Tipo A

arte: Dan Kessler

À tardezinha, íamos à padaria na rua de cima comprar uma bengala – não tinha esse negócio de baguete – e um leite de saquinho. Apesar de conhecer a velha garrafa de vidro retornável com que se comprava leite naquele tempo (ficava no armário da cozinha, sob a pia), não convivi com ela. Eu gostava de apertar os saquinhos de leite. Gelados, úmidos e molengos. Temia que estourassem, feito balões d’água.

A hierarquia dos leites, na época, era bem definida na minha cabeça. O tipo A, mais caro, encorpado e, logicamente, melhor. Eu acreditava que ele deixava as pessoas mais fortes e inteligentes. Presente apenas nas mesas das famílias ricas.

Os tipos B e C eram os primos pobres do leite A, mais ralos e mais baratos. O tipo C era praticamente um fake-milk, com um fundinho de verdade e olhe lá.

Em casa, as vacas eram magras e a gente ia de tipo C, mesmo. Quando muito, B. Exceto minha avó, que vivia de Molico por causa do diabetes. Aquele era dela, só dela. Eu, criança urbana, ignorava que o leite de verdade, cru, tirado ao pé da vaca, era mais grosso que o próprio A, tinha cheiro forte e podia até ser meio amarelo. Cruz credo, amarelo?! O leite do saquinho era branquinho de tudo, feito… leite!

Talvez por conta de alguma conjunção astral esquisitona na Via Láctea no instante em que vim ao mundo, ou até mesmo questão de carma, nunca fui chegada a leite e laticínios em geral. Conta a lenda que desmamei, por vontade e birra próprias, aos 27 dias de vida. Minha mãe não sabia o que fazer para me alimentar, mas o fato é que eu não queria mamar de jeito nenhum. Recorro sempre a esse expediente para justificar minha ojeriza a leite puro. Embora tenha sido adepta do Toddy na infância e, até hoje, consuma coisas onde o leite é ingrediente oculto. Quis o destino também que eu descobrisse, depois dos cinquenta, uma moderada intolerância à lactose – coisa que eu já sabia desde nenê, mas quem é que ouve os nenês?

Toda cozinha que se prezasse tinha um porta-leite de plástico colorido, semelhante à uma jarra. Bastava acomodar ali o saquinho, cortar a pontinha na diagonal e servir. Hoje a maioria dos leites é longa-vida e UHT e vem numa Tetrapak com lacre inviolável e lote de fabricação e prazo de validade de seis meses (a vaca nem imagina) e código QR. E, apesar de os saquinhos de leite ainda existirem, os porta-leites são espécie em extinção.

Eu ia com minha irmã à padaria. Na ida, trajeto sem intercorrências. Na volta, como a rua Jaboticabal era leve descida eu, invariavelmente, levava um tombo. Ralava joelho, chorava e voltava no colo da irmã, mais velha. Não sei como ela nunca fez campanha para que eu não a acompanhasse mais.

Certa vez, minha mãe adoeceu. Para demonstrar meu afeto e zelo filial, preparei-lhe uma gostosa xícara de café com leite. Ela, da cama, sorriu, agradeceu e quis saber onde eu encontrara leite, já que o da geladeira havia acabado. Respondi, naturalmente: “Na tigela no gato”.

Ontem, no supermercado, vi leite de saquinho. Vários, dispostos em uma grande caixa plástica, ao pé dos iogurtes. Tão parecidos com os do tempo que eu era criança. Embora eu não vá mais à padaria a pé com minha irmã, nem leve tombos a torto e a direito. Fingi procurar alguma coisa na prateleira e apertei os saquinhos. Continuam gelados, úmidos, molengos.

Enxuguei a mão na minha calça jeans, paguei as compras e vim embora, levemente feliz. É que das minhas memórias sempre jorra saudade. E elas são do tipo A.

5 comentários em “Tipo A

  1. Eu adoro quando suas lembranças parecem coisas minhas e eu vou para a infância em busca de pouso e volto para esse dia azul onde as coisas estão ainda estranhas. Acho que eu nunca antes gostei tanto dos ontens. rs

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    1. Gosto muito quando viajam comigo nas lembranças, quase universais… Acho que elas nos salvam, nestes tempos bicudos. Um beijo, querida. 💜

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