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Três não é demais

orelha

Nina quis saber por que tenho três furos na orelha direita e só um na esquerda. Então a história, guardada em um buraquinho da minha memória, saiu para passear.

Naquele dia, voltei da escola decidida. Na manhã seguinte, os colegas me veriam com furos extras nas orelhas. Um eu já tinha. Os originais, feitos quando eu era bebezinha.

Certifiquei-me de que estavam todos ocupados em casa e rumei ao quarto da minha mãe. Afinal, para que recorrer à farmácia, gastar dinheiro, se agulha e um pouco de álcool bastariam? Eu era rústica e não sabia.

O álcool foi fácil. Peguei o que a gente usava na limpeza da casa – crente de que ele exterminaria qualquer bactéria mais atrevida. A agulha veio direto da caixinha de costura da Dona Angelina.

O plano: dois novos furos, um em cada orelha. Comecei pela direita. Providenciei a assepsia, ensaiei, respirei fundo. Segurei firme a agulha, mirei e pá.

A dor, completamente fora do meu script particular, não foi proporcional à profundidade que o artefato atingiu. A agulha entalou. Já não podia retirá-la facilmente, mas ela também não atravessara o lóbulo. Olhei-me no espelho. Tão pouco juízo para quinze anos. Se alguém entrasse no quarto, diria que estava em uma sessão de acupuntura, andava com enxaqueca. Desculpa furada?

Nina, a caçula, ouvia tudo com atenção. Ela, que nem bem chegara ao mundo, também teve suas mini-orelhas furadas. A madrinha assumiu a missão afetiva de acompanhá-la no rito ancestral. Apesar da bravura dos tempos idos, eu não reunia condições de ver meu próprio rebento sendo espetado.

Segurei o choro e empurrei a agulha um tiquinho mais, piorando significativamente a situação. Sangue, dor e agulha entalada. Perguntei à Silmara do espelho onde é que ela havia se metido. Não houve resposta. Pedir ajuda? Vô Paschoal, no quintal, viria em socorro da neta, não sem esbravejar com bom sotaque italianado. Sempre que ficava muito bravo ou muito alegre, as origens do velho torcedor do Palestra ressurgiam. Correr para a farmácia do Archimedes? Levaria um polido sermão do polido farmacêutico, “Sua mãe sabe disso, mocinha?”. Lançar tendência com a agulha, antecipando a moda do piercing? Ou migrar para o país do espelho, feito Alice? As dúvidas da minha adolescência não foram tão clássicas.

Comecei, então era preciso terminar. Foi quando me lembrei que, nas farmácias, a coisa era pá-pum. A pessoa piscava e já estava de brinco. Decidida, prendi a respiração e Deus – que usa um brinquinho maneiro, reparem – tomou conta do resto. Encerrei a furação, certa de que não havia absolutamente nada estranho em se ter dois brincos numa orelha e um na outra.

Evidentemente, infeccionou. Bronca, pomada, curativo. E os brincos tiraram férias por um bom tempo.

Taurinos são conhecidos pela teimosia. Se um furo em cada orelha era pouco, dois também, e três não seriam demais. Assim que cicatrizou fiz nova investida. Não a fim de regularizar a situação da orelha esquerda, mas para conquistar o terceiro furo na direita. Que dois é para os fracos.

Escolada, utilizei o mesmo expediente da primeira vez, com o infalível método do pá-pum. Evidentemente, infeccionou também. Bronca, pomada, curativo. E, de novo, férias para os penduricalhos.

Mais tarde, fui ler sobre auriculoterapia. Soube que as orelhas têm meridianos por onde circulam energias, e uma mal planejada intervenção nelas pode causar uma série de problemas. Deve ser por isso que eu tenho uma série de problemas.

Sendo assim, por saúde e certa preguiça, acabei desistindo de estabelecer a simetria nas orelhas. E gostei assim.

Por isso que eu tenho três furos na orelha direita e só um na esquerda, Nina.

O peso do tempo

Era hábito: parar nas farmácias perto de casa e me pesar nas enormes balanças. Aquelas, antigas. Aferição sem compromisso, meus (poucos) quilos de criança não importavam. Em jogo, apenas o ritual. A parada era o imprevisto, previsto no meio do caminho para comprar o pão do lanche da tarde, o papel almaço para a lição, o bife do jantar. Pousar na balança significava congelar o tempo por um instante, enquanto a rua e sua gente mantinham o ritmo do lado de fora da farmácia. Ao descer da balança, me esquecia do que o ponteiro havia dito e retomava meu passo na coreografia bem ensaiada do dia. O bairro tinha seu balé.

Toda farmácia que se prezava instalava sua balança de propósito perto da porta. Era o convite, a desculpa, o pretexto para entrar. Todos eram bem-vindos, mesmo quem não estava atrás de comprimido para dor de cabeça, injeção, pomada para queimadura. Nas balanças, vi meu peso crescer através das décadas e das dezenas. Trinta, quarenta, cinquenta quilos. Encostei nos setenta, nas vezes em que havia outra pessoa dentro de mim.

As balanças de hoje não convidam mais ninguém a entrar nas farmácias. Encolheram, esconderam-se, são eletrônicas, precisam de tomadas, pedem moedinhas para ver se o peso está de acordo com a altura. As antigas não queriam nada de nós, além da breve companhia. Quem é que tinha ouvido falar em IMC?

Perdi o hábito de entrar nas farmácias só para me pesar. Agora vou atrás de xampus, cremes e até remédios. Vez por outra, quando a balança está ao lado do caixa, verifico os quilos enquanto aguardo o troco. Mas eles continuam sem tanta importância, meu termômetro é a roupa. Reparei que as lembranças, estas sim, valem quanto pesam. E que o peso do tempo é a medida da saudade.