O gato preto

gato preto

Naquela manhã eu jogava conversa fora com os amigos nos jardins do Liceu (aula vaga ou intervalo?) quando o vi, através das grades do muro, passar pela calçada.

Tanta gente circulava pela rua Cantareira. E fui botar reparo no homem estranho, mal-ajambrado, de olhos vidrados e andar amalandrado. Na verdade, não foi nele que grudei os olhos. Foi no gato.

O homem trazia um gato preto ao colo. Levava-o junto ao peito, segurando-o firme pelas patas. O olhar do bichano era tão vidrado quanto o do homem, as orelhas estrategicamente abaixadas, para trás. Então eu, intuitivamente, soube. Ele, o gato, estava em perigo. Não pertencia àquele homem. Fora capturado. E, pelo jeito, estava prestes a virar tamborim. Ou despacho na encruzilhada.

Ninguém percebeu. Exceto eu, que nada fiz. E lá se foram, o gato e seu algoz. Pude ouvir seus miados, graves e agônicos. Os gatos sabem.

Eu quis fazer algo. Mas os alunos não podiam sair, sem autorização dos pais, antes do fim das aulas. Qual minha justificativa? “O homem vai dar cabo do gato, pelamor, abre esse portão!”. Dramático demais. Ninguém daria crédito à adolescente riponga que estaria, claro, a fim de cabular aula. Vamos supor que eu saísse e fosse atrás do homem. Aos quinze anos eu já falava com estranhos na rua, mas não com tão estranhos. “Moço, aonde você vai levar esse gato?”. E vamos imaginar que, depois do conversê, ele topasse me entregar o felino. O que eu faria com ele? Na escola é que ele não poderia ficar. Levá-lo comigo? Metrô e ônibus até em casa. Que já tinha tantos gatos.

E se eu estivesse redondamente enganada, e fossem apenas um gatinho fujão e seu dono, homem de bom coração, que saíra em seu resgate? Ou uma alma caridosa, recolhendo das ruas o peludinho abandonado, para lhe dar um lar? Pronto.

Não consegui, no entanto, enganar minha intuição. Ninguém consegue, aliás.

Sem dispor de argumento razoável para sair da escola, tampouco para ir ter com o homem, me conformei. Mentira, não me conformei coisa nenhuma. Tanto que guardo a sombria história até hoje, numa caixinha preta feito o gato, em uma das prateleiras da memória. De tempos em tempos o gatinho mia e tenta escapulir dela, arranhando algum pensamento.

E, se a conto hoje, tantos anos depois, é para purgar, numa espécie de acordo de paz comigo mesma. Naquela manhã, eu nada poderia fazer. Se é que havia algo a ser feito. Quem sabe, o pretinho estava com sorte e conseguiu fugir, nos quarenta e cinco do segundo tempo. Para o azar do homem estranho.

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