Morte ao viva-voz

Ilustração: Rodrigo Müller/Flickr.com

Ainda não entendi de qual passarela veio a inexplicável moda de só – eu disse – falar ao celular pelo viva-voz. Gente que empunha o aparelho como se megafone fosse, ventando notícia desinteressante. Como se fosse pizza em fatia, dessas que se pede na lanchonete para almoçar rapidinho, em pé, na pressa dos diabos. Dos diabos, cá entre nós, é ouvir conversa dos outros sem ter vontade. Dos infernos, viver pescando fragmentos do diário alheio. Pior é o barulhinho disparado entre uma fala e outra. Ainda prefiro o bom, velho e cool “câmbio” dos rádios, sepultado pela modernidade para dar lugar ao insípido priii.

Viva-voz é o viés da comédia, o extermínio da vida privada. Mesmo quem não tem vocação para Dona Candinha se vê obrigado a ficar sabendo de tudo. Que a empregada vai se atrasar, mas assim que chegar vai por comida para o Thor. Que o layout daquela peça ficou uma desgraça, será que dá tempo de mexer, liga para o Max. Que o moço vai buscar a moça às oito, depois do tênis, só precisa dar uma passadinha na locadora antes. Que a estagiária aprontou de novo no escritório. Com viva-voz, quem precisa de revista de fofoca?

Tem de tudo no show da voz ao vivo. Detecto um diálogo com potencial para plebiscito: os pais devem ou não deixar o Junior sair com o carro? Afinal ele já tem dezenove e é tão ajuizado. Sem precisar ligar no zero-oitocentos, dou meu voto: sim, o menino pega as chaves hoje à noite e leva a galera ao cinema. A gente cria os filhos para o mundo. É a vox-populi no viva-vox.

Viva-voz não é default do aparelho, é opção. Mas o cidadão a ativa a qualquer momento porque acha bonito. Porque acredita que vai ouvir melhor seu interlocutor. Porque se julga invisível e inaudível. Porque se considera astro-rei. Porque leu em algum lugar que usar o telefone junto ao ouvido faz mal à saúde, dá câncer. Porque isso, porque aquilo. Da verdade não se escapa: porque é tonto.

Viva-voz à toa é pedido de audiência, angariação de testemunhas, compartilhamento de um Facebook falado. Quem é que curtiu?

Viva-voz sem razão é o incômodo efeito colateral da comunicação plena. Hórus, deus do silêncio, há de castigar a todos.

Alô, simpatizante do recurso em hora e lugar errados: a vida não é pública, você não entendeu.

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11 comentários sobre “Morte ao viva-voz

  1. Posso ampliar a área de atuação da inconformidade?

    Obrigado. Lá vai: e essa mania de ouvir música sem os fones de ouvido? Ainda mais em ônibus, minha gente! A gente tenta poupar os ouvidos, mas nem sempre consegue, né não?!

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  2. É tanta gente se expondo que eu achava que o ‘viva voz’ era a condição para usar determinado aparelho. Só há pouco descobri que se trata de uma função que se pode ativar ou não. Bem irritante isso. E vc já prestou atenção quanta gente falando sozinha ultimamente? Não só no carro, quando normalmente estamos pensando com nossos botões, mas nas ruas, em restaurantes…e só de perto – ao contrário do que pregou Caetano Veloso – percebemos que a pessoa é normal, só está falando ao celular acoplado na orelha. Acho muito engraçado.

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    1. Falar sozinha, eu falo. Com meus botões mesmo. Não tenho nada acoplado em minha orelha e, sou “normal”. Um amigo disse prá mim quando estava grávida: – Agora você pode dizer que está falando com o bebe… (e riu).

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  3. Eu tenho vontade de praticar uma performance quando vejo/escuto isso: pegar o aparelho e socar goela abaixo na boca do indivíduo. E dizer: engooooole!! Mas engole com a porra falando, beeemmmm alto!!!!
    Juro, qq dia eu faço isso! Já tive nextel e NUNCA USEI o viva voz ligado.
    Penso que o buraco é mais embaixo: isso se chama EDUCAÇÃO, coisa que hoje, poucos possuem!!!
    Bjs sempre admirados!!! (gritando! Ligando meu iPhone no VIVA VOZ!!!! pra todos ouvirem o qto admiro seus escritos! Pq isso sim, pode falar no viva voz! Prrriiiiiiiii!!!)

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    1. Me deixe saber quando a performance acontecer… tente gravar e colocar no youtube para alertar os outros mal educados/tontos.

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  4. Há muito pensava… quero mesmo ouvir sua conversa? Quero mesmo saber que chegará em sua casa em 10 minutos? Ou que vai passar no mercadinho prá comprar um vinho? Como viveram nossos pais sem o recurso de dizer que estavam atrasados, mas à caminho de casa? O que acho mais triste e tonto são as pessoas não terem tempo para conversar com o estranho sentado ao seu lado. Ai de você se tentar engajar alguém num bate-papo na volta do trabalho. Eles o olham com olhos assustados e pensam… que atrevimento! Mas querem nos deixar saber de suas vidas privadas como você bem escreveu. Estou contigo e rezo à Hórus para que aja rápido. beijos… Alô?… Alô?… Alô?…

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  5. Concordo. E tem mais: em ambiente profissional isso também ocorre. As pessoas atendem o telefone em viva voz. Sem querer eu participo de várias reuniões e fico sabendo informações confidenciais de vários clientes. Ou, num caso mais corriqueiro, a mesma pessoa que atende o celular em viva voz no trânsito, chega na empresa e faz o mesmo com o fixo. Daí a criatura liga para a empregada para saber se ela já deu a comida ao Thor. Depois liga para o(a) namorado(a) e fica numa longa DR.

    Sem noção mandou um beijo. Ou melhor: “um beijo, me liga, me add no Facebook”.
    ;)

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