada fazendo inalação; c) ela bateu o carro e esperou duas horas pelo guincho.

A semana é santa. Ela não.

Desmotivada pela fagulha da retidão que habita seu DNA, e também por amor, ela deixa o avô em paz. Acorda os gêmeos que, graças a Deus, respiram perfeitamente. Todos tomam café da manhã e seguem  no carro que, ufa!, está intacto. Ela os deixa na escola e acelera. O único coelho da história é o da Alice: sempre atrasado. Prepara-se para o sacrifício, a reunião é às nove.

Na hora do almoço, no shopping, ela lembra que precisa de sapatos novos e esquece que não tem dinheiro. Mas hoje é terça-feira da paixão pelas botas com franjas.

À tarde, ela repassa cronogramas, ajusta prazos. Diz não ao cliente, sabendo que, por isso, será crucificada antes de sexta-feira.

A semana é santa. Ela não.

No portão da escola, ela é a última mãe na saída. Exausta, beija as crianças. Está levemente arrependida por ter poupado o avô do derrame. Chegando em casa, ela põe os gêmeos no banho. Enquanto prepara o jantar, ela detecta o último Danette na geladeira. Certa de que isso dará briga na hora da sobremesa, ela resolve o futuro conflito ali mesmo. Os gêmeos já estão descendo as escadas, mas deu tempo de lamber a tampinha também.

Depois do jantar, ela sobe para o quarto, leva o iPad para o banheiro e faz o xixi mais demorado da sua vida. Finge que não ouve os gêmeos chamando por ela. Apura o olfato e estabelece consigo uma condição: se sentir cheiro de gás, ela desce.

A semana é santa. Ela não.

Ainda faltam quarta e quinta. Para o feriado, ela já anunciou: vai dormir feito pedra. Ressurreição só no domingo, depois do meio-dia.

Encontro vocálico

Foto: Allison Fontaine-Capel

Nina vem mostrar a lição de casa: tem que pesquisar seis palavras com encontro vocálico. Não está nada contente. Está bem chateada, aliás. Diz que vai demorar muito, que é uma trabalheira, que é muito difícil e não conseguirá achar nenhuma nas revistas espalhadas sobre sua escrivaninha. Ela não sabe, mas só na sua ladainha já foram cinco encontros vocálicos.

Olho-a bem dentro dos seus olhos castanhos.

Devo lhe dizer que eu daria tudo, mas tudo mesmo, para que, no dia de hoje, sendo o que sou e estando onde me encontro, minha máxima obrigação consistisse em rastrear uma revista, localizar meia dúzia de palavras, recortá-las e colá-las num caderno?

Devo contar o quanto me faria feliz gastar o quê?, dez minutos numa tarefa, para em seguida estar absolutamente livre para flanar pela casa, ver TV, brincar com os gatos, ir ver se tem algum amigo na rua, ou, se assim eu quisesse, livre até para – veja só – ir dormir às oito e meia da noite sem dar satisfação, ou sequer precisar passar os olhos na agenda para planejar o dia seguinte?

Talvez, no fundo, seja minha missão maior lhe dizer que, ao longo da vida, ela topará e terá que lidar com toda sorte de encontros vocálicos. Uns bons, outros nem tanto, mas todos essenciais. Ditongos, tritongos, hiatos: patrão, angústia, saudade, dieta, doença, viagem, paixão, separação, alegria, desilusão, cefaleia, salário, solidão, frio. Bem mais que a meia dúzia que ela precisa recortar para amanhã. Não adianta explicar o futuro a alguém com menos de um metro e trinta e dentes de leite.

Ou devo apenas lhe dizer, como boa, assertiva e focada mãe, que ou ela pega firme na lição ou não tem Chiquititas depois?

Conheci o pai dela em uma noite de verão. Foi nosso primeiro encontro vocálico, ainda que não soubéssemos disso. Trocamos telefones, nos falamos dias depois, combinamos de sair. Um longo passeio foi nosso segundo encontro vocálico. Começamos a namorar, moramos juntos e nos casamos. Mas não noivamos e a cerimônia não teve véu, nem marcha nupcial; pulamos todos esses encontros vocálicos. Daquela noite de verão em diante surgiriam duas pessoas, seu irmão e ela. E, de lá pra cá, entre ele e eu, tem encontro vocálico toda hora. Bom dia, tchau, como foi o trabalho, me dá um beijo, boa noite. Nosso derradeiro encontro (ou será desencontro?) vocálico há de ser a viuvez, minha ou dele. Nossa lição de casa estará feita.

Nina vira a página e se anima. “Olha, mãe: ‘estação’!”, diz, caprichando na sílaba tônica. Enquanto recorta a palavra da página, pergunta em qual estamos. Respondo: outono.

Vê, filha? Encontro vocálico é o que não falta nessa vida de meu Deus.

Ser mãe é padecer na praça de alimentação

Foto: R. Maruo
Foto: R. Maruo

Em praça de alimentação pai, mãe, filhos e espírito santo não comungam da mesma hóstia. Um quer isto, o outro, aquilo. Senta para esperar, levanta para buscar o pedido, ao toque de mil buzinas descompassadas. Trezentos e sete. Oitenta e um. Cento e quinze. É a democracia gastronômica na base da senha.

Não raro, o lugar vira praça da alimentação interrompida. Geralmente, por causa de outra senha: a necessidade urgente da cria pequena de fazer número um ou número dois, bem no meio da comida. Semana passada, inaugurei mais um jeito de ficar com fome.

Era sábado e eu estava só com as crianças. Fomos almoçar no shopping, templo das conveniências gerais. Eles escolheram o self-service. Eu fui de risoto. Apaixonei-me pelo do cartaz e quis um igualzinho: arroz arbóreo, suculentos camarões e tenros anéis de lula, tudo puxado no vinho branco. Meu apetite não era meramente ilustrativo.

Os pratos deles ficaram prontos em segundos. O meu demorou mais. Enquanto eu continuava famélica, eles se viram saciados. Natural que quisessem partir para a sobremesa. Como sou mãe de dois, razoavelmente crescidos e iniciados no mundo das finanças, nomeei o mais velho fiel depositário de vinte contos a fim de bancar sorvete para ambos. Um pilar e dez metros, não mais, separavam nossa mesa do balcão, atrás de mim. Lá foram. Eu dava uma olhadela, de vez em quando.

Dei a primeira garfada no meu, só meu, risoto de arroz arbóreo, suculentos camarões e tenros anéis de lula, tudo puxado no vinho branco. A felicidade vem do mar, meu bem.

Segunda e terceira garfadas. A caçula veio chorando. Contou, aos prantos e em prejudicada narrativa, que o mais velho, dotado do espírito sacana comum aos primogênitos, havia feito não-sei-o-quê, que a fizera cair ao chão e todos à volta haviam visto sua calcinha.

Pousei o garfo. “Querida, acontece. Fica assim, não”. Fiz-lhe um carinho nos longos cabelos castanhos, dei beijinho para sarar (ainda que nada houvesse a ser curado, exceto seu orgulho). “Agora volte lá e compre o sorvete com seu irmão”. Ela foi.

Quarta e quinta garfadas no meu risoto de arroz arbóreo, suculentos camarões e tenros anéis de lula, tudo puxado no vinho branco. Segui apreciando cada fruto daquele mar que me concedera tal prazer. Quase pude sentir o aroma da uva que deu origem ao vinho que tudo aquilo envolveu. Minhas narinas – e meu estômago – faziam festa em alto-mar.

Ensaiei a sexta garfada. Problema à vista, Capitã. A caçula voltou. Contou, no mesmo padrão choroso-narrativo, que enquanto ela se queixava comigo da primeira vez, o irmão concluíra que ela não voltaria e resolvera comprar sorvete só para ele.

Mais fácil cuidar de um polvo que de dois bípedes. Ser mãe é padecer praticamente em qualquer lugar.

Recorri à paciência tatuada em meu braço esquerdo. Nem ela, nem o pai, nem o espírito santo para me salvar. Quis fazer como Cronos, que tinha o hábito de engolir seus filhos, assim que nasciam. O deus do tempo fazia isso por medo de que sua cria lhe superasse em poder. Meu motivo seria mais humilde: almoçar em paz.

Pousei o garfo pela segunda vez. “Isso não está certo, meu amor. Eu vou lá com você”. Levantei-me, percorri bufando os dez metros até o balcão, ralhei com o mais velho, certifiquei-me que o sorvete da caçula estava encaminhado e, quarenta segundos depois, eu voltava à mesa.

Tarde demais. A moça da limpeza passou e retirou meu prato, levando dois terços intactos do meu risoto feito com arroz arbóreo, suculentos camarões e tenros anéis de lula, tudo puxado no vinho branco.

Fim.

A mentira da princesa

Foto: Mr. Cacahuate

A menina nasce e logo surge uma legião, encabeçada por papai e mamãe, a chamá-la de princesa. É princesa pra lá, princesa pra cá. Das festas de aniversários à decoração do quarto, ela encarna a coroa imaginária recebida na maternidade, reforçada agora pelo maravilhoso mundo de Disney.

Ser princesa é elogio. Mas será que é mesmo um bom negócio? Eu que não me atrevo a perguntar ao espelho da Rainha Má.

Meninas sonham ser, de verdade, como as princesas em seus brilhantes vestidos arquitetônicos. Mas não têm ideia de como deve ser brincar numa piscina de bolinhas metida em um deles. Se dão trabalho para colocar uma camiseta e um short-saia para ir à escola de manhã, imagine para vestir um corpete.

Deixando o conto de fadas de lado e indo para a vida real, ainda não me parece bom negócio.

Princesas não podem usar moletom velho, nem sair na rua com piranha no cabelo.

Princesas não podem arrotar livremente depois de bater uma coca-cola e um cheeseburguer com os amigos. Aliás, que amigos?

Princesas não podem ter, com relativo sossego, conta no Facebook. Tampouco ir dormir na casa da amiga, nem lavar o carro com mangueira num dia quente de verão.

Princesas até podem se casar com plebeus mas, para todos efeitos, é melhor juntar os trapinhos reais com um príncipe. E todo mundo sabe que príncipes, em especial os encantados, não existem.

Princesas não podem pegar uma mochila e sair pelo mundo. Só se for em avião próprio, com uma comitiva de baba-ovos e agenda programada, sem chance de uma escapulida para tomar um café num vilarejo desconhecido. Uma princesa jamais viverá a enriquecedora experiência humana de ter seu laptop roubado em uma estação de trem.

Princesas raramente conseguem assistir, incógnitas, a um show da Madonna – essa sim, uma espécie de princesa, só que ao contrário. (E, vamos combinar, do balacobaco.)

Porque princesas devem ser educadas, gentis, imaculadas, certinhas. Já viu princesa mostrando o dedo do meio para alguém? Princesa no meio dos Black Blocs? Não. Tirante algumas regalias e confortos tão almejados pela plebe, como não precisar lavar roupa, nem conferir extrato bancário, vida de princesa é, no geral, um porre. Um fingimento constante e um cumprimento sem fim de protocolos sociais, como marcar presença em festas aborrecidas e inaugurações entediantes. Um mundo cor de rosa? Só se for rosa antigo.

Ser princesa deve ser tão perigoso, que dar o título simbólico à filha, sua ou dos outros, deveria ser considerado mau agouro. Praticamente uma maldição. Um incentivo à nova leva de brancas de neve, belas adormecidas e cinderelas, candidatas aos feitiços invisíveis do mundo pós-moderno e sem direito a príncipes para salvá-las.

Mas chamar a filha de princesa significa proclamar que ela é linda, perfeita, digna de um pedestal. E se a relação entre princesa e beleza não passar de rima?

(Meninas são princesas e meninos são super-heróis. A elas é concedida, como nos clássicos, a beleza e a bondade. A eles, a bravura e a justiça. Nesse mundo de faz-de-conta, sempre faltam príncipes para as primeiras e super-heroínas para os segundos. A conta nunca fecha. E agora, Walt?)

Há quem assim as chamem sem nem saber direito o porquê. Perpetuam o mito e não percebem que, assim, encastelam suas filhas, fazendo-as crer que são seres feitos de material especial, que são quebráveis. Obrigadas à beleza e condenadas à masmorra da idealização romântica ou, pior, ao fosso da frustração.

E muitas, quando crescem, caem nesse conto. Que nem de fadas é.

Fantasia por fantasia, melhor ser abóbora. Das que não ligam para o relógio, viram carruagem e vão aonde querem.

Redação: Minhas férias

Arte: Mariana Valente
Arte: Mariana Valente

férias. [Do lat. ferias.] S. f. pl. 1. Dias em que se suspendem os trabalhos oficiais (datas patrióticas e dias santificados); feriado. 2. Certo número de dias consecutivos destinados ao descanso de funcionários, empregados, estudantes etc., após um período anual ou semestral de trabalho ou atividades. [Cf. ferias, dos v. feriar e ferir.]

Viu? O verbete não fala nada, nadica, sobre as mães. Mães, portanto, não pertencem à categoria de gente com direito a férias. Pode ser que estejam incluídas no “etc.” mas, verdade seja dita, não seria nada nobre. Mães não tiram férias nunca, nunquinha. Mesmo quando tiram. Não está na constituição, mas no dicionário.

O substantivo “férias” é comumente ligado a um pronome possessivo que, depois que se tem filhos, é usado em todas as pessoas, exceto na primeira do singular. As férias passam a ser dos outros ou deles. Predominantemente deles, os filhos. Ponto final.

Quando eu era criança, toda volta às aulas, em começo de ano ou primeira semana de agosto, vinha com o previsível e aborrecido tema para a redação: “Minhas férias”. Eu ficava entediada, porque nem sempre tinha coisas estupendas para contar. Raramente viajava. Brincava na rua, ficava acordada até mais tarde e escrevia no meu diário. Poderia, aliás, tirar uma cópia dele e apresentar à professora, todos os anos. Pouparia-me um trabalhão.

Se hoje eu tivesse de fazer uma redação assim, ninguém ia querer lê-la, ou eu tiraria zero, já que a deste mês começaria assim:

No primeiro dia das férias (deles) eu estava tomando banho tranquilamente, quando a caçula emitiu SOS lá da sala por ocasião de ter pisado, descalça, no cocô que a gata – adoentada e levemente incontinente – fizera no tapete.

Nos últimos trinta dias, eu não fui gente; fui uma espécie de entidade, cujas atividades consistiram em assistir Carrossel, passar filtro solar na cria e apartar brigas. Minhas frases se resumiram a “Larga esse iPad” e “Não faz isso com seu irmão”, com a variante “Não faz isso com sua irmã”. O episódio do cocô, felizmente, foi pontual.

Julho ainda não acabou, mas as férias, sim. As aulas recomeçaram ontem. Não se usa mais passar o antiquado tema para a redação. O assunto, no caso deles, fica para conversas informais com os professores e amigos. No meu caso, com o terapeuta.

Dezembro é logo ali, virando a esquina.

Perdidos

O menino com camiseta de Homem Aranha olha ao redor e não reconhece os rostos que passam apressados. Dá meia-volta e confirma: está perdido. Nem seus superpoderes podem lhe acudir naquele momento. Trata de fazer, então, a única coisa para a qual está verdadeiramente preparado: abrir o berreiro.

Eu não era criança de me perder na rua, no supermercado, na praia. Nunca deixei minha mãe maluca, procurando desesperadamente por mim na multidão. Também nunca fui esquecida dentro de carro ou na escola depois da aula. É experiência não vivida, faltante em meu portfólio infantil.

A moça gorda e cheia de sacolas para e conversa com o garoto. Tenta acalmá-lo e, com a mão livre, faz-lhe um carinho nos cabelos. O clone de Spider Man continua a chorar. Pessoas se juntam à sua volta, fazem-lhe a guarda, querem pegá-lo no colo. Mais ou menos como no segundo filme da série, numa emblemática inversão de papéis entre protetor e protegido, quando Peter Parker conta com a ajuda dos passageiros do metrô para salvá-lo do inimigo.

(À gente grande não é facultado perder-se. Gente crescida é obrigada a saber voltar para casa. Perdeu o direito fundamental de não saber onde está, não pode ser anunciada em alto-falante. Não está autorizada a recorrer ao segurança do shopping e pedir ajuda. Quem virá lhe buscar? Ao adulto perdido não cabe compaixão; ao contrário, culpa-se. Ninguém se comove com o quarentão sem rumo, que não sabe o que quer ser mesmo já tendo crescido. Quem afaga cabeça de marmanjo que não tem ideia do que fazer da vida? Quem dá colo aos perdidos no tempo e no espaço?)

A Dona Aranha não vem pelas paredes, mas surge no final do corredor, com a aranha-caçula nos braços, ralhando em público com o mais velho. Que que o Marcus Vinícius tinha que ter parado para ver a vitrine com o Fusca feito de Lego? Ela continuou andando, achando que ele a seguia. Mas não, foi coisa de minuto, “Ele ainda me mata do coração”. Não enquanto ela ainda conseguir ativar sua teia materna, invisível e poderosa.

Mais uma identidade secreta revelada. Se não está fácil para super-herói, imagine para nós.

Porque hoje é sábado

Foto: David W

Não é a vingança, o prato que se come frio. Isso é uma mãe almoçando.

É sábado e ela está feliz. Dormiu vinte e quatro minutos a mais do que normalmente faz de segunda a sexta. O pai está em casa, o que lhe permitirá um banho matinal sem intercorrências, como chamados para acudir filhote de pardal caído do ninho, intermediar uma discussão salomônica acerca da divisão do único biscoito recheado restante no pacote ou apartar um arranca-rabo digno de campeonato UFC, versão kids.

É sábado e ela pede penne com frutos do mar em seu restaurante favorito. Ela saliva e quase baba quando o garçom pousa o prato cor de marfim sobre o sousplat laranja. Sua visão fica ligeiramente turva e ela, numa alucinação, vê a pasta de grano duro fazendo sexo com o vôngole e o camarão, bem ali na sua frente, numa orgia gratinada de fazer inveja.

Ela aguardou aquele momento feito criança que espera pelo presente de Natal, pelo primeiro acampamento, pelo dia de poder andar no banco da frente.

É sábado e o penne, o vôngole, o camarão e até a lula lhe sussurram, “Vem”. E ela, completamente seduzida, diz, “Vou”.

Mas é sábado e o caçula, que mandou bem no café da manhã, anuncia: precisa ir ao banheiro. Ela lança ao pai um olhar de gloriosa superioridade, e em seu sorriso de Mona Lisa esfomeada se lê a legenda: “Sua vez”. O pequeno, chacoalhando na cadeira, detalha: é número dois.

E o pai tem nojo. Um asco ancestral, inexplicável e inegociável. Ela relembra o dia em que ele lhe pediu seu telefone. Um sábado.

A missa é no domingo, mas ela antecipa suas orações e roga que o penne, o vôngole, o camarão, a lula e o raio que o parta permaneçam minimamente aquecidos até sua volta.

A pressa pode ser inimiga da perfeição, mas é amiga da mãe. “Anda logo, Pedro Henrique”.

Mãe e filho retornam à mesa. Ela confere a aparência, textura e, sobretudo, a temperatura do que, há nove minutos, era a mais perfeita tradução do prazer. Não é só pelo leite derramado que se chora, mas pelo macarrão emborrachado e gelado.

É sábado, é tarde, é uma pena e era uma vez um penne. Não há o que fazer. Foi ela quem insistiu para que o menino comesse aveia.

Crônica de minuto #48

Quando fizemos o primeiro ultrassom do nosso filho, a médica disse que ele nasceria, provavelmente, entre os dias 24 e 29 de dezembro. Como mãe, minha primeira ordem foi: “Não nasça nesses dias, meu filho”. Falei-lhe sobre a forte concorrência com a festa de aniversário do Menino Jesus, a enorme possibilidade de todos os seus amigos estarem viajando nessa época etc. Ele, por garantia, obedeceu. E levou tão a sério o que eu dissera, que foi preciso uma cesárea no Dia de Reis. O garoto não queria saber de vir ao mundo.

Quando fizemos o primeiro ultrassom da nossa filha, a médica disse que a data provável para o parto seria 16 de outubro. Por coincidência, dia do aniversário do pai. Este abriu um sorrisão. “Calma”, ela disse. “É só uma previsão”. Como pai, seu primeiro pedido foi assertivo, quase uma torcida particular. Igual ao irmão, ela tratou de atendê-lo. Nem foi preciso marcar cirurgia; ela chegou, espontaneamente, no dia combinado.

Hoje, ele finge não me ouvir quando lhe peço para tomar banho e arrumar seu quarto. Ela se recusa a comer a salada e recolher os brinquedos.

Lembrei-me de uma passagem d’O Pequeno Príncipe. Disse o rei, que gostava de dar ordens razoáveis e cumpríveis: “Se eu ordenasse que um general se transformasse em gaivota, e o general não me obedecesse, a culpa não seria do general, seria minha”.

O rei está certo. Mas ele não disse nada sobre banhos, saladas e arrumações de quarto.

A mães e pais não cabe tanta razoabilidade assim. Nosso reinado é outro.

Memórias de uma boleira

Arte: Marie W.
Arte: Marie W.

Eu fazia bolo para vender na escola. Não lembro como comecei, nem por que parei.

Voltava da aula, tocava meus afazeres de estudante de segundo grau e me punha a preparar o bolo do dia seguinte. Com ingredientes de sobra – nada como uma vendinha na família – , eu buscava receitas no caderno da minha mãe e, vez em quando, inovava. Bolo de maracujá, bolo de café. O preferido da freguesia, no entanto, era o previsível e correto cenoura com chocolate. Aguardava esfriar, desenformava, partia em porções individuais, embalava. Aprimorei o negócio, passei a usar forminhas de papel. Fui precursora dos cupcakes e não sabia.

Manhã raiada, cadernos, livros, régua T (o curso era Edificações) e uma grande sacola tomavam o ônibus comigo. Ora rumo à Praça do Correio, ora à Praça da Sé. De lá, o metrô até a Estação da Luz. Descia em frente ao Batalhão de Polícia de Choque, a icônica Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar), que fica junto ao Regimento da Cavalaria 9 de Julho. Mais seiscentos metros a pé na rua Jorge Miranda, em meio aos cavalos em treinamento e seus cocôs deixados pelo asfalto, até meu destino, o Liceu de Artes e Ofícios.

O sinal do lanche tocava e eu assumia meu posto no fundo da sala. Abria o tupperware e vendia cada pedaço por um cruzeiro e cinquenta centavos. Não fazia planilha, posto que não havia despesa com farinha, nem ovos ou açúcar. Nem com o gás que alimentava o velho forno da minha mãe. Ou seja, lucro de cem por cento; uma utopia para qualquer empreendedor. Chegava a vender quarenta pedaços num dia. Considerando que houve época de bolo de segunda a sexta, em uma semana o faturamento líquido chegava a trezentos cruzeiros. Não tenho ideia de quanto seria em dinheiro de hoje. Certamente, nada mau para uma adolescente de dezesseis anos.

***

Sábado fiz bolo para as crianças. Um pandeló tão simples e eles lamberam os beiços. (Embora meu veredicto tenha sido implacável: “Ih, embatumou”.) Passei o final de semana com uma secreta vergonha, um engasgado arrependimento. Conto nos dedos de uma mão as vezes que fiz bolo ou algum outro doce para meus filhos. Rendo-me, invariavelmente, aos prontos da padaria. O que ganho em tempo, perco em sorriso. A conta não fecha.

Outrora boleira semiprofissional, meu destino, eu sei, é ser boleira afetiva. Conheço o preço de cada clara batida em neve e cada elogio; não viso mais lucro. O único prejuízo foi privá-los de quitute de mãe. Embatumado ou não, vale pelo resto da vida – deles e minha.

Agora, faço bolo de graça e acho graça. Estabeleço um cartaz imaginário e visito minha própria cozinha.

Crônica de minuto para quem sabe escrever

Arte: Chrysti

Filho recém-alfabetizado dá nisso: Nina escreveu o alfabeto inteirinho, de A a Z, sabe onde? Na colcha da cama dela. Novinha, acabou de ganhar. Catou a Bic e foi lá, treinar letra de forma.

Em seu papel de algodão cru, caprichou na caligrafia e expôs o recente aprendizado. Criança não diferencia os meios de comunicação autorizados dos não-autorizados.

Eu me lembro muito bem de, mais ou menos na idade dela, ter decorado a parede da sala de casa com uma canetinha. O “painel” consistia em uma longa estrada que nascia por detrás do sofá, subia e descia algumas montanhas, dobrava a quina e terminava atrás da poltrona. Fiz vários carrinhos trafegando, para conferir realismo à cena. Achei lindo. Não me recordo do que aconteceu depois. Considerando que podíamos brincar com as peças do aparelho de jantar da minha mãe, bem como com seus anéis e colares, a bronca pela estrada não deve ter sido tão feia.

E agora?, pergunto à Hello Kitty estampada na colcha. Mas que bobagem, as colchas não falam. Tampouco a gatinha do desenho. Através do seu olhar, ela chama minha atenção para o K e o Z espelhados e diz que é preciso falar algo à Nina. Que ainda não sei o quê. Faltam-me as letras.

Um outro ensaio sobre a cegueira

Arte: Ade McOran-Campbell
Arte: Ade McOran-Campbell

Ela se aproxima, pelo canto, da mesa onde estão os autores. Quer saber do livro que está sendo lançado naquela tarde, abre a torneira de perguntas. Um deles, o ilustrador, responde ao seu questionário enquanto cria um desenho-autógrafo para alguém no outro canto da mesa. Ela é desenvolta, articulada, interessada, faminta. Sem acanhamentos, acha engraçado o tema do livro. Dezesseis anos, talvez? Conta que também escreve e já tem um livro pronto, quer dicas para publicá-lo. Fala pelos cotovelos. Ajeita os cabelos. Encara o nada enquanto ouve as respostas. Tateia tudo que há na grande mesa. Ela é cega. Ou quase.

Só estamos acostumados aos cegos silenciosos.

Também tenho minha fome e vou até o café da livraria, “Tem bolo de quê?”. Escolho o de fubá, maçã e canela, mais um espresso. Em poucos instantes, ela aparece. Atravessa o salão – com a mesma tranquilidade com que, há pouco, sabatinara os autores – e chama pela mãe. A mãe, de uma das mesas, emite qualquer sinal que a garota compreende. Seu sistema de posição global é afiado. Caminha até ela; a mãe não se levanta para guiá-la. É seu jeito de conjugar o verbo proteger. Ela senta-se. A mãe aproxima seu rosto do dela, segura-o entre as mãos e, num carinho além-materno, a beija. Tudo, então, se explica: a desinibição, a perguntação, a apropriação do ambiente, o livro pronto.

Eu, cegada pelos livros ao redor, para explicar o que vejo, só faço pensar em música. Deve ser porque para ouvir não é preciso olhos de ver. Nem de ler.

Primeiro vem o Sting, que não cantou isso pensando em mães, mas cabe:

“if you love somebody, set them free”

Depois a Marina Lima, que também não cantou isso pensando em filhos, mas cabe:

“guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la; em cofre não se guarda nada; em cofre, perde-se a coisa à vista. Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la. Isto é: iluminá-la ou ser por ela iluminado”

Do que será o livro que escreveu?

Mãe e filha se levantam, pagam a conta. “Dos cegos do castelo”, erguido em torres de papel, elas se despedem. E vão.

O chamado (ou: Carta para Marina)

Foto: Gilberto Agostinho

“Vou seguir o chamado

E onde é que vai dar, onde é que vai dar

Não sei”

Eu sei, Marina. Eu sei onde vai dar. Se eu seguir o chamado, vou encontrar um filho. Porque na vida da mulher que é mãe não há nada que a chame mais do que filho. Há de ser uma espécie de resgate, uma compensação pelo útero abandonado tão cedo – ainda que de livre e espontânea vontade.

Os motivos para um chamado de filho são amplos, gerais e irrestritos. No meu caso, tenho dois ex-inquilinos umbilicais lindos, que me evocam a cada dois minutos e meio: para ver a lagartixa esquartejada que eles encontraram no jardim, ver como ele anda de ré e o que ela sabe fazer com a colher de pau, ver a propaganda do brinquedo novo, vê-los pular na piscina – de frente, de costas, girando, de olhos abertos, de olhos fechados também – e nadar feito tartaruga, depois igual golfinho. E aí eu já estou tão cansada, Marina, que fico igual ao pior cego, aquele do ditado: não quero ver!

Em dia de chamação intensa, chego a atender meus filhos mais vezes que o pasteleiro da feira de sábado. É ele querendo um de queijo, ela, de palmito. Estou frita, Marina.

O chamado de um filho é, ao mesmo tempo, carente e impiedoso. Quase feroz. Não faz sentido três intermináveis segundos para ser atendido. Filhos são urgentes.

O chamado da sua canção, Marina, é poético, subjetivo, cheio de metáforas, vem quando se está numa busca interior. Os dos meus filhos são em prosa, objetivos, cotidianos, reais. Me pegam quando estou no banheiro, fazendo xixi. Ou quando estou tentando prestar atenção no noticiário, querendo dormir, quase dormindo ou, efetivamente, dormindo. Ainda não investiguei a fundo, mas o número de ocorrências de um chamado filial enquanto converso com o pai deles é altíssimo. Deve haver alguma conjunção especial nesse momento, solar ou lunar, que desperta no filho a missão de ser um chamador sênior.

De vez em quando, finjo que não é comigo, larari-lala. E torço para que não seja um deles querendo me avisar que o gato se enfiou na secadora ou que a máquina de lavar saiu andando pela área de serviço na hora de centrifugar, de tanta roupa que botei lá. Eles não desistem fácil; eu também não. Recorro à meditação expressa; fico invisível. Ser mais velho merece alguma vantagem.

De vez em quando a chamação é tanta, Marina, que assumo o ‘não’ como resposta-padrão e seja o que Deus quiser. Se era “Mãe, você vai brigar se eu derrubar iogurte no tapete?”, danou-se. Mas sempre tenho cinquenta por cento de chance de acerto na decisão.

De vez em quando, penso que há um chamado subliminar, embutido no chamamento dos filhos, a nos lembrar que é o amor que tudo move. Ou o céu, que ironicamente abriga o recado: “Fizestes uma pessoa, agora te viras. Quem te mandastes levar tão a sério o ‘Crescei e multiplicai-vos’?”.

Você não sabe do que estou falando, Marina, porque não tem filhos. Tivesse, saberia que o grande final, o grande final feliz da sua canção nunca é proclamado na vida de uma mãe; ele está em eterno progresso. (A ordem é que são elas.)

“O chamado”, Marina Lima e Giovanni Bizzotto

Das coisas que não faço

Arte: Leszek Pietrzak

Dentre as coisas que minha mãe fazia para mim, no tempo em que eu era criança pequena e também quando virei criança crescida, há várias que não perpetuo com meus filhos, como seria natural. É como quebrar a corrente, furar o comboio afetivo, interromper a matrioska. Às vezes, me cobro. Outras, nem tanto. É meu jeito de combinar passado e presente.

Não faço bolos para meus filhos. Em casa sempre havia um: nêga-maluca, pão-de-ló, bolo com recheio, bolo sem recheio, bolo para o chá, bolo genérico, bolo de qualquer coisa. Tinha o tal do bolo-coelho, famoso na vizinhança e entre os familiares. Feito sob encomenda, demorava um tempão para ficar pronto. Lembro do seu caderno de receitas com o esquema para confeccioná-lo, passo a passo, e uma ilustração feita à mão do orelhudo. Receitas também são uma espécie de desenho. Hoje, vitimada pelo tempo arisco e seduzida pela conveniência do bolo pronto, recorro à padaria e escolho um, embalado em isopor fácil, sem assadeira para lavar depois. Não me lembro mais do ronco da batedeira. Aliás, não tenho batedeira. Raspar restinho de massa na tigela é apenas uma doce, cristalizada e antiga lembrança. Nem sei mais o ponto da clara em neve. Não fiz nenhum dos bolos de aniversário dos meus filhos. Ao contrário de mamãe, que assinava todas as produções culinárias, festivas e não-festivas. O bolo pronto, vá lá,  é bom. Mas é bolo sem história, sem certidão de nascimento, nem RG. Não tem signo. Dia desses, o mais mais velho comentou, com expressiva animação, o bolo que comera na casa da vizinha. Tinha gosto de mãe.

Não faço roupas para meus filhos. Mamãe costurava, tricotava e crochetava para nós. O guarda-roupa dos meus vem unicamente das lojas. Quando a caçula soube que eu andava tendo aulas de corte e costura, encomendou uma saia igualzinha à que eu acabara de fazer para mim. “Até aqui, mãe”, disse ela, marcando com a mãozinha a altura do joelho. Ainda não fiz. Devo-lhe isso, filha. E sequer elaborei uma boa lenga-lenga para justificar a demora. É porque não tem, mesmo.

Não nado com meus filhos. Não que eu tenha tantas lembranças maternas dessas situações. Nem sei se ela gostava. Mas entra para a lista, também. Sou avessa a experiências líquidas, embora saiba nadar. Minha atitude diante das águas é limitada à contemplação, à reverência. Não careço de maiores interações, enfim. Recuso sistematicamente o convite dos pequenos para o tchibum. Ao lado de deixar crescer meus cabelos, esse é o maior desejo deles. Um dia, quem sabe. O tchibum, claro.

Das coisas que faço para meus filhos, independentes do legado parental – como desenhar com eles, passar longas horas nas livrarias, promover sessões de cócegas, cortar-lhes as unhas enquanto eles assistem TV, preparar-lhes banana amassada em forma de coração – , qual delas eles imortalizarão junto aos meus netos e qual eles quebrarão a corrente?

O futuro do pretérito, no quesito tradição, nunca será perfeito.

A garrafa da Jeannie

Querer, sempre quis. Desde criança, quando assistia o seriado na velha Telefunken preto-e-branco, eu queria ser a Jeannie. Que eu não entendia por que era “um gênio”, e não “uma gênia”.

Eu, que já desejei seus superpoderes mais do que ir bem na prova de matemática ou ganhar a boneca que falava, hoje confesso. Bastava-me a garrafa onde ela se recolhia.

Trocaria seu antológico piscar de olhos azuis, capaz de fazer desaparecer coisas e pessoas, pela solitude da garrafa-quitinete. Um refúgio para as horas de colapso doméstico. Indevassável, à prova de Galinha Pintadinha, Lego e vendedor de assinatura da Abril. Onde eu pudesse dormir uma noite inteirinha seguida, curtir meu jantar ainda quente e ler o despretensioso noticiário do Facebook sem alguém ao lado perguntando “Quem é?”. Sem, no entanto, amo para obedecer. Se houvesse um no enredo, que fosse apenas o “eu me amo”.

Uma garrafa-sótão para me esconder da tristeza de ter chegado tarde demais para salvar o passarinho. Para me livrar da insistência do vizinho que tenta me converter e da lanchonete que só tem salgado com carne. Para ouvir nada além da minha própria respiração. Para não ver nem a banda passar, cantando seja lá o que for.

Dentro da garrafa-salvação eu não me importaria de ficar largada sobre uma mesa, embaixo da pia, ao lado do cesto do lixo. O recôndito da minha sala de estar particular garantiria a verdadeira paz eterna, tão prometida pelos cristãos.

Ela nem precisaria ter a icônica arquitetura garrafal, tampouco evocar (dizem) o fálico. Poderia ter o layout de uma Minalba. Cem por cento opaca, evidentemente. Nela, um sofá macio. E, como a casa no campo do Rodrix e do Tavito, meus discos, meus livros e nada mais. (Embora uma conexão 4G também fosse bem-vinda.)

Será que a Jeannie teria filhos com o Major Nelson?

Se ela eu fosse, só toparia tê-los se os superpoderes pudessem ser mantidos depois do parto. Imagine. Fraldas trocadas instantaneamente. Brinquedos que se autorrecolhem. Home office com disciplina e eficácia (sem engordar) num passe de mágica. Depilação e manicure começando no “tic” e terminando antes do “tac”. Condução das crianças à escola, ao médico, às aulas de natação e aos aniversários dos amigos com a rapidez do teletransporte, zás!

Que nada. Era a garrafa que eu queria.

Brinquedo a gente junta, do tempo se fica amiga, do trânsito a gente ri e trocar uma fralda não toma mais que um minuto. Conta rápida: a sete fraldas por dia, são cinco mil fraldas em dois anos, o equivalente a apenas cinco mil minutos dos quarenta e dois milhões que, na média, se vive até o dia em que piscamos os olhos só de ida, sem volta.

O resto é efeito especial da vida.

 

Nota: e o Major Nelson (Larry Hagman) morreu no dia 23/11/12, poucos dias depois da postagem desta crônica.

Crônica de minuto para quem calça 28

Arte: Frank Douwes

Na loja de calçados para renovar os pisantes dos filhos – pé de criança cresce mais rápido que bambu. Por um instante, quis que não fosse verdade: a caçula tirou as meias e os sapatos para experimentar o modelito cor de laranja e uma generosa porção de areia, clandestinamente vinda do parquinho da escola, se espalhou pelo chão. A aula deve ter sido animada naquela tarde.

Vendedoras ocupadas, fregueses entrando e saindo, não cabia pedir uma vassoura. Tomei rápida decisão e fiz a primeira coisa (muito) feia do dia: discretamente, apanhei uma das meias e “varri” com ela a areia para debaixo de um pufe. É dessas lojas com vários, coloridinhos, para a criançada sentar e se esbaldar em meio ao mar de opções. Aproveitei e descarreguei ali os grãos que restavam nos sapatinhos dela.

Lá ficou a areia criminosa, sob a proteção de courino lilás. Uma das vendedoras, de repente, inventou de arrumar o lugar. Ajeitou sapatos nas prateleiras, recolheu pares separados e… decidiu alinhar os pufes. Rezei, vibrei, torci para que ela não mexesse no pufe “x”. Como explicar aquela areia ali, combinando perfeitamente com o estado do uniforme da minha filha? Mentalização bem sucedida, passei a fazer a guarda do pufe.

Ter filhos pequenos é autorizar a vida a nos meter em saias-justas, outorgar à humanidade o direito de falar mal de nós.

Crianças revelam as mentiras dos adultos com verdades inconvenientes (“Fulano, não fomos ao seu aniversário porque fomos viajar”, ao que elas prontamente rebatem, na frente do Fulano, “Não fomos, não! Ficamos em casa!”). Flagram o nosso mau comportamento gastronômico, se atacamos o Doritos antes do jantar. Lascam comentários desconcertantemente sinceros se ganham um presente e detestam. Criam na sociedade a convicção de que nada ensinamos a elas, quando saímos de um restaurante e percebemos que nossa mesa ficou interditada para faxina. Ou quando agarram dez coxinhas ao final da festinha do amigo, “Para levar pra casa”.

Abreviei a compra dos sapatos novos, torcendo para não ser delatada pelo mais velho. Certifiquei-me que o pufe continuava no lugar e fomos embora. Ninguém viu nada.

Síndrome da lição de casa

Arte: Michael Whitehead

Vertigem. Taquicardia. Náuseas. Ansiedade. Desespero. Não, não é a descrição de um episódio de síndrome do pânico. Sou eu, fazendo lição com meus filhos.

A aversão das crianças ao dever de casa é milenar, ancestral. Claro que elas preferem brincar lá fora ou assistir TV, a ficar debruçadas sobre os livros, aprendendo coisas cuja utilidade, ao seu ver, é questionável.

A lição surge como um monstro a assombrar seu tempo livre, semelhante aos assustadores seres sob a cama. Pais e mães, no afã de lhes proporcionar alguma educação, se tornam malévolos algozes, carrascos insensíveis, ao exigir-lhes insensatezes como sentar-se direito na cadeira, não abrir o apontador de lápis no tapete e iniciar as frases sempre com letra maiúscula. Não pode haver benefício educativo com tanto “Apaga e faz de novo”, “Olha o acento”, “Não fura a borracha com o lápis, menino!”.

Os sintomas da síndrome da lição de casa, que acomete genitores estressados, entram em ação na chegada da escola, com a temida frase “Tenho tarefa!”. Num crescente, a angústia se instala e, no meu caso, quando me dou conta, já são dez da noite e ainda falta o dever de ciências. Onde se compra Rivotril sem receita?

Mistérios insondáveis rondam o “para casa”. Quando é para recortar de revistas objetos começados com “a”, todos os objetos com “a” desaparecem das páginas. Idem para todas as outras letras.

É para mandar uma garrafa pet vazia até amanhã? Não há nenhuma em casa. Sendo que, semana passada, você enviou três para o reciclável.

Se a atividade pede uma biografia, o trabalhoso não é a pesquisa; é argumentar com o aprendiz por que ela deve ir além das datas de nascimento e (se é o caso) morte da pessoa. No ensino fundamental, escrever dez linhas inteirinhas está fora de cogitação. Principalmente, se o programa preferido na TV começa em quinze minutos.

Em casa, matemática – razões evidentes – é com o pai. Que leva vantagem, o mais velho é fera nos números. Faz os exercícios rapidinho, pula etapas do cálculo, que ele considera dispensáveis. Não puxou a mim. Sorte dele.

Já Português é departamento da mamãe aqui. Levo, apesar da familiaridade, significativa desvantagem: embora criativo, ele não gosta de escrever, é econômico nas redações, quer logo se pirulitar e ir jogar bola. Resmunga, chora, xinga, atira-se no chão no melhor estilo chilique-de-supermercado. A tatuagem em meu braço (“paciência”) não tem serventia alguma nessa hora, parece ter sido removida com uma espécie de laser imaginário.

A lição de casa, na verdade, é minha. Careço aprender, nas entrelinhas da pedagogia, que filhos não vêm prontos. São obras em progresso. E na maternidade, não tem decoreba. Nem dá pra colar.

Crônica de minuto #43

Meus filhos, quando gostam muito de uma roupa, não querem saber se é “de sair” ou “de ficar em casa”. Eles querem usá-la todo santo dia.

Meus filhos, quando não querem falar com alguém ao telefone, mesmo que seja um parente fazendo aniversário, simplesmente não falam.

Meus filhos, quando veem algo interessante na rua, param. E não importa o que estavam indo fazer, nem que horas são.

Meus filhos, quando querem alguma coisa, fazem de tudo para consegui-la. Tudo.

Meus filhos, quando estão cansados, dormem. Quando tristes, choram. Com fome? Comem.

Tenho dúvidas sobre quem está educando quem na família.

De carona

Arte: Dave Whittaker

– Como eu chego no Balão da Caixa D’Água?

O rapaz aparentava dezesseis anos. O cansaço em seu rosto entregava a longa caminhada. Skate e capacete sob o braço, camiseta de time. Não me pergunte qual, os únicos que sou capaz de distinguir, satisfatoriamente, são Palmeiras e Cruzeiro. E olhe lá.

Em Campinas há dez anos, costumo achar que tudo é perto. Primeiro, porque vim de São Paulo. Segundo: nunca ando a pé. Diante da pergunta, no entanto, calculei: meia hora de caminhada. Terminei de colocar o cinto de segurança na minha filha e, ainda em pé ao lado do meu carro, respondi:

– É longe, viu? Faz assim…

E dei as coordenadas básicas. Adiante, ele se informaria novamente. Com o skate, ficaria fácil. Aos domingos, uma das pistas da avenida que contorna a Lagoa do Taquaral, para onde ele deveria seguir, fica fechada ao trânsito. Bom para os que gostam de caminhar, correr, andar de bicicleta, essas coisas de gente saudável.

Tomamos, minha filha e eu, o rumo de casa. Logo avistei o rapaz, no caminho que eu indicara. Pensei no destino dele, parte do meu trajeto; na minha filha, sentadinha no banco de trás; nos ensinamentos recebidos ao longo da vida sobre caronas e seus perigos (os quais ignorei durante a juventude, época em que eu ia de São Paulo a Ubatuba na base do dedão. Mas essa é outra história.). Cogitei: por que não levá-lo? Havia muitos “porque não” listados em meu juízo. Mesmo assim, escolhi o “porque sim”.

Encostei o carro. Abri o vidro:

– Ei!

E o Rafael topou a carona. Contou que estava em férias na cidade, na casa da tia. Saíra para dar uma volta e se perdera. Testando sua independência, presumi, não quis telefonar pedindo socorro.

Continuou: mora em São Paulo, num bairro vizinho ao que eu vivia. Já era uma afinidade. Falamos amenidades típicas de quem se vê pela primeira vez. Minha filha, atrás, imóvel e muda. Provavelmente, tentando compreender o que era isso de parar no meio da rua e convidar um desconhecido para entrar no nosso carro. A prosa evoluía e eu só pensava como explicaria a ela, depois, minha atitude. Diria que intuí ser o rapaz uma boa pessoa? Argumentaria que eu oferecera carona a ele, e não o contrário, o que mudava, significativamente, o cenário de perigo potencial? Aliás, eu fiz o papel de bandido; Rafael nada pedira. Fosse um meliante, teria agido no momento em que me parou na calçada. Qual pedagogia eu usaria para que minha filha, de tenros cinco anos, não concluísse que se pode fazer isso com qualquer pessoa na rua? Mas Rafael era uma pessoa qualquer na rua. E agora? Por outro lado, ele também deve ter tido seus medos ao aceitar a carona. Mas assumira que uma mãe, acompanhada de criança pequena, não seria capaz de cometer maldades.

Próximo ao tal do balão, perguntei onde sua tia morava. “Em um condomínio, naquela rua”, ele apontou. Ora, ora. “Tenho uma amiga que mora ali. Deixo você lá”.

O Rafael abriu um sorriso, agradeceu. Menino educado. Minha filha continuava em silêncio sepulcral. Que raio de mãe sou eu? No mínimo, curiosa: “Como se chama sua tia?”, perguntei. Gravei o nome. Para contar à minha amiga, claro. Mais agradecimentos, não há de quê, se cuida, boas férias, coisa e tal.

Rafael estava entregue. Era hora da prosa séria entre mãe e filha. No fim, ela só questionou o porquê de não termos aproveitado a parada para visitar minha amiga, que é mãe de uma das melhores amiguinhas dela. A educação dos filhos, descobri, não é um bicho-de-sete-cabeças. De duas ou três, no máximo.

Ao chegar em casa, a tarefa urgente e inadiável: telefonar para minha amiga. Ela não só conhecia a tia do rapaz, como informou: a tal tia é mãe da minha vizinha. Minha vizinha é, portanto, prima do Rafael. No final, o que valeu para nós dois foi um pouco de fé. E a fé, todo mundo sabe, não costuma falhar.

Quem precisa de rede social virtual, se a real está bem na frente do nosso nariz?

A insustentável leveza da faixa de segurança

Arte: Johanesj

A garotinha de presumidos três anos atravessa a rua de mãos dadas com sua mãe presumida, na faixa de presumida segurança. A mulher, com pressa, muita pressa. A garotinha, pressa alguma. Tanto que inventa, nos quinze segundos de travessia, sua brincadeira particular: só pode pisar nas faixas brancas. O que, devido ao tamanhico de suas pernas, é um exercício e tanto. Lá vai ela, caprichando nos pulos, determinada em seu objetivo, rindo gostoso entre um salto e outro. A mãe, constrangida, tenta, em vão, abreviar a história. Quase leio o apelo em seus lábios, “A moça quer passar!”.

A moça – eu – quer mesmo passar. Estou atrasada (quando não?). A verdade é que não há como não deixá-las em paz. Como motorista, meu dever de dar preferência ao pedestre só não é maior que meu direito de curtir a cena.

Faço sinal para a mãe, “Relaxa”. Ela entende; mães são telepáticas. Não que eu seja boa nisso o tempo todo (pelo contrário) mas, naquele instante, os significados de urgência e importância, e a sempre duvidosa relação que transita entre ambas, ganharam clareza instantânea e inabalável.

O parentesco – mãe e filha – é adivinhado, posto a tipicidade do comportamento, digamos, repressor. Fosse madrinha da garota, esta não só a autorizaria pular à vontade, como talvez entrasse na brincadeira. Mas a pai e mãe parece não ter sido concedido o dom da paciência; só a segurança branca do relógio lhes sustenta.

A pressa ignora o universo da leveza. A espera o contempla. Feitos de pressa, somos a ignorância em forma de átomos de carbono.

As duas alcançam o outro lado da calçada. A mãe agradece o inagradecível. A garotinha não quer nem saber, já procura mais coisas para fazer.

Busco no retrovisor o reflexo dos rostos de meus filhos. Vem a insegurança: levarão eles consigo, vida afora, a lembrança das tantas faixas brancas não-brincadas?

Tão simples, ser mãe do filho dos outros.

A comédia da vida materna, parte II: a missão

E a pediatra das crianças pediu exames de fezes. Daqueles que não se colhe em laboratório, e sim, no recôndito do lar. Todo ano ela faz isso. Deve se divertir um bocado imaginando as pobres mães (pais não dão conta, morrem de nojo) travando uma luta inglória com frascos esterilizados e pazinhas traiçoeiras, à espera de uma boa amostra de cocô.

Não satisfeita com o trivial, e para meu desespero, ela pediu logo três amostras. Vejamos: dois filhos, total de seis porções a serem colhidas (em dias alternados), armazenadas e entregues no laboratório, no máximo em 12 horas. Lá vou eu, inspecionar o relógio de hora em hora, enquanto verifico, não sem demonstrar alguma ansiedade, a predisposição deles em consumar o ato. Rezo para que não seja antes das sete da noite; se for, o prazo vai para as cucuias e a produção, para o esgoto.

Ela também pediu exames de urina. Embora feitos no laboratório, esses representaram igualmente um ato de bravura – crianças raramente alinham necessidade, desejo e horário, gostam de brincar de acender e apagar a luz no banheiro e sempre querem ver como é o sabonete. O que dirá realizar o outro – de altíssima complexidade – em meio à rotina doméstica e sem diploma de enfermagem ou certificado de contorcionismo. Epopeia é o mínimo. Nos faz questionar o porquê de, um dia, termos desejado perpetuar a espécie.

Quem não tem filhos pequenos não faz ideia, mas uma coleta dessas não é simples. Requer prática, habilidade, destreza e, sobretudo, estômago. Adultos se programam, conseguem estabelecer um razoável planejamento refeição/toilette, agem sozinhos. Já com a gurizada, é preciso estar eternamente alerta, apetrechos ao alcance, pois qualquer hora pode ser hora. E se perdermos essa hora, é como diz Adoniran em seu Trem das Onze: “só amanhã de manhã”.

Mãos à obra: eu organizo o movimento, oriento o Carnaval, ponho-me a postos e não perco a cria de vista. Ao ecoar do chamado, empunho frasco e pazinha, saio voando. Muitos serão os alarmes falsos, até que chegue a Hora H. Ela chega e, nesse momento, faz-se mister evocar uma energia superior, rogando ausência momentânea de olfato e frescura. O mais velho se posiciona no vaso sanitário, eu me concentro. “Espera um pouquinho, filho”. “Senta mais para cá”. “Assim está bom?”. “VAI!”. Nesse instante, a caçula, sugestionada, chama do outro banheiro: “Também estou com vontade!”. Não há alternativa: o pai terá que enfrentar seus limites. Pelo menos, até eu estar liberada para acudi-lo.

É assombrosa a possibilidade de avaliar se uma pessoa está saudável ou não através da análise de seus dejetos. As universidades poderiam formar médicos tarólogos, com poder de visualizar a saúde de seus pacientes através dos arcanos, dispensando, assim, as constrangedoras coletas de substâncias orgânicas e mal-cheirosas.

A delicada operação é concluída. Ainda há, porém, a bizarra finalização: manter as amostras na geladeira. No dia seguinte, todos almoçarão fora. Não há paz quando se sabe que elas – ainda que triplamente acondicionadas – estiveram próximas aos tomates.

As cenas se repetem por mais duas vezes nos dias seguintes, com pequenas variações e, eventualmente, alguns acidentes. Ao todo, três idas ao laboratório. A recepcionista já sorri quando me vê.

“Ser mãe é padecer no paraíso”, disseram. Com direito a passeios pelo purgatório, admita-se. Mas missão dada é missão cumprida. Dias depois, a recompensa: resultados negativos.

Das lembrações essenciais

Ilustração: João Grando

Fecho os olhos por cinco segundos: tenho um metro e dez de altura. Visto uma camiseta tamanho 6, estou doida por um picolé e não sei quanto custa a boneca falante que acabo de pedir para minha mãe. Isso mesmo: eu sou criança.

Continuo. Ainda tenho um e dez, mas agora posso existir como se tivesse um e sessenta. Sinto como a primeira, penso como a segunda. E lembro, lembro, lembro.

Este é o exercício das lembrações essenciais, capaz de transportar adultos à infância distante, porém, com os cinco sentidos e a sabedoria (qualquer que tenha acumulado) de hoje. Para que serve? Aprender a se colocar no lugar do outro. Precisamente, no lugar de um filho ou filha que tenha um metro e dez e use camiseta tamanho 6. Um pouco mais, um tanto menos, não faz diferença. O importante é a parte de lembrar.

Suas memórias hão de se agitar e explodir igual pipoca no microondas. Ficarão cristalinas como a água da piscina onde você nadava com seu pai (e os dois pareciam muito maiores do que realmente eram, lembra?). Serão tão vivas quanto as cores da melhor fotografia que você já tirou até hoje.

E então se dará conta que, na idade que seu filho tem agora, você também tinha vergonhas bobas – de perguntar para o moço da videolocadora se tinha A Bela Adormecida – e medos paralisantes, como quando acabava a energia em casa e você não tinha certeza se sua mãe estava por perto, até que ela clareasse o breu da sua angústia, tocando sua mão e dizendo “Estou aqui, vamos buscar uma vela na cozinha?”. Se lembrará da fúria no olhar da sua avó ao ver os antúrios dela, tão caprichadamente plantados em frente à casa, agora colhidos e enfiados no vaso (ideia sua para enfeitar a mesa), quando encarar seu pequeno confessando ter sido o autor dos desenhos à canetinha nas almofadas, porque ele achou que assim elas ficariam mais bonitas.

Vamos lá, você ainda está com um metro e dez de altura. Vai se lembrar, de repente, que também tinha dificuldade para cortar a pizza sozinha, e não entendia o olhar intolerante dos mais velhos face àquele desafio pessoal.

Lembrará do seu pânico, solitário e silencioso, no primeiro dia de aula do primeiro ano, quando você não sabia se professores eram pessoas legais ou não, e se você ia poder comprar lanche na cantina, como faziam os alunos mais velhos (os ‘homens’ e ‘mulheres’ de nove anos).

Lembrará como os braços dos seus pais eram longos e alcançavam qualquer coisa no armário, e você se perguntava quando os seus também seriam assim.

Se conseguir realizar esse exercício, talvez você saiba que tudo o que pode fazer hoje – dormir e tomar banho na hora que quiser, por exemplo – representa o máximo da liberdade para seu filho.

Talvez saiba que o medo dele perder você é do mesmo tamanho que o seu de perdê-lo, embora ele ainda não saiba disso, e apesar de cada um ter o seu motivo para.

Talvez descubra por que ele não entende como brócolis pode ser mais importante que biscoito recheado ou, para ficar nos exemplos mais simples, que o significado da expressão “fazer sala” não é literal.

Confesso: eu havia me esquecido completamente do exercício. Ontem o retomei. Passei o dia inteiro com um metro e dez de altura. E ainda não voltei ao meu tamanho normal.

Curriculum mater vitae

Ilustração: Doug Miller

Perdi a conta de quantas vezes atualizei meu curriculum vitae nas últimas duas décadas, na intenção de mostrar aos selecionadores de RH quem sou, o que fiz, o que faço e o que sou capaz de fazer. Peça fundamental no jogo nem sempre animado do mercado de trabalho, ele pode definir o rumo de uma vida – para o bem ou para o mal.

As mulheres não sabem, mas a partir do momento que dão à luz, passam a montar sua versão particular de CV, chamado curriculum mater vitae, o currículo de toda mãe. Servirá para atestar quem elas são, o que fizeram, o que fazem e o que são capazes de fazer, só que sob outro ponto de vista: o da maternidade.

Ao contrário do currículo tradicional, este não se destina à prospecção de novas oportunidades – posto que mãe é cargo vitalício -, mas ao registro íntimo de uma condição eterna. O meu seria mais ou menos assim:

Formação

Ensinos fundamental, médio e superior completos. Sendo que nada aprendido neles serviu para alguma coisa depois de ter se tornado mãe.

Idiomas

Mamanhês avançado: fala e entende.

Resmunguês e choraminguês avançadíssimos: entende, mas finge que não.

Experiência

Forte atuação em educação infantil doméstica, conciliando métodos modernos e tradicionais, como tapa no bumbum e meia hora de castigo no quarto, visando a autorreflexão do filho.

Sólida, muito sólida, incrivelmente sólida experiência em gerenciamento do tempo, como preparo de lancheiras e transporte escolar em prazo recorde.

Ampla vivência, bem além da desejada, em resolução de conflitos e tomada rápida de decisões, com ênfase em casos onde não se sabe qual filho bateu primeiro no outro.

Foco em sustentabilidade, promovendo doação de roupas e brinquedos usados, e política antidesperdício, almoçando e jantando restos da cria.

Benchmarking com outras mães, pais, professores e benzedeiras em geral.

Participação ativa em festinhas infantis e apresentações de balé e karatê.

Excelentes conhecimentos do universo das histórias em quadrinhos, desenhos animados e séries infantis de TV.

Faro apurado para detectar inflamações de garganta, mentiras e orelhas mal-lavadas.

Ótimas noções de nutrição infantil, adquiridas na marra.

Responsável pelo incremento da população mundial em 0,00000003%.

Nível de reporte: Maria, a mãe de todos, chairwoman do céu.

Cursos extracurriculares

“Motivando crianças a tomarem banho sozinhas”

“Como liderar uma equipe-mirim da pá-virada”

“Extração de dentes-de-leite, método prático e indolor”

“Primeiros-socorros: o poder do beijinho”

“A arte da paciência: vivência com monges budistas”

“Técnicas de negociação – módulos I, II e III”

“Autocontrole – módulos I, II, III, IV, V, VI, VII, VIII, IX e X”

Prêmios

“Melhor mãe do mundo”, por permitir que filhos e seus amigos assumam a cozinha para confecção de cookies de chocolate.

“Pior mãe do mundo”, por exigir o recolhimento diário de todos os brinquedos espalhados na sala.

Principal realização

Implantação de gente bacana no mundo, resultado de trabalho em equipe com o pai.

Comentários adicionais

Não está em busca de novos desafios. Considera o seu de bom tamanho.

Pretensão: ser uma mãe possível.

Ao infinito e além

Ilustração: Backbone-flute/Flickr.com

– Eu não vou comer isso, parece um cérebro.

A mãe colocou as castanhas portuguesas de volta na vasilha, tentou as avelãs.

– Eca!

A única época que o menino via as oleaginosas era no Natal, e sempre na casa da madrinha. Não se pode amar o que pouco se vê.

– Mas você nem experimentou…

O garoto pousou o Buzz Lightyear no prato onde seria servido o jantar. Encarou a fruta e teve uma ideia – imagem é tudo.

– Quero Nescau Cereal.

– Não tem Nescau Cereal na ceia de Natal, Rodrigo.

– Tem, sim. Lá no armário da cozinha.

A mãe baixou os olhos. Suspirou.

– Pode até ter no armário da Dinda, mas você não vai comer e pronto. Viu como a mesa está bonita?

– Por que tanto enfeite?

– Porque é uma noite especial. A gente reúne a família, tem coisas gostosas que não tem todo dia em casa. Vai, experimenta a castanha.

O moleque examinou a iguaria, se animou.

– É de chocolate?

Pais têm sempre três opções quando falam com seus filhos: mentir, omitir e dizer a verdade. Silêncio não é opção, é saída pela tangente. Quando o assunto é alimentação, a tentação do vale-tudo pela nutrição é forte. Assim como ganhar tempo, dar uma chance à sorte, provocar o destino para ver no que dá.

– Vamos ver se você descobre.

Ele apanhou as avelãs, sentiu-lhes a textura, o cheiro. Abocanhou uma, atirou-a longe.

– Rodrigo, não cospe!

A madrinha, de longe e atarantada com as velas que não paravam nos castiçais, assistia tudo. Por certo, pensando: “Sai dessa, companheira”.

– Quero Nescau Cereal.

Se as crianças permanecessem com seus níveis de obstinação e persistência preservados na idade adulta, que seria do mundo?

– Já disse pra você que hoje não é dia de comer isso.

Bacalhau, canjica, peru. Algumas comidas obedecem a um finito calendário gastronômico, muito aquém das possibilidades criativas. Para muitos, elas não fazem sentido fora do contexto-padrão. Há também os que batem continência ao relógio (“Não é hora de pipoca”) ou ao figurino (“Você vai comer tomate com leite???”). As regras desenham os cardápios, para que as pessoas fiquem meramente ilustrativas.

– Mas eu quero.

A desistência, às vezes, é a melhor aliada de uma mãe. E madrinhas são as salvadoras da infância – quase tudo se resolve perto de uma. Ela tem ares de fada e pode até ser mãe dos seus, mas não é dos outros – o que lhe desonera um bocado. A Dinda, que dispensara os castiçais e enfiara as velas em pequenas xicarazinhas coloridas de café, apagou a brasa do fósforo entre dois dedos recém-lambidos e foi lá resgatar o afilhado da escravidão dos sabores:

– Vem comigo, meu bem. Aposto como lá na cozinha a gente vai achar alguma coisa gostosa para você comer.

Foram os dois, menino e Buzz Lightyear, voando. O infinito e o além eram logo ali.

A comédia da vida materna

Arte: Marcello Akira
Arte: Marcello Akira
 

Descobrir, eu descobri faz tempo. Dureza foi admitir, por para fora, desabafar. Vamos estabelecer: é mais fácil ser executiva numa multinacional japonesa do que ser mãe de filhos pequenos. Trabalhar de segunda a sexta e eventualmente nos finais de semana, das nove às dezenove (na melhor das hipóteses)? Fichinha. Conviver com chefe doidinho, cumprir prazos imorais, apresentar resultado negativo na frente do CEO? Café pequeno.

Se não, vejamos.

Nos escritórios a cem metros do chão você trabalha sossegada, elabora suas análises de mercado em paz, traça estratégias para a empresa e atende clientes e parceiros, sem se preocupar em checar as janelas (que jamais têm rede de proteção), para o caso de ter algum colega de trabalho pendurado nelas, crente que é um super-herói indestrutível.

Durante o almoço no refeitório, seus colegas não se estapeiam, nem atiram farofa um no outro. O mais novo não reclama, choramingando, que o mais velho disse que ele é feio e burro. Todos sentam-se direito e comem a salada. E se não comem, rá! Problema deles. Você não tem nada, nadica a ver com isso.

Nas reuniões de equipe, para falar sobre o novo organograma, ninguém interrompe reclamando que está com fome, nem pede para sair antes porque vai começar o programa favorito na TV.

No ambiente de trabalho, todo mundo vai sozinho ao banheiro. Para fazer número 2, inclusive.

Se a reunião é no cliente e o pessoal do marketing tem que ir junto, você vai de motorista e a coisa flui que é uma beleza. Não há brigas a serem apartadas no banco de trás, nem súplicas para que todos coloquem o cinto de segurança, tampouco para que fiquem com ele durante o trajeto.

Os departamentos Financeiro e de Compras podem até tentar enlouquecer você, mas nada se compara a uma tarde com os filhos no shopping, na intenção de renovar o guarda-roupa deles.

Você não precisa contar até três para seus funcionários começarem a elaborar o relatório bimestral de vendas.

Se seu assistente resolve lhe pedir um aumento, e você explica que, no momento, não será possível, ele não se joga no chão, berrando “Mas eu queeeero!”.

No final do expediente, não existe a menor necessidade de pedir ao estagiário que arrume a mesa antes de ir embora. Ele guarda tudo sem você mandar!

Por essas e outras (ah, muitas outras), é definitivo: ser mãe é para poucas. Mãe de filhos em férias, meu caso, para pouquíssimas. A amiga, compadecida, ri da minha situação e recomenda que eu relaxe, encarne algum personagem de desenho animado e me jogue na farra. Numa espécie de “se você não pode com eles…” revisitado. Nam nam. Vou é recorrer à mitologia. Quero ser Medusa, uma das Górgonas. Para transformar em pedra todo humano com menos de um metro e vinte de altura que ouse me fitar, requisitando, de três em três minutos, toda sorte de coisas. (Ao final das férias, prometo, reverto o feitiço.)

Depois dizem que a maternidade realiza a mulher. Ora, ora. A maternidade realiza consultas, exames e partos. Ponto final.

E ainda é dezembro. Não sou a antimãe, nem a reencarnação de Herodes. Sou apenas uma genitora levemente ensandecida. Sabedora das deliciosas vantagens da vida materna sobre a vida executiva. O problema é que até o fim de janeiro do ano que vem, quando as aulas voltam, eu não vou conseguir me lembrar de nenhuma.

Carta para Maria

Grafite: "Madonna", SAO/Flickr.com

Cara Maria

Não se espante com a inédita missiva; por aqui, tudo segue em razoável ordem. De fato, é com seu filho que converso mais, em longas lamúrias com frente e verso, ou pelos recados ventados, só para dar um alô. Ele sempre diz que está por dentro das coisas que conto, mas tenho cá minhas dúvidas. A onisciência não dá garantia.

As crianças vão bem. Você, que é mãe, sabe o trabalho que filho dá. Não sei se os meus terão a fome serena de mudar o mundo, como teve o seu. Se eles conseguirem transformar o mundo deles, já estará bom. No fundo, todo filho é meio salvador. Não há fruto que não seja bendito.

Desde que você virou santa, Maria, toda mulher precisa inventar a própria santice, ainda que às avessas. É seu principal legado, nossa maior herança. E a despeito da minha impaciência e egoísmo, há momentos em que consigo ser Maria, por conta da milenar fagulha genética. Às vezes, lhe sou grata por isso. Às vezes, não.

Não sei muito sobre a Santíssima Trindade, mas será que não esqueceram de incluir você nela? Ou era uma espécie de Clube do Bolinha, onde mulher não entrava? Aí não seria trindade, o que poderia mudar a história da humanidade inteira, para o bem ou para o mal. Melhor deixar assim. Fiquemos com a nossa tríade paralela: mãe, filha e o espírito santo no meio, amalgamando tudo.

Falando nisso, você sabia (de verdade) quem embalava nos braços? Trocava-lhe as fraldas e dava-lhe de comer, como qualquer mãe? Afinal de contas, Maria, o que tinha no seu leite?

A sua tarefa foi a mais impossível, difícil e insana. Você poderia tê-la declinado, passado a batata quente adiante, ter dito ‘não’, enfim. Mas você, Maria, não foi com as outras. Assistiu, sem direito à raiva, nem esporro, o filho perecer. Não é para qualquer uma. Era parte do combinado perdê-lo tão cedo, ou você só ficou sabendo em cima da hora qual era seu papel no teatro da humanidade? Não lhe deu vontade de mandar tudo às favas e ir lá, arrancá-lo da cruz e dizer “Ok, a brincadeira acabou”? Seu choro na escuridão, quem é que ouviu? Quem acudiu você quando o bicho pegou? Seu coração, por fim, recebeu um pouco da cura que ele espalhou pelos quatro cantos? E hoje, tanto tempo passado, me diz, como mulher, não santa: você emprestaria seu ventre de novo?

Nós, que não sabemos a hora da nossa morte, vivemos orando para que você esteja atenta ao relógio do mundo. Saber que você é por nós, agora e depois, representa um alento e tanto. Mas esta noite, Maria, vamos fazer diferente. Hoje, quem roga por você sou eu. Dorme tranquila.

Boa noite,

Crônica de minuto para quem tem filhos (não tão) pequenos

Ilustração: Leon Rice-Whetton/Flickr.com

Botei reparo hoje: na nossa estante há um exemplar do livro “A vida do bebê”. Aquele do doutor De Lamare, espécie de bíblia de toda recém-mãe. E que diacho ele faz ali se, em casa, o último nasceu há cinco anos? É o mesmo que manter no armário as roupas de grávida; fundamentais na gestação, elas perdem o sentido depois que o rebento vem ao mundo. (OK, ainda servem por alguns meses.) Do mesmo jeito, o livro, essencial nos primeiros tempos dos pequenos, vai se tornando dispensável, como é de esperar. Cumpriu sua missão – e que missão. Mantê-lo na estante não é exatamente como ter à disposição Grande Sertão: Veredas, A Metamorfose, Memórias Póstumas de Brás Cubas. Nem como prevenção: nunca me ligaram, tarde da noite, pedindo ajuda para um bebê com cólica. É o tipo da publicação que carece de rodízio, precisa circular, ir para os pais da hora. Sem esquentar lugar em casa de criança crescida.

Fato: no desafiador jogo da maternidade, mudei de fase. O de sete já dorme fora, a de quatro acessa o You Tube sozinha. A linda bebê da capa do livro já está na puberdade. O dito cujo fará mais sentido em outras estantes. (Quem o quiser de presente, é só dar um alô.)

Fato dois: se vasculhar bem, é capaz de eu encontrar, nas entranhas da casa, objetos que marcaram os primeiros meses, ou anos, dos meus filhos. E que não fazem parte do rol das necessárias e saudáveis recordações, como o primeiro uniforme do Cruzeiro e a primeira Barbie. Culpa da distração, esquecimento ou da roda-viva do dia-a-dia, que engole até a elementar tarefa de reciclar as coisas, se acumulando aqui e ali. Ou, simplesmente, por apego. E não tem pais que resistiram o quanto puderam ao desvencilhamento do cadeirão, das mamadeiras, do peniquinho, das colheres na hora das refeições? Como se – clichê, eu sei – os filhos fossem seres da terra do nunca.

Eu poso de mãe moderna e isso e aquilo, mas terá o tal do livro na estante provado, por a mais b, que não é bem assim? Oh céus.

Nota: e o meu exemplar d’A vida do Bebê agora está em terras cariocas. Foi pelo Sedex para o simpático leitor que comentou aí embaixo. Tomara que, depois que a filhinha dele crescer, o livro vá igualmente parar noutras estantes, onde possa continuar sendo útil aos papais e mamães.

Devaneios pós-férias escolares: como tudo começou

Descobri tudo.

Escolas, na verdade, foram inventadas para proporcionar a pais e mães – mais mães que pais – algum período livre durante o dia. Uma espécie de folga da cria, descanso fundamental nas tarefas inerentes à paternidade e maternidade.

Depois é que foram aperfeiçoando a ideia. Vislumbraram na instituição outras utilidades, como ensinar a ler e escrever.

E o que seria apenas um jardim da infância virou o jardim da pré-adolescência, evoluiu para um jardim da adolescência, culminando num jardim da juventude inteira. Depois que os jovens estivessem crescidos, donos dos seus narizes, morando sozinhos, trabalhando e pagando suas próprias contas, a escola estenderia sua função primária, e passaria a atender os filhos destes, depois os netos e assim por diante, num ciclo infinito.

O problema é que aqueles jovens já estavam, irremediavelmente, acostumados ao ambiente escolar, ao convívio com amigos e professores, ao recreio e seus salgadinhos, às vans, à biblioteca, às gincanas, ao centro acadêmico, às festas de formatura. Resolveram, então, continuar na escola. Surgiram, assim, as universidades.

Com o tempo, crianças cada vez mais novas – bebês de colo, inclusive – foram apresentadas ao maravilhoso mundo da escola, sob o pretexto de que tanto pai quanto mãe desejavam, ou precisavam, trabalhar fora. Balela.

Desconfio que, por trás da engenhosa criação, havia uma mãe à beira de um ataque de nervos, ávida por paz. Disposta a tudo para ter sossego em seu lar, e inteligente o bastante para conferir à invenção um sentido nobre e politicamente correto. Claro: para que não a chamassem de bruxa, livrando-a da fogueira.

Descobri, então. Não foi fácil.

Café com paciência

Ilustração: DesEquiLIBROS/Flickr.com

Na praça de alimentação, com a cria. Ele tem sete e ela, quatro. Enquanto brincam e se esbaldam com seus sorvetes, vejo meu cappuccino sendo tirado à perfeição. Deliciosamente perfumado, estalando de cremoso. Não chego a prová-lo, porém. O mais velho se aproxima, saltitando. Levemente desesperado, avisa:

– Cocô.

Se o moço do quiosque se chamasse José, seria de grande valia. “E agora, José?”, eu recorreria. Mas ele não é o José, aquele do Drummond. É o Artur. E no crachá do Artur, que não leva jeito de rei, nem de pai, está escrito “Em treinamento”. Bobagem alimentar alguma expectativa de que parta dele uma ideia brilhante para me ajudar a resolver a parada. Nenhum sopro de compaixão para com uma pobre mãe, não em dificuldades – posto que o episódio não é novidade e sempre se repete lá pela quarta garfada ou, raras vezes, na sobremesa –, e sim, em total desolação. Adeus, cappuccino. Artur, que está em treinamento, por certo não concordará em guardar nossas coisas por cinco minutos. Dez, para ser honesta. Crianças, principalmente em banheiros públicos, são altamente influenciáveis. A mais nova, vendo tudo, ficaria com vontade também. Processo em dobro.

Ainda que o Artur topasse, gentilmente, fazer a guarda da nossa mesa, o cappuccino, frio, se tornaria uma bebida imprestável. Os sorvetes, irreconhecíveis, não passariam de uma meleca morna e indeglutível. O jeito seria fazer um novo pedido. Filhos, está provado, dão despesa.

Procuro recordar-me dos treinamentos gerenciais do passado, ensinando técnicas de liderança, persuasão e tomada rápida de decisões. Desconfio que a verdadeira utilidade desses cursos se revela na maternidade. E não, necessariamente, nos negócios. Avalio a situação:

– Você tem certeza que não dá para segurar um pouquinho?

Crianças não têm noção muito sofisticada acerca do tempo, ainda mais quando estão apertadas para ir ao banheiro. Não são capazes de calcular o real tamanho de suas vontades, relativizar ou contextualizar. Engatinham em autocontrole, são aprendizes na arte da espera e, ao mesmo tempo, mestres da urgência. Simplesmente querem, e é para já. Sobretudo, não conhecem o prazer de degustar, em paz, um bom cafezinho após o almoço.

– Não dá, mãe.

Filhos são nossos melhores professores de paciência. Olho em volta. Não há como escapar dessa aula. Onde é que fui amarrar minha égua?

Resta tentar um acordo com o sorveteiro novato. Não para o cappuccino, que esse foi para as cucuias, mas com os sorvetes. Estão inteiros, bem que podem retornar à geladeira até a nossa volta.

– Artur, você quebra meu galho, e eu elogio você para o seu chefe. É pegar ou largar.

Salto alto: adeus ou até logo?

Ilustração: r8r/Flickr.com

Não digo que foi tardio tê-los conhecido – pra valer – perto dos trinta. Antes tarde que nunca. Embora razoavelmente tentada (culpa da biologia), costumava passar incólume ao irresistível charme dos saltos altos na vitrine, sempre me rendendo aos baixos. Decretara que não combinariam com meu guarda-roupa e que seria difícil caminhar com naturalidade. Afinal, via tanta dona desengonçada. Testemunhava as amigas com pezinhos em bolhas depois de um dia de trabalho ou da balada – micos exclusivamente femininos. Porém, sempre soubera dos poderes dos saltos altos. O que eles fazem por uma mulher não está no gibi. Dez centímetros mais alta e panturrilha turbinada, instantaneamente? Em três vezes sem juros no cartão? Nada mau.

Após longo flerte, sucumbi. Como uma viciada, comecei com pequenas doses e em pouco tempo já estava dependente. No início, combinei comigo um limite de altura: quatro dedos. Logo, eles tomavam os cinco de uma mão e mais alguns da outra. Passei a ter dificuldade para escolher um par para um simples passeio pelo parque. Foram várias temporadas sem um único tênis no cardápio. Chinelos, só na praia. Arranquei interjeições de aflição por onde passei, em pleno nono mês de gravidez do meu primeiro filho, a bordo das minhas plataformas. No dia marcado para a cesárea, não tive dúvida (ou opção): apresentei-me na maternidade com um dos que tinham muito mais que quatro dedos. Tudo indicava que minha transição da Era do Salto Baixo para a do Salto Alto estava concluída.

Nada como um filho para ajudar a gente rever os conceitos. Além de alterar, de leve ou totalmente, o rumo da carreira, estabelecer novas prioridades e ser o novo personagem das nossas orações, um rebento é capaz de transformar profundamente a indumentária de uma mulher. Os primeiros meses inauguram a fase da funcionalidade: toda peça que complicar a amamentação vai para o fundo do armário, e lá aguardará o sinal verde para retornar – o que inclui todos os tomara-que-caia e a coleção de frentes-únicas. São as férias do sutiã meia-taça, dos modelos com bojo. Em seguida, vem a fase da resignação: golas e ombros sempre cheirando a leite azedo por conta do inevitável regurgito, calças eternamente marcadas pela papinha de mamão. Chegar à festa com a cria no colo e carimbo de solado número 17 na blusa nova passa a ser normal. Depois, entra-se na fase da adaptação. Os filhos crescem e os vestidos também, tornando-se mais adequados para quem passará boa parte do dia curvada para frente, na missão de guiá-los nos primeiros passos.

No processo, por que os sapatos ficariam imunes? Do alto de um salto, atividades banais exigem habilidades e competências mais complexas. Tomar o filho nos braços na hora da birra ou depois de um tombo. Trazer, no muque, o cadeirão que estava do outro lado da praça de alimentação. Tirá-lo dormindo do carro, quando ele adquire quilos extras, e carregá-lo andar acima até o quarto. Brincar de pega-pega em pleno corredor do shopping. De salto, não dá. Anos de treino de nada valem nessas horas. Qualquer elegância vai para o brejo. Inveja danada das mães que dão conta de conciliar salto alto e filho pequeno.

Por essas e outras fiz, nos últimos anos, uma volta às origens, espécie de regressão. Aos poucos, fui me separando dos saltos. (Do agulha, definitivamente, eu me divorciei. Agulhas foram feitas para costurar e dar injeção. No pé, só na sessão de acupuntura.) Minha sapateira assistiu, lentamente, ao retorno das sapatilhas, rasteirinhas, tênis e chinelos. Logo eu, que dessa água não bebia há tempos. Guardei, no entanto, os altos. Tenho esperanças que o jejum não seja um adeus, somente um até logo. Olho para eles todos os dias e repito, num mantra: “Amanhã, sem falta”. Amanhã.

Sem pé, nem cabeça

Ilustração: Kenny Cole/Flickr.com

Não entendia como tanta gente perdia o sapato ao atravessar a rua. Menos ainda, como é que alguém poderia deixá-lo para trás. A pessoa não voltava para apanhá-lo, passado o carro e o susto. Ia para o trabalho ou para a escola assim, com um pé faltando. Faria o quê, depois, com um só? Sapatos não sobrevivem no ímpar, perdem a serventia. Ou nem todos.

Todo dia, em seu caminho, via um modelo diferente abandonado no meio-fio. Tênis, sandália, sapatilha, bota, chinelo. De homem, mulher, criança. Escaparam dos pés na travessia arriscada, “Olha o ônibus!”. Desde então, ficaram órfãos do irmão. Largados ao Deus-dará. Às vezes, virados para baixo, em claro prenúncio de mais azar por vir.

Rua não tem departamento de achados e perdidos. Sendo assim, o catador de papéis recolhia os pés avulsos que apareciam. Quem sabe, qualquer hora,  não toparia com os pares? O pessoal da limpeza, já acostumado, nem interferia. Para não levar bronca. Enquanto isso, ele aproveitava o que dava para uso próprio. Mocassim marrom no pé esquerdo, bege no direito, qual o problema? Sua única exigência era que calçassem o respectivo pé – um mínimo de dignidade, por favor. Ressentia-se por não poder usar os tênis lançados nos fios da rede elétrica. “Um desperdício, brincadeira de mau gosto”, rosnava, enquanto dispunha os pés solitários em seu carrinho, com esmero de vitrinista.

Certa vez, achou um sapatinho lilás de bebê-menina. Torceu para encontrar o par, assim guardaria para a netinha que nasceria no mês seguinte. Não encontrou. Mesmo assim, lavou-o com cuidado e costurou as florzinhas azuis de pano, quase despregadas, castigadas pelo vento e pela chuva. Na maternidade, serviu de enfeite de porta, anunciando a chegada da pequena Beatriz.

Só não pôde visitá-la. Foi barrado na portaria pelo segurança que o olhou atravessado. “Onde já se viu uma coisa dessas, meu senhor? Um sapato diferente do outro!”

A rolinha (segunda – e última – parte)

Ilustração: Charis Tsevis/Flickr.com

No dia de São João, comecei a cuidar de um filhote de rolinha que caíra do ninho. Foi minha promessa à sua mãe, que sequer conheci. Embora eu soubesse que não haveria garantias, fiz de conta que não sabia. Fiz de conta que era eu também uma rolinha, para ver se entendia o que seus pequenos olhos me diziam. Fiz de conta que alimento e calor lhe bastariam. Fiz de conta que era normal levá-lo à casa dos outros para não atrasar o horário das suas refeições. Fazer de conta ajuda um bocado quando não há outra saída.

No dia de São Pedro, Beetle, assim batizado pelas crianças, não comeu direito. Recusou a água fresca. Seu bico já não procurava abrigo entre meus dedos. Não lhe importava ficar nesta ou naquela posição, numa já doente resiliência. Tanto fez o sol da tarde, tomado através da janela do quarto. Nada foi capaz de lhe aquecer. Às sete da noite cobri sua gaiola, apreensiva: Beetle dormiu sem jantar. Travou o bico como se dissesse “Não, obrigado”. “Então amanhã tiramos o atraso”, anunciei. Mas se houve algum atraso, foi o meu. Às onze, fui lhe dar boa-noite. Pé ante pé, para não acordá-lo. E vi que havia perdido seu último instante.

Num instante de igual tamanho, lembrei dos meus bichos que já morreram, tantos quanto pude. Dois cães, um hamster, algumas tartarugas, dezenas de gatos. A maioria, sepultada com pompa e circunstância em caixas de sapato sob as terras da vila onde morávamos. Outros tantos, sumidos. Eram bichos livres, desaparecer fazia parte. Olhei-me no espelho do banheiro e vi como estou velha. Como Beetle era novo. Como ele era pequeno perto de mim. E grande, para as formigas que já começavam a passear nele. Lembrei das aulas no colégio técnico, com o escalímetro que ajudava a entender a proporção de tudo. Deus também tem um desses.

Uma pena Beetle não ter conhecido a nossa jabuticabeira. Só o fez de vista, o que não é a mesma coisa. Ele conheceu gatos mansos, porém. O que não é para qualquer passarinho. Sinto não ter ouvido sua voz. No final, fizemos exatamente como havíamos combinado, ele e eu: um dia de cada vez. Foram cinco, no total. E quem é que sabe o quanto isso é pouco, ou o quanto isso é muito? A vida é inexata, embora regida por tanta exatidão. Quanto à promessa feita, mamãe-rolinha há de me perdoar. Mães se entendem.

Quando as crianças acordaram, dei assim a notícia: “Beetle se foi. Ele aprendeu a voar.” E fomos juntos procurar uma boa caixa de sapatos.

A rolinha (primeira parte)

Studio Tau, acrílico sobre canvas/Flickr.com

Fiz uma promessa, semana passada. Prometi a uma mãe que eu cuidaria de seu filho. Prometi, mesmo que ela não tenha ficado sabendo. Prometi, ainda que eu não fosse capaz. Prometi, porque era a única coisa a fazer naquele momento. A mãe desta história é um pássaro. Uma rolinha. O filho, um bebê-rolinha. Caído de um ninho que eu não pude localizar, perdido numa calçada inóspita. Ele fugia, trêmulo, dos sapatos apressados. Escondia-se por trás dos sacos de lixo. Apanhei-o e o levei para minha casa. Ao anoitecer, a mãe-rolinha contaria um a menos. Não havia como avisá-la que ele estava comigo. Não conheço nenhum pombo-correio.

Passarinhos são pequenos demais para mãos de gente. Lembrei do King Kong com a mocinha entre os dedos. Ele não desejava lhe fazer mal, ao contrário, mas como explicar? Imaginei o pavor do bebê-rolinha diante de mim, já que guardo, inclusive, semelhanças com um gorila. Como explicar-lhe minhas intenções? Deixei as explicações de lado, ele devia estar com fome. Fome é a primeira preocupação de uma mulher quando vê um filhote – de qualquer espécie – sozinho. Nossa missão primária é nutrir. Preparei-lhe um lanche, dei-lhe um pouco de água. E arrumei-lhe um cantinho aquecido, à prova de gatos – em casa são três. Filhotes de passarinho são esquisitos. Sem muitas penas e desajeitados, em nada lembram as belas aves que se tornam, hábeis em seus voos espetaculares. Parecido com gente ao nascer. A mamãe-passarinho também deve achar lindos seus recém-nascidos. Mulher é tudo igual.

Hora do jantar. Tenho medo de alimentá-lo demais. De menos. Medo de que passe frio. Calor. Que morra durante a noite. Mas do que precisa, de fato, o bebê-rolinha? Não tenho asas para abrigá-lo. Tenho braços. Eles funcionam com meus filhos; com passarinhos, não. Como poderei ensiná-lo a voar quando for hora, se eu só voo em sonho? Sou assombrada pelas minhas próprias dúvidas. A gente não consegue compreender direito o que não se parece conosco. Tentei pensar como pássaro. Parei quando cheguei na parte da minhoca.

Meus filhos querem saber se ele vai sobreviver. Explico que será difícil para ele ficar longe da mãe, apesar do nosso cuidado e carinho, a questão das espécies. Exemplifico: o que aconteceria se eles, quando bebês, fossem adotados por elefantes? Eles dão risada e engatam outro assunto. Crianças lidam melhor com o futuro que não sabem.

Não posso ser Gaia, a mãe universal, mesmo que dela eu tenha vindo. Ela, sim, conhece profundamente as necessidades de todos os filhos nascidos de suas invisíveis entranhas, e sabe como ninguém cuidar deles. Mas eu fiz uma promessa, que inclui tentar. Sem garantias. Um dia de cada vez, bebê-rolinha. Um de cada vez.

Sobre fazer gente

As Renatas, uma que é de Salvi e outra que é Rossi, são donas do blog “Olhos para o mundo. Elas me convidaram para escrever um post sobre a minha experiência com a maternidade. Escrevi. E elas postaram . Agora eu posto aqui.

Ilustração: Ahlam Baha/Flickr.com

Quando eu estiver diante de Deus para prestar contas, e ele perguntar o que fiz durante a vida, para ver se mereço tomar chá com rosquinhas em sua companhia na varanda do céu, aos sábados, direi: um bocado de coisa. Fiz amigos, irmãos, faculdade, festa. Tricô (crochê não), planos, piada e poesia. Fiz amor, não fiz guerra. Fiz de conta e fiz por merecer. Fiz que não vi, fiz por fazer, fiz sem fazer. Fiz chorar. Fiz tempestade em copo d’água. Fiz bolo para vender no colégio e vestido na máquina de costura da minha mãe. Fiz aniversário quase uma centena de vezes. Fiz de tudo para ser feliz. Mas se ele quiser saber do que mais me orgulhei de ter feito, responderei: gente.

Tenho um filho que não fui eu que fiz, já veio pronto: meu enteado. Meu primeiro filho foi, portanto, o segundo. Feito quando quase acreditei que não daria mais tempo. Deu. Hoje sei que havia tempo de sobra. A gente nunca entende direito o tempo do tempo. Depois, fiz minha filha. Não há nada mais poderoso que uma mulher com outra dentro. Costumo dizer que tenho, então, três filhos. Dois que saíram da barriga e um que entrou no coração. O que, no final, dá no mesmo. Tatuei seus nomes no verso do meu corpo. Publiquei o amor.

Brinco que quando se tem filhos a vida vira de ponta-cabeça. De cabeça para baixo a gente enxerga as coisas de outro jeito, é só fazer um teste na sala de casa. Com filhos, nos despedimos do sono tranquilo, do umbigo próprio, da vida no singular. Dizemos ‘até logo’ para a carreira. Por outro lado, damos boas-vindas aos novos personagens dos sonhos, às diferentes formas de trabalho, à vida no plural.

Fazer filhos é um processo artesanal. Sai um diferente do outro. Uma falhinha aqui, um defeitinho ali. É justamente esse o charme. Quando se decide fazê-los, não se sabe como eles virão. A vida não tira pedido. É tudo surpresa. Não há acasos, porém. Filhos são exatamente como precisamos que eles sejam, e vice-versa. Disso não se deve duvidar, muito menos reclamar. É bom repassar essa lição de vez em quando.

Gosto de ver meus filhos dormindo com o pai. Assim posso decorá-los com calma. Gosto de vê-los tomando banho. Gosto, sobretudo, de vê-los desenhar. Nessa hora eles recriam o que já esqueci. Gosto quando contam histórias sem sentido e fazem associações malucas. Gosto quando aprendem coisas novas; no fundo, estão é me lembrando que não tenho feito isso. Gosto quando cantam fora do tom, inventam notas e vão montando a trilha sonora das suas vidas. Gosto de reconhecê-los pelo cheiro e pelo gosto. Gostaria de carregá-los pelo cangote, como fazem as gatas. E gosto de ver o que não via antes deles.

Ao final da prestação de contas, caso Deus pergunte se os filhos me abriram novos olhos para o mundo, vou dizer que não. Meus olhos são os mesmos de antes. Tudo que fiz foi mudar a direção do olhar.

Segredos, mentiras e biscoitos recheados

Foto: Jonathan Greene

Daqui uma hora sai o almoço. No cenário dominical da sala, tenho sessenta tranquilos minutos para responder alguns emails. Uma inquietude me invade, porém. Eu a conheço bem. Danada, ela tem fome de sacarose – na forma de chocolate, de preferência. Costuma exigir de mim atitudes imediatas. Desta vez, a reivindicação era um biscoito recheado. Em troca, ela me daria paz.

No entanto, em uma hora: almoço. Não posso traçar um doce assim, na frente dos pequenos. Atrapalhará a refeição deles. Mas a minha não. E agora? A tarde de outono acena com duas alternativas: por tudo a perder, desfilando com a iguaria e ser impelida a compartilhar o pacote, ou explicar a inquietude e as exceções que se abre na vida, deixando claro que eu posso, mas eles não. A primeira não é nada exemplar. E eles não cairão na conversa mole da segunda. Seria um tal de, a partir de agora, alegar ‘inquietudes’ para tudo.

Pediatras, pedagogos e nutricionistas, principalmente os que não têm filhos, ensinam que devemos ser firmes, consistentes e coerentes na educação alimentar da prole. O tempo todo, sem direito a recaídas. Nada de metamorfoses ambulantes. Não é simples. Dizem que, depois que têm filhos, os pais aprendem a comer direito, porque precisam dar o exemplo. A eles cabe a missão de garantir nutrição adequada, pelo menos, até o final da adolescência. Depois disso, a cria estará livre para administrar seus pratos como quiser. Trocando em miúdos: para fazer exatamente o que os pais faziam, antes de tê-los. Até que estes tenham filhos. É o ciclo da vida.

Mas há uma saída. Talvez não tão ética. Ironicamente infantil: dou início a um secreto plano de ação. Preciso chegar incógnita à cozinha e abrir o armário, sem despertar a curiosidade das crianças. Em seguida, localizar o alvo, apanhá-lo e abri-lo no mais absoluto silêncio. Nessa hora, todo cuidado é pouco; a embalagem plástica do biscoito recheado é ruidosa, traiçoeira. Pode delatar a infração em segundos. E o almoço sai em menos de uma hora.

Meu filho de seis anos adentra a cozinha, sem aviso prévio. Está procurando o gato. Sinto seu olhar inquiridor, quase sou pega com a boca na botija. Trato de disfarçar, “Este armário está uma bagunça, vou arrumar um pouco”. Ele pega o gato no colo, que lança um miado de protesto. Pudera, fôra interrompido em sua sesta. Protesto ignorado, e lá se vai a única testemunha do meu delito. Ainda bem que gato não fala. Recobro o ar. Agarro cinco biscoitos, escondo-os num guardanapo e volto para a sala. “Eu pre-ci-so, entende?”. Me vi numa sessão de terapia com outros dependentes do hidrato de carbono, confessando meus crimes gastronômicos. Placidamente, retomo a leitura dos emails, não sem antes alojar os biscoitos atrás dos livros, como um segredo. Minha filha, três anos, pergunta que horas vamos almoçar. “Já, já, querida!”. É meu pecado de hoje. Nada que cinco pais-nossos antes de dormir, um para cada biscoito, não resolvam.

Aproveito os breves instantes de ausência dos pequenos na sala e os devoro, um a um. O recheio de chocolate branco se dissolve na minha boca, junto com a minha consciência. Saciedade e vergonha viram uma massa agridoce, difícil de engolir. A paz prometida não veio. Mas terá valido a pena, o almoço é daqui a pouco. E eu quero que eles comam a abobrinha.

Exercício de paciência, parte 3

Aquela moça do Exercício de paciência, partes 1 e 2, agora vê seu rebento vir ao mundo, para alegria de todos. A nova mamãe, que já passou pela provação de ter que responder a um monte de perguntas para um monte de pessoas durante nove meses, agora está diante de um novo desafio: contar como tudo tem sido desde que o pimpolho nasceu. O folhetinho da FAQ (Perguntas Frequentes, do inglês Frequently Asked Questions) continua sendo instrumento dos mais úteis para mães com qualquer milhagem, e agora precisa ser atualizado. Acompanhe.

Ainda na maternidade, naquelas ‘visitinhas’ de três horas:

Foi normal ou cesárea? (no caso do visitante não ter acompanhado a gravidez através do folheto anterior)

Está doendo muito?

Quantos quilos? Quantos centímetros? (aliás, de onde virá essa fixação em saber peso e altura dos recém-nascidos?)

Com quem se parece?

Na primeira semana, já em casa:

Você está amamentando?

Se sim: Você tem bastante leite? Ele (o bebê) mama muito?

Se não, não há perguntas, mas um triste “Aaaahh”, ou um monte de “soluções”.

O irmão está com ciúmes? (se você já tiver um filho)

Ele (o bebê) acorda muito?

O Fulano (pai) já trocou fralda?

Com quem se parece?

Na terceira semana:

Você está muito cansada?

Você tem conseguido dormir?

O Fulano (pai) está ajudando você?

Com quem se parece?

Quando o bebê está com dois meses:

Ele (o bebê) está tendo cólicas?

Com quem se parece?

Quantos quilos você já perdeu?

Com três meses:

Ele ou ela? (quando você sai para passear e a roupinha é amarela)

Como se chama? (no mesmo passeio)

Hãn? (no mesmo passeio, se for um nome meio diferente)

Com quem se parece?

Quantos quilos você já perdeu?

Quatro meses:

Quando você volta a trabalhar?

Você tem babá ou vai pra escolinha?

Com quem se parece?

Quantos quilos você já perdeu?

Com cinco ou seis meses:

E aí, como foi voltar ao trabalho?

Já tem dentinho?

Já está engatinhando?

Quantos quilos você já perdeu?

Sete meses:

Ele (o bebê) está comendo de tudo?

Já quer ficar em pé?

Quantos quilos você já perdeu?

Oito meses:

Você já está planejando o aniversário?

Quantos quilos você já perdeu?

Nove meses:

Já quer andar?

Já quer falar?

Quantos quilos você já perdeu?

E vamos ficando por aqui, para combinar com os nove meses do questionário da gravidez. Ainda virão muitas perguntas, por muitos anos. Todas, como já disse, são absolutamente do bem. Mas aí a mamãe estará tão escolada na arte de responder, que dispensará qualquer instrumento de apoio. No caso, o querido folheto. E isso é bacana.

Exercício de paciência, parte 2

Gravidez é genial. Mas quando uma mulher fica grávida, ela deve se preparar para satisfazer a curiosidade da população em geral, respondendo a uma série de perguntas ao longo dos nove meses. Todas as pessoas, em especial as mulheres, querem saber da grávida, e ela vira uma celebridade. As pessoas se tornam automaticamente íntimas dela – colegas de trabalho, o caixa do supermercado, desconhecidos que cruzam com você no shopping. De repente, todo mundo sorri para a grávida. No começo a grávida pode estranhar um pouco toda essa simpatia. Mas depois se acostuma e passa a sorrir também. Sem contar que a barriga fica pública, todo mundo põe a mão.

E como as perguntas são praticamente as mesmas para todas as grávidas, a gestante esperta pode até fazer um folheto com uma espécie de FAQ (Perguntas Frequentes, do inglês Frequently Asked Questions), incluindo suas respostas, e distribuir aos curiosos de plantão. É só fazer um por mês. Confira.

Assim que sabem da gravidez:

Foi planejado?

É o primeiro?

Você não tem medo…? (se você está perto dos quarenta, ou se passou)

No segundo mês:

De quanto tempo você está?

E o pai, está feliz?

Ou: Quem é o pai?

Quantos quilos você já engordou?

No terceiro mês:

Você está tendo muito enjoo?

Você está tendo desejos?

Você vai fazer aquele exame do líquido amniótico?

Quantos quilos você já engordou?

No quarto mês:

Já sabe o que é? (referindo-se ao sexo do bebê)

Já comprou bastante coisa?

Quantos quilos você já engordou?

No quinto mês:

Você já escolheu o nome?

Quantos quilos você já engordou?

No sexto mês:

Vai tentar parto normal ou vai fazer cesárea?

Quantos quilos você já engordou?

No sétimo mês, quando o barrigão fica imponente:

Para quando é?

Tem certeza de que não são dois? (se sua barriga for grande)

Mas tem alguma coisa aí dentro? (se sua barriga for pequena)

O quarto já está pronto?

Já fez o chá-de-bebê?

Quantos quilos você já engordou?

No oitavo:

Você ainda está trabalhando?

Você está conseguindo dormir?

Muito pontuda! É menina, não é?

Muito redonda! É menino, não é?

Quantos quilos você já engordou?

Nono mês:

Mas você tem certeza mesmo de que não são dois? (se a sua barriga, que já era grande, ficou enorme)

Onde você vai ter?

A malinha da maternidade já está pronta?

E o(a) irmão(ã), está com ciúme? (se você já tiver um(a) filho(a))

Quantos quilos você engordou?

Um verdadeiro checklist mensal. O que torna o folheto uma ferramenta bastante útil. O curioso fez a primeira pergunta, a grávida entrega gentilmente o folheto. Tudo muito prático. E depois que o bebê nasce, pode-se produzir outro folheto, porque as perguntas continuarão.

E como é tudo curiosidade do bem, bobeira ficar brava. As pessoas querem é compartilhar a fase. Já me peguei aplicando o questionário em várias grávidas. No fundo, as pessoas ficam encantadas com esse, digamos, milagre da vida. Ou então, encantadas com o milagre de você ter engravidado. Logo você, que nem namorado tinha. O que já é aquela outra história.

Exercício de paciência, parte 1

Tudo começa com um inocente “E aí, você está namorando?”, num desses encontros casuais com uma pessoa conhecida. Em geral, mulher. Mulher adora saber se a outra está saindo com alguém. Normalmente mais velha. Pode ser uma vizinha, uma tia. Se você responde ‘não’, a dona faz aquela cara de espanto, “Ah, mas precisa arrumar um namorado!”. Na próxima vez que vocês se encontram, lá vem: “E aí, arrumou um namorado?”. Difícil saber se ela só quer que você seja feliz (como se para ser feliz o namorado fosse coisa imprescindível) ou se adora saber que sim, você continua sozinha, encalhada.

Um dia, você encontra alguém bacana. E você topa com ela de novo. Agora ela nem faz a pergunta completa, apenas um “E aí?”. Você empina o peito e pensa, é agora!, e responde que sim, está namorando. Ela fica com aquela expressão oscilando entre a surpresa e a descrença, e lasca: “Aahn… e já estão pensando em casamento?”. Você suspira, e responde que ainda estão se conhecendo, aquelas coisas. Aliás, o gerúndio do verbo conhecer é o mais bobo que existe. Ou se conhece ou não se conhece. E, dentro do ‘conhecer’, há espaço para enganos. Mas ‘conhecendo’, isso não existe.

No próximo encontro, ela insiste em ter uma atualização do relacionamento. Para piorar as coisas, ela ou segura suas mãos, ou dá tapinha no ombro, ou pergunta baixinho ao pé do ouvido: “Para quando é o casório?”. E chega um dia em que, de fato, você se casa. Com aquele bacana do começo da história ou com qualquer outro – ela não quer saber desse detalhe, quer é saber se você vai desencalhar ou não. Como uma ativista do Greenpeace, preocupada com as baleias encalhadas nas praias.

Já casada, você cruza com ela na rua. Você acha que agora ela está satisfeita e não fará mais perguntas, mas ela se supera e quer saber: “Já encomendaram o bebê?”. Como se filho pudesse ser comprado no Submarino ou no Amazon. Você é educada, e responde que primeiro vocês querem viajar bastante, coisa e tal.

Passa algum tempo, e não é que você fica grávida? Você passa nove meses curtindo a barriga, e tendo que responder a um monte de perguntas o tempo todo: se você está tendo muito enjoo, quantos quilos você engordou, se já sabe se é menino ou menina, e vai por aí. Aí o rebento nasce, é um menino lindo. Vocês se encontram na farmácia – você comprando fraldas –, e ela se limita a desejar que ele seja bastante abençoado. Você nem crê. Pensa que ela, veja só, tem salvação. Você está tão feliz com a maternidade que até se esquece do que teve de aturar, desde antes de conhecer o pai do moleque.

Mas sua alegria dura pouco. O filhote está perto de completar um ano e vocês se encontram  novamente. Desta vez, ela quer saber quando vem o irmãozinho. E decreta que agora vocês precisam ‘tentar’ uma menininha. Você mantém a educação do passado, diz que quer esperar um pouquinho, mas que está nos planos, sim, aquela coisarada.

Passam-se uns anos, você e o bacana decidem que está na hora do pequeno ter um irmão. Nasce uma menina. Você topa com ela de novo, e ao ver você, o bacana e o casalzinho, ela põe a mão na sua barriga e lasca: “E aí, vão desempatar?”. Aí é o fim.