Enquanto roo o esmalte

Foto: Naíra Teixeira Dias
Foto: Naíra Teixeira Dias

Em véspera de manicure, gosto de adiantar o serviço. Arranco o esmalte com os dentes e destruo a mandala colorida das unhas, feita com tanto capricho na semana passada. Durante dias justifico a pia cheia entoando o mantra “Não posso lavar louça”. A passagem do tempo está em minhas mãos.

Enquanto roo o esmalte, penso na roupa que ainda não tirei da secadora, na viagem de final de ano, na minha fotografia na carteira de motorista. No paradeiro do anel de borboleta e por onde andarão a tia Elisa, o doutor Fuad, a mulher das cocadas. Se volto a estudar ano que vem, se faço mais uma tatuagem, se mereço ser feliz.

Roer é uma espécie de meditação.

Enquanto roo o esmalte, quieta num canto do sofá, finjo prestar atenção no Jornal Nacional. Nessa hora, repasso meu noticiário particular. É quando sou minha própria repórter: investigo e descubro, revelo e reivindico, pergunto e respondo. Às vezes, me engano.

Roer é ato primitivo. Uma extensão da fase oral.

Enquanto roo o esmalte, penso no que vou cozinhar para o almoço de amanhã e onde pretendo estar daqui dez anos. Que caminho farei para chegar ao consultório da ginecologista – a consulta é às quatro – e em qual esquina da vida entrei na contramão, anos atrás. A distância entre o raso e o profundo é de apenas cinco dedos.

Enquanto roo o esmalte, ficam carcomidas as lembranças inventadas de futuro. Vou até o banheiro e procuro acetona no armário. Sei que não existe removedor de passado.

Roer é validar o impermanente.

Enquanto roo o esmalte da vez, ensaio a próxima cor. Flerto com a paleta e namoro tons de vermelho, azul, cinza, marrom, verde, roxo. Eu mando no arco-íris.

Enquanto roo o esmalte, provo que tudo pode ser cancelado, renovado, destruído e reconstruído, indefinidamente. O resto que se lasque.

(Quem quiser entender uma mulher, que leia seus pensamentos nessa hora. Está quase tudo ali.)

Roer é preciso. Viver não é preciso.

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6 comentários sobre “Enquanto roo o esmalte

  1. Engraçado ler você e pensar que já tive as mesmas dúvidas, os mesmos (alguns) hábitos…Hoje não roo o esmalte porque aprendi, cansada de ouvir da minha dentista, que isso ia desgastar meus dentes e depois eu ia me arrepender..rsrs
    E, com o tempo, quanto mais vivermos, melhor (em paz, com saúde, vigor, fé). Roer é que não é preciso, linda.

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  2. Quando roo meu esmalte imaginário o mundo geralmente não me abriga. Procuro acetona, soda cáustica, qq coisa que liberte…
    Talvez, seja o tempo, lento e eterno, o único senhor capaz de apagar algo…
    Bonito Franco, bonito.
    Sigamos pela contramão. Parece tarde demais pra dar ré, não é mesmo?
    Bjs
    S

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  3. roo o esmalte verde malva, enquanto leio seu texto…e lembro que hoje, feriado, posso tirar um tempinho pra recolorir as unhas, ou melhor, acho que preto cairia bem…

    um beijinho Sil…

    Josi Josistanger@gmail.com josistanger.blogspot.com 3203-4363 | 8441-4044

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