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Admirável (des)mundo novo

Ilustração: Ade McO-Campbell/Flickr.com

Eu envelheço e o mundo vai ficando novo. Meus espelhos estão mais sinceros, e as propagandas, mais mentirosas. Às vezes, eu queria me trocar, me devolver; acho que vim com defeito. Minha translação é lenta, ando atrasada para viver. Parece que o sol se põe dum lado diferente a cada dia, brincando de ser e não ser. Me confundo toda nessa giração. De quantas rotações somos feitos, afinal, no admirável (des)mundo novo?

Tenho e-mail, Facebook, Twitter, blog, celular 3G e o diabo a quatro ponto zero. Com quem ou o quê, exatamente, isso tudo me conecta? Agora tudo é descobrível, decifrável. (Exceto o coração de quem (des)ama.) Os segredos de Fátima só permanecem ocultos para quem não tem banda larga. As teias sociais capturam até os avisados. E longe, de fato, é um lugar que não existe. Só sei que dependo de água e fibra óptica para viver. Tem dias que preciso mais de uma que da outra. Não conto qual.

Vivo, com expansões no lugar de contrações, num parto incessante de ideias desvairadas. Algumas já nascem mortas. Outras vingam; são amamentadas com fé, liberdade e imaginação. Tento escrever meu diário, mas o presente vira memória num piscar de olhos. Sei que a cabeça está cheia quando passo a me procurar, o tempo todo, para conversar. Qualquer hora, mando dizer que não estou.

Me alimento de atualizações, bebo a pressa, sempre com pressa, e arroto posts aleatórios. Me embanano diante de tantas opções, no infinito self-service do admirável (des)mundo novo. No entanto, recuso o adoçante, o light, o diet. A vida precisa ser integral.

Dei frutos. Mas eles continuam rente ao meu tronco, lambendo minha seiva diária. Eu os protejo e lhes dou sombra. São meus admiráveis filhos novos. Vou imprimindo em meu corpo cicatrizes em forma de tatuagem, enquanto a da cesárea vai desaparecendo. É um recado.

Na admirável (des)ordem nova, os pecados são mais complexos. Os dez mandamentos já se multiplicaram: “Não compartilharás em vão”. Desobedeço ao menos um, todos os dias. Deus, eternamente online, nem liga. Testo sua onisciência, imito sua onipresença e não espero pelo castigo. Ele é moderno. Eu, não.

Carta para Maria

Grafite: "Madonna", SAO/Flickr.com

Cara Maria

Não se espante com a inédita missiva; por aqui, tudo segue em razoável ordem. De fato, é com seu filho que converso mais, em longas lamúrias com frente e verso, ou pelos recados ventados, só para dar um alô. Ele sempre diz que está por dentro das coisas que conto, mas tenho cá minhas dúvidas. A onisciência não dá garantia.

As crianças vão bem. Você, que é mãe, sabe o trabalho que filho dá. Não sei se os meus terão a fome serena de mudar o mundo, como teve o seu. Se eles conseguirem transformar o mundo deles, já estará bom. No fundo, todo filho é meio salvador. Não há fruto que não seja bendito.

Desde que você virou santa, Maria, toda mulher precisa inventar a própria santice, ainda que às avessas. É seu principal legado, nossa maior herança. E a despeito da minha impaciência e egoísmo, há momentos em que consigo ser Maria, por conta da milenar fagulha genética. Às vezes, lhe sou grata por isso. Às vezes, não.

Não sei muito sobre a Santíssima Trindade, mas será que não esqueceram de incluir você nela? Ou era uma espécie de Clube do Bolinha, onde mulher não entrava? Aí não seria trindade, o que poderia mudar a história da humanidade inteira, para o bem ou para o mal. Melhor deixar assim. Fiquemos com a nossa tríade paralela: mãe, filha e o espírito santo no meio, amalgamando tudo.

Falando nisso, você sabia (de verdade) quem embalava nos braços? Trocava-lhe as fraldas e dava-lhe de comer, como qualquer mãe? Afinal de contas, Maria, o que tinha no seu leite?

A sua tarefa foi a mais impossível, difícil e insana. Você poderia tê-la declinado, passado a batata quente adiante, ter dito ‘não’, enfim. Mas você, Maria, não foi com as outras. Assistiu, sem direito à raiva, nem esporro, o filho perecer. Não é para qualquer uma. Era parte do combinado perdê-lo tão cedo, ou você só ficou sabendo em cima da hora qual era seu papel no teatro da humanidade? Não lhe deu vontade de mandar tudo às favas e ir lá, arrancá-lo da cruz e dizer “Ok, a brincadeira acabou”? Seu choro na escuridão, quem é que ouviu? Quem acudiu você quando o bicho pegou? Seu coração, por fim, recebeu um pouco da cura que ele espalhou pelos quatro cantos? E hoje, tanto tempo passado, me diz, como mulher, não santa: você emprestaria seu ventre de novo?

Nós, que não sabemos a hora da nossa morte, vivemos orando para que você esteja atenta ao relógio do mundo. Saber que você é por nós, agora e depois, representa um alento e tanto. Mas esta noite, Maria, vamos fazer diferente. Hoje, quem roga por você sou eu. Dorme tranquila.

Boa noite,

A oração da Barbie

Hora de dormir, flagro Nina sentada em sua cama. Mãos em prece e olhos semicerrados, ela ora baixinho. Ao seu lado, na mesma posição, três Barbies. Exceto pelas mãos mortas (que jamais se juntam) e olhos crus (que nada veem), elas parecem imitar a reza da minha filha. Dela, fico sabendo o teor da oração: proteção para todos em casa (incluindo os gatos) e a viagem à praia, prometida há três feriados. Mas a súplica das bonecas, qual é?

Condenadas em sua eterna beleza, será que pedem ao santo pai do céu alguma feiúra humana? Uma desproporção aqui, uma assimetria ali, qualquer sinal que as converta em mulheres reais. Será que, fartas de sua perfeição lisa e previsível, imploram por um naco de defectibilidade? Talvez, saturadas em sua simpatia, reivindiquem um bocado de fúria, um punhado de cólera, um resto possível de indignação.

Será que sonham tirar do rosto o perpétuo, oco e bem educado sorriso, para em seu lugar virem surgir uma careta e espaço para um palavrão? Quem sabe, como santas em seu feminino de araque, roguem por um teco de devassidão, ou mesmo uma fração de tristeza, que destrua sua insossa e camuflada alegria. Ou será que esperam, resignadas, pelo antídoto para o feitiço da vida eterna?

Ou nada disso, e tudo que elas desejam é um Ken (quem?), para andar de mãos dadas pelo calçadão e comemorar juntos as bodas de ouro.

Será que, ao lado de sua dona-mirim, as miniaturas louras e inanimadas de mulher agradecem pelo lar aonde vieram parar, livrando-as das incômodas e claustrofóbicas embalagens nas prateleiras das lojas de brinquedo, santuário enviesado da nossa infância pós-moderna? Agradecerão, também, pelas minimãos que a levam para lá e para cá e lhes mostram um mundo, ainda diminuto, de menina de quatro anos?

Para uma Barbie, Deus é o Homem. É ele quem a cria – não em barro, mas plástico – à sua imagem e semelhança. Em vez do sopro divino, a brisa terrena, o faz-de-conta, a brincadeira séria. Barbies ultrapassaram a fronteira do imaginário. Viram seu modus vivendi transportado para a vida de gente de verdade, que é de onde saíram. Tornaram-se, enfim, capazes de provocar uma poderosa tríade de sentimentos: a inveja (confessa e não-declarada), o repúdio (sintoma frágil da desaceitação) e a compaixão (um raro efeito em todos nós).

Preces findas, as Barbies seguem para o baú. Sem beijo de boa noite, como o que minha filha ganha. Ao beijá-la, eu a tranquilizo: “O próximo feriado, Nina, vai ser na praia”.

Diariamente

Ilustração: Tadashi Kumai/Flickr.com

Todos os dias, enquanto escovo os dentes antes de dormir, presto atenção ao meu rosto. Não quero perder seu envelhecimento diário. Também não desejo, um belo dia, lá na frente, me assustar: “Meu Deus, estou velha”. Minha observação é pura precaução. Não posso fazê-la pela manhã, no entanto. Sou imprestável ao acordar. Como a tartaruga-marinha recém-nascida, que brota do seu ovo escondido na areia e dispara para o mar, eu broto dos lençóis e disparo para o chuveiro. É lá que termino de nascer. No banho, a água morna aciona minha agenda e eu repasso, tal uma vidente, o dia já anunciado.

Todos os dias, numa hora qualquer, presto atenção a alguma parte do meu corpo. Dedão, batata da perna, dorso da mão. Não quero perder de vista uma sarda nova, o anúncio de uma limitação física inédita, uma ruga que chega sem avisar. Meu corpo é uma hospedaria de sinais do tempo. Não gosto de todos, mas é preciso recebê-los e tratá-los bem. Sou feita deles.

Todos os dias, não sei ao certo a que horas, nem por quanto tempo, dedico-me a decorar os filhos. Estudo seus tamanhos, cheiros, formato dos olhos, quantos dentes aparecem quando sorriem. Talvez, por isso, ainda não tenha me espantado ao vê-los já grandes, nem compartilhado com outras mães as clássicas constatações, “Como cresceram!”, “Como o tempo passa rápido!”. Depois que tive filhos, o tempo não passou rápido coisa nenhuma. Seu compasso é o justo. Ser mãe demora. Uma vida inteira, por sinal. Às vezes, mais de uma.

Todos os dias, eu leio. Jornal, pensamento, olho, futuro. Nem sempre entendo o que dizem. Mantenho um dicionário na bolsa e outro no coração, para os casos de dúvida. Vez por outra, nenhum dos dois me acode. Então, em vez de ler, escrevo.

Todos os dias, é um tal de lembrar e esquecer as coisas, que nem sempre me lembro de lembrar de Deus. Sei que ele não liga para isso. Somos bons amigos, daqueles que não precisam se falar todo santo dia. E ele sabe que preciso mais dele que ele de mim. O que também não o preocupa. É mais velho, mais escolado. Não é dado a criancices. Isso ele empresta aos pequenos. Que vão lhe devolvendo as criancices, aos poucos, enquanto crescem. Mas eles nunca devolvem tudo. Sempre guardam um pouco delas, escondido entre uma coisa e outra. É assim comigo, é assim com todas as pessoas. Gente é incrivelmente parecida e repetitiva.

Quase todos os dias, quando dou comida para meus gatos, busco nas prateleiras mais inalcançáveis da memória as recordações dos outros animais que já viveram comigo. Três cães, dúzias de felinos, um hamster, alguns passarinhos. Enquanto fizer isso, vivos eles permanecerão. As lembranças são fundamentais para o registro da história – deles e minha. Despejo a ração nas vasilhas e vou historiando. Brinco que os bichos de agora são os de outrora, renascidos. É um jeito – inofensivo – de matar as saudades.

Quase sempre, no almoço ou jantar, imagino a jornada do alimento dentro de mim. Cada um dos nutrientes conhece plenamente a sua missão, sabe para onde ir e o que fazer para me manter viva e razoavelmente saudável. Ninguém lhes ensinou isso. Eles sabem por que sabem, a vida deles é tão somente ser. De vez em quando, queria ser um feijão.

Nem todos os dias sou feliz. Na maioria, alegre. Todos os dias, porém, sou valente. Isso basta.

Matrioska

Foto: Zeta/Flickr.com, efeitos: Gimp

A bebê dorme em seu carrinho. Enche de amor o coração da mãe que a embala. Enche de amor-perfeito a avó que as contempla. Enche o mundo de graça. E enche d’água meus olhos. Como podem três quilos e cinquenta centímetros ocupar tanto espaço? Na minha tarde de sexta-feira há três mulheres. Saídas uma de dentro da outra. Estou diante de uma matrioska viva. Passaria horas montando-a e desmontando-a. Brincando de nascer e desnascer. Mas quem gosta dessa brincadeira é Deus. A gente só brinca junto; as coordenadas são sempre dele.

No breve tempo de nanar, a bebê se desliga deste orbe, enquanto se liga ao de onde veio, aquele que deixou há pouco tempo. O dos anjos e jardins sem fim, gosto de imaginar desse jeito. Desconecta-se daqui e se reconecta lá. Mata as saudades dos amigos, ainda não sabe que os reencontrará aqui – é surpresa. Joga bola, canta uma canção, afaga um pássaro. E daqui trinta minutos pega um avião de volta, faminta de mãe.

No futuro, as fotografias dos álbuns de família mostrarão o quanto terão sido parecidas essas três mulheres. Pois cada uma tem em si um pouco da outra. O detalhe no sorriso, o jeito de ficar brava, a paixão por alguma arte. E também coisas que as outras se esqueceram de trazer nesta vida, ou não o fizeram de propósito, só para ver se a outra lembrava. Mulheres.

Cada uma delas cumpre um ciclo. E nem sabem por que o cumprem. Só sabem que é assim. Lá se vão, as três mulheres. A primeira ainda não sabe andar. A segunda, sim. A terceira está desaprendendo. Cabe à do meio ajudar as que estão nas pontas do tempo presente. Ela sabe que, breve, o terceiro lugar será seu. E arrepia-se só de pensar: a que cochila no carrinho, um dia, tratará de continuar a história, aumentando a matrioska.

É boa a roda da vida, como não? Vida de meia volta, volta e meia que se dá. Estamos todos cirandando.

Crônica de minuto #8

Fiz como Deus pediu: cresci e multipliquei-me. Só que Ele se esqueceu de dizer o que fazer com os ‘produtos’ nas férias escolares. Os meus, por exemplo, estão na sala, entediados porque lá fora é só chuva. Procurei uma resposta – ao menos uma dica – nas Escrituras, e necas. Espertinho, Ele. Ou então, eu que sou ruim em matemática.

Oração na madrugada

Ilustração: Mankamundo/Flickr.com

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Senhor

Aparece, aqui e agora, na minha frente, e dize o que preciso saber, que ainda não sei ou havia entendido errado. Afasta de mim medo, raiva, tristeza e preguiça – as quatro coisas que paralisam, engordam e fazem cair o cabelo.

Mostra como todos meus sentimentos, atitudes e decisões, desde o dia em que nasci, poderiam ter sido mais simples e o quanto eles ainda podem sê-lo, se eu assim desejar. Mas sê objetivo. Nada de parábolas, pode dizer na lata. Fala devagar, no entanto. Estarei de papel e caneta a postos, anotando para não esquecer depois.

Faze, como de costume, a vossa vontade, assim na terra como no céu e agora também na web. Perdoa a prece a esta hora da madrugada e o pijama descosturado. Não me deixa cair na tentação das liquidações de inverno, mas livra-me das angústias, do sequestro relâmpago e do spam.

Amém.

Companhia

Ilustração: Etringita/Flickr.com

A gente bota Deus para acompanhar todo mundo. Filho, mãe, avô, irmã, sobrinho, empregada. Até vizinho. A ordem ao Todo-Poderoso, vestida de pedido, é simultânea ao beijo da despedida, ao abraço apertado, ao aceno cordial. Deus passa o dia acompanhando gente. O Acompanhador-Geral do planeta. Por isso inventaram a onipresença. Para que ele dê conta. Ainda bem que Deus é boa companhia. E se fosse um chato de galochas, do tipo que conta sempre a mesma piada?

Quando alguém chega de viagem, da rua, do trabalho, da aula, ninguém pergunta se Deus veio junto. Se aceita um cafezinho. Tampouco agradece-se a companhia. É como se não tivesse vindo. As desvantagens de ser invisível. Mas Deus não liga. Tem que acompanhar outra pessoa em seguida. Já está atrasado, inclusive.

E no caso de Deus não estar com vontade deste ou daquele passeio? E se pretendia tirar uma soneca bem na hora em que foi evocado? E se tinha outros planos? Agenda de Deus deve ser toda rabiscada.

E quando a gente pensa, em vão, que Deus se esqueceu de acompanhar Fulano ou Beltrano? Ele nunca vai dizer nem que sim, nem que não. Cada um que tire as próprias conclusões. Todas estarão corretas, aos seus olhos. “Assim é, se lhe parece”. Só não tente testar-lhe a onipotência. Ele não gosta.

Quem pede a companhia de Deus para si ou para o outro costuma ir – ou ficar – mais tranquilo. Marido se despede de mim toda manhã (tão manhã, ainda) com um beijo. Amarfanhada no travesseiro, eu costumava dizer: “Vá com Deus”. Com o tempo, abreviei. Eram palavras demais. Agora só sai “Com Deus”, em adormecente grunhido. Deus me dá um desconto. E sempre entende. Ainda bem que inventaram a onisciência.

Nem na hora de dormir Deus escapa. Quando não está acompanhando as pessoas, está dormindo com elas. Toda noite desejo aos filhos: “Durmam com Deus”. Garantia de sonho bom.

A que horas Deus vai ler jornal? Talvez, naquele instante em que a gente sai, dispensando-o de vir conosco. Aí não é nem para acompanhar, nem para dormir: é para ele cuidar de quem ficou. Enquanto quem ficou cuida da casa, confere o canhoto do talão de cheques, assiste à novela e rega o jardim, Deus aproveita. Vai direto pros Quadrinhos.

O fio da antiga meada

Hoje eu vou arriscar. Em vez de um texto recém-saído dos meus miolos, postarei este aqui. Eu o escrevi quando tinha dezesseis anos, para uma redação do colégio. Nem tem nome. Mas lembro do professor tê-lo lido em voz alta para a classe. Desde então, ele está guardado numa pasta vermelha de elástico (quase tão velha quanto ele), junto a muitos outros, registrados com Bic e máquina de escrever. Naquele tempo não tinha computador; ‘pen’ era uma coisa e ‘drive’ era outra, e essas palavras ainda não andavam juntas.

Há meses ensaio mostrá-lo aqui, numa espécie de sessão retrô. Claro que, hoje, eu reescreveria algumas partes. Mas resolvi publicá-lo do jeitinho que foi escrito há vinte e sete anos, sem retoques. Certa de que os caros leitores darão um bom desconto para a adolescência ingênua que dele transborda. Pois é isso que eu, afinal de contas, era. Confesso: estou morrendo de medo. E com um pouquinho de vergonha. Lá vai.

Foto: John Ryan Brubaker/Flickr.com

“Quero um Deus que não saiba rezar, que morda a língua e envergonhe a família. Um Deus que não saiba ensinar e que não se preocupe em aprender.

Quero um Deus fantasiado de colombina, que traduza em sons toda a melancolia de viver.

Quero um Deus que morra antes de eu nascer, que é para eu não lembrar nem ter saudades dele.

Quero um Deus meu, que saiba fazer pizza e caipirinha.

Quero um Deus que precise tragar fumaça para se convencer que o mundo é uma tragédia, que se coloque num altar e, embriagado, diga que a vida é linda e que meus pais me amam.

Quero um Deus sujo, que seja pedreiro e que não ganhe nada. Quero mandá-lo embora e depois esperá-lo até que ele volte.

Quero um Deus lindo e fotógrafo, que não use flash e que xingue o juiz de futebol. Quero chorar por achar esse Deus tão lindo.

Quero um Deus morto, que não dê trabalho, e que morra sem dizer um pio, que é para não atormentar.

Quero um Deus triste e que tenha medo de avião.

Quero um Deus que me ouça dizer um palavrão e que ria, me chamando de criança.

Quero um Deus que cante desafinado e que não viva sem mim.

Quero um Deus que me dê chocolate aos sábados, e que goste de me ver de branco.

Quero um Deus gordo, que passe pasta de dente em queimadura.

Quero um Deus que saiba imitar gato e bem-te-vi. Que conte a história do boneco de pau que comeu a maçã envenenada.

Quero um Deus azul que limpe os óculos com a camisa, e que ande com os pés pra dentro, que é para eu rir.

Quero um Deus sozinho, que precise de mim e mande me chamar na escola. Que diga que vai morrer, só para me ver chorar.

Quero um Deus completamente pobre, que diga que é rico e que vai comprar a lua para mim.

Quero um Deus amigo dos ladrões e dos barbeiros, que saiba dirigir caminhão e que me ensine coisas da vida.

Quero um Deus mocinho, que é para eu ensiná-lo que o Papai Noel não mora no Pólo Norte, e sim na América do Sul.

Quero um dia de manhã ir acordar esse Deus com um pássaro ferido achado em nosso quintal, e ele me chamar de criança, fechar os olhos e dormir para sempre.”

Diálogos importantes

Foto: Mãhi Teshneh
 

Menino: Não gostei do que o senhor fez hoje na escola.

Deus: O que foi que eu fiz?

Menino: Deixou o Mateus apanhar do Vinícius na hora do recreio.

Deus: O Mateus do segundo ano?

Menino: Não, do primeiro. O que tem um tênis do Batman.

Deus: Sei. Mas por que o Vinícius bateu nele?

Menino: Por causa da Letícia.

Deus: A loirinha?

Menino: É.

Deus: E o que tem a Letícia?

Menino: Ela disse para o Vinícius que não quer mais namorar ele. Que agora ela é namorada do Mateus.

Deus: Ahn. E por isso o Mateus apanhou.

Menino: É. E o senhor deixou.

Deus: Mas eu nem estava sabendo dessa separação.

Menino: Meu avô diz que o senhor sabe tudo.

Deus: Seu avô exagera um pouquinho.

Menino: O que é exagera?

Deus: Exagerar é aumentar as coisas.

Menino: Como a lente de aumento?

Deus: Isso.

Menino: Outro dia eu vi uma formiga com lente de aumento, deu para ver os olhos dela!

Deus: Com essas lentes dá para ver uma porção de coisas.

Menino: O senhor estava sem a sua lente de aumento na hora em que o Mateus apanhou?

Deus: Acho que sim. Machucou muito?

Menino: O Vinícius deu um tapa nele assim, ó. Aí o Mateus deu um chute nele.

Deus: Então ele soube se defender.

Menino: É, soube. Mas ele apanhou primeiro.

Deus: Você não vive dizendo que é bom ser o primeiro?

Menino: Mas para isso não!

Deus: Não vejo diferença.

Menino: Como o senhor sabe que eu vivo dizendo isso?

Deus: Eu já ouvi você falando desse jeito.

Menino: E como o senhor ouviu? Já sei: o senhor tem uma lente de aumento para a orelha!

Deus: Tenho. Mas eu não a uso sempre. Fico muito cansado. Agora me conte: o Vinícius e o Mateus fizeram as pazes?

Menino: Acho que não. Sabia que o Mateus jogou Fanta Uva em mim outro dia?

Deus: Mesmo?

Menino: Juro. Ele é muito chato.

Deus: Mas ele não é seu amigo? Você achou ruim vê-lo apanhando, levei bronca e tudo…

Menino: Era. Mas depois da Fanta, não é mais. Ainda bem que o Vinícius bateu nele.

Menino: Já sei por que o senhor deixou o Mateus apanhar! Meu avô diz que o senhor sempre faz tudo certo, mesmo quando a gente não entende logo de cara.

Deus: Seu avô exagera um pouco. Às vezes eu não acerto.

Menino: Meu avô tem uma lente de aumento, fica na gaveta. Agora eu vou dormir. Obrigado por eu ter conseguido a figurinha que faltava e pela minha irmã não estar mais com febre.

Deus: Não há de quê. Durma bem.

Menino: E, por favor, proteja a minha família e o carro novo da mamãe. Proteja o planeta inteiro, menos o ladrão e a barata. Amém.

Deus: Deixa comigo.

Menino: Então, tchau.

Deus: Tchau.

O pão que o Diabo não amassou

Gonc.A/Flickr.com

Vivia mandando que o Diabo o carregasse. Um dia, o Diabo resolveu obedecer. Vou contar direitinho como foi. Porque o Diabo também precisa que alguém alivie as coisas para o seu lado.

A mulher, embora bonita, não era flor que se cheirasse. Mas fazia o melhor pão de queijo de todo o triângulo mineiro. E pão de queijo bom, mas bom mesmo, é difícil de fazer. Não pode ter queijo demais, nem de menos. O polvilho tem que ser aquele. E por aí vai. A fama garantia à mulher um bom punhado de amigos, que esticavam o caminho só para dar uma passadinha em sua casa. Entre os amigos, havia os admiradores. Públicos e secretos. Dos secretos ela gostava mais. Caprichava na massa do pão quando sabia que um deles iria vê-la.

Até o dia em que um da turma dos secretos, durante a visita, resolveu fincar o pé. E não quis mais sair. Prometeu aumentar a casa, fazer um bom puxado para a cozinha. Dizia que com o que ganhava na loja de material para construção os dois poderiam viver, assim ela não precisaria mais ficar consertando roupa dos outros. A proposta foi ficando interessante, e ela deu sua mão ao homem. Agora apenas os que eram só amigos poderiam passar lá.

Como eu ia dizendo, a mulher não era flor que se cheirasse. Era do tipo de flor que se planta por engano, e depois que se descobre o perfume ruim é preciso arrancar tudo. Até a raiz. E, dia depois de dia, a mulher tratou de infernizar a vida do homem com toda sorte de insulto e implicação. De manhã à noite. Encerrava o palavreado sempre com a mesma ordem ao Diabo. Que, no começo, não dava muita bola.

Mas o Diabo, sempre muito educado, foi se aborrecendo. Não gostava que lhe dessem ordens. Se tem uma coisa que o Diabo preza é a sua independência. Deus sabe disso, e é por isso que fica cada um na sua.

Passaram-se alguns anos e a mulher, não se dando conta do mundinho esquisito que criava à sua volta com sua maledicência, adoeceu. Ficou magra de dar dó. O pão foi mudando o sabor, os amigos foram rareando. Apenas o fiel e paciente marido continuou ao seu lado, comendo o pão que ela amassava todos os dias.

Certa tarde, ele foi ajudá-la a por a mesa para o café. Sem querer, esbarrou no cesto de pães recém-assados e foi tudo ao chão. Desta vez, a mulher não só repetiu a ordem ao Diabo com mais fúria, como também mandou que o Raio, irmão gêmeo do Relâmpago, partisse o homem em dois.

Aí o Diabo se enfezou. Disposto a resolver a história, vestiu seu terno, ajeitou o nó da gravata no espelho, conferiu os sapatos e foi até a casa da mulher. Tocou a campainha, o homem veio atender. Quando abriu a porta, pôde ouvir a mulher esbravejando lá dentro. Viu o ódio que lhe tomara conta. Pôde sentir, também, o aroma morto do pão espalhado pelo tapete da sala de jantar. Da porta mesmo, chamou o homem de canto e sussurrou-lhe algo no ouvido. Ele arregalou os olhos, virou-se para a mulher e sorriu. Despediu-se com um mudo aceno e pulou nos ombros do Diabo. Lá se foram os dois rua acima e, na praça, desapareceram na sombra de um jequitibá.

Percebendo que tinha alguma coisa a ver com aquilo, a mulher tratou de recolher os pães enquanto matutava que diabos havia acontecido. Tomou seu café, não sem uma pulga atrás da orelha. No finalzinho do dia, foi para a porta esperar o marido. Que nunca mais voltou.

Por via das dúvidas, passou a tomar mais cuidado com o que dizia.

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[Nota: este miniconto recebeu menção honrosa no 4º Concurso Literário de Minicontos e Haicais da Editora Guemanisse (RJ) e foi publicado pela editora, com os demais premiados, em agosto de 2010.]