My way

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Tenho um jeito meu, só meu, de enrolar fones de ouvido. Uno as pontas na mão esquerda e, ao redor do indicador, médio e anelar, vou dando voltas com o fio. Mas deixo sobrar um pouco. Retiro o rolinho dos dedos e finalizo, enrolando a sobra do fio no centro, como se uma ‘cintura’ fosse. Ajusto bem, enfio o plug no meio, pronto.

Soa trivial. Mas não é. Em cada uma dessas etapas cabe semelhança com o jeito de centenas de milhões de pessoas que enrolam seus fones planeta afora (adentro?); o resultado pode, inclusive, parecer idêntico. Porém, há um timbre no meu modo de fazer – a pressão dos dedos, o calor transferido, o visual – que garante a exclusividade da receita. É minha pegada. Meu RG. My way.

Tenho um jeito meu, só meu, de picar legumes. De novo: eles, aparentemente, ficam iguais aos tantos outros legumes picados diariamente nos seis continentes. Mas meus braços, minhas mãos e meus pensamentos durante o corte são únicos. Portanto, minhas fatias nem grossas demais, nem finas demais de abobrinha, meus microcubos de alho e minhas rodelas de berinjela são únicas na grande panela que se chama mundo.

Tenho um jeito meu, só meu, de unir o arroz ao feijão no prato. De inclinar a cabeça em direção ao garfo. De enviar mensagens ao meu cérebro, “Vamos parar de comer?”. Meu cérebro, aliás, tem um jeito geral de funcionar que é só dele e de mais ninguém na face da Terra.

Tenho um jeito meu, só meu, de pronunciar as palavras. De franzir levemente o lábio inferior para falar o vê, de sibilar nos ésses. Jeito, somado à voz, não deixam dúvida: sou eu.

Tenho um jeito meu, só meu, de tomar banho. De colocar sabão na esponja, de me enxaguar, enxugar, pendurar a toalha. Faço lá minhas variações; todas incopiáveis nos detalhes. São minhas marcas registradas, minhas patentes, meu DNA universal.

Tenho um jeito meu, só meu, de falar com os bichos e com Deus. E de ouvi-los. Às vezes, acho que um é outro, e vice-versa.

Tenho meus jeitos de sentir frio, de passar calor, de brigar, de rir, de fazer conta de cabeça, de fazer de conta e de fazer a cabeça. Um jeito só meu de empunhar a caneta e, acredite, até de tirar o pó da estante!

Todas as pessoas carregam em si uma centelha singular de autoria inédita.

Importante saber disso, para não sair por aí fazendo as coisas de qualquer jeito.

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Um comentário sobre “My way

  1. E você tem um jeito seu, só seu, de prender seu leitor nessas amarras de palavras e significados que faz com que saiamos de seu blog com um sorriso estampado no rosto e na alma. Lindeza de texto!! Bjs

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