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A aula

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Gostava de ouvi-lo ensinar como funcionava o telefone. Eu sentadinha à mesa da cozinha, maravilhada com meu pai explicando coisas sobre voz, eletricidade e cabos. Suas mãos iam simulando, sobre a toalha estendida (a xadrezinha?), o caminho que a chamada percorria para ir de uma ponta à outra. Eu ficava maravilhada com a tecnologia e com meu pai, que sabia tanta coisa (ainda que não soubesse tanto assim). Cheguei a pedir-lhe várias vezes para repetir a “aula”.

Ontem liguei para ele. Seu Tonico não é, mas estava especialmente surdo. Pediu notícias das crianças, dei, não sei se ele ouviu; só soltou um Aaah. Contou-me que havia varrido todas as folhas secas pela manhã. Perguntei-lhe se havia almoçado direitinho. Ele continuou falando da varrição. Lembrei-me da velhinha surda d’A Praça é Nossa, aquele programa de TV. E ri. O script agora é outro.

Enquanto ele discorria sobre a trabalheira que as folhas lhe deram, lembrei-me da aula do passado. Meu pai ensinou-me sobre algo que, hoje, tem dificuldade para usar. Na nossa breve conversa, o meio era a mensagem.

E agora, quando o visito, sou eu que ensino a ele como funciona uma ligação pela internet. Apanho o celular na bolsa e ligamos para minha irmã, sua filha do meio, que mora em outro país. Ele tem telefone, mas não acerta ligar para ela, muitos números. E não adianta colocar o numerão na memória do aparelho. A memória que não funciona bem é a dele. Vou demonstrando a mágica da chamada. Mas não tem mais a mesa da cozinha, nem a cozinha. Nem as toalhas. Mas tem ele, feito criança, maravilhado com a tecnologia e comigo, que sei tanta coisa (ainda que não saiba tanto assim). E, assim que minha irmã atende, ele passa a falar muito alto no aparelho, como se fazia antigamente. Eu que não vou ensiná-lo que não precisa mais.

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Mande lembranças

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arte: Rodvaz

Quando Fulano pediu a Beltrano que mandasse lembranças a Cicrano, Beltrano não sabia a quais, exatamente, Fulano se referia. Ninguém sabe essas coisas.

Seria a do último Natal que passaram em família, antes de o patriarca endoidar e resolver botar as pedras no bolso do casaco, e cujo resto da história só se soube no dia seguinte, quando Joca, o cachorro, latiu feito besta na beira do rio?

Ou, quem sabe, a lembrança dos tempos em que eram, os dois, irmãos inseparáveis, feito unha e carne, feijão e arroz? Um na pele do Homem Aranha e outro na do Batman, roubando os doces da mesa antes dos parabéns na festinha da prima.

Ou, então, aquela de quando, morando no velho casarão, brigaram feiamente por causa da gata de um que papou, feliz da vida, os canários do outro?

“Mande lembranças a Cicrano, quando o encontrar”. Pode ser que Fulano quisesse apenas lembrá-lo de que ele jamais o perdoara pelas botas – legítimas Stetson de bico quadrado e salto carrapeta que ele comprara com o salário de dois meses como empacotador no mercadinho – surrupiadas para ir ao baile do caubói da cidade, e nunca devolvidas, e que na ocasião Cicrano acabou beijando Mariana, o grande amor de Fulano. Por beijá-la ele até poderia perdoá-lo; pelas botas, jamais.

Beltrano ainda fala com os dois. É a ponte familiar, carcomida pelo tempo e que ninguém se atreve a atravessá-la. Beltrano, o portador de boas e más novas. O verbo de ligação. O irmão do meio, literalmente. Nunca mais se reuniram, os três. E não foi por causa de gatos, nem botas, nem gatos de botas.

Muitos mandam lembranças a alguém apenas para lembrar que ainda existem. Espécie de lembrete, “Ei, estou aqui”. Outros vivem mandando lembranças a esmo. Como frase vazia, a completar uma despedida banal. Por falta do que dizer. Para preencher de algum som o ar, vazio de assunto. Que pecado. Lembranças não deveriam ser enviadas em vão, eis um bom mandamento. O décimo-primeiro, quem sabe.

Plano de expansão

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Os vizinhos da casa 4 tinham telefone. Eu achava que eram ricos, os únicos da vila a terem um. Dona Antonia não se incomodava que passássemos aos nossos familiares o seu número – que, num desses mistérios insondáveis da mente, sei até hoje: 92-6405. Para o caso de um parente precisar comunicar, por exemplo, que alguém havia batido as botas.

Dona Antonia (imagino) cozinhando feijão para o almoço. O telefone toca, ela atende, Espere aí que vou chamar. Ela desliga o fogo, tira o avental, desce as escadas, toca a campainha do vizinho e avisa, Telefone para Fulano. Fulano, que assistia TV, a desliga; desce suas escadas, sobe as da Dona Antonia, entra na sala, Alô?. Um processo que podia levar cinco, dez minutos. Era bom que fosse coisa importante.

Apesar de eu ter reforçado às amigas que aquele era um telefone apenas para re-ca-dos, um dia a Adriana ligou. Pediu para falar comigo. Lá fui eu. Ela só queria bater papo. Eu fiquei desenxabida, em pé ao lado da mesinha, respondendo por monossílabos, bem baixinho. Tratei de abreviar o conversê e fui para casa, morta de vergonha. Dona Antonia, no entanto, nunca reclamava.

Telefone de recados, coisa mais antiga. Era comum alguém informar seu contato assim. Até em curriculum vitae. Significava que a pessoa não possuía telefone, mas contava com alguém para lhe prestar esse favorzinho.

Nossa casa só conheceu telefone na década de 80. Passei a infância e parte da adolescência me comunicando por sinal de fumaça. Eu tinha dezesseis anos e me recordo do técnico terminar a instalação e anotar a sequência mágica num papelzinho, para que não esquecêssemos: 948-3443. De fato, não esqueci. Quem disse que não sou boa com os números?

Foi meu irmão que o comprou, pelo plano de expansão da Telesp. Um carnê com intermináveis prestações. O interessado adquiria a linha e esperava, sentado, até dois anos (vinte e quatro meses; setecentos e trinta dias; dezessete mil, quinhentas e vinte horas) para que o telefone fosse instalado. Eu sonhava com o dia em que conversaria com meus amigos do sofá da sala. Fui várias vezes à Telesp, no Belém, fazer o pagamento. Tinha fila. Um ônibus para ir, outro para voltar. Quem, hoje, se sujeitaria a isso? Não se compra mais telefone desse jeito. É ir à loja (toda esquina tem uma) e sair falando. Aliás, falar ao telefone é coisa secundária, periférica, expressão arcaica. Ninguém pode dizer que o mundo não evoluiu. Quando ouço alguém falar que antigamente a vida era melhor, eu lembro do plano de expansão da Telesp. Telefone é coisa que marca a vida da gente. Até o ET precisou de um pra voltar pra casa.

Desde meu primeiro celular já tive vários números, mas o ringtone é sempre o mesmo: o bom e velho triiiimmm. Por razões de nostalgia assumida. Em casa já há mais aparelhos que seres vivos – contando os gatos. Cada um tem o seu (exceto os gatos), e os que vão sendo substituídos acabam nas gavetas, as crianças pegam para brincar. E ainda tem o fixo.

Quem diria. Dona Antonia, que morreu antes de o smartphone nascer, poderia finalmente cozinhar seu feijão sossegada. Nunca mais tive notícias deles. Também perdi a Adriana de vista, gostaria que ela soubesse que já posso conversar à vontade. Ganhei de aniversário, embora não precisasse, um aparelho novo – as gavetas estão cheias. Nunca mais decorei, em minha memória analógica, os números de ninguém. Nem dos filhos. Quem é que liga pra isso?

No mais, recordações à parte, tenho me dedicado aos meus próprios planos de expansão. Tenho um carnê com intermináveis ideias para quitar, o vencimento é todo santo dia. Atraso algumas, adianto outras. Mas vou dando meu recado.

Fantasia de gato

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ilustração: Jeff Haynie

Eu tinha doze anos. Costumava ir com meu pai buscar minha irmã na casa da amiga dela, à noite, depois do colégio.

É verdade que não íamos só meu pai e eu. Led, um frajolão digno de desenho animado, ia junto. Até que ele gostava de passear de carro. Se não gostava, disfarçava bem. Gato é bom na arte do disfarce.

Então íamos eu, meu pai e o gato fantasiado. É, fantasiado. Com tempo livre de sobra, eu inventava adereços para o bichano, especialmente para recepcionar minha irmã. Um dia, ele surgia com enormes óculos recortados em papelão. No outro, em um colete colorido feito com tecido, fitas e o que mais estivesse dando sopa na caixinha de costura da minha mãe. Se as pessoas se fantasiam de gato, eu tinha um gato fantasiado de gente.

Às vezes, confesso que notava alguma resistência dele em topar a brincadeira. Noutras, parecia até gostar. Talvez apenas se resignasse. Gato também é bom nisso. Mas só quando não tem outro jeito. Sabedoria felina.

Minha irmã jura que houve um dia em que ele foi de bailarino. Não me lembro. Só sei que para o Led era carnaval o ano inteiro – ao menos durante o período letivo. Logo ele, que ganhara esse nome em homenagem a uma das maiores bandas de rock de todos os tempos, o Led Zeppelin. (Originalmente, por impulso, escrevi a ‘maior banda’. Mas assim que digitei ‘tempos’, já havia achado uma injustiça com as outras. Corrigido está.)

À tarde, quando voltava das minhas aulas, eu me dedicava a criar as fantasias. Era raro repeti-las. Os amigos da minha irmã, que também ficavam por ali, na casa da amiga, aguardavam ansiosos a chegada do carnavalesco peludo. “Como será que seu gato vem hoje?”.

Minha irmã terminou o colégio, a carona noturna acabou. Acabou também a brincadeira. E o pequeno folião nunca mais vestiu fantasia. Alguns anos depois, ele se foi. Uma pena não termos registrado nem uma das produções. Tirar fotografia, naquela época, era só de vez em quando, nos casamentos, aniversários, viagens. Comprar o filme, bater as fotos, mandar o filme revelar na Fotobom (ficava a dois quarteirões de casa e o dono era um japonês simpático), buscar na outra semana. Como sobrevivemos à espera, quase uma eternidade, para ver como havia ficado uma foto?

O Led fantasiado seria, fácil, fácil, um gato-celebridade do Instagram. Antigamente, rede social era só a família, a parentada, os amigos da rua e da escola. E ele tinha mais de dez seguidores! Nós de casa (menos minha avó, que não gostava de gato) e os amigos da minha irmã. Hoje? Um milhão, estimo. A admiração ficou hiperbólica. Seu avesso também.

Temos, agora, um imenso inventário imagético virtual de tudo. Teremos, no futuro, mais e melhores lembranças do que hoje? Será a nostalgia mais rica quando, daqui vinte anos, nos depararmos com imagens do aqui e agora, das besteirinhas do dia-a-dia que a gente vai clicando a esmo?

Como será a saudade no futuro, com um presente hiper-registrado?

Tenho saudade dos gatos que viveram comigo desde que cheguei a este mundo. Foram tantos, tantos.

Vou construindo mentalmente meu vasto inventário gatístico, e boto na vitrola a melhor trilha para um carnaval: Black Dog, do Zeppelin. Só para provocar o cat que dorme na cadeira ao meu lado. Que não é o Led, mas bem pode ser, por conta das idas e vindas das almas ronronantes neste planeta. Não dizem que os gatos sempre sabem voltar para casa?

Crônica junina

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Precisei comprar vestido de caipira para a Nina, ela vai dançar quadrilha na festa junina da escola. Lembrei-me de uma loja perto de casa que costuma ter, assim eu escaparia dos shoppings. Poder estacionar em frente, e não na lonjura de um G5, é uma bênção em dias de pressa modo on.

Abro o vidro e, sem descer do carro, pergunto à senhora em pé, na porta: “Tem vestido de caipira?”. Se não tiverem, basta engatar a ré. “Temos, sim!”. Viva São João.

A senhora aponta a seção dos vestidinhos, e em seguida pede a um rapaz que assuma o atendimento. “Pode deixar, vó”. Ela avisa que vai almoçar e desaparece através da porta ao lado de uma arara com calças em promoção.

O rapaz conta que ela gosta de ficar ali, zanzando, ajudando. Na verdade, ela e seu avô começaram o negócio, tanto tempo atrás. Hoje ele toca a loja e eles moram ali, numa casa anexa.

Reúno meia dúzia de vestidos para a Nina experimentar. Enquanto ela desfila, vou duvidando que alguma garota que viva no interior se vista daquele jeito. Toda festa junina, tirando as comidinhas, é uma falácia.

O vermelho ficou bom?, tem um número maior?, crédito ou débito?, CPF na nota? Vendas são feitas de perguntas e respostas que se encaixam.

Reparo: o rapaz tem um sobrenome tatuado no braço. As pessoas costumam tatuar o primeiro nome do filho, da mãe, do pai. Sobrenome, primeira vez que vejo.

Obrigada, eu que agradeço, boa tarde, para vocês também. Na pressa, Nina esquece no provador o casaco que vestia. Só notamos depois, longe dali.

Apanho a bolsa, cadê a nota fiscal?, ufa!, tem o número da loja, pego o celular, ligo, peço para guardar. Reparo: a razão social da loja é o sobrenome no braço do rapaz.

Final do dia, retorno à loja. O casaco esquecido está dobrado à perfeição, dentro de um saco plástico. Em qualquer outro lugar ele estaria amarfanhado sob o balcão, aguardando o resgate. Gentileza extra para a freguesa que tanta pressa tinha. O rapaz está certo em se orgulhar da sua dinastia – que batiza seu ganha-pão – impressa na pele.

Antes de sair, passo ao lado das calças em liquidação e tento ver a porta por onde a avó se transfere para o seu mundo paralelo. Não vejo. E se for uma passagem imaginária, como a que conduz à Nárnia? Faz sentido; em vez de apenas um armário com roupas, uma loja cheinha delas.

Eu bem que gostaria de ir para Nárnia. Mas só se lá tiver canjica.

Se a minha mãe tivesse Facebook

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Se a minha mãe tivesse Facebook quando eu era criança, não sei se ela seria do tipo que tudo publica acerca de seus rebentos. As fofices, as traquinagens, as frases engraçadinhas, as caretas, as dores, as delícias. Minha mãe era do tipo reservada. Mas quem resiste?

Considerando que a internet estivesse a todo vapor nos anos 70, imaginei a timeline da dona Angelina.

Em uma tarde de 1971, entre uma receita de cuscuz e uma mensagem do Chico Xavier, ela postaria que, para conseguir me fazer almoçar naquele dia, fora me seguindo da cozinha até o portão da vila onde morávamos. Eu, quatro anos, não queria comer. E, com a estratégia, eu ia passeando, ela ia me distraindo e eu papava tudo. Minutos depois choveriam os comentários das amigas, marcando a polaridade das opiniões: “Que absurdo!”, “Que gracinha!”. Ela me proibiria de zanzar durante as refeições ou não, conforme o que lesse?

Noutro dia, faria um post-desabafo contando que, em um momento de descuido seu, eu, aos cinco, assumira o controle da velha Lanofix e simplesmente arruinara a encomenda de tricô que ela preparava, e lhe garantiria alguns trocados no final do mês. Nos comentários, a torcida para que ela conseguisse recuperar o tempo perdido, tudo ia dar certo, calma. O apoio lhe daria ânimo para recomeçar do zero?

Ela também postaria, a título de diversão, que eu, aos sete e na intenção de imitá-la, coloquei um absorvente – o velho Modess, que nem de longe lembra os ultrafinos de hoje – e saí na rua, feliz da vida, desfilando o duvidoso volume na calça. Finalizaria o post com kkkkk. Emojis boquiabertos ilustrariam o feedback?

Só não sei se publicaria, num dezembro de vacas magras, que meu presente de Papai Noel fora um xampu Johnson’s (bem mais caro e raro que o Colorama – lanolina ou ovo – de todo dia). Mas era do grandão. Afinal, era Natal.

Ademais, ela rechearia sua página com fotografias de flores e das suas bordações, vídeos de valsas, truques para limpar manchas de molho de tomate, indignações a respeito do Led Zeppelin (“Mas isso é música?”).

Só sei que se a minha mãe tivesse Facebook, eu a seguiria por toda vida.

Saudade é a linha do tempo que não volta mais.

Tipo exportação

Cresci ouvindo falar em café tipo exportação. Laranja tipo exportação. Castanha de caju. Gasolina. Mulata.

Depois entendi.

Tipo exportação é quando a gente faz uma coisa que é bacana, mas precisa torná-la mais bacana, praticamente excelente, para poder vendê-la para outros países. (Entendi também que a mulata não deveria estar na lista.)

Ou seja: para fora, segue sempre o melhor.

Para dentro, não precisa ser o melhor. O bom já serve. O possível, o que dá.

Tem horas que concluo: eu sou uma pessoa tipo exportação.

Sou bacana, mas sou mais bacana ainda, praticamente excelente, para os outros. Sei dedicar carinho e atenção e gentileza às pessoas da minha família, as “de dentro”, mas acabo fazendo isso melhor para as de fora. As dos outros lares que fazem fronteira com o meu. Um lar é um país.

Tem dias que solto os cachorros em casa. Vocifero, esbravejo, surto por tudo e por nada.

Porém, se no instante de fúria doméstica o interfone toca e eu atendo, a voz recupera a maciez, “Tenho, sim, um ovo para emprestar. Levo aí!”. É a minha gentileza tipo exportação.

Quem nunca cuspiu fogo quando o namorado ou namorada faz um comentariozinho qualquer, questionando, por exemplo, seu empenho para arrumar emprego? Se, no entanto, é o professor da faculdade que lhe cutuca, além de aceitar a observação, agradece pelo toque… É a maturidade tipo exportação.

Nessas horas evoco Cazuza em livre e desesperada adaptação: por que que a gente é assim?

Se para a família e pessoas íntimas deveríamos, em tese, oferecer sempre o nosso melhor, o nosso excelente. Mas não. Estamos muito à vontade para escancarar nosso lado B. Mesmo que o preço seja uma carinha com superávit de tristeza no fim do dia.

Bom mesmo é ser do tipo importação. Do tipo “eu me importo com você”. Faz bem às relações. Até as internacionais.