Redenção

Ele contou, de jeito tão bonito, as histórias das pipas de sua meninice. Dei-me conta de não ter essa passagem em meu currículo de criança, e fiquei até com pena de mim. Tratei, ligeiro, de cavoucar as lembranças em busca do que pudesse me redimir de tamanha falha biográfica. Algo que compensasse as horas não passadas empunhando a lata de óleo Mazola com o cerol enroladinho.

Se não soltei papagaio, soltei imaginação: dava aulas imaginárias para alunos imaginários do primeiro ano primário, pois eu, mais experiente, já estava no terceiro. A ludicidade era completa: tinha lista de chamada, lousa e giz de verdade, fichário com planejamento das aulas, provas, caneta vermelha para corrigir os exercícios da ‘turma’. Entrava tanto na personagem que dava bronca nos mais danadinhos. Acreditei na performance a ponto de jurar a mim mesma que, quando crescesse, seria professora. Rá!

Posso não ter empinado pipa, mas brinquei de boneca de papel. As que vinham prontas na revistinha, só recortar. E as de autoria própria, onde eu inventava os biotipos e indumentárias que bem entendesse. Fiquei craque e não esquecia mais de planejar as pequenas abas nas roupas, fundamentais para fixá-las no corpo da boneca. Quantos trajes não perdi, por esquecer esse detalhe! Como um Deus, bondoso e esteta, criava moças lindas de olhos azuis e providenciava-lhes todas as roupas maravilhosas que eu não tinha.

Se, por um lado, não confeccionei a rabiola mais bonita da rua, por outro exibi algum talento ao produzir fantasias para o gato mais bonito do pedaço. À noite, meu pai e eu íamos, no velho Corcel, buscar minha irmã no colégio. O Led, frajola bem nutrido, um dia surgia vestido de bailarina, no outro usando óculos recortados em cartolina colorida, no melhor estilo Elton John. Eu dedicava parte da minha tarde para bolar e executar os figurinos. Led fazia sucesso na turma da irmã. Houvesse Instagram naquela época, não ia ter para ninguém, meu bem.

Nunca fiz batalha de pandorga no céu, mas abusei da lei da gravidade na balança no quintal. Eu sei, o certo é balanço, no masculino, que balança é coisa para pesar coisas; em que pese meu vocabulário iniciático, brinquei mesmo foi ‘na balança’ instalada pelo vô Paschoal. No vai-e-vem, eu me espichava para trás, os longos cabelos quase tocavam o chão. E via tudo de ponta-cabeça, o céu virava chão. O friozinho na barriga era dobrado, uma leve vertigem me fazia gritar de medo e excitação.

Não experimentei a bravura de enfrentar gente maior que eu tentando roubar minha raia, mas encarei, valente, o farmacêutico cuidando do meu dedo aberto, fatiado por acidente na máquina de cortar frios, na venda dos meus pais. Eu gostava de brincar com ela, fazendo de conta que era um carro; a roda com a manivela, que fazia a afiadíssima lâmina girar, parecia-me um volante perfeito. Certa vez, enquanto ‘dirigia’, decidi pegar um pedacinho do presunto que estava ali, dando sopa, à espera da próxima freguesa. A cicatriz está aqui e não me deixa mentir.

Fiz muita comida de mentirinha nas minhas panelinhas. Os ingredientes: planta, terra, água, grãos de arroz e feijão subtraídos das latas de mantimentos da minha mãe. Entabulava altos papos com as bonecas, enquanto preparava-lhes o banquete. A fim de tornar o negócio mais verossímil, certa vez botei uma vela acesa dentro do pequeno fogãozinho de brinquedo. Se conto a história hoje é porque não foi tão grave.

Decorei a vila onde morávamos, providenciei bolo e refri, chamei os amigos e botei a pequena lousa (a das aulas) bem na entrada. Nela, o convite, em letras garrafais: “Venham todos para o batizado do gatinho Tommy”. A festinha bombou, mas o bichano não quis ficar.

Passeei de enceradeira. Apertei campainha e saí correndo. Passei trote pelo telefone. Fiz colar de macarrão. Tingi camiseta Hering com Vivacor, no caldeirão de feijão. Escrevi diários. Posso não ostentar no portfólio da infância a categoria soltação de pipa. Mas também trago no peito digno inventário de menina quase feliz, e queria contar isso a ele.

Para o Marcílio Godói

4 comentários em “Redenção

  1. Silmara querida que ótimas lembranças,viajei com você até minha infância…. Meu balanço era no pé de abacate amarrado com cordas e eramos 5 irmãos ja imaginou né? a corda as vezes quebrava e ai hoje estão as cicatrizes no corpo para reviver lindos momentos de nossa história.. Tempos simples mas felizes!!Gratidão

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