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Eu não passo desta noite

Já que, vira e mexe, alguém na família desenterra essa história e, considerando que meus filhos sempre perguntam um ou outro detalhe dela, melhor registrá-la devidamente e de uma vez.

Meu primeiro pileque, aos doze, quase treze, foi assim.

Réveillon de 1979 para 1980. Família reunida, fartura na mesa: tender enfeitado com abacaxi, castanhas, uva Itália. Iguarias que só apareciam nessa época do ano. A casa 1 da vila era só alegria. Nas taças, a velha Sidra Cereser que a gente chamava de champanhe.

Durante os comes, não me contentei com a irrisória franquia do pseudoespumante a que eu, caçula, tive direito. Enchi a taça. Brinquei com meus irmãos, zanzei pelo quintal, catei algum gato, botei um LP na vitrola. Mais uma tacinha, que mal tem? Que gosto será que tem whisky? Meio forte. Tudo bem, é quase ano novo. Mais uma Sidra, mais um Drury’s. Drury’s! Diante da minha epifania alcóolica, Seu Tonico e Dona Angelina só observavam. Havia sabedoria na atitude deles.

Cinco, quatro, três, dois, um, adeus ano velho! Só mais um tiquinho de Sidra. Que tudo se realize no ano que vai nascer, muito dinheiro no bolso, saúde pra dar e vender. Lá pelas tantas, a família se recolheu para merecido descanso. Eu dividia o beliche com minha irmã. Não me lembro como cheguei à cama de cima. Em meu desvario etílico, Morfeu me aguardava, com o Eno na mão.

Meu estômago adolescente, acostumado a Ki-Suco e Guaraná, estranhou as novidades. No meio da madrugada, a fatura chegou. Foi como a erupção de um furioso (e fétido) vulcão, vindo montanha, ou melhor, beliche abaixo.

Os Franco acordaram, assustados.

Acode a mini-ébria, traz pano de chão, pega desinfetante, limpa o rebosteio, troca o pijama. Enjoada, eu me revirava, agora, na cama de baixo. Cedida pela minha irmã que, por pouco, não fora atingida pelos meus, digamos, dejetos estomacais. Foi ali que cunhei o bordão que, segundo familiares, eu repetia de minuto em minuto, em profética gemedeira: “Eu não passo desta noite”.

Não só passei como, no dia seguinte, debutando na ressaca, fui obrigada a encarar o sintético sermão da minha mãe: “Agora você aprende”.

A pedagogia deu certo. Desde então, nunca mais coloquei uma gota de whisky na boca. Não que eu seja abstêmia. Mas é comum vinho sobrar em minha taça. Nos formulários médicos, nunca sei o que responder. Deveria existir uma zona intermediária entre “nunca bebo” e “bebo socialmente”. A verdade é que não vejo muita graça.

Já vi, porém. É mister anotar que o porre inaugural na infância não foi o único. Na juventude, contabilizei uns dois (três?). Em um deles, conta a lenda que, ao deixar um boteco com minha irmã e amigas, saí pelas ruas da Vila Madalena, virada no vinho, e sentei-me sobre um latão de lixo na calçada. Pedi para me deixarem ali, pois aquele era o meu lugar.

Sempre dramática.

Água e sabão

bolha sabão
arte: Guenevere Schwien

A brincadeira consistia em 1) jogar bastante água no quintal, 2) espalhar um pouco de sabão em pó e 3) ficar escorregando pra lá e pra cá a manhã toda.

Diversão da qual eu, caçula, não era autorizada a participar. Minha irmã e meu irmão mais velhos, privilegiados pelo tempo, deslizavam pelo chão vermelho de caquinhos, felizes da vida. Eu só assistia. E desejava, com toda determinação que garotinhas de quatro anos são capazes, crescer logo para entrar naquela farra também.

O quintal, pequeno, tinha bom formato para a pista ensaboada. Na lateral estreita, quinze metros, no máximo, os tombos não importavam. Eram, aliás, a melhor parte. Com direito a adrenalina extra: ao final do corredor, havia uma bela escadaria que dava para o portão de entrada. Se mal calculada, a brincadeira poderia acabar em choro. Ou coisa pior. E quem se importava?

Um dia, enquanto meus irmãos capotavam, às gargalhadas, meu pai me chamou na porta da cozinha, que dava para o quintal. Abaixou-se um pouco e me olhou, sério. Pediu que eu tirasse a blusa. Era de botões, eu me lembro. Fiquei só de calcinha, já vislumbrando o anúncio. Ele desfranziu o cenho e, sorrindo, proclamou o tão sonhado alvará: “Vai!”.

Finalmente, eu estava liberada para a epifania aquática. Já não era mais criancinha, então. Joguei-me naquele pequeno parque de diversões caseiro. Imitei o quanto pude meus irmãos, veteranos do sabão. Acatei suas dicas, Ó, faz assim, Olha a escada!, e nunca me diverti tanto.

Era a água e o sabão, lavando a alma dos três filhos de Antonio e Angelina.

Nina, a neta caçula deles, lembrou esta semana de quando sua escola montou para a turminha do maternal uma lona ensaboada. Pediram até para levar biquíni. No fim da tarde, quando a busquei, vi em seus olhinhos castanhos e nos cabelos molhados: foi dos dias mais alegres que ela passara ali.

Será que transmiti a ela, em algum gene, a experiência do pequeno quintal? Hereditariedade é mesmo um barato.

Esta não é uma crônica de Páscoa

P1020370 - Copia VÔ PASCHOAL NOV1958
Vô Paschoal – arquivo pessoal

Era grandinha, já, quando liguei os pontos: o nome do meu avô vinha do nome do feriado do coelhinho.

Cresci chamando e falando do Vô Paschoal, sem nunca juntar lé com cré. O que não fez, depois, a menor diferença. Uma coisa era o dia de ganhar ovos de chocolate; outra, completamente distinta, era meu avô. O filho de imigrantes italianos, de sorriso largo e gargalhada fácil. Torcedor inabalável do Palmeiras. Que mal sabia escrever, mas dominava os números. Que todo santo dia, depois da laranja finalizadora do almoço, tirava a sesta, sentado na poltrona, braços cruzados sobre o peito. Que inventava traquitanas, elétricas e mecânicas, para tudo em casa. Que perdeu parte do dedo em um acidente de trabalho nos Moinhos Minetti Gamba, na Mooca, e eu tinha certa aflição daquele toco sem unha. Que gostava de gato e cachorro, mas fazia de conta que não, porque minha avó detestava. Que ia em duas feiras diferentes, só para aproveitar os preços das frutas. Que pegava o carrinho de mão e saía para comprar tijolo e cimento e areia na Casa São Pedro, na rua Teresina. Que tinha um exército de santos num altar sobre o guarda-roupa, iluminado com um sistema que ele próprio instalara, e que eu morria de medo. Que nunca ficava doente. Que subia no telhado para verificar as calhas, mesmo depois do 90º aniversário, e nunca aconteceu nada, porque os anjos todos eram seus chapas. Que morreu numa véspera de Carnaval. E não de Páscoa.

Sendo assim, esta não é, nem de longe, uma história de Páscoa. Não deixa de ser, no entanto, pascoalina. A língua tem seus caprichos.

Meu avô tinha um armário cheio de ferramentas e uma pequena bancada de trabalho no nosso quintal. Eu era encantada com a morsa. Um dia, lhe pedi madeira, serrote, prego e martelo. Queria fazer uma cama para minha boneca Vivinha. Ele parou seus afazeres – ele sempre tinha afazeres, não parava quieto – e providenciou. Ensinou-me a usar os aparatos todos. Não sem algumas bufadas impacientes quando eu fazia algo errado, como entortar prego ou serrar fora da marcação.

Eu não tinha ideia da beleza daquilo: avô e neta martelando, serrando, construindo juntos. A gente nunca sabe direito a real importância das coisas. Só quando elas vão parar, feito quadro raro, na galeria da memória.

Depois da caminha, peguei gosto e o resto da mobília da boneca veio: armário, sofá, mesa, cadeira. Não podia ver um toco de madeira dando sopa. Tão fácil, a marcenaria! Não ficava perfeito, nem muito bonito, é verdade. Mas a Vivinha até que levava uma vida confortável.

Eu devia ser a única garota da escola que tinha, à disposição, um arsenal ferramenteiro daquele em casa. E um avô talentoso, apelidado pelas primas de Professor Pardal. Em paralelo às bonecas e coleção de papéis de carta decorados, eu também me divertia com porcas, parafusos, brocas, limas, colher de pedreiro, enxada, cal, cimento, brita, gesso. Sabia a diferença entre chave de fenda e de boca. Lugar de menina também é, por que não?, na oficina.

Meu avô me chamava de “joia rica”. Achava engraçado. Não era nem joia, tampouco rica. Carinhoso a seu modo, ele afagava meus cabelos e ria das minhas molecagens. Embora não fizesse questão de esconder: o preferido era meu irmão mais velho. Primeiro e único neto homem. Ganhou uniforme completo do Palmeiras quando pequenininho. Minha irmã e eu, não. Porque menina não jogava futebol. Mas podia brincar com serrote e plaina e parafuso à vontade. Pirraça inconsciente ou não, fui corintiana por alguns anos.

Seu Paschoal era dono de coração enorme, simpatia maior ainda. Religioso, era grato à vida simples que tinha. Onde quer que tenha renascido, está contando piada, ajudando alguém ou inventando alguma engenhoca.

Desconfio que o feriado é que leva o nome do meu avô, e não o contrário.

A salada de pepino do meu pai

pepino

Ninguém faz salada de pepino como meu pai. Ninguém. Não que Seu Tonico arrase nas artes culinárias. Ele é MasterChef de um sucesso só. Ao menos, para a caçula aqui.

Desde meus tempos de criança, ingredientes e modo de fazer são (ou eram) os mesmos, seguidos à risca. Eis a receita para criar um clássico.

Para começar, ele nunca usou tábua de cortar. O pepino caipira, nu, se encaixava em sua mão esquerda. A direita, munida de faquinha comum, tratava de fatiá-lo em finíssimas e consecutivas rodelas, que iam despencando harmoniosamente na bacia. Sempre sem casca. (Não me venham, nutricionistas de plantão, bradar a importância dos nutrientes da casca nos processos digestórios, nem adeptos do consumo consciente dizer que não pode desperdiçar comida. Pepino do Tonico é sem casca e zéfini.)

Por cima da multidão verde-clara, apenas a tríade mágica: sal, vinagre e azeite. Nada de pomposidades como azeite de primeira prensagem de azeitonas gregas, vinagre de uvas Trebbiano, flor de sal extraído da Normandia, ervas esquisitas ou outra coisa. O segredo ancestral era simples, bicho: o velho sal Cisne, vinagre Palhinha e azeite Maria, a mãe das saladas da minha infância. Que nem azeite era.

Algumas rodelas escapavam do padrão super fino e saíam levemente mais grossinhas. Quando eu encontrava uma, fazia de conta que era prêmio. Quem disse que comer legume é chato?

Também nunca entendi por que pepino é sinônimo de problema. Se dizem, “Rapaz, que pepino!”, certamente é de coisa boa que estão falando.

A salada de pepino do Seu Tonico é (ou era), em si, o cardápio inteiro: entrada, prato principal e sobremesa. Um espetáculo sensorial, arregimentando visão, olfato, paladar e felicidade. Felicidade também é um sentido, meu bem.

Jamais consegui reproduzi-la. Ora erro na espessura das rodelas, ora exagero no sal. Talvez isso não passe de autossabotagem, só para perpetuar a iguaria paterna no rol da fama. Importante que continue, portanto, incopiável.

Quis terminar dizendo que, assim que passar essa quarentena maluca (um “pepinaço” mundial, para os que preferem a conotação negativa do Cucumis sativus) e as coisas voltarem à alguma normalidade, vou trazer Seu Tonico aqui em casa. Para que reproduza, em almoço comemorativo, a tradicional salada, que não provo há tanto tempo. Mas, na verdade, eu não quero.

Receio que, se ele a fizer, o resultado não seja o mesmo que alimentou, tão saborosamente, minha criancice. E se ele mudou o jeito de fatiar? Se inventar de salgar menos? A preocupação com o sal é diretamente proporcional à idade. Se, lá no meio, eu não encontrar nenhuma mais grossinha? E, mais temível que tudo: se a primeira frase desta história não fizer mais sentido?

Melhor não arriscar, e manter a sagrada salada bem guardadinha na geladeira de conservar lembranças. Aquela, que não deixa nada estragar.

Quando a quarentena acabar, vou convidá-lo para almoçar aqui. Direi: “Pai, hoje eu faço a salada”.

Por garantia.

Wanda

casa antiga desenho

Chique era a Wanda. Longos cabelos estilo pantera, óculos escuros tipo Jackie Onassis. Bem vestida, a qualquer hora. Morava ao lado da nossa vila, na casa dos meus sonhos.

Acompanhe comigo, com olhos de Google Maps: rua, calçada, casa da frente da vila, área comum da vila, nossa casa na vila. Essa era a extensão da casa da Wanda, cujo limite coincidia com o da nossa. Cinquenta metros no total. Uns oito de largura. Casarão, para os modestos padrões da Mooca da minha infância. Nos fundos do terreno, exatamente ao lado da nossa casa, um pomar.

Completando a quimera, a Wanda. Moça bonitona e, na minha avaliação, rica. Moderna, tinha carro e dirigia. Nada lembro do marido. Nenhum registro sequer em minha memória. Se alto, baixo, feio, bonito. Nada. Não tinham filhos, mas cachorro: Gueibin. Não sei como se escreve. Gaybin? Gabin? Um cachorrão deste tamanho, alegre e saltitante. Eu os via e ouvia chamando o peludo para lá e para cá, Cuidado com o portão!, Para, Gueibin!, Não deixa ele sair! Da mesma forma, nunca soube: Wanda com W ou com V? Nunca conversamos.

Gueibin era da raça setter irlandês. Jamais brinquei com ele. Quando eu passava na rua, em frente ao seu portão, nunca o via. Não era cão autorizado a latir para carros e gentes. Pena.

Antes de eles se mudarem para essa casa, havia outra vizinha. Uma senhora, cujo nome não me recordo. Só sei que dava jabuticabas para nós, por cima do muro. Depois que ela se mudou, o muro cresceu, a Wanda veio. Adeus, jabuticabas.

Nossa casa da rua Natal era pequena, ampliada na base do puxadinho. Eu passava bastante tempo pensando nas casas do bairro onde eu gostaria de morar. A da Wanda era a campeã. Em segundo lugar, um sobrado bacana na rua Jaboticabal, com pomposa rampa ligando o portão à porta de entrada. A janela da sala era um espetáculo: de parede a parede, do teto até quase o chão. A da nossa sala era tão mirrada. Para piorar, dava para o tanque de lavar roupas, no quintal. Por isso, quase nunca ficava aberta. A porta, então, fazia as vezes de janela também. Somada a outras limitações, não é de admirar que eu tenha dedicado tanto tempo sonhando com as casas do pedaço.

A única janela que me conectava ao mundo externo – fator de grande frustração – era a do quarto da minha mãe, que dava para a vila. Meu observatório geral de fundos de casas e telhados e horizontes, em um bairro predominantemente térreo, ainda imune à especulação imobiliária. Apenas ouvia os ônibus, as motos, o vendedor de biju, o sorveteiro. Dali, via a Wanda saindo. A Wanda chegando. A Wanda ralhando com o pobre Gueibin, que devia aprontar as suas.

Se viva for, Wanda deve beirar os setenta anos. Mais, até. Será que ainda usa óculos escuros? Será que tiveram filhos, netos, bisnetos? O Gueibin, se foi papai naquela época, talvez esteja na centésima geração. Que centésima o quê; tricentésima. Quem sabe já não topei, por esse mundo e sem saber, com um descendente seu, rolando n’alguma grama, batizando poste?

Depois que Wanda, marido e Gueibin se mudaram de lá, um japonês comprou a casa. O homem não era sofisticado, não usava óculos escuros. Nem cachorro, tinha. Ainda por cima, trocou o delicado portão de madeira da frente por outro, feioso.

Namorei um rapaz que tinha um setter irlandês. Como gosto de inventar reencarnações para os bichos, não demorou para que eu estabelecesse a conexão. Nunca confessei ao namorado, mas houve vezes em que cochichei ao ouvido do cão, como se segredo nosso fosse: “Eu sei que você é o Gueibin”.

Passou “Um peixe chamado Wanda” no Telecine. Aquele, dos anos 1980. Eu poderia fazer um filme também, “Uma vizinha chamada Wanda”. Nele, uma garotinha sardenta narraria, em primeira pessoa, suas filosofações sobre janelas, memórias e jabuticabas. Seu melhor amigo seria um cachorro. Igualzinho ao Gueibin.

Quem me ensinou a nadar

De elemento água, não sou. Como autêntica taurina, meu negócio é terra firme. Nem wet, nem wild.

Reza a lenda que, em certo passeio a Santos, fui derrubada por monstruosa onda. Certamente, nada além de uma marola júnior. Para uma garotinha de dois anos, no entanto, devastador tsunami.

Costumo contar o episódio para justificar a paúra das águas. Eu, de costas para o mar, olhando minha mãe na areia. Vem a danada da onda e me dá um capote. O resto é história.

Não entro em barco, já empaquei atravessando pinguela, nunca enfio a cara no chuveirão. Houve uma vez, no entanto, em que o trauma pareceu arrefecer.

Tapiratiba, final dos anos 70. Visitando parentes do meu pai, a turma resolveu ir à cachoeira. A sardentinha aqui vestiu-se de coragem e foi no embalo. Afinal, não era possível que as águas fossem assim tão terríveis. Nem que nadar fosse coisa tremendamente difícil. Disposta a viver, ali, minha história pessoal de superação, entrei em suas águas calmas, onde as quedas se transformavam em piscinão. De roupa e tudo. A Isabel, esposa do Tião, quis certificar-se que eu sabia nadar. “Aham!” – respondi, determinada.

Quem me ensinou a nadar

Quem me ensinou a nadar

Foi, foi, Marinheiro

Foi os peixinhos do mar

Primeiro (único) tchibum e Oxum surgiu, rindo da minha esdrúxula performance aquática. Eu era uma espécie de peixe fora d’água – só que ao contrário. Afundei, me debati, engoli água. Avistei a Dona Morte se aproximando, metida em um maiô grafite estampado com foicezinhos em verde neon, querendo me levar para um rolê. Foi quando a Isabel percebeu que aquilo não estava indo muito bem.

“Tira a menina da água!”, “Puxa o braço!”, “Tião, ajuda aqui!”.

Salvamento realizado com sucesso. Minh’alma encharcada. O rolezinho ficou para depois. Quando, enfim, recuperei o fôlego, a Isabel estava inconformada: “Mas você não disse que sabia nadar?”.

Muita autoconfiança aos dez anos de idade dá nisso. Insisti que sim, eu sabia nadar. E completei, para incredulidade dos presentes: “Eu treino na cama”.

Foi assim que protagonizei, talvez, a melhor piada da família. Lembrada até hoje nos encontros e festinhas.

Minha sorte é que, naquela época, não existia internet.

Horóscopo

Minha avó gostava de ouvir o Omar Cardoso no rádio. Todo santo dia. Embora não fosse assim tão crente em previsões astrológicas, dona Josephina não perdia um programa. Ligava o aparelho na cozinha, bem alto, e ia cuidar da louça, da roupa, da casa.

Eu, por tabela, ouvia também. A voz empostada do radialista servia de trilha sonora para minhas manhãs, enquanto me divertia no quintal. A escola era só à tarde. Vez por outra, prestava atenção ao que ele dizia. Áries, seja mais assim. Câncer, seja menos assado. Peixes, dia propício para isso. Gêmeos, melhor evitar aquilo. Em minha meninice, achava que fazer horóscopo era um bocado divertido. Bastava inventar as coisas.

No quintal da minha infância, tão imenso, dava para brincar de balanço, esconde-esconde, de professora (dei muita aula para alunos imaginários; será que se formaram?), de casinha, andar de bicicleta, ter cachorro e gato e tartaruga, construir móveis para a boneca Susi com as ferramentas do meu avô. Cabia mesa e cadeiras, de vez em quando almoçávamos ali.

Não pode ser o mesmo quintal de quando me mudei de lá, quase duas décadas atrás. Tão estreito, tão apertado. Hoje, tão silencioso. Onde cabia a vida de todos nós, cabe nem meu choro. Algumas tralhas amontoadas, esperando o destino que nunca vem. Fechada há anos para morada dos vivos, agora a casa 1 da vila deve ser lar de almas que não podem pagar aluguel. Casa tem signo?

Éramos sete: meus avós, meus pais, meus irmãos e eu. Cinco signos diferentes. Toda família é uma salada zodiacal.

Certa vez, o Omar Cardoso anunciou uma tal pedra da lua. Que tinha poderes terapêuticos, energéticos e tal, uma beleza. Pois minha avó fez que fez, e só sossegou quando meu avô comprou a dita cuja. Deve ter custado uma fortuna. Que eu saiba, não serviu para nada.

Meu avô a chamava de Zéfina. Os parentes, de Pina. Eu achava ‘Josephina’ tremendamente feio. Ainda mais com ph. Só fui simpatizar com o nome depois de ler “Mulherzinhas” e saber que o nome da personagem principal, a porreta Jo March, era Josephine. E há quem diga que livros não são importantes.

Minha avó faria aniversário esta semana, dia 6 de novembro. Ela era de Escorpião. Um tantinho venenosa, feito o temido artrópode. Longeva, no entanto; viveu 81 anos. O que os astros lhe reservaram, no dia em que morreu? Omar Cardoso teria profetizado, “É hoje, Zéfina”.

De acordo com o horóscopo que acabo de estabelecer, hoje, sexta-feira, oito de novembro, passado e presente estão em harmoniosa conjunção. Bom dia para cavoucar as lembranças. Tenho uma constelação delas no céu do meu peito. Sou Touro com ascendente em saudade.

Voltinha

“Fusca com família”, Gustavo Rosa

À noite, meu pai pegava a chave do Fusca, dava uma chacoalhadinha, olhava pra nós e já sabíamos: dia de dar voltinha! O destino? Nenhum. O programa era a voltinha. Breve ou longa, dependendo do nível no tanque e da disposição do Seu Tonico, único motorista da família. Ele e minha mãe na frente, nós três atrás. Rodar pelos bairros, só pelo prazer de andar de carro. Uma espécie de peregrinação a Santiago de Compostela sobre rodas, onde o caminho é mais importante que o lugar final.

Desde que me entendo por gente, teve carro em casa. Nem por isso o encantamento se esgotara; não era sempre que o usávamos. Matinê no Cine Comodoro, para assistir a “Uma janela para o céu”? Ônibus. Visitar a Vovó Carmela na Vila Diva? A pé. Tia Zinha, em Mauá? Trem. Passear de carro, para meus poucos anos de vida, ainda era acontecimento recheado de novidade e finesse, coisa de gente rica.

A discussão era sobre quem iria nas janelinhas. Negociações feitas, lá íamos. Sem cinto de segurança, que nos anos 70 a gente mal sabia onde ficava. Era comum o item permanecer enroladinho em um elástico, tal qual saíra da fábrica. Acho até que o Fusca nem tinha. Nunca sofremos acidente. São Cristóvão era nosso chapa.

Sob o ronco das mil e trezentas cilindradas, a gente pedia para passar aqui e ali, ou seguia a esmo, guiados pelo nada. Eu gostava das avenidas, dava para correr mais. Quando era minha vez, aproveitava minha janela particular (para o céu?), decorando a cidade e treinando a leitura nas placas. Torcia para passar em frente à casa de alguma amiga. Quem sabe ela não me veria e, admirada, diria, “Olha a Silmara!”. Ah, se nosso Fusca falasse.

Hoje, caso eu sugerisse um passeio assim aos meus filhos, acostumados ao carro desde o bebê-conforto, eu seria bombardeada por questionamentos incrédulos – Pra quê?, Mas aonde vamos?, Que graça tem? – e ganharia debochada recusa a tão besta convite.

São poucas as novidades para quem nasceu neste século, e os encantamentos, outros. Definição de simplicidade, para eles, é uma velha conexão 3G, o pacote básico da Net, pizza sem borda recheada.

Já meu pai, piloto-herói da minha infância, hoje se embanana todo na hora de entrar no carro, confunde as portas, não se entende com o cinto de segurança. Agora, sou eu que o levo passear. O destino, geralmente, é o médico. Para ouvir que está tudo bem com seu motor 8.7. O que não é para qualquer um.

Por pura nostalgia, hei de ter um Fusca. E a caçula avisou: estou proibida de buscá-la na escola com ele. Em silêncio, penso: o mundo dá voltas. Deixa estar.

O pato

ilustração: Aimee Marie

Já tive um pato.

Não o que faz quém-quém. Patinho de brinquedo, do tamanho do meu dedão. Todo preto (cinza?), de plástico, desses que param em pé. Uma amiga do primário me dera, nem sei bem por que. Só sei que o brinquedinho simplório e, aparentemente, sem graça, estava sempre ao meu lado. Como um fiel animalzinho de estimação.

Batizei-o, em notório arroubo criativo, de Patolino. Patolino pra lá, Patolino pra cá. Ninguém podia pegá-lo, tampouco desdenhar dele. Eu virava fera, encarnava a pata-mãe furiosa.

Não que não houvesse, em casa, outros brinquedos à minha disposição. Apesar da vida apertada, eu tinha lá minhas bonecas, como a Susi (prima da Barbie, que ninguém conhecia), a Vivinha, a Fofolete, as de papel. Bichos de pelúcia e outros divertimentos, inventados com coisas comuns, como caixinhas de fósforos vazias, pedaços de madeira que sobravam na oficina improvisada do meu avô. Tive também bichos de verdade, muitos. Desde meu primeiro dia de vida neste planeta convivo com eles, em especial os gatos.

O fato é que me afeiçoei ao patinho de plástico, como poucas vezes o fiz a um brinquedo. E podia jurar que o Patolino, pelo teor dos nossos papos (sim, nós conversávamos), também gostava de mim. Fui dando corda a esse antropomorfismo afetivo, sabido e aceito pela família. Até que, um dia, o pior aconteceu.

Vô Paschoal, sem querer, pisou no Patolino. Quem mandou largar no meio do quintal? Quando o vi destruído no chão, e meu avô bufando (para piorar a situação), só consegui recolher o que restara do Patolino, e me recolher à cama para chorar.

Chorei copiosamente a ‘morte’ do patinho como fizera, por tantas vezes, pelos nossos gatos que se iam. Soluçava, lamentando não ter me despedido do Patolino. Condenei-me ao título de criança mais infeliz do mundo, que não sabia como ia viver dali em diante.

Então ganhei outro patinho de plástico. Parecido com o Patolino, só mudava a cor. Não me recordo se foi presente da mesma amiga ou se meu avô, redimindo-se do patocídio culposo e vendo a neta caçula inconsolável, tratou de providenciar. Batizei-o homonimamente em homenagem ao velho amigo, e dediquei sinceros esforços ao novo relacionamento.

Mas o Novo Patolino não era o Velho Patolino. Não se substitui um amigo assim, do dia para a noite. Talvez eu devesse ter dado outro nome. Além disso, faltava-lhe a ânima que o Patolino, em meu julgamento, tinha de sobra. Quem sabe, a diferença não estava nem no pato de plástico, mas em mim. Depois de viver a fundamental e necessária fase de ‘luto’, superei a perda e reconstruí a vida (os dramas infantis são tão imensos!), eventualmente me distraindo com alguma roupa nova, um dinheirinho ganho da madrinha, os passeios a Santos no velho Fusca, os bichos de verdade. E passou.

Patolino brotou na lembrança porque, dia desses, pisei, sem querer, em um pequeno brinquedo de plástico da Nina. Fui checar: um cachorrinho cor de rosa, menor que meu dedinho. Talvez da turma da Polly (neta da Vivinha). Recolhi os caquinhos e joguei fora. Lembrei com carinho do meu velho patinho querido, mas sequer cogitei se aquele cãozinho significava algo para minha filha. Se ela perguntar, jogo a culpa na gata. Ela que pague o pato.

Os furinhos do arroz

Diminuo o fogo, tampo a panela. A superfície do arroz está cheia de furinhos. Lembrei: de criança, pedia para minha mãe fazer “arroz com furinhos”. O mais gostoso do mundo. Engana-se quem pensa que esses miniburacos são resultado de simples fenômeno físico. Há mais coisas nos furinhos do arroz cozido do que sonha nossa vã gastronomia.

Ao lado do fogão, eu vigiava a panela semitampada até que a água começasse a secar, dando lugar à mágica dos furinhos. Na ponta dos pés, espiava dentro deles, na tentativa de descobrir-lhes a razão. Nada via, além dos borbulhos. Se a visão não trazia resposta, o olfato se esbaldava: meu nariz era inundado pelo vapor perfumado do alho, da cebola e do cheiro verde temperando os grãos.

Logo eu me distraía com outra coisa. A gataiada brigando no telhado, a vizinha tocando a campainha, o mandrová na folha da comigo-ninguém-pode. Até ouvir o chamado, “Tá na mesa!”. Eu pedia e, com a escumadeira, minha mãe escavava apenas a primeira camada do arroz, capturando, assim, os furinhos. Que se desfaziam no encontro com o caldo do feijão. Tem comida que é pura oração.

Já o arroz da minha avó, que passou a cuidar dos netos quando meus pais abriram a venda e nela trabalhavam o dia todo, era empapado. Não continha furinhos. Nem sabor. Houve época em que reclamamos. Minha mãe resolveu fazer nosso arroz na venda, entre um freguês e outro, numa cozinha improvisada atrás do balcão, trazendo-o à noite para casa. Não era a mesma coisa. Quando ela ficou doente e parou de trabalhar, ganhamos o arroz de volta. Eu não sabia se ficava triste ou alegre.

Desligo o fogo, aviso que o almoço está pronto. Meus filhos disputam a escumadeira para ver quem pega primeiro o arroz. Pergunto se está gostoso. Bocas ocupadas, seus olhinhos apertados dizem ‘sim’. Então concluo: os furinhos do ancestral cereal continuam mágicos. Dentro deles cabem presente e passado.

Lembrança é um prato cheio para a saudade.

Farofa

Se o tempo amanhecesse bom no domingo, meu pai anunciava: “Vamos!”.

Pega a esteira, o chapéu, não esquece o bronzeador Bozzano, “Mãe, já vou com o biquíni por baixo?”, as toalhas, os sanduíches, o refrigerante, o guarda-sol, a prancha – de madeira, não existia de isopor.

Fusca cheio, vambora. O programa: farofar em Santos. Meu pai no volante, minha mãe ao lado, eu e meus irmãos atrás. Todos sem cinto de segurança. Deus existe, meu bem.

O Google diz que da Mooca até o litoral são setenta quilômetros. Bom para um bate-e-volta. Como não existia GPS na década de 70, eu perguntava de quinze em quinze minutos se a gente já estava chegando. Era minha maneira de calcular o tempo e a distância da viagem.

No caminho pela Estrada Velha de Santos ou Via Anchieta tinha Cubatão. Ouvia tanta história sobre a cidade, as chaminés das indústrias lançando fumaça preta no ar, dia e noite, crianças nascendo sem cérebro, que esse nome – Cubatão – já havia, para mim, virado metonímia para poluição. Lembro-me também de achar graça no nome de uma rodovia ali perto, a Pedro Taques, que eu pensava ser Pedro Táxi. Por certo, deveria ser um taxista muito famoso.

Ao mesmo tempo que eu amava passar o dia na praia, comendo salgadinho, brincando com meu baldinho e fazendo castelos na areia, eu também sofria. Pois nos dias seguintes o sol mandava sua fatura. Vermelha como o gorro do Papai Noel, logo eu me encheria de bolhas doloridíssimas. Minha mãe tinha lá suas panaceias para essas horas e, quando a dor passava, eu gostava quando ela – que nenhum pediatra me ouça – as furava com agulha de costura e linha. Era meio nojento quando vazavam. Depois vinha a fase de descascar; uma coceira dos diabos, mas a despelação era divertida. Não existia protetor solar naquela época, só bronzeador – um veneno para minha tez de Branca de Neve. Fui uma criança sardenta, não por acaso.

Certa vez, meu pai estacionou em uma rua próximo à orla. Passamos a manhã na praia e, na hora do almoço, voltamos ao carro. Surpresa: o Fusca havia sido arrombado. Lembro-me da expressão preocupada dos meus pais, contando os trocados que haviam sobrado, n’algum cantinho que passara despercebido pelo ladrão. O frango assado estava garantido.

Então, num belo dia, meus pais compraram a venda. Como o batente era de segunda a segunda, foi o fim dos passeios a Santos.

Tanta coisa mudou. O advento do protetor solar com fator 50 cancelou, definitivamente, as queimaduras e as bolhas. Não moro mais a setenta quilômetros da praia, não entro num Fusca há décadas (suspiro). Na Estrada Velha, agora, só gente e bicicleta. Cubatão, vejam só, deixou para trás o estigma de “Vale da Morte”. O sanduíche da minha mãe é só saudade. Meus filhos não sabem o que é andar de carro sem cinto de segurança, mal conhecem Santos, tampouco o prazer de uma legítima farofagem. E, apesar da minha pouca disposição atual para a dupla mar & areia, minhas lembranças daquele tempo continuam ensolaradas. Arrisco dizer que foram as farofas mais bem temperadas da minha vida.

Vergonha e orgulho

Cerimônia de formatura do ginásio, a 8ª A se despediria da escola. Paróquia São Pedro Apóstolo, na Mooca, 1981. Avisei meus pais, “Vai ser tal dia, tal hora”. Eu sabia que dificilmente eles compareceriam.

Por muito tempo, meus pais tiveram uma venda. Eu tinha seis anos quando eles compraram o ponto. Com a caçula na escola, ficaria mais fácil tocar o negócio. E meus avós tomariam conta dos três netos.

A rotina no pequeno armazém de secos e molhados era puxada. Segunda a segunda, sem direito a férias. O expediente começava antes de o sol raiar, quando inventaram de vender pão e leite fresco, e se estendia até a noite, com a homarada entornando seus cinzanos no balcão. Treze horas por dia pesando arroz e feijão para as donas de casa do bairro, fatiando queijo e presunto, moendo um quarto de café, contando dois cruzeiros de bala Juquinha para freguês-mirim que chegava cheio de moedinhas.

No dia da cerimônia, arrumei-me e fui. Espalhados nos compridos bancos de madeira, os fiéis pais, mães e parentes dos meus colegas de classe. Eu já estava razoavelmente acostumada a não ter meus pais nos eventos escolares, por causa dos horários da venda. Nas reuniões com os professores, meus irmãos faziam as vezes de responsáveis. Eles, que também eram tão novos.

Foi quando, perto do fim da cerimônia, avistei Seu Tonico e Dona Angelina atrás de um dos pilares, espichando o olhar para me localizar em meio aos colegas organizados em frente ao altar, para as últimas palavras do padre. Se conseguiram me ver, não sei. Mas eu os vi bem.

Em nada se pareciam com os demais presentes, tão arrumados. As mães com vestidos bonitos, penteados, unhas feitas, brincos, colares. Os pais de camisa passada, sapatos engraxados.

Sem tempo de passar em casa antes, os dois foram do jeito que estavam: com as roupas do batente e vestidos do cansaço de quem estava em pé desde as seis da matina, pesando cebolas e servindo pinga.

Ainda que eu tenha ficado contente ao vê-los – fecharam a venda mais cedo! –, senti-me encolher feito a Alice, depois de beber do vidro sobre a mesa, no país das maravilhas. Desejei sumir, me enfiar no confessionário. Precisava admitir a quem ali dentro estivesse (ou a ninguém, melhor ainda) que senti, sim, um fio de vergonha.

De quantos quilos de batata era feito meu vestido branco? Quantas doses de conhaque pagaram meus sapatos novos? Quanto pesariam, na velha balança Filizola vermelha, os livros e cadernos que me levaram até ali?

Quando a cerimônia terminou, fui ao encontro deles. Meu coração fatiado feito presunto. Ao abraçá-los, pude sentir o indelével cheiro do pó de café, invadindo a casa de Deus. Agora, todos os fiados do mundo cabiam no sorriso deles quando mostrei o canudo vermelho.

Então a vergonha, talvez por obra dos santos de plantão, transmutou-se em orgulho. “Pai e mãe, ouro de mina”, alguém já disse. E contar esta história hoje quita, de certa forma, a antiga pendência com o confessionário.

Formatura Sil Gallicho 8a A 1981 com Rosemeire de Lucca e Simone Cristina Augusto Rosa
eu (direita), arquivo pessoal

As piscinas

Dos meus sonhos de adolescente, ser sócia do Juventus foi dos mais acalentados. Afinal, todas as minhas amigas eram. A Mooca inteira, aliás, era sócia do clube. Menos a gente.

A carteirinha de sócio representava uma espécie de credencial para o olimpo mooquense. Passaporte para o paraíso. Pura ostentação. Imaginava-me passando com ela pelas catracas, desfrutando aquelas piscinas imensas com um milhão de amigos nos finais de semana, voltando para casa só à tarde, bronzeadíssima. Coisa de rico.

Porém, a realidade era outra. Segunda-feira, na escola, os que haviam se encontrado por lá engatavam conversas acerca dos babados piscínicos, dos quais eu não participara. “Te vi no Juventus!” era a senha para que eu me sentisse aquaticamente excluída.

O Atlético Juventus é o clube de futebol queridão da Mooca. Nunca dei bola para jogo; em esportes, pratico o ateísmo. Jamais pisei no antológico estádio da rua Javari – mas já provei o igualmente memorável cannoli do Seu Antonio, o que me livra da fogueira da inquisição. Só as piscinas (na sede social, em outro endereço do bairro) me interessavam. A felicidade, meu bem, era líquida e cheirava a cloro.

O título custava uma fortuna. Mensalidade, idem. Eu nem pedia aos meus pais, sabedora da resposta. Secretamente, afogava minhas tristezas no chuveiro e tratava de fazer outra coisa nos sábados, domingos e feriados.

Apesar disso, frequentei o clube, nos eventos abertos ao público. Fui das matinês de Carnaval regadas a lança-perfume aos shows do Roupa Nova e Fábio Jr., quando este era um jovem galã. Não que fosse fã. Mas o que a gente não faz para pertencer ao bando? As piscinas, no entanto, continuavam proibidíssimas para não-sócios. Não eram para o meu bico.

Eis que cresço e viro adulta. Minha irmã, mais velha que eu, decidiu que o Juventus agora cabia no orçamento. Ela, que também viveu a angústia de ter cem por cento dos amigos donos da carteirinha encantada. Lá fomos nós, finalmente, debutar nas piscinas.

Como nativa do bairro, vos digo: meu, que chatice!

Deus ajuda quem cedo madruga, e isso vale para as piscinas dos clubes. Quem chegava depois das dez – como nós – tinha que se contentar em torrar nas arquibancadas perto da piscina olímpica, muito mais quentes e disputadas a tapa com outros banhistas. Além disso, nem sombra dos amigos do passado. Onde foram parar todos?

Aos poucos, deixei de frequentar. Sonho vivido com atraso, às vezes, não tem mais efeito. Meu clube hoje é a rua.

Eis que cresço um pouco mais. Nossa caçula vive pedindo para ficarmos sócios de algum clube. Ela tem a idade que eu tinha, quando desejava a mesma coisa. Costumo enrolar, tenho preguiça, invento falta de tempo, deixo escapar o desinteresse.

Sei que não é justo agir assim. Ou tomo uma atitude ou, se a história se repete, já sei a primeira coisa que ela fará quando crescer.

A tônica do Tonico

agua tonica

Em nove, de dez vezes que meu pai vai a um restaurante, ele pede água tônica. Limão espremido e gelo completam o ritual. Embora, ultimamente, venha deixando o gelo; reclama que tem lhe feito mal à garganta. O refrigerante, ao lado do molho de pimenta, é dos seus hábitos mais antigos. Seu nome bem que podia ser Tonico da Tônica.

A lata diz que é feita de quinino. Que diabos é quinino, menino?

With a little help from my friend Google, aprendo: é uma substância que se tira da casca da árvore cinchona, que nunca vi. Um pó branco, tecnicamente batizado de hidrocloreto de quinina. Como esse título não faria o menor sucesso, pelo contrário, resolveram chamá-la simplesmente de água tônica de quinino. Mais bonito e poético. Perguntar qual a sílaba tônica de tônica é mais ou menos como perguntar qual é o doce mais doce que o doce de batata doce.

Gramática e trocadilho à parte, a água tônica deve funcionar como uma espécie de tônico da longevidade. Seu Tonico acaba de completar oitenta e sete anos, nos trinques. Um dos médicos que o acompanha brinca que ele está tão bem, que podemos vendê-lo. Ele acha graça.

O garçom traz o pedido à mesa, meu pai faz uma piadinha qualquer. O garçom entra na onda (ou não), e todos riem (ou não). Ele quebra o lacre, plec, e a vira no copo. Do encontro do amargo da bebida com o azedo do limão dá-se a química da felicidade do meu pai, traduzida no primeiro gole e o quase onomatopeico “Aaah” de prazer.

Falando em química, na tabela periódica, oitenta e sete é o número atômico do Frâncio. O sobrenome do meu pai é Franco. Uma coincidência dessa, bicho.

O slogan impresso na latinha afirma: “o amargo transforma”. O quê em quê, nunca soube ao certo. Mas desconfio. Olho meu pai partindo o quiabo ao meio e juntando-o, metodicamente, ao arroz e feijão. O rosto enrugado de mundo, os cabelos branquinhos, a indefectível boina. Meu pai soube transformar sua vida. Viúvo aos cinquenta e cinco, era do tipo que não se servia sozinho à mesa – tarefa exclusiva de minha mãe. Quando ela se foi, inventou sua autonomia e entendeu-se com a solidão. Amargura? Se sentiu, metamorfoseou-a em poesias e músicas dedicadas à Dona Angelina. Apropriou-se da casa e suas domesticidades, aprendeu a cozinhar e a preparar suas gororobas. (Algumas tornaram-se lendárias: sua vitamina matinal, por exemplo, costumava levar leite, óleo, ovo, banana, mandioquinha, beterraba, vinho, Sonho de Valsa e o que mais estivesse dando sopa na pia, tudo no liquidificador. Praticamente um suco atômico.)

Com a poção acre-doce no copo, meu pai acessa a memória que lhe resta e se põe, com genuíno entusiasmo, a contar causos. Os mesmos de sempre, de novo e de novo. O pisão que levou da vaca Beleza, quando era criança. O orgulho dos dons oratórios e literários do meu avô. O primeiro emprego quando chegou a São Paulo, na fábrica de sapatos, aos dezesseis anos. O dia em que conheceu minha mãe, em pleno Finados. Sua saudade é líquida. Eu, que antes me chateava, aprendi a ouvi-los como se fosse a primeira vez.

Bendito quinino. Transformou até a mim.

O baleiro

baleiro

Da venda dos meus pais, não é da balança Filizola vermelha ou do cheiro do café moído na hora que eu mais me lembro. Nem da máquina de cortar frios que quase decepou meu dedo. É do baleiro.

Eu tinha seis anos quando meus pais resolveram empreender e compraram o ponto. Fiquei triste porque minha mãe não ficaria mais em casa o dia todo comigo, e sim pesando arroz, feijão e batata para a freguesia do bairro, com meu pai ao lado, servindo Velho Barreiro aos homens do pedaço. Em compensação, quando eu fosse na venda, poderia comer doces à vontade e, no meu entendimento, de graça.

Roda, roda,

Roda baleiro, atenção

Quando o baleiro parar

Ponha a mão

De vidro, três (ou dois?) andares, o baleiro estava sempre abastecido. Bala Juquinha, 7 Belo, bala de goma, delicados e caramelos, numa profusão de cores e sabores, tão ao alcance das minhas pequenas mãos. “Só mais uma, mãe”. Eu queria morar naquele baleiro.

Havia também uma vitrine de madeira com portinhas de correr, espécie de portal para outra dimensão, feita de glicose. Maria-mole, pé-de-moleque, doce de batata-doce, chiclete Ping Pong e suas tatuagens fajutas, chocolate de guarda-chuvinha, Dadinho, paçoca Amor. Eu não sabia por onde começar.

Pegue a bala mais gostosa do planeta

Não deixe que a sorte se intrometa

Por dezoito anos, o baleiro fez parte do negócio de secos e molhados da família. Girando feito planeta, ora num sentido, ora noutro. Mas o sentido não estava na boca? Já grande, suas balas não me encantavam mais. Continuavam, no entanto, fazendo a alegria das novas gerações de fregueses-mirins.

Quando meu pai se desfez da venda, anos depois de enviuvar e cansado de tocar o barco sozinho, alguém perguntou, E o baleiro?”. Ninguém quis. Uma velharia, candidata a estorvo.

Perguntei aos irmãos esta semana, “Que foi feito dele?”. Não se lembram. Eu deveria tê-lo guardado, nem que fosse no porão. O arrependimento tem gosto acre.

Vi um para vender, dia desses. Novinho em folha, réplica dos originais. Prestei atenção em suas tampas, tão perfeitas e lustrosas. Não havia nelas nenhum amassadinho, ou qualquer outra cicatriz deixada pelo uso. Que graça tem um baleiro sem história?

Queria tanto uma bala Juquinha agora.

A sesta do meu avô

gato na poltrona
arte: Angie Rozelaar

Todo dia ele fazia tudo sempre igual: almoçava, escovava os dentes, se ajeitava na poltrona da sala e tirava um cochilo. Sentado, sempre. Por meia hora, meu avô se desconectava deste mundo – em um tempo onde desconectar-se tinha outra acepção – e fazia seus minipasseios astrais. Fizesse chuva ou sol, a sesta era sagrada. A vida inteira, até Deus convocá-lo.

Mas sentado, vô? Que jeito de fazer sesta. Por que não se deitava na cama de uma vez, fechava as cortinas, afofava o travesseiro? Oras, porque o sono na horizontal é reservado à noite, depois de um dia cheio de afazeres. Ele nunca disse isso, mas eu sabia. Em sua filosofia, cochilar deitado seria outra coisa, completamente distinta. Cheiraria a vadiagem, palavra não encontrada no léxico do Seu Paschoal.

Semana passada, resolvi imitá-lo. Se o hábito o fez completar noventa e sete primaveras inteirão, e alguns anos antes de partir ele subia no telhado para fazer reparos com a desenvoltura de um garoto, por certo essa é a receita da longevidade. Após o almoço, levei os meninos à aula de inglês, voltei, escovei os dentes. Sentei-me na poltrona da sala, seguindo à risca o modo de fazer. Fechei os olhos. Pronto.

Meu avô tinha um despertador interno que não o deixava passar de trinta minutos. Eu não vim equipada com tão útil dispositivo. Levantei-me, apanhei o celular na mesa de jantar, configurei o alarme para o mesmo tempo. Voltei à posição inicial. “Pensando bem, é pouco. Dez minutos só para pegar no sono”. Ajustei para quarenta. Agora vai. A cabeça pendeu um pouco para a frente, segurei. Como relaxar assim? Reclinei a poltrona um tantinho só, descaracterizando levemente o ritual original. Lembrei-me que ele cruzava os braços, talvez isso proporcionasse alguma firmeza extra. Poltrona um tiquinho reclinada, braços cruzados, despertador ajustado, cerrei os olhos, vamos lá. Já havia perdido tempo. Paciência.

Morfeu enfim acenou-me, com uma piscadela safada. Mal retribuí o flerte, o celular tocou. Não era o alarme. Consultório da dentista, para confirmar horário. Meu avô, que só viu telefone em casa aos setenta e cinco anos, nunca fora interrompido em sua soneca por conta de uma ligação. Até porque, não ouviria. A surdez pode ser uma bênção.

Postura retomada, poltrona um tantinho reclinada, braços cruzados, pestanas grudadas. Àquela altura, me restavam parcos vinte minutos. Bufei feito Vô Paschoal quando o Palestra tomava gol. Mexi de novo na porcaria do alarme e espalhei-me no sofá, feito geleia no pão. Dormi divinamente até a hora de ir buscar os meninos no inglês, sepultando de vez a esperança de viver até os noventa e sete.

 

Meu primeiro amor. Ou segundo

ilustração: Lubi

Fragmentos de memória: meados dos anos 1970, São Paulo, Teatro Municipal, Irene Ravache, calça Levi’s, menino loiro.

Pronto. Agora é costurar tudo e montar a colcha que cobre a história do meu primeiro amor. Ou segundo.

Tirando, claro, as dezenas de namorados inventados da minha infância e que constaram de uma lista, redigida pela irmã mais velha, que incluía o moço que aplicava injeção na farmácia, o Sérgio Chapelin e o goleiro Leão.

Era a primeira vez que eu ia ao Teatro Municipal. Tinha nove ou dez anos, as cadeiras ainda eram forradas com veludo verde. Não há qualquer chance de eu me lembrar do que assisti. De certezas, somente três: era algo com a Irene Ravache, eu usava uma adorada calça Levi’s bege, e havia um menino loiro e lindo do outro lado do foyer.

Bati os olhos nele – que devia ter a minha idade e também estava com os pais – e não desgrudei mais. Se ele, de lá, me via, não sei. Desconhecia aquele meu sentimento, embora já suspeitasse do que se tratava. Apaixonar-se é grudar nos olhos uma fotografia da pessoa amada.

Foi assim o espetáculo inteiro. Quando acabou, fiquei triste porque não iria mais vê-lo. Como seria seu nome? Sua voz? Ia bem em matemática? Seria bacana ir à sorveteria com ele depois das aulas, de mãos dadas. Será que usava Levi’s?

Não contei a ninguém o que senti. Só guardei a imagem do menino bonito. Tão bem guardada, que ei-la aqui. E o leitor que me desculpe pela decepção. Pois não se trata de uma história de amor típica, com começo, meio e fim distribuídos em uma linha do tempo recheada de acontecimentos e emoções e conversas de amor e beijos escondidos. A história do meu primeiro amor (ou segundo) é só isto mesmo.

Naquela época, dadas a pouca idade e limitações mundanas, seria praticamente impossível tornar a vê-lo. Hoje, bastaria um apelo na internet (se meus pais deixassem, o que duvido). “Alguém sabe quem é este garoto?” encabeçaria o post esperançoso, com uma foto feita pelo celular em zoom precário. Daria o serviço – dia, hora e local – e imediatamente se formaria na tudosfera uma corrente engajada de compartilhamentos, dedicada a encontrar meu pequeno príncipe encantado. Já vi isso nas notícias. O amor é a melhor hashtag.

Em meus devaneios, às vezes, me ponho a imaginar por onde andará o garotinho do foyer do Teatro Municipal. O que se tornou, de quê gosta de falar, se ainda é loiro. Em quem votará nas eleições. É devaneio desinteressado, registro – eu que não quero treta no meu casamento. Daqueles ingênuos, que brotam no meio de um dia atarefado como um sopro de leveza. É respeito (ou asas) às lembranças que compõem minha biografia.

E, diferente das minhas certezas, pode ser que eu tenha misturado os fragmentos, costurando-os errado. Como se eu houvesse pego um frame daqui e outro dali, do imenso emaranhado de cenas arquivadas em minha mente, cuja lógica nem sempre respeita tempo e espaço, sujeito e predicado. E se me apaixonei pelo menino loiro no cinema, e não no teatro, quando fomos minha mãe, minha irmã e eu assistir a “Uma janela para o céu”? E se no dia do teatro eu estava, não com minha Levi’s, mas a vermelha de tergal, de botões? Acho chique quem tem memória linear e precisa, como se os fatos estivessem todos registrados em diários oficiais.

Eu não. Confesso que, às vezes, vou colando memórias umas às outras. Não ligo. Que foram vividas, foram. O importante é se ficou bonito.

Melhoral infantil

Uma vez por mês meu pai chegava em casa, à noite, com uma caixa enorme. Está bem, não era enorme. Só grande. Nela, a compra da farmácia. Esse dia era uma alegria só. Não que eu fosse uma hipocondríaca-mirim. É que na caixa, em meio a esparadrapo, mertiolate, algodão, latas de leite em pó e remédios, lá estava ele: Melhoral infantil. O comprimidinho cor de rosa.

Meio doce, meio azedinho. Eu gostava de comê-lo feito bala. No entanto, Dona Angelina, mãe zelosa, não o liberava assim fácil. Valia, então, inventar alguma enfermidade. Dor de barriga ou cabeça. Se o teatro fosse convincente, ganhava um. Se não, o negócio era partir para a traquinagem acetilsalicílica: pegar escondido. E o Melhoral infantil virava sobremesa proibida.

Fascínio semelhante tinham o Cebion e o Biotônico Fontoura, que também vinham na caixa. Com o primeiro, nada de dissolver na água, como mandava a bula. Chupava-o feito Drops Dulcora. Eu devia exalar vitamina C pelos poros, gripe nenhuma me pegava. O segundo prometia abrir o apetite das crianças e, por isso, era aliado das mães preocupadas com rebentos que não queriam comer. Não era nosso caso. O fortificante tinha álcool na fórmula e deixava a criançada meio zonza se a dose recomendada fosse extrapolada – e aí é que estava a graça.

Volta para 2018.

Hoje foi dia de levar os remédios para meu pai. A lista é grande e inclui comprimidos que resolvem de pressão alta a gastrite, garantindo ao Seu Tonico uma boa velhice. Enquanto dava meu CPF para a moça na farmácia, avistei na gôndola self-service: Melhoral infantil. A embalagem mudou, a cor rosa permaneceu. Um clássico da farmacopeia. Peguei uma cartela e adicionei-a à cestinha. Senti meu rosto corar. Ou será que ficou da cor do comprimido? Apoiada no balcão, refletida no espelho da seção de maquiagem, vi a garotinha que fui, pilhada na travessura. Como se estivesse pegando às escondidas o comprimido no armário da cozinha, que chamávamos de “farmacinha”. Paguei e separei o Melhoral, guardando-o na bolsa.

Cheguei à casa do Seu Tonico não com caixa, mas sacola de plástico cheia de coisas. É a minha vez de abastecer seu armário, mensalmente, com a compra da farmácia. A vida é mestra em inverter os papéis. Virei mãe do meu pai.

Mais tarde, em casa, tirei a cartela da bolsa. Seis comprimidos. Que festa! Abri um, coloquei-o devagar na boca. Deixei que dissolvesse um pouco, fechei os olhos, pronta para a viagem ao passado. Que gosto horrível! Nem sombra do Melhoral infantil que conheci. Mudaram a receita, por certo. Remédio para os pequenos tem esse problema. Se é gostoso, dá vontade de comer feito doce. Se é ruim, a criança só toma amarrada.

Cuspi o comprimido, já de um rosa desbotado. Mal não me fará. Será que tem efeito colateral? Um pouquinho de saudade, talvez. Logo passa.

Trégua

Julieta, lembrei. Julieta era o nome dela. A vizinha da casa 3, que morrera em seu quarto. Marcos, o único filho. Um garoto da minha idade, sete anos.

Eu batia boca com ele sempre que podia. Não que fôssemos inimigos, brincávamos juntos. Mas não perdíamos a oportunidade de provocar. Ele dizia algo, eu rebatia, ele soltava outra e assim exercitávamos nossa retórica – com sofisticação intelectual no nível de “Nunca viu, cara de pavio?” e “Você não é de nada, só come marmelada”. O objetivo era ver quem daria a palavra final, a resposta lacradora que calaria o outro. Lembro vividamente de uma vez que ele falou: “Você tem resposta pra tudo”. Fiquei em dúvida se era elogio ou não.

Câncer, disseram. Julieta era jovem, miúda, morena, pintas no rosto. Educadíssima. No dia em que ela morreu, fiquei consternada. Como um garoto de sete anos iria viver sem a mãe? Pai já não devia ter, nunca o vira por ali. Quando minha mãe morreu eu tinha vinte; tempo que já me calçara de certa força e autonomia para enfrentar a vida. Além disso, eu contava com pai, irmãos mais velhos, avós. Mas e o Marcos, que estava no primeiro ano e usava franjinha?

O velório foi na sala. O cômodo onde os dois assistiam TV à noite, juntos, agora exibia outro programa. Eu não fui. E tive que lidar com a ideia de haver um defunto a duas casas da minha. Antes da Julieta, eu não tinha notícia de alguém na vizinhança que houvesse batido as botas em casa. Morria-se em hospital, na rua, longe. Não em casa, lugar de viver.

O portãozinho ficou aberto, um entra-e-sai dos poucos parentes. O Marcos ficou zanzando na vila. Chutando pedrinhas pelo chão, cabisbaixo. Da janela do quarto dos meus pais, eu o observava. Ele via que eu o via. Naquele dia, porém, não tive vontade, nem coragem, de provocá-lo. Como se a morte requeresse trégua entre nós. Era preciso alguma paz. Tampouco fui conversar com meu amigo. Saber se gostaria de comer biscoito champagne com Nescau, ouvir o LP dos Carpenters. Nada. O silêncio foi a trégua.

Logo ele se mudou. Comentaram que fora morar com os tios. Não me despedi. Perdi, então, meu parceiro de embates verbais. A casa 3 ficou vazia por um tempo. Depois, chegaram novos inquilinos. Pensei em avisá-los sobre eventuais problemas com almas penadas, mas desisti. Por via das dúvidas, levei anos para entrar ali de novo.

Mães que morrem conseguem, de algum jeito, cuidar dos filhos? Por que eu tinha sorte de ter minha mãe e ele não? Por que médicos não conseguiam curar tudo? Por que gente viva não vê gente morta?

Fiz-me muitas perguntas, na época. E o Marcos estava enganado. Eu não tinha tantas respostas assim.

Crônica de minuto #62

A casa de meu sogro está à venda. Aos poucos, ela foi se esvaziando. No rateio do espólio afetivo os quadros em talagarça e as tapeçarias de Dona Jacy, os bibelôs, os LPs, os livros disto e daquilo foram ganhando novos donos e donas. Menos o anjo de ferro. Acabou ficando encostado no quintal, ninguém sabia o que fazer com ele.

Falta-lhe uma asa. É anjo deficiente.

Asas sempre vêm aos pares. É só ver as aves, os aviões. Menos xícara, que funciona bem com uma só.

Passei por ele, ao lado de outros cacarecos. Tristonho e aparentemente conformado com seu provável destino, a reciclagem. Fiquei com dó, catei. Avisei a cunhada, “Ó, está comigo”.

Agora ele vai morar no sítio. Já fez amizade com o São Francisco ao seu lado, sobre a lareira, que não fica lhe enchendo de perguntas, querendo saber o que aconteceu com a outra asa. Para ele, isso não importa. Santos são inclusivos por natureza. Anjo deficiente tem prioridade na fila para falar com Deus? Santo Antonio tem, está sempre com criança no colo.

Se alguém vir uma asa de anjo perdida, é favor contatar a família.

Sianinha

sianinha

A amiga comentou, quase en passant: no texto digitado aparecera a “sianinha” embaixo de uma palavra. O risquinho vermelho, sinalizando que a grafia estava incorreta. Mão na roda para escritores distraídos ou erráticos.

Parece uma sianinha, mesmo. Aquele fitilho ondulado usado nas costuras. Achei delicado, o apelido.

Minha mãe costurava. Cresci em meio a coisas enfeitadas com sianinhas de todas as cores. Algumas tão fininhas. Toalhas, roupas, lençóis, aventais. Além de alerta para imprecisões da língua, a sianinha ortográfica acabou cumprindo outro papel: ativadora de memórias.

Fui parar na sala da nossa velha casa, sentei-me no sofá de courvin marrom, o LP da novela Selva de Pedra (primeira versão) na vitrola. Minha avó lavando roupa no tanque, meu avô encerando a casa na enceradeira tão grande que sentávamos em cima dela e íamos junto, minha mãe ora na cozinha, ora em seus tricôs, crochês, costuras. Tão caprichosa, sempre.

Havia um bazar de aviamentos no quarteirão. Era a garagem de um sobradinho geminado, transformada em loja. Sempre íamos, minha irmã e eu, buscar alguma coisa que ela pedia. Até hoje gosto dessas lojas, quero comprar tudo e fazer tudo. Nunca compro nada e nunca faço nada. Sou só uma teoria descosturada.

Enquanto escrevo, várias sianinhas aparecem. O corretor não reconheceu a palavra courvin. É courvin mesmo, meu bem.

Corretor ortográfico é uma espécie de professor. Lembrei da Maria Olívia, minha professora no primeiro e segundo ano. Com delicadeza, ela sublinhava a lição – sem fazer sinhaninha – com caneta vermelha, ensinando que jiboia era com jota e não com gê. Anos depois, batizei uma gatinha com seu nome. Seria bonito dizer que foi em sua homenagem, mas não foi. Por gosto, mesmo. Maria Olívia, a gata, fora abandonada pela mãe, que dera cria no carro do vizinho. Um dia cheguei em casa e ela havia ido embora, levando todos os filhotes, menos ela. Era a mais fraquinha, sempre doente. Gostaria de reencontrar Maria Olívia, a professora. Maria Olívia gata também, se esse negócio de reencarnação também valer para os bichos.

Eu gostava de brincar com as linhas, agulhas, rendas, botões e sianinhas da minha mãe. Dona Angelina sempre deixava. Não havia nada que ela não nos deixasse brincar, aliás. Observava a arquitetura das minicurvas da sianinha, pareciam cabelo anelado de boneca. Ficava imaginando como é que faziam aquilo tão perfeitamente.

(O calçadão de Copacabana, repare, é uma sianinha gigante.)

A amiga que falei se chama Iana. Rima com quê? Siana. Que nem sei se existe, talvez sianinha seja palavra nascida no diminutivo. Igual carinho. Só sei que a vida não dá ponto sem nó.

Vou revisar este texto e ver se tem outras sianinhas para corrigir (ou não). Quem sabe eu me recorde de mais alguma coisa no meio do caminho. Quando escrevo, não uso apenas um editor de texto. Uso um editor de lembranças também.

Se as sianinhas enfeitam os panos, as memórias enfeitam toda a existência.

Para Iana Ferreira

O quadro

jesus 1

No quarto dos meus pais havia um quadro de Jesus Cristo. Minha irmã conta que foi ideia do nosso avô. Provavelmente, para que Ele abençoasse o casal e a família. Ou para lembrar Seu Tonico e Dona Angelina que o filho de Deus estava vendo tudo, tudinho.

O quadro era grande e trazia um Jesus bonitão, loiro dos olhos claros, barba meio hipster. A moldura dourada tinha uma cordinha atrás para pendurar no prego, deixando-o levemente pendente para frente. O que talvez causasse ao Senhor certo constrangimento, de vez em quando.

De qualquer forma, minha mãe devia ter altos papos com o Jesus emoldurado. Contava-lhe dos filhos, das encomendas de tricô, dos apertos financeiros, as fofocas na família. Será que contou a ele quando ficou doente? Para nós, os filhos, não.

Foi nessa cama que nasceu, de parto normalíssimo, meu irmão mais velho. Ter Cristo assistindo ao vivo e em cores, abençoando tudo de pertinho, quem não haveria de querer? No entanto, comigo, a caçula, e minha irmã do meio, meus pais resolveram não arriscar, então nascemos no hospital. No meu caso, fez toda diferença: só estou neste planeta graças ao fórceps.

E a ideia do quadro só pode mesmo ter sido do meu avô. Ele mantinha um exército de santos em seu quarto, dispostos em um oratório ao lado do guarda-roupa. Eu tinha medo da santaiada, evitava entrar lá sozinha. Como se eu adentrasse uma festa sacra, e secreta, para qual eu nunca era convidada. Era nesse quarto também que meu irmão, o afilhado de Cristo por tabela, quando criança costumava ver freiras enfileiradas caminhando e sumindo através das paredes. Coisa que minha mãe tratou logo de resolver na Federação Espírita.

O Jesus Cristo loiro e cabeludão morou com a gente por muito tempo. Sua imagem estava incorporada ao quarto, à casa, à minha infância, adolescência, juventude. Tipo um parente. Lembro-me com exatidão de suas mãos, tão serenas, apesar das marcas da crucificação. Que sina, a dele; pregado na cruz, pregado nas paredes.

Quando minha mãe morreu, reconfiguramos os dormitórios e o quadro foi embora. Não sei que fim levou. Se o demos para alguém, ou se acabou indo para o lixo, de tão velho. É pecado jogar fora um quadro de Jesus, ainda que desbotado e carcomido pelas traças? E será que traças que moram em um quadro santificado, quando morrem também ganham o reino de Deus, fazem upgrade evolutivo e retornam à Terra como peixes?

Na nossa cozinha havia outro quadro, menor, da Santa Ceia. Vá lá: cozinha, comida, ceia. Mas deixar Cristo sobre a cama do casal? Que ideia, vô.

A corda

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arte: Charlotte Voake

Um dia, ganhei do meu avô uma corda de pular. Não dessas de brinquedo, comuns. Corda de verdade. Seu Paschoal comprara na casa de materiais de construção. Compridona, cinco metros. Eu a levava, enrolada numa sacola, para a escola. E a brincadeira na hora do recreio estava garantida. Ninguém tinha igual. Cinco metros, meu bem.

Eu era boa de pular corda. As amigas, uma em cada ponta, começavam bem devagar e iam aumentando a velocidade. A modalidade mais rápida de todas se chamava foguinho, e não era para qualquer um – nem para quem pulava, nem para quem batia. Aprendi a entrar e sair com a corda em movimento, pensa que é fácil? Requer tanto cálculo quanto matemática, só que de outro tipo. Em matemática eu não era boa, não. Mas dava meus pulinhos.

E aquela corda virou, assim, uma espécie de unidade de medida, minha referência mental para tudo. Se eu queria calcular tamanho ou distância, bastava pensar nela. O Corcel do meu pai, que nós inventamos de pintar em casa e ficou bem feio? Uma corda de comprimento. Da sala até a cozinha? Uma corda e meia. O pinheiro da vila, plantado quando meu irmão entrou na faculdade? Ficou com duas cordas de altura, antes de ser cruelmente derrubado. Depois era só converter em metros, a unidade padrão aceita mundialmente pelos homens sérios que não entendem nada de pular corda, nem de pinheiros.

Aliás, ainda se pula corda? As crianças aqui do pedaço, não. Meus filhos nem têm uma – falha nossa. Dá tristeza pensar que, um dia, isso se torne coisa do passado. Feito latim, a língua morta. A gente sabe que existe, topa com ela de vez em quando, mas não usa para nada. O que foi feito do passa-anel, da uma-na-mula, do telefone-sem-fio, da cabra-cega, do corre-cotia, da amarelinha, do esconde-esconde? Sumiram dos páteos das escolas, das ruas, são brincadeiras mortas. A vida seria mais interessante se as brincadeiras legais de ontem andassem juntas com as brincadeiras legais de hoje. Pois cabem todas numa infância. Ou, quem sabe, isso é papo furado de quem já passou dos cinquenta, de gente que ainda fala papo furado. E sobre isso eu poderia falar horas. É só me dar corda.

Ontem me peguei tentando calcular uma distância no meu quintal. Recorri, sem perceber, à velha corda. Lembrei do Vô Paschoal que, se ainda vivesse neste planeta, faria 110 anos. Tentei medir o tamanho da súbita (quase doída) saudade que me deu dele. Não houve corda suficiente.

A promessa

cabelo

Prometi à Nina deixar meus cabelos crescerem.

Logo eu. Que, apesar de ser lembrada como cabeluda pela turma da escola, não uso nem um fio abaixo do queixo desde que ela nasceu, há onze anos. Eu, que sou devota de São Joãozinho. Eu, que tenho quimeras antigas com a máquina dois.

O limite negociado foi o ombro.

Tem gente que promete, em nome de nobre causa, não comer chocolate. Subir de joelhos intermináveis escadarias. Cortar – veja só – os cabelos. Eu não. Eu prometo deixá-los crescer um quarto de metro. Cada um com a sua provação.

De criança, minha avó penteava meus cabelos para eu ir à aula. Contrariada, subia no bidê para facilitar o trabalho dela. Que tinha mão pesada, puxava com força (e algum mau humor) minhas extensas e quase sempre embaraçadas madeixas. Não havia esses condicionadores bons de agora. Nem os ruins a gente tinha, era xampu e olhe lá. Eis que surge, para nossa salvação, o Neutrox. Creme amarelo, inovador e relativamente barato que dissolvia nós como que por encanto. Um dia, hipnotizada pelo seu aroma adocicado, não resisti. Comi.

No caso da minha promessa, a nobre causa não foi motivo de doença, nem de milagre solicitado, tampouco de graça alcançada. “Mãe, deixa o cabelo crescer um pouquinho só?” – foi o (reiterado) pedido da caçula. Lasquei-me. Como negar? Desde então, tenho recorrido às faixas, lenços, tiaras e adereços que me façam enfrentar a (longa) temporada com algum ânimo.

Exibi imensa cabeleira até os vinte e cinco. Cultivada quase por acaso, em um misto de esquecimento de cortar com ideal de beleza. Acreditava que era assim que tinham que ser os cabelos de uma mulher, feito verdade irrefutável (não é). Fui dessas de aterrorizar o cabeleireiro, caso o infeliz cruzasse a fronteira do “só as pontinhas”. Como se minha vida não fosse funcionar de outra forma. Os cabelos eram longos, mas as ideias eram curtas.

Todos os dias me olho no espelho ao acordar, na esperança de que alguma mágica tenha se dado durante a madrugada e meus fios tenham adquirido o DNA do bambu. Cogito negociar com a Nina, quebrar a promessa. Trocá-la por um brinquedo novo, quem sabe? Mas aí lembro de seus desenhos, quando era pequenininha. Neles, sempre fui representada com arquetípico cabelão. Desisto da negociação, respiro fundo e sigo em frente. Tanta coisa que ela me pede e eu, por incompetência ou falta de vontade, deixo de atendê-la. Ser mãe é carregar uma eterna e cabeluda culpa sobre os ombros.

Ano que vem faço cinquenta e um, a idade da minha mãe quando morreu. Dona Angelina perdeu todos os cabelos na quimioterapia. Pensei em uma homenagem póstuma, raspando os meus. “Vê? Também estou carequinha da silva”, direi-lhe em pensamento. Estarei três décadas atrasada, é verdade. Mas ela há de entender. Mães são atemporais. Além disso, comprida mesmo é minha saudade. Dá até para fazer trança.

Xilindró

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1980, temporada dos jogos inter-colégios. O nosso jogaria com o São Paulo, no centro da cidade. Da Mooca até lá, só de ônibus. Fomos, então, prestigiar o time. Tudo seguia nos conformes, quando uns garotos começaram a bagunça no coletivo. De repente, o estrondo. Haviam quebrado o vidro da janela.

O motorista para. Desliga o motor. Puxa o freio. Sai de seu posto e ruma ao fundão. Quem foi? Silêncio. Então vamos para a delegacia resolver isso. E não é que ele foi mesmo?

No caminho, gelei. Eu, treze anos, na delegacia. Teria direito a um telefonema? Sem advogado, restariam meus pais. Pai e mãe são nossos advogados eternos. Mas a gente não tinha telefone. Ligaria na casa 4 e pediria para a Dona Antonia dar o recado. Vexame. Já me via no xilindró, cabelos raspados, vendo o sol nascer quadrado, batendo caneca nas grades, tomando banho de sol com a galera. Não estaria sozinha, no entanto: meia dúzia de colegas da 7ª A dividiriam a cela comigo. Compadecidos, os professores nos visitariam no Dia das Crianças. Ninguém passaria de ano.

Enquanto lamentava meu destino, a turma de – no conceito do condutor enfurecido – menores infratores chegou à Delegacia. Colocaram-nos em uma sala. A maioria de nós não tinha culpa de nada, nadica. Mas como não houve delação, estávamos todos no mesmo barco. E agora, Dotô? Como é que volto pra garagem assim? – quis saber o motorista.

O delegado de plantão, sem nada mais grave para resolver naquele dia, nos mediu de cima a baixo. Iniciou seu sermão. Onde já se viu isso, a gente não tinha educação, nem respeito pelo patrimônio, que não acontecesse novamente, senão já viu. Ouvíamos calados, uns tremiam feito vara verde. Tudo piorou quando a Rô, usando uma saia que trouxera da Bahia, toda de rendas e franjas no melhor estilo boho-afoxé, numa atitude sem noção, resolveu apoiar o pé num cercadinho ao lado da mesa da autoridade. Tomou pito adicional, pobrezinha. Ninguém riu. O medo vencera. Vinte anos depois, perdemos a Rô. Meu coração ficou em cacos, feito a janela do ônibus.

Embora não tenha testemunhado o fato, tenho cá, até hoje, meu palpite sobre o autor do vandalismo. Fiquei de bico calado, no entanto. Vi-me no leito de morte, daqui a algumas décadas, chamando de canto o representante de Deus antes da extrema unção: Acho que foi Fulano, padre.

Sermão dado, lição aprendida, jogo perdido. Hora de voltar para casa. De ônibus. No trajeto, discutimos, apreensivos, se o episódio caracterizaria passagem policial, prejudicando nossas vidas dali para frente. Por via das dúvidas, ficou todo mundo comportado. Fichada, mesmo, é esta minha saudade de tudo e de todos.

À noite, quando meus pais chegaram, contei. Perguntaram se alguém havia se machucado. Não, pai. Quiseram saber se havia sido eu. Não, mãe. Sondaram o que haviam feito com a gente na delegacia. Só bronca, pai. Questionaram as minhas companhias. São gente boa, mãe. Disseram para eu escolher bem com quem andava. Sigo o conselho até hoje.

Contei da Rô, minha mãe não escondeu o riso. E fomos dormir. Certeza que o delegado, depois de despachar os baderneiros-mirins, riu também.

A aula

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Gostava de ouvi-lo ensinar como funcionava o telefone. Eu sentadinha à mesa da cozinha, maravilhada com meu pai explicando coisas sobre voz, eletricidade e cabos. Suas mãos iam simulando, sobre a toalha estendida (a xadrezinha?), o caminho que a chamada percorria para ir de uma ponta à outra. Eu ficava maravilhada com a tecnologia e com meu pai, que sabia tanta coisa (ainda que não soubesse tanto assim). Cheguei a pedir-lhe várias vezes para repetir a “aula”.

Ontem liguei para ele. Seu Tonico não é, mas estava especialmente surdo. Pediu notícias das crianças, dei, não sei se ele ouviu; só soltou um Aaah. Contou-me que havia varrido todas as folhas secas pela manhã. Perguntei-lhe se havia almoçado direitinho. Ele continuou falando da varrição. Lembrei-me da velhinha surda d’A Praça é Nossa, aquele programa de TV. E ri. O script agora é outro.

Enquanto ele discorria sobre a trabalheira que as folhas lhe deram, lembrei-me da aula do passado. Meu pai ensinou-me sobre algo que, hoje, tem dificuldade para usar. Na nossa breve conversa, o meio era a mensagem.

E agora, quando o visito, sou eu que ensino a ele como funciona uma ligação pela internet. Apanho o celular na bolsa e ligamos para minha irmã, sua filha do meio, que mora em outro país. Ele tem telefone, mas não acerta ligar para ela, muitos números. E não adianta colocar o numerão na memória do aparelho. A memória que não funciona bem é a dele. Vou demonstrando a mágica da chamada. Mas não tem mais a mesa da cozinha, nem a cozinha. Nem as toalhas. Mas tem ele, feito criança, maravilhado com a tecnologia e comigo, que sei tanta coisa (ainda que não saiba tanto assim). E, assim que minha irmã atende, ele passa a falar muito alto no aparelho, como se fazia antigamente. Eu que não vou ensiná-lo que não precisa mais.

Mande lembranças

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arte: Rodvaz

Quando Fulano pediu a Beltrano que mandasse lembranças a Cicrano, Beltrano não sabia a quais, exatamente, Fulano se referia. Ninguém sabe essas coisas.

Seria a do último Natal que passaram em família, antes de o patriarca endoidar e resolver botar as pedras no bolso do casaco, e cujo resto da história só se soube no dia seguinte, quando Joca, o cachorro, latiu feito besta na beira do rio?

Ou, quem sabe, a lembrança dos tempos em que eram, os dois, irmãos inseparáveis, feito unha e carne, feijão e arroz? Um na pele do Homem Aranha e outro na do Batman, roubando os doces da mesa antes dos parabéns na festinha da prima.

Ou, então, aquela de quando, morando no velho casarão, brigaram feiamente por causa da gata de um que papou, feliz da vida, os canários do outro?

“Mande lembranças a Cicrano, quando o encontrar”. Pode ser que Fulano quisesse apenas lembrá-lo de que ele jamais o perdoara pelas botas – legítimas Stetson de bico quadrado e salto carrapeta que ele comprara com o salário de dois meses como empacotador no mercadinho – surrupiadas para ir ao baile do caubói da cidade, e nunca devolvidas, e que na ocasião Cicrano acabou beijando Mariana, o grande amor de Fulano. Por beijá-la ele até poderia perdoá-lo; pelas botas, jamais.

Beltrano ainda fala com os dois. É a ponte familiar, carcomida pelo tempo e que ninguém se atreve a atravessá-la. Beltrano, o portador de boas e más novas. O verbo de ligação. O irmão do meio, literalmente. Nunca mais se reuniram, os três. E não foi por causa de gatos, nem botas, nem gatos de botas.

Muitos mandam lembranças a alguém apenas para lembrar que ainda existem. Espécie de lembrete, “Ei, estou aqui”. Outros vivem mandando lembranças a esmo. Como frase vazia, a completar uma despedida banal. Por falta do que dizer. Para preencher de algum som o ar, vazio de assunto. Que pecado. Lembranças não deveriam ser enviadas em vão, eis um bom mandamento. O décimo-primeiro, quem sabe.

Plano de expansão

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Os vizinhos da casa 4 tinham telefone. Eu achava que eram ricos, os únicos da vila a terem um. Dona Antonia não se incomodava que passássemos aos nossos familiares o seu número – que, num desses mistérios insondáveis da mente, sei até hoje: 92-6405. Para o caso de um parente precisar comunicar, por exemplo, que alguém havia batido as botas.

Dona Antonia (imagino) cozinhando feijão para o almoço. O telefone toca, ela atende, Espere aí que vou chamar. Ela desliga o fogo, tira o avental, desce as escadas, toca a campainha do vizinho e avisa, Telefone para Fulano. Fulano, que assistia TV, a desliga; desce suas escadas, sobe as da Dona Antonia, entra na sala, Alô?. Um processo que podia levar cinco, dez minutos. Era bom que fosse coisa importante.

Apesar de eu ter reforçado às amigas que aquele era um telefone apenas para re-ca-dos, um dia a Adriana ligou. Pediu para falar comigo. Lá fui eu. Ela só queria bater papo. Eu fiquei desenxabida, em pé ao lado da mesinha, respondendo por monossílabos, bem baixinho. Tratei de abreviar o conversê e fui para casa, morta de vergonha. Dona Antonia, no entanto, nunca reclamava.

Telefone de recados, coisa mais antiga. Era comum alguém informar seu contato assim. Até em curriculum vitae. Significava que a pessoa não possuía telefone, mas contava com alguém para lhe prestar esse favorzinho.

Nossa casa só conheceu telefone na década de 80. Passei a infância e parte da adolescência me comunicando por sinal de fumaça. Eu tinha dezesseis anos e me recordo do técnico terminar a instalação e anotar a sequência mágica num papelzinho, para que não esquecêssemos: 948-3443. De fato, não esqueci. Quem disse que não sou boa com os números?

Foi meu irmão que o comprou, pelo plano de expansão da Telesp. Um carnê com intermináveis prestações. O interessado adquiria a linha e esperava, sentado, até dois anos (vinte e quatro meses; setecentos e trinta dias; dezessete mil, quinhentas e vinte horas) para que o telefone fosse instalado. Eu sonhava com o dia em que conversaria com meus amigos do sofá da sala. Fui várias vezes à Telesp, no Belém, fazer o pagamento. Tinha fila. Um ônibus para ir, outro para voltar. Quem, hoje, se sujeitaria a isso? Não se compra mais telefone desse jeito. É ir à loja (toda esquina tem uma) e sair falando. Aliás, falar ao telefone é coisa secundária, periférica, expressão arcaica. Ninguém pode dizer que o mundo não evoluiu. Quando ouço alguém falar que antigamente a vida era melhor, eu lembro do plano de expansão da Telesp. Telefone é coisa que marca a vida da gente. Até o ET precisou de um pra voltar pra casa.

Desde meu primeiro celular já tive vários números, mas o ringtone é sempre o mesmo: o bom e velho triiiimmm. Por razões de nostalgia assumida. Em casa já há mais aparelhos que seres vivos – contando os gatos. Cada um tem o seu (exceto os gatos), e os que vão sendo substituídos acabam nas gavetas, as crianças pegam para brincar. E ainda tem o fixo.

Quem diria. Dona Antonia, que morreu antes de o smartphone nascer, poderia finalmente cozinhar seu feijão sossegada. Nunca mais tive notícias deles. Também perdi a Adriana de vista, gostaria que ela soubesse que já posso conversar à vontade. Ganhei de aniversário, embora não precisasse, um aparelho novo – as gavetas estão cheias. Nunca mais decorei, em minha memória analógica, os números de ninguém. Nem dos filhos. Quem é que liga pra isso?

No mais, recordações à parte, tenho me dedicado aos meus próprios planos de expansão. Tenho um carnê com intermináveis ideias para quitar, o vencimento é todo santo dia. Atraso algumas, adianto outras. Mas vou dando meu recado.

Fantasia de gato

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ilustração: Jeff Haynie

Eu tinha doze anos. Costumava ir com meu pai buscar minha irmã na casa da amiga dela, à noite, depois do colégio.

É verdade que não íamos só meu pai e eu. Led, um frajolão digno de desenho animado, ia junto. Até que ele gostava de passear de carro. Se não gostava, disfarçava bem. Gato é bom na arte do disfarce.

Então íamos eu, meu pai e o gato fantasiado. É, fantasiado. Com tempo livre de sobra, eu inventava adereços para o bichano, especialmente para recepcionar minha irmã. Um dia, ele surgia com enormes óculos recortados em papelão. No outro, em um colete colorido feito com tecido, fitas e o que mais estivesse dando sopa na caixinha de costura da minha mãe. Se as pessoas se fantasiam de gato, eu tinha um gato fantasiado de gente.

Às vezes, confesso que notava alguma resistência dele em topar a brincadeira. Noutras, parecia até gostar. Talvez apenas se resignasse. Gato também é bom nisso. Mas só quando não tem outro jeito. Sabedoria felina.

Minha irmã jura que houve um dia em que ele foi de bailarino. Não me lembro. Só sei que para o Led era carnaval o ano inteiro – ao menos durante o período letivo. Logo ele, que ganhara esse nome em homenagem a uma das maiores bandas de rock de todos os tempos, o Led Zeppelin. (Originalmente, por impulso, escrevi a ‘maior banda’. Mas assim que digitei ‘tempos’, já havia achado uma injustiça com as outras. Corrigido está.)

À tarde, quando voltava das minhas aulas, eu me dedicava a criar as fantasias. Era raro repeti-las. Os amigos da minha irmã, que também ficavam por ali, na casa da amiga, aguardavam ansiosos a chegada do carnavalesco peludo. “Como será que seu gato vem hoje?”.

Minha irmã terminou o colégio, a carona noturna acabou. Acabou também a brincadeira. E o pequeno folião nunca mais vestiu fantasia. Alguns anos depois, ele se foi. Uma pena não termos registrado nem uma das produções. Tirar fotografia, naquela época, era só de vez em quando, nos casamentos, aniversários, viagens. Comprar o filme, bater as fotos, mandar o filme revelar na Fotobom (ficava a dois quarteirões de casa e o dono era um japonês simpático), buscar na outra semana. Como sobrevivemos à espera, quase uma eternidade, para ver como havia ficado uma foto?

O Led fantasiado seria, fácil, fácil, um gato-celebridade do Instagram. Antigamente, rede social era só a família, a parentada, os amigos da rua e da escola. E ele tinha mais de dez seguidores! Nós de casa (menos minha avó, que não gostava de gato) e os amigos da minha irmã. Hoje? Um milhão, estimo. A admiração ficou hiperbólica. Seu avesso também.

Temos, agora, um imenso inventário imagético virtual de tudo. Teremos, no futuro, mais e melhores lembranças do que hoje? Será a nostalgia mais rica quando, daqui vinte anos, nos depararmos com imagens do aqui e agora, das besteirinhas do dia-a-dia que a gente vai clicando a esmo?

Como será a saudade no futuro, com um presente hiper-registrado?

Tenho saudade dos gatos que viveram comigo desde que cheguei a este mundo. Foram tantos, tantos.

Vou construindo mentalmente meu vasto inventário gatístico, e boto na vitrola a melhor trilha para um carnaval: Black Dog, do Zeppelin. Só para provocar o cat que dorme na cadeira ao meu lado. Que não é o Led, mas bem pode ser, por conta das idas e vindas das almas ronronantes neste planeta. Não dizem que os gatos sempre sabem voltar para casa?

Crônica junina

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Precisei comprar vestido de caipira para a Nina, ela vai dançar quadrilha na festa junina da escola. Lembrei-me de uma loja perto de casa que costuma ter, assim eu escaparia dos shoppings. Poder estacionar em frente, e não na lonjura de um G5, é uma bênção em dias de pressa modo on.

Abro o vidro e, sem descer do carro, pergunto à senhora em pé, na porta: “Tem vestido de caipira?”. Se não tiverem, basta engatar a ré. “Temos, sim!”. Viva São João.

A senhora aponta a seção dos vestidinhos, e em seguida pede a um rapaz que assuma o atendimento. “Pode deixar, vó”. Ela avisa que vai almoçar e desaparece através da porta ao lado de uma arara com calças em promoção.

O rapaz conta que ela gosta de ficar ali, zanzando, ajudando. Na verdade, ela e seu avô começaram o negócio, tanto tempo atrás. Hoje ele toca a loja e eles moram ali, numa casa anexa.

Reúno meia dúzia de vestidos para a Nina experimentar. Enquanto ela desfila, vou duvidando que alguma garota que viva no interior se vista daquele jeito. Toda festa junina, tirando as comidinhas, é uma falácia.

O vermelho ficou bom?, tem um número maior?, crédito ou débito?, CPF na nota? Vendas são feitas de perguntas e respostas que se encaixam.

Reparo: o rapaz tem um sobrenome tatuado no braço. As pessoas costumam tatuar o primeiro nome do filho, da mãe, do pai. Sobrenome, primeira vez que vejo.

Obrigada, eu que agradeço, boa tarde, para vocês também. Na pressa, Nina esquece no provador o casaco que vestia. Só notamos depois, longe dali.

Apanho a bolsa, cadê a nota fiscal?, ufa!, tem o telefone da loja, pego o celular, ligo, explico, peço para guardar o casaco. Reparo: a razão social da loja é o sobrenome no braço do rapaz.

Final do dia, retorno à loja. O casaco esquecido está dobrado à perfeição, dentro de um saco plástico. Em qualquer outro lugar ele estaria amarfanhado sob o balcão, aguardando o resgate. Gentileza extra para a freguesa que tanta pressa tinha. O rapaz está certo em se orgulhar da sua dinastia – que batiza seu ganha-pão – impressa na pele.

Antes de sair, passo ao lado das calças em liquidação e tento ver a porta por onde a avó se transfere para o seu mundo paralelo. Não vejo. E se for uma passagem imaginária, como a que conduz à Nárnia? Faz sentido; em vez de apenas um armário com roupas, uma loja cheinha delas. Só que do lado de cá.

Eu bem que gostaria de ir para Nárnia. Mas só se lá tiver canjica.

Se a minha mãe tivesse Facebook

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Se a minha mãe tivesse Facebook quando eu era criança, não sei se ela seria do tipo que tudo publica acerca de seus rebentos. As fofices, as traquinagens, as frases engraçadinhas, as caretas, as dores, as delícias. Minha mãe era do tipo reservada. Mas quem resiste?

Considerando que a internet estivesse a todo vapor nos anos 70, imaginei a timeline da dona Angelina.

Em uma tarde de 1971, entre uma receita de cuscuz e uma mensagem do Chico Xavier, ela postaria que, para conseguir me fazer almoçar naquele dia, fora me seguindo da cozinha até o portão da vila onde morávamos. Eu, quatro anos, não queria comer. E, com a estratégia, eu ia passeando, ela ia me distraindo e eu papava tudo. Minutos depois choveriam os comentários das amigas, marcando a polaridade das opiniões: “Que absurdo!”, “Que gracinha!”. Ela me proibiria de zanzar durante as refeições ou não, conforme o que lesse?

Noutro dia, faria um post-desabafo contando que, em um momento de descuido seu, eu, aos cinco, assumira o controle da velha Lanofix e simplesmente arruinara a encomenda de tricô que ela preparava, e lhe garantiria alguns trocados no final do mês. Nos comentários, a torcida para que ela conseguisse recuperar o tempo perdido, tudo ia dar certo, calma. O apoio lhe daria ânimo para recomeçar do zero?

Ela também postaria, a título de diversão, que eu, aos sete e na intenção de imitá-la, coloquei um absorvente – o velho Modess, que nem de longe lembra os ultrafinos de hoje – e saí na rua, feliz da vida, desfilando o duvidoso volume na calça. Finalizaria o post com kkkkk. Emojis boquiabertos ilustrariam o feedback?

Só não sei se publicaria, num dezembro de vacas magras, que meu presente de Papai Noel fora um xampu Johnson’s (bem mais caro e raro que o Colorama – lanolina ou ovo – de todo dia). Mas era do grandão. Afinal, era Natal.

Ademais, ela rechearia sua página com fotografias de flores e das suas bordações, vídeos de valsas, truques para limpar manchas de molho de tomate, indignações a respeito do Led Zeppelin (“Mas isso é música?”).

Só sei que se a minha mãe tivesse Facebook, eu a seguiria por toda vida.

Saudade é a linha do tempo que não volta mais.

Tipo exportação

Cresci ouvindo falar em café tipo exportação. Laranja tipo exportação. Castanha de caju. Gasolina. Mulata.

Depois entendi.

Tipo exportação é quando a gente faz uma coisa que é bacana, mas precisa torná-la mais bacana, praticamente excelente, para poder vendê-la para outros países. (Entendi também que a mulata não deveria estar na lista.)

Ou seja: para fora, segue sempre o melhor.

Para dentro, não precisa ser o melhor. O bom já serve. O possível, o que dá.

Tem horas que concluo: eu sou uma pessoa tipo exportação.

Sou bacana, mas sou mais bacana ainda, praticamente excelente, para os outros. Sei dedicar carinho e atenção e gentileza às pessoas da minha família, as “de dentro”, mas acabo fazendo isso melhor para as de fora. As dos outros lares que fazem fronteira com o meu. Um lar é um país.

Tem dias que solto os cachorros em casa. Vocifero, esbravejo, surto por tudo e por nada.

Porém, se no instante de fúria doméstica o interfone toca e eu atendo, a voz recupera a maciez, “Tenho, sim, um ovo para emprestar. Levo aí!”. É a minha gentileza tipo exportação.

Quem nunca cuspiu fogo quando o namorado ou namorada faz um comentariozinho qualquer, questionando, por exemplo, seu empenho para arrumar emprego? Se, no entanto, é o professor da faculdade que lhe cutuca, além de aceitar a observação, agradece pelo toque… É a maturidade tipo exportação.

Nessas horas evoco Cazuza em livre e desesperada adaptação: por que que a gente é assim?

Se para a família e pessoas íntimas deveríamos, em tese, oferecer sempre o nosso melhor, o nosso excelente. Mas não. Estamos muito à vontade para escancarar nosso lado B. Mesmo que o preço seja uma carinha com superávit de tristeza no fim do dia.

Bom mesmo é ser do tipo importação. Do tipo “eu me importo com você”. Faz bem às relações. Até as internacionais.

Eu não quero saber o que é “Le Crabe”

Eu não sei o que diz a letra da música Le Crabe. Aquela, da Françoise Hardy. Aquela, que foi sucesso na década de 70 e até tema de novela da Globo. Eu não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe. Só sei que eu a ouvia numa fita K7 gravada pelo meu irmão. E ela passou a fazer parte do meu imaginário musical.

Dos Beatles, traduzi tudo que caiu nas minhas mãos. Sentadinha no sofá, encarte e dicionário ao lado, Lô-lôv-mi-du. O mesmo fiz com tantos outros. Le Crabe, no entanto, não. Recuso o spoiller até hoje. Nem quando entrei num curso de francês na PUC eu desejei traduzi-la. Nem quando minha irmã virou francesa; nunca lhe telefonei pedindo “Traduz pra mim?”. Fugi, fujo e fugirei sempre dos dicionários e dos tradutores instantâneos e também das pessoas que, embora bem intencionadas, já tentaram revelar o irrevelável. O amigo generoso mandou-me a tradução pelo Messenger. Excluí a mensagem. Sem dó, sem ler. Não é ingratidão. Só não quero destruir minha memória afetivo-musical.

Porque, no fundo, eu sei o significado da letra.

Os primeiros versos de Le Crabe, por exemplo, falam do risoto de ervilhas com palmito que tinha em casa, aos domingos. Um panelão enorme, pra durar até terça-feira, feito a quatro mãos pela minha mãe e minha avó.

Aliás, Le Crabe, que tem uma parte meio tristonha, fala da minha avó também. Que afogava gatinhos recém-nascidos no tanque quando a nossa gata dava cria, naquele tempo ninguém falava em castração. E a gata ia parindo. E a minha avó afogando. Se há alguma justiça nesse mundo de vivos e mortos, e se existe mesmo carma, dona Josephina há de estar no além trabalhando muito para compensar as maldades terrenas. Rodeada de gatos.

Já o refrão fala de quando meu pai recebia o salário no banco e passava na farmácia, para abastecer a casa com remédios, esparadrapo, Merthiolate, algodão. Ele chegava com uma caixa grande e sempre tinha Cebion. Que a gente comia como se fosse bala. Até hoje faço do mesmo jeito: não ponho na água, que isso é para os fracos. Descasco a pastilha e a encosto na língua, para senti-la efervescendo. Entre uma careta e outra, vou roendo devagarinho e adquirindo minha dose diária de vitamina C. C, talvez, de crabe – o que quer que isso seja.

Noutro pedaço, os versos falam das nossas viagens para Santos no Fusca, nos finais de semana. Sem cinto de segurança, sem protetor solar, sem dinheiro, sem garantias. Legítimos farofeiros. A tradução disso? Saudade.

É disso que fala a letra e pronto. E de mais uma porção de coisas. Le Crabe é, por sinal, uma das músicas mais compridas do mundo. Ela tem a duração da minha infância.

Por isso prefiro, em vez de escolher a obviedade do dicionário, atribuir significados particulares às palavras que não entendo e continuar sendo feliz com minhas memórias, ativadas ao primeiro acorde. Já pensou se descubro que Le Crabe fala de meleca de nariz, esquistossomose, loteria esportiva?

A ignorância pode ser uma bênção. Ou a senha para a liberdade.

Acho até que isso dá música.

 

“Le Crabe”, Françoise Hardy

DNA

dna

 

Nem só de cor dos olhos ou formato de nariz vive uma herança genética. Há num DNA muito mais dos antepassados do que se pode, cientificamente, mapear.

Eu era criança (nove, dez anos?) quando ouvi no rádio sobre um concurso de redação. As melhores ganhariam um prêmio. Fiz a minha, caprichei na letra e na história. Mandei pelos Correios, direitinho. E esperei, confiante, meu nome ser anunciado no programa.

Semanas depois, chegou uma cartinha. Eu não ganhara o prêmio; minha redação era bonita, mas não tanto. Porém, havia um brinde, um prêmio de consolação para os participantes. Bastava retirar no endereço tal, tal dia. Pedi para meu avô me levar, era longe.

Lá fomos, de ônibus, buscar meu presente. Meu avô conhecia todas as ruas do mundo.

Chegando ao lugar, procura, procura, que número é mesmo? E eu repetia, afinal, havia decorado o endereço. No outro quarteirão, talvez? Às vezes, a numeração é quebrada. Nada. Foi quando meu avô resolveu perguntar:

– Mas não é rua Cachoeira?

– Não, vô. Rua João Cachoeira.

Uma fica na zona leste de São Paulo, no bairro Catumbi. A outra, zona sul, Itaim Bibi. Qualquer rima será apenas mera coincidência. Nem toda queda d’água vem com nome próprio.

Quando se deu conta de que estávamos no endereço errado, ele não escondeu a raiva, o desânimo, a preguiça, o ódio, a ira, a fúria, a cólera. Vô Paschoal, filho de italianos e torcedor do Palestra, bufou bonito. Bufada impaciente, os lábios apertados e os olhos revirados como quem buscava o céu e, ao mesmo tempo, mandava concurso, redação, prêmio e, eventualmente, eu ao inferno.

Da nossa casa, na Mooca, até o Catumbi deve ter levado bem quarenta minutos. Do Catumbi até o Itaim Bibi, no mínimo, mais uma hora. E ainda teríamos a volta. O dia do meu avô fora para o beleléu. Bufada, portanto, plenamente justificada.

Algumas conduções depois, e agora na cachoeira certa, achamos o local. Era uma loja de roupas. Meu avô nos identificou e em poucos minutos eu estava com meu prêmio de consolação em mãos. Um pequeno estojo escolar feito em jeans – a confecção era patrocinadora do concurso. Simples, o fecho era um botãozinho de pressão. Cabia meia dúzia de canetas. Lembro-me bem da etiqueta: Buzzy. Mas não tenho certeza dos dois zês. Voltamos para casa em silêncio, só quebrado por outras bufadas silenciosas que se seguiram durante o trajeto. E eu com meu novo estojinho no colo. Que foi usado por vários anos. Uma forma, talvez, de fazer valer a pena a trabalheira que meu avô tivera.

Lembrei da história porque, dia desses, as crianças aprontaram alguma – sem envolver logradouros, nem itinerários – e eu me flagrei bufando i-gual-zi-nho ao vô Paschoal. Eu, bisneta de italianos e torcedora de time nenhum, bufei bonito. Bufada impaciente, os lábios apertados e os olhos revirados como se buscasse o céu e, ao mesmo tempo, mandasse a cria ao inferno.

Vi, num lampejo, o velho rádio que ficava na cozinha, vi o estojinho ordinário de jeans com botãozinho de pressão, vi os ônibus, vi João, vi cachoeira, vi a decepção no rosto do meu avô. (Só não vi a redação; daria meu reino para poder lê-la, hoje.)

Se quando eu chegar ao céu, que é onde meu avô mora desde 4 de fevereiro de 2005, ele ainda quiser tirar essa história a limpo, serei irredutível: “Eu disse João Cachoeira, vô. Você que entendeu só Cachoeira”. Bufaremos juntos – e rindo, espero.

Porque nem só da cor dos olhos ou formato de nariz vive uma herança biológica. É também no código genético de um bufar, ou de uma saudade, que se reconhece os seus.

Sobre a carta para a Maria

Mês passado eu arrumava umas coisas aqui em casa – livros, papéis, fotografias antigas – e encontrei uma carta da minha mãe para a Maria, parente nossa. No cabeçalho: “São Paulo, 17 de dezembro de 1980”.

Ontem foi 17 de dezembro de 2015.

Não sei se ela chegou a enviá-la. Pode ser que sim, e a que encontrei aqui, escrita em três páginas de papel almaço pautado, seja o rascunho, já que tem uma pequena rasura. Pode ser que tenha até recebido resposta. Pode ser também que ela, por algum motivo, não a tenha enviado. Desistiu, esqueceu, escreveu outra. E essa acabou ficando guardada. Inexplicavelmente intacta, resistindo ao tempo, às mudanças e às traças.

Ainda se usa papel almaço?

Quem ainda escreve cartas de três páginas?

E quem ainda escreve cartas, ainda as passa a limpo?

Sei que não se deve ler a correspondência dos outros. Mas, a esta altura e neste caso, há de ser um crime prescrito, e perdoado. Eu devorei a carta.

Dona Angelina fez só o primário, mas dominava um português acima da média para a pouca formação. Ela gostava de ler. A leitura geralmente salva da falta de escola.

A carta é longa. Ela vai contando como estão as coisas em casa, chora as pitangas, desabafa. Mas dedica um parágrafo para cada filho – meus irmãos e eu – a fim de atualizá-la das boas notícias. Está lá que passei de ano e fui para a oitava série. Eu tinha treze. Hoje, tenho quarenta e oito. Apenas quatro a mais que ela, quando escreveu a carta. E a diferença entre a vida dela e a minha é abissal. A começar pelas cartas: eu não as escrevo mais; confio minha correspondência – afetiva, social, profissional – aos comunicadores instantâneos. Como pode, entre uma geração e outra, caber tanta mudança?

Ela segue a narrativa carinhosa, manda lembranças para todos, um por um, deseja feliz Natal. Não me recordo se elas se viram nos sete breves anos que minha mãe teria pela frente.

Mas a carta não é minha, pertence à Maria. Não fazia mais sentido mantê-la. Então ontem, trinta e cinco anos depois de minha mãe tê-la escrito (e a enviado, ou não, talvez nunca saiba), eu a coloquei nos Correios. Fiz questão de aguardar a data exata; assim, o círculo do tempo se completará. Chegará nos próximos dias, enfim, à destinatária, como chegaria (chegou?) em 1980. Resolvi colocar uma cartinha minha junto, para que a Maria entenda a história toda. Aproveitei e a atualizei – como fez minha mãe naquele dia – das notícias de cá; há muito também não nos vemos.

Maria vai receber uma carta (inédita ou não) dentro da outra. Da pessoa que saiu de dentro da Angelina. O mundo é cheio disso, se a gente reparar bem. Tudo contém e está contido.

No final das contas, a vida é uma espécie de carta de nós para nós mesmos. A autocarta que está, a todo momento, sendo escrita e entregue. Nem sempre lida direito. Raramente respondida a contento.

A casa morta

fotos: arquivo pessoal

No último dia do ano passado fui lá.

Fui buscar a velha Lanofix. Fingi que ia só para isso. Mentira. Fui para ver a casa morta. A casa onde nasci e cresci. Fechada há sete anos, desde que o último de seus sete habitantes se mudou de lá. Três deles não precisam mais de casa: meu avô, minha avó, minha mãe. A tríade que, em parte, me justifica.

A casa número 1 da pequena vila na Mooca está à venda. Ninguém quer comprar. Pudera. Quem quer uma casa morta? Morreu de solidão, depois que todos nós saímos. O reboco de algumas paredes cedeu. Sua pintura está descascada. A casa morta não tem mais pele. Nem carne. É apenas um esqueleto sem ânima. Ossos sustentando, sem vontade, um punhado de coisas importantes, além da Lanofix, inexplicavelmente largadas para trás: o carrinho de mão do meu avô, a enceradeira tão grande que nós “passeávamos” nela em dia de faxina. Meu violão, comprado no Mappin em três prestações. Os santos, hoje carcomidos, no quarto dos meus avós. No chão da sala ainda está o antigo telefone, daqueles de tecla. Penso que ele pode tocar a qualquer momento. Não sei se eu o atenderia.

Lanofix era a máquina de tricô da minha mãe. Ela fazia roupas de bebê para vender. Até a ‘ajudei’, quando criança, arruinando uma encomenda inteira. Depois de grande, aprendi a usá-la direitinho e fiz várias roupas para mim. Acabou esquecida em um dos armários. E no último dia do ano passado foi dia de buscá-la. Visitar a casa vazia foi como exumar as lembranças e reencontrar meus fantasmas de lã.

Tive algum medo de entrar na velha casa desdentada, de puro osso. Medo de ver coisas esquisitas, gente flutuando. Dizia para mim mesma: “A Lanofix, Silmara. É só trazer a Lanofix e pronto”. Funcionou, pois não vi nada, nem ninguém. Todos os fantasmas haviam saído. Houve uma hora, no entanto – é preciso contar, ainda que ninguém acredite – , em que eu já estava fora da casa e uma porta rangeu lá dentro. Não ventava e as janelas estavam fechadas. Eram eles, voltando.

No quarteirão, antes feito de casas, agora se vê um monte de edifícios. Do meio da vila, que no passado já teve um jardim com limoeiro, seringueira e pé de mexerica, antes de dar espaço aos carros dos moradores das quatro casinhas geminadas, eu digo aos pálidos prédios erguidos ao redor: “Vocês não sabem de nada”. Não sabem que foi nessa casa, em 1957, que meus pais fizeram sua festa de casamento, no quintal. (Vejo as fotos e custo a crer que coube tanta gente ali. Hoje, nele, mal cabemos minhas memórias e eu.) Não sabem que foi no quarto da frente que meu irmão nasceu, dois anos depois. Não sabem que nessa vila organizei, numa tarde qualquer dos anos 70, a festa de batizado para nosso gato Tommy (que ganhou esse nome em homenagem ao musical – nada como ter irmãos roqueiros), e um bocado de gente compareceu. Não sabem, aliás, dos amados bichinhos de estimação, entre cães, gatos e passarinhos, enterrados nela (inclusive o Tommy). Não sabem que naquela casa ganhei meu primeiro sutiã, e que ali minha mãe chorou o seio tomado pelo câncer. Prédios bobos, não sabem nada de nada.

E eu não sei mais usar a Lanofix. Mesmo assim, a trouxe comigo para minha casa viva. Está abrigada em sua elegante caixa verde. Talvez eu consiga, na internet, o manual dela. Talvez a opere, na intuição, e consiga tricotar alguma roupa nela novamente. Talvez eu ligue os pontos que faltam na trama da minha história. Talvez.

Verbo familiar

arte: Juliana Moraes
arte: Juliana Moraes

Agendar consulta das crianças na pediatra. Inspecionar orelhas do mais velho. Desembaraçar os cabelos da mais nova. Tirar dente mole dos dois.

Comprar os remédios do meu pai. Certificar-me que suas meias e cuecas estão em ordem. Levá-lo para cortar os cabelos e, na volta, passar no mercado para ele comprar bolachas.

Da matrioska, sou a boneca do meio. Cuido da boneca de fora, a que veio antes, e de onde vim. Cuido das que vieram depois, saídas de mim.

De mim, quem cuida?

Eu mesma agendo minhas consultas e nos dias marcados pego meu carro e vou. Lavo minhas orelhas, decido meus cabelos e, sem ninguém mandar, escovo os dentes – surgidos, tanto tempo atrás, em substituição aos meus moles. Não preciso de remédios; precisasse, os tomaria na hora certa. Determino o que entra e o que sai de meu guarda-roupa. Administro minhas próprias bolachas.

Encravado entre a infância e a velhice, o adulto é a peça autocuidante. No meio do jogo, é o presente, cuidador de si, do futuro e do pretérito.

O futuro, da vida, pensa que sabe tudo.

O pretérito sabe, efetivamente, tudo. No entanto, em triste gerúndio, vai se esquecendo.

O presente arde no desejo imperativo de tudo saber. Efetivamente, nada sabe.

São todos imperfeitos.

E isso é infinitivamente mais-que-bonito.

A verdade sobre comer, rezar e amar

arte: Paul Downey
arte: Paul Downey

Há no mundo um exército dedicado a nos convencer de que cozinhar é uma experiência próxima ao nirvana, o maior ato de amor, a epifania máxima.

Cozinhar pode ser literalmente delicioso, quando rotina, obrigação e horário não estão na parada.

No combate ao mimimi culinário, minha colher de pau e eu estamos aqui para lhes dizer, ó chefs afetivos, que o negócio não é bem assim.

A magia de poder preparar no fogão o alimento da ou das pessoas amadas, embora real, não se aplica a quem precisa fazê-lo todo santo dia, sob a vigilância implacável do relógio e da agenda.

Fora isso, é, de fato, estimulante preparar aquele peixe com molho de não-sei-o-quê guarnecido com lascas de não-sei-que-lá junto com os amigos. Fora isso, faz sentido sovar longamente a massa do pão integral e esperar, como numa gestação, que ela cresça, forte e bela. Fora isso, dá vontade de fotografar o cuscuz lindão e postar no Instagram. Fora isso, pinta alegria ao ver como o bolo de cenoura ficou fofinho e as crianças vibram ao saber que vai ter cobertura de chocolate também.

Há dias – não  poucos – em que cozinhar resume-se a um ato mecânico, necessário para cumprir o protocolo diário (em especial de quem tem filhos pequenos) e atender a uma necessidade fisiológica, sua ou de outrem. Uma pitada de carinho, às vezes nem isso, porque a cabeça está em outras paragens, e pronto. Todos alimentados? É o que importa. Vamos, estamos atrasados.

Há dias – muitos – em que não há poesia alguma no ato de cozinhar. Como naqueles onde eu preciso correr para preparar e servir o almoço a tempo de as crianças não se atrasarem para a aula. Não há ternura possível na produção da torta de legumes quando o relógio, cinicamente, parece andar no fast-forward. Não posso impregnar o suflê, o arroz, o feijão e a salada com boas energias se não avisto mais o fundo da pia, a ajudante ligou dizendo que não vem e a reunião é às duas.

E mais: haja amor e criatividade para compor cardápios diários balanceados com proteínas, leguminosas, carboidratos, hortaliças e tudo que a pirâmide alimentar exige. Quisera ser faraó e viver embalsamada para não ter mais que decidir o que vamos comer. Peço perdão pelas fadas que sepultei, recorrendo ao velho Miojo. Não resta dúvida de que serei exemplarmente condenada pelo fadicídio, quando estiver diante de Deus prestando contas.

Nessas horas, penso que sou uma espécie de alien que pariu. Passo a me autoclassificar como mãe desnaturada, relapsa, sem coração. Mas há algo bastante errado quando o significado de férias é não precisar fazer varejão. Se minha relação com os brócoles, as cenouras e os tomates anda desgatada, lanço mão do self-service. Nem toda cozinha industrial será castigada.

O lirismo permanente do ato de cozinhar, tão declamado pelos soldados da comida afetiva, fica bonito no cinema, na fotografia com frase de efeito que circula no Facebook, na prosa do Mia Couto. Mas quase não combina com o meu dia-a-dia de gente normal. Só de vez em quando.

A Copa do meu mundo

Arte: Juliana Alia
Arte: Juliana Alia

Fecho os olhos com força: eu, três anos recém-completos. Minha mãe estourando pipoca na panela. Do meu ponto de vista, o fogão é mais alto que eu. Ela desliga o fogo, transfere a pipoca para uma vasilha, pulveriza o sal, encosta a porta que dá para o quintal e me chama, “Vamos?”. Para a sala, nos juntar aos outros. A partida vai começar. Ou já começou. Ou está no meio. No fim. Não importa.

Copa de 70, México.

Não sei se a pipoca antológica foi no dia do primeiro jogo, quatro gols em cima da Tchecoslováquia. Ou se foi quando fizemos um a zero contra a Inglaterra. Ou no dia dos três a dois na Romênia. Pode ser que tenha sido quando o Peru perdeu da gente por quatro a dois, ou quando vencemos o Uruguai por três a um. Quem sabe, foi no dia da épica final: quatro a um na mais-que-bela Itália, e a Jules Rimet era nossa.

Só sei que é na cozinha que moram as melhores lembranças.

Hoje o Brasil enfrenta o México. Não tem Pelé, nem Jairzinho, nem Gerson, nem Tostão, nem Rivelino. Tem outros. E tem pipoca, também. Pipoca é quando o milho faz gol.

Eu tinha uma Susi Mexicana. Susi é a irmã brasileira da Barbie, nascida no final dos anos sessenta, e já falecida. Ela vinha com uma roupa típica e tinha o pescoço mais longo que das outras Susis. Cresci achando que todas as mexicanas eram pescoçudas. Nunca fui ao México. Mas li que havia pipoca nas pirâmides astecas, há quatro mil anos.

Esta é a décima segunda copa da minha vida. Há sete sou órfã da pipoca materna. E o mundo é tão redondo que hoje, n’alguma cozinha deste país, haverá uma menina de três anos aguardando sua mãe terminar a pipoca, não mais de panela, mas de microondas. Ela vai transferi-la para uma vasilha, pulverizar o sal, encostar a porta da cozinha que dá para o quintal e chamá-la, “Vamos?”. Ela irá. Tem sempre uma partida começando.

O dia em que não jantei com Carpinejar

arte: Robin Ator
arte: Robin Ator

Quatro anos atrás, estive no Festival Internacional da Leitura, aqui na cidade. Por causa dele: Fabrício Carpinejar. Ninguém em casa quis ir, fui só. Prometi voltar logo, só queria vê-lo. Jantaríamos todos juntos depois, marido, cria e eu. Era dia de pastel. Praticamente dia santo.

Depois de ouvir por quarenta e cinco minutos o poeta tuitar seus pensamentos, apresentei-me, pedi autógrafo. Ele assinou a primeira página de “Mulher perdigueira”, trocamos dois dedos de prosa. Contei que minha amiga era a organizadora do evento e coisa e tal. Foi quando ele falou. Dali sairiam, ele mais não-sei-quem, talvez a amiga incluída, para jantar. Pizza.

– Vem com a gente?

Tinha o pastel. Como ligar em casa e dizer, “Ó, vão jantando. Vou dar uma saída.”?

Como explicar aos pequenos, então com três e seis anos, quem era aquele homem de sapatos vermelhos que subtraíra a mamãe do pastelaço em família?

E como declinar o convite para um petit comité com o vencedor do Jabuti? Uma desfeita literária imperdoável, passível de castigo dos fantasmas da academia.

Fiz o que não o coração, mas talvez o fígado, o rim ou o pâncreas mandou. “Não dá, Carpinejar”. Contei-lhe. O poeta compreendeu. Ou fingiu que compreendeu. Os poetas ainda são fingidores?

A caminho do estacionamento, eu não estava só. Juntaram-se a mim o anjinho e o diabinho, aqueles minisseres que vivem de aconselhar. Empoleirados em meus ombros, seguiram dando pitacos. Assim que dobrei a esquina, a eles juntaram-se outros, e mais outros, formando em meus ombros uma comitiva, quase uma convenção de porta-vozes do certo, do errado, das possibilidades e tentações em geral. Eu mal caminhava, tanto peso. A ordem inteira dos querubins versus a trupe do tinhoso. Quando contei, já eram uns vinte de cada partido. Todos arrulhando ao mesmo tempo ao pé do meu ouvido. E eu só queria achar o canhoto do estacionamento, perdido na bolsa.

– Vai, boba! – dizia um.

– Mas tem as crianças… – outro ponderava.

– Quem é esse Carpinejar? – o lá de trás queria saber.

– Aquele que pinta as unhas. – algum respondeu.

– “Mulher perdigueira” nem é tão bom assim.

– Gostei mais de “Canalha”.

– É, “Canalha” é genial.

– Vai ter pastel de quê?

– Chiu! – ordenei. – Vocês não sabem de nada. Combinei de jantar com a minha família e é o que vou fazer. Eles estão me esperando.

Um a um, foram todos desaparecendo. (No fim das contas, todos tinham razão. Não havia certo ou errado.) Pude ouvir, ao longe, um deles em provocativa cantarolação, “Tá com vergonha, tá com vergonha”.

Pode ser. Pode ser que eu tenha ficado com vergonha de ir comer pizza com o Carpinejar. E o medo de sorrir com manjericão nos dentes?

Cheguei em casa e contei ao marido, que estranhou: “Devia ter ido.”

Quatro anos depois da não-pizza, metade arrependida, metade conformada, ainda penso. Paciência. Bobagem fritar os miolos por causa do convite derramado.

Com açúcar, com afeto, sem chantilly

Arte: Dabs
Arte: Dabs

O doce mais doce que o doce de batata-doce é o doce do doce de batata-doce. Certo? Errado. É o pêssego em calda. Ao menos, no quesito doçura-afetiva particular, é. Seu quase formato de coração há de justificar.

Só tinha pêssego em calda muito de vez em quando. Aniversário, data especial, comemoração, dia de pagamento. Era coisa de rico. Se acontecia de ter chantilly para acompanhar, virava banquete. Aliás, chantilly também era uma extravagância. Reis e rainhas, eu tinha certeza, comiam as duas coisas todos os dias, no almoço, no jantar e no lanche da tarde.

Primeiro, o furo inaugural. Em seguida, o roque-roque do abridor ao redor da lata mágica, revelando que a alegria vem do açúcar – ou vice-versa. A lata, só uma por ocasião, tinha que dar para todos. As metades eram minuciosamente aferidas e divididas. Não me lembro se tinha briga quando a partilha era inexata. De exata, apenas minha felicidade. A gente alça uma coisa à qualidade de transcendental quase que por nada. Um pêssego em calda é um pêssego comum, só que com roupa de festa.

Não sabia como o deixavam daquele jeito, tão amarelo, nem por que tinham que ficar partidos ao meio. Até hoje não sei, não quero saber e, admito, tenho raiva de quem sabe. Um pouco de ignorância dá o tom à fantasia. (Quando descobri que os maravilhosos pontos de luz cor de âmbar que sinalizavam as estradas em obras, à noite, não passavam de baldes de plástico cor de laranja com uma lâmpada dentro, foi uma decepção. Nem todo mistério precisa ser desvendado.) Eu nunca vou ler uma receita de pêssego em calda. Não me conte – tapo os ouvidos, lalalalá – , porque não pretendo reproduzi-los. Não se faz remake de um clássico.

Ontem fui ao supermercado. Passei reto pelo corredor dos doces. Já ia dobrando a esquina quando parei. Voltei, alcancei uma, não mais que uma lata. Não comprei chantilly, que nem precisa. A felicidade, que já custou mais, hoje sai por cinco reais e oitenta e nove centavos.

E, curiosamente, ainda me é tão cara.

As árvores

Arte: Adrian McO-Campbell
Arte: Adrian McO-Campbell

No caminho da escola Nina, sete anos, vai perguntando quem é o quê na família. Vou explicando que meus irmãos, as irmãs de seu pai e os respectivos companheiros são seus tios e tias. E que os filhos de todos esses, meus sobrinhos, são seus primos.

Hoje estamos só eu e ela. Olho pelo retrovisor e quase posso ouvir sua cabecinha trabalhando, estabelecendo as conexões da nossa frondosa árvore genealógica que, passadas gerações, uniões, desuniões e novas uniões, já deve ter formado uma bela floresta. Pensa que é fácil entender como é que a gente é, ao mesmo tempo, mãe, filha, neta, bisneta, prima? Uma miscelânea de parentescos para explicar um único personagem, em um único galho da imensa árvore.

Quando eu tinha a idade da Nina, gostava de fuçar os álbuns de fotografias da família. Via a galeria de rostos conhecidos e outros desconhecidos – entre estes, alguns causadores da minha existência. Acostumei-me a ver os antigos em preto e branco, como se assim eles fossem na vida real. Pensava quem mais, além de mim, teria um bisavô sem cor.

Nina já sabe, mas quer confirmar: “O Bruno é o quê seu?”. Ter um enteado é como parir ao contrário; é filho que não sai pela barriga, mas entra pelo coração. Conto que ele tem mãe, a ex-esposa de seu pai, e outra irmã, filha do marido de sua mãe e que, apesar disso, não é sua irmã. Agora dei nó. Logo esquecido, assim que ela manifesta seu desejo para que Bruno, quinze anos mais velho, tenha filhos. “É que eu quero ser tia logo”.

Quando explico sobre as esposas e maridos dos cunhados e cunhadas, ela solta: “Mas então eles não são assim tããão da família, né?”. Eu rio. E penso duas vezes antes de registrar isso aqui.

Ela segue, querendo saber de todos. Conclui que para ter filhos é preciso se casar. E eu concordo. Para quê complicar, se estamos somente a três quarteirões da escola?

Já no topo da nossa árvore, agora ela pergunta se os que se foram conseguem vê-la. Digo que sim. Simplesmente porque não poderia afirmar que não. E também porque a vida fica mais bacana assim.

Estaciono, ela se prepara para descer. Antes, confere as trancinhas cor de rosa (ganhou ontem um spray de cabelo). Apanha suas coisas, me dá um beijo e vai. Esquece que brigamos feio um pouco antes, e eu esqueço também. As rodinhas de sua mochila vão arranhando o cimento da calçada e, em coro com as dos outros alunos que passam, compõem a trilha sonora do meu começo de tarde. O chão está forrado de pitangas maduras e esquecidas, caídas do enorme pé em frente à escola. Todo fruto é filho de um fruto anterior. As árvores também têm sua árvore genealógica. Bem mais simples que a nossa.

Espio até que ela entre pelo portão. É bonita, a filha do meu marido, irmã do meu primogênito, bisneta dos meus avós e, quem sabe, mãe dos meus netos. Os daquele galhinho, que ainda nem brotou.

O tempero da minha mãe

Arte: Mariana Leme
Arte: Mariana Leme

Junte cebola, alho, cheiro verde, óleo e sal. Ponha tudo no liquidificador e bata bem. Despeje a mistura em vidros vazios, tampe-os e leve-os à geladeira. Use para refogar qualquer coisa. Em cinco ingredientes, eis a receita das minhas lembranças. Rendimento: uma infância inteira.

Dona Angelina preparava o próprio tempero. Para economizar tempo e dinheiro – talvez mais dinheiro que tempo. Lembro do óleo aquecendo na panela, afoito, esperando pelo tempero, que vinha em generosa colherada. Quando eles se encontravam, era uma farra, chiiiiiii. A casa inteira ficava sabendo do abraço dos dois. Logo em seguida, chegavam os grãos de arroz, lavados e escorridos. Noutra panela, outra farra, agora com centenas de feijões recém-cozidos na pressão. Era sempre festa no fogão da minha mãe. Na cozinha, sua oração. E o tempero, artesanal, era sua pegada. O rastro saboroso pontuando o alimento que nos fez crescer, feito planta.

Bem que tento. Mas é impossível reproduzir o tempero dela. Por mais que eu siga o modo de fazer (afinal, cebola é cebola, alho é alho), falta um ingrediente etéreo, invisível, secreto. Falta ela.

Liquidifiquei minhas recordações no turbilhão impiedoso do tempo. Misturei tudo, Natal com Páscoa, aniversário com Dia das Crianças. Mas o aroma do tempero dela está bem guardado no nariz da minha memória. De vez em quando, ele surge d’algum vento brincalhão. Inspiro o quanto posso, para tentar retê-lo e guardá-lo num vidro bem tampado, à prova de despedidas. Se eu fosse descrever a cor desse cheiro, seria verde.

Será que meus filhos terão alguma reminiscência da maneira como tempero nossa comida? A gente nunca sabe o momento, exato ou inexato, em que vai entrar para o rol de lembranças de alguém. Qualquer ação ou atitude podem virar protagonistas; preciso me lembrar disso, para caprichar mais nas coisas.

Será que, n’algum momento da vida, eles tentarão recuperar algum sabor de suas infâncias? Experimentarão, quando grandes, algo que não tenha sido feito por mim, fecharão os olhos por alguns segundos e se pegarão dizendo “Parece a torta de legumes da mamãe” ou “É igual ao creme de abóbora que ela fazia”?

No fundo, a gente quer é ser lembrada. E o alimento é a memória afetiva mais forte que existe. É o primeiro presente que ganhamos, ao nascer. Onde fica a boca do mundo?

Tantas coisas faço igual à minha mãe, e nem sei que faço. É a herança genética e silenciosa, a perpetuar a nossa espécie e algum tipo de amor. Talvez eu dobre roupas como ela, talvez eu lave pratos como ela, talvez eu abotoe um vestido como ela, talvez eu tenha um jeito de mexer nos cabelos como ela. Talvez até meu tempero guarde em seu DNA a centelha materna. Não podemos mais medir nossas semelhanças em tempo real. É uma constatação, não um lamento.

Há quatro vidros repletos de tempero na geladeira, fiz no comecinho do mês. Ficou bom. Mas não é igual ao dela. É idêntico a mim. Sou eu, deixando a minha pegada no caminho da minha gente.

Crônica de viagem #1 ou Família, a sagrada

sagrada familia tio tomas
Arquivo pessoal

Saio do hotel, estou a pé. Bastam uns quarteirões e eu surjo diante dela – e não ela diante de mim, sejamos humildes. A igreja da Sagrada Família é obra em eterno e santificado progresso. As gruas, incorporadas à paisagem de Barcelona, viraram extensões do projeto original. Ninguém se incomoda com elas, nem os pombos que ali fazem suas titicas. Tampouco Gaudí, dono dos traços, se amofinava com a demora na entrega. Dizem que, a quem lhe questionava sobre os prazos, ele respondia: “Meu cliente não tem pressa”.

Tio Tomás era espanhol, de qual cidade não sei. Casado com a tia Cida, que era irmã de meu pai. Os dois morreram há tempos e, como não tiveram filhos, a história do casal cessou ali, numa espécie de pretérito imperfeito. Não tinha mais ninguém para conjugar a família.

Próximo demais dos barulhos da segunda guerra mundial, ele ficara surdo. Escolhera o Brasil como pátria e era barbeiro da parentada toda. Mesmo quem não o visitasse com essa intenção, saía de sua casa com barba, cabelo e bigode feitos. Ele fazia questão. Hipocondríaco inconfesso, apresentava, orgulhoso, sua extensa farmácia a qualquer um que desse mole. Tocava sanfona, herança que tentou transmitir à afilhada, minha irmã. Mas ela não se interessou. Mais tarde, na faculdade, já órfã de padrinhos, ela aprendeu, dentre tantos, sobre o arquiteto catalão. O da igreja. De um modo ou de outro, a vida dá sempre um jeito de nos entrelaçar.

Apesar de querido, depois que minha tia morreu ninguém na família adotou o tio Tomás. Ele foi ficando de lado. Foram todos cortar cabelo noutro lugar. Ele continuava esperando pelas visitas. Também não tinha pressa. Um dia, não sei de quem partiu a ideia, alguém apareceu e o levou de volta à sua terra natal. Nunca mais o vimos. Foi aqui que ele morreu, nem sei direito quando, nem onde, junto aos seus. Como se os ‘seus’ não fôssemos também nós.

Em Barcelona, vejo meu tio Tomás em todo canto. Nos vovôs que passeiam pelo Parque Güell e nos comerciantes das Ramblas. Nos ruidosos senhores reunidos em charmosos restaurantes, afundando seus churros em espessos chocolates quentes. No exausto homem-estátua da avenida Diagonal. Tenho devaneios em catalão e saudades em português. E desconfio que nossa família, também em eterna construção, nunca foi tão sagrada assim.

Dos panos e dos pratos

Um enxoval – conjunto de coisas que as mães preparavam (preparam?) para suas filhas ao longo dos anos (muitas vezes, a partir do momento que imaginavam uma menina em seus ventres), com o propósito de abastecê-las para uma futura vida a dois – é legítimo cumpridor de algumas funções.

Da economia: poupava a noiva da compraiada que se fazia mister por ocasião de um casamento. Roupas de cama, mesa, banho e intimidade custavam (custam) uma nota. E, antigamente, não tinha essa de noivas modernas e autossuficientes que dispensam até o chá-de-panela.

Da solidariedade: à família (entenda-se: mães, tias, avós) cabia ajudar na montagem do novo lar, mandando uma coisinha ou outra para dar uma mão aos pombinhos.

Do legado afetivo: no enxoval da moça casadoira sempre havia (há?) uma toalhinha de crochê feita pela mãe, um jogo de toalhas bordadas pela madrinha, uma colcha que fora da bisavó. Era uma maneira de perpetuar a presença dos ancestrais, marcar o território sentimental, garantir a herança amorosa.

Uma das funções do enxoval, no entanto, é tão fundamental quanto desapercebida. Modesto ou sofisticado, com centenas de peças ou meia dúzia, um enxoval é capaz de, muito tempo depois do emblemático ‘sim’, ativar as mais poderosas lembranças, detonar uma viagem no tempo ou, simplesmente, causar saudades.

Apanho um pano na gaveta, preciso secar uns pratos para por a mesa. Passo os dedos em seu bordado de azul e vermelho. Faço um breve carinho na bainha, certamente feita na velha Singer de pedal. Ou será que já era a elétrica? Nisso que dá ter muitos anos de vida, como desejaram tantos parabéns: acabo misturando as épocas.

Quando pequena, em nove a cada dez vezes que eu subia na casa dos meus avós (a nossa era na frente; a deles, atrás), lá estavam eles a trabalhar em seu improvisado miniatelier de panos de prato. Numa simbiose conjugal, meu avô comprava a sacaria bruta e a alvejava; minha avó cortava; os dois os bordavam dia e noite; ela fazia as bainhas depois; ele vendia tudo na feira. Certas memórias nem precisam de fotografia.

Para bordá-los, meu avô separava os fios e os estendia em intermináveis meadas que iam de uma ponta a outra do estreito e comprido quintal (quando cresci, deixou de ser comprido; a infância maximiza tudo). Depois de prontas, o esquema do motivo era simples: uma carreira de pontinhos numa cor, outra carreira em outra cor, intercalando tudo. Eu não podia brincar no quintal quando ele estava no vai-e-vem das meadas. Vez por outra eu o desafiava. Ele rosnava com seu sotaque ítalo-brasileiro. Quase posso ouvir os chinelos do Vô Paschoal indo, voltando, indo, voltando. Algumas recordações são tão barulhentas.

Fato é que, na partilha do espólio familiar, alguns dos panos de prato ficaram comigo. Os que sobraram da tentativa de enxoval que minha mãe fez para mim. Outros devem ter ido para minha irmã. Meu irmão, acho, não ganhou nenhum; onde já se viu homem fazer enxoval. Os panos resistiram ao tempo, às mudanças, e vieram habitar meus armários, aqueles nunca acessados. Recentemente resolvi libertá-los: estão todos em uso na cozinha. (Mentira: picada pelo bichinho da preservação, guardei dois. Para minha filha. Se meu filho quiser um, que negocie com ela.)

Pratos secos, olhos úmidos, termino de compor a mesa. Meus filhos ainda não sabem o que seus bisavós faziam para viver. Devo-lhes esta parte da nossa história. Qualquer dia eu conto. Agora preciso servir o almoço.

Falou e disse

Arte: GM Nikolaidis

Levei um bocado de tempo para descobrir que a tia Tervina, aquela senhora doce, rechonchuda, que morava em Casa Branca e tinha um quadro de Jesus Cristo na sala, se chamava, na verdade, Etelvina. Talvez não haja registro de que ela tenha sido chamada, algum dia, pelo seu nome original.

O mesmo se deu com minha prima Duvirge. Passamos a vida, eu e a família toda, chamando-a assim. Já moça, descobri, não sem algum espanto, que seu nome de batismo era Edwiges, em homenagem à santa protetora dos pobres e endividados. E foi bobagem eu tentar corrigir a pronúncia, depois. Ninguém sabia de quem eu estava falando. Nem ela.

Para algumas famílias – caso da minha – , a tradição oral é muitíssimo mais forte que a escrita. Mais que meros apelidos, ela inventa novos nomes, perpetuados pelas gerações. Pudera, quase nenhum dos meus antepassados sabia ler ou escrever. Imigrantes, a maioria foi para a roça cuidar do café e tinha mais o que fazer em vez de se dedicar ao beabá. Juntou-se à condição de analfabetos (ou quase isso) um sotaque interiorano, e deu no que deu. Valia o que era dito. E não se falava mais nisso.

As duas – tia e prima – pareciam não se importar em ter seus nomes corrompidos. Nunca as vi corrigindo seus interlocutores. Quando eu era bem pequena, havia no programa do Sílvio Santos uma jurada (as pessoas que decidiam se o calouro era bom ou não) bem popular, chamada Gilmara Sanches. Era eu dizer meu nome e as pessoas o confundiam com o dela. Eu olhava feio, sempre.

Um dos causos dessa oralidade particular, porém, não teve relação com os nomes da parentada, e sim de um logradouro. Eu e minha irmã, bem novinhas (ou nem tanto), queríamos enviar uma carta para outra prima que morava longe. Era um tempo inimaginável, sem e-mail, celular ou rede social. Só para dar um alô, saber notícias de todos. Pedimos ajuda ao vô Paschoal, o único que sabia o endereço. Ele ditou, com seu sotaque ítalo-caipira, e nós escrevemos direitinho no envelope.

A avenida Melvin Jones, que fica na cidade paulista de Mogi-Guaçu, era, no seu entendimento, “Mervin Júnior”, em “Mogin-Guaçu”. E foi com essa grafia que a carta seguiu caminho. O fundador do Lions ou revirou-se no túmulo, ou sacudiu o esqueleto de tanto rir. E, por milagre, sorte ou dedicação do carteiro, a missiva chegou ao seu destino. Ao que a prima logo escreveu de volta, dizendo que estavam todos bem.

A tia Tervina e o vô Paschoal, que eram irmãos, já se foram. Não vi mais a Duvirge, nem a prima de Mogi. E a Gilmara Sanches caiu no esquecimento. Melhor assim; ninguém mais erra meu nome.

De carona

Arte: Dave Whittaker

– Como eu chego no Balão da Caixa D’Água?

O rapaz aparentava dezesseis anos. O cansaço em seu rosto entregava a longa caminhada. Skate e capacete sob o braço, camiseta de time. Não me pergunte qual, os únicos que sou capaz de distinguir, satisfatoriamente, são Palmeiras e Cruzeiro. E olhe lá.

Em Campinas há dez anos, costumo achar que tudo é perto. Primeiro, porque vim de São Paulo. Segundo: nunca ando a pé. Diante da pergunta, no entanto, calculei: meia hora de caminhada. Terminei de colocar o cinto de segurança na minha filha e, ainda em pé ao lado do meu carro, respondi:

– É longe, viu? Faz assim…

E dei as coordenadas básicas. Adiante, ele se informaria novamente. Com o skate, ficaria fácil. Aos domingos, uma das pistas da avenida que contorna a Lagoa do Taquaral, para onde ele deveria seguir, fica fechada ao trânsito. Bom para os que gostam de caminhar, correr, andar de bicicleta, essas coisas de gente saudável.

Tomamos, minha filha e eu, o rumo de casa. Logo avistei o rapaz, no caminho que eu indicara. Pensei no destino dele, parte do meu trajeto; na minha filha, sentadinha no banco de trás; nos ensinamentos recebidos ao longo da vida sobre caronas e seus perigos (os quais ignorei durante a juventude, época em que eu ia de São Paulo a Ubatuba na base do dedão. Mas essa é outra história.). Cogitei: por que não levá-lo? Havia muitos “porque não” listados em meu juízo. Mesmo assim, escolhi o “porque sim”.

Encostei o carro. Abri o vidro:

– Ei!

E o Rafael topou a carona. Contou que estava em férias na cidade, na casa da tia. Saíra para dar uma volta e se perdera. Testando sua independência, presumi, não quis telefonar pedindo socorro.

Continuou: mora em São Paulo, num bairro vizinho ao que eu vivia. Já era uma afinidade. Falamos amenidades típicas de quem se vê pela primeira vez. Minha filha, atrás, imóvel e muda. Provavelmente, tentando compreender o que era isso de parar no meio da rua e convidar um desconhecido para entrar no nosso carro. A prosa evoluía e eu só pensava como explicaria a ela, depois, minha atitude. Diria que intuí ser o rapaz uma boa pessoa? Argumentaria que eu oferecera carona a ele, e não o contrário, o que mudava, significativamente, o cenário de perigo potencial? Aliás, eu fiz o papel de bandido; Rafael nada pedira. Fosse um meliante, teria agido no momento em que me parou na calçada. Qual pedagogia eu usaria para que minha filha, de tenros cinco anos, não concluísse que se pode fazer isso com qualquer pessoa na rua? Mas Rafael era uma pessoa qualquer na rua. E agora? Por outro lado, ele também deve ter tido seus medos ao aceitar a carona. Mas assumira que uma mãe, acompanhada de criança pequena, não seria capaz de cometer maldades.

Próximo ao tal do balão, perguntei onde sua tia morava. “Em um condomínio, naquela rua”, ele apontou. Ora, ora. “Tenho uma amiga que mora ali. Deixo você lá”.

O Rafael abriu um sorriso, agradeceu. Menino educado. Minha filha continuava em silêncio sepulcral. Que raio de mãe sou eu? No mínimo, curiosa: “Como se chama sua tia?”, perguntei. Gravei o nome. Para contar à minha amiga, claro. Mais agradecimentos, não há de quê, se cuida, boas férias, coisa e tal.

Rafael estava entregue. Era hora da prosa séria entre mãe e filha. No fim, ela só questionou o porquê de não termos aproveitado a parada para visitar minha amiga, que é mãe de uma das melhores amiguinhas dela. A educação dos filhos, descobri, não é um bicho-de-sete-cabeças. De duas ou três, no máximo.

Ao chegar em casa, a tarefa urgente e inadiável: telefonar para minha amiga. Ela não só conhecia a tia do rapaz, como informou: a tal tia é mãe da minha vizinha. Minha vizinha é, portanto, prima do Rafael. No final, o que valeu para nós dois foi um pouco de fé. E a fé, todo mundo sabe, não costuma falhar.

Quem precisa de rede social virtual, se a real está bem na frente do nosso nariz?

Das causas desconhecidas

Ilustração: Lamerie

E Leo foi encontrado em sua casa, mortinho da silva, numa manhã de segunda-feira. Era dezembro, pouco antes do Natal. Causa desconhecida, disseram.

De véspera, Leo parecia normal. Recebeu visitas, posou para fotos, tudo nos conformes. Tinha dezessete anos. Vivia com a esposa e a filha no zoológico de Brasília. Leo era uma girafa. Ou “um girafo”, como diria minha filha.

Causas desconhecidas incomodam. Prefere-se as causas reveladas, as que se mostram, entendíveis. O escuro das razões não faz bem à cegueira humana. Já para os bichos, tanto faz.

Foi na escola primária que aprendi sobre os substantivos epicenos, aqueles que só têm uma forma – a girafa, o tatu -, sendo necessário explicar em seguida: macho ou fêmea. Eu gostava das aulas de português, com suas causas sempre conhecidas.

Yaza, a viúva, há de ter sentido a falta do marido nos primeiros dias, no pasto onde costumavam passar o dia e namorar. Girafas viúvas, porém, não fazem escândalo. Não se vestem de preto, não choramingam pelos cantos, não deixam de se alimentar por conta do luto. Não são girafas de Atenas. Nem sabem onde fica isso, tampouco ouviram falar do Chico – desconhecem o assunto por completo e, por isso mesmo, não sofrem.

Com a morte do patriarca, trouxeram de volta Zagalo, o primogênito (filho do Leo com outra girafa, a Bia), que morava no zoo do Rio. Para Evelise, a filhota, foi bom: conheceu seu meio-irmão. E Yaza deve ter ficado feliz com sua presença, um trecho do seu amor. (Ah, humanizar a vida animal é tão alentador.)

Disseram também que Yaza estaria prenha do Leo, os funcionários vinham achando a pescoçuda meio diferente. Fêmeas grávidas, de qualquer espécie, ficam “diferentes”. A natureza dos bichos e das pessoas é cheia de histórias assim: um pai que morre antes do filho nascer, uma mãe que falece no parto. É a vida, tratando de continuar. Com suas causas – sabidas, desejadas, ou não.


Baseado em uma história real (“Zoológico de Brasília ainda não sabe o que causou morte de girafa”)

Portão da esperança

Arte: Shelly/Flickr.com

Seis da tarde, o carro azul emparelha com o meu, obedecendo a um resto de sinal amarelo. Pelo insulfilm vejo o motorista gesticulando, sorrindo, rindo. Na maior prosa, pelo retrovisor, com o passageiro no banco de trás. É um pai, eu sei. Do meu posto de vizinha temporária de trânsito, busco a identidade do segundo passageiro e avisto metade de uma cabecinha. É um filho, eu sei.

A história se faz pronta: um pai acabara de apanhar o filho na escola. A conversa dos dois, até em casa, será sua melhor reunião do dia. A mais produtiva.

Pais e mães que buscam sua cria nos portões das escolas têm sempre a esperança – cotidiana e automática – de que os filhos surjam, inteiros, n’algum ponto da colméia de alunos. Esperam levá-los para casa, como fizeram no dia anterior. Esperam saber, de novo, como foi a aula e o que teve no lanche. A cria também tem suas esperanças: de que a pessoa especial surgida na colméia de pais deixe o amigo dormir em casa e permita pular o banho. Portão de escola é uma ilha cercada de esperanças por todos os lados.

No programa Sílvio Santos havia um quadro chamado “Porta da esperança”. As pessoas enviavam cartas contando uma história, geralmente triste, e pediam para ganhar alguma coisa. Um jogo de sofá novo, uma bicicleta, um violão, um aparelho para surdez. Se escolhido, o autor da cartinha ia ao programa. Seu Sílvio ouvia a cantilena e partia para a costumeira encenação. Perguntava por que a pessoa queria o violão. Era para o filho que gostava de música, a família não tinha dinheiro para comprar um. Sílvio Santos fazia o suspense e anunciava, num dos bordões mais famosos da TV brasileira: “Vamos abrir as portas da esperança!”. Nessa hora, a câmera enquadrava o rosto do esperançoso e nele se podia ver a perfeita tradução da esperança. Com uma trilha transitando entre o meloso e o apoteótico, as portas se abriam e aparecia, ou não, o que tanto a pessoa desejava. Se o pedido não era atendido, o que se via era o vazio e a câmera enquadrava novamente o rosto do sonhador – que maldade –, agora estampado de decepção, frustração, vergonha e choro represado (ou liberto). Na maioria das vezes, porém, todo mundo ficava feliz. Inclusive eu, que assistia.

Portão de escola é mais ou menos assim. Só mudam os pedidos, menos tangíveis e muito mais simples.

Todos os dias, pais e mães (ou avós e avôs, numa perpetuação do ritual do qual talvez já foram também personagens) aportam na saída das escolas. Vão resgatar o que lhes pertence, o que apenas emprestaram à instituição durante o dia.

Com o mesmo olhar do homem que pedira o violão ao Seu Sílvio, desejam reencontrar o rosto único, inconfundível, mais lindo de todos. Eventualmente imundo, se foi dia de parquinho. O sorriso é fundamental. Quase uma garantia.

O portão da esperança, ao contrário do programa, não tem Sílvio Santos e já está aberto quando se chega lá. Mas os pedidos – que o filho conte uma novidade, nova ou velha, tanto faz; que tenha ido bem na prova, brincado com os amigos e sido querido por eles; que não tenha arrumado confusão e tudo esteja bem, enfim – correm enorme risco de serem realizados. Embora viver não seja tão simples quanto comprar um violão.

Eu envio minhas “cartinhas” e compareço a esse portão de segunda a sexta, no mesmo horário. E, desde quando minha esperança era apenas que meus filhos tivessem arrotado e feito cocô durinho, tenho sido atendida. As esperanças daquele pai que gesticulava e ria no carro, pelo jeito, também.

O rei, a imigrante e a falta de saudade

 

Vovó Carmela e vovô Antônio (centro) e a filharada. E a data, que só reparei depois.

Elvis não morreu, ao contrário da Vovó Carmela. Ela morreu no mesmo ano em que ele, já que é assim, não o fez. Sei muitíssimo mais dele que dela. Estranho?

Faz trinta e quatro anos e dois dias que ela partiu. Ele, trinta e quatro anos e cento e oito dias. Dele, se fala – e muito. E dela?

Ele é famoso. Ela não. O Google tem setenta e sete milhões e quinhentos mil resultados para o nome do rei do rock. Cento e sessenta para o dela. E nenhum é, efetivamente, sobre ela. Deveria existir a “Deuspedia”. Cada ser humano com seu verbete, atualizado por Ele e seu staff de anjos.

Vovó Carmela é minha bisavó, mãe da minha avó. Sou, por ora, a penúltima bonequinha da matrioska; a última é Nina, minha caçula. Ninguém a chamava de bisavó, nem de bisa. Já considerei seu nome pavoroso, sentia pena de uma prima que fora batizada em sua homenagem. Hoje, não mais. É nome tão bonito.

Na casa da vovó Carmela seus filhos, netos e bisnetos se reuniam em compridas tardes de sábado. O invariável cardápio: chá-mate dulcíssimo e pelando de quente, o pão com manteiga. O chá era servido nas xícaras de bolinhas, de porcelana tão fininha quanto a pele da matriarca. Quem ganhava sua fatia de pão podia ia brincar lá fora. Quantos passarinhos alimentei no quintal com minhas migalhas chovidas? E quem ficou com as xícaras? Não é só a infância que é cheia de questões.

Eu não conversava com a vovó Carmela nessas visitas. Velhos têm mania de falar com as crianças através dos seus pais, mesmo que elas estejam presentes, como se não fossem capazes de responder sobre suas vidas. Eu estava na cozinha, mas era à minha mãe que ela dirigia as perguntas: “Ela vai bem na escola?”. “Ela quer mais pão?”. Eu também não perguntava nada sobre ela, nem a ela, nem a ninguém. Só queria saber do Elvis. Eu, que derivei dela, não dele, ia bem na escola. E, sim, sempre queria mais pão.

Dela, sei tão pouco. Só que tinha imensos cabelos cinza-claro, permanentemente enrolados num coque e presos num pente-fivela. Que usava vestidões compridos e arrastava os chinelos. É todo meu conhecimento. Sequer de sua voz me lembro. Já do Elvis… Minha irmã me ajuda, por e-mail:

“Carmela Mameli nasceu em 16/05/1889, filha de Diogo Mamelli (o pai tem 2 L) e Elena Pucci. Nunca consegui saber a cidade, só sei que é na Sardenha. Casou-se em 30/10/1908 em Jacutinga e morreu em 30/11/1977 em São Paulo. Não lembro do quê exatamente ela morreu, lembro que ela tinha uma hérnia enorme na barriga, de longa data… Lembro também que depois que ela quebrou a perna não saiu mais da cama e morreu logo depois”.

Ela, que tinha alguma coisa com o dia trinta (a foto que ilustra esta história foi tirada em 30 de novembro de 1958, conforme anotação feita na própria). Ela, que não sei se gostava do Elvis. Ela, que não está always on my mind. Será que ela loved me tender? É assim que junto tudo: as letras das canções do rei do rock, a imigrante de onde me originei e a minha confessa falta de saudade.

Quando eu ficar bem velhinha, devo cuidar das minhas roupas, chinelos e penteados. É deles que, provavelmente, meus bisnetos se lembrarão. Mais, muito mais, que da minha voz. Que, aliás, nunca aprendeu a cantar nada direito.

A enceradeira

Toda casa que se prezasse tinha enceradeira. A dona do lar precisava do trambolhento aparato – fosse presente de casamento ou adquirida em suaves prestações – para dar lustro ao piso e mostrar às visitas o quão zelosa era. Minha mãe caiu nesse conto. Todas as mulheres de sua geração, aliás. Não sei se a armação foi dos fabricantes de cera ou dos maridos que pretendiam manter as esposas ocupadas. E pensar que o advento da engenhoca foi a redenção; antes o brilho era conquistado no muque.

Eram duas, em casa. Uma, do tempo da minha avó. Outra, da época da minha mãe. A primeira era pesada, incômoda, antiquada (enceradeira e vovó). A segunda era mais leve, agradável, moderna (enceradeira e mamãe). A primeira tinha dupla função: de tão grande, cabia uma criança montada nela. Dia de faxina era sinônimo de farra, dia de andar de enceradeira. Mas só um pouquinho; dependia do humor de quem guiava a geringonça. Um verdadeiro bólido. Ou tanque de guerra. Uma arma, talvez.

Conta a lenda que as visitas exclamavam: em casa, se via dois gatos no chão. Um, propriamente dito, e outro, reflexo do primeiro. Obra do Synteko, da enceradeira e do esmero de Dona Angelina. Eu, iniciante no mundo do espelho de Alice, achava aquilo bem curioso. Até eu existia em dobro, portanto.

Minhas visitas, hoje, também dizem o mesmo. A diferença é que elas realmente veem muitos gatos. Todos de verdade. Nesse quesito, a única tradição na família que teve continuidade. Melhor assim.

A enceradeira é o símbolo cabal de que o compasso do tempo já foi outro. Ah, havia mais dele na vida de qualquer ser – homem ou mulher. A era dos assoalhos impecáveis, panelas areadas, roupas quaradas e engomadas. Onde isso, hoje? Preenchemos o tempo livre proporcionado pelas traquitanas elétricas e eletrônicas com outras necessidades. Inventamos outras areações, quarações e engomações para ocupar o tempo. Queremos mostrar o quê para quem? Urge descobrir de quem é a armação agora.

Queria mesmo era passear de enceradeira de novo.

Quem precisa da Supernanny?

Zapeio a TV para cima e para baixo. Não resisto: estaciono num daqueles reality shows de babá. A gente gosta de saber que outros pais também se estrepam com uma cria levada da breca. É um espelho. Eles nos fazem sentir, digamos, menos só nesse oceano de águas nem sempre calmas da maternidade (paternidade também). As cenas são assustadoramente familiares. Ao final, porém, há algo que incomoda. A serviço de quem, exatamente, estão esses programas? Dos pais e mães desesperados com sua prole indomada, ou dos psiquiatras, psicólogos, fabricantes de Florais de Bach, benzedeiras, enfim, a turma para quem dá vontade de correr pedindo ajuda, já que (quase) nada sugerido pela Superbabá funciona, efetivamente, numa casa?

Termino de assistir, com a sincera fé que bastarão um quadro pregado na parede com a nossa nova rotina de horários e atividades, uma lista de combinados pode-não-pode, uma sessão vapt-vupt de terapia, e plim! Nossos pequenos virarão anjinhos de candura e atenderão, sem pestanejar, ao chamado para a hora de nanar; eu e meu marido estaremos aptos a negociar com sabedoria impecável quanto tempo eles ainda podem ver TV antes de fazer a lição; e a imposição de limites será tão simples quanto ensinar o gato que ele não pode subir na pia da cozinha. Tudo no prazo de uma semana! Confesse: você já caiu no conto da Superbabá.

A Superbabá, aliás, tem esse nome porque, na verdade, trata-se de uma entidade com poderes de super-herói, e como tal, inacessíveis aos humanos. Quando um prédio vai desmoronar, ou um trem com centenas de criancinhas está prestes a descarrilar, o Homem Aranha ou o Capitão América aparecem. Da mesma forma, se o mais velho resolve guardar o caçula na geladeira (porque está calor), e depois se esquece dele, a Superbabá vem voando. Mas a vida, acredite, não é um HQ.

Reality shows de babá são como as revistas de moda. A gente compra na banca, senta na poltrona da sala com um cafezinho ao lado e vai folheando, assistindo as dicas. Quando resolvemos adquirir aquela saia longa maravilhosa, e a vestimos em casa, vemos que ela não ficou igual à modelo na foto. Ficou diferente. A saia é a mesma, mas cada corpo é único. Assim é cada família. Apesar das semelhanças entre elas, cada uma tem seu mecanismo, sua história, seus cenários. Photoshop não funciona numa família. E não dá para ficar chamando a Mulher Maravilha a toda hora. (Ela também deve ter lá os seus afazeres de mulher comum, nas horas vagas.)

O que esses programas desejam, no fundo, é um plano maquiavélico: instalar nas casas uma caricatura de família perfeita, igual àqueles adesivos grudados na traseira de nove em cada dez carros circulando pela cidade. Neles, toda felicidade é possível – e exibível. Qualquer conflito é reduzido a quase zero, resolvido num piscar de olhos com uma solução-padrão. Eles se esquecem que filho só é razoavelmente programável enquanto ainda está na barriga. Bebê-conforto, no máximo. E olhe lá.

Não tenho o tal adesivo no meu carro. Nunca chamamos uma Superbabá para escarafunchar a intimidade do nosso lar. Jamais exporíamos, em território nacional, as nossas mazelas. Talvez, por isso, continuamos cortando um dobrado para convencer os filhos a tomar banho. Isso é reality. Não é show.

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[Nota: para comentar, por favor, clique em “Comentários” e role a página até o finalzão. É lá que fica agora a caixinha de comentários, e não mais logo abaixo do post. Bem embaixo da mensagem “Obrigada pela visita”. É só teclar control + end. Ficou meio ruim, eu sei. Mas o WordPress é assim. Sorry!] 

Pelo caminho

Ilustração: David Chilstrom/Flickr.com

Sei muito bem onde eu estava com a cabeça ontem, quando quase perdi a saída na rodovia. Eu tentava lembrar alguns trajetos que não faço mais. Os que foram minha rotina certa, familiar e previsível, por anos a fio. Os feitos a pé, ônibus, metrô, carro, quando eu tinha cinco, dez, quinze, vinte, trinta anos. E foi assim, brincando nos caminhos do passado, que quase me esqueci da trilha do presente.

Registro fundamental: o percurso de casa, meu marco zero particular, para a escola, que ficava na esquina. Aqueles duzentos metros deviam ser uma lonjura, posto que nunca me deixavam ir só. Alguém sempre me acompanhava. Cresci e fui autorizada à independência. Ia e voltava sozinha para a aula. O caminho de breves cinco minutos durou nove anos.

Nos finais de semana, de casa para a casa da bisavó. Esse, sim, longe. Cruzávamos os bairros a pé, minha mãe, minha irmã, minha avó e eu. Às vezes, minha irmã escapava. Mas eu era criança e ainda não tinha tanto poder de argumentação. Só me restava acompanhar os mais velhos em seus passeios e obrigações sociais. Lá havia chá-mate pelando de quente e com muito açúcar, servido nas xícaras de porcelana coloridas, tão finas que eu tinha medo de trincá-las com meus goles. E tinha sempre tios, tias e primos por perto. Os parentes gostavam daquele modelo onde várias famílias moram no mesmo quarteirão, e vão abrindo caminhos e instalando seus portõezinhos para conectar as casas. A visita era, portanto, quase sempre coletiva. Hoje eu me perderia por aquelas quebradas e não reconheceria a rua, nem a casa da minha bisavó. Nem ela, nem os parentes, moram mais lá. Os velhos portõezinhos fecharam-se para sempre.

Colegial. O mesmo ônibus, apanhado no mesmo ponto na rua de cima, com pequenas variações nas linhas, ao longo de três anos. O mesmo metrô. E do metrô à porta do colégio, seiscentos metros a pé em uma rua eternamente decorada com cocô de cavalo, visto que havia um quartel ali. Cavalos e soldados levavam-se para passear e, sabe-se, cavalo é bicho que não tem frescura. Faz onde dá vontade. Quinze para as sete da manhã e minhas narinas eram tragicamente acordadas. Saberia refazer esse percurso. Mas os cavalos continuam por lá. Melhor não.

Faculdade. O primeiro emprego. O segundo. Foram anos de trólebus, os varões sempre escapavam dos fios. Lá ia o trocador: pausava a aferição do dinheiro, pulava a catraca, descia do ônibus, encaixava os danados no lugar, subia no ônibus, pulava a catraca, retomava seu posto e a conferência. Eu tinha pena dele. E, hoje, não saberia mais fazer os trajetos dos ônibus. Ou saberia? Tem memória que funciona no tranco. Se embarcasse num trólebus, a primeira coisa que eu faria seria tranquilizar o trocador: “Se escaparem, deixa comigo”. Mais tarde, passei a navegar pela cidade sobre minhas próprias rodas. Pude escolher os caminhos, variá-los e errá-los. Por vezes, parei atrás de um trólebus e acompanhei, não sem impaciência, a velha missão do trocador. A gente se esquece das coisas muito rápido.

As ruas todas onde passei e repassei a vida, salvo algumas mudanças das mãos, permanecem em seus lugares, têm ainda o mesmo nome. Quando se faz o mesmo caminho todo dia, exerce-se sobre ele uma espécie de propriedade. “Meu caminho”. É para que a (necessária) mesmice cotidiana ateste o passo – e a posse – sobre a vida. Quando um trajeto é abandonado, deixa de ser próprio. Muda de dono. Como um objeto pessoal que foi doado. Separar-se de um caminho é exercício de desapego. E refazê-lo, seria de quê?

Meus trajetos, hoje, também correm o risco da deslembrança futura. Quanto a isso, parece não haver saída. Nem a que eu quase perdi ontem, na rodovia.

Flan de baunilha

Só tinha flan de baunilha em casa – aqueles pudins prontos, que vêm em potinhos plásticos com calda de caramelo – se alguém ficava doente, ou outra ocasião especial. Custavam uma fortuna quando eu era criança. Ou nem tanto, a gente que não podia comprar.

Ter meia dúzia deles na geladeira era o sacrifício dos meus pais para ver um filho mais alegrinho, menos injuriado por causa do sarampo, da catapora ou da febre que, glória!, livrava a gente de ir à escola. Era a recompensa para a doída injeção no bumbum, tomada em pé nos fundos da farmácia do Archimedes. Um prêmio para o remédio amargo, de seis em seis horas.

A degustação da iguaria exigia cerimônia e respeito, e tinha início já ao levantar da fina folha de alumínio que a cobria. A raridade era incrivelmente saborosa. Mais até que o tender de Natal. Eu torcia para que a febre não cedesse, só para ser autorizada a mais um flan. Com meu irmão mais velho o negócio ainda rendia figurinhas. Era adoecer e lá ia ele ganhar uns pacotinhos extras. Alguma coisa, enfim, precisava valer a pena passar o dia na cama, sem poder brincar lá fora. Pai e mãe sempre dão um jeito de por alegria na vida da cria.

Meu sonho gastronômico infantil era devorar vários flans de uma vez só e, de preferência, gozando de perfeita saúde. Sem me preocupar em deixar algum para os irmãos, nem se ia dar dor de barriga. Sonho nunca realizado, mesmo quando ele pôde ser financiado.

Três décadas depois, acertei as contas com o passado.

No supermercado, escolhendo o iogurte das crianças – minha cria, desta vez –, estacionei na gôndola repleta de pudins. Tantas marcas, sabores. Tão baratos. Chequei o relógio, verifiquei a previsão do tempo, consultei os oráculos e não tive dúvidas: agarrei oito. Isso mesmo, oito. Eles são vendidos aos pares, quatro pares era um bom número. Olhei para os lados, temendo ser pega em flagrante delito, mais ou menos como quando eu tocava a campainha das casas da rua e saía correndo. Fazer algo escondido, mesmo quando se sabe que não há o que esconder, torna a coisa irremediavelmente mais gostosa.

Chegando em casa, os flans sequer foram para a geladeira. Abocanhei um por um, na cozinha, em pé. Igual quando tomava as injeções na farmácia, tirando o fato do meu bumbum, agora, estar devidamente preservado. Papei tudo, a barriga nem doeu. Caberiam mais. Uma mulher completa, eis agora o que eu era. Depois me dei conta: não havia comprado a mais para as crianças. Omiti a traquinagem, claro. Eles nem estavam doentes.

Ao terminar o oitavo flan, a pergunta fatal: por que é que não fiz isso antes? Os tempos de vacas magras ficaram lá atrás. Não que as vacas sejam muito gordas hoje, mas dão leite suficiente para, digamos, muito pudim. Por que é que nunca tirei o atraso? Por que desisti de, como diziam os mais velhos, matar a lombriga?

Porque esqueci. E do mesmo jeito que me esqueci desse desejo pueril, esqueci de muitos outros, perfeitamente concebíveis desde há muito tempo. Está certo que, hoje, a ideia de ter uma boneca do meu tamanho não me atrai tanto. A questão, no entanto, nem é essa. São as antigas quimeras irrealizadas, que viraram a esquina do tempo e se perderam na multidão dos anos. É o prazer de zerar um capricho. Liquidar um devaneio. Ficar quite com a criança interior e concluir mais uma pendência no checklist desta vida, para não levar muitas para a próxima.

Há quem, de infante, sonhou com a coleção em vinil dos Beatles ou botas até acima dos joelhos. Desejou almoçar no lugar mais caro do bairro, passar num carrão em frente ao colégio na hora da entrada ou montar um autorama gigante no meio da sala. Ou então, aprender a tocar piano depois do diploma de médico, sair numa escola de samba, badalar o sino da catedral da Sé.

A alegria que dá abastecer coração e alma com coisinhas assim não tem preço. Falando em preço, é sempre bom lembrar que boa parte das utopias particulares são realizáveis e podem estar, literalmente, ao alcance das mãos. Na prateleira de um supermercado, por exemplo. Meus flans custaram dez reais. Convencer o pároco da catedral, garanto, sai por menos.

Papel de parede

Arquivo (muito) pessoal

Coloquei uma fotografia da minha mãe como papel de parede na tela do computador. Por que é que nunca fiz isso antes? Dona Angelina em branco-e-preto, regador nas mãos, novembro de 1958. Grávida de meu irmão mais velho, seu primeiro filho que nasceria dali dois meses. Meu reino para saber o que lhe disseram, na hora do clique, que a fez rir daquele jeito.

Hoje de manhã ralhei com as crianças, mania de querer ficar de pijama o dia inteiro. Para fugir de mim, se esconderam, os dois, entre a estante e a parede. Voltei para o computador e peguei a avó deles rindo. Para mim ou de mim. Ou da estripulia deles. Acabei rindo junto. O que que tem ficar de pijama?

De pequena, eu achava a coisa mais fina do mundo casa com papel de parede. Para mim, hoje, ter tanta gente bonita vivendo comigo em casa é que é fina coisa. Tem sempre uma novidade. Minha filha aprendeu outro dia, na escola, aquela música:

Era uma casa muito engraçada

Não tinha teto, não tinha nada

Ninguém podia entrar nela, não

Porque na casa não tinha chão

Ninguém podia dormir na rede

Porque na casa não tinha parede

Se não tem parede, também há de não ter papel de parede. Descomplicaram a casa. E complicaram o velho álbum de fotografias. Cada vez que as professoras das crianças pedem foto, para uma atividade qualquer, lá vou eu correndo imprimir. Depois não tenho onde guardar. Não temos mais álbuns. Só os antigos, já com lotação completa. E pensar que há tantas fotos de minha mãe no computador, graças ao scanner. Dela e de tanta gente. As memórias agora são digitais. Todas as pessoas podem virar papel de parede, enfim. Coisa fina?

Tivesse eu feito isso antes, minha mãe também riria se visse a exposição de arte que as crianças organizaram há uns meses. Fizeram vários desenhos em papel sulfite e grudaram com durex na parede da sala. Achamos bonito e deixamos lá por vários dias. Agora, vira e mexe uma exposição se instala no mesmo lugar. Renovamos o estoque de fita adesiva. Nossa sala entrou para o roteiro cultural da família.

A filha da vizinha me perguntou outro dia, “Onde está sua mãe?”. Crianças ficam consternadíssimas quando sabem de alguém que não tem mãe. Eu deveria ter respondido que ela estava aqui em casa. Só não diria Dormindo dentro do computador. Ela não ia mais querer vir aqui.

Às vezes, penso que deve ser um bom negócio partir e poder continuar vivendo aqui e ali. Em fotografia, filme, carta, coração, retrato na parede. Gente que se foi cabe em qualquer lugar. Está liberta das amarras do espaço terreno, embora separadas de nós. Paredes grossas, essas do lado de lá.

Pensando bem, eu não daria meu reino para saber o motivo da risada na hora daquele clique. Eu sei: foi um anjo (que não saiu na foto) soprando em seu ouvido: “Você ainda vai se divertir muito com seus netos”.

Se, um dia, um anjo lhe soprar a mesma coisa, você também não vai rir?

Click!

Sabiá

Ilustração: Gustavo Peres/Flickr.com

– Então, você deixa o rádio ligado? Eu vou lá telefonar.

O dono do bar, um sujeito meio redondo, fez que sim. Ele saiu, parou no orelhão em frente. No bolso da calça buscou a carteira e, nela, o cartão telefônico. No da camisa, o papelzinho escrito a lápis, com o número da rádio. Apertou os olhos para ler a letra ruim do colega. Ligou. Ocupado. Ligou de novo. Ocupado de novo. Buscou o papelzinho, errara algum número? Mais uma vez. Sorriso abriu, estava chamando. Atenderam.

No estúdio, Antonio Carlos comandava o programa romântico das sextas-feiras. Os ouvintes pediam as músicas por telefone, ele punha no ar. Embromava um pouco antes, para dar tempo do Chico, o assistente, achar a canção. Puxava conversa com quem estava do outro lado da linha, fazia um gracejo se fosse mulher. Chico conhecia tudo. Era dizer o nome da música, um pedaço da letra, ou só cantarolar de leve, e pronto. Ele dava a ficha: é de Fulano, faixa tal, do disco assim assado. Assoviava uma canção na hora que o homem da voz de veludo atendeu Osmar naquela noite.

– Vamos ver quem está na linha, alô?

– Alô!

– Quem está falando?

– Meu nome é Osmar.

– Boa noite, Osmar! Você fala de onde?

– Do orelhão.

Chico, de seu posto, riu. Antonio Carlos fez sinal para ele ficar quieto.

– Qual música você gostaria de pedir nesta noite enluarada, Osmar?

– Eu queria ouvir Sabiá.

– Sabiá… aquela… do…

Osmar facilitou as coisas:

– Aquela uma – e pôs-se a cantar em sua voz miúda, medrosa – “Vou voltar, sei que ainda vou voltar…”

Antonio Carlos olhou para o Chico, que fez sinal positivo.

– Claro! Sabiá, linda música! O Chico, meu colega aqui, vai por no ar pra gente, num instante. Mas você é de onde, Osmar?

Hora da embromação.

– Sou de Santa Rosa dos Purus.

– E onde fica Santa Rosa dos Perus, Osmar?

– Purus. É Purus. Santa Rosa dos Purus. Fica longe, no Acre. Encostado no Peru. Pensando bem, o senhor até que pensou certo.

– Então é longe mesmo, hein, Osmar! – e Chico fez sinal, cadê a música? – Um abraço para o pessoal de Santa Rosa dos Purus!

– Ah, ninguém vai ouvir o senhor, não. Lá não pega.

O Chico vasculhou aqui e ali. Nada de sabiá. Osmar espichou o olho por baixo do orelhão. Sentiu vergonha, o dono do bar o escutando pelo rádio, aquela conversa mole.

– Osmar, e para quem você vai dedicar “Sabiá”?

Osmar trocou de ouvido o telefone.

– É para mim mesmo.

– Ah… Você não tem namorada, Osmar?

– Tenho não.

– Nem uma amiga, assim, especial?

– Tenho não, senhor. Vou dedicar para mim mesmo. Que esta semana a saudade bateu, tanto problema na vida, rapaz. Aí lembrei da música, minha mãe cantava quando eu era criança, sabe?

– Então pronto, Osmar! Dedique a canção à sua mãe! Mesmo que ela não escute na rádio, vai ouvir com o coração.

Antonio Carlos tinha a voz bonita, e dela saíam palavras bonitas também.

– Que vai, vai. Eu sei. Mas minha mãezinha está quietinha lá… Se ela sabe que eu estou sentindo saudades, se dana a chorar, não para mais.

– Então para um amigo daqui, Osmar. Dedique “Sabiá” pra um amigo!

Osmar foi se aborrecendo. Diacho. Então, não podia dedicar uma música para si. Tinha que ser para outra pessoa. Se tudo que ele fazia na vida já era para os outros. Os prédios de vidro que ajudava a erguer. O salário que ganhava e da metade ele não via a cor, ia para a família. A roupa que ajudava a passar na pensão, para o mês sair mais em conta, tanta camisa que meu Deus do céu. Tudo para os outros. Ninguém nunca dedicara uma música para ele. Queria, então, se dar um agrado. Quer dizer, queria mesmo era voltar. Como na canção.

– Amigo eu tenho, sim. Mas está tudo no Acre, já disse ao senhor que ninguém vai ouvir.

Chico fez sinal. Encontrara. Mas Antonio Carlos, inconformado, insistia na dedicatória.

– Nem um bichinho de estimação, Osmar?

– A dona da pensão não deixa. Olha, o cartão vai acabar. Se o senhor fizer questão, invente aí uma pessoa…

E a ligação caiu.

Osmar voltou ao bar e fez sinal para o dono, que lavava os copos, para mudar de estação. Ele enxugou as mãos no avental, achou a ideia ótima. Era dia de jogo, iam transmitir ao vivo. Osmar sentou-se em seu canto, beliscou a mandioca que já esfriara e serviu-se da cerveja que já amornara. Viu a gaiola pendurada logo acima da geladeira, um pano de prato com motivos de Natal cobria-lhe uma parte. Ao lado, uma imagem empoeirada de São Francisco de Assis (que não deixa de ser Chico). Pensou em sua sabiá, que àquela altura voava solitária nas ondas do rádio, sem ele.

– Tem nome, esse passarinho? – Osmar quis saber.

O dono do bar agora secava os copos.

– Uns chamam dum jeito, outros, de outro. Tem nome, não.

– Então vai se chamar Tom.

O homem olhou o bichinho, mudo em seu poleiro. Concordou. “Até que Tom combina”. Riu-se e foi ter com os fregueses que acabavam de entrar. Aqueles trabalhavam na madeireira da rua de cima, e eram chegados numa confusão. Não podia bobear.

Matrioska

Foto: Zeta/Flickr.com, efeitos: Gimp

A bebê dorme em seu carrinho. Enche de amor o coração da mãe que a embala. Enche de amor-perfeito a avó que as contempla. Enche o mundo de graça. E enche d’água meus olhos. Como podem três quilos e cinquenta centímetros ocupar tanto espaço? Na minha tarde de sexta-feira há três mulheres. Saídas uma de dentro da outra. Estou diante de uma matrioska viva. Passaria horas montando-a e desmontando-a. Brincando de nascer e desnascer. Mas quem gosta dessa brincadeira é Deus. A gente só brinca junto; as coordenadas são sempre dele.

No breve tempo de nanar, a bebê se desliga deste orbe, enquanto se liga ao de onde veio, aquele que deixou há pouco tempo. O dos anjos e jardins sem fim, gosto de imaginar desse jeito. Desconecta-se daqui e se reconecta lá. Mata as saudades dos amigos, ainda não sabe que os reencontrará aqui – é surpresa. Joga bola, canta uma canção, afaga um pássaro. E daqui trinta minutos pega um avião de volta, faminta de mãe.

No futuro, as fotografias dos álbuns de família mostrarão o quanto terão sido parecidas essas três mulheres. Pois cada uma tem em si um pouco da outra. O detalhe no sorriso, o jeito de ficar brava, a paixão por alguma arte. E também coisas que as outras se esqueceram de trazer nesta vida, ou não o fizeram de propósito, só para ver se a outra lembrava. Mulheres.

Cada uma delas cumpre um ciclo. E nem sabem por que o cumprem. Só sabem que é assim. Lá se vão, as três mulheres. A primeira ainda não sabe andar. A segunda, sim. A terceira está desaprendendo. Cabe à do meio ajudar as que estão nas pontas do tempo presente. Ela sabe que, breve, o terceiro lugar será seu. E arrepia-se só de pensar: a que cochila no carrinho, um dia, tratará de continuar a história, aumentando a matrioska.

É boa a roda da vida, como não? Vida de meia volta, volta e meia que se dá. Estamos todos cirandando.

O tapa

Foto: Mathew Wilson
Foto: Mathew Wilson

O primeiro – e único – tapa que levei da minha mãe é tão antigo e vivo quanto a falta que ela me faz.

Ela fazia tricô para fora, como se dizia. Ou era o contrário. Porque vinha de fora para dentro de casa o dinheiro que ela recebia em troca dos casaquinhos de bebê, sapatinhos e mantas tricotados à máquina. E para dentro dela, também, os elogios que recebia, ficava tudo bonito. Nenhum trabalho é para fora, acabo de descobrir.

Um dia, eu quis ajudá-la. Adiantaria aquela encomenda. Um macacãozinho, talvez? Aproveitei uma saída sua do quarto, que fazia as vezes de ateliê. Sentei-me de joelhos em sua cadeira, alta para mim, e arregacei as mangas. Parecia não haver segredo. No entanto, antigamente as máquinas de tricô não eram como as de hoje. Na Lanofix verde da minha mãe, uma única carreira exigia várias manobras, num processo lento e delicado (mais rápido, porém, que o tricô feito à mão). Passa o carro para a direita, ajeita aqui e ali, tira o pente com os pontos, encaixa o pente de volta, passa o carro para a esquerda. (‘Carro’, para quem nunca tricotou numa máquina, é aquela peça que vai de um lado para o outro, tecendo a malha.) Determinada em minha intenção, me pus a trabalhar. Não dei bola para nenhuma das etapas. Tudo que fiz foi levar o carro para lá e para cá. Não estava ficando muito bonito. Mas minha mãe sempre dizia que, no começo, não dá para ver direito como a peça vai ficar. Continuei. Carro para cá, carro para lá, que coisa mais fácil tricotar! Eu também poderia começar a ganhar meu próprio dinheiro, por que não? O carro para lá e para cá. Poderíamos compartilhar a máquina, mamãe e eu, enquanto eu não comprasse a minha própria. Será que vendem para meninas de cinco anos? O carro para cá e para lá. A malha continuava meio esquisita, mas ela tinha falado, no começo é assim. E o carro para lá e para cá. Ela voltou ao quarto, um grito. Eu não entendi nada, mas ela sim: a encomenda tinha ido para o brejo.

Foi um só, e bem dado. Não lembro onde pegou. Corri para o banheiro, me tranquei. Ela veio atrás. Pediu para eu abrir a porta, não abri. Ficamos assim: eu chorando do lado de dentro, ela chorando do lado de fora. Fosse ópera, seria acompanhada de uma tristonha sinfonia. Fosse cinema, usariam aquelas câmeras suspensas e, como se houvessem arrancado o telhado da casa, mostrariam a cena lá de cima: uma fina porta a separar mãe e filha. O meu choro, dos olhos para fora, não era de dor, e sim de incompreensão. Tapas doem mais pelo que representam que pelo que são. O dela, banhado em remorso, vinha de fora para dentro de seus olhos. Tal o verdadeiro sentido do tricô fabricado para as vizinhas e a parentela. Aquele, que eu falei no começo.

A mão viu no tapa a solução para o que ela, a mãe, não soube resolver na hora. A mão viu a noite passada em claro, consertando o estrago. A mão viu a freguesa cobrando a encomenda. A mão viu (previu) o que os olhos não viram. A mãe, cega, obedeceu à mão. E elas, mãe e mão, eram tão doces.

Não tenho a quem perguntar como a história terminou, então rio sozinha. Não sei onde está a velha Lanofix, perdeu-se nas mudanças. Encontrei-a por acaso no meio das lembranças, encaixotadas em meu porão particular.

Bananas

Ilustração: Andrea Joseph/Flickr.com

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– Casa sem banana não é casa.

Toda família tem seus parentes distantes. É como se cada fruto da árvore genealógica fosse saboreado por um passarinho, e sua semente fosse parar longe dali, dando origem a uma nova árvore, filha daquela. E dela surgissem novos frutos, especialmente ligados à árvore-mãe. Assim são as famílias: os frutos, numa espécie de migração, vão se estabelecendo em outras terras. A diferença é que, de vez em quando, eles se encontram.

Tio Zuza é tio do papai. Nas migrações ao longo das décadas, ficou longe de todos. Mas mantém o hábito de, três vezes por ano, visitar os sobrinhos-netos. Viaja sozinho. Exibe com orgulho sua carteirinha de idoso: a passagem sai de graça. Ou quase.

Quinta-feira de manhã, desembarcou na rodoviária. Fui buscá-lo. A primeira pessoa a levar uma bronca do tio – soube assim que fechei o porta-malas do carro – foi o motorista do ônibus que o trouxe: como é que podiam deixar alguém viajar trezentos e sessenta quilômetros sem ar-condicionado? A segunda, o vendedor de chiclete no sinal, um moleque de dez anos: por que é que não estava na escola? A terceira, e já em casa, fui eu. Minha infração: ter me esquecido de comprar banana.

Enquanto tentava, em vão, lhe mostrar as qualidades do mamão papaia, estalando de maduro na fruteira, tio Zuza deu de ombros, desistiu do lanche, retornou à sala e foi conferir os porta-retratos sobre a cristaleira, Como espicharam os filhos da Margarete!

Anotei no papelzinho ao lado da pia: incluir um bom cacho na próxima compra. Escrevi ao lado, para pensar depois: de que é feito um lar, então? O que confere, de verdade, alma a uma casa?

Quando um casal de parcos recursos decide viver junto, geladeira, fogão e cama são os itens mínimos para garantir a sobrevivência – e a alegria – na nova moradia. E máquina de lavar? Não, pois sempre se pode recorrer à casa da mãe de um dos dois. Armários? Também não; umas araras, umas caixas bem bonitas de papelão dão conta de organizar tudo até que se consiga mandar fazê-los. Está bem, televisão é fundamental. Porém, o laptop a substitui. E este não pertence à casa, mas sim ao dono. No mais, o que dá o título de lar a uma casa são seus habitantes, suas vozes e seus passos.

A minha tem tudo isso. E mais: secadora de roupa, aspirador de pó, banheira, sofá, cadeira, cachorro, formiga nos tamanhos P, M e G, pernilongo faminto nos dias chuvosos, lâmpada queimada, goteira de vez em quando, cama de casal, cama de criança, cama de gato, embalagem aberta de biscoito, roupa no varal, vela no armário para quando falta energia, leite de caixinha, chinelo pelo meio, feijão no tupperware, copo de requeijão, livros, canetas no finzinho, antenas, tapetes, cardápio de pizzaria na porta da geladeira, iogurte vencido, jabuticabeira sem jabuticaba, conta de água, CD na caixinha errada, desenho de criança na parede, garagem para dois carros, wi-fi, CEP e santo protegendo a entrada. Eu poderia jurar que tudo isso, junto, constituía uma casa.

Mas faltava a banana. A primeira fruta de todo bebê. A base da nutrição humana, depois do leite materno. Amassada com o garfo, em forma de coração, como as que minha mãe fazia. A fruta mais popular do planeta. Embora, tirando a nanica, eu confunda todas as outras espécies: prata, ouro, maçã, da terra. Boa de levar no carro, na lancheira, no escritório. Não requer talheres, não suja as mãos. Não deixa fiapo, nem nada verde nos dentes. Sacia qualquer larica. A fruta iniciática, perfeita e fundamental. Nunca soube de alguém que houvesse escorregado numa casca de banana, nem acho que elas sejam tão baratas assim, para justificar as expressões em torno delas.

De acordo com a sentença do tio Zuza, minha casa não passava de um amontoado de tijolos, cimento, vidros, telhas, fios e coisas inertes. Faltava-lhe o sopro divino. Mas nem tudo estava perdido, e a condenação foi breve: o varejão abriu às seis e meia da manhã.

O nome do meio

Foto: Jeff Belmonte/Flickr.com

A mulher com tatuagem de beija-flor preenchia o cupom para concorrer a uma viagem a Nova York. Espichei o olhar, gosto de ver a letra das pessoas. Ela escreveu seu nome completo, mas abreviou o do meio. E lá ficou o “M”, grudado num ponto bobo. Espremido entre o primeiro e o último nome. Maiúsculo, porém menor que tudo. Mudo. Morto.

Poderia ser de Maria, para homenagear a mãe de todos e conferir certa santidade à dona do nome. Mas tinha era jeitão de sobrenome. Martins, Miragaia, Medeiros, Mota, Miller, Mascarenhas, Macedo, Machado, Maciel, Miranda, Menezes. Brinquei de adivinhar qual seria a dinastia escondida ali.

Herdado da mãe, o sobrenome do meio, quase sempre, é como zero à esquerda. Quando muito, é publicado por extenso na certidão de nascimento. Nos primeiros anos de vida ele ainda tem alguma força. Álbum do bebê, ficha do pediatra, carteira de vacinação. Aos poucos, porém, ele começará a desaparecer. E na etiqueta do material escolar ele já estará abreviado, mutilado. Ou simplesmente omitido. Economizando tempo, espaço e tinta de caneta ou cartucho. Apagando, lentamente, as pegadas dos antepassados maternos. Calando, para sempre, a voz de seus ancestrais.

Sempre vi, em quem comemora mais efusivamente o nascimento de filho homem, um traço de machismo encardido. Um dia entendi que não é apenas isso. Para muitos, ele é a garantia de perpetuação do sobrenome. Ele nomeará os descendentes, que carregarão a marca da família adiante através dos tempos. Até que uma filha mulher interrompa esse ciclo.

Sobrenome do meio é que nem bicho em extinção. Com uma feroz desvantagem: ao contrário do tamanduá-bandeira, da arara-azul, do tatu-canastra, e até do beija-flor no ombro da mulher que queria voar para NY, nada pode ser feito. A cada ninhada de gente, a cada geração, ele se enfraquecerá. Por causa das fêmeas que, na maioria dos povos, não conseguem levá-lo adiante.

E quem liga?

Bizarre Love Triangle

Ilustração: Fave/Flickr.com

Ele vai perguntar o que vou querer hoje, como se já não soubesse. Nesta porcaria de restaurante que ele insiste em vir todo domingo só o risoto de shitake presta. Queria ter ficado em casa. Tão cansada. Na verdade, preferia ter saído sozinha. Está difícil até olhar para ele. Aonde é que foi parar a nossa alegria dos primeiros jantares, hein? Virou alergia. Alegria e alergia têm as mesmas letras. A mesma base. Mas nesse caso a ordem dos fatores altera o produto. Uma representa o que atrai; a outra, o que repele. O Henrique precisa cortar esse cabelo, olha só como está comprido. Fica com ares de menina, não gosto disso. Eu não falo nada, não dá para conversar com ele, nessa idade é impossível dialogar. Mas que fica estranho, fica. Que horas devem ser? Tão tarde para jantar. Como eu odeio domingo. Só de pensar no que vou ter que enfrentar amanhã, outra urticária. Queria poder jogar tudo para o alto. Para o alto não, senão cai tudo em cima de mim. Para trás, bem longe, seria melhor. Mas se eu pensar em parar de trabalhar, a casa cai. Quero ver como vou fazer no ano que vem. Marquei as férias, ele insistiu tanto. Mas não estou com a menor vontade de viajar. Nem de jantar. Nem de falar. Nem de nada.

Ela e esse mau humor. Anda uma pilha de nervos. Deve ser a auditoria. Eles pegam pesado mesmo, sei como é esse pessoal. Já disse a ela para sair do banco, entra por um ouvido e sai pelo outro. Ela reclama mas, no fundo, não vive sem aquilo. Tantos anos, já criou raízes. Falta pouco para ela se aposentar, se acomodou. Ano que vem as coisas melhoram. Vamos viajar, só nós dois. Ela pede isso há um tempão. Henrique fica na casa dos meus pais, são só duas semanas. Quem sabe eles não o convencem a cortar o cabelo. Ainda não vi o Luís por aí. Deve ser a sua folga hoje. Vida dura, a de garçom. A minha também, não anda nada fácil. Por mim, teria ficado em casa, estou um caco. Mas sei que para ela é importante dar uma saidinha no fim de semana. Ela gosta daqui, é doida pelo risoto de cogumelo.

Que saco, impossível passar dessa fase. A dica do site está furada, não dá para passar pelo labirinto, nem matando os avatares. Terça tem prova, tinha esquecido. Depois eu pego a matéria com a Ana Banana. Se ela deixar, pego mais alguma coisa também. Ah, não tinha visto essa saída aqui. Agora vai. Não sei por que a gente tem que sair pra jantar todo domingo. Já almocei com eles. Conversei, contei da escola, respondi tudo o que eles queriam saber. Não está bom? Nunca consigo assistir Drake & Josh inteiro. Eu queria ter ido pra casa do Darth Vader, ia todo mundo lá ver o Wii novo. O que eu vou comer hoje? Já conheço esse cardápio inteiro. Eles, eu sei: ela vai pedir aquele arroz esquisito, ele vai de estrogonofe. Gente velha pede sempre a mesma coisa.

A blusa da minha mãe

Arquivo pessoal

De vez em quando é bom passar um tempo com quem já partiu. No Dia dos Pais eu vesti o colete que fora do meu avô. Na semana seguinte, enquanto eu procurava no meu armário o que usar, bati os olhos em uma roupa. E senti saudades da minha mãe. Meu avô sempre dizia que não era certo filho ir primeiro que pai. Um dia ele viveu aquilo que não concordava.

Dona Angelina fazia umas panquecas que eu nunca vi igual. A coisa mais simples do planeta: uma em cima da outra, muito molho de tomate. Só. Sem recheios nem firulas. Uma torre de panquecas. Construída aos poucos, no calor da velha frigideira cheia de furinhos em relevo que eu jamais soube onde foi parar.

Sempre tive dificuldade para pensar na minha mãe como uma jovem dos anos sessenta, onde quase tudo parecia estar em ebulição – música, comportamento, política. Dona Angelina era dona de casa exemplar. Dois filhos, mais eu chegando no finalzinho da década. Mamãe não fervia. (Ou fervia. E eu preferi acreditar no contrário.)

Por aqueles anos, ela foi madrinha de um casamento. Eu nem era nascida. Ela, que nunca teve dinheiro sobrando, foi esperta: investiu em algo que usaria depois. Comprou um conjunto, espécie de tailleur, na Prelude (chique, na época). Vermelho, num suave xadrez com preto e azul marinho. Ela só não imaginava que a aquisição fosse render tanto.

Quarenta e cinco anos (estimados) depois daquele casamento, apanho do cabide o que guardei daquele conjunto: a blusa com o casaqueto. A etiqueta ainda está lá, amarelada e puída. Mas o poodle, marca da confecção, continua empertigado em seus pompons. Digo bom dia ao totó, visto a blusa e vamos, mamãe e eu.

Ela me dá o braço e vai contando, com certa pena, que a saia do conjunto, de tão usada, não sobreviveu. Disse estar espantada como a peça combina comigo, ela pensava que éramos mulheres bem diferentes. Mamãe, às vezes, acha que eu deveria ferver menos.

Pergunto como vai a vida do lado de lá. Ela olha para o céu, em seguida para o chão. Desvia da fila indiana de formigas e me conta (de novo) a história de um tio que desdenhou dela ao vê-la, muito criança, em frente a um formigueiro, caprichando no plural: “Quantas formiguinhas!”. Só para se divertir, ele mandou que ela colocasse a mão ali. Ela obedeceu. E as formigas não tiveram dó.

Rimos mais uma vez e nos despedimos com um beijo, como sempre. Antes de ir ela me lembrou: aquela blusa não deve secar ao sol.

Álbum de família, ainda sem mim. As crianças: meus irmãos. Exceto o garoto da esquerda, que eu não sei quem é.

Os filhos dos seus bisnetos

Álbum de família

Fato: os filhos dos seus bisnetos não saberão nada sobre você. Na melhor das hipóteses, muito pouco. Ouvirão algumas histórias nas reuniões de família, verão uma fotografia num álbum amarelado ou num arquivo escondido de um computador. Um vídeo, talvez. Mas, acredite: eles não saberão de você do jeito que você se conhece.

Não saberão para que time você torce, nem se você gosta de rock ou prefere jazz. Ninguém lhes contará que você já foi ao Egito e sabe fazer mousse de maracujá. Nunca imaginarão que você já teve uma banda ou que escreve poesias. Nem que você consegue desenhar cavalo, que é a coisa mais difícil deste mundo. Ou que chegou a dirigir uma empresa, antes de se aposentar e ir viver lá no meio do mato com os sacis. Muito menos que sua paixão é a dança e que você sonhava, secretamente, se apresentar no Municipal. Jamais saberão como é a sua voz. Se a sua risada é estrondosa ou discreta, ou como você gosta de pentear os cabelos. E que você sempre chora nos filmes de amor.

Dos nossos avós a gente costuma se lembrar bem. Com um pouquinho de sorte, dos bisavós também guardamos alguma recordação. Mas poder abraçar os trisavós é para poucos. Tomar um chá da tarde com os tataravós, definitivamente, é raridade. Pena. A gente deveria saber mais das pessoas de onde viemos. Para ter uma ideia de como chegamos aqui e para onde vamos daqui em diante. Mas para isso cada um precisa fazer sua parte: contar muitas histórias aos filhos, várias vezes, até eles enjoarem. Para que eles as contem aos seus filhos e assim por diante.

E, do mesmo jeito que se aprende História – do mundo, do Brasil – na escola, deveria existir no currículo uma matéria chamada “A sua História”. Onde a gente aprendesse a escrever os livros de família de um jeito diferente, cheios dos detalhes essenciais de nós, que geralmente passam desapercebidos. Onde a gente plantasse, em grandes cadernos de desenho, a nossa árvore genealógica, não só com seus ramos e galhos. Com as flores também.

O colete do meu avô

Foto: Denis Collette/Flickr.com

Casa de gente morta não é para gente viva ficar entrando. Se a casa de alguém que morreu fica vazia por um tempo, certas almas pensam que ela está vaga e se mudam para lá. E não se deve incomodar os mortos.

Meu irmão dizia que via ‘pessoas’ na casa dos meus avós. Segundo ele, eram várias freiras enfileiradas cruzando o pequeno quarto deles, indo para não se sabia aonde. Só se sabia que o quarto ficava no caminho delas. Minha mãe não achava aquilo bom para uma criança e resolveu procurar ajuda. Depois disso ele nunca mais as viu. Por certo, alguém pediu para que elas fizessem outro trajeto e não passassem mais por ali. E elas resolveram quebrar nosso galho.

Quando meu avô morreu, anos depois da minha avó, fomos, minha irmã e eu, até a casa dele buscar algumas coisas e separar o que seria doado. Eu não quis entrar sozinha. Não queria ver os mortos que haviam se mudado para lá. Nem as freiras, as conhecidas do meu irmão, agora liberadas para fazer o velho caminho.

Minha irmã abriu o armário. Vi o terno cinza do meu avô, o único que Seu Paschoal tinha. Quase nunca o usava. Foi meu pai, seu genro, quem me contou porque o terno se chama assim. Porque é composto de três peças: calça, colete e paletó. Mas os ternos de hoje em dia raramente têm colete. Deveriam mudar o nome, então.

Pedi para ficar com o colete. Ele acabou guardado no meu armário por muito tempo. Semana passada, decidi usá-lo. Levei-o à costureira para ajustar. Éramos da mesma altura, mas o ombro do meu avô era mais largo que o meu. No dia em que morreu ele parecia tão miúdo. A morte faz as pessoas encolherem. Vida ocupa espaço dentro de nós.

Hoje, Dia dos Pais, é a primeira vez que eu o visto. Saí de casa bem cedo e a vizinha, estranhando me ver em pé àquela hora, perguntou aonde eu ia. Respondi: “Vou passear com o meu avô”. Ela sorriu e lembrou: “Hoje a gente precisa dar um abraço neles também”.

Concordei. Já estava fazendo isso.

Os peixes (miniconto para um domingo invernal)

Anderson Augusto/Flickr.com

Ontem falei com o vizinho da casa ao lado, não sabia que ele era vesgo. Ficou irritado quando fixei meu olhar no dele, para entender melhor aquela vesguice toda. Fui avisá-lo que uma moça havia procurado por ele à tarde, e como ele não estava, ela bateu aqui em casa, “Você sabe se o Artur viajou?”. Fiquei sem graça de responder para a moça das botas vermelhas. Eu não sabia o nome do vizinho – muito menos se costumava viajar – , embora ele morasse ali há anos. Mudou-se para a nossa rua no dia em que tia Tetê morreu. Era um domingo frio de agosto, um entra-e-sai na nossa casa o dia inteiro. Gente que vinha saber como havia sido, prestar condolências, comer os salgadinhos da Damiana. Foi o único dia em que ele, o vizinho novo e ligeiramente sem noção, falou comigo: “Animada, a sua casa!”.

Tia Tetê morava conosco desde que tio Jaime ficara louco. Ele cismara que ela queria envenená-lo, e então decidiu que faria o mesmo com ela. Fazia suspense com a pobrezinha: “Vamos ver quem morre primeiro?”. E a tia não conseguiu mais tomar seu cafezinho em paz, sempre achando que ele colocaria alguma coisa na sua xícara. Meu pai não aceitava internar o único irmão. Naquele final de semana de agosto, tia Tetê fora com uns amigos para a praia. Não era acostumada com o mar. Distraiu-se. Acharam seu corpo dois dias depois, inchado e azul. No velório, perguntei ao meu pai se ela engolira muitos peixes, para ter ficado daquele jeito. Eu tinha oito anos.

“Você é o Artur?”, perguntei, assim que ele abriu a porta. Já fui explicando, a moça das botas. Ele encostou a porta atrás de si, como se não quisesse que eu visse lá dentro. Como não a fechara direito, espichei o olhar. Apenas um piano encostado à parede. E mais nada na sala comprida com piso de tacos, daqueles antigos. “Ela ficou de voltar”, avisei. Ele agradeceu e fechou a porta. Não perguntou meu nome. E eu não entendi como nunca ouvira som de piano algum vindo de sua casa, naqueles seis anos.

Um ano depois de tia Tetê, foi a vez do tio Jaime. Ligaram de madrugada em casa. Meu pai sentou-se na poltrona ao lado da janela e chorou. No dia em que foi buscar as coisas do tio no asilo, chorou de novo. Dois ternos, sete pijamas, um par de chinelos, duas alianças de ouro guardadas num vidrinho de maionese vazio e uma bíblia, com metade das páginas arrancadas. Um funcionário contou que nos últimos dias o tio cantava sem parar, numa voz miúda:

A canoa virou

Por deixar ela virar

Foi por causa da Tereza que não soube nadar

Se eu fosse um peixinho e soubesse nadar

Eu tirava a Tereza lá do fundo do mar

Hoje acordei bem cedo. Artur era seu nome, então. Artur era vesgo. E tinha um piano.

Pela manhã, estudei na sala, em frente à janela. De plantão, caso a moça das botas voltasse. Depois do almoço, apanhei minha mochila e saí. A casa do Artur estava silenciosa e fechada, como sempre. Assim que cheguei à calçada, um carro estacionou em frente à casa dele. Era ela. Desta vez, com brilhantes botas pretas. Carregava com dificuldade um pequeno aquário vazio embaixo do braço. Na outra mão, pude ver um saco plástico com dois peixinhos dentro. Ela me viu, sorriu e tocou a campainha com o cotovelo. Acenei de volta e apertei o passo. O professor da primeira aula não deixa ninguém entrar na sala depois dele.

O nome da gente

Foto: Rakka/Flickr.com

Nome é como tatuagem. Parte indissociável de nós, não sai mais. Tenho nome, logo, existo. Dizem que escolhemos nosso nome antes mesmo de nascer, aqueles papos transcendentais. Mas isso é outra história.

O meu é Silmara. Conta a lenda que Seu Antonio e Dona Angelina planejaram os nomes dos filhos que pretendiam ter: se menino, Marcos. Se menina: Marcia e Mônica. Tudo com ême para ficar bem bonito. Eu seria a Mônica. (Não sei se fiquei sugestionada com a história ouvida na infância, mas até hoje esse nome é muito familiar. Combinaria comigo, com meu sobrenome. Questões transcendentais, quem sabe.)

Mas uma tia próxima teve seu filho um pouco antes e o plano foi por água abaixo: o primo foi batizado Marcos. Frustrados, meus pais resolveram mudar tudo. Adeus, Mônica.

Para ser sincera (meu sobrenome não deixa outra alternativa), não vejo muita graça no meu nome. Às vezes me pego pensando na possibilidade do passado, não fosse a tia. Nunca vejo meu nome naquelas listas imensas de nomes para bebês. Já li tantos significados diferentes, que concluí: ele não significa nada. Foi inventado. E ele também já foi motivo para uma, digamos, saia justa.

Quando criança, eu gostava de brincar, secretamente, que tinha outro nome. Havia uma personagem de novela chamada Noeli. Esse nome sim, para mim era transcendental: No-e-li. Fiquei tempos desejando me chamar Noeli. Em vez de um nome próprio, eu queria um emprestado. Pois não havia, no mundo inteiro, nome mais lindo. Mas a gente cresce.

Nomes nos acompanham a vida inteira, feito alma. São a marca indelével de nossa passagem por este planeta. Podem indicar de onde viemos. E também podem enganar meio mundo. O nome de um dos maiores gênios da música popular brasileira, o violonista Baden Powell, já me pôs encafifada. Não tem muito tempo que descobri: brasileiríssimo, e carioca. Resultado da obsessão de seu pai pelo general Robert Baden-Powell, fundador do escotismo. Ficou Baden-Powell de Aquino. Não preciso ir muito longe. Cresci chamando um tio de Paulo. Já adulta, descobri que seu nome é Francisco. Coisas dos Franco.

O assunto é vastíssimo. Dar nome aos bois não é nada fácil. Tem os nomes esquisitos por definição, bizarrices perpetuadas pelos cartórios. Tem os nomes curiosos. Tem os apelidos, tema que dá pano não só para manga, mas para um traje completo. Tem gente que muda de nome, papel passado e tudo. Tem os sobrenomes, espécie de pai e mãe do nome. Tem os pseudônimos. É assunto que não acaba mais. E sobre ele todo mundo tem uma boa história para contar.

É uma da manhã, despeço-me em nome de Morfeu, deus grego dos sonhos. Duvido que ele goste de seu nome.

Os presos da Dona Balbina

Dona Balbina, ou Vó Bina/Arquivo pessoal

Minas Gerais é terra de gente rara, já disseram. Que, além de rara, costuma ser preciosa como tudo o que dela já se extraiu. Terra de gente colorida. Musical. Charmosa. Efervescente. Original. Generosa. Refinadamente simples.

Dona Balbina é da turma dos generosos. Vó Bina nasceu em 1891, e não teve vida nem um pouco fácil. Viúva aos vinte e sete anos, costurava para a vizinhança sob a parca luz de uma lamparina. Com o que ganhava, alimentava os filhos. Que eram muitos. Mas ela sempre tinha em casa algo para receber as visitas. Geralmente um doce, feito por ela no maior capricho.

Vó Bina conhecia todas as plantas, ervas e segredos da natureza. Dizem que ela fazia um chá para bronquite feito com uns ingredientes esquisitos, que era tiro e queda. Conta-se que um tio, que sofria com a doença, mas jamais aceitara o remédio por achá-lo difícil demais de engolir, nunca se curou. Ao contrário dos demais, que enfrentaram a panacéia numa (quase) boa.

Pena que ninguém se lembrou de anotar seus conhecimentos. Agora é esperar que Vó Bina volte a este planeta um dia (se é que já não está por aqui), e que tenha guardado essa sabedoria naqueles arquivos mentais que a gente carrega de uma vida para outra.

Pelo menos uma vez por mês, Vó Bina gostava de preparar suas ‘quitandas’, como se dizia, para levar a uns moços muito especiais. Eram os presos da cadeia de Pouso Alegre, que nesse dia podiam saborear os pães, os sequilhos e o café fresquinho daquela mulher que, de verdade, se importava com eles. Gentileza improvável nos dias de hoje. Vale repetir: a vida da Vó Bina não tinha regalias. Questionada sobre por que repartia suas coisas quando mal as tinha, ela respondia com uma sabedoria singular: “Assim Deus manda mais”. E para entender mesmo o que a movia, o que ela ganhava com esse gesto, a gente precisa compreender dois fundamentos: um é a compaixão. O outro é a generosidade.

Naquela cadeia, os presos não passavam de uns vinte homens, postos ali por conta de delitos quase prosaicos, como roubar galinhas ou dar uns tapas nos desafetos. Uma categoria de detento que habita nosso imaginário e a gente gosta de pensar que existe: os bonzinhos.

Os presos da Vó Bina não ficavam à toa. Como deveria de ser, eles trabalhavam. Fabricavam brinquedos em madeira – carrinhos, vassourinhas, bonecas – que depois eram vendidos na cidade. No dia da tal visita, uma das netas ia junto. Era a menina quem fazia questão de ir, e nisso havia um interesse: ela sempre faturava um brinquedo.

Eu não a conheci. Dona Balbina é trisavó dos meus filhos, bisavó do meu marido. Enquanto escrevo, olho para seu retrato, tão antigo quanto belo. Penso no dia em que ela tirou essa foto, onde seria esse cenário, em que estaria pensando? Faço uma reverência à sua compaixão, ao seu interesse pelos que tinham menos ainda que ela, sequer dignidade. E outra reverência à sua generosidade: mesmo sem ter, Vó Bina dividia o que tinha. E justamente por viver dividindo, recebia da vida sempre o que lhe bastava.

Seria bom sentar-me ao seu lado no velho fogão à lenha, que não existe mais, e tomar um café com ela.