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Admirável (des)mundo novo

Ilustração: Ade McO-Campbell/Flickr.com

Eu envelheço e o mundo vai ficando novo. Meus espelhos estão mais sinceros, e as propagandas, mais mentirosas. Às vezes, eu queria me trocar, me devolver; acho que vim com defeito. Minha translação é lenta, ando atrasada para viver. Parece que o sol se põe dum lado diferente a cada dia, brincando de ser e não ser. Me confundo toda nessa giração. De quantas rotações somos feitos, afinal, no admirável (des)mundo novo?

Tenho e-mail, Facebook, Twitter, blog, celular 3G e o diabo a quatro ponto zero. Com quem ou o quê, exatamente, isso tudo me conecta? Agora tudo é descobrível, decifrável. (Exceto o coração de quem (des)ama.) Os segredos de Fátima só permanecem ocultos para quem não tem banda larga. As teias sociais capturam até os avisados. E longe, de fato, é um lugar que não existe. Só sei que dependo de água e fibra óptica para viver. Tem dias que preciso mais de uma que da outra. Não conto qual.

Vivo, com expansões no lugar de contrações, num parto incessante de ideias desvairadas. Algumas já nascem mortas. Outras vingam; são amamentadas com fé, liberdade e imaginação. Tento escrever meu diário, mas o presente vira memória num piscar de olhos. Sei que a cabeça está cheia quando passo a me procurar, o tempo todo, para conversar. Qualquer hora, mando dizer que não estou.

Me alimento de atualizações, bebo a pressa, sempre com pressa, e arroto posts aleatórios. Me embanano diante de tantas opções, no infinito self-service do admirável (des)mundo novo. No entanto, recuso o adoçante, o light, o diet. A vida precisa ser integral.

Dei frutos. Mas eles continuam rente ao meu tronco, lambendo minha seiva diária. Eu os protejo e lhes dou sombra. São meus admiráveis filhos novos. Vou imprimindo em meu corpo cicatrizes em forma de tatuagem, enquanto a da cesárea vai desaparecendo. É um recado.

Na admirável (des)ordem nova, os pecados são mais complexos. Os dez mandamentos já se multiplicaram: “Não compartilharás em vão”. Desobedeço ao menos um, todos os dias. Deus, eternamente online, nem liga. Testo sua onisciência, imito sua onipresença e não espero pelo castigo. Ele é moderno. Eu, não.

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Carta para Maria

Grafite: "Madonna", SAO/Flickr.com

Cara Maria

Não se espante com a inédita missiva; por aqui, tudo segue em razoável ordem. De fato, é com seu filho que converso mais, em longas lamúrias com frente e verso, ou pelos recados ventados, só para dar um alô. Ele sempre diz que está por dentro das coisas que conto, mas tenho cá minhas dúvidas. A onisciência não dá garantia.

As crianças vão bem. Você, que é mãe, sabe o trabalho que filho dá. Não sei se os meus terão a fome serena de mudar o mundo, como teve o seu. Se eles conseguirem transformar o mundo deles, já estará bom. No fundo, todo filho é meio salvador. Não há fruto que não seja bendito.

Desde que você virou santa, Maria, toda mulher precisa inventar a própria santice, ainda que às avessas. É seu principal legado, nossa maior herança. E a despeito da minha impaciência e egoísmo, há momentos em que consigo ser Maria, por conta da milenar fagulha genética. Às vezes, lhe sou grata por isso. Às vezes, não.

Não sei muito sobre a Santíssima Trindade, mas será que não esqueceram de incluir você nela? Ou era uma espécie de Clube do Bolinha, onde mulher não entrava? Aí não seria trindade, o que poderia mudar a história da humanidade inteira, para o bem ou para o mal. Melhor deixar assim. Fiquemos com a nossa tríade paralela: mãe, filha e o espírito santo no meio, amalgamando tudo.

Falando nisso, você sabia (de verdade) quem embalava nos braços? Trocava-lhe as fraldas e dava-lhe de comer, como qualquer mãe? Afinal de contas, Maria, o que tinha no seu leite?

A sua tarefa foi a mais impossível, difícil e insana. Você poderia tê-la declinado, passado a batata quente adiante, ter dito ‘não’, enfim. Mas você, Maria, não foi com as outras. Assistiu, sem direito à raiva, nem esporro, o filho perecer. Não é para qualquer uma. Era parte do combinado perdê-lo tão cedo, ou você só ficou sabendo em cima da hora qual era seu papel no teatro da humanidade? Não lhe deu vontade de mandar tudo às favas e ir lá, arrancá-lo da cruz e dizer “Ok, a brincadeira acabou”? Seu choro na escuridão, quem é que ouviu? Quem acudiu você quando o bicho pegou? Seu coração, por fim, recebeu um pouco da cura que ele espalhou pelos quatro cantos? E hoje, tanto tempo passado, me diz, como mulher, não santa: você emprestaria seu ventre de novo?

Nós, que não sabemos a hora da nossa morte, vivemos orando para que você esteja atenta ao relógio do mundo. Saber que você é por nós, agora e depois, representa um alento e tanto. Mas esta noite, Maria, vamos fazer diferente. Hoje, quem roga por você sou eu. Dorme tranquila.

Boa noite,

A oração da Barbie

Hora de dormir, flagro Nina sentada em sua cama. Mãos em prece e olhos semicerrados, ela ora baixinho. Ao seu lado, na mesma posição, três Barbies. Exceto pelas mãos mortas (que jamais se juntam) e olhos crus (que nada veem), elas parecem imitar a reza da minha filha. Dela, fico sabendo o teor da oração: proteção para todos em casa (incluindo os gatos) e a viagem à praia, prometida há três feriados. Mas a súplica das bonecas, qual é?

Condenadas em sua eterna beleza, será que pedem ao santo pai do céu alguma feiúra humana? Uma desproporção aqui, uma assimetria ali, qualquer sinal que as converta em mulheres reais. Será que, fartas de sua perfeição lisa e previsível, imploram por um naco de defectibilidade? Talvez, saturadas em sua simpatia, reivindiquem um bocado de fúria, um punhado de cólera, um resto possível de indignação.

Será que sonham tirar do rosto o perpétuo, oco e bem educado sorriso, para em seu lugar virem surgir uma careta e espaço para um palavrão? Quem sabe, como santas em seu feminino de araque, roguem por um teco de devassidão, ou mesmo uma fração de tristeza, que destrua sua insossa e camuflada alegria. Ou será que esperam, resignadas, pelo antídoto para o feitiço da vida eterna?

Ou nada disso, e tudo que elas desejam é um Ken (quem?), para andar de mãos dadas pelo calçadão e comemorar juntos as bodas de ouro.

Será que, ao lado de sua dona-mirim, as miniaturas louras e inanimadas de mulher agradecem pelo lar aonde vieram parar, livrando-as das incômodas e claustrofóbicas embalagens nas prateleiras das lojas de brinquedo, santuário enviesado da nossa infância pós-moderna? Agradecerão, também, pelas minimãos que a levam para lá e para cá e lhes mostram um mundo, ainda diminuto, de menina de quatro anos?

Para uma Barbie, Deus é o Homem. É ele quem a cria – não em barro, mas plástico – à sua imagem e semelhança. Em vez do sopro divino, a brisa terrena, o faz-de-conta, a brincadeira séria. Barbies ultrapassaram a fronteira do imaginário. Viram seu modus vivendi transportado para a vida de gente de verdade, que é de onde saíram. Tornaram-se, enfim, capazes de provocar uma poderosa tríade de sentimentos: a inveja (confessa e não-declarada), o repúdio (sintoma frágil da desaceitação) e a compaixão (um raro efeito em todos nós).

Preces findas, as Barbies seguem para o baú. Sem beijo de boa noite, como o que minha filha ganha. Ao beijá-la, eu a tranquilizo: “O próximo feriado, Nina, vai ser na praia”.

Diariamente

Ilustração: Tadashi Kumai/Flickr.com

Todos os dias, enquanto escovo os dentes antes de dormir, presto atenção ao meu rosto. Não quero perder seu envelhecimento diário. Também não desejo, um belo dia, lá na frente, me assustar: “Meu Deus, estou velha”. Minha observação é pura precaução. Não posso fazê-la pela manhã, no entanto. Sou imprestável ao acordar. Como a tartaruga-marinha recém-nascida, que brota do seu ovo escondido na areia e dispara para o mar, eu broto dos lençóis e disparo para o chuveiro. É lá que termino de nascer. No banho, a água morna aciona minha agenda e eu repasso, tal uma vidente, o dia já anunciado.

Todos os dias, numa hora qualquer, presto atenção a alguma parte do meu corpo. Dedão, batata da perna, dorso da mão. Não quero perder de vista uma sarda nova, o anúncio de uma limitação física inédita, uma ruga que chega sem avisar. Meu corpo é uma hospedaria de sinais do tempo. Não gosto de todos, mas é preciso recebê-los e tratá-los bem. Sou feita deles.

Todos os dias, não sei ao certo a que horas, nem por quanto tempo, dedico-me a decorar os filhos. Estudo seus tamanhos, cheiros, formato dos olhos, quantos dentes aparecem quando sorriem. Talvez, por isso, ainda não tenha me espantado ao vê-los já grandes, nem compartilhado com outras mães as clássicas constatações, “Como cresceram!”, “Como o tempo passa rápido!”. Depois que tive filhos, o tempo não passou rápido coisa nenhuma. Seu compasso é o justo. Ser mãe demora. Uma vida inteira, por sinal. Às vezes, mais de uma.

Todos os dias, eu leio. Jornal, pensamento, olho, futuro. Nem sempre entendo o que dizem. Mantenho um dicionário na bolsa e outro no coração, para os casos de dúvida. Vez por outra, nenhum dos dois me acode. Então, em vez de ler, escrevo.

Todos os dias, é um tal de lembrar e esquecer as coisas, que nem sempre me lembro de lembrar de Deus. Sei que ele não liga para isso. Somos bons amigos, daqueles que não precisam se falar todo santo dia. E ele sabe que preciso mais dele que ele de mim. O que também não o preocupa. É mais velho, mais escolado. Não é dado a criancices. Isso ele empresta aos pequenos. Que vão lhe devolvendo as criancices, aos poucos, enquanto crescem. Mas eles nunca devolvem tudo. Sempre guardam um pouco delas, escondido entre uma coisa e outra. É assim comigo, é assim com todas as pessoas. Gente é incrivelmente parecida e repetitiva.

Quase todos os dias, quando dou comida para meus gatos, busco nas prateleiras mais inalcançáveis da memória as recordações dos outros animais que já viveram comigo. Três cães, dúzias de felinos, um hamster, alguns passarinhos. Enquanto fizer isso, vivos eles permanecerão. As lembranças são fundamentais para o registro da história – deles e minha. Despejo a ração nas vasilhas e vou historiando. Brinco que os bichos de agora são os de outrora, renascidos. É um jeito – inofensivo – de matar as saudades.

Quase sempre, no almoço ou jantar, imagino a jornada do alimento dentro de mim. Cada um dos nutrientes conhece plenamente a sua missão, sabe para onde ir e o que fazer para me manter viva e razoavelmente saudável. Ninguém lhes ensinou isso. Eles sabem por que sabem, a vida deles é tão somente ser. De vez em quando, queria ser um feijão.

Nem todos os dias sou feliz. Na maioria, alegre. Todos os dias, porém, sou valente. Isso basta.

Matrioska

Foto: Zeta/Flickr.com, efeitos: Gimp

A bebê dorme em seu carrinho. Enche de amor o coração da mãe que a embala. Enche de amor-perfeito a avó que as contempla. Enche o mundo de graça. E enche d’água meus olhos. Como podem três quilos e cinquenta centímetros ocupar tanto espaço? Na minha tarde de sexta-feira há três mulheres. Saídas uma de dentro da outra. Estou diante de uma matrioska viva. Passaria horas montando-a e desmontando-a. Brincando de nascer e desnascer. Mas quem gosta dessa brincadeira é Deus. A gente só brinca junto; as coordenadas são sempre dele.

No breve tempo de nanar, a bebê se desliga deste orbe, enquanto se liga ao de onde veio, aquele que deixou há pouco tempo. O dos anjos e jardins sem fim, gosto de imaginar desse jeito. Desconecta-se daqui e se reconecta lá. Mata as saudades dos amigos, ainda não sabe que os reencontrará aqui – é surpresa. Joga bola, canta uma canção, afaga um pássaro. E daqui trinta minutos pega um avião de volta, faminta de mãe.

No futuro, as fotografias dos álbuns de família mostrarão o quanto terão sido parecidas essas três mulheres. Pois cada uma tem em si um pouco da outra. O detalhe no sorriso, o jeito de ficar brava, a paixão por alguma arte. E também coisas que as outras se esqueceram de trazer nesta vida, ou não o fizeram de propósito, só para ver se a outra lembrava. Mulheres.

Cada uma delas cumpre um ciclo. E nem sabem por que o cumprem. Só sabem que é assim. Lá se vão, as três mulheres. A primeira ainda não sabe andar. A segunda, sim. A terceira está desaprendendo. Cabe à do meio ajudar as que estão nas pontas do tempo presente. Ela sabe que, breve, o terceiro lugar será seu. E arrepia-se só de pensar: a que cochila no carrinho, um dia, tratará de continuar a história, aumentando a matrioska.

É boa a roda da vida, como não? Vida de meia volta, volta e meia que se dá. Estamos todos cirandando.

Crônica de minuto #8

Fiz como Deus pediu: cresci e multipliquei-me. Só que Ele se esqueceu de dizer o que fazer com os ‘produtos’ nas férias escolares. Os meus, por exemplo, estão na sala, entediados porque lá fora é só chuva. Procurei uma resposta – ao menos uma dica – nas Escrituras, e necas. Espertinho, Ele. Ou então, eu que sou ruim em matemática.