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Mappin, venha correndo

violão

Anos 80, ganhei um violão. Cheguei no Conservatório Leopoldo Miguez e fui logo avisando o professor: “Quero tocar como o Paulinho Nogueira”. Ele deu um longo suspiro, e iniciou as aulas teóricas. Brevíssimas, pois abandonei o curso assim que ele me fez solfejar. Duvi-de-o-dó que o Paulinho Nogueira tenha começado solfejando.

O violão fora adquirido no Mappin. A maior loja de departamentos de São Paulo era um alucinante formigueiro de nove andares, especializado em financiar sonhos de todo tipo, com o mantra “crédito automático”. Nem precisava de promoção para viver cheio. E quando tinha, não havia quem não ficasse sabendo, pela TV ou pelo rádio.

Mappin, venha correndo

Mappin, chegou a hora

Mappin, até meia-noite

Mappin, é a liquidação

A cada andar, aboletado em seu banquinho redondo, o ascensorista anunciava, enquanto comandava o abre-e-fecha das portas do elevador: Eletrodomésticos… Moda feminina… Cama, mesa e banho… Crediário. Imagine falar isso o dia inteiro, subindo e descendo, sem saber se lá fora era sol ou chuva. Ascensorista, contudo, era profissão mais que necessária, para garantir a segurança dos fregueses e a ordem do estabelecimento. Praticamente extinta, quase não se vê mais.

Naquele dia, fomos eu, a Rô, minha melhor amiga, e o pai dela. Ela também estava adolescentemente determinada a aprender a tocar violão. Experimenta daqui, testa dali, elegemos o Giannini: cabia nos braços e nos bolsos dos nossos pais. Mil cruzeiros, em três vezes no carnê. Todo dia 10, íamos pessoalmente à Praça Ramos de Azevedo pagar as prestações. Os ascensoristas, infalíveis: Eletrodomésticos… Moda feminina… Cama, mesa e banho… Crediário…

Depois da minha frustrada experiência no conservatório, eu e a Rô descolamos um professor particular. Ele dava aulas em sua casa e tinha unhas compridíssimas – levemente asquerosas – , somente na mão direita. Temi precisar manter aquele layout também, cogitei abandonar o instrumento. Mas o método pedagógico dele era interessante, espécie de fast-food musical. Em pouco tempo aprendemos a dedilhar “Como é grande o meu amor por você”, a romântica açucarada do Rei. Treinei os acordes à exaustão, fiquei craque. Submetia todos em casa a longas e desafinadas audições. Família é pra essas coisas.

Com as noções básicas aprendidas, encerrei a temporada de aulas com o professor de unhas compridas e virei consumidora das revistinhas com cifras. Sem, no entanto, jamais chegar aos pés do Paulinho Nogueira. Minha versão de “Menina”, nem a família se dispôs a ouvir. Tudo tem limite.

Um dia, não sei por que, guardei o violão no armário. Para nunca mais. E não sei onde ele foi parar. O Mappin fechou as portas na virada do século, soube que agora é loja online. O que não tem a menor graça, cadê o formigueiro, as vitrines, o burburinho? A Rô partiu faz tempo. Seu pai, alguns anos depois. Foram, como se diz, para o “andar de cima”. Que tenham sido conduzidos por gentis ascensoristas.

A vida também é feita de departamentos. Só não sei em qual setor a gente paga o carnê da saudade. Acho que esse não se quita nunca.

O velho conservatório continua firme no mesmo endereço. E todos os dias um professor recebe um novo aluno, decidido a ser, não um Paulinho Nogueira, que essa turma não o conhece (e não sabe o que está perdendo), mas a próxima celebridade do Tik Tok.

Se me dissessem hoje que o Mappin, o velho Mappin, reabriu no mesmo lugar, do mesmo jeito, eu ia correndo. Ah, ia.

Ailili-ailou

Minha mãe adorava a canção “Hi-Lili, Hi-Lo”. Aquela, do filme. Cantarolava do seu jeito, ailili, ailili, ailou. Não sei se ela assistiu ao clássico de 1953, nem se compreendia a letra. A melodia a encantava, e isso bastava.

Dona Angelina nasceu nos anos 30. Sua playlist era feita, basicamente, de composições suaves, ternas, doces. Como ela. Quando, na vitrola, a agulha acordava um Led Zeppelin nervoso, sacudindo a pequena vila em que morávamos, invariavelmente ela ironizava: “Isso é música?”.

Mais ou menos o que eu disse à Nina, sua neta, quando me apareceu cantando um tal MC Kevinho. “Ai, mãe. Você não sabe de nada. Só ouve música velha”. O que não é totalmente inverdade, mas argumentar com adolescente, às vezes, é monologar em um deserto.

Nos anos 70, quando estreou a novela Estúpido Cupido, reproduzindo os anos 60, eu quis, fervorosamente, o LP com a trilha sonora. Velhas canções, tão novas para mim. Lembro-me do dia em que, finalmente, meus pais chegaram em casa com ele. (Ou será que nesse dia ganhamos só o compacto, com a canção-título e “Banho de Lua” no lado B? Minha memória é meio riscada.) Desta vez, consenso na vitrola: ao reviver seus dias de glória, aquela trilha foi capaz de unir duas gerações.

O que a avó de minha filha ouviria hoje? Que toadas a embalariam? Talvez, ela ainda pedisse para tocar – não mais na fita K7, mas no Spotify – uma de suas preferidas: “Valsa para uma menininha”, de Toquinho e Vinicius:

Menininha do meu coração

Eu só quero você

A três palmos do chão

Essa eu cantei tanto para a Nina, quando era bebê. Primeiro, porque também gosto. Segundo, era um jeito de reinventar a presença da minha mãe; ela não conheceu nenhum neto. Por fim, eu queria acostumar seus miniouvidos à boa música. Porém, ao contrário dos versos, nunca desejei congelar em três palmos a menininha do meu coração. Quero-a gigante, do tamanho do mundo. Como a mãe de sua mãe também gostaria. E como tem sido.

Mas poxa vida. MC Kevinho?

O maestro e o gato

siamês 1

Nos anos setenta, costumávamos ir à casa dos meus tios no bairro de Santa Cecília. Eles moravam (ainda moram) em um prédio na Alameda Barros, perto da avenida Angélica. Quando íamos visitá-los, eu gostava de cruzar o corredor e ir ao apartamento do vizinho, no mesmo andar. Eles tinham um gato.

Ali vivia o maestro Portinho. Minha tia falava dele com orgulho, dizia que era famoso e coisa e tal. Eu não estava nem um pouco interessada. Ia lá por causa do gato, mesmo. Bug era um siamês lindo, grandão, bonachão e vesgo. Passava um bom tempo brincando com ele, até minha tia me chamar de volta. Eu tinha seis, sete (oito?) anos.

Não era um apartamento comum. Três unidades, transformadas em uma só. Ficou um apartamentão. A decoração, coisa fina. Um piano, talvez? Vários sofás na sala – para mim, enorme. Sempre aboletado em um deles, o Bug. Eu, bem comportada, sentava-me ao seu lado e punha-me a afofá-lo. Lembro-me de alguém vir perguntar se eu queria um suco, uma água. Eu não queria nada. Só brincar com o grandão do Bug.

O maestro Portinho também era grandão. Muito alto, simpático. Se troquei três palavras com ele, foi muito. Não fazia ideia de quem eu estava diante. O dono do Bug foi um dos principais personagens da época dourada das big bands brasileiras, animando bailes e programas de rádio e TV. Produziu trilhas para novelas e, fora as obras que compôs, assinou arranjos para meio mundo. Cauby Peixoto, Ângela Maria, Nelson Gonçalves, Cely Campello, Vanusa, a turma inteira da Jovem Guarda. As gravadoras só queriam saber do dono do Bug.

Um dia, eis que o apartamento do maestro, no décimo sétimo andar, pega fogo. Meu primo conta que uma bituca de cigarro fora atirada do apartamento de cima e caiu justo onde? Na cortina de um dos quartos. O estrago foi grande. Suficiente para o Bug, sem ter como escapar, morrer asfixiado. Fiquei desolada com a notícia.

Logo arrumaram outro gato. O nome? Bug. Em homenagem ao antecessor. Também um siamês. Igualmente lindo, nem tão grande, nem tão bonachão. Vesgo, talvez? Fui conhecê-lo. Ele não me parecia tão dócil quanto o velho Bug. Influenciada pelo nome, esperava que ele fosse cópia integral do outro. Claro que não era. Então aprendi o que eu já desconfiava: gato não é tudo igual.

As visitas aos meus tios rarearam, não sei que fim levou o segundo Bug. Do maestro, sei: morreu em 1997. Seu legado para a música brasileira é imenso e valioso. Coisa linda, ser maestro. Uma pessoa que entende absolutamente tudo de música. Uma espécie de Deus do som. Gato também é uma espécie de Deus. Ou será que Deus é uma espécie de gato?

São quase dez da noite, estou me preparando para dormir. Sobre a cama, espio o Beto cochilando. É nosso siamês lindo, grandão, bonachão. Vesgo. Gosta de música, o bichano. Com ele que danço, de vez em quando (os outros detestam). Se é que esse negócio de reencarnação também vale para os bichos, gosto de fantasiar que o Beto é meu amigo Bug, do qual não pude me despedir. Pendência que ele tratou de resolver, aparecendo em nossa casa, numa tarde quente de fevereiro. Onze anos atrás.

O disco

vinil

A vizinha veio mostrar, toda feliz. Comprara o LP do Ruy Maurity, que tinha o hit Nem Ouro, Nem Prata. De chumbo eram os anos 70, mas a gente não sabia disso. Subimos correndo a escada da sua casa, pegada à nossa. Ela aumentou o volume no máximo que a vitrolinha ordinária permitia. O chiado da agulha. Em seguida, a batida:

Eu vi chover, eu vi relampear

Mas mesmo assim o céu estava azul

Sabíamos a letra de cor. A felicidade era feita de vinil, meu bem.

Eu tinha nove anos; ela, uns treze. Ficamos amigas assim que se mudaram, ela e a mãe, para a vila. Rosana, seu nome.

Ouvimos a faixa à exaustão, nem quisemos saber do resto. E sua mãe chegou. Costumeiramente simpática e sorridente, naquele dia ela escalou, visivelmente cansada, o lance de escadas. Cumprimentou-me. Rosana abaixou o volume, beijou-a. Achei que era hora de voltar para minha casa, ainda tinha lição para fazer.

Mal terminara de descer os degraus, a música parou. Ouvi tapas e gritos. A Rosana estava apanhando. Pelo tom da briga, entendi. Quem mandara comprar disco? Onde já se viu gastar, sem autorização, o ouro suado, a prata rara?

Desacelerei o passo, enrolando para chegar ao meu portão, a menos de cinco metros dali. O ouvido em pé, o coração apenado. Quis voltar lá, defender minha amiga. Mais gritos, mais tapas. Melhor não. Fechei rápido meu portão, subi as escadas e sumi quintal adentro.

Ontem a música, tão esquecida quanto minhas vizinhas, tocou na rádio. A lembrança surgiu num átimo, e ficou girando na minha cabeça feito disco riscado. Por onde elas andariam?

Nunca apanhei. Quer dizer, já tomei (ao menos) um grande tapa. E já tive que devolver uma coisa que comprara sem permissão. Nunca levei surra, no entanto. Nem quando desenhei com canetinha na parede da sala. Ou quando tomei todos os Yakults de uma vez e jurei que não tinha sido eu. As infrações da minha infância estavam sujeitas a um código penal bem mais camarada.

Não me recordo dos dias que se seguiram. Se fui procurar a Rosana para saber se estava tudo bem. Se sua mãe ficou brava por muito tempo. Se tornamos a ouvir o disco, pivô da sova. Tempos depois, elas se mudaram dali. A vida na casa 1 era assistir vizinhos chegando, vizinhos partindo. E a gente ficando. Isso dá música.

Só sei que naquele dia choveu e relampeou feio na casa 2. Mas mesmo assim o céu na nossa pequena vila estava azul. Fui fazer minha lição. Que a Rosana havia, por torto método, aprendido a dela.

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arte: Mariesa de la Rosa

Procuro professor de piano. Que more pertinho, para eu poder ir e voltar a pé. Que dê aulas em sua casa, numa sala toda janelada e de cortinas amarelas, dando para uma varanda iluminada por uma clave de sol. Ipê branco e jabuticabeira carregada no quintal são itens desejáveis no seu currículo. E que tenha gato ou cachorro. Ou calopsita. Hamster, coelho, tartaruga, furão, iguana, salamandra, porquinho-da-índia. Pode ter peixe, também. O problema dos peixes é que não dá para conversar com eles.

Procuro professor de piano. Que, num dia friorento, interrompa a aula e diga “Fiz sequilhos”. Que, se acaso eu estiver bem cansada, feche o piano e me mostre sua coleção do Calvin & Haroldo. Que não ria quando eu perguntar se vai demorar muito para tirar School, do Supertramp. E que nunca, jamais, em hipótese alguma, me faça solfejar.

Procuro professor de piano que tenha sempre disponíveis e fresquinhos: café, bom humor e paciência. Que traduza com leveza o significado de todos aqueles símbolos esquisitos que a gente vê nas partituras. E que também nunca, jamais, em hipótese alguma, questione por que resolvi aprender piano agora, aos 50. (Pensando melhor, que questione, sim; assim falaremos longamente sobre como as pessoas podem passar a vida inteira sem ir atrás do que amam sem ter, contudo, justificativa razoável para tal.)

Procuro professor de piano. Que me conte da vida dos autores clássicos como se os tivesse conhecido e fossem, Rachmaninoff, Debussy, Villa-Lobos, todos seus chapas. Que não tenha dó, nem ré, de mim, se eu não alcançar todas as notas porque meus dedos são curtos. Mas que vibre comigo quando eu, lá na frente e de surpresa, tocar algo e ele identificar, de primeira, o que é.

Procuro professor de piano que num dia, do nada, um poema meu caia em suas mãos e ele diga, eufórico: “Isto dá samba”. E que a coisa acabe virando bossa-nova, e a gente se divirta muito vendo nascer som das palavras que plantei no papel.

A química de Chico

átomo

Aos 15, eu vivia zerando nas provas de química. Passei de ano por encanto. Ao final de um semestre, fizemos amigo-secreto na classe. Quem me tirou? O professor de química. Ganhei dele Almanaque, do Chico Buarque. “Então, ele não me odeia”, concluí. Ouvi o LP até furar, decorei todas as letras. Decorar a tabela periódica, que era bom, nada.

Na mesma escola, em uma aula de português, dissecamos a letra de Construção. Eu, que até então me limitava a achar interessantes aqueles versos terminando em proparoxítonas, naquele dia descobri que havia neles muito mais. Elemento poesia combinado com elemento social. Química de Chico.

Aprendi que, na vida, a música é mais necessária que a química. A quem a gente recorre, nos encontros com os amigos, quando se está apaixonado, quando se está na fossa, na corridinha no parque, nas longas viagens de avião? Aos metais, não-metais e actinóides é que não. Nunca encontrei oportunidade para aplicar nenhuma fórmula química. Sei a da água, porque é famosa. A música? Uso e abuso.

A química, verdade seja dita, é onipresente. A cada vez que faço um bolo ela está lá, toda exibida. Não preciso, porém, saber os detalhes que fazem o quitute crescer fofo e cheiroso. Só devo tirá-lo do forno na hora certa, e comê-lo ainda quentinho, com café recém-coado. Ouvindo música, de preferência.

Ao lembrar das histórias, dia desses, preocupei-me. Que professor, hoje, dá disco do Chico a um aluno seu (mesmo que ele vá mal na matéria)? Está certo que nem se usa mais dar disco. Porque não se consome mais música como no meu tempo do colégio. Lembrei: a capa de Almanaque é um calendário. Calendário é uma espécie de tabela periódica. Teria sido uma indireta do meu professor?

Ontem, na volta da escola, a Nina contou que estão ensaiando A Banda. Sacou de seu caderno a letra, e veio o caminho todo cantarolando. Nina, pequena mulher em construção, quis saber quantos anos o Chico Buarque tem. “Acabou de completar setenta e três” – respondi. O número atômico do Tântalo.

Pela janela do carro, vi a tarde ensolarada do quase morno inverno desta cidade. E sorri, aliviada.

Please don’t go

fita k7
arte: Jess Wilson

A Sara, professora de inglês meio maluquinha, colocou suas coisas sobre a mesa e começou a escrever no quadro-negro a letra de uma canção. A 6ª B foi ao delírio: era Please Don’t Go. Agora poderíamos cantar direito o hit do KC and The Sunshine Band, e mais, saber do que se tratava. O que, aliás, foi bem decepcionante – não fosse pela melodia que grudava na cabeça feito a cola Tenaz que a gente comprava na papelaria do Seu Remo.

Copiei no caderno a letra, com letra bonita. Tenho uma fagulha de lembrança, inventada ou real, que a Sara levou um tocador de fita K7 no dia, pra turma ouvir e cantar junto. Corajosa, a Sara.

Foi assim que aprendi inglês. Ouvindo música. Também costumávamos ganhar, de vez em quando, uns folhetinhos simplórios com letras traduzidas, um oferecimento da Fisk, a escola de idiomas do pedaço. De graça, o folheto era bem disputado. Uma sorte, cair nas nossas mãos. O negócio era torcer para vir com músicas que a gente gostava. Geralmente vinha, eles eram razoavelmente antenados com os top hits.

Certa vez ganhei um com a letra de Follow You, Follow Me, do Genesis. A letra era fácil, decorei rapidinho. Não tem uma vez que eu não me lembre dos folhetinhos, cada vez que a ouço. Na verdade, acho que essa música me segue. Conto pro Phil Collins ou não?

Hoje qualquer pessoa, num clique, encontra a letra de qualquer música e pode traduzi-la para qualquer idioma. Please don’t go em quirguistanês ou birmanês? Se preferir iorubá, tem. Esloveno? Tem também. E rapidinho: apenas 0,4 segundos. O Google Tradutor tem um milhão de Saras dentro dele.

Meus filhos nasceram na era da abundância de informação, a um toque de distância do que desejarem saber. Podem ouvir todas as músicas que quiserem, saber as letras, as traduções, assistir aos videoclipes, ouvir um sem-número de versões. Não precisam esperar o professor de inglês colocar na lousa, tampouco alguém lhes arrumar um folhetinho. Talvez, justamente por isso, não se interessem. Vivo sugerindo que procurem as letras das canções que gostam, mas eles nem tchum. “Depois, mãe”. O mundo facilita demais para eles. C’est la vie. Ou, em bom zulu: lokho ukuphila.

Tenho um buscador de lembranças embutido na cabeça. Bem mais rápido que o do Google. Uso-o à beça, nem preciso de Wi-Fi. Uso meu HD, mesmo (às vezes, ele me prega peças, fazer o quê). Não carece sequer traduzi-las. Estão todas no idioma universal da saudade. E posso ficar tranquila, não preciso nem pedir por favor. Elas nunca, nunca não se vão.

Qual é a música?

radio

Minha cidade tem mais de um milhão de habitantes. É dona de respeitável PIB e do principal polo de tecnologia da América Latina. Está bem na foto quando o assunto é IDH, e algumas das nossas melhores universidades estão aqui. É metrópole pra ninguém botar defeito, meu chapa.

E sabe da maior? A emissora de rádio da prefeitura (que toca cada musicão, de vez em quando) é dessas onde as pessoas ligam para pedir música. Os locutores vivem distribuindo beijos e abraços aos ouvintes, carinhosamente chamados de amigos. O João da loja de pneus, a Maria da lanchonete, o Zeca do supermercado – ninguém fica sem sua música.

Em tempos de You Tube e Spotify, onde qualquer um pode ouvir o que quiser e na hora que quiser, pedir música na rádio é um ato de bravura, a desafiar o império do streaming. Os ouvintes da rádio da prefeitura de Campinas são os heróis da resistência.

Nunca pedi música para rádio nenhuma. Nem dediquei, pelas ondas do rádio, canção a alguém. Tampouco tive uma dedicada a mim, fosse por AM ou FM. Nada feito pela internet, nesse sentido, entra no levantamento. Há um vácuo em minha biografia afetivo-musical.

Nasci e vivi por mais de três décadas em São Paulo. Lembro de, lá pelos anos 80, chegar da escola às seis da tarde e ir correndo ligar o rádio. Queria ouvir As Quinze Mais Pedidas. Houve uma época em que Swingue Menina, do A Cor do Som, ficou em primeiro lugar. Eu ia à loucura na pequena sala da casa da vila da rua Natal. Mas não ajudava a decidir o ranking. A gente não tinha telefone.

Hoje tenho. Aliás, em casa há mais telefones que pessoas, num contrassenso digno de nota (musical?). Bem que eu podia acertar as contas com o passado. Não saberia, no entanto, que música pedir.

Swingue Menina, talvez.

Tempo rei

ampulheta

Foi mais de uma vez: na volta do cursinho pré-vestibular, no ônibus que me levava até a Praça da Sé, costumava tocar “Tempo Rei”. Aquela, do Gil.

Às vezes, eu não tomava esse ônibus, e sim o metrô na estação Vergueiro, próxima ao cursinho. Um ia sob o chão, o outro, sobre. Dependia, portanto, do meu estado de espírito no dia. No metrô não tinha musiquinha ambiente, no ônibus tinha. E quase sempre tocava “Tempo Rei” durante o trajeto. Achava interessante a coincidência.

Foi bem mais de uma vez. Não fosse, eu não lembraria disso hoje, trinta anos depois. É que tocou “Tempo Rei” na rádio, enquanto eu fazia panquecas para o almoço.

Eu estava sempre cansada, por ter me levantado antes das seis e absorvido mais conteúdo escolar do que poderia dar conta. Carregando as apostilas abarrotadas de informações que, acreditava, me fariam entrar na USP, eu escolhia um assento perto da janela e sonhava com o almoço me esperando em casa. Quando minha mãe estava bem, às vezes tinha panquecas.

No ônibus, entre um bocejo e outro, eu acompanhava o Gil.

“Ensinai-me, ó Pai, o que eu ainda não sei”, eu pedia, em especial, para aquela parte dos logaritmos e exponenciais que costumava cair no vestibular. Nunca gostei dos números, nem eles de mim.

“Não se iludam, não me iludo”. A USP não era para qualquer um. E eu era, para todos os efeitos, qualquer uma. Não entrei. Só quarenta e um pontos na primeira fase da Fuvest. O tempo mostrou-me que isso, na verdade, não tinha tanta importância assim.

No percurso até a Praça da Sé, nada de Pães de Açúcar ou Corcovados. No ponto final, porém, uma respeitável – e um pouco esverdeada – Catedral da Sé. São Paulo nasceu ali. O meu marco zero foi na maternidade da Beneficência Portuguesa, no Paraíso. Perto do cursinho, aliás. O tempo é também rei do espaço, transformando as velhas formas do viver: levou-me para estudar, depois de grande, tão perto de onde nasci.

Da Sé eu ainda tomava outra condução até em casa. Um ônibus elétrico, que passava pela Mooca. Nesse, não tinha som ambiente. Ficávamos somente eu e meu pensamento, mesmo fundamento singular. E, claro, as apostilas pesando no colo. Tanta química. Para quê, ó Pai? Quase sempre, os cabos do ônibus escapavam dos fios elétricos suspensos no ar. O motorista parava onde fosse. Quem viesse atrás, paciência. O cobrador descia sem pressa, ajeitava os cabos, voltava ao seu posto, o motorista tocava em frente. Quando chovia eu ficava com pena do cobrador.

“Tudo permanecerá do jeito que tem sido” parece ser a máxima dessas três décadas: o cursinho ainda funciona no mesmo endereço. A estação Vergueiro do metrô, idem. Ainda há a linha de ônibus que tocava Gilberto Gil (se mantém a música ambiente, não sei). Praça da Sé e Catedral, claro, incólumes. Fucei o street view do Google e pasmei: o elétrico que me deixava a dois quarteirões de casa resiste no mesmo ponto e a linha sequer mudou o número.

Na minha vida, no entanto, não foi bem assim. Nesses trinta anos, que é tempo pra chuchu, pouca coisa permaneceu. Ninguém mais mora na nossa velha casa, exceto os fantasmas. Eu saí de São Paulo. Não vivo mais do meu diploma de bacharel em comunicação social. Não ando mais de ônibus, nem de metrô. Não tenho mais cabelos até a cintura, nem ilusões acerca do universo: “tudo agora mesmo pode estar por um segundo”. Não sei onde estão meus amigos do cursinho. Minha mãe não faz mais panquecas. E minhas ideias, no geral, são como os cabos do velho ônibus elétrico: às vezes, saem do lugar. Quando isso acontece, lá vou eu, sob sol ou chuva, ajeitá-las novamente. Ao menos, tentar.

Se o tempo é rei, a valentia é rainha.

O piano e a máquina de escrever

piano

Sempre quis saber tocar piano. Em vez disso, fui escrever. Combinar letras, em vez de notas, sempre me pareceu mais fácil. Repare: palavra é um tipo de nota musical. E um texto não deixa de ser uma música. Ouça esta história; leia esta canção. Tem poesia de dançar coladinho.

Quando criança, fiz meia dúzia de aulas do instrumento com o amigo, vizinho, gente boa. Osmar tinha cabelos loiros e compridos, parafinados como pedia a moda. Trouxera um skate dos Estados Unidos, o que, nos anos 70, o tornaria uma celebridade no quarteirão. Tocava piano como poucos. Conta a lenda que, no aprendizado, eu estaria mais interessada na hora do lanchinho. Costumava levar algum quitute para as aulas na casa dele, pegada à nossa. Por isso, ou não por isso, a coisa não foi para frente. Entre outros motivos, eu odiava solfejar. E não sei se ele gostava daquele ofício.

Nunca cheguei a tirar som de um piano, exceto o antológico trecho d’O Bife. Sou capaz, no entanto, de tocar uma máquina de escrever (das de ferro, das virtuais). Componho meus textos instintivamente; não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe o que são orações coordenadas sindéticas, quanto mais as assindéticas. Quer dizer, devo ter aprendido um dia, não sei mais. Escrevo “de ouvido”.

Quando tinha vinte anos, chorei as pitangas para um (outro) professor de piano. Disse-lhe que, àquela altura, achava tarde para aprender a arte. Aos trinta, lamentei: houvesse começado aos vinte, já estaria tocando tudo, tudinho. Aos quarenta, mesma lamentação, retroativa aos trinta. Hoje, um pé nos cinquenta, tivesse começado aos vinte, trinta ou quarenta, já estaria tocando tudo, tudinho. Imaginei-me aos sessenta. Jamais consegui responder, com razoável argumentação, por que não retomo o sonho.

Osmar e eu ficamos muito tempo sem saber um do outro. Da última vez, eu fui lhe dar um abraço pela sua exposição; ele se tornara artista plástico. No reencontro, quase vinte anos depois, ele veio me dar seu abraço pelo meu livro. O piano, para nós dois, e cada um ao seu modo, ficara para trás.

E se nem todo sonho deixado para trás tiver que ser lamentado, dado como morto? Já sonhei ser professora, já sonhei me chamar Noeli (por causa da novela Bandeira 2), já sonhei ter uma calça baggy verde limão (da loja Piter, centrão de São Paulo). Três quimeras infanto-juvenis que, simples assim, não são mais. O piano, talvez, esteja na mesma categoria, e meu deleite seja apenas seu som, enfim. Eu disse talvez. Gostar de cinema e de pavê de chocolate não me faz, obrigatoriamente, desejar produzir um e outro. Cinema e pavê estarão em mim, do mesmo jeito.

A partir de hoje, quando me perguntarem o que estou fazendo com caderno e caneta nas mãos, direi: “Estou compondo”. E o farei, por que não?, solfejando.

Eu não quero saber o que é “Le Crabe”

Eu não sei o que diz a letra da música Le Crabe. Aquela, da Françoise Hardy. Aquela, que foi sucesso na década de 70 e até tema de novela da Globo. Eu não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe. Só sei que eu a ouvia numa fita K7 gravada pelo meu irmão. E ela passou a fazer parte do meu imaginário musical.

Dos Beatles, traduzi tudo que caiu nas minhas mãos. Sentadinha no sofá, encarte e dicionário ao lado, Lô-lôv-mi-du. O mesmo fiz com tantos outros. Le Crabe, no entanto, não. Recuso o spoiller até hoje. Nem quando entrei num curso de francês na PUC eu desejei traduzi-la. Nem quando minha irmã virou francesa; nunca lhe telefonei pedindo “Traduz pra mim?”. Fugi, fujo e fugirei sempre dos dicionários e dos tradutores instantâneos e também das pessoas que, embora bem intencionadas, já tentaram revelar o irrevelável. O amigo generoso mandou-me a tradução pelo Messenger. Excluí a mensagem. Sem dó, sem ler. Não é ingratidão. Só não quero destruir minha memória afetivo-musical.

Porque, no fundo, eu sei o significado da letra.

Os primeiros versos de Le Crabe, por exemplo, falam do risoto de ervilhas com palmito que tinha em casa, aos domingos. Um panelão enorme, pra durar até terça-feira, feito a quatro mãos pela minha mãe e minha avó.

Aliás, Le Crabe, que tem uma parte meio tristonha, fala da minha avó também. Que afogava gatinhos recém-nascidos no tanque quando a nossa gata dava cria, naquele tempo ninguém falava em castração. E a gata ia parindo. E a minha avó afogando. Se há alguma justiça nesse mundo de vivos e mortos, e se existe mesmo carma, dona Josephina há de estar no além trabalhando muito para compensar as maldades terrenas. Rodeada de gatos.

Já o refrão fala de quando meu pai recebia o salário no banco e passava na farmácia, para abastecer a casa com remédios, esparadrapo, Merthiolate, algodão. Ele chegava com uma caixa grande e sempre tinha Cebion. Que a gente comia como se fosse bala. Até hoje faço do mesmo jeito: não ponho na água, que isso é para os fracos. Descasco a pastilha e a encosto na língua, para senti-la efervescendo. Entre uma careta e outra, vou roendo devagarinho e adquirindo minha dose diária de vitamina C. C, talvez, de crabe – o que quer que isso seja.

Noutro pedaço, os versos falam das nossas viagens para Santos no Fusca, nos finais de semana. Sem cinto de segurança, sem protetor solar, sem dinheiro, sem garantias. Legítimos farofeiros. A tradução disso? Saudade.

É disso que fala a letra e pronto. E de mais uma porção de coisas. Le Crabe é, por sinal, uma das músicas mais compridas do mundo. Ela tem a duração da minha infância.

Por isso prefiro, em vez de escolher a obviedade do dicionário, atribuir significados particulares às palavras que não entendo e continuar sendo feliz com minhas memórias, ativadas ao primeiro acorde. Já pensou se descubro que Le Crabe fala de meleca de nariz, esquistossomose, loteria esportiva?

A ignorância pode ser uma bênção. Ou a senha para a liberdade.

Acho até que isso dá música.

 

“Le Crabe”, Françoise Hardy

Um outro ensaio sobre a cegueira

Arte: Ade McOran-Campbell
Arte: Ade McOran-Campbell

Ela se aproxima, pelo canto, da mesa onde estão os autores. Quer saber do livro que está sendo lançado naquela tarde, abre a torneira de perguntas. Um deles, o ilustrador, responde ao seu questionário enquanto cria um desenho-autógrafo para alguém no outro canto da mesa. Ela é desenvolta, articulada, interessada, faminta. Sem acanhamentos, acha engraçado o tema do livro. Dezesseis anos, talvez? Conta que também escreve e já tem um livro pronto, quer dicas para publicá-lo. Fala pelos cotovelos. Ajeita os cabelos. Encara o nada enquanto ouve as respostas. Tateia tudo que há na grande mesa. Ela é cega. Ou quase.

Só estamos acostumados aos cegos silenciosos.

Também tenho minha fome e vou até o café da livraria, “Tem bolo de quê?”. Escolho o de fubá, maçã e canela, mais um espresso. Em poucos instantes, ela aparece. Atravessa o salão – com a mesma tranquilidade com que, há pouco, sabatinara os autores – e chama pela mãe. A mãe, de uma das mesas, emite qualquer sinal que a garota compreende. Seu sistema de posição global é afiado. Caminha até ela; a mãe não se levanta para guiá-la. É seu jeito de conjugar o verbo proteger. Ela senta-se. A mãe aproxima seu rosto do dela, segura-o entre as mãos e, num carinho além-materno, a beija. Tudo, então, se explica: a desinibição, a perguntação, a apropriação do ambiente, o livro pronto.

Eu, cegada pelos livros ao redor, para explicar o que vejo, só faço pensar em música. Deve ser porque para ouvir não é preciso olhos de ver. Nem de ler.

Primeiro vem o Sting, que não cantou isso pensando em mães, mas cabe:

“if you love somebody, set them free”

Depois a Marina Lima, que também não cantou isso pensando em filhos, mas cabe:

“guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la; em cofre não se guarda nada; em cofre, perde-se a coisa à vista. Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la. Isto é: iluminá-la ou ser por ela iluminado”

Do que será o livro que escreveu?

Mãe e filha se levantam, pagam a conta. “Dos cegos do castelo”, erguido em torres de papel, elas se despedem. E vão.

O dia em que meu amigo cantou na televisão

Caetano Veloso não sabe, mas o Rafael também pensava em cantar na televisão. Quando ele avisou, “Vai passar no programa tal, tal dia”, corri botar na agenda. Já esperava que fossem fazer bonito, conheço a cantoria dos quatro – ele mais três. Eu só não contava com a vontade doida de chorar que me deu, ao ver meu amigo na tela. Meus olhos marejaram em HD.

Sob domínio do streaming, onde todos podem, democraticamente, mostrar seus talentos e ser acessados infinitamente – independente da vontade e do crivo de algum editor enjoado – , cantar na televisão ainda é mágico, mitológico. Ainda desassossega o coração da família e dos amigos, que se aboletam no sofá, no horário anunciado. Não se lava louça nessa hora, não se atende telefone, não se faz barulho. Chiu, vai começar.

Rafael e seus companheiros de voz – dentre eles, a moça da saia mais bonita deste mundo – começam e eu, da minha sala de estar, reverencio sua música com alegria e orgulho. Não me mexo na poltrona, para não perder nenhum acorde. Não é todo dia. Juntos, os quatro não cantam; vão desenhando as notas no ar. Canto é uma ilustração sonora e colorida. O que meu amigo leva nos bolsos da camisa xadrez, escolhida para o dia? Nas mãos (e na voz), eu sei: um sonho em sol maior. Sol de quase dezembro. Por que não?

Quis tocar a campainha do vizinho e mandá-lo ligar a TV, “Eu conheço este aqui, ó!”. Contar que tomamos um café juntos, sempre que dá. Que, na tela, o Rafael parece tão sério e comportado (logo quem). Que eu sei como é sua voz quando está à paisana. E o quanto rimos da vida, às vezes tão desafinada.

Quis registrar para minha coleção de vizinhos que sou tiete autorizada do Rafael e que vou garantir meu autógrafo-abraço vitalício, comprando todos os discos que ainda virão desse quarteto mineiro e ensolarado.

Quis dizer que não sei se meu amigo toma Coca-Cola, mas sei que não pensa em casamento. Ele só quer seguir vivendo. Amor.

Pelo universo

Arte: Víctor BS

Catei o gato e o enlacei. Ele miou curto, concedendo-me o prazer da contradança. Saímos rodopiando pela cozinha, o feijão no fogo. Faltava a música, então cantei “Across the universe”, baixinho, na sua orelha.

Está certo que troquei uns versos de lugar e esqueci outros. Eu cantava ao vivo, não havia playback. Ele percebeu, mas não disse nada.

Felinos entendem bem do refrão: nada muda o mundo de um gato. Acordar, comer, lamber a pata, alongar-se, quentar ao sol ou abrigar-se da chuva, dormir, caçar passarinho, dormir, caçar lagartixa, dormir. Mesmo que não tenha dono, sua agenda é a mesma (talvez com alguma privação), somada à fuga perante o inimigo.

Eu, que vivo cantando “Nothing’s gonna change my world”, sei que minto. O meu, na verdade, já mudou um bocado. A ponto de eu não reconhecê-lo. Não conto com tanta invencibilidade. É que tudo fica mais bonito numa canção.

John Lennon adorava gatos.

A história da humanidade é feita de guerras, revoluções e modas. A dos gatos, não. Eles permanecem praticamente os mesmos em suas gatices desde que foram domesticados, coisa de dez mil anos atrás. Os gatos não mudam de ideia. Sua revolução está na ponta da língua áspera. A moda deles segue a única tendência possível: liberdade. E um barbante será sempre um bom entretenimento.

Encontrá-los pelo mundo é uma espécie de déjà vu. Sejam os bichanos franceses, norte-americanos, libaneses, japoneses, angolanos ou apenas os que zanzam pelos telhados da rua de cima, é o mesmo teatro, o mesmo balé, o mesmo filme. Se querem carinho, vêm, vão, fingem não estar nem aí com você. Cavilosos, se escondem e voltam; hasteiam o rabo-antena, tombam no chão, esfregam-se em tudo. É a senha: “Vem”. Em dois minutos estão trançando em suas pernas. Se não querem papo, também nisso são todos iguais: ignoram. Entocam-se n’algum buraco, adentram alguma cerca, escalam o muro mais próximo, seguem pelo universo. Gato é um ser manifesto.

Todo mundo deveria saber imitar gato.

Repeti para ele, à exaustão, o mantra “Jai guru deva”, caprichando no “om”. Conectado com seu deus, o Grande Gato, ele o compreende melhor que eu. Fizemos mais uns passos, o feijão ficou pronto. Então ele, com o rabo, me disse: “Agora chega”. E pulou do meu colo.

Para Benta.

Only yesterday

Ilustração: Fractal Ken

É que eu queria dar um presente para meus irmãos mais velhos, com meu próprio dinheiro. Crianças gostam dessas coisas. Fomos à loja de discos e escolhi “Horizon”, vinil dos Carpenters lançado em 1975. Eu tinha o que, oito, nove anos? Como disco presenteia mais de um ao mesmo tempo, eu ficava na sala, encarte nas mãos, cantando “Only yesterday” junto com a Karen Carpenter. Decorava a pronúncia das palavras, sem nem sonhar quais eram seus significados. Foi depois que fiquei amiga do dicionário. Ela falava de um certo ontem para um dia que, agora, é meu ontem também.

Spring era o nome da loja. Num tempo onde lojas de discos vendiam, basicamente, discos. LPs, compactos e K7 (quem lembra?) dispostos nas prateleiras, paredes com pôsteres de cantores e bandas, uma vitrola (vi-tro-la!) para quem quisesse ouvir o disco antes de comprar e pronto. Conseguir a letra das músicas em inglês? Só com o encarte ou o professor. VHS, CD, DVD, MP3, Blu-ray… Não havia tantas siglas. Multimídia era palavra ainda não-inventada e a internet não passava de um embrião no secreto útero norte-americano. (Quando conto minhas histórias, às vezes, tenho a sensação de que não estamos falando do mesmo planeta.)

Ficava a uma quadra de casa, na rua da Mooca, zona leste paulistana. Seu dono, batizado Manoel Francisco do Lago Neto, era o Glenn Michael, cantor de relativo sucesso nos anos 70, quando emplacou duas de suas músicas na Rede Globo. Cara meio quietão, cantava em inglês e “Spring” (claro) e “Just imagine” foram temas de abertura do Jornal Hoje (de eterno ontem e sempre) por um bom tempo. Será que, quando pequeno, ele também ficava de encartes nas mãos fazendo coro com seus cantores preferidos? Perdi minha chance no mundo da música.

A canção que abre “Horizon” é “Aurora”, e a que fecha, “Eventide”. As duas são idênticas, exceto pela letra: uma fala de amanhecer; a outra, de entardecer – também numa espécie de ontem e hoje, passado e presente, dia e noite, começo e fim. Achava bonitíssimo uma mesma música ser duas.

A Spring resistiu por várias primaveras e finalmente fechou. Não sei do paradeiro do nosso “Horizon”. Nem do Glenn Michael. Só sei da Karen, que morreu de anorexia em meados dos anos 80. Uma das vozes mais lindas do mundo. Das mais melancólicas, também. Tristeza e beleza, além da rima, parecem gostar uma da outra.

Resta-me reencontrar as canções nas versões modernas da velha loja do Mané, agora tão atemporais e infinitas no ciberespaço. E foi o que fiz ontem. Somente ontem.

O rei, a imigrante e a falta de saudade

 

Vovó Carmela e vovô Antônio (centro) e a filharada. E a data, que só reparei depois.

Elvis não morreu, ao contrário da Vovó Carmela. Ela morreu no mesmo ano em que ele, já que é assim, não o fez. Sei muitíssimo mais dele que dela. Estranho?

Faz trinta e quatro anos e dois dias que ela partiu. Ele, trinta e quatro anos e cento e oito dias. Dele, se fala – e muito. E dela?

Ele é famoso. Ela não. O Google tem setenta e sete milhões e quinhentos mil resultados para o nome do rei do rock. Cento e sessenta para o dela. E nenhum é, efetivamente, sobre ela. Deveria existir a “Deuspedia”. Cada ser humano com seu verbete, atualizado por Ele e seu staff de anjos.

Vovó Carmela é minha bisavó, mãe da minha avó. Sou, por ora, a penúltima bonequinha da matrioska; a última é Nina, minha caçula. Ninguém a chamava de bisavó, nem de bisa. Já considerei seu nome pavoroso, sentia pena de uma prima que fora batizada em sua homenagem. Hoje, não mais. É nome tão bonito.

Na casa da vovó Carmela seus filhos, netos e bisnetos se reuniam em compridas tardes de sábado. O invariável cardápio: chá-mate dulcíssimo e pelando de quente, o pão com manteiga. O chá era servido nas xícaras de bolinhas, de porcelana tão fininha quanto a pele da matriarca. Quem ganhava sua fatia de pão podia ia brincar lá fora. Quantos passarinhos alimentei no quintal com minhas migalhas chovidas? E quem ficou com as xícaras? Não é só a infância que é cheia de questões.

Eu não conversava com a vovó Carmela nessas visitas. Velhos têm mania de falar com as crianças através dos seus pais, mesmo que elas estejam presentes, como se não fossem capazes de responder sobre suas vidas. Eu estava na cozinha, mas era à minha mãe que ela dirigia as perguntas: “Ela vai bem na escola?”. “Ela quer mais pão?”. Eu também não perguntava nada sobre ela, nem a ela, nem a ninguém. Só queria saber do Elvis. Eu, que derivei dela, não dele, ia bem na escola. E, sim, sempre queria mais pão.

Dela, sei tão pouco. Só que tinha imensos cabelos cinza-claro, permanentemente enrolados num coque e presos num pente-fivela. Que usava vestidões compridos e arrastava os chinelos. É todo meu conhecimento. Sequer de sua voz me lembro. Já do Elvis… Minha irmã me ajuda, por e-mail:

“Carmela Mameli nasceu em 16/05/1889, filha de Diogo Mamelli (o pai tem 2 L) e Elena Pucci. Nunca consegui saber a cidade, só sei que é na Sardenha. Casou-se em 30/10/1908 em Jacutinga e morreu em 30/11/1977 em São Paulo. Não lembro do quê exatamente ela morreu, lembro que ela tinha uma hérnia enorme na barriga, de longa data… Lembro também que depois que ela quebrou a perna não saiu mais da cama e morreu logo depois”.

Ela, que tinha alguma coisa com o dia trinta (a foto que ilustra esta história foi tirada em 30 de novembro de 1958, conforme anotação feita na própria). Ela, que não sei se gostava do Elvis. Ela, que não está always on my mind. Será que ela loved me tender? É assim que junto tudo: as letras das canções do rei do rock, a imigrante de onde me originei e a minha confessa falta de saudade.

Quando eu ficar bem velhinha, devo cuidar das minhas roupas, chinelos e penteados. É deles que, provavelmente, meus bisnetos se lembrarão. Mais, muito mais, que da minha voz. Que, aliás, nunca aprendeu a cantar nada direito.

Crônica de minuto #33

– Mãe, põe um rock?

Fui ver se tinha algo no porta-luvas. Tinha. Ao primeiro acorde de “Miss you”, dos Stones, Nina, sentadinha no banco de trás, bateu palmas e se remexeu até onde o cinto de segurança deixou. Pelo retrovisor, fotografei-a na minha Rolleyfex particular, aquela embutida na cabeça.

É, filha. Às vezes, você me enlouquece. Mas quando nos despedimos na porta da escola, fico sempre com uma certeza: I will miss you.

Se eu não fosse o que sou

Ilustração: Darwin Wins/Flickr.com

Se eu não fosse o que sou, e caso tivesse talento, gostaria de ser três coisas: música (feminino de músico), chef e cineasta. Não que eu não goste do que faço, mas porque a vida me parece larga demais para a estreiteza da carreira única.

Primeiro, estudaria música para descobrir como nascem as canções que amo, e gastronomia, para entender de quê são feitas as comidas que adoro.

Para ser sabedora das notas todas, assim como quem domina ingredientes e modos de fazer. Escrever uma sinfonia seria tão fácil quanto preparar um penne ao pesto de manjericão.

Para apreciar um prato sofisticado da mesma maneira que saboreio um bom arranjo. Porque o paladar está na boca e nos ouvidos. Que, aliás, são tão próximos. E não deve ser à toa.

Para, ao ouvir música no carro, brincar de regê-la no ar com propriedade, e não feito maluca. Embora todo maestro em ação pareça um maluco. Pensando bem, a parte de reger pode ficar como está.

Para eu compor quando estiver triste e também quando alegre. E quando não estiver nem uma coisa, nem outra, naquele estado de calmaria que o mar tem, de vez em quando (porque alegria e tristeza nada mais são do que ondas). Só pelo prazer de combinar os acordes e dá-los de presente aos instrumentos. Aquilo de correr para o violão, num lamento, e a manhã nascer azul.

Depois, estudaria cinema para transformar em documentário a vida de gente comum, que ninguém acha interessante. Apenas para provar o quanto se pode estar enganado.

Para gravar em película as cenas que gosto de imaginar, mas que nunca acontecem.

Por exemplo, a da moça entrando numa livraria e reconhecendo a mulher do caixa como sua mãe, que não vê há dezenove anos. Pelo jeito de ela prender os cabelos, que é igual ao seu. O pai a levara para longe, ainda bebê, e ela nada sabia da mãe, exceto pela fotografia de casamento que ele guardava numa caixinha branca, junto a um anel solitário sem a pedra.

Ou então, a cena da freira que resolve, em plena praça, levantar o hábito, tirar os sapatos e mergulhar os pés na fonte. Porque está um calor infernal e ela tem certeza que Deus prefere vê-la feliz.

Ou, ainda – e essa é a minha preferida –, a sequência do rapaz que encontra na esquina de casa uma cachorrinha branca e marrom com coleira de coração, e se lembra de ter visto, no dia anterior, uma faixa na rua. Dizendo sabe o quê? Que uma cachorrinha branca e marrom com coleira de coração se perdeu.

Confesso: pensar nisso me dá vontade de ser outras coisas também. Novas profissões que acabei de inventar e, acredito, fazem uma falta danada neste mundo. Por exemplo: demonstradora de verdades, exterminadora de mentiras, costureira de corações rasgados e fabricante de cadeiras especiais para assistir por-do-sol. Esvaziadora de sacos cheios e reparadora de gente chata. Tradutora e intérprete de bichos, caçadora de tesouros no final do arco-íris e vendedora de gargalhadas.

O problema é que não sei onde tem escolas para eu aprender esses ofícios. Embora saiba que há bons mestres em várias dessas áreas. E, apesar de ter noção do quanto dá para ganhar depois de formado, sem ser dinheiro, a grande dúvida é se, em alguns casos, eu teria emprego. E não é porque passei dos quarenta.

Sabiá

Ilustração: Gustavo Peres/Flickr.com

– Então, você deixa o rádio ligado? Eu vou lá telefonar.

O dono do bar, um sujeito meio redondo, fez que sim. Ele saiu, parou no orelhão em frente. No bolso da calça buscou a carteira e, nela, o cartão telefônico. No da camisa, o papelzinho escrito a lápis, com o número da rádio. Apertou os olhos para ler a letra ruim do colega. Ligou. Ocupado. Ligou de novo. Ocupado de novo. Buscou o papelzinho, errara algum número? Mais uma vez. Sorriso abriu, estava chamando. Atenderam.

No estúdio, Antonio Carlos comandava o programa romântico das sextas-feiras. Os ouvintes pediam as músicas por telefone, ele punha no ar. Embromava um pouco antes, para dar tempo do Chico, o assistente, achar a canção. Puxava conversa com quem estava do outro lado da linha, fazia um gracejo se fosse mulher. Chico conhecia tudo. Era dizer o nome da música, um pedaço da letra, ou só cantarolar de leve, e pronto. Ele dava a ficha: é de Fulano, faixa tal, do disco assim assado. Assoviava uma canção na hora que o homem da voz de veludo atendeu Osmar naquela noite.

– Vamos ver quem está na linha, alô?

– Alô!

– Quem está falando?

– Meu nome é Osmar.

– Boa noite, Osmar! Você fala de onde?

– Do orelhão.

Chico, de seu posto, riu. Antonio Carlos fez sinal para ele ficar quieto.

– Qual música você gostaria de pedir nesta noite enluarada, Osmar?

– Eu queria ouvir Sabiá.

– Sabiá… aquela… do…

Osmar facilitou as coisas:

– Aquela uma – e pôs-se a cantar em sua voz miúda, medrosa – “Vou voltar, sei que ainda vou voltar…”

Antonio Carlos olhou para o Chico, que fez sinal positivo.

– Claro! Sabiá, linda música! O Chico, meu colega aqui, vai por no ar pra gente, num instante. Mas você é de onde, Osmar?

Hora da embromação.

– Sou de Santa Rosa dos Purus.

– E onde fica Santa Rosa dos Perus, Osmar?

– Purus. É Purus. Santa Rosa dos Purus. Fica longe, no Acre. Encostado no Peru. Pensando bem, o senhor até que pensou certo.

– Então é longe mesmo, hein, Osmar! – e Chico fez sinal, cadê a música? – Um abraço para o pessoal de Santa Rosa dos Purus!

– Ah, ninguém vai ouvir o senhor, não. Lá não pega.

O Chico vasculhou aqui e ali. Nada de sabiá. Osmar espichou o olho por baixo do orelhão. Sentiu vergonha, o dono do bar o escutando pelo rádio, aquela conversa mole.

– Osmar, e para quem você vai dedicar “Sabiá”?

Osmar trocou de ouvido o telefone.

– É para mim mesmo.

– Ah… Você não tem namorada, Osmar?

– Tenho não.

– Nem uma amiga, assim, especial?

– Tenho não, senhor. Vou dedicar para mim mesmo. Que esta semana a saudade bateu, tanto problema na vida, rapaz. Aí lembrei da música, minha mãe cantava quando eu era criança, sabe?

– Então pronto, Osmar! Dedique a canção à sua mãe! Mesmo que ela não escute na rádio, vai ouvir com o coração.

Antonio Carlos tinha a voz bonita, e dela saíam palavras bonitas também.

– Que vai, vai. Eu sei. Mas minha mãezinha está quietinha lá… Se ela sabe que eu estou sentindo saudades, se dana a chorar, não para mais.

– Então para um amigo daqui, Osmar. Dedique “Sabiá” pra um amigo!

Osmar foi se aborrecendo. Diacho. Então, não podia dedicar uma música para si. Tinha que ser para outra pessoa. Se tudo que ele fazia na vida já era para os outros. Os prédios de vidro que ajudava a erguer. O salário que ganhava e da metade ele não via a cor, ia para a família. A roupa que ajudava a passar na pensão, para o mês sair mais em conta, tanta camisa que meu Deus do céu. Tudo para os outros. Ninguém nunca dedicara uma música para ele. Queria, então, se dar um agrado. Quer dizer, queria mesmo era voltar. Como na canção.

– Amigo eu tenho, sim. Mas está tudo no Acre, já disse ao senhor que ninguém vai ouvir.

Chico fez sinal. Encontrara. Mas Antonio Carlos, inconformado, insistia na dedicatória.

– Nem um bichinho de estimação, Osmar?

– A dona da pensão não deixa. Olha, o cartão vai acabar. Se o senhor fizer questão, invente aí uma pessoa…

E a ligação caiu.

Osmar voltou ao bar e fez sinal para o dono, que lavava os copos, para mudar de estação. Ele enxugou as mãos no avental, achou a ideia ótima. Era dia de jogo, iam transmitir ao vivo. Osmar sentou-se em seu canto, beliscou a mandioca que já esfriara e serviu-se da cerveja que já amornara. Viu a gaiola pendurada logo acima da geladeira, um pano de prato com motivos de Natal cobria-lhe uma parte. Ao lado, uma imagem empoeirada de São Francisco de Assis (que não deixa de ser Chico). Pensou em sua sabiá, que àquela altura voava solitária nas ondas do rádio, sem ele.

– Tem nome, esse passarinho? – Osmar quis saber.

O dono do bar agora secava os copos.

– Uns chamam dum jeito, outros, de outro. Tem nome, não.

– Então vai se chamar Tom.

O homem olhou o bichinho, mudo em seu poleiro. Concordou. “Até que Tom combina”. Riu-se e foi ter com os fregueses que acabavam de entrar. Aqueles trabalhavam na madeireira da rua de cima, e eram chegados numa confusão. Não podia bobear.

Ouça isto

Ilustração: Marina Cuello/Flickr.com

Basta ouvir – no rádio do carro, numa festa, num assobio que vem pelo ar – a música de um cantor que já morreu, para a imaginação sair galopando feito cavalo doido. Invento um questionário sem fim, sem ninguém para me ajudar a responder.

Será que as notas viajam no tempo e no espaço e chegam aos ‘ouvidos’ de seu dono, onde quer que ele se encontre nessa hora? E, no caso de chegarem, e de haver letra na parada, será que ele, de feliz, canta também? Será que dança, sentindo seus acordes reverberarem junto à pulsação da Terra? Música ilumina. Não à toa tem clave que é de sol. Quem sabe se tamborila o ritmo com os dedos? A propósito, quem morre continua precisando de dedos depois? Sabe como é. Para o piano, a harpa, o violão.

E se é dessas obras que atravessam eras, reproduzidas e interpretadas à exaustão? Será que o autor pensa no quanto a sua música foi famosa? Talvez nem ligue para isso, posto que no céu todo mundo é famoso, não só meia dúzia de santos e o chefe da casa, como nos ensinaram no catecismo.

Pena sabermos tão pouco sobre quem parte, depois que parte. A gente sabe como é a nossa saudade por alguém que morreu. Como será a saudade de quem foi por quem ficou, ou pelo que deixou? Pena, às vezes, sabermos tão pouco sobre quem a gente canta e já não está mais no planeta. De que jeito fica a voz quando não há mais boca? Não tem nada mais vivo do que voz. Viva-voz.

Só sei que quando dezenas, centenas, milhares, milhões de vozes entoam uma mesma canção pelo mundo, ao mesmo tempo ou não, e ainda que uma não saiba da outra, ou então se essa canção vive e revive em milhares de CDs e iPods, é um coro e tanto. O dono há de ouvir. E seu coração – ou o que quer que ele tenha agora no lugar – ficará em paz.

Som na caixa

Foto: Laura Bell/Flickr.com

Não é sexo. Nem rotina. Nem doença ou falta de dinheiro. Tampouco filho. O que põe um casamento à prova é andar junto no mesmo carro. Seja por quatro dias, quando o de um está na revisão; por anos, se as vacas são magras; na viagem de final de semana ou simplesmente no caminho para o almoço de domingo. Quando o casal coabita o mesmo veículo, a despeito da vasta literatura sobre a batalha dos sexos antes e depois de Karl Benz ter inventado o automóvel, o que está em jogo não é quem dirige melhor, quem tem mais ou menos pontos na carteira, quem usa a seta, qual dos dois é capaz de chegar ao destino sem GPS ou frentista de posto. É quem controla o som.

O condutor não deve se distrair com o dial, nem com a sequência das faixas do MP3. Caberá ao passageiro assumir as rédeas e definir a programação musical que acompanhará o casal. Nesse cenário, nada será pacífico. Quem finca sua bandeira no aparelho não deseja dividir o poder, quer reinar sozinho. Conflito à vista. O tempo todo, ambos discutirão a configuração (volume, graves e agudos) e a trilha sonora propriamente dita. Nenhuma escolha pessoal é bem-vinda. Toda individualidade será castigada. O coletivo há de vencer. Resultado: os dois bufarão, cada um de um lado, e se perguntarão onde é que foram amarrar suas éguas. Assim como o casal tem a música que embalou o início da sua história de amor, logo terá também a que representa seu fim.

O mesmo ambiente será palco de outra disputa: a temperatura do ar-condicionado. Na sua ausência, outro embate: um quer janelas fechadas. Outro as prefere abertas. Sem falar na co-direção e na síndrome de instrutor de auto-escola, comportamento incontrolável daquele que ocupar o banco do carona.

Carro é o quarto do casal sobre rodas. É quando a intimidade se desnuda. As manias, antes apenas contornos, ganham preenchimento. Sentimentos inéditos vêm à baila. No carro é onde os bois recebem nomes, e os is, seus respectivos pingos. Sutiãs são queimados no acendedor de cigarros e desabafos contra a TPM eclodem entre um semáforo e outro.

Nada é páreo, porém, para o controle do som. Que não deveria ser chamado de opcional. Muito menos de acessório.

As pessoas

Ilustração:Amy-Wong.com/Flickr.com

Pessoa-livro. Cada dia com ela é uma página: a gente vai descobrindo a história aos poucos. E no capítulo final, das três, uma: ou a gente entendeu tudo, ou não entendeu nada, ou pensa que entendeu. Aí, só mesmo lendo tudo de novo. É quando o casamento se faz necessário, que é para ler um pouco por dia. Tem as pessoas que, de tanto que já escreveram, viraram livros de fato: Você já leu Drummond? Tem a pessoa-prosa: ela vai contando as coisas e você fica lá até o fim, deliciado. E tem a pessoa-verso: vive rimando os acontecimentos da vida, dando a tudo um sentido especial.

Pessoa-música. Umas, a gente ouve uma única vez e já está bom. Outras, a gente quer ouvir sempre, decorar a letra, traduzir, fazer versão. Tem aquela que a gente descobre por acaso, se apaixona, e passa o resto da vida tentando por no iPod. Tem as que desafinam, e as que são capazes das notas mais impossíveis. No céu de todas elas, repare, há sempre uma clave de sol brilhando.

Pessoa-quadro. Estas aqui são como as pinturas dos grandes mestres: você não se cansa de admirar. Cada vez que as vê, repara num detalhe que não tinha visto da última vez. Algumas dão até vontade de roubar. Só para pendurar na sala. Outras – gostem ou não do traço, da técnica, do tema – não morrem jamais. Ficam eternizadas na memória. Pena que, para algumas, a gente só dê valor quando elas desaparecem.

Pessoa-arte-abstrata. Quanto mais você a observa, menos a entende. Mesmo assim, ela atrai o seu olhar. Você não sabe qual é a dela, nem para quê ela serve, muito menos o que ela quer com você. Uma incógnita.

Pessoa-escultura. Não adianta: você tem que tocá-la. Descobrir do quê é feita, conferir as formas, saber se é macia, áspera, fria ou quente. Se pulsa ou se é inerte. Às vezes, é preciso olhá-la de todos os ângulos para compreender-lhe as  dimensões. É o tipo de pessoa que a gente deseja carregar nos braços de vez em quando.

Pessoa-filme. A pré-estreia dela são os minutos anteriores ao seu nascimento: só gente especial pode assistir. Depois, quando ela entra em cartaz, todo mundo pode acompanhar o desenrolar da história. Que pode ser de amor ou não. Pode ser triste, pode ser alegre. Pode ter aventura ou ser um drama. Às vezes, comédia. Mas que fique claro: ninguém faz cinema por acaso. Tem as pessoas que são como os filmes antigos, clássicos. Essas nunca saem de moda. E todo mundo deveria assisti-las de vez em quando. Elas têm um bocado a ensinar.

Valsa

Foto: Nicholas Petrone/Flickr.com

– Eu vim cuidar do jardim.

O homem franzino pousou na calçada a sacola vermelha muito velha, encardida e cheia de ferramentas: pazinha, tesoura, luvas e regador. Desconfiada, a mulher de uniforme azul o olhou através das longas grades dos portões de ferro que, quando fechados, formavam uma clave de sol. Ele repetiu, havia vindo cuidar do jardim. A mulher se afastou.

– Espere aí que eu vou chamar a patroa – disse. E correu para dentro da casa.

Deu a notícia. Disse que o homem não era nenhum daqueles que, de quinze em quinze dias, apareciam para mexer nas plantas. Descreveu-o com nojo, apertando as mãos contra o peito. Estava com medo. A dona da casa, contaminada pelo nojo, foi chamar o outro dono da casa. O maestro, debruçado sobre o piano, tentava escrever o último compasso de sua valsa quando ela deu o aviso: um estranho tentava entrar em casa. Em instantes, a paz do lar fora ameaçada: quem era aquele homem?

– Melhor chamar a polícia, sugeriu a mulher de uniforme azul.

A dona da casa ordenou que as portas e cortinas fossem fechadas, Sem dar bandeira, ouviu?, enquanto ensaiava uma coreografia de pânico da sala de jantar para o estúdio, do estúdio para a sala de jantar. Parou para espiar através das cortinas. Quem se atrevia a tentar invadir sua fortaleza? Avistou o pequeno homem que aguardava na calçada, recostado à sombra do flamboyant.

– Ele ainda não foi embora!

Reunidos, os três discutiram hipóteses, traçaram rotas de fuga, um eventual enfrentamento. Não, ninguém havia trocado o serviço de jardinagem. Tampouco era dia, aqueles moços só vinham às quartas, lembrou a mulher de uniforme azul. Não, ninguém havia sido seguido naqueles dias. Nenhum telefonema estranho, também.

– Ele ameaçou você? – o maestro perguntou.

– Ameaçar, ele não ameaçou. Mas o senhor tinha que ver as roupas dele – disse. Era o nojo de novo.

– Então eu vou lá.

A dona da casa disse que ele estava doido, a mulher de uniforme azul fez o sinal da cruz. Mas quando o maestro encasquetava, ninguém podia fazer nada. As duas o acompanharam até o hall de entrada, preferiam assistir escondidas. Ele chegou ao portão e perguntou-lhe o nome. O homem disse que se chamava Theodoro e morava só, longe dali, e aquele era seu caminho desde que conhecera uma moça na rua de cima, Uma médica muito importante. Ela lhe dava, toda semana, comida e remédios. Contou também que era jardineiro, e toda vez que passava em frente à casa do maestro via um jardim fino e bem cuidado. Mas triste.

– Está vendo a dracena? – começou a dizer. – O sol castiga aquele canto o dia inteiro. Ela não gosta. Diferente da pata-de-elefante, que gosta de sol, mas está na sombra. Tem que trocar as duas de lugar, entende? Hoje eu vim mais cedo, só para cuidar disso. Trouxe sementes de girassol para aquele canteiro, quando crescerem os beijinhos vão parecer crianças dançando em volta deles!

E continuou. Disse, sem saber com quem falava, que jardim é que nem orquestra, uma planta dependendo da outra. O maestro, esquecendo-se da suspeita do início, ouvia tudo com atenção. Fez sinal para a esposa abrir os portões. Ela abriu foi um olho deste tamanho. Ele repetiu o sinal, para desespero da mulher de uniforme azul, que já estava roxa.

A clave de sol se abriu, Theodoro carregou suas coisas para dentro. O maestro mostrou o restante do jardim e pediu licença, precisava trabalhar. Beijou a esposa, pediu um vinho e voltou ao estúdio. Encontrara o compasso que faltava para sua valsa. Que agora já tinha nome: O Baile do Girassol.

Mrs. Franklin

Foto: George/Flickr.com

A história que a minha professora de inglês contou foi assim.

Certa vez, a diretora da nossa escola recebeu um telefonema. Como tantos outros que ela recebia todos os dias. Era uma escola de idiomas nos Estados Unidos, morei lá. Do outro lado da linha, uma mulher queria saber sobre as aulas de francês. Os horários, os métodos. A diretora respondia tudo sem a menor dificuldade, nenhum desafio. Mais um dia comum na sua vida. A mulher perguntou se poderia ter aulas em domicílio, não costumava sair muito de casa. Sim, poderia. Perguntou se seria possível um curso bem rápido, ela tinha pressa. Sim, seria.

Na maioria das vezes, aquela conversa terminaria ali. O interessado ficaria de dar uma passadinha na escola, ou não, e tudo mais caminharia dentro da normalidade. Mas a diretora se interessou e quis saber mais sobre a mulher que tinha tanta pressa. Foi lhe dando corda. E olhe que norteamericano, no geral, não é povo de muito lero-lero. Costuma dizer apenas o essencial, ou pouco mais que isso. Se você parar um deles na rua para perguntar onde fica tal rua e ele não souber, é exatamente isso que ele lhe dirá: “Não sei”. E continuará seu caminho. Mas se pedir a informação a um brasileiro, por exemplo, aí é bem diferente. Se ele não souber, tratará de saber. Chamará outra pessoa que passa pela rua, só para tentar ajudar. Irá com a pessoa que perguntou até um posto de combustível. Em pouco tempo, se formará uma verdadeira equipe tentando saber daquela rua. E provavelmente descobrirão onde ela fica.

A mulher contou, então, que era cantora. Havia sido convidada para se apresentar para uns franceses. Cantaria na língua deles e não queria que seu sotaque ficasse muito saliente.

Embalada na prosa, a diretora, querendo agradar, falou que ela deveria cantar muito bem, então. A mulher, sem modéstia, lascou: “Na verdade, milhões de pessoas acham isso, querida”.

A essa altura a diretora, que até então só a chamara pelo sobrenome, Franklin, quis saber com quem estava falando. A mulher respondeu: “Aretha”. Os franceses, no caso, eram autoridades do país, gente graúda.

A professora contou que, depois da revelação, a diretora engasgou e, ao contrário dos minutos anteriores, teve certa dificuldade para levar a conversa até o fim. O que se diz para a rainha do soul?

Só sei que Mrs. Franklin teve suas aulas e deve ter feito bonito no dia. E eu aprendi: até os deuses vão à escola.

Carta para Roberto

Renato Subtil/Flickr.com

Caro Roberto

Você nem imagina o que eu vou lhe contar. Mas foi com você que aprendi: de vez em quando, somos é muito idiotas. Digo ‘aprendi’ mas, na verdade, o processo foi outro. Mais próximo de sacar, de dar-se conta, do que de aprender propriamente dito. Você entenderá, eu sei.

Primeiro, é preciso lembrá-lo: nós nos conhecemos. Mesmo que você, assim de prontidão, não se recorde.

Foi assim: há alguns anos, um trio, o Hot Jazz Club, lhe chamou a atenção. Os rapazes eram tão bons que você não resistiu ao som deles. A história deles começara em um restaurante de uma rede de hotéis aqui em Campinas. Em 2004 eles gravaram seu primeiro, único e ótimo CD, que trazia uma faixa assinada por você – “Pruzé”. Foi durante o lançamento do CD, no resort da rede, onde eu trabalhava, que nos conhecemos. E digo: foi um prazer. Não é todo dia que a gente conhece um dos inventores do mais importante movimento da música brasileira.

Cinco anos se passaram, e até hoje sinto uma pena danada de não ter tido a coragem de quebrar um pouco os protocolos e abusado de você naquele dia. Mesmo sem idade para ter tanta saudade, mas fã confessa da época mais cheia de bossa que este país já teve, eu seria capaz de ouvi-lo por horas contando as histórias da Copacabana dos anos 50, dos lendários encontros no apartamento da Nara Leão, do barquinho que deslizava no macio azul do mar carioca. Mas a etiqueta corporativa não permitiria o que poderia parecer tietagem pura, e eu tive de me contentar com o básico. Fazer o quê.

Mas olhe só: foi em meio ao básico que me dei conta da coisa de ser idiota. Paradoxalmente, sem absolutamente nada a ver com música. Enquanto você, eu e mais algumas pessoas almoçávamos, você comentara que, em alguns dias, embarcaria para a Europa, onde se apresentaria num festival. Curiosa, eu lhe perguntei que festival era, e você respondeu assim: “Não sei. Me chamaram para tocar, e eu vou”.

Sempre lanço mão dessa história, emblemática e repleta de significados, para ilustrar o que acabei extraindo dela. A ideia de você não saber direito aonde iria tocar, mas iria porque seu negócio é tocar, soou fantástica, para dizer o mínimo. Sua resposta, suave e sofisticada assim como a bossa-nova, deu a dica (embora certamente não tenha sido sua intenção): preocupar-se demais em saber e conhecer tudo o que nos rodeia, o tempo todo, pode ser paralisante. Tanto quanto querer o roteiro das coisas do início ao fim, saber muito da vida, compreender tudo que existe… Não pode haver tanto benefício na informação total. Quem vive assim, no final das contas, passa a vida com medo, se poupando, sem ousar, sem arriscar, sem tentar. Sem pagar para ver.

Posso estar exagerando o episódio. É claro que em algum momento que antecedeu aquela sua viagem as informações sobre o tal festival lhe interessaram. Porém, talvez mais pela logística que por outra coisa. E este seria o segredo.

Tanto fazia o nome do festival, ou quem estaria lá. Isso não era o mais relevante. O relevante, de fato, era que você iria tocar, e isso já era motivação suficiente para um músico. Assim como para um bailarino o que conta é dançar. Para um cantor, cantar. Para um escritor, escrever. Para um costureiro, costurar. Para um cozinheiro, cozinhar. Para um desenhista, desenhar. Para um pedreiro, construir. Às vezes, as perguntinhas ‘como’, ‘porque’, ‘onde’, ‘a que horas’, ‘com quem’ viram coadjuvantes na compreensão de algo que é mais simples do que se pinta.

Não falei? Você nem imaginava que eu lhe diria isso.

Um abraço, Menescal.

(Parece que isso vive acontecendo com ele. Ele respondeu, contando que no ano passado foi a Sydney, na Austrália. E, como em 2004, só lá ficou sabendo onde tocaria. Nada menos que na Opera House.)