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Cartinha do Papai Noel

Foto: Tom Magliery
Foto: Tom Magliery

Queridas crianças

Todos os anos, eu recebo bilhões de cartinhas de vocês. De algum tempo para cá, passei a receber e-mails também (já são dezenove milhões de mensagens não-lidas). No mês passado, recebi uma pelo WhatsApp. Como a maioria dos adultos, eu também não dou conta de ler tudo. Um dos motivos: vocês escrevem demais. Falta foco, meninos.

A verdade é que eu não me importo tanto assim se vocês foram bonzinhos e boazinhas o ano todo. Vocês não precisam me enviar um relatório comportamental. Nem leio essa parte. Andei pesquisando sobre as crianças índigo, e penso que ser bonzinho não define muita coisa. Nem é garantia de que, assim, vocês ganharão presentes. Na vida, as coisas não funcionam assim. Seus pais ainda não ensinaram isso?

A vida aqui no Polo Norte, preciso dizer, não anda fácil. Depois da PEC dos Elfos, meus ajudantes querem redução da jornada e direito ao Fundo de Garantia. Não tenho para quem repassar esses custos. A sorte é que, até agora, nenhum deles me processou na Justiça do Trabalho.

Então, eu tive algumas ideias e quero compartilhá-las com vocês.

Pretendo escalonar a entrega dos presentes. Já sei; vocês não sabem o que é escalonar. Por que nunca pedem dicionários no Natal? Bem, funcionará assim: a entrega será feita ao longo do ano. Quem tem nome começando de A até I continua ganhando os presentes no Natal. Nomes de J a R receberão seus presentes na Páscoa, através do Coelhinho. Ele é meu chapa. Nomes de S até Z terão seus mimos entregues pela Fada dos Dentes, a cada ‘janelinha’ inaugurada. Quem não tiver mais dentes de leite certamente não acredita mais em mim, nem nela, e ficará tudo certo. Que tal?

Para aqueles que preferem enviar suas cartinhas por e-mail, peço que coloquem o que querem ganhar no campo “assunto”. Ajudará um bocado. E, por favor, evitem mandar links do Submarino etc.. Ano passado, muitas cartinhas foram parar no spam. Que trabalheira! Em tempo: cartas por WhatsApp não serão aceitas. É impossível decifrar aqueles desenhinhos que vocês colocam no meio das frases.

Ah, ia esquecendo de avisar: este ano não usarei trenó. Está cada vez mais complicado trabalhar com as renas. Os protetores de animais andam reclamando. Dizem que elas sofrem maus tratos, vejam vocês! Se souberem de alguém que queira adotá-las, me avisem. Estão todas castradas e vacinadas.

Por fim, aproveito para dar um toque: digam aos seus pais que não fica muito bonito aqueles bonequinhos de Papai Noel nas janelas e varandas, subindo escadinhas que nascem do nada. Parecem uma versão lapônica do Homem Aranha. Era para ser fofo? Alguns são pendurados tão de qualquer jeito, que beijam as paredes. É entristecedor.

Por ora, é isso. Conto com a ajuda de vocês, crianças.

Abraços natalinos, ho ho ho, aquelas coisas todas.

Noel

O chamado (ou: Carta para Marina)

Foto: Gilberto Agostinho

“Vou seguir o chamado

E onde é que vai dar, onde é que vai dar

Não sei”

Eu sei, Marina. Eu sei onde vai dar. Se eu seguir o chamado, vou encontrar um filho. Porque na vida da mulher que é mãe não há nada que a chame mais do que filho. Há de ser uma espécie de resgate, uma compensação pelo útero abandonado tão cedo – ainda que de livre e espontânea vontade.

Os motivos para um chamado de filho são amplos, gerais e irrestritos. No meu caso, tenho dois ex-inquilinos umbilicais lindos, que me evocam a cada dois minutos e meio: para ver a lagartixa esquartejada que eles encontraram no jardim, ver como ele anda de ré e o que ela sabe fazer com a colher de pau, ver a propaganda do brinquedo novo, vê-los pular na piscina – de frente, de costas, girando, de olhos abertos, de olhos fechados também – e nadar feito tartaruga, depois igual golfinho. E aí eu já estou tão cansada, Marina, que fico igual ao pior cego, aquele do ditado: não quero ver!

Em dia de chamação intensa, chego a atender meus filhos mais vezes que o pasteleiro da feira de sábado. É ele querendo um de queijo, ela, de palmito. Estou frita, Marina.

O chamado de um filho é, ao mesmo tempo, carente e impiedoso. Quase feroz. Não faz sentido três intermináveis segundos para ser atendido. Filhos são urgentes.

O chamado da sua canção, Marina, é poético, subjetivo, cheio de metáforas, vem quando se está numa busca interior. Os dos meus filhos são em prosa, objetivos, cotidianos, reais. Me pegam quando estou no banheiro, fazendo xixi. Ou quando estou tentando prestar atenção no noticiário, querendo dormir, quase dormindo ou, efetivamente, dormindo. Ainda não investiguei a fundo, mas o número de ocorrências de um chamado filial enquanto converso com o pai deles é altíssimo. Deve haver alguma conjunção especial nesse momento, solar ou lunar, que desperta no filho a missão de ser um chamador sênior.

De vez em quando, finjo que não é comigo, larari-lala. E torço para que não seja um deles querendo me avisar que o gato se enfiou na secadora ou que a máquina de lavar saiu andando pela área de serviço na hora de centrifugar, de tanta roupa que botei lá. Eles não desistem fácil; eu também não. Recorro à meditação expressa; fico invisível. Ser mais velho merece alguma vantagem.

De vez em quando a chamação é tanta, Marina, que assumo o ‘não’ como resposta-padrão e seja o que Deus quiser. Se era “Mãe, você vai brigar se eu derrubar iogurte no tapete?”, danou-se. Mas sempre tenho cinquenta por cento de chance de acerto na decisão.

De vez em quando, penso que há um chamado subliminar, embutido no chamamento dos filhos, a nos lembrar que é o amor que tudo move. Ou o céu, que ironicamente abriga o recado: “Fizestes uma pessoa, agora te viras. Quem te mandastes levar tão a sério o ‘Crescei e multiplicai-vos’?”.

Você não sabe do que estou falando, Marina, porque não tem filhos. Tivesse, saberia que o grande final, o grande final feliz da sua canção nunca é proclamado na vida de uma mãe; ele está em eterno progresso. (A ordem é que são elas.)

“O chamado”, Marina Lima e Giovanni Bizzotto

Carta para Maria

Grafite: "Madonna", SAO/Flickr.com

Cara Maria

Não se espante com a inédita missiva; por aqui, tudo segue em razoável ordem. De fato, é com seu filho que converso mais, em longas lamúrias com frente e verso, ou pelos recados ventados, só para dar um alô. Ele sempre diz que está por dentro das coisas que conto, mas tenho cá minhas dúvidas. A onisciência não dá garantia.

As crianças vão bem. Você, que é mãe, sabe o trabalho que filho dá. Não sei se os meus terão a fome serena de mudar o mundo, como teve o seu. Se eles conseguirem transformar o mundo deles, já estará bom. No fundo, todo filho é meio salvador. Não há fruto que não seja bendito.

Desde que você virou santa, Maria, toda mulher precisa inventar a própria santice, ainda que às avessas. É seu principal legado, nossa maior herança. E a despeito da minha impaciência e egoísmo, há momentos em que consigo ser Maria, por conta da milenar fagulha genética. Às vezes, lhe sou grata por isso. Às vezes, não.

Não sei muito sobre a Santíssima Trindade, mas será que não esqueceram de incluir você nela? Ou era uma espécie de Clube do Bolinha, onde mulher não entrava? Aí não seria trindade, o que poderia mudar a história da humanidade inteira, para o bem ou para o mal. Melhor deixar assim. Fiquemos com a nossa tríade paralela: mãe, filha e o espírito santo no meio, amalgamando tudo.

Falando nisso, você sabia (de verdade) quem embalava nos braços? Trocava-lhe as fraldas e dava-lhe de comer, como qualquer mãe? Afinal de contas, Maria, o que tinha no seu leite?

A sua tarefa foi a mais impossível, difícil e insana. Você poderia tê-la declinado, passado a batata quente adiante, ter dito ‘não’, enfim. Mas você, Maria, não foi com as outras. Assistiu, sem direito à raiva, nem esporro, o filho perecer. Não é para qualquer uma. Era parte do combinado perdê-lo tão cedo, ou você só ficou sabendo em cima da hora qual era seu papel no teatro da humanidade? Não lhe deu vontade de mandar tudo às favas e ir lá, arrancá-lo da cruz e dizer “Ok, a brincadeira acabou”? Seu choro na escuridão, quem é que ouviu? Quem acudiu você quando o bicho pegou? Seu coração, por fim, recebeu um pouco da cura que ele espalhou pelos quatro cantos? E hoje, tanto tempo passado, me diz, como mulher, não santa: você emprestaria seu ventre de novo?

Nós, que não sabemos a hora da nossa morte, vivemos orando para que você esteja atenta ao relógio do mundo. Saber que você é por nós, agora e depois, representa um alento e tanto. Mas esta noite, Maria, vamos fazer diferente. Hoje, quem roga por você sou eu. Dorme tranquila.

Boa noite,

Carta para minha tia

Tia

Meu avô sempre dizia, em meio às prosas e sem maldade alguma, que você era meia-irmã dele. Engraçado isso de dividir as pessoas pela metade, conforme o pai e a mãe. Ser meio-irmão é como ser meia-pessoa. Que teria sentido se fosse feito só de pai ou só de mãe. Mais ou menos como, dizem, aconteceu com Jesus. Não foi assim com você.

Nunca me disseram, no entanto, que você era minha meia-tia. Tampouco você me tinha como meia-sobrinha. Para mim, você era tia inteira. Que telefonava de vez em quando só para saber se a gente estava bem. Que usava vestido com calça comprida, onde quer que fosse. A estranha combinação ficou sendo a sua marca registrada. Mal sabia você que isso viraria moda. Eu deveria ter prestado mais atenção em você, tia.

Eu também deveria ter sido uma pessoa menos atarefada. Menos atrasada. E daquela vez, com razão, mais apressada. Daquela vez, recebi um recado seu, pedindo que eu fosse à sua casa. Você queria conhecer minha filha, que acabara de nascer, para dar a ela um presente: uma roupinha nova. E eu não fui, tia. Não fui. Poucos meses depois, você que se foi. O verbo ir é mesmo cheio de sutilezas.

Vocês duas acabaram não se conhecendo. Nina não recebeu seu presente, certamente embrulhado com papel celofane cor-de-rosa e fitinha enrolada em espiral. Roupinha de bebê, quando é para presente, deixa de ser só roupinha para o bebê. Vira abraço. Presente, quando não é dado, vira nuvem. E o vento leva.

Obrigada pelo presente, tia. Ainda que tarde. Um dia, eu aprendo a fazer as coisas direito. Ou por inteiro.

Saudades,

Carta para J., que está triste

Ilustração: João Grando/Flickr.com

Querida

Deus deveria ter instalado em nós um botão chamado ‘colo’. Na hora T, de tristeza, era só apertar e um monte de amigos apareceriam na nossa frente. Um para fazer aquele café bem forte, outro para ajeitar o cabelo da gente, outro para contar piada. Como não sei fazer café, nem contar piada, botaria uma flor no seu cabelo.

Já que você não quer me contar de jeito nenhum o que aconteceu, a ponto de nem querer saber daquele sapato cintilando para você na vitrine, ontem à tarde, eu vou por tentativas. Se eu acertar, você sorri.

Para o caso de ter sido aquele seu namorado enjoativo, eu tenho a solução: água tônica com limão espremido e gelo. Enquanto ele desfia o rosário, você vai tomando, para não embrulhar o seu estômago. É tiro e queda. Vai lhe dar mais disposição, inclusive, para mandá-lo passear. Definitivamente.

Na hipótese do Horácio ter fugido de novo, o jeito é esperar. Gato é assim mesmo. Gente geralmente avisa quando vai viajar, gato não. Ele se pirulita e pronto. Depois volta. Se não voltar em dez dias, a gente faz um cartaz bem bonito e põe em tudo quanto é lugar. Quem sabe ele mesmo não acaba vendo e lembra que tem dono? É bom não esquecer, porém, que cada um tem o seu caminho neste planeta. A gente não pode, nem deve, ter o controle de tudo.

Vamos supor que aquela sua sobrinha que foi fazer intercâmbio na Austrália tenha se metido em outra encrenca. Esse é o padrão dela, o que se há de fazer? Fique sossegada, ela costuma escapar ilesa. No mais, nada de ruim acontece na Austrália. Até o Nemo, aquele peixinho do filme, conseguiu voltar para casa.

Imaginando que possa ser seu novo corte de cabelo, e essa cor, é preciso ser honesta: bonito, bonito mesmo, não ficou. Mas cabelo é como a grama do jardim; você se esquece dela uns quinze dias, e ela já está grande, é hora de aparar de novo. E ele nem ficou verde. No Natal de 2005 ficou, lembra? E nem por isso você perdeu a alegria de viver.

Não vi o sorriso, J. Por que você está tão triste? Mas o que foi que aconteceu? Já sei. Às vezes, na vida, está tudo bem, tudo certo. Não falta nada em casa, o filho passou de ano, o cliente aprovou a campanha. Tudo caminha nos conformes. Mas a tristeza insiste em virar sombra. Aí é que mora o perigo: um dia, a camélia cai do galho, dá dois suspiros, e morre.

Melhor Deus incluir esse botão na próxima revisão de projeto.

Beijos,

Carta para a amiga que foi embora

Ilustração: Tim Morgan/Flickr.com

Querida R.

Não estranhe receber somente agora esta carta, não é culpa dos Correios. Tenho essa mania de adiar as coisas. Fiquei sabendo que isso se chama procrastinação. E fiquei sabendo também que é coisa do meu signo, Touro.

Ainda estou triste por não ter me despedido direito de você. Como fazem as grandes amigas, quando uma delas está prestes a fazer uma grande viagem de avião. Por não ter telefonado para você dia sim, dia não, naquela primavera de 2003. Acabei perdendo seu, digamos, embarque. Sem direito ao último abraço, ou mesmo um aceno. É que seus pais ficaram com receio de me contar. Eu estava grávida, um barrigão deste tamanho. Nunca se sabe.

Sempre achei curioso o nome do que tirou você da gente: diabetes. Lembra ‘diabrete’, que é um diabo pequenininho. Pensando bem, nem é uma associação tão equivocada assim. Tal um diabinho, a doença pintou e bordou em você, que encarou tudo. Até transplante. Bonito, isso: primeiro, sua mãe lhe teve no corpo dela. Depois, com um pedaço dela em você, foi a sua vez de tê-la em si. O amor tem dessas: nos põe um dentro do outro.

Recebi a notícia dias depois. Foi como chegar atrasada ao aeroporto. Sua mãe contou para minha irmã. Que falou para o meu marido. Que me contou. Lembrei de nós duas no pátio da escola, finalzinho dos anos 70, ladeadas pelos amigos, brincando de telefone sem fio. A graça era quando o último entendia um absurdo qualquer, diferente do que o primeiro havia falado. Naquele dia, eu fui a menina da ponta. E entendi certo. Não valeu.

Quis que não fosse verdade. Quis não ser de Touro. Quis que você tivesse adiado sua viagem, também numa espécie de procrastinação. Mais três meses e você conheceria meu filho. Um pouquinho mais e me veria, pela primeira vez na vida, de cabelos curtos. Três anos depois, você pegaria minha filha no colo. Iria gostar de brincar no Facebook. De tomar café no Starbucks. De vir me visitar usando GPS. De ver o Obama na Casa Branca. E de ouvir a Céu. Porque o nome dela deve lhe inspirar mais do que a nós.

Sempre que eu penso em você, R., tenho a sensação de que você está perdendo um monte de coisas legais acontecendo por aqui. Talvez você, daí de onde está, tenha a mesma sensação – mas a respeito do que eu esteja perdendo.

Escreve, um dia, contando?

Saudades,

Carta para o motorista de trás

Moço

Logo vi. Alguém que gruda no carro um adesivo escrito “Festa do Peão de Boiadeiro, eu fui” não poderia ser alguém lá muito civilizado. Você pode até ter ido, moço. Para satisfazer seus instintos ancestrais. Mas não precisa contar para ninguém. Se fosse “eu vou”, eu compreenderia sua pressa ao tentar me ultrapassar pela direita. O evento é daqui cinco meses mas, com o trânsito de sexta-feira na capital paulista, você certamente chegaria atrasado.

Em todo caso, antes que você pense o contrário, eu não sou a culpada por ele. Estamos no mesmo barco. Embora, se estivéssemos de barco, era só pegar o rio Tietê e estaríamos longe, bem longe. Mas Deus nos deu rodas. Só nos resta brincar de somar as placas dos carros à nossa volta, checar os emails pelo celular, disfarçando bem para o amarelinho não ver, ou comprar pipoca de canjica oferecida de cinquenta em cinquenta metros pelos ambulantes, enquanto os fiscais não removem o caminhão quebrado ali na frente.

A maioria das pessoas diz, com orgulho, que não tem inimigos. Porém, ao ver pelo meu espelho retrovisor o seu olhar irado, os seus sinais que, confesso, nem sei o que querem dizer, mas boa coisa não deve ser, começo a acreditar que a afirmação não vale para mim. Não nos conhecemos, mas você age como se eu fosse sua inimiga. Ou, no melhor dos casos, um obstáculo a ser transposto, um organismo indesejável, um vírus a ser exterminado.

Que as pessoas se transformam atrás de um volante, todo mundo sabe. Quem nunca assistiu aquele desenho de Walt Disney, incrivelmente atual apesar de ter sido feito em 1950? Assim é você, moço. Meu avô diria que você está indo tirar o seu pai da forca. Mais alguns minutos e poderá ser tarde demais. O motivo da condenação do seu pai? Ter permitido que você tirasse carteira de motorista. Talvez nem você saiba por que está com tanta pressa. Afinal, o importante é ultrapassar, não ser deixado para trás, chegar antes. Ainda que somente dois minutos e quinze segundos antes.

Do meu posto, eu vejo tudinho o que você faz. Seu ar de enfado, sua investida frustrada na ruiva da pickup ao lado, seu ímpeto de viver um dia de fúria como o Michael Douglas. Não há saída, meu caro: ou encolhemos nossos carros, ou criamos mais ruas. Ou vamos todos viver felizes em Borá, o menor município do país, pertinho daqui. Nem todos os quase mil habitantes de lá têm carro, um sossego. No entanto, no meio desse caminho ficamos, eu e você, nessa relação tão delicada. Eu sou a motorista da frente que, para você, não anda. Você é o motorista de trás que, por não ver direito o que acontece lá na frente, dá de esbravejar, esmurrar, gesticular e ameaçar lançar seu carro contra o meu como se os cavalos do seu motor fossem de verdade. Trânsito é uma das mais tristes variantes da cegueira urbana, a psicopatia temporária manifesta até por cidadãos de bem. É, moço. O mundo ficou pequeno para tantos bólidos. E, por causa do caminhão, não adianta reclamar: todos nós passaremos, mas um de cada vez.

Por falar em mundo pequeno, já pensou se estamos indo ao mesmo lugar? Imagine: você está indo visitar um amigo no mesmo prédio onde mora minha amiga que faz aniversário hoje. Vai ter festinha e eu não perco o rissole de palmito da Dona Janu por nada deste mundo. Estacionaremos na mesma rua, aguardaremos juntos o porteiro nos anunciar. Você vai ao quinhentos e um; eu, ao seiscentos e dois. Como no desenho de Disney, você já terá desincorporado o malévolo senhor Wheeler para voltar a ser o gentil senhor Walker. Até se oferecerá para apertar o botão do sexto andar.

Não é impossível que isso aconteça, moço. Portanto, melhor você se comportar e parar de piscar o farol. Senão, eu conto para todos no elevador (lá no prédio onde, se meu devaneio fizer sentido, a gente vai se encontrar) que você tira meleca do nariz e depois fica analisando o material.

Atenciosamente,

Moça da frente

Carta para uma vendedora

Ilustração: Josi Stanger, fiel leitora deste blog

Moça

Vamos encarar a verdade: chegamos, como a maioria dos casais (embora não sejamos exatamente um) àquele ponto onde é preciso discutir a relação. No nosso caso, microrrelação. Se na vida de um casal a crise leva algum tempo para se instalar, para nós bastaram o quê? Uns três encontros. A loja onde você trabalha é uma das minhas preferidas, e nas últimas vezes calhou de só você estar disponível. A sorte é que nós duas somos mulheres, temos a moda a nos unir, há de ser mais fácil o entendimento. Nosso planeta de origem, Vênus, é o mesmo e isso ajuda um bocado. Proponho, então, uma espécie de terapia – como a de casais –, onde cada uma expõe seus sentimentos. Eu começo, pode ser?

Primeiro: apesar de fundamental num relacionamento, eu não vejo necessidade de nos chamarmos pelo nome. Não há meio de eu decorar o seu. E assim você não troca mais o meu. Que não é Soraia.

Segundo: não há nada mais bonito numa relação do que um querer ver o outro para cima, feliz. Porém, devo tranquilizá-la: nem tudo fica bem em mim. Nem todas as cores me favorecem. Nem tudo ‘me valoriza’. Quatro décadas sob a ação da gravidade, dois filhos, carboidratos a mais e exercícios a menos têm seu preço. Conheço meus limites.

Terceiro: sinto que precisamos ter mais momentos em que não estamos juntas. Quando estou no provador, por exemplo. Aquela hora é só minha. Ali, desnudada, encaro detalhes que o velho espelho do quarto não dá mais conta de mostrar. Experimento um ângulo diferente, brinco com meu reflexo, me dou broncas, faço auto-elogios, traço metas, confiro a evolução da celulite, percebo que preciso limpar minha bolsa, pendurada no gancho. Seria importante não ser interrompida de dois em dois minutos com “Está dando certo?” ou “Posso ver como ficou?”. Eu não peço para ver tudo o que você está fazendo, peço? Então.

Mais alguns segredinhos. Quando termino minha compra, terminei mesmo. Entendo que talvez a mensalidade da sua faculdade dependa disso, mas não fica bem insistir com “Não vai levar mais nada?” e “Hoje é só isso mesmo?”. That’s all, folks.

E eu juro: para mim, não faz diferença saber que vermelho está mais na moda que azul. Eu sempre vou preferir a cor que, no dia, combinar mais com a minha alma.

Por fim, não custa lembrá-la: eu não sou o seu bem.

Agora é a sua vez. Serei toda ouvidos.

Um abraço,

Carta para uma barata

Ilustração: NDroae/Flickr.com

Dona Baratinha

Não tenho dúvida: deve haver algum sentido em você. Quando você surgiu na minha frente ontem à noite, sem aviso – é sempre à noite, e sempre sem aviso – um frio percorreu-me de cima a baixo. E nada era mais urgente do que meu instinto ancestral de autoproteção e o desejo absoluto de ficar longe, muito longe.

Ineditamente, contemplei você. E você deve ter feito o mesmo comigo. O que não pude assegurar, seus olhos sem órbita parecem olhar para tudo e para nada. Na verdade, foram suas antenas que detectaram a minha presença na varanda, antes mesmo que eu detectasse a sua. Nisso você sempre leva vantagem.

Deus costuma falar com a gente através das parábolas. Elas são práticas, lúdicas e eficazes para transmitir ensinamentos. Você é uma parábola em si, Barata. O problema é que ninguém entende a sua palavra. A palavra muda de um inseto, com o perdão dos termos, barato e ordinário que representa os mistérios insondáveis da criação do universo. Um raro exemplo de obstinação e coragem, com essa sua mania de seguir vivendo a despeito do que pensam de você.

Deus também escreve certo por linhas tortas. Sua existência é uma linha torta – como aquela que você fez do banco até o jardim – e nela deve existir alguma certeza, ou sabedoria. Estar no planeta há quatrocentos milhões de anos, antes mesmo dos extintos dinossauros, é fato nada prosaico. Nojento, contudo.

Costumo dizer à minha filha, nos seus medos dos insetos em geral: “Eles têm mais medo de você do que você deles”. O que, evidentemente, não vale quando é você na história. Embora você não tenha me enfrentado, tampouco me ignorado, você não fugiu com muita convicção. Como se já me conhecesse. Ideia que garantiu nova náusea, pondo de novo aquele frio a me percorrer. Se acaso eu lhe perguntasse, Barata, “Nós já nos vimos antes?”, qualquer que fosse sua resposta, eu não acreditaria. Todo mundo sabe que você é mentirosa. Aquela história das saias de filó, anel de formatura, sapato de veludo, cabelo enrolado. Você mente para ser aceita. Até você sofre com os padrões sociais e de beleza. Existe barata gorda?

A verdade é que ontem, por instantes, eu não desejei aniquilá-la com minha supremacia. Pensei no Deus das parábolas e das linhas tortas e em qual seria a mensagem dele através de você, do seu layout. Porque vamos ser sinceras: ninguém gosta de vocês. Existem algumas histórias que lhe conferem alguma utilidade. Outras, de tão bizarras, eu prefiro acreditar que não passam de ficção. Como será ser um bichinho tão detestável? Terão as baratas auto-estima? Como você reage a tanta rejeição? Talvez sua resposta seja a mais contundente e audaciosa, dada sob aquele seu repugnante movimento de antenas, para que a humanidade inteira a ouça: “Eu sobrevivo a uma hecatombe nuclear”. Ao que eu replico imediatamente: “Mas não a um chinelo”. Pá.

Carta genérica para um bebê

Algumas pessoas têm me pedido para reproduzir esta cartinha, mudando o destinatário, para dar à filha, ao sobrinho, ao filho da amiga. Claro que pode! Só que a carta original, para a Letícia, tem detalhes que são só para ela. Então, para facilitar, reescrevi algumas coisas e criei esta “Carta genérica para um bebê”. Fiquem à vontade para copiá-la. Ficarei feliz. (E se puderem dar o crédito, melhor ainda.)

Bebê,

que bom que você está de volta.

Você nem nasceu ainda, mas eu vou lhe contar algumas coisas deste mundo. Só para refrescar a sua memória ancestral. Porque você já sabe tudo, mas vai esquecer.

Vou explicar. Aqui tem uma coisa chamada banco. Na entrada do banco existe uma porta giratória com uma caixinha, e a gente precisa deixar algumas coisas nela antes de entrar. Depois que entramos, pegamos de volta.

Nascer é mais ou menos isso. A gente deixa todo o nosso conhecimento numa caixinha lá na porta do planeta, que também é giratório. A diferença é que levamos algum tempo, às vezes uma vida inteira, para pegar tudo de volta. Depois explico o que é banco.

É preciso dizer: aqui é bem legal, mas um pouco esquisito. Está tudo dividido em países. Mas se você observar o planeta de cima – da estrela de onde você vem, por exemplo – verá que é uma coisa só. Parece óbvio, mas muita gente ainda não percebeu isso.

Além dos quatro elementos – água, terra, fogo e ar – nosso mundo tem três coisas básicas: gente, bicho e planta.

As plantas estavam aqui antes de nós. Não fossem elas, a gente não teria flor para enfeitar a casa e o cabelo. Nem sombra para tirar uma soneca. Nem comida. Assim que você puder, peça para sua mãe preparar morangos picadinhos com mel. É imperdível. O mel vem da abelha, que é um tipo de bicho.

Os bichos também já moravam no planeta. Não existe um que não seja bonito. Urso, gato, cavalo, gaivota, leão-marinho, joaninha. Se bem que a barata não é nada bonita. Mas não há um bicho que não seja importante. Quer dizer, tem a barata, que eu não sei para quê serve.

Por fim, viemos nós. É importante saber uma coisa: quem chega por último precisa respeitar os que chegaram antes. Muitas pessoas vão tentar lhe convencer do contrário. Não acredite.

Para contar tudo isso – gente, bicho, planta – existe a matemática. Matemática é uma coisa meio chata. Mas ajuda um bocado. É com ela que você vai aprender a contar quantos dias faltam para o Natal, quantos bombons de chocolate você já comeu e quantas pessoas estão ao seu lado para o que der e vier. Essa conta é a mais importante. Preste atenção quando a professora lhe ensinar sobre o infinito. Vai lhe ajudar a entender melhor o amor dos seus pais por você.

Tem mais coisas bacanas aqui. A música que sua mãe canta para você, desde o dia que soube que você viria. A cara de bobo do seu pai quando olha para você. O cinema, feito com as histórias que saem das cabeças das pessoas. Também tem a água. Que é parecida com a que você já conhece, aí na barriga da sua mãe. Aqui fora tem mais. Muito mais. O oceano é feito de água. E quando a gente olha para ele, parece que ele não acaba mais. Mas sem fim, só mesmo o amor.

Faltou explicar o que é banco. Mas acho que você não entenderia. Aliás, ninguém entende direito. Esqueça.

Por fim, existe a família. Família é tudo de bom. Mas, às vezes, pode torrar um pouquinho a nossa paciência. Talvez torre a sua. Mas acredite: isso não terá a menor importância. Porque família é de onde a gente veio e para onde a gente sempre volta.

Vai por mim.

Um beijinho,

Carta para Letícia

Ilustração: Reway/Flickr.com

Querida

Que bom que você está de volta.

Você nem nasceu ainda, mas eu vou lhe contar algumas coisas deste mundo. Só para refrescar a sua memória ancestral. Porque você já sabe tudo, mas vai esquecer.

Vou explicar. Aqui tem uma coisa chamada banco. Na entrada dele existe uma porta giratória com uma caixinha, e a gente precisa deixar algumas coisas nela antes de entrar. Depois que entramos, pegamos as coisas de volta.

Nascer é mais ou menos como entrar nesse lugar. A gente deixa todo o nosso conhecimento numa caixinha lá na porta do planeta, que também é giratório. A diferença é que levamos algum tempo, às vezes uma vida inteira, para pegar tudo de volta. Depois explico o que é banco.

É preciso dizer: aqui é bem legal, mas um pouco esquisito. Está tudo dividido em países. Mas se você observar o planeta de cima – da estrela de onde você vem, por exemplo – verá que é uma coisa só. Parece óbvio, mas muita gente ainda não percebeu isso.

Além dos quatro elementos – água, terra, fogo e ar – nosso mundo tem três coisas básicas: gente, bicho e planta.

As plantas estavam aqui antes de nós. Não fossem elas, a gente não teria flor para enfeitar a casa e o cabelo. Nem sombra para tirar uma soneca. Nem alimento. Assim que você puder, peça para sua mãe preparar morangos picadinhos com mel. É imperdível. O mel vem da abelha, que é um tipo de bicho.

Os bichos também já moravam no planeta. Não existe um que não seja bonito. Urso, gato, cavalo, gaivota, leão-marinho, joaninha. Se bem que a barata não é nada bonita. Mas não há um bicho que não seja importante. Quer dizer, tem a barata, que eu não sei para quê serve.

Por fim, viemos nós. É importante saber uma coisa: quem chega por último precisa respeitar os que chegaram antes. Muitas pessoas vão tentar lhe convencer do contrário. Não acredite.

Para contar tudo isso – gente, bicho, planta – existe a matemática. Matemática é uma coisa meio chata, Letícia. Mas ajuda um bocado. É com ela que você vai aprender a contar quantos dias faltam para o Natal, quantos bombons de chocolate você já comeu e quantas pessoas estão ao seu lado para o que der e vier. Essa conta é a mais importante. Preste atenção quando a professora lhe ensinar sobre o infinito. Vai lhe ajudar a entender melhor o amor da sua mãe por você.

Tem mais coisas bacanas aqui. A música que sua mãe canta para você, desde o dia que soube que você viria. O cinema, feito com as histórias que saem das cabeças das pessoas. As bolsas e os sapatos (quando você crescer, saberá). Também tem a água. Que é parecida com a que você já conhece. Aqui fora tem mais. Muito mais. O oceano é feito de água. E quando a gente olha para ele, parece que ele não acaba mais. Mas sem fim, Letícia, só mesmo o amor.

Faltou explicar o que é banco. Mas acho que você não entenderia. Aliás, ninguém entende direito. Esqueça.

Por fim, Letícia, existe a família. Família é tudo de bom. Mas, às vezes, pode torrar um pouquinho a nossa paciência. Talvez torre a sua. Mas acredite em mim: isso não terá a menor importância. Porque família é de onde a gente veio e para onde a gente sempre volta. A sua família, se for como sua mãe, é linda. E eu desejo que, quando você tiver idade para ler esta carta, ela esteja completa.

Um beijinho,

Carta para a Editora

R.Chappo/Flickr.com

Querida Editora

Houve um tempo em que eu, jovem, ficava até triste quando via a sua revista. Como naquelas vezes onde eu, criança, não podia ganhar a boneca que falava. Minha mãe dizia que eu era uma boa menina e a merecia. Mas que ela não era para mim. De um jeito parecido, eu folheava as páginas da sua revista e percebia que nada, ou quase nada, ou muito pouco, era para mim.

E eu ia ficando triste, editora querida.

Um dia entendi porque a boneca falante não poderia ser minha. Adulta, também notei que havia alguma coisa errada na sua revista. Porque você dizia que ela era para mim. Mas não era.

Hoje eu passeio pelas páginas onde você sugere coisas para que eu tenha um guarda-roupa bonitão e para que eu seja feliz. E me dá uma vontade doida de perguntar, querida editora.

Quantas leitoras da sua revista podem, de verdade, pagar pelos jeans, pelas blusas, pelas bolsas e pelos sapatos de três dígitos, tão próximos dos quatro, da sua vitrine de papel? Porque eu sei que mais da metade das suas leitoras são mulheres como eu. E eu não posso. Você acredita, de coração, que ser sexy e sedutora seja coisa que se ensine num passo-a-passo? Nem tudo na vida é pedagógico.

Certa vez, uma amiga se apiedou da minha primeira dúvida enquanto tomávamos um chá – eu lembro, era de capim-santo – e revelou: “É para pegar as ideias. Depois a gente vai atrás dos similares”. A dúvida só cresceu. Para quê mesmo a gente precisa pegar essas ideias? Não dá para termos as nossas? E se o original não dá, para que desejar o parecido, o quase igual? “A gente é imitador por natureza”, devolveu a amiga. E eu fechei o bico.

Então é assim, querida editora. A gente pega emprestada a sua ideia. Que não é sua, pois você emprestou de alguém. Que, por sua vez, não é o dono da ideia, e também emprestou de outro. E a gente vai pegando ideias emprestadas e se ajeitando cada vez mais nos balaios, um dentro do outro, formando o grande balaio-mãe das ideias comuns.

Querida editora, que graça isso tem?

Não é que eu desgoste totalmente da sua revista. Até gosto. Sou consumidora, afinal das contas. Mas a compra quase imaginária e a estética equalizada das suas páginas não deixam a vida meio sem sal?

Como eu lhe disse, houve um tempo em que eu até ficava triste quando via a sua revista. Mas hoje eu já sei de algumas coisas. Por exemplo, que aquela boneca não falava de verdade coisa nenhuma, querida editora.

Um abraço,

Carta para meus pés

 

Neuro74/Flickr.com

Caros

Vamos ser sinceros: lindinhos vocês não são.

Pés são como irmãos gêmeos. Brotaram juntos, nasceram no mesmo dia e hora. Carregam o estigma da alma idêntica, como aqueles bebês espelhados nos carrinhos duplos: mesmas meias, mesmos sapatos. Como é que vocês poderiam ter desenvolvido suas próprias identidades desse jeito? Logo vocês, que dão nome a tanta coisa. Pé de vento. Pé de moleque. Pé de chinelo. Pé direito. Pé de galinha. Pé de pato. Pé de meia. Toda fruta tem seu pé. Toda serra também. Tem o pé na estrada. E tem o pé na cova.

Por muito tempo, depois de adulta, já, eu tive vergonha de vocês. Hoje me envergonho da vergonha. Aprendi a gostar de vocês. Isso não acontece entre as pessoas? Pois então. Às vezes, cismamos com fulano, o ignoramos durante anos, décadas, uma vida inteira. Para, num belo dia, constatar que não era bem assim.

Vocês são iguais aos pés de minha mãe. Arredondados, dedos curtos. Exceto pelo fato de que os dedos dos pés de Dona Angelina, vistos de baixo, pareciam balas de coco. Os seus dedos não se parecem com bala nenhuma.

Seus dedões sempre foram como plantas buscando um sol imaginário. Um vislumbra eternamente a minha esquerda. O outro, minha direita. Dedões paralelos, que jamais se encontrarão no infinito.

A primeira vez que tirei os sapatos na frente de um namorado foi horrível. Na sala, descalcei-me na velocidade da luz, e enfiei vocês dois embaixo da maior almofada que havia no sofá. E lá vocês ficaram, exilados.

Um dia, uma colega de trabalho, que tinha os pés mais feios do mundo, apareceu de sandálias. Aquilo não eram pés, eram mãos que saíam dos tornozelos. Os dedos, longuíssimos e finos, pareciam tentáculos. Fui correndo para o banheiro, tirei as botas, arranquei as meias. Se pés tivessem olhos, os seus ficariam ofuscados com a claridade inédita. Encarei vocês. Tão amassadinhos. Ali decidi: se a amiga podia, eu também.

Comecei a procurar algo que representasse a grande virada em minha vida. Mas que não fosse tão radical. Afinal, meus queridos, eram anos de reclusão. Foi difícil encontrar um modelo que atendesse às minhas bizarras exigências. O namorado (outro) não compreendia como eu poderia pedir nas lojas uma sandália aberta que fosse o mais fechada possível. Resultado: acabava saindo com uma bota na sacola. Mais uma. Para desespero de vocês.

Quem diria. Hoje eu gosto, e muito, de vocês. São bonitos, reconheço. Branquinhos. Capricho no filtro solar, para eternizá-los assim. Eu não deveria tê-los submetido a tanto sofrimento na distante adolescência. Coca-cola, óleos… tudo pelo bronzeado. Que jamais aconteceu: a genética deixou claro quem manda no pedaço.

É hora de pedir perdão aos dois. Pela monotonia das botinhas, espécie de cativeiro para vocês. Por vocês não saberem, por anos a fio, o que era um podólogo. Pela falta de carinho e atenção. Pelos bicos finos, anos a fio. E, mesmo depois da nossa reconciliação, pelos saltos imensos em pleno nono mês de gravidez.

Hoje, metidos nas rasteirinhas abertíssimas que surpreenderiam os ex-namorados, vocês são muito mais felizes. Metade dos meus cremes são para vocês. Vocês passeiam descalços, até mais do que deveriam. Aos trinta e nove anos, pintei suas unhas de vermelho – inédito e histórico – e vocês vibraram. Vocês padecem, ainda, da maldição dos gêmeos, mas o que se há de fazer.

Nada como nossos olhos (aliás, para esses eu também preciso enviar uma cartinha) para nos fazer enxergar a beleza de outra forma, dar novo sentido às coisas.

Recentemente, fiz em um de vocês uma tatuagem. Um sol, para que meu caminho seja sempre iluminado. Mas o que deveria representar o senhor dos astros ficou parecido com uma aranha. Os raios lembram as perninhas. O desenho é bonito, mas se visto, no máximo, a trinta centímetros. Como as pessoas geralmente são mais altas que isso, preciso, com frequência, dizer do que se trata. E explicar tatuagem é o fim da picada.

É bom ter feito as pazes com vocês, ainda que tardiamente. E notar o quão nobres vocês são, perdoando a rejeição e do passado, compreendendo a que ponto chegam as esquisitices femininas.

Nem os pés da Cinderela, com seus sapatinhos de cristal, seriam tão charmosos.

Um beijo em cada um.

Nota: o sol tatuado no pé esquerdo passou por uma reforma, dando à luz uma linda flor. E o direito também ganhou um desenho especial.

Carta para Roberto

Renato Subtil/Flickr.com

Caro Roberto

Você nem imagina o que eu vou lhe contar. Mas foi com você que aprendi: de vez em quando, somos é muito idiotas. Digo ‘aprendi’ mas, na verdade, o processo foi outro. Mais próximo de sacar, de dar-se conta, do que de aprender propriamente dito. Você entenderá, eu sei.

Primeiro, é preciso lembrá-lo: nós nos conhecemos. Mesmo que você, assim de prontidão, não se recorde.

Foi assim: há alguns anos, um trio, o Hot Jazz Club, lhe chamou a atenção. Os rapazes eram tão bons que você não resistiu ao som deles. A história deles começara em um restaurante de uma rede de hotéis aqui em Campinas. Em 2004 eles gravaram seu primeiro, único e ótimo CD, que trazia uma faixa assinada por você – “Pruzé”. Foi durante o lançamento do CD, no resort da rede, onde eu trabalhava, que nos conhecemos. E digo: foi um prazer. Não é todo dia que a gente conhece um dos inventores do mais importante movimento da música brasileira.

Cinco anos se passaram, e até hoje sinto uma pena danada de não ter tido a coragem de quebrar um pouco os protocolos e abusado de você naquele dia. Mesmo sem idade para ter tanta saudade, mas fã confessa da época mais cheia de bossa que este país já teve, eu seria capaz de ouvi-lo por horas contando as histórias da Copacabana dos anos 50, dos lendários encontros no apartamento da Nara Leão, do barquinho que deslizava no macio azul do mar carioca. Mas a etiqueta corporativa não permitiria o que poderia parecer tietagem pura, e eu tive de me contentar com o básico. Fazer o quê.

Mas olhe só: foi em meio ao básico que me dei conta da coisa de ser idiota. Paradoxalmente, sem absolutamente nada a ver com música. Enquanto você, eu e mais algumas pessoas almoçávamos, você comentara que, em alguns dias, embarcaria para a Europa, onde se apresentaria num festival. Curiosa, eu lhe perguntei que festival era, e você respondeu assim: “Não sei. Me chamaram para tocar, e eu vou”.

Sempre lanço mão dessa história, emblemática e repleta de significados, para ilustrar o que acabei extraindo dela. A ideia de você não saber direito aonde iria tocar, mas iria porque seu negócio é tocar, soou fantástica, para dizer o mínimo. Sua resposta, suave e sofisticada assim como a bossa-nova, deu a dica (embora certamente não tenha sido sua intenção): preocupar-se demais em saber e conhecer tudo o que nos rodeia, o tempo todo, pode ser paralisante. Tanto quanto querer o roteiro das coisas do início ao fim, saber muito da vida, compreender tudo que existe… Não pode haver tanto benefício na informação total. Quem vive assim, no final das contas, passa a vida com medo, se poupando, sem ousar, sem arriscar, sem tentar. Sem pagar para ver.

Posso estar exagerando o episódio. É claro que em algum momento que antecedeu aquela sua viagem as informações sobre o tal festival lhe interessaram. Porém, talvez mais pela logística que por outra coisa. E este seria o segredo.

Tanto fazia o nome do festival, ou quem estaria lá. Isso não era o mais relevante. O relevante, de fato, era que você iria tocar, e isso já era motivação suficiente para um músico. Assim como para um bailarino o que conta é dançar. Para um cantor, cantar. Para um escritor, escrever. Para um costureiro, costurar. Para um cozinheiro, cozinhar. Para um desenhista, desenhar. Para um pedreiro, construir. Às vezes, as perguntinhas ‘como’, ‘porque’, ‘onde’, ‘a que horas’, ‘com quem’ viram coadjuvantes na compreensão de algo que é mais simples do que se pinta.

Não falei? Você nem imaginava que eu lhe diria isso.

Um abraço, Menescal.

(Parece que isso vive acontecendo com ele. Ele respondeu, contando que no ano passado foi a Sydney, na Austrália. E, como em 2004, só lá ficou sabendo onde tocaria. Nada menos que na Opera House.)

Carta para Rosa

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Querida Rosa

Devo esta carta a você. Mais precisamente, desde o dia 7 de fevereiro de 2007. Todo esse tempo, ela esteve escrita em minha mente, mas nunca tive coragem de colocá-la no papel, muito menos de mandá-la. Nunca me cobrei muito por isso, é verdade. Porque você, de fato, nunca esperou por ela. Assim, a dívida se ameniza.

Talvez a dívida seja comigo mesma. Porque levaram seu filho daquele jeito, e eu não fiz nada. Não esperneei, não fui às ruas, nem aos gabinetes, não cobrei nenhuma atitude ou providência de nada e de ninguém. Fiquei quieta, estarrecida e amedrontada como ficaram milhões de mães, no país inteiro, naqueles dias que se seguiram. Colei-me ao noticiário, para saber como a história ia ficar – sim, porque acabada ela já estava.

Fora isso, eu apenas chorei, Rosa. Durante todos os dias, sem exceção, na hora de dormir, eu chorei a morte do seu filho. Em meu dia-a-dia, não havia pensamento que não me levasse de volta a ele. Orei bastante por ele e por vocês, também. Mas devo confessar: nunca consegui orar até o fim; a lembrança das cenas e os meus sentimentos tortos tiravam meus pensamentos dos trilhos, e eu voltava a chorar, até adormecer. Parei de chorar no dia em que a história completou um ano. Mas não parei de ficar triste. E você, Rosa, por certo ainda chora.

Naquele depoimento no final do capítulo da novela “Páginas da Vida”, você disse que quisera ter superpoderes naquela hora, para salvar seu filho. Eu também, Rosa. Naquele dia, quisera eu ter acordado, aberto a porta de minha casa e ter encontrado o jornal do dia 8 de fevereiro. Como naquele seriado Early Edition, que passava na TV há alguns anos. Nele, um homem recebe na porta de sua casa, todos os dias pela manhã, o jornal do dia seguinte, trazido sempre por um misterioso gato. Como sempre há uma tragédia no jornal, e com detalhes – onde, a que horas, com quem – sua missão é mudar o destino das coisas. Quando ele consegue, a notícia ruim vai sumindo da página do jornal, e em seu lugar aparece outra, sobre algum fato normal ou corriqueiro.

Rosa, eu queria ter recebido um jornal desses. Sairia de minha casa logo cedo, e viajaria, aflita, por quinhentos quilômetros. Jornal em punho, saberia seu trajeto naquela quarta-feira. Saberia qual era seu carro. Meia hora antes, ficaria esperando você a três quarteirões daquele sinal. Assim que eu a avistasse, eu daria um jeito de fazer você parar. Talvez pulasse na frente do seu carro, e lhe dissesse muitas bobeiras, só para lhe distrair. Porque talvez não adiantasse eu lhe contar o que aconteceria se você continuasse por ali, você não acreditaria. Eu também não acreditaria. (O que, hoje, me faz ficar mais alerta para certas coisas que acontecem e a gente não entende direito.) Ou então eu bateria meu carro no seu, de propósito, só para fazê-la parar. E, enquanto você descesse do carro para conferir o estrago, eu ficaria de olho no jornal, e veria, feliz da vida, a notícia se desmanchando, e em seu lugar surgindo outra, sobre qualquer coisa sem tanta importância.

Eu olharia para dentro do seu carro, daria uma piscadela para seu filho. Logo mais, à tardezinha, tudo estaria em paz na cidade maravilhosa.

Eu queria que isso fosse verdade, Rosa. Mas o gato não veio naquele dia.

Um abraço,

Carta para Cristiana

Cara Cristiana, Pequena, mãe do Francisco, viúva do Guilherme e que tem tanta história para contar

Estou até agora tentando lembrar como achei você, e eu nem estava te procurando. Nunca tinha ouvido falar nada de você. Nadica.

Vou tentar reconstituir a última hora. Eu estava tentando achar o site do Café com Letras no Google. E Google é assim: sempre supera as nossas expectativas, e manda mais coisa do que a gente pede. Sei que fui clicando em “abrir link em uma nova guia” a cada coisa interessante que achava, que nem tinha a ver com o que eu queria. E acabei esquecendo o que eu realmente estava tentando encontrar. Mais ou menos como aquele quadro da Vila Sésamo – não sei se você chegou a assistir, eu sou de 67 e você deve ser de 70. Era uma garotinha (acho que o nome era Rosinha) que a mãe mandava comprar alguma coisa. Ela saía de casa e ia cantando, tiptitip-tiptitip, se distraindo com tudo, ora seguia uma borboleta, ora parava para conversar com um gatinho. E esquecia-se do que sua mãe havia pedido para ela comprar, e acabava comprando tudo errado. Chegava na padaria e pedia “pão de borboleta”. E por aí ia.

Mas o Café com Letras. Explico: o filho do meu marido mora em Beagá. (Costumo dizer que tenho três filhos: dois que saíram da barriga e um que entrou no coração). E de vez em quando vamos todos – nós e a cria – para lá, vê-lo. E sempre que vamos, fico na lombriga de ir nesse Café. Porque nunca consigo ir. Ou porque a caçula, que tem a idade do seu Francisco, acaba dormindo. Ou o do meio, um pouquinho mais velho, pede para ir brincar numa praça com a cara mais linda deste mundo, e quem resiste. Ou bate moleza em todo mundo e a gente fica ronronando no hotel. E como fomos para lá neste feriadão de 21 de abril, continuei na lombriga, ninguém quis ir comigo. Mas deixa estar. Da próxima vez eu vou, with or without them.

Achei o site do Café. Mas antes de ir lá dei uma paradinha no UOL Estilo, porque gosto da moda da moda (não digitei duas vezes, não). Depois, caí numa certa “Ameixa Japonesa”, que tinha um link para um certo “hoje vou assim”, mas que nome bacaninha! Lá fui eu, “abrir link em uma nova guia”, o browser já começando a surtar. E vi você. Cristiana Guerra. Confesso, de cara pensei: que mulher chata e feia, parece essas modelos que não comem. Puro arroubo de presunção, pré-conceito, essas coisas nada bonitas de se sentir. Fiquei encafifada com a palavra “Lápis” no topo das fotos, e continuei vendo os seus modelitos. E não é que a coisa era legal? Foi quando botei os olhos na capa do seu livro.

Não fui ver primeiro o blog que você fez pro seu filho Francisco (o menino lindo), que virou o livro. Resolvi dar uma olhada antes no que já tinham falado dele. Passei pelo site da Criativa. Da Ilustrada. Da Gazeta Mercantil. E de todos os outros. Li tudo com uma quase voracidade, fui ficando emocionada com a história. E não é que comecei a achar você bonita? Aí não teve jeito: abri o “link em uma nova guia”, para desespero do browser, que deixou todas as guias abertas tão pequeninas lá em cima. E cheguei ao blog. Lindo, lindo, lindo. Interessante como a gente é capaz de tirar o melhor de nós mesmos. E parece que até caprichamos mais quando pinta uma situação tão fora do script. Francisco tem sorte. E você está a milhões de quilômetros de ser chata. Além disso, tem a felicidade de ter pessoas boas ao seu redor. Estou falando daquelas que a gente vê e daquelas que a gente não vê, ficam flutuando por aí.

Resolvi ir dormir. Mas continuei intrigada com a palavra ‘lápis’ das fotos, então… só mais um pouquinho. A resposta estava ali, era só “abrir link em uma nova guia”, oras! Aí o browser ficou bravo e ameaçou acabar com tudo. Tive que fechar algumas guias, fazer o quê. Pois então Lápis Raro é uma agência de comunicação, vejam só. E de Beagá! Até então eu não tinha percebido que você era daí. Continuei a visita, vi os clientes, vi foto do pai do Francisco. Você ficou bonita de vez, e senti que era hora de escrever para você.

Como falei, passei o feriado de 21 de abril na sua cidade. Vi tantos anúncios da Unimed (cliente Lápis), em particular no telão do Mineirão, onde assisti no domingo o Cruzeiro vencer o Ituiutaba por dois a um – para delírio do marido, filho e enteado. Lembrei-me que a Unimed já foi cliente da ex do marido, que é jornalista. Talvez vocês até se conheçam. E comecei a repensar em toda a trajetória desta noite. Eu, que só queria dar uma olhadinha no site do Café Com Letras, acabei indo parar em coisas novas, mas que soaram tão familiares. Que estiveram pertinho de mim no dia de Tiradentes, que deu nome à cidade vizinha de Belo Horizonte, onde quero morar um dia, para juntar a família. Hoje vou assim. Francisco. Lápis Raro. Avenida do Contorno (casa da Lápis), por onde passei inúmeras vezes nesse feriado. Publicidade, comunicação – minha profissão há mais de vinte anos. Blogs fora do lugar comum. E fazer um, aliás, é minha meta, já que também estou nessa onda. Embora esteja trabalhando nisso bem aos poucos. Como já disse um ex: sou Touro com ascendente em Mula.

Ainda não sei bem direito porque, Cristiana, mas eu tinha que escrever tudo isso para você.

Um grande beijo,

(Cristiana recebeu esta missiva por e-mail. Respondeu três dias depois. Ficou de me levar ao Café com Letras.)