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A promessa

cabelo

Prometi à Nina deixar meus cabelos crescerem.

Logo eu. Que, apesar de ser lembrada como cabeluda pela turma da escola, não uso nem um fio abaixo do queixo desde que ela nasceu, há onze anos. Eu, que sou devota de São Joãozinho. Eu, que tenho quimeras antigas com a máquina dois.

O limite negociado foi o ombro.

Tem gente que promete, em nome de nobre causa, não comer chocolate. Subir de joelhos intermináveis escadarias. Cortar – veja só – os cabelos. Eu não. Eu prometo deixá-los crescer um quarto de metro. Cada um com a sua provação.

De criança, minha avó penteava meus cabelos para eu ir à aula. Contrariada, subia no bidê para facilitar o trabalho dela. Que tinha mão pesada, puxava com força (e algum mau humor) minhas extensas e quase sempre embaraçadas madeixas. Não havia esses condicionadores bons de agora. Nem os ruins a gente tinha, era xampu e olhe lá. Eis que surge, para nossa salvação, o Neutrox. Creme amarelo, inovador e relativamente barato que dissolvia nós como que por encanto. Um dia, hipnotizada pelo seu aroma adocicado, não resisti. Comi.

No caso da minha promessa, a nobre causa não foi motivo de doença, nem de milagre solicitado, tampouco de graça alcançada. “Mãe, deixa o cabelo crescer um pouquinho só?” – foi o (reiterado) pedido da caçula. Lasquei-me. Como negar? Desde então, tenho recorrido às faixas, lenços, tiaras e adereços que me façam enfrentar a (longa) temporada com algum ânimo.

Exibi imensa cabeleira até os vinte e cinco. Cultivada quase por acaso, em um misto de esquecimento de cortar com ideal de beleza. Acreditava que era assim que tinham que ser os cabelos de uma mulher, feito verdade irrefutável (não é). Fui dessas de aterrorizar o cabeleireiro, caso o infeliz cruzasse a fronteira do “só as pontinhas”. Como se minha vida não fosse funcionar de outra forma. Os cabelos eram longos, mas as ideias eram curtas.

Todos os dias me olho no espelho ao acordar, na esperança de que alguma mágica tenha se dado durante a madrugada e meus fios tenham adquirido o DNA do bambu. Cogito negociar com a Nina, quebrar a promessa. Trocá-la por um brinquedo novo, quem sabe? Mas aí lembro de seus desenhos, quando era pequenininha. Neles, sempre fui representada com arquetípico cabelão. Desisto da negociação, respiro fundo e sigo em frente. Tanta coisa que ela me pede e eu, por incompetência ou falta de vontade, deixo de atendê-la. Ser mãe é carregar uma eterna e cabeluda culpa sobre os ombros.

Ano que vem faço cinquenta e um, a idade da minha mãe quando morreu. Dona Angelina perdeu todos os cabelos na quimioterapia. Pensei em uma homenagem póstuma, raspando os meus. “Vê? Também estou carequinha da silva”, direi-lhe em pensamento. Estarei três décadas atrasada, é verdade. Mas ela há de entender. Mães são atemporais. Além disso, comprida mesmo é minha saudade. Dá até para fazer trança.

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Xilindró

cadeia

1980, temporada dos jogos inter-colégios. O nosso jogaria com o São Paulo, no centro da cidade. Da Mooca até lá, só de ônibus. Fomos, então, prestigiar o time. Tudo seguia nos conformes, quando uns garotos começaram a bagunça no coletivo. De repente, o estrondo. Haviam quebrado o vidro da janela.

O motorista para. Desliga o motor. Puxa o freio. Sai de seu posto e ruma ao fundão. Quem foi? Silêncio. Então vamos para a delegacia resolver isso. E não é que ele foi mesmo?

No caminho, gelei. Eu, treze anos, na delegacia. Teria direito a um telefonema? Sem advogado, restariam meus pais. Pai e mãe são nossos advogados eternos. Mas a gente não tinha telefone. Ligaria na casa 4 e pediria para a Dona Antonia dar o recado. Vexame. Já me via no xilindró, cabelos raspados, vendo o sol nascer quadrado, batendo caneca nas grades, tomando banho de sol com a galera. Não estaria sozinha, no entanto: meia dúzia de colegas da 7ª A dividiriam a cela comigo. Compadecidos, os professores nos visitariam no Dia das Crianças. Ninguém passaria de ano.

Enquanto lamentava meu destino, a turma de – no conceito do condutor enfurecido – menores infratores chegou à Delegacia. Colocaram-nos em uma sala. A maioria de nós não tinha culpa de nada, nadica. Mas como não houve delação, estávamos todos no mesmo barco. E agora, Dotô? Como é que volto pra garagem assim? – quis saber o motorista.

O delegado de plantão, sem nada mais grave para resolver naquele dia, nos mediu de cima a baixo. Iniciou seu sermão. Onde já se viu isso, a gente não tinha educação, nem respeito pelo patrimônio, que não acontecesse novamente, senão já viu. Ouvíamos calados, uns tremiam feito vara verde. Tudo piorou quando a Rô, usando uma saia que trouxera da Bahia, toda de rendas e franjas no melhor estilo boho-afoxé, numa atitude sem noção, resolveu apoiar o pé num cercadinho ao lado da mesa da autoridade. Tomou pito adicional, pobrezinha. Ninguém riu. O medo vencera. Vinte anos depois, perdemos a Rô. Meu coração ficou em cacos, feito a janela do ônibus.

Embora não tenha testemunhado o fato, tenho cá, até hoje, meu palpite sobre o autor do vandalismo. Fiquei de bico calado, no entanto. Vi-me no leito de morte, daqui a algumas décadas, chamando de canto o representante de Deus antes da extrema unção: Acho que foi Fulano, padre.

Sermão dado, lição aprendida, jogo perdido. Hora de voltar para casa. De ônibus. No trajeto, discutimos, apreensivos, se o episódio caracterizaria passagem policial, prejudicando nossas vidas dali para frente. Por via das dúvidas, ficou todo mundo comportado. Fichada, mesmo, é esta minha saudade de tudo e de todos.

À noite, quando meus pais chegaram, contei. Perguntaram se alguém havia se machucado. Não, pai. Quiseram saber se havia sido eu. Não, mãe. Sondaram o que haviam feito com a gente na delegacia. Só bronca, pai. Questionaram as minhas companhias. São gente boa, mãe. Disseram para eu escolher bem com quem andava. Sigo o conselho até hoje.

Contei da Rô, minha mãe não escondeu o riso. E fomos dormir. Certeza que o delegado, depois de despachar os baderneiros-mirins, riu também.

A aula

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Gostava de ouvi-lo ensinar como funcionava o telefone. Eu sentadinha à mesa da cozinha, maravilhada com meu pai explicando coisas sobre voz, eletricidade e cabos. Suas mãos iam simulando, sobre a toalha estendida (a xadrezinha?), o caminho que a chamada percorria para ir de uma ponta à outra. Eu ficava maravilhada com a tecnologia e com meu pai, que sabia tanta coisa (ainda que não soubesse tanto assim). Cheguei a pedir-lhe várias vezes para repetir a “aula”.

Ontem liguei para ele. Seu Tonico não é, mas estava especialmente surdo. Pediu notícias das crianças, dei, não sei se ele ouviu; só soltou um Aaah. Contou-me que havia varrido todas as folhas secas pela manhã. Perguntei-lhe se havia almoçado direitinho. Ele continuou falando da varrição. Lembrei-me da velhinha surda d’A Praça é Nossa, aquele programa de TV. E ri. O script agora é outro.

Enquanto ele discorria sobre a trabalheira que as folhas lhe deram, lembrei-me da aula do passado. Meu pai ensinou-me sobre algo que, hoje, tem dificuldade para usar. Na nossa breve conversa, o meio era a mensagem.

E agora, quando o visito, sou eu que ensino a ele como funciona uma ligação pela internet. Apanho o celular na bolsa e ligamos para minha irmã, sua filha do meio, que mora em outro país. Ele tem telefone, mas não acerta ligar para ela, muitos números. E não adianta colocar o numerão na memória do aparelho. A memória que não funciona bem é a dele. Vou demonstrando a mágica da chamada. Mas não tem mais a mesa da cozinha, nem a cozinha. Nem as toalhas. Mas tem ele, feito criança, maravilhado com a tecnologia e comigo, que sei tanta coisa (ainda que não saiba tanto assim). E, assim que minha irmã atende, ele passa a falar muito alto no aparelho, como se fazia antigamente. Eu que não vou ensiná-lo que não precisa mais.

Mande lembranças

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arte: Rodvaz

Quando Fulano pediu a Beltrano que mandasse lembranças a Cicrano, Beltrano não sabia a quais, exatamente, Fulano se referia. Ninguém sabe essas coisas.

Seria a do último Natal que passaram em família, antes de o patriarca endoidar e resolver botar as pedras no bolso do casaco, e cujo resto da história só se soube no dia seguinte, quando Joca, o cachorro, latiu feito besta na beira do rio?

Ou, quem sabe, a lembrança dos tempos em que eram, os dois, irmãos inseparáveis, feito unha e carne, feijão e arroz? Um na pele do Homem Aranha e outro na do Batman, roubando os doces da mesa antes dos parabéns na festinha da prima.

Ou, então, aquela de quando, morando no velho casarão, brigaram feiamente por causa da gata de um que papou, feliz da vida, os canários do outro?

“Mande lembranças a Cicrano, quando o encontrar”. Pode ser que Fulano quisesse apenas lembrá-lo de que ele jamais o perdoara pelas botas – legítimas Stetson de bico quadrado e salto carrapeta que ele comprara com o salário de dois meses como empacotador no mercadinho – surrupiadas para ir ao baile do caubói da cidade, e nunca devolvidas, e que na ocasião Cicrano acabou beijando Mariana, o grande amor de Fulano. Por beijá-la ele até poderia perdoá-lo; pelas botas, jamais.

Beltrano ainda fala com os dois. É a ponte familiar, carcomida pelo tempo e que ninguém se atreve a atravessá-la. Beltrano, o portador de boas e más novas. O verbo de ligação. O irmão do meio, literalmente. Nunca mais se reuniram, os três. E não foi por causa de gatos, nem botas, nem gatos de botas.

Muitos mandam lembranças a alguém apenas para lembrar que ainda existem. Espécie de lembrete, “Ei, estou aqui”. Outros vivem mandando lembranças a esmo. Como frase vazia, a completar uma despedida banal. Por falta do que dizer. Para preencher de algum som o ar, vazio de assunto. Que pecado. Lembranças não deveriam ser enviadas em vão, eis um bom mandamento. O décimo-primeiro, quem sabe.

Plano de expansão

telefone

Os vizinhos da casa 4 tinham telefone. Eu achava que eram ricos, os únicos da vila a terem um. Dona Antonia não se incomodava que passássemos aos nossos familiares o seu número – que, num desses mistérios insondáveis da mente, sei até hoje: 92-6405. Para o caso de um parente precisar comunicar, por exemplo, que alguém havia batido as botas.

Dona Antonia (imagino) cozinhando feijão para o almoço. O telefone toca, ela atende, Espere aí que vou chamar. Ela desliga o fogo, tira o avental, desce as escadas, toca a campainha do vizinho e avisa, Telefone para Fulano. Fulano, que assistia TV, a desliga; desce suas escadas, sobe as da Dona Antonia, entra na sala, Alô?. Um processo que podia levar cinco, dez minutos. Era bom que fosse coisa importante.

Apesar de eu ter reforçado às amigas que aquele era um telefone apenas para re-ca-dos, um dia a Adriana ligou. Pediu para falar comigo. Lá fui eu. Ela só queria bater papo. Eu fiquei desenxabida, em pé ao lado da mesinha, respondendo por monossílabos, bem baixinho. Tratei de abreviar o conversê e fui para casa, morta de vergonha. Dona Antonia, no entanto, nunca reclamava.

Telefone de recados, coisa mais antiga. Era comum alguém informar seu contato assim. Até em curriculum vitae. Significava que a pessoa não possuía telefone, mas contava com alguém para lhe prestar esse favorzinho.

Nossa casa só conheceu telefone na década de 80. Passei a infância e parte da adolescência me comunicando por sinal de fumaça. Eu tinha dezesseis anos e me recordo do técnico terminar a instalação e anotar a sequência mágica num papelzinho, para que não esquecêssemos: 948-3443. De fato, não esqueci. Quem disse que não sou boa com os números?

Foi meu irmão que o comprou, pelo plano de expansão da Telesp. Um carnê com intermináveis prestações. O interessado adquiria a linha e esperava, sentado, até dois anos (vinte e quatro meses; setecentos e trinta dias; dezessete mil, quinhentas e vinte horas) para que o telefone fosse instalado. Eu sonhava com o dia em que conversaria com meus amigos do sofá da sala. Fui várias vezes à Telesp, no Belém, fazer o pagamento. Tinha fila. Um ônibus para ir, outro para voltar. Quem, hoje, se sujeitaria a isso? Não se compra mais telefone desse jeito. É ir à loja (toda esquina tem uma) e sair falando. Aliás, falar ao telefone é coisa secundária, periférica, expressão arcaica. Ninguém pode dizer que o mundo não evoluiu. Quando ouço alguém falar que antigamente a vida era melhor, eu lembro do plano de expansão da Telesp. Telefone é coisa que marca a vida da gente. Até o ET precisou de um pra voltar pra casa.

Desde meu primeiro celular já tive vários números, mas o ringtone é sempre o mesmo: o bom e velho triiiimmm. Por razões de nostalgia assumida. Em casa já há mais aparelhos que seres vivos – contando os gatos. Cada um tem o seu (exceto os gatos), e os que vão sendo substituídos acabam nas gavetas, as crianças pegam para brincar. E ainda tem o fixo.

Quem diria. Dona Antonia, que morreu antes de o smartphone nascer, poderia finalmente cozinhar seu feijão sossegada. Nunca mais tive notícias deles. Também perdi a Adriana de vista, gostaria que ela soubesse que já posso conversar à vontade. Ganhei de aniversário, embora não precisasse, um aparelho novo – as gavetas estão cheias. Nunca mais decorei, em minha memória analógica, os números de ninguém. Nem dos filhos. Quem é que liga pra isso?

No mais, recordações à parte, tenho me dedicado aos meus próprios planos de expansão. Tenho um carnê com intermináveis ideias para quitar, o vencimento é todo santo dia. Atraso algumas, adianto outras. Mas vou dando meu recado.

Fantasia de gato

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ilustração: Jeff Haynie

Eu tinha doze anos. Costumava ir com meu pai buscar minha irmã na casa da amiga dela, à noite, depois do colégio.

É verdade que não íamos só meu pai e eu. Led, um frajolão digno de desenho animado, ia junto. Até que ele gostava de passear de carro. Se não gostava, disfarçava bem. Gato é bom na arte do disfarce.

Então íamos eu, meu pai e o gato fantasiado. É, fantasiado. Com tempo livre de sobra, eu inventava adereços para o bichano, especialmente para recepcionar minha irmã. Um dia, ele surgia com enormes óculos recortados em papelão. No outro, em um colete colorido feito com tecido, fitas e o que mais estivesse dando sopa na caixinha de costura da minha mãe. Se as pessoas se fantasiam de gato, eu tinha um gato fantasiado de gente.

Às vezes, confesso que notava alguma resistência dele em topar a brincadeira. Noutras, parecia até gostar. Talvez apenas se resignasse. Gato também é bom nisso. Mas só quando não tem outro jeito. Sabedoria felina.

Minha irmã jura que houve um dia em que ele foi de bailarino. Não me lembro. Só sei que para o Led era carnaval o ano inteiro – ao menos durante o período letivo. Logo ele, que ganhara esse nome em homenagem a uma das maiores bandas de rock de todos os tempos, o Led Zeppelin. (Originalmente, por impulso, escrevi a ‘maior banda’. Mas assim que digitei ‘tempos’, já havia achado uma injustiça com as outras. Corrigido está.)

À tarde, quando voltava das minhas aulas, eu me dedicava a criar as fantasias. Era raro repeti-las. Os amigos da minha irmã, que também ficavam por ali, na casa da amiga, aguardavam ansiosos a chegada do carnavalesco peludo. “Como será que seu gato vem hoje?”.

Minha irmã terminou o colégio, a carona noturna acabou. Acabou também a brincadeira. E o pequeno folião nunca mais vestiu fantasia. Alguns anos depois, ele se foi. Uma pena não termos registrado nem uma das produções. Tirar fotografia, naquela época, era só de vez em quando, nos casamentos, aniversários, viagens. Comprar o filme, bater as fotos, mandar o filme revelar na Fotobom (ficava a dois quarteirões de casa e o dono era um japonês simpático), buscar na outra semana. Como sobrevivemos à espera, quase uma eternidade, para ver como havia ficado uma foto?

O Led fantasiado seria, fácil, fácil, um gato-celebridade do Instagram. Antigamente, rede social era só a família, a parentada, os amigos da rua e da escola. E ele tinha mais de dez seguidores! Nós de casa (menos minha avó, que não gostava de gato) e os amigos da minha irmã. Hoje? Um milhão, estimo. A admiração ficou hiperbólica. Seu avesso também.

Temos, agora, um imenso inventário imagético virtual de tudo. Teremos, no futuro, mais e melhores lembranças do que hoje? Será a nostalgia mais rica quando, daqui vinte anos, nos depararmos com imagens do aqui e agora, das besteirinhas do dia-a-dia que a gente vai clicando a esmo?

Como será a saudade no futuro, com um presente hiper-registrado?

Tenho saudade dos gatos que viveram comigo desde que cheguei a este mundo. Foram tantos, tantos.

Vou construindo mentalmente meu vasto inventário gatístico, e boto na vitrola a melhor trilha para um carnaval: Black Dog, do Zeppelin. Só para provocar o cat que dorme na cadeira ao meu lado. Que não é o Led, mas bem pode ser, por conta das idas e vindas das almas ronronantes neste planeta. Não dizem que os gatos sempre sabem voltar para casa?

Crônica junina

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Precisei comprar vestido de caipira para a Nina, ela vai dançar quadrilha na festa junina da escola. Lembrei-me de uma loja perto de casa que costuma ter, assim eu escaparia dos shoppings. Poder estacionar em frente, e não na lonjura de um G5, é uma bênção em dias de pressa modo on.

Abro o vidro e, sem descer do carro, pergunto à senhora em pé, na porta: “Tem vestido de caipira?”. Se não tiverem, basta engatar a ré. “Temos, sim!”. Viva São João.

A senhora aponta a seção dos vestidinhos, e em seguida pede a um rapaz que assuma o atendimento. “Pode deixar, vó”. Ela avisa que vai almoçar e desaparece através da porta ao lado de uma arara com calças em promoção.

O rapaz conta que ela gosta de ficar ali, zanzando, ajudando. Na verdade, ela e seu avô começaram o negócio, tanto tempo atrás. Hoje ele toca a loja e eles moram ali, numa casa anexa.

Reúno meia dúzia de vestidos para a Nina experimentar. Enquanto ela desfila, vou duvidando que alguma garota que viva no interior se vista daquele jeito. Toda festa junina, tirando as comidinhas, é uma falácia.

O vermelho ficou bom?, tem um número maior?, crédito ou débito?, CPF na nota? Vendas são feitas de perguntas e respostas que se encaixam.

Reparo: o rapaz tem um sobrenome tatuado no braço. As pessoas costumam tatuar o primeiro nome do filho, da mãe, do pai. Sobrenome, primeira vez que vejo.

Obrigada, eu que agradeço, boa tarde, para vocês também. Na pressa, Nina esquece no provador o casaco que vestia. Só notamos depois, longe dali.

Apanho a bolsa, cadê a nota fiscal?, ufa!, tem o número da loja, pego o celular, ligo, peço para guardar. Reparo: a razão social da loja é o sobrenome no braço do rapaz.

Final do dia, retorno à loja. O casaco esquecido está dobrado à perfeição, dentro de um saco plástico. Em qualquer outro lugar ele estaria amarfanhado sob o balcão, aguardando o resgate. Gentileza extra para a freguesa que tanta pressa tinha. O rapaz está certo em se orgulhar da sua dinastia – que batiza seu ganha-pão – impressa na pele.

Antes de sair, passo ao lado das calças em liquidação e tento ver a porta por onde a avó se transfere para o seu mundo paralelo. Não vejo. E se for uma passagem imaginária, como a que conduz à Nárnia? Faz sentido; em vez de apenas um armário com roupas, uma loja cheinha delas.

Eu bem que gostaria de ir para Nárnia. Mas só se lá tiver canjica.